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quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Vapor Portena 1876 os Passageiros Italianos e a Viagem de Imigração para o Brasil

 


Vapor Portena 1876 

Os Passageiros Italianos e Viagem de Imigração para o Brasil  


Procedência Porto de Le Havre


Ampozzan 

Argento 

Atanasio 

Bailini 

Basso 

Belloni 

Bergagno 

Bombassaro 

Brambilla 

Capello 

Capetto 

Casagrande 

Conte 

Crivellati 

Curiolo 

Dalle Grave 

Deboni 

Ferrero 

Fizian 

Fortin 

Garbin 

Gaspar 

Gasperi 

Giovannoni 

Gentile 

Marzorati 

Masadei  

Martorano 

Maddalena 

Marjetti 

Patatucci 

Pratiei 

Ponzoni 

Rech 

Sabben 

Salvaor 

Sicilia 

Susin 

Tome 

Valentin 

Viannesi 

Vicelli 

Virgilio 

Zollet 

Zucco


Nota explicativa:

O presente registro refere-se aos passageiros do vapor Portena, que partiu em 1876 do porto de Havre, realizando escalas na Europa antes de rumar ao Brasil. A lista reúne sobrenomes de imigrantes italianos que integraram esse fluxo migratório do século XIX, importante para estudos de história, memória comunitária e pesquisas genealógicas. Os nomes preservam a grafia histórica original, podendo apresentar variações devido à transcrição de documentos de época, o que é comum em registros de bordo e arquivos migratórios. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 29 de novembro de 2025

A Emigração Italiana para o Brasil, uma História, Dor e Esperança

 


A Emigração Italiana para o Brasil 

Uma História de Esperança, Dor e Silêncio dos Imigrantes Italianos


Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o Brasil se transformou no destino de centenas de milhares de italianos que, movidos por necessidade e esperança, cruzaram o oceano Atlântico em busca de uma vida melhor. Dentre eles, os vênetos — naturais da região do Vêneto, ao norte da Itália — formaram uma das maiores correntes migratórias rumo às lavouras brasileiras.

O Vêneto e a raiz da partida

Após a unificação da Itália, em 1870, o país enfrentou uma severa crise econômica. No Vêneto, então composto por províncias como Padova, Rovigo, Treviso, Verona, Veneza, Vicenza e Belluno (com Udine até 1900), a pobreza se alastrou entre os pequenos proprietários rurais. A estrutura agrária era arcaica, os impostos aumentaram, e os preços dos produtos agrícolas caíram drasticamente. Famílias numerosas dividiam pequenas parcelas de terra, insuficientes para garantir sustento. A polenta, à base de milho, era o alimento diário das camadas mais pobres, enquanto a carne era consumida apenas em ocasiões festivas. O vinho bom e o pão branco, por sua vez, estavam reservados às épocas de colheita e às casas mais abastadas.

As condições de moradia também eram precárias. Casebres de pedras soltas, chão batido e pouca mobília contrastavam com os altares improvisados com imagens do Sagrado Coração de Jesus e da Virgem Maria, testemunhas silenciosas da fé e da resignação de um povo. Quando os filhos cresciam, os mais velhos assumiam o trabalho do pai, geralmente por volta dos 46 ou 47 anos, e o ciclo recomeçava. O casamento, feito por acordo entre famílias, acontecia cedo: os homens, entre 23 e 25 anos; as mulheres, entre 18 e 23. Viúvos com filhos pequenos costumavam se casar novamente com moças jovens e de braços fortes, valorizadas por sua capacidade de trabalho e fertilidade.

Diante desse cenário, a emigração tornou-se uma válvula de escape para a miséria. Muitos vendiam suas posses logo após a colheita do trigo, entre setembro e novembro, reuniam o que podiam carregar e partiam, muitas vezes em família, sem planos de retorno.

A travessia e a chegada ao Brasil

A chegada ao Brasil se intensificou entre 1870 e 1920, quando mais de 960 mil italianos desembarcaram no país. São Paulo foi o principal destino, recebendo cerca de 70% desse contingente. Outros estados também atraíram italianos: Rio Grande do Sul (10%), Minas Gerais (8%), Espírito Santo (6%), Santa Catarina (4%) e Paraná (2%). Essas estatísticas, colhidas nos registros da Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, mostram uma forte concentração inicial no Sudeste, mas também indicam a dispersão gradual dos imigrantes.

Contudo, os registros italianos apresentam números ainda maiores. Considerando o princípio do jus sanguinis(nacionalidade por descendência), a Itália contabilizou como italianos os filhos nascidos fora do país, o que eleva a estimativa para cerca de 1,5 milhão de emigrantes para o Brasil — 850 mil só para São Paulo. No Brasil, por outro lado, adota-se o critério jus soli, o que reduz os números oficiais.

Ao desembarcar, os recém-chegados aguardavam nos centros de acolhimento a distribuição para as fazendas. Alguns vinham contratados por intermédio de agentes oficiais ou particulares; outros, por conta própria, lançavam-se à busca de trabalho, de fazenda em fazenda, até encontrar colocação. Muitos insistiam para que familiares e conterrâneos fossem mantidos juntos, numa tentativa de preservar os laços de solidariedade.

Do sonho à frustração: a vida nas fazendas brasileiras

A realidade no Brasil, no entanto, mostrou-se dura. Nas lavouras de café paulista, os italianos substituíram os escravizados recém-libertos. O sistema de parceria, em que os colonos plantavam e colhiam o café em troca de uma fração da produção, rapidamente revelou sua face cruel: dívidas crescentes, preços controlados pelos fazendeiros e abusos frequentes. O colono italiano tornou-se refém do patrão. Relatos de maus-tratos se multiplicaram, incluindo agressões físicas e psicológicas.

Em 1895, escandalizado pelas denúncias, o governo da Itália suspendeu temporariamente a imigração subsidiada para o Brasil. Somente pessoas com recursos próprios puderam continuar partindo. Ainda assim, o fluxo não cessou. Em 1902, com o Decreto Prinetti, a Itália proibiu em definitivo o envio de trabalhadores para o Brasil com passagem custeada pelo governo, selando o fim da grande imigração incentivada.

Dos quase um milhão de italianos que vieram entre 1870 e 1920, cerca de 357 mil deixaram o Estado de São Paulo, migrando para países como Argentina e Estados Unidos, que ofereciam melhores condições de trabalho e salários. O movimento não era apenas por ambição, mas por desilusão com a vida nas plantações brasileiras.

Desmemória, dispersão e silêncio

Ao longo das décadas, muitos descendentes deixaram de saber com exatidão a cidade ou a província de origem de suas famílias. O rompimento com o passado, muitas vezes intencional, era uma forma de sobrevivência emocional. Os que chegaram aqui raramente contavam aos filhos sobre as dificuldades vividas na Itália. Sabiam que a volta era impossível — e, por isso, preferiam o silêncio. Os traumas da travessia, da pobreza e da opressão eram engolidos pelo trabalho árduo e pelas novas responsabilidades.

Casos de famílias separadas durante fugas de fazendas não são raros. Um imigrante relatou, por exemplo, que fugiu sozinho após sofrer humilhações, deixando para trás irmãos e tios com os quais viera da Itália. Nunca mais soube deles. Situações como essa explicam por que hoje tantos brasileiros com o mesmo sobrenome não sabem se são parentes. No início do século XX, no entanto, todos conheciam suas raízes — sabiam os nomes dos avós, a aldeia de onde vieram, e a história familiar era parte viva do cotidiano.

Em 1904, um relatório diplomático italiano informou que 424 imigrantes embarcaram de Santos para a Argentina, insatisfeitos com o Brasil. E muitos outros fizeram o mesmo, silenciosamente.

Legado e identidade

Ainda que a memória dos sofrimentos tenha sido abafada, a marca da imigração italiana no Brasil é profunda. Da língua às tradições culinárias, das festas religiosas às comunidades rurais formadas no interior, o legado persiste. Os descendentes podem não saber a origem precisa de seus bisavós, mas herdaram deles a resiliência, o senso de comunidade e o valor do trabalho.

A grande ironia é que muitos dos que partiram em busca de uma nova vida foram recebidos com dureza em seu novo lar. E mesmo assim, plantaram raízes. A dor foi o adubo — e a memória, mesmo fragmentada, ainda brota nas histórias de família contadas em voz baixa, nos sobrenomes repetidos com orgulho, nos documentos antigos guardados como relíquias.

