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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O Homem que Plantou o Futuro Antes de Possuir a Terra


"Antes de possuir um pedaço de terra, ele já havia semeado aquilo que nenhuma tempestade conseguiria destruir: a esperança." 

O Homem que Plantou o Futuro Antes de Possuir a Terra - Baseado na Carta Verdadeira de um Imigrante Italiano em 1883

O papel sobre o qual Matteo Bressan escreveu, em 27 de dezembro de 1883, era pobre. A tinta escurecia irregularmente sobre as fibras ásperas da folha, e a caligrafia denunciava as mãos de um homem acostumado muito mais ao cabo do machado e ao peso da enxada do que à pena. Ainda assim, naquela pequena mesa improvisada em São Sebastião do Caí, na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, nascia um documento mais valioso do que qualquer escritura de propriedade. Pela primeira vez desde que deixara a província de Vicenza, Matteo conseguia transformar em palavras a longa batalha travada entre a esperança e a saudade. Ao seu lado permanecia Caterina Dal Santo. Ela costurava silenciosamente uma peça de roupa que já começava a adquirir a cor avermelhada da poeira brasileira. A jovem que embarcara debilitada em Gênova parecia outra pessoa. Havia recuperado o brilho dos olhos e a firmeza dos passos, como se aquela terra distante lhe devolvesse lentamente uma vida que a pobreza da Itália lhe havia retirado muito antes da partida. Tudo começara na manhã de 22 de novembro de 1883. O porto de Gênova estava coberto por um movimento incessante de carroças, carregadores, marinheiros e famílias inteiras que se despediam diante do mar. Para milhares de pessoas, aquela era apenas mais uma manhã de embarques. Para Matteo Bressan, significava o fim de um mundo conhecido. Quando a embarcação afastou-se lentamente do cais, a linha da costa começou a desaparecer atrás da neblina. A província de Vicenza permanecia invisível muito antes de deixar verdadeiramente seu coração. Ficavam para trás os pais envelhecidos pelo trabalho, os irmãos, as irmãs, os campos cultivados por gerações e os sinos que marcavam o ritmo da vida desde a infância. Nos primeiros dias, a viagem parecia suportável. Os passageiros ainda conservavam disposição para conversar sobre o Brasil, imaginar as futuras propriedades e calcular quantos anos seriam necessários para reconstruir aquilo que a pobreza lhes negara na Itália. Então veio o Atlântico. O oceano tratou de ensinar rapidamente que nenhum sonho atravessa o mar sem pagar um preço. As ondas erguiam-se como muralhas escuras. O casco estremecia a cada impacto. Os porões transformavam-se num labirinto de corpos enfraquecidos pelo enjoo. Dos quase quinhentos e noventa emigrantes embarcados, apenas algumas dezenas conseguiam manter-se de pé quando as tempestades alcançavam maior violência. Matteo observava homens robustos ajoelharem-se vencidos pelo balanço da embarcação. Mulheres apertavam os filhos contra o peito enquanto rezavam em silêncio. Crianças choravam sem compreender por que o chão parecia nunca permanecer imóvel. Caterina Dal Santo também sucumbiu à travessia. Durante dias, mal conseguiu alimentar-se. Matteo passou horas intermináveis imaginando que talvez a esposa jamais voltasse a caminhar com segurança. Mas o oceano, que parecia disposto a retirar todas as forças dos viajantes, também lhes ensinava a resistência. Quando as tempestades perderam intensidade, Caterina recuperou-se com uma rapidez surpreendente. Pouco a pouco, voltou a alimentar-se, a sorrir discretamente e a sustentar o marido quando era ele quem começava a fraquejar. Foi então que Matteo compreendeu que existem jornadas nas quais marido e mulher alternam silenciosamente o papel de quem precisa ser forte. Dez dias depois, o navio lançou âncora em São Vicente, nas ilhas de Cabo Verde. Não houve descanso. Os emigrantes foram convidados a ajudar no abastecimento de carvão. Matteo aceitou imediatamente. Durante horas transportou pesados fardos sob um calor que parecia subir da própria terra. Ao final do trabalho recebeu uma pequena quantia em dinheiro. Era pouco. Mas aquele pagamento possuía um significado impossível de medir. Representava a primeira recompensa conquistada fora da Itália. Onze dias depois surgiu o Rio de Janeiro. Nenhuma pintura vista em Vicenza preparara aqueles homens para a grandiosidade daquela baía. As montanhas mergulhavam diretamente sobre o mar. A vegetação parecia crescer sem limites. O calor envolvia tudo com uma intensidade desconhecida pelos europeus. Entretanto, bastou