A história da imigração italiana no Brasil não é apenas uma narrativa de deslocamento, mas de reconstrução. E, acima de tudo, de um povo que, mesmo longe da pátria, construiu outra. 

Nota Explicativa

Este texto apresenta, de forma resumida e acessível, o contexto histórico da emigração italiana para o Brasil entre o fim do século XIX e o início do século XX. Explica as causas da partida no Vêneto, as dificuldades da travessia, a dura realidade nas fazendas brasileiras e o impacto dessa migração na memória e na identidade dos descendentes.



domingo, 9 de novembro de 2025

Oltre l'Orisonte: La Traversia de ´na Famèia Italiana

 


Oltre l'Orisonte:

La Traversia de ´na Famèia Italiana


Autono de 1878, par el interior del comune de San Piero de Felet, provìnsia de Treviso, in Veneto, la nèbia calava sora i vigneti stracà come 'na vela de resignassion. Le viti faseva meno ua ogni ano, e la fame se insinuava fra le case poarete del paese come 'na visita che no voleva mai ´ndar via. I zorni i zera pien de na malinconia pesada, con el silénsio roto solo dal son sporàdico dei campanèi de la cesa, che segnava l’andar del tempo sensa freta. Le strade de tera bastonà zera puntegià de fóie seche, che crocava soto i piè, ricordando la repetission inesoràbile de le stagioni. I òci dei contadini, che ‘na volta i zera pien de speransa per le vendémie bone, adesso i rifleteva el peso de le zornade sensa fin, imbusà de paùra.

Ntela pìcola cusina de la famèia Moretti, ndove el fogo del camin provava a riscaldar el ambiente fredo, Antonella la zera a ramedar la vècia traversa de laoro, intanto che i so fiòi, Pietro e Maria, i tentava a scaldarse uniti soto 'na coperte rùstega. Su la tola de legno, 'na minestra magra fumava drento 'na scudela sbrodegà, l'ùnico magnar che ghe restava par quel zorno.

"El inverno promete èsser ancora più crudel sto ano", mormorò Antonella par conto so, intanto che sistemava la cusidura. El so marìo, Giovanni, el zera parti prima del sol par provar a catar 'na poca farina al molino de un amico. Lo scambio se faria con le poche nose che i zera riusì a racòglier da le vècie piante che marcava i confin de la pìcola proprietà. La fame no zera l'ùnica ombra che strassegava su San Pietro di Feletto. I dèbiti se cumulava come nùvole de tempesta. La maior parte de le poche tere le zera ipotecà, e i prestamassi del posto cargava interesse esorbitanti, lassando i contadini drento 'na spirale de misèria. El pàroco Don Luigi, con la so tònaca stracià, fasea quel che podea par confortar i fedeli, ma anche lu savea ben che pregar par la piova e par i tempi boni no bastava pì.

I doméneghe, dopo la messa, pìcoli grupi se trovava in piasseta par scambiar novità. Se parlava de famèie che le zera partì par el Novo Mondo, traversando el mar par catar tere ndove el laoro vegnia pagà. Le lètare che rivava, se rivava, le zera lete a vose alta par tuti e tegnù come relìquie pressiose, che dava speransa ma anche paura.

"Le dise che in Brasil el governo el dà tere a chi vol piantar. Conta che là el sol el ze sempre caldo e che le fruite le cresce tuto l'ano," dise Matteo, un zòvene contadin, con i òci che lusea de 'na speransa quasi de fià.

"Ma le dise anche che el viaio el ze longo, pien de perìcoli. E che tanti no sopravive el mar," rispose el vècio Ernesto, con le man sfoiade che mostrava 'na vita intera de fatiga sui campi. El tono de la so voce zera pesà, come se le parole le fusse fate de piombo.

Antonella, sentindo ste parole da la finestra de casa, sentiva un peso ´ntel cuor. L’idea de lassar tuto quel che i conossea par ´ndar drento ‘na traversia cusì insserta la fasea paura. Ma no podea ignorar el fogo de speransa che sta idea gavea impissà in Giovanni. El deseo de donar un futuro mèio ai so fiòi parea sempre pì ´na strada inevitàbile, no importava el préssio da pagar.

Quela sera, mentre el vento fredo fasea tremar le finestre, Giovanni el tornò a casa con el muso scuro. El se sentò visin al fogon e el vardò Antonella par un bon momento prima de parlar.

"Mi go parlà con el padre Luigi. El me ga dito che un grupo parte el mese che vien par el Brasil. Gavemo da dessider presto, Antonella. Parché forse la ze la nostra ùltima oportunità."

Antonella ghe strense la man con fermesa. La dessision no zera ancora stada presa, ma drento ai so cuori, tuti do i saveva che el tempo par esitar el zera finì.

La matina dopo, mentre el gal el zera ancora a dormir, Giovanni el se alsò e el ussì par preparar i ùltimi detàie. ´Ntei so òci, la determinassion de un omo pronto a sfidar el destino. Antonella, vardando la so figura sparir drento la nèbia, la sentì un misto de disperassion e coraio. Zera lo scomìnsio de un viaio che segnarìa par sempre le so vite.

´Ntei zorni che vegnia, Antonella e Giovanni i ga preso la difíssil dessision. L’imbarco par el Brasil el zera l’ùnica oportunità par scampare da la misèria che i ghe rodeava intorno. Giovanni el gavea scominsià a trovarse con altri òmini del paese, preparando tuto par la partensa. Le lètare mandà dai compatrioti in Brasil le descrivea un novo scomìnsio, ma le avisava anche dei perìcoli che i aspetava chi se lanssava oltre el mar. Ogni lètara, lete con avidità, rendeva el futuro tanto prometente quanto spaventoso.

´Ntela víspera de la partensa, la pìcola casa de la famèia Moretti la zera piena de ‘na tristessa silensiosa. Antonella la netava la vècia mobìlia, mentre Pietro e Maria, i so fiòi, i zogava distrati, ancora ignari del peso de la dessision che zera stà presa. El rumor de le martelade, che vegnia de la casa de i visin, ndove che i altri òmini preparava le so bagaie, el resònava drento la matina avolta de nèbia. Le done, drento le case, le vardava solo, sentindo el peso del scognossù che svolava sul futuro dei so marì e fiòi.

Giovanni el entrò in casa con ‘na espression sèria. La so saca de tela, zà pien con i pochi ogeti essensiai, la zera posà drio la porta. El se avisinò ad Antonella e, sensa dir gnente, el la strense forte. Antonella la serò i òci, sentindo la momentanea sicuressa de quel gesto, ma la savea che, presto, loro i zera ´ndà via. El so futuro el se disenava come ‘na riga fina, sospesa tra i cuori streti de la despedida e la speransa de ‘n novo scomìnsio. "Torneremo presto, Antonella. Te prometo. Ghe la faremo. Par Pietro e Maria," el disse Giovanni, con la so vose roca de emossion. El se stacò un poco, vardando i fiòi.

Antonella la strense la so man, come se la volesse passar tuta la forsa che lei gavea. "Lo so. Ma me preocupa el viaio. E cossa che aspeta a noialtri de l’altra parte. Gavemo visto cossa che capita a chi va e no torna."

La menssion dei raconti de morti in mar, de le dificoltà par adatarse a la nova tera, la fece Antonella esitar, ma Giovanni el zera ormai deciso. "Gavemo da afrontar. Mi vegno. Par nu. Par i fiòi." E, prima che la podesse rispondar, el se girò e el caminò fino a la porta, ndove che i so amissi lo aspetava.

El gruppo de emigranti el zera radunà ´nte la pìcola piassa del paeseto, ndove che i muli e le carosse zera zà pronti par portar i viaianti fino a la stasion del treno. El adio i se sussedeva come ‘na ondata de emossion, mentre che i òmini i se abrassava, e le done le se scambiava parole sofegà de conforto e disperassion. Qualchedun dei fiòi picinin no capiva la gravità de la situassion e i coreva par la piassa, zogando come se fusse un semplice passègio. Ma la realtà zera un’altra: i zera pronti a afrontar un viao che gnanca uno de lori podesse imaginar.

Quando Giovanni montò sora la carossa, vardando ’na per l’ùltima volta la so casa e la poca tera che l’aveva curà par tuta la vita, Antonella la sentì come se el tera soto i so piè se movesse. Lei restò con i òci pien de làgreme, ma anca con ’na fiameta de speransa, anca se picinina. Lei se despedia, come ’n taglio profondo, la zera dolente, ma necessària par che ghe fusse ’n novo scomìnsio.

El camino fin al porto de Zénoa el ze stà longo e fadigoso. Soto el calor sofocante de la matina, el treno sbatolava sora i binari, lassando drio ’na nuvola de fumo. El grupo de emigranti ’ndava in silénsio, con i visi segnà da la tension. Le fèmine provava a tegnerse calme, ma i so òci disevan tuto: paura e angùstia del scognossù. I putei, strachi del lungo viaio, se strensea contro i so pare, con i oci fissà in qualcosa lontan.

Quando lori i ze rivà al porto, la vision del gran navio ancorà là in riva al mar ze stà ’n colpo par i sensi. El bastimento pareva che se ’ngolesse l’orisonte, ’na massa gigante de fero e de legno che i portaria verso ’n destino incerto. Intanto che le famèie se meteva in òrdine par imbarcarse, la nèbia del mar se alsava, scurendo el cielo e dando a tuto ’l ambiente ’na sensassion de mistero e de malessere.

Giovanni se avisinò a Antonella, che tegnìa streti i fiòi tra le man.

«Semo pronti», el ga dito, anca se el dùbio ´ntei so òci contradisea le parole.

Antonella fece solo ’n sì con el capo, co’ el cuor streto.

A bordo, el navìo zera pien fin ai òssi. El odor de sal e el rumor sensa fin del mar empienìa l’ària, intanto che i emigranti se sistemava ´ntei cubìcoli improvisà. Le condission zera dure: aqua racionà, magnar scarso, e el calor sofocante de le ore longhe de viaio fasea cresser ancor de pì la sensassion de ’na gàbia. I visi de quei altri emigranti zera segnà da la stesa mescolansa de paura, speransa e nostalgia.

´Nte le prime setimane de viaio, le robe parea ’ndar de mal in peso. I putei piansea, i òmeni parlava pian, e el rumor de l’onde che sbateva contro la strutura del navio zera la ùnica mùsica che i acompagnava. Quando la febre scominsiò a sparpaiar per la nave, i peiori timori de Antonella e Giovanni i se ga fato verità. La malatia colpì prima i pì dèboli, e el nùmaro dei morti cressea zorno dopo zorno.

Tra lori zera Maria, la fiola pì pìcola de Antonella, che cedé a ’na febre alta dopo tre zorni de agonia. El cuor de Antonella se sbrissolò intanto che la vegliava el corpo de la fiola soto le vele che tremolava con la luse. Quela note, Antonella se inzenochiò drio al corpo de Maria e sussurò ’na orassion. El mar, che prima parea pien de promesse, adesso se mostrava come ’n abisso sensa fondo de disperassion e solitùdine. Ma Giovanni, anca disfà da la perda, savea che no podea sèder. La promessa fata a Antonella e ai fiòi zera ancora viva drento la so ànema: "Noaltri gaveremo de vénser, insieme".

Dopo un po de tempo, ’na matina a Piracicaba se mostrava come ’n quadro vivo de colori caldi, con el sol che rompea la nèbia par ciarir i campi de cafè che se stendeva fin dove rivava la vista. Giovanni Moretti respirò profondo, sentindo l’odor teroso de la lavoura mescolà con l’ària ùmida del fiume Piracicaba.

Anca se ghe zera ancora ’na malinconia che no lo lassava, par la perdita de Maria durante la traversia, el savea che quel zera el ricominsiar che l’aveva promesso a Antonella.

La "fazenda" ndove i laoraria zera granda e ben ordinà, ma i baracon zera sèmplissi e pien de zente, fati de legno sensa pitura, con i teti che a pena tegnea fora la piova. Giovanni, Antonella e el picenin Pietro i ze stà mandà in uno de quei baracon. Lori spartia el spàssio con un’altra famèia italiana, i Rossi, che anca lori avea lassà l´Itàlia par ’ndar in serca de ´na vita pì degna.

I do òmeni se ga fà presto compagni ´nte la fadiga de ogni zorno. Le zornade scominsiava prima del nasser del sole. Giovanni ’l ciapava so zapa e ’l ’ndava a piè con Pietro, che gavea solo sete ani ma za ’l iutava a portar i seci par portar l’aqua par le piantassion. Antonella restava ´ntel baracon, lavando robe e cosinando par i laoranti, intanto che i pì veci contava stòrie de ’na casa lontan. Ogni gran racolto parea portar el peso de la so fadiga, ma anca ’na fiameta de speransa.

Malgrado el lavor massacrante, la solidarietà tra i emigranti fasea nasser momenti de respiro. La sera, lori se sentava in serchio intorno a foghère improvisà, cantando cansonete italiane o contandose i soni de comprar ’na tera pròpria. La vose de Antonella se sentiva tra tute — dolse e ferma — portando ricordi del Vèneto che dava conforto a tuta la zente. I primi mesi i ze stà particularmente duri. El sole che brusava e i cali su le mani zera solo ’na parte de la sfida. Le malatie no ga tardà a rivar; la malària e la febre tifòide zirava atorno ai alogiamenti, portando via i pì dèboli.

Ma Giovanni no volea sèder a la disperassion. El tegnea fisso el pensier su la promessa d’un futuro mèio, convinto che se podéa transformar quela tera ostile in ’na vera casa. ’Na zornada, intanto che Giovanni e Pietro lavorava, el fator de la proprietà, ’n omo duro e poco amistoso, el se ga fato veder. El ga vardà Giovanni con interesse prima de avisinarse e el ga dito: "Te lavori bene, italiano. Forse te gh’avrà un futuro qua." 

Giovanni el ga fato solo ’n sì con el capo, ingoiando la ràbia par la maniera come quel omo ghe parlava con superiorità. Zera un riconossimento picenin, ma bastava par rinovar la so determinassion. I mesi i se ga trasformà in ani, e la famèia Moretti la ga scominsià a vardar i fruti de la so fadiga.

Antonella, sempre ingegnosa, meté in pié ’n orto picenin drio al baracon, dove la coltivava verdure che dava un toco de vita a la dieta monòtona de farina e fasòi. Pietro cresseva forte, e la so curiosità lo portava a ’mparar in prèssia i costumi e la lìngua del paese.

Giovanni, dopo ani de risparmio del poco che guadagnava, el ga riusì finalmente a meter insieme el bastante par comprar ’n toco de tera. Quando el fa dito la novità a la famèia, i so oci lusea come mai prima.

"Con ´na vose emossionà el ga deto: Antonella, adesso el ze el nostro turno. No sarà fàssile, ma desso gavemo ´na tera che la ze pròprio de noialtri." ´Ntela picenina proprietà, situà in ’na vila visin a la sità de Piracicaba, la famèia la ga afrontà novi sfide. 

I ga disboscà el teren coperto de mata fita, piantò ortalìssie e cressea galine e porsei. El fruto del laor zera portà a vender a Piracicaba. Le sere zera de fadiga, ma anca de festa. Pian pian, i Moretti se ga integrà con la comunità del posto, smissiando le so tradission italiane con el calor e la ospitalità brasilian.

Ani i ga passà, ormai come picenìn paroni de tera, Giovanni e Antonella vardava con orgòio el so campo. No zera come che i gavea sonià quando i ga lassà el Vèneto, ma zera molto de pì de quanto che i gavea mai avù.

El picenin Pietro, ancor ciamà da Pierino da la famèia, adesso ’n zòvene robusto, el ga scominsià a parlar de ’ndar a ingrandir la piantassion e a soniar de far ’na scola par ’mparar ai altri putei de la colònia. In quel toco de tera, là visin a la sità de Piracicaba, la promessa de Giovanni a Antonella se ga compì. No sensa pena o sacrifìssio, ma con la forsa de chi ga ’mparà a transformar le pèrdite in coràio e el laor duro in speransa. Oltre l’orisonte, el futuro zera ancora inserto, ma ´desso lusea con el barlume de la possibilità.

Nota del Autor

Oltre l’Orisonte» la ze ’na narativa che fa onor al coraio e sacrifìssi dei emigranti italiani che, a la fin del sècolo XIX, i ga traversà el Atlàntico in serca de ’na vita mèio. Anca se inspirà in stòrie vere, ’sta òpera smissia la memòria coletiva con la fission, par dar vita a ’na zornada che risuona con le aspirassion e le dificoltà dei nostri antenati.