atravessar os portões da Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores para perceber que nem toda promessa de abundância resistia ao primeiro encontro com a realidade. Durante treze dias, a alimentação mostrou-se insuficiente. O café da manhã mal acalmava a fome. A refeição principal desaparecia antes de satisfazer os trabalhadores exaustos. O pão tornava-se artigo raro. A verdadeira dificuldade da imigração começava antes mesmo da chegada às colônias. Matteo jamais esqueceria aqueles dias. Descobriu que a fome assume muitas formas. Existe a fome que aperta o estômago. Existe a fome por segurança. Existe a fome por um lugar onde os filhos possam crescer sem medo do amanhã. Enquanto ele perdia lentamente a confiança, Caterina fortalecia-se. Recuperava peso, caminhava com firmeza e encontrava palavras capazes de devolver serenidade ao marido sem jamais esconder as dificuldades. Às vezes, Deus distribui a coragem alternadamente para impedir que duas pessoas desanimem ao mesmo tempo. Terminada a permanência na Ilha das Flores, iniciou-se outra etapa da viagem. Seguiram até Santa Catarina. Depois chegaram a Rio Grande. Continuaram para Pelotas. Mais tarde alcançaram Porto Alegre, onde passaram outra noite na hospedaria destinada aos imigrantes. Cada desembarque parecia definitivo. Cada partida revelava que o destino ainda estava mais distante. Por fim embarcaram num pequeno vapor que avançava lentamente pelos rios do interior da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Durante horas navegaram entre margens cobertas por uma vegetação exuberante. Matteo permanecia observando aquela floresta interminável, tentando descobrir onde terminaria o caminho iniciado semanas antes em Gênova. Foi assim que chegaram a São Sebastião do Caí. A pé e lombo de mulas caminharam até a Colônia de Caxias. Ali, antes mesmo de conhecer o lote onde construiria sua existência, tomou papel e tinta para escrever aos pais. Ainda não possuía terras. Não tinha casa. Não conhecia os vizinhos. Ignorava quais dificuldades o aguardavam. Mesmo assim já conseguia enxergar um futuro. Enquanto escrevia, descreveu as laranjas vendidas por apenas um centésimo, as melancias, os figos, os ovos e a fartura que parecia brotar naturalmente daquela terra. Explicou também que entre o Brasil e a Itália existiam seis horas de diferença, como se aquele detalhe fosse capaz de reduzir a distância entre a província de Vicenza e o interior do Rio Grande do Sul. Escolheu cuidadosamente cada informação. Os pais jamais saberiam, por aquelas linhas, da intensidade das tempestades. Não conheceriam toda a extensão da fome enfrentada na Ilha das Flores. Ignorariam quantas vezes Matteo temera perder Caterina Dal Santo durante a travessia. Os filhos aprendem cedo que existem sofrimentos que não devem atravessar o oceano. No encerramento da carta fez um único pedido. Solicitou que fosse celebrada uma missa em honra de Nossa Senhora das Graças, agradecendo pela proteção recebida desde a partida de Gênova. Não pediu auxílio. Não reclamou da pobreza. Não lamentou o destino. Apenas agradeceu. Talvez ali estivesse a verdadeira força daqueles primeiros colonizadores. Antes mesmo de derrubarem uma árvore, abrir uma estrada ou levantar uma casa, já haviam conquistado algo infinitamente mais difícil. Recusavam-se a permitir que as adversidades destruíssem sua capacidade de acreditar. Os livros registrariam os navios, as datas, os mapas, a fundação das colônias e o número de famílias que chegaram ao Rio Grande do Sul. Mas a verdadeira colonização começou muito antes da primeira clareira aberta na mata. Começou quando homens como Matteo Bressan e mulheres como Caterina Dal Santo decidiram que nenhuma tempestade, nenhuma fome e nenhuma distância seriam capazes de separar definitivamente a província de Vicenza do futuro que construiriam na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Porque algumas terras são conquistadas com machados. Outras com arados. Mas as que permanecem para sempre na memória de um povo são conquistadas, primeiro, pela coragem silenciosa de escrever uma carta que consegue atravessar o mar sem deixar que a esperança se perca pelo caminho.

Nota do Autor

A narrativa que o leitor acaba de percorrer é uma obra de recriação literária. Os nomes de Matteo Bressan, Caterina Dal Santo e das demais personagens pertencem ao universo da ficção, concebidos para dar unidade narrativa e preservar a identidade daqueles que, em circunstâncias semelhantes, escreveram uma das páginas mais comoventes da imigração italiana para o Brasil.