Scrivendo ‘sto libro, mi go volù no solo contar ’na stòria de migrassion, ma anca celebrar la lota, la pèrdita e la speransa imortal che move i cuori umani.

Ringrazio ai miei letori par aver acompagnà ’sta traversia e par darghe vose a sti eroi anónimi che i ga contribuì a costruir ’n mondo novo, con sacrifìssio e dignità.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Alvise Pavesa – Tra la Tera e el Destin

 


Alvise Pavesa – Tra la Tera e el Destin

Alvise Pavesa el ze nassesto ´ntel 1857 a San Vigilio, na pìcola frasion de Castiglione delle Stiviere, tra le coline de la provìnsia de Mantova, ndove i campi magri i dava mal da magnar a chi che ghe viveva. Fin da bòcia el gavea imparà che la tera la podea esser maregna, dando solo racolte insufissiente e laoro senza respiro. L’unificassion de l’Itàlia no gavea portà solievo; le tasse zera pì alta, i soldà i portava via i zòvani, e le famèie e pòvere le se vardava strasà da el peso de le dèbite. Par i Pavesa, sopraviver zera na sucession de inverni duri e state ingrati.

In sto contesto el ga scominsià a sentir parlar de l’Amèrica. Le lètare che vegnia da l’altro lato del ossean, mandà da miaia de emigranti che i zera partì, le se fasea sempre pì frequente, contando de tere vaste, de racolte abundante, de paroni assetà de brasse forti. Òmeni ben paroliere i girava le frasion, spargendo fólie stampà, prometendo prosperità da l´altra banda del mar. La misèria la rendea ste parole pì convincente che ogni sermon. Alvise el ga resistì fin che podea, ma el peso de le dèbite e la paura de no èsser capace de mantener i fiòi che vegnaria el ga spinto a la decresolussion ireversìbile. El ga vendù quel poco che gavea, el ga dato adio al paeseto e, con la mòie e la fiola de 7 ani, int novembre del 1888 el se ga ndà via par el porto de Genova.

El imbarco ze stà la prima scossa. El barco el zera pien de famèie intere, veci, done gràvide, fiòi in brasso, tuti streti ´ntei fondi ùmidi che odorava de mufa e de mar. La traversia del Atlántico ze stà na soferensa de setimane. L’ària rarefà la mescolava el odor dei corpi, gómito e feci. Ogni tosse che rimbombava ´ntel scuro pareva anunciar un altro condanà. Tanti i ga sedù a la febre prima ancora de vardar tera ferma, e i morti i zera avolti in teli veci e butà in mar, soto el sguardo terorisà dei sopravissuti. Alvise el pregava in silénsio a ogni corpo che spariva tra le onde, temendo che la so famèia zera stà la prossima.

Quando, finalmente, le prime ombre de la costa brasilian i comparì, un clamor el ga percorso el barco. Qualchedun se ga inzenocià, altri i ga piansesto, e tanti i ga ringrasià Dio de èsser vivi. Alvise el restava in silénsio, con i oci fissà su la lìnea del horisonte. Quela tera promessa no la se someiava gnanca un poco a l’Itàlia che gavea lassà drio. El verde intenso dei boschi, el calor sofocante e el cielo pesante anunciava che gnente qua el saria fameiar.

Arivà a Campinas, ´ntel interior de São Paulo, el ga presto capì la distansa tra la promessa e la realtà. El clima ùmido e rovente el castigava sensa pietà. I campi de cafè e de cana de zùcaro, che dominava la region, i voleva dissiplina quasi soprumana: el laoro el scominsiava con I primi ràgi de sol e finia solo quando el scuro calava. El contrato con i paroni no zera mèio de la servitù. I salari i basta mal par comprar farina e fasòi, e la possibilità de gaver un toco de tera pròpria parea sempre pì lontan.

In zenaro del 1889, la so mòie la ga dato a la luse ´na fiola, lora ciamà Caterina, nome de ´na de le none de Alvise. La ze rivà come segno de speransa, ´na pìcola vitòria contro la duresa del destin. Ma el calor e la febre i ghe impedì de batisarla sùbito. El decise de spetar che el tempo se rinfrescasse, come se solo el ritardo podesse proteger la fiola da la morte precoce che circolava tra tante famèie. La fiola pì vècia, Maria, zera malà da setimane, la febre che brusava el corpo. Alvise el vardava ´nte lei el riflesso de la so impotensa: lontanansa dei mèdici, mancansa de medicamenti, l’ùnica speransa deposità ´ntela providensa divina.

La vita a Campinas zera na lota contro nemici invisìbili. I inseti i entrava ´ntei piè, lassando feride che no cicatrisava mai. La malària la ciapava vite sensa aviso, e la febre zala la tornava in scopi che terrorisava la colónia. Tanti coloni, presi dal desespero, i maledisea l’Amèrica e fin el nome de Colombo, acusandolo de gaver scoèrto un mondo che rivelava pì castigo che benedission. Altri, rasegnà, i ripetea che, se almanco podessero viver sensa dèbite, i staria mèio in Itàlia.

A San Paolo, l’insodisfassion la sfosiò in ribelion. Coloni italiani, inganà da promesse false de tera, i se ga levà contro i propri sfrutadori. La repression la zera stà dura, ma la notìssia la ze rivà presto ´ntel interior. Alvise el sentiva cresser tra i emigranti na nube de scetisismo. Tanti i soniava de tornar, ma i savea che la traversia costava pì do che i podesse racolier in ani de laoro. Altri, già indebità con i paroni, no i gavea gnanca la possibilità de partir.

Eppur, pìcoli gesti de fede i sostegnea chi che no se arendeva al desespero. Alvise el facea promesse in silénsio. El pregava i parenti ancora in Itàlia che i mandasse celebrar misse ´ntel so paeseto, ringraziando la sopravivenza in meso a tanti perìcoli. El mantegnea con sé la memòria de le procession de Castiglione, el suon dei campanili de la cesa de San Luigi Gonzaga, le figure dei santi iluminà da candele. Ste memòrie le ze diventà el so conforto, el ponte invisìbile tra la vita che gavea perso e quela che provava a costruir.

La colónia italiana intorno a Campinas se reorganisava con solidarietà. Le famèie dividea sementi, utensili, senza, tochi de pan. Le noti i zera pien de ciàcole a la fiaca luse de le lamparina, ndove ognuno contava la pròpria stòria, forse ´ntela speransa de no dimenticar chi el zera prima. Ma la nostalgia rosegava. Tanti sentia l’Itàlia pì viva ´ntei ricordi che el Brasile davanti ai oci. Alvise, che tante volte el ga maledisso i campi magri de la so provìnsia, ora i ghe pareva meno crudeli de la selva tropical che dovea afrontar.

La pìcola rossa de maìs recém piantà intorno a casa prometea ´na racolta modesta, ma che bastava par dar da magnar par un bon tempo. La cana de zùcaro, da l’altra parte, la volea sforso incessante, ciapando forse che el credea de no aver. Ogni matina, ciapando la sésola, Alvise el sentiva i ossi pesar come piombo. Ma el savea che, se el se smolava, la famèia la moria.

´Ntel fondo del cuor, el capiva che la vita ghe gavea imposto el ruolo de generassion de sacrifìssio. No ciaparia la prosperità promessa. No gavaria riposo né tera pròpria. Ma el mantegnea la speransa che i fiòi, e i fiòi dei fiòi, i eredaria pì che misèria. Lori eredaria radisi ben piantà in sta tera straniera, anafià con el sudor e le làgreme de chi gavea pagà el pressio pì alto.

E cusì, tra zornade de calor sofocante e noti de febre, tra ricordi de l’Itàlia e preghiere sussurà soto el ciel stelà de Campinas, Alvise Pavesa el moldava la so vita al destin che el zera scelto. La traversia no finia al porto; la se stendea in ogni zornada tra i piè de cafè, in ogni làgrema davante la fiola malà, in ogni toco de pan spartì con i visin. Un ome strapà da la Lombardia da la fame, lanssià ´ntel cuor del Brasile da la speransa, e che ora capiva che la sua vera eredità no zera richesse né tera, ma la resistensa silensiosa de chi no se arende davanti a la aversità.

Alvise Pavesa el se ga envechià tra el calor sofocante dei campi e l’ombra de le coline lontae de la so tera natal. Ogni gòssia de sudore, ogni dolor e ogni preghiera i se trasformava in radisi invisìbili, ben fermà ´ntel solo straniero che ora el ciamava casa.