Entretanto, o coração desta história não nasceu da imaginação. Ela foi inspirada em uma carta autêntica, redigida em 27 de dezembro de 1883 por um imigrante italiano recém-chegado à então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Nesse documento histórico encontram-se os fatos essenciais que sustentam esta crônica: a partida de Gênova, a longa travessia atlântica, a escala em Cabo Verde, a passagem pela Hospedaria da Ilha das Flores, o percurso até São Sebastião do Caí e a Colônia de Caxias, bem como as impressões sobre a nova terra e a profunda gratidão pela proteção divina durante a viagem.

Ao transformar esse testemunho em literatura, procurei permanecer fiel ao espírito da carta, ainda que a narrativa tenha recebido novos personagens, descrições e reflexões capazes de revelar, com maior profundidade, os sentimentos vividos por milhares de homens e mulheres que deixaram o Vêneto e outras regiões da Itália em busca de um futuro no Brasil.

Mais do que contar a trajetória de uma única família, esta obra deseja prestar homenagem a uma geração inteira de emigrantes. Pessoas simples que, muitas vezes sem recursos materiais, possuíam uma riqueza extraordinária de coragem, trabalho, fé e esperança. Foram elas que abriram picadas nas florestas, ergueram comunidades, cultivaram a terra e transmitiram às gerações seguintes um legado construído à custa de renúncias quase inimagináveis.

Se, ao final destas páginas, o leitor sentir que caminhou ao lado desses pioneiros, ouviu o silêncio de suas despedidas e compreendeu a grandeza escondida nas palavras de uma velha carta atravessada pelo Atlântico, então esta recriação literária terá cumprido seu propósito maior: preservar a memória histórica por meio da emoção, para que o tempo jamais apague a coragem daqueles que plantaram o futuro muito antes de possuírem a própria terra.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O Lugar Onde a Esperança Criou Raízes - Imigração Italiana

 

O Lugar Onde a Esperança Criou Raízes - 

A Carta Verdadeira que Revela o Início da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul


Quando Antonio Zordan escreveu aos pais, em 17 de fevereiro de 1884, já não era o mesmo homem que havia deixado a província de Vicenza poucos meses antes. O oceano não apenas o separara da família. Havia arrancado dele as certezas construídas durante toda uma vida e o lançado diante de um mundo onde cada amanhecer exigia coragem suficiente para recomeçar. A carta que agora seguia para a Itália não narrava apenas acontecimentos. Registrava o instante em que um emigrante começava a transformar-se em fundador.
Ao seu lado permanecia Margherita Dal Lago. Antes da partida, muitos acreditavam que sua saúde frágil talvez não resistisse à travessia. Contudo, o ar da Serra Gaúcha parecia devolver-lhe lentamente a força que a Europa lhe negara. Antonio observava a esposa caminhar entre as árvores com um vigor que jamais imaginara testemunhar. Aquela recuperação era, para ele, o primeiro sinal de que Deus reservara um destino diferente para os dois.
A viagem iniciada em São Sebastião, no dia 29 de dezembro de 1883, parecia distante, embora poucas semanas houvessem passado. Durante dias, enfrentaram caminhos abertos à força entre árvores gigantescas, venceram rios de águas rápidas e avançaram por picadas onde a floresta permanecia praticamente intacta. Era uma terra que ainda pertencia à natureza e apenas começava a aceitar a presença humana.
No primeiro dia de janeiro de 1884 chegaram ao Campo dos Bugres. O lugar ainda possuía o aspecto provisório das fronteiras em formação. A Casa de Imigração acolhia famílias vindas de diversas regiões da Itália, todas carregando o mesmo patrimônio: algumas malas, poucas economias e uma esperança maior do que o medo.
Durante oito dias aguardaram a distribuição das terras. O tempo parecia caminhar lentamente. A cada grupo chamado surgiam rostos iluminados pela expectativa ou marcados pela decepção. Escolher um lote significava decidir o destino de filhos que ainda nasceriam, de netos que jamais conheceriam a Itália e de gerações inteiras que aprenderiam a chamar aquela floresta de pátria.
Os funcionários conduziram Antonio até a 16ª Légua Norte de Trento. A mata fechada impressionava até os homens acostumados às montanhas do Vêneto. Árvores enormes ocultavam o céu, enquanto a umidade permanecia presa sob a copa das araucárias. Caminhando entre troncos centenários, ele compreendeu que a natureza não entregaria aquela terra sem antes exigir trabalho, suor e persistência.
Depois conheceu as colônias do Conde. Diferentemente das terras distribuídas pelo governo, ali era possível adquirir propriedades mediante pagamento parcelado. Para muitos, aquele sistema representava um risco. Para Antonio, era uma oportunidade que talvez nunca mais surgisse.
A decisão não foi tomada sozinho. Reuniu-se com famílias conhecidas da província de Vicenza. Os sobrenomes Bortolato, Dal Sasso, Lovato, Pellizzari e Menarin despertavam lembranças da terra natal e transmitiam uma confiança que nenhuma riqueza poderia comprar. Permanecer próximos significava dividir ferramentas, reconstruir estradas, levantar casas, proteger crianças e enfrentar juntos tudo aquilo que a floresta ainda escondia.
Os lotes custavam oitocentos florins. O contrato concedia dois anos sem juros. Depois desse prazo, a dívida começaria a crescer. Antonio fez as contas inúmeras vezes. Na Itália jamais teria imaginado possuir dinheiro suficiente para comprar terras. No Brasil, pela primeira vez, esse sonho parecia possível, embora exigisse quase tudo o que possuía.
Ainda seria necessário separar quarenta ou cinquenta florins para regularizar a escritura definitiva. Restava muito pouco para sobreviver durante os primeiros meses. Antes de plantar qualquer semente, seria preciso derrubar árvores, remover troncos, abrir clareiras e preparar um solo que permanecia escondido sob séculos de floresta.
Ali compreendeu uma verdade que nenhum agente de imigração mencionara em Gênova.
Nas colônias italianas, a primeira colheita não era de trigo.
Era de madeira.
Cada golpe do machado representava uma batalha vencida contra uma natureza magnífica e implacável. As árvores tombavam lentamente, revelando um solo escuro e fértil. Os brasileiros chamavam tudo aquilo simplesmente de mato. Antonio, porém, enxergava uma casa ainda invisível, um pomar futuro, campos de trigo e vinhedos que um dia produziriam vinho para filhos e netos.
Os colonos mais antigos mostravam videiras que cresciam com um vigor desconhecido na Europa. Contavam que quinze pés, depois de treze anos, enchiam um barril inteiro de vinho. Parecia exagero. Contudo, bastava observar as folhas largas e os cachos abundantes para perceber que aquela terra obedecia a leis diferentes das conhecidas em Vicenza.
O lote possuía ainda um riacho de águas constantes. Antonio permaneceu longo tempo observando sua correnteza. Não via apenas água correndo entre as pedras. Via um moinho movimentando as rodas de madeira. Via uma serraria transformando troncos em tábuas. Via uma comunidade inteira crescendo ao redor daquela força silenciosa.
A apenas quarenta e cinco minutos encontrava-se a estrada postal. O clima surpreendia os recém-chegados. O calor jamais alcançava a violência das regiões tropicais, enquanto as noites permaneciam agradavelmente frescas. O ar era puro. A água abundante. As colinas lembravam, em certos momentos, algumas paisagens do norte da Itália.
Poucos anos antes, aquela região era ocupada quase exclusivamente por grupos indígenas e alguns aventureiros isolados. Agora cerca de quatorze mil italianos e tiroleses espalhavam-se pelas encostas, transformando lentamente a floresta em povoações permanentes.
As casas de madeira multiplicavam-se.
As capelas erguiam seus primeiros campanários.
As estradas aproximavam vizinhos antes separados por dias de caminhada.
Aos domingos, centenas de cavalos enchiam os arredores das igrejas. Rapazes e moças percorriam longas distâncias para participar da missa, preservando a fé que havia atravessado o Atlântico juntamente com suas famílias. Pouco a pouco surgiam sacerdotes, médico, boticários e comerciantes. O isolamento começava a ceder lugar à organização de uma verdadeira comunidade.
Antonio também observava os gaúchos. Cavalgavam usando bombachas largas, ponchos coloridos, chapéus de aba larga e facas presas ao cinturão. Muitos carregavam pistolas e espadas com absoluta naturalidade. Inicialmente pareciam personagens saídos de antigas histórias. Depois revelaram-se homens moldados por uma terra tão difícil quanto aquela que agora acolhia os imigrantes italianos.
Enquanto trabalhava na abertura da estrada que ligaria a colônia a São Sebastião, Antonio compreendeu que não construía apenas um caminho. Cada árvore derrubada diminuía o isolamento. Cada ponte improvisada aproximava famílias. Cada trecho aberto representava mais um passo na transformação daquela imensa floresta em civilização.
Ao escrever para Vicenza, registrou cuidadosamente os preços das galinhas, da carne de porco, do mel, do sorgo, do trigo, do vinho e da aguardente produzida da cana-de-açúcar. Não fazia isso por curiosidade. Desejava oferecer aos pais elementos suficientes para decidir se deveriam abandonar definitivamente a velha aldeia.
Também lhes contou sobre a futura ferrovia que ligaria Porto Alegre a Santa Catarina. Percebia que grandes mudanças aproximavam-se rapidamente. As estradas abririam mercados. Os mercados atrairiam comerciantes. Os comerciantes fariam nascer cidades onde naquele momento existiam apenas clareiras abertas pelo machado.
No final da carta enviou lembranças aos tios, aos cunhados, às irmãs, à avó, aos amigos e aos vizinhos. Fez questão de tranquilizar todos sobre Margherita Dal Lago. A jovem debilitada que embarcara em Gênova agora caminhava saudável entre as colinas da Serra Gaúcha, como se aquela terra lhe houvesse devolvido a própria vida.
Sem imaginar, Antonio Zordan registrava um dos momentos mais decisivos da história da colonização italiana no Rio Grande do Sul. Os livros preservariam estatísticas, decretos e mapas. Mas eram homens como ele que verdadeiramente construíam o futuro. Cada lote comprado, cada estrada aberta, cada videira plantada e cada carta enviada para Vicenza ampliavam o território da esperança.
Foi assim que o Campo dos Bugres, a 16ª Légua Norte de Trento, as colônias do Conde, São Sebastião, Porto Alegre e Santa Catarina deixaram de ser apenas nomes sobre mapas para tornarem-se parte da memória de milhares de famílias. A floresta continuava imensa. O trabalho permanecia exaustivo. As dificuldades eram incontáveis. Ainda assim, Antonio compreendia que existiam momentos em que a História mudava silenciosamente de direção. E naquela terra, conquistada primeiro pelo machado e depois pela perseverança, a esperança finalmente criava raízes profundas o bastante para atravessar gerações.