I fiòi i ga cressesto ascoltando stòrie de na Itàlia lontan, imparando che el valor de la vita no se misura in tera o soldi, ma ´ntel coraio de traversar osseani, afrontar malatie e mantegner viva la speransa.

E cusì, ´ntel silénsio de le noti tropicai, Alvise el comprese che la so vera traversia no zera l’Atlántico, ma la vita intera: na zornada de resistensa, amor e fede, che fiorirà in generassion future. La pàtria persa restava ´ntei ricordi, ma la tera conquistà con el sforso la se ga diventà eternamente soa. 

Nota del Autor

La stòria de Alvise Pavesa – Tra la Tera e el Destin, qua presentà in forma consisa, ze ´na narativa ispirà ai raconti veri dei emigranti italiani che, verso la fin del XIX sècolo, i ga traversà l’Atlántico in serca de na vita mèio in Brasile. Anche se i personai e i eventi qua descriti i ze fitisi, i riflete l’esperiensa coletiva de miaia de òmini, famèie e bambin che i ga afrontà fame, malatie, laoro stracante e nostalgia de ´na tera natal lontan.

Scrivendo sta stòria, mi go sercà de restar fedele a lo spìrito de l’època: a la duresa de le colònie agrìcole, a le dificoltà imposte dal clima e dal laoro, e sopratuto a la resistensa e a la speransa silensiosa che sostegnea chi che se lanssiava ´nte lo scognossesto. El letor troverà tra le pàgine de sta narativa no solo soferenzsa e lota, ma anca el poder dei ricordi, de la solidarietà e del coraio de chi, anche di fronte al destin pìadverso, no ga mai perso la fede ´nte la vita.

Sto libro ze, sopratuto, un omaio a tuti i emigranti che i ga costruì le pròprie stòrie e, atraverso el so sforso, i ga piantà radise in tere straniere, lassando ´na eredità de resistensa e speransa che atraversa generassion.

Dr. Piazzetta

sábado, 1 de novembro de 2025

O Destino de Sofia


O Destino de Sofia 

Sofia Bellini nasceu em 3 de abril de 1867, em Montecassino, uma localidade pitoresca aninhada entre as colinas da província de Frosinone, na região do Lazio, no centro-sul da Itália. Era um lugar onde o aroma de oliveiras misturava-se ao canto distante dos pássaros, e o tempo parecia correr ao ritmo da vida camponesa. A terceira de cinco filhos de Vittorio e Lucia Bellini, Sofia cresceu em uma casa simples de pedra, onde as paredes pareciam contar histórias de gerações que haviam trabalhado arduamente para arrancar sustento da terra.

Vittorio, um homem de mãos calejadas e olhar distante, carregava o peso das expectativas de um mundo em transformação. Como muitos de sua época, ele havia depositado suas esperanças na unificação italiana, acreditando que a promessa de um país unido traria prosperidade às comunidades rurais. Mas os anos que se seguiram à unificação mostraram-se cruéis para os camponeses. O aumento dos impostos, as mudanças nas políticas agrárias e a competição com grandes latifundiários tornaram a vida em Montecassino uma luta diária.

Lucia, por outro lado, era o coração da família. Pequena em estatura, mas gigantesca em determinação, ela comandava a casa com uma mistura de autoridade e ternura. Cozinhava com maestria, transformando ingredientes escassos em refeições que aqueciam não apenas o estômago, mas também a alma. Era ela quem plantava em Sofia e seus irmãos as sementes de esperança, contando histórias de tempos melhores e sonhando em silêncio com um futuro mais promissor.

As terras que a família Bellini cultivava, porém, tornavam-se cada vez menos generosas. A combinação de práticas agrícolas arcaicas e solos exauridos forçava Vittorio a trabalhar de sol a sol, enquanto Lucia e as crianças ajudavam no que podiam. A vinha, que outrora prometera bons rendimentos, produzia menos a cada ano, e as oliveiras, resistentes como os próprios Bellini, começavam a sofrer com pragas que devastavam a região.

Apesar das dificuldades, Sofia crescia curiosa e determinada. Enquanto seus irmãos mais velhos, Pietro e Giovanni, assumiam responsabilidades no campo, e os mais novos, Caterina e Mario, ainda desfrutavam da inocência da infância, Sofia encontrava momentos para observar o mundo além das colinas. Gostava de ouvir as histórias dos viajantes que passavam pela região, a caminho de Roma ou de outros destinos mais prósperos. Cada relato despertava nela um desejo de descobrir o que havia além da monotonia de Montecassino.

Com o tempo, o descontentamento com a situação da família tornou-se palpável. Os Bellini não eram os únicos a sentir o peso da pobreza crescente; em toda a região, famílias inteiras abandonavam suas terras e embarcavam em navios rumo a destinos desconhecidos, em busca de uma vida melhor. Sofia, mesmo tão jovem, começava a perceber que sua pequena aldeia talvez não fosse grande o suficiente para conter seus sonhos.

Foi nessa atmosfera de incertezas que Sofia começou a moldar seu caráter. A cada dificuldade enfrentada pela família, sua resiliência se fortalecia. E embora seus pés estivessem firmemente plantados no solo árido de Montecassino, sua mente já vagava por lugares distantes, onde ela imaginava um futuro que sua terra natal parecia incapaz de oferecer.

Desde cedo, Sofia demonstrava uma curiosidade aguçada e um espírito inquieto que a diferenciavam das outras crianças de Montecassino. Enquanto seus irmãos pareciam resignados às rotinas do campo, Sofia ansiava por algo mais, um futuro que pudesse oferecer mais do que a labuta incessante e os ciclos repetitivos das colheitas. Essa centelha não passou despercebida pela Signora Teresa, a professora da escola rural, uma mulher de meia-idade com uma paixão quase obstinada por ensinar, mesmo em condições precárias.

A escola era pouco mais que uma sala simples com paredes de pedra bruta, algumas mesas de madeira desgastada e um quadro-negro que parecia tão velho quanto o próprio vilarejo. Os recursos eram escassos, mas isso não impedia a Signora Teresa de inspirar seus alunos. Quando Sofia entrou em sua turma, Teresa logo percebeu que havia algo especial na menina. Sofia tinha uma habilidade natural para a escrita e uma surpreendente facilidade com números, destacando-se em matemática de um modo que poucos em Montecassino poderiam imaginar.

Apesar do entusiasmo da professora, estudar era um luxo que a realidade não permitia. Aos 12 anos, quando outras crianças ainda podiam sonhar com mundos distantes, Sofia foi forçada a abandonar a escola. O campo chamava, e sua família precisava de toda ajuda possível. Foi um momento difícil para ela. Deixar os livros e as aulas não significava apenas perder o contato com o aprendizado, mas também renunciar, mesmo que temporariamente, ao sonho de um futuro diferente.

A nova rotina era extenuante. Sofia começava o dia antes do sol nascer, ajudando a mãe nas colheitas de uvas e azeitonas. O trabalho no campo exigia força, resistência e uma paciência que só a vida rural podia ensinar. Quando não estava na terra, dedicava-se a cuidar de seus irmãos mais novos, Caterina e Mario, garantindo que eles tivessem algo para comer e que não se metessem em encrencas enquanto Lucia e Vittorio trabalhavam.

Mesmo nesse cenário de privações, Sofia encontrava maneiras de alimentar sua mente inquieta. Nas raras horas de descanso, buscava refúgio em um velho livro de contos que a Signora Teresa lhe emprestara antes de sua saída da escola. Lia cada palavra com atenção, absorvendo histórias que a transportavam para terras longínquas e realidades mais promissoras. Às vezes, à luz trêmula de uma vela, ela rabiscava pensamentos e ideias em pedaços de papel que seu pai conseguia. Suas palavras revelavam uma alma que, embora jovem, já começava a compreender a dureza da vida e a sonhar com algo além do que seus olhos podiam alcançar.

Aos poucos, Sofia começou a perceber que o conhecimento, mesmo aquele adquirido em breves momentos de leitura, podia ser uma arma poderosa. Se não pudesse frequentar a escola, ela encontraria outras formas de aprender. Passou a ouvir com atenção as histórias dos vizinhos e dos viajantes que cruzavam Montecassino, absorvendo informações como uma esponja. Cada detalhe que aprendia tornava-se um tijolo na construção de um futuro que ela ainda não sabia como alcançaria, mas que acreditava ser possível.