Nota do Autor

A grande imigração italiana para o Rio Grande do Sul foi construída por milhares de histórias anônimas. Muitas jamais chegaram aos livros de História, mas sobreviveram em documentos particulares, fotografias amareladas, registros de família e, sobretudo, nas cartas enviadas aos parentes que permaneceram na Itália. Nelas, os emigrantes relatavam não apenas o cotidiano, mas também suas dúvidas, expectativas, medos e descobertas diante de uma terra completamente desconhecida.

Esta crônica nasceu da leitura de uma dessas cartas, preservada no acervo de um museu dedicado à imigração italiana no Rio Grande do Sul. O documento original, escrito em fevereiro de 1884, constitui um testemunho precioso dos primeiros tempos da colonização da Serra Gaúcha e permite compreender, pela voz de quem viveu aqueles acontecimentos, o enorme desafio representado pela construção de uma nova vida em meio à floresta.

Embora os fatos históricos, as datas, os lugares e o contexto retratados permaneçam fiéis ao documento que inspirou esta narrativa, os personagens apresentados nesta obra são fictícios. Seus nomes foram modificados como recurso literário, permitindo que a história ultrapasse a dimensão biográfica de uma única família e represente simbolicamente a experiência compartilhada por milhares de imigrantes italianos que cruzaram o Atlântico em busca de dignidade, trabalho e futuro.

Meu propósito não foi transcrever uma carta, mas transformar sua essência em literatura. A narrativa procura dar voz às emoções que muitas vezes permanecem escondidas entre as linhas de um documento histórico, aproximando o leitor do universo daqueles homens e mulheres que, com um machado, uma fé inabalável e uma esperança maior que o medo, ajudaram a construir comunidades inteiras onde antes existia apenas a mata.

Se esta história emocionar o leitor, é porque a realidade que lhe deu origem foi ainda mais extraordinária. Cada carta preservada representa um fragmento da memória coletiva da imigração italiana no Brasil e recorda que a verdadeira herança deixada por aqueles pioneiros não se resume às casas, às vinhas ou às cidades que fundaram, mas à coragem de acreditar que o futuro poderia florescer mesmo nas circunstâncias mais difíceis.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


👉 A todos os descendentes de italianos, esta crônica é um convite para reencontrar as raízes de nossos antepassados e preservar a memória daqueles que, com coragem e esperança, construíram um novo lar no Brasil.



terça-feira, 30 de junho de 2026

A Carta da Fome em Silveira Martins - A Saga de um Imigrante Italiano em 1889


 

A Carta da Fome em Silveira Martins - A Saga de um Imigrante Italiano em 1889

"Quando a prosperidade prometida não chegou, restaram a fome, a saudade e uma carta capaz de atravessar mais de um século".