Essa determinação chamou a atenção não apenas de sua família, mas também de outras pessoas da comunidade. "Essa menina tem fogo nos olhos", comentou certa vez um mercador que passava pela vila. O comentário não foi esquecido por Vittorio, que, embora tivesse seus próprios sonhos esmagados pela realidade, começava a enxergar em Sofia uma esperança para a família Bellini. Para Sofia, porém, esperança era apenas o começo. Ela queria mais do que sonhar.

Com o passar dos anos, a situação em Montecassino deteriorou-se de forma implacável. As terras já exauridas pelas gerações de cultivo começaram a retribuir com cada vez menos generosidade. As vinhas, orgulho da região, foram atacadas por uma praga devastadora que deixou as parreiras estéreis e os campos cobertos de folhas secas, um cenário desolador que parecia refletir o próprio espírito dos camponeses. A produção de azeite, outrora suficiente para cobrir os impostos e garantir um modesto sustento, tornou-se escassa, incapaz de competir com os grandes olivais das regiões mais ricas.

Para a família Bellini, a crise era uma tempestade perfeita de adversidades. Em 1884, um inverno rigoroso veio como o golpe final. O frio cortante entrou pelas frestas das janelas da casa e se infiltrou nos ossos, trazendo consigo a fome. As reservas de alimentos eram insuficientes, e a compra de mantimentos tornou-se um luxo inalcançável. Lucia fazia milagres na cozinha, esticando o pouco que tinham, mas até sua criatividade encontrou limites diante da escassez. As crianças adoeceram, e a preocupação gravou rugas ainda mais profundas no rosto de Vittorio.

Foi durante uma noite de fevereiro, enquanto o vento uivava lá fora e a família se aquecia ao redor de um pequeno fogo, que Vittorio tomou uma decisão que mudaria para sempre o destino dos Bellini. Ele havia ouvido histórias de um lugar distante, o Brasil, onde terras férteis aguardavam por aqueles dispostos a trabalhá-las. Era uma terra cheia de promessas, diziam os mercadores, onde o governo brasileiro oferecia oportunidades para os imigrantes reconstruírem suas vidas.

Lucia ouviu a proposta em silêncio, mas os olhos cheios de lágrimas revelavam o peso de suas emoções. Ela sabia o que isso significava: abandonar tudo o que conheciam, tudo o que amavam, e partir rumo ao desconhecido. Não era apenas uma mudança de país; era uma ruptura com suas raízes, uma despedida de Montecassino, com sua igreja centenária, os campos que haviam sustentado a família por gerações, e até mesmo os túmulos de seus antepassados.

“É o único caminho, Lucia,” disse Vittorio com um tom grave, a voz carregada de uma firmeza que ele nem sempre sentia. “Aqui, não temos futuro. No Brasil, talvez possamos começar de novo.”

Sofia, então com 17 anos, escutava a conversa à distância, mas suas mãos pararam de trabalhar no bordado. A ideia de partir era assustadora, mas, ao mesmo tempo, acendia nela uma fagulha de excitação. Embora amasse sua terra natal, ela sabia, melhor do que a maioria, que Montecassino não lhe oferecia mais do que uma vida de privações. O Brasil, com suas histórias de terras vastas e oportunidades, parecia um lugar onde sua inquietação e determinação poderiam encontrar espaço para florescer.

Os meses seguintes foram um turbilhão de preparação e despedidas. Vittorio vendeu o pouco que possuíam para arrecadar dinheiro para a travessia. A comunidade, embora acostumada a ver famílias partirem em busca de uma vida melhor, despediu-se dos Bellini com tristeza. No último dia, enquanto os sinos da igreja de Montecassino tocavam ao longe, Sofia olhou para trás uma última vez. As colinas que ela conhecia tão bem agora pareciam pequenas, distantes, quase irreais.

A bordo de um navio lotado de outros italianos que também buscavam um novo começo, Sofia sentiu o peso da incerteza, mas também uma ponta de esperança. O mar vasto e interminável era ao mesmo tempo um símbolo de separação e de possibilidades infinitas. Ela sabia que sua vida jamais seria a mesma, mas, pela primeira vez, começou a acreditar que isso poderia ser algo bom.


A Jornada ao Desconhecido

Os Bellini embarcaram no porto de Nápoles em 17 de fevereiro de 1885, em meio a uma multidão de outras famílias italianas igualmente empurradas pela necessidade e pela esperança. O vapor Comte d’Abruzzi era um dos muitos navios destinados a levar imigrantes ao Brasil, sua estrutura robusta contrastando com as frágeis esperanças de seus passageiros. Para os Bellini, o embarque foi um misto de alívio e desespero: alívio por deixarem para trás a fome e o frio de Montecassino, mas desespero por encararem o desconhecido, sabendo que não havia garantias de sucesso ou sequer de sobrevivência.

A travessia, que deveria ser uma passagem para um novo começo, rapidamente se transformou em uma provação. Os porões do navio, na terceira classe onde viajavam os passageiros mais pobres, eram escuros, abafados e infestados de ratos. O ar era pesado, saturado de umidade e do cheiro de corpos cansados e doentes. A comida, quando distribuída, era escassa e de qualidade duvidosa. Água potável era um bem raro, e os conflitos por ela não eram incomuns.

Logo nos primeiros dias no mar, doenças começaram a se manifestar entre os passageiros. O sarampo e a febre tifoide, impulsionados pelas condições insalubres, se espalhavam com rapidez assustadora. O som de tosses e choros de crianças doentes ecoava pelos corredores, enquanto os pais tentavam desesperadamente cuidar de seus filhos com os poucos recursos disponíveis. Para Sofia, agora com 18 anos, a situação trouxe à tona uma força que ela mesma não sabia possuir.

Sofia assumiu o papel de uma enfermeira improvisada, usando sua pouca experiência adquirida ao ajudar a mãe com os irmãos em Montecassino. Ela limpava o alojamento, oferecia água e confortava as crianças, incluindo seus próprios irmãos. Era um trabalho exaustivo e, muitas vezes, ingrato, mas Sofia não permitia que a exaustão a vencesse. Para ela, cuidar dos outros era mais do que uma tarefa; era uma forma de se agarrar à humanidade em meio ao caos.

Entre os doentes estava Lorenzo, de apenas 2 anos, o caçula dos Bellini. Sofia cuidava dele com especial dedicação, segurando sua pequena mão durante as longas noites enquanto ele lutava contra a febre. Mas, apesar de todos os esforços, Lorenzo não sobreviveu. Sua morte abalou profundamente a família. Vittorio, um homem que raramente demonstrava emoção, foi visto chorando silenciosamente à proa do navio, enquanto Lucia parecia ter envelhecido anos em apenas algumas horas. Para Sofia, a perda de Lorenzo foi um golpe que solidificou sua determinação de sobreviver e encontrar algo que justificasse aquele sacrifício.

Depois de 36 dias de mar e sofrimento, o Comte d’Abruzzi finalmente atracou no porto de Santos. O desembarque foi um misto de alívio e tristeza. Os Bellini estavam exaustos, desidratados e emocionalmente devastados, mas também cientes de que um novo capítulo de suas vidas começava ali. Santos era caótica e vibrante, um contraste absoluto com Montecassino. O calor úmido grudava em suas roupas, enquanto os sons da língua portuguesa, desconhecida e estranha, preenchiam o ar.

A jornada, no entanto, ainda não havia terminado. De Santos, a família embarcou em um trem que os levaria ao interior do estado de São Paulo, até a Colônia Pedrinhas, um dos primeiros assentamentos de imigrantes italianos na região. A viagem de trem foi desconfortável, mas nada comparado aos horrores do navio. A paisagem que passava pelas janelas mostrava um mundo verdejante e selvagem, tão diferente das colinas áridas da Itália.

Quando finalmente chegaram a Pedrinhas, foram recebidos por outros imigrantes italianos que os ajudaram a se instalar em uma casa simples de madeira. O local era isolado, cercado por mata virgem, e o trabalho que os esperava seria árduo. Apesar disso, Sofia sentiu algo que não sentia há meses: uma centelha de esperança. Ela sabia que o caminho à frente seria difícil, mas ali, entre aquelas pessoas, havia uma possibilidade de recomeço. Para a família Bellini, Pedrinhas representava mais do que terra; era uma chance de reconstruir suas vidas e honrar os sacrifícios feitos para chegar até ali.


A Luta por Sobrevivência

Na Fazenda Pedrinhas, os Bellini receberam um lote de terra que parecia mais uma selva do que um local para começar uma nova vida. O terreno era cercado por densas árvores com raízes que pareciam agarrar o solo como se fossem guardiãs de um mundo intocado. Para Vittorio, que mal conseguia esconder sua decepção, aquilo era uma sentença de trabalho interminável. As ferramentas que receberam eram rudimentares, e cada golpe do machado parecia pouco mais do que um arranhão na imensidão verde.

Os primeiros meses foram brutais. A umidade constante impregnava roupas, paredes e pulmões, enquanto doenças tropicais como malária e febre amarela atingiam a colônia. Os insetos eram uma praga incessante, picando durante o dia e zumbindo nas noites insones. As crianças ficavam cobertas de marcas vermelhas, e Sofia frequentemente fazia emplastros improvisados com ervas que aprendera a usar com os vizinhos. Os animais selvagens, embora raramente vistos, deixavam seus sinais: rastros ao redor da cabana e rugidos distantes durante a madrugada, fazendo com que cada estalo no mato fosse um lembrete constante do isolamento.

As noites eram especialmente difíceis. Sem luz elétrica, a escuridão parecia esmagadora, uma presença física que envolvia a pequena cabana de madeira. Durante essas longas horas, os lamentos de Vittorio enchiam o espaço. Ele se perguntava em voz alta se havia cometido um erro fatal ao trazer sua família para tão longe, para um lugar onde o solo parecia tão hostil quanto os céus da Itália haviam sido. Lucia, apesar de exausta, era o pilar silencioso, mantendo os filhos unidos e tentando acalmar o marido.

Mas Sofia, mesmo sentindo o peso das dificuldades, recusava-se a ceder ao desespero. Determinada a transformar o caos em oportunidade, começou a se aproximar dos outros imigrantes na colônia. Ela logo percebeu que a maior arma que poderia empregar contra a adversidade era o conhecimento. Com um caderno surrado que havia trazido da Itália, começou a aprender português ouvindo os vizinhos e repetindo as palavras em voz alta, praticando até que a língua começasse a soar menos estrangeira

Sua curiosidade natural e habilidade com números rapidamente chamaram a atenção. Os raros comerciantes locais, que enfrentavam dificuldades para manter as contas em ordem, começaram a procurar Sofia. Ela os ajudava a calcular preços, registrar dívidas e planejar os gastos. Em pouco tempo, tornou-se indispensável. Os pais, vendo a utilidade de sua inteligência, apoiaram sua iniciativa, mesmo quando o trabalho no campo exigia sua presença.

Além disso, Sofia notou que muitas crianças da colônia estavam crescendo sem qualquer tipo de instrução. Com a permissão dos pais e a ajuda de uma vizinha, que também era imigrante e tinha alguma educação, ela começou a organizar uma pequena escola. O espaço era improvisado, uma clareira entre as árvores com bancos feitos de troncos caídos, mas era um começo. As crianças, muitas delas órfãs de esperança, vinham curiosas e ansiosas, trazendo um brilho aos dias de Sofia. Ensinar deu-lhe propósito, e sua determinação inspirou outros colonos a contribuírem, doando tempo, ferramentas ou materiais.

Para Sofia, cada passo à frente, por menor que fosse, era uma vitória contra o destino aparentemente implacável que a família enfrentava. A floresta ainda os rodeava, sombria e imponente, mas agora ela sentia que, dentro daquele verde impenetrável, havia uma promessa de vida. E, acima de tudo, ela acreditava que, mesmo no meio da adversidade, a força de vontade e o trabalho árduo poderiam abrir caminho para um futuro mais promissor.


A Construção de um Futuro

Em 1891, Sofia Bellini encontrou em Marco Fioretti, um jovem ferreiro italiano de espírito empreendedor, um parceiro não apenas para a vida, mas também para os sonhos. Marco era conhecido por sua habilidade em moldar ferro com precisão e força, e sua fama na colônia crescia à medida que ele produzia ferramentas indispensáveis para a sobrevivência dos imigrantes. Eles se casaram em uma cerimônia simples, realizada na capela improvisada da colônia, sob um céu carregado que parecia abençoar a união com sua chuva suave.

Logo após o casamento, Sofia e Marco começaram a sonhar além da sobrevivência diária. Observando a necessidade crescente de materiais de construção à medida que a colônia se expandia, decidiram fundar uma pequena olaria, a Fioretti & Bellini. O local escolhido era próximo de um riacho, onde a argila vermelha de qualidade abundava. Marco dedicou-se à construção do forno de alvenaria, utilizando seus conhecimentos de ferreiro para projetar uma estrutura eficiente, enquanto Sofia organizava o fluxo de trabalho, as finanças e as negociações com os fazendeiros locais.

A olaria logo se tornou um pilar da comunidade. As telhas e os tijolos, moldados à mão e queimados com perfeição, eram robustos e acessíveis, permitindo que os colonos construíssem casas mais sólidas do que as cabanas de madeira em que haviam começado. Marco passava dias junto ao forno, supervisionando cada etapa do processo, enquanto Sofia cuidava das relações comerciais. Sua habilidade em português e matemática fez dela uma negociadora respeitada, garantindo acordos vantajosos e fidelidade dos clientes.

Com o tempo, o casal prosperou. A pequena olaria transformou-se em uma operação de médio porte, empregando outros imigrantes e promovendo o desenvolvimento local. Sofia e Marco tiveram três filhos, que cresceram saudáveis em meio ao progresso da colônia. Sofia fez questão de que frequentassem a escola que ela ajudara a construir anos antes. Embora a educação fosse básica, ela acreditava firmemente que o conhecimento seria a chave para um futuro mais brilhante.

Em 1902, um marco significativo foi alcançado na colônia: a inauguração da primeira igreja de alvenaria, símbolo da fé e da resiliência dos imigrantes. Os tijolos da Fioretti & Bellini estavam em cada parede, um testemunho silencioso da contribuição de Sofia e Marco para o crescimento da comunidade. Durante a cerimônia de inauguração, Sofia foi chamada ao altar pelo padre local e reconhecida publicamente por seu papel no desenvolvimento da colônia. Com lágrimas nos olhos, ela agradeceu em português, sua voz misturando-se ao calor das palmas e ao orgulho coletivo dos colonos.

Aquela igreja não era apenas um prédio; era um monumento à força de vontade, à união e aos sacrifícios de tantas famílias como os Bellini. Sofia, que um dia havia enxergado apenas incertezas na selva, agora via o futuro em cada parede erguida, em cada criança que aprendia a escrever, e no brilho dos olhos de seus filhos, que carregavam a promessa de que a jornada deles não havia sido em vão.


Legado e Memórias

Sofia Bellini Fioretti, uma mulher cuja vida se entrelaçou com a história de uma comunidade, viveu até os 78 anos, deixando um legado que transcendeu sua própria existência. Ao longo das décadas, tornou-se uma das figuras mais respeitadas de Pedrinhas, conhecida não apenas por sua liderança, mas também pela compaixão e determinação que moldaram o destino de tantos ao seu redor.

Nos últimos anos de sua vida, Sofia dedicou-se a registrar suas memórias em cadernos simples, encadernados com couro envelhecido, onde sua caligrafia firme dava vida às histórias de luta e superação de uma geração. Não eram apenas relatos pessoais; eram crônicas de um povo que cruzou oceanos em busca de um futuro melhor. Ela escrevia sobre os primeiros dias de angústia e dúvida, os momentos de perda e desespero, mas também sobre a força que encontrou no trabalho conjunto, no amor por sua família e na fé que os sustentava.

Seus cadernos narravam a jornada desde Montecassini, a vila de colinas verdes que ela jamais esqueceu, até o coração da colônia que ajudou a construir. Eles traziam os detalhes das pragas que devastaram a Itália, da longa travessia no Comte d’Abruzzi, e das noites insones nos primeiros meses em terras brasileiras. Mas, acima de tudo, suas palavras ecoavam esperança, a mesma esperança que havia inspirado seus filhos a estudar, seus vizinhos a persistir, e sua comunidade a crescer.