Em abril de 1889, quando o outono começava a cobrir de névoa os vales da colônia de Silveira Martins, no coração da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Pietro Zanella já não era o mesmo homem que havia deixado o Vêneto anos antes. O jovem camponês que atravessara o Atlântico carregando sonhos de prosperidade transformara-se em um colono exausto, marcado pelo peso da terra, pelas doenças e pela lenta erosão das esperanças.

Pietro nascera em uma pequena comunidade rural das colinas vênetas, numa região onde os sobrenomes Zanella, Furlan, Bortoluzzi e Meneghetti eram tão comuns quanto as videiras que se agarravam às encostas. Sua infância transcorrera sob a sombra de uma Itália recém-unificada, mas incapaz de oferecer sustento digno a milhões de trabalhadores rurais. As colheitas incertas, os impostos elevados e a fragmentação das propriedades empurravam famílias inteiras para a miséria.

Quando os agentes de emigração começaram a percorrer as aldeias prometendo terras férteis no Brasil, Pietro enxergou uma oportunidade que parecia enviada pela Providência. O governo brasileiro necessitava de colonos para ocupar vastas extensões de terra no sul do país, e as propagandas descreviam um mundo onde o trabalho seria recompensado com abundância. Para um homem acostumado a cultivar terras que pertenciam a outros, a ideia de possuir um pedaço próprio de chão era poderosa demais para ser ignorada.

A viagem foi longa e penosa. O navio transportava centenas de italianos comprimidos em porões úmidos, onde o cheiro de maresia se misturava ao de corpos cansados e alimentos deteriorados. Durante semanas, o oceano pareceu infinito. Crianças adoeceram. Velhos morreram. Muitos chegaram ao Brasil debilitados antes mesmo de iniciar a nova vida que tanto desejavam.

Depois de desembarcar, Pietro seguiu com outros imigrantes rumo às colônias do Rio Grande do Sul. O caminho para Silveira Martins revelou uma paisagem muito diferente daquela que imaginara. Havia matas densas, estradas precárias e uma natureza que precisava ser vencida antes de oferecer qualquer recompensa. A terra existia, mas estava coberta por árvores gigantescas. Antes de plantar milho, trigo ou videiras, era preciso derrubar a floresta.

Os primeiros anos foram consumidos pelo trabalho incessante. Cada metro de terreno aberto exigia dias de esforço. O machado tornou-se uma extensão dos braços dos colonos. Casas de madeira surgiam lentamente entre os troncos queimados. Pequenas roças começavam a aparecer onde antes havia apenas mata fechada.

Mas a realidade mostrou-se mais cruel do que os folhetos distribuídos na Itália. As colheitas nem sempre correspondiam às expectativas. O isolamento dificultava a venda dos produtos. Ferramentas eram caras. Os caminhos transformavam-se em lama durante os períodos de chuva. Muitas famílias viviam permanentemente endividadas.

Pietro constituiu família na colônia. Sua casa encheu-se de vozes infantis e responsabilidades crescentes. Entre seus filhos estavam Caterina, Antonio Bartolo, Giovanni Luigi e Angela Maria. Como tantas outras crianças da imigração, cresceram ajudando nos trabalhos da propriedade desde muito cedo. Aprenderam a lidar com a enxada antes mesmo de conhecer plenamente as letras.

Entretanto, à medida que a década de 1880 avançava, dificuldades sucessivas começaram a atingir a família. Uma combinação de colheitas insuficientes, enfermidades e pobreza extrema transformou a sobrevivência diária em uma luta constante. A alimentação tornou-se escassa. O dinheiro praticamente desapareceu. As crianças começaram a apresentar sinais de doença.

Naquele tempo, uma enfermidade podia significar uma sentença de morte. Médicos eram raros nas colônias. Medicamentos custavam caro. Muitas vezes, os colonos dependiam da ajuda de padres, curandeiros ou da solidariedade dos vizinhos.

Foi nesse contexto que Pietro tomou uma decisão dolorosa. Incapaz de escrever corretamente e sem recursos para manter correspondência regular com os parentes que permaneciam na Itália, procurou o secretário da comunidade. O homem era um dos poucos que dominavam a escrita e frequentemente auxiliava os colonos analfabetos ou sem instrução formal.

Naquele abril de 1889, Pietro pediu que fossem registradas algumas linhas destinadas aos familiares do outro lado do oceano. A carta não falava de prosperidade. Não descrevia colheitas abundantes nem terras generosas. Era um documento de sofrimento.

Nela, relatava que todos os seus filhos estavam doentes. Escrevia que as crianças não conseguiam obter os alimentos necessários nem respirar um ar que lhes devolvesse a saúde. Mencionava nominalmente Caterina, Antonio Bartolo, Giovanni Luigi e Angela Maria. Explicava que também se encontrava em situação precária e que lhe faltavam recursos para enfrentar tantas dificuldades.

A pobreza era tão severa que Pietro não possuía dinheiro sequer para custear a correspondência. Pedia que o secretário realizasse um ato de caridade e enviasse a carta gratuitamente. Solicitava ainda que outras mensagens vindas da Itália lhe fossem entregues sem cobrança. O pedido revelava uma condição extrema, na qual até mesmo alguns centavos representavam um luxo inalcançável.

Ao final, indicava cuidadosamente seu endereço na colônia de Silveira Martins, então vinculada ao município de Santa Maria da Boca do Monte, na província do Rio Grande do Sul. Era a tentativa de manter viva uma ponte frágil entre dois continentes.

Aquela carta jamais foi destinada à publicação. Não foi escrita para autoridades nem para jornais. Era apenas o apelo de um pai angustiado. Contudo, mais de um século depois, ela permanece como testemunho silencioso de uma realidade frequentemente esquecida.

A história da imigração italiana costuma ser contada através das narrativas de sucesso: os agricultores que prosperaram, os comerciantes que enriqueceram e as famílias que construíram patrimônios duradouros. Mas, por trás dessas conquistas, existiram milhares de homens como Pietro Zanella. Colonos que enfrentaram a fome, a doença e a incerteza. Homens e mulheres que cruzaram o oceano acreditando em um futuro melhor e descobriram que a esperança, por si só, não era suficiente para vencer todas as adversidades.

Ainda assim, eles permaneceram. Construíram estradas, abriram lavouras, ergueram capelas, escolas e comunidades inteiras. Seus filhos e netos transformaram a paisagem do sul do Brasil. O sofrimento registrado naquela carta não foi em vão. Cada linha escrita pelo secretário de Silveira Martins tornou-se parte da memória de uma geração que ajudou a construir um país enquanto lutava, diariamente, para sobreviver.

E assim, entre a fome e a esperança, entre a saudade da Itália e a dureza da terra brasileira, a vida de Pietro Zanella seguiu seu curso. Como a de tantos outros emigrantes, ela foi marcada não pelas promessas que ouviram antes da partida, mas pela coragem extraordinária que demonstraram depois da chegada.

Nota do Autor

A história que o leitor acaba de percorrer não fala dos grandes vencedores da imigração italiana. Não narra a trajetória daqueles que enriqueceram, adquiriram extensas propriedades ou deixaram sobrenomes associados à prosperidade. Pelo contrário. Esta é a história de um homem comum, um entre milhares que cruzaram o Atlântico carregando sonhos legítimos e encontraram uma realidade muito mais dura do que aquela prometida pelos agentes de emigração.

A narrativa foi inspirada em uma carta histórica escrita em 1889 por um imigrante estabelecido na região da atual Quarta Colônia de Imigração Italiana, no Rio Grande do Sul. Embora os personagens tenham recebido nomes fictícios e diversos elementos tenham sido recriados literariamente, o drama humano retratado nestas páginas nasceu de um documento real, preservado graças ao esforço daqueles que compreenderam a importância de guardar a memória dos pioneiros.

Quando pensamos na imigração italiana, somos naturalmente atraídos pelas histórias de sucesso. Elas nos enchem de orgulho e ajudam a explicar a formação de muitas comunidades que floresceram ao longo das gerações. Entretanto, existe uma parte dessa história que raramente ocupa espaço nas comemorações, nos monumentos ou nas fotografias de família.

É a história dos que não venceram.

Dos que trabalharam do amanhecer ao anoitecer e mesmo assim continuaram pobres. Dos que enfrentaram a mata fechada, a distância dos mercados, as doenças, a falta de médicos, as colheitas insuficientes e o peso esmagador da saudade. Dos que enterraram filhos, perderam colheitas e viram o sonho da prosperidade permanecer sempre alguns passos além do alcance de suas mãos calejadas.

Esses homens e mulheres não fracassaram por falta de coragem. Não fracassaram por preguiça. Não fracassaram por falta de fé.

Muitas vezes fracassaram porque a vida pode ser cruel até mesmo com aqueles que mais se esforçam.

Ao escrever esta história, procurei recordar justamente esses pioneiros esquecidos. Aqueles cujos nomes desapareceram dos registros familiares, mas cujo suor ajudou a abrir estradas, erguer capelas, construir escolas e transformar a paisagem da Quarta Colônia. Ainda que não tenham colhido os frutos que sonhavam, participaram da construção de um legado que chegaria às gerações seguintes.

Aos meus leitores ítalo-descendentes, deixo uma reflexão.

Quando olharem para a trajetória de seus antepassados, não pensem apenas nos que prosperaram. Pensem também nos que sofreram em silêncio. Naqueles que escreveram cartas pedindo ajuda. Naqueles que jamais retornaram à Itália. Naqueles que enfrentaram a pobreza mesmo depois de atravessar um oceano em busca de uma vida melhor.

A memória de um povo não é feita apenas de vitórias. Ela também é construída pelas derrotas, pelos sacrifícios e pelas esperanças que nunca chegaram a se realizar.

Talvez a maior homenagem que possamos prestar a esses pioneiros seja justamente esta: não permitir que sejam esquecidos.

Porque cada propriedade construída na Quarta Colônia, cada igreja erguida, cada comunidade formada e cada família que prosperou no decorrer das décadas repousa, de alguma forma, sobre o esforço daqueles que vieram antes — inclusive dos que nunca conheceram o sucesso que tanto procuraram.

Que esta história seja, portanto, uma lembrança e um agradecimento.

Agradecimento aos vencedores.

Mas, sobretudo, aos esquecidos.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

👉 Você conhece a história de seus antepassados italianos? Compartilhe nos comentários as memórias, cartas e relatos preservados por sua família. Cada lembrança ajuda a manter viva a história da imigração italiana no Brasil.



sábado, 5 de agosto de 2023

Trecho da Carta do Imigrante Italiano Giuseppe Gelain: Breve Relato de Uma Jornada Épica

 




Trechos da Carta do 

Imigrante Italiano Giuseppe Gelain

 

Nascido no "comune" de Cittadella, província de Padova na região do Vêneto. No ano de 1868, junto com a sua família, emigrou para o Brasil, então com vinte anos de idade. Giuseppe Gelain foi autor de um livro "Uma memória real dos começos das colônias italianas". Segue um trecho:


"Nesse período de 1884 e depois, todos na vila falavam da América, e naquelas localidades onde éramos residentes, alguém já começou a se mudar para a América, principalmente para a Argentina. Notícias chegavam à Itália que parecia que a América era a terra do Gênesis, que estava escaldante e mel.

Então o Santo [meu tio] partiu para a América, ele, a mulher e as duas filhas pequenas vieram aqui para o Brasil. Quando as cartas dele chegaram parecia que a América era a terra do ouro [...] eu fui embora, com meus papéis. 

Fazendo minha viagem em 20 dias, chegamos no porto de Santos e assim que chegamos pedi para ser transferido para o Rio Grande do Sul. 

Enfim, depois de 70 dias de descanso na emigração e chegamos a Porto Alegre, no dia 13 de maio, dia da deliberação dos escravos que foi em 1888. 

O avô e o tio Giovanni que estavam na Itália disseram que estamos voltando para nossa terra natal [...] Mas os dois irmãos, tio Prosdocimo e meu pai Vittore disseram: Já estamos aqui, voltarei novamente para minha família, com o tempo pode ser.... Vamos ficar aqui! A plantação de painço, trigo e vários cereais já haviam começado, e eles eram muito bonitos, e renunciaram às ofertas paternas e fraternas. 

Mas tia Lúcia e eu queríamos voltar para casa ... E costumava dizer: “Se eu encontrasse Cristóvão Colombo o mataria, por ter descoberto a América, essas regiões inóspitas, são lugares de selvagens e não de nós que fazemos parte da fina flor da bela pátria italiana”. 

Tia Lúcia também trabalhou muito e meu coração se comoveu, e eu disse: "Querida tia, fiquemos, fiat voluntas tua, a vontade de Deus nosso Pai que estás nos céus". 

E já começamos a fazer grandes plantações de colheitas, painço e plantamos a nossa vinha, e já começamos a ter um pouco de crédito, e vamos, pouco a pouco, habituando, mas sempre no nosso coração a pátria Natal.