Quando Sofia faleceu, em 1945, sua morte foi sentida como uma perda coletiva. A pequena igreja de alvenaria, que tantos anos antes fora construída com tijolos da Fioretti & Bellini, encheu-se de amigos, familiares e conhecidos. Durante o funeral, o padre leu um trecho de suas memórias, descrevendo como a coragem de um indivíduo pode influenciar gerações. “Ela não era apenas a mãe de sua família, mas a mãe de nossa comunidade,” declarou ele, emocionado.

Hoje, o nome de Sofia adorna a escola que ela fundou, agora uma instituição de ensino reconhecida pela qualidade e tradição. A Escola Sofia Bellini Fioretti é um símbolo do espírito inquebrantável que transformou sonhos em realidade. Na entrada, uma estátua em bronze retrata Sofia com um caderno em uma das mãos e uma criança pela outra, representando sua dedicação à educação e ao futuro. No salão principal, estão expostos seus cadernos originais, preservados como um testemunho de sua visão.

A influência de Sofia se estende até os dias de hoje. Historiadores, professores e até mesmo descendentes dos primeiros colonos estudam seus escritos, inspirados por sua narrativa de resiliência. Para muitos, sua história é um lembrete de que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, a determinação e o trabalho árduo podem construir legados que perduram além do tempo. E em cada sala de aula, cada livro aberto e cada tijolo erguido, a presença de Sofia Bellini Fioretti continua viva.


Nota do Autor


A história de Sofia Bellini Fioretti é uma obra de ficção inspirada nas trajetórias reais de milhares de imigrantes italianos que, no final do século XIX, deixaram suas terras natais em busca de esperança em solo brasileiro. Embora os eventos e personagens apresentados neste relato sejam fictícios, eles representam as experiências, lutas e conquistas de homens e mulheres que enfrentaram o desconhecido com coragem e resiliência. A imigração italiana para o Brasil foi marcada por desafios imensuráveis: a adaptação a um clima tropical, o desbravamento de terras cobertas pela mata atlântica, as condições precárias de trabalho e moradia, e a saudade eterna das paisagens e pessoas deixadas para trás. Contudo, foi também uma história de superação e progresso, com as comunidades italianas contribuindo significativamente para a formação cultural, econômica e social do país.

Em criar Sofia e sua jornada, busquei homenagear não apenas os pioneiros que construíram novas vidas, mas também aqueles que, como ela, valorizaram a educação, a união comunitária e o trabalho como instrumentos para transformar adversidades em oportunidades. Sofia é fictícia, mas o espírito que ela encarna é real. Ele vive nas famílias que plantaram raízes em terras desconhecidas, nos filhos e netos que prosperaram, e nas comunidades que continuam a florescer, carregando o legado de seus antepassados.

Que esta narrativa nos lembre da força que reside em nossos próprios desafios e da importância de preservar e celebrar as histórias de quem veio antes de nós.

Com gratidão e respeito,

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

La Polenta Il Cibo Povero dei Nostri Noni


La Polenta 

Il Cibo Povero dei Nostri Noni


La polenta la ze pì de ´na riceta — la ze memòria, laoro e famèia. I nostri noni i gavea poco e la polenta zera quela che ghe dava forsa e calor. La stòria de la polenta la parte da lontan, quando ancora el mondo europeo no gavea el granoturco, e la passa par tante campagne e tante mani fin che la ze rivà fin qua, ´nte le nostre zente.

Le radise antiche: dal “puls” romano a le pape de              l´Europa

Prima del granoturco, i Romani i mangiava na papa ciamà puls, fata de farro, avena o altri cereai. La puls la gavea la funsion de dar energia ai legionari e ai contadin: ´na roba sèmplisse e sostansiosa. Con el passar del tempo i ingredienti i ze cambià secondo de quel che la tera gavea da ofrir; la forma de papa la ze sempre restà, fin che el granoturco el riva e el cámbia tuto. 

El arivo del granoturco e la trasformassion in Vèneto e Lombardia

El granoturco el ze rivà da le Americhe e, tra el XVI e el XVII sècolo, el se ga sparpaià par le campagne del Nord d´Itàlia. In poche desene de ani el ze stà coltivà largo e la polenta de granoturco la diventa el piato de ogni zorno: bona, che la dura e che la riempe la pansa de chi laora. I studi e i chef i dise che sto cambiamento el ga fato ´na vera rivolussion agrìcola in sti paesi del Nord. 

Varietà: polenta mole, dura e la nera (o mesclà)

´Ntei monti se fa la polenta nera o mesclà: farina de granoturco con farina de grano saraceno, butiro e formài o puina — na roba robusta, che scalda el corpo. In pianura se preferisse la polenta pì fina, che se magna sùbito bea tènera. Se po anca la far sfredar, taiar e fritar o rostir (brustolà): cusì la se gusta anca come antepasto o contorno. 

El rito de fare: el pignaton e la mèstola de legno

Far la polenta con el vècio pignaton de rame e con el gran cuciaro de legno (la mèstola) el volea tempo e forsa: se stava a mescolà (smissiar) par tanto fin che la polenta la fasea fila. El gesto de mescolar no zera solo cusina: zera ocasion par parlar, scambiar notìsie e sentirse comunità. Ancòi ghe ze i mètodi moderni, ma chi che ga provà el paiolo el sa che ze 'n’altro gusto.

La polenta che vien con i emigranti in Brasil

Quando i nostri noni i partiva par Brasil a la fin del 1800, i ga portà con lori el gusto e la abitùdine de far la polenta. ´Nte le colónie do Sud del Brasil la polenta la radica e la se adata con la farina (fubà) local, con el formàio e con i ragù de carne. La polenta frita la ze diventà un peritivo popular e anca fora de le comunità italiane la gente la ga imparà a gustarla. Studi e ricerche local i mostra come la polenta la ze diventà sìmbolo de cultura ítalo-brasilian. 

Ricete pratiche (breve)

  • Polenta mole: 1 parte de farina de grano turco par 4–5 parti de aqua (salà); butar la farina de granoturco (fubá) a poco a poco, mescolar e cusinà 30–45 minuti; finir con butiro e formài gratà. 

  • Polenta dura: farla sfredar ´nte ´na forma, taiar e dorar ´nte la pignata o al forno; bon con salume e carni.

  • Polenta Nera o Mesclà: mescolà farina de granoturco e farina de grano saraceno, cusinar lento e zontar butiro e formàio a fine cotura. Se po arostir (brustolà).

Polenta, memòria e festa

La polenta la resta drento la testa come odore de casa: el prufumo del butiro, el rumore de la mèscola e la feta de formàio che se sfonde. La ze el piato de festa e el piato de la fame; la unisse generassion e la conta stòrie. ´Nte le feste e ´nte le fradèi, la polenta la ze ancora presente, portandose drento la vita e el straco dei nostri noni. 


sábado, 18 de outubro de 2025

La Saga de l’Emigrassion Italiana

 


La Saga de l’Emigrassion Italiana: 

Parché milioni de italian i ga lassà la so tera par ’ndar in serca de ’na nova vita ’ntel Brasil?

"Dighe a lori che noialtri i ga lassà i paroni ´n Itàlia che qui semo el paron de la nostra vita, gavemo da magnar e da bever quanto che volemo e anca ària bona, e questo par mi vol dir tanto. Mi no volea pì stà in Itàlia, soto quei paroni malandrini. Qua, par catar ’na autorità, ghe vole sei ore de viaio".

(Lètara a la famèia de un emigrante véneto sistemà ’nte le tere brasilian).

L’emigrassion italiana par el Brasil ’nte el sècolo XIX la ze stà grande e la ga avù ´na parte importante ’nte el svilupo económico e cultural del nostro paese. Tra el 1880 e el 1920, pì de un milion de italiani i ze vegnù a stà in Brasil.
El gran flusso de emigranti el rivava sopratuto dal nord de l’Itàlia e el ga durà relativamente poco, manco de 50 ani. Tanti italiani i se ga naturalisà brasilian zà verso la fin del sècolo XIX. Ancòi, se conta che ghe ze sirca 25 milion de brasilian de dissendensa italiana.

La emigrassion italiana verso el Brasil la ga scominsià ´ntel 1875, quando el governo imperiale brasilian el ga scominsià a incoragiar l’entrada de laoradori europei, par ingrandir la popolassion ’nte le zone poco popolate dei pampas gaúcho e anca par rimpiassar la manodòpara dei schiavi africani che i ga avù la libartà. Par questo el ga creà colónie, discretamente ben organisà, sopratuto ’nte le campagne lontan del sud, par che italiani e altri europei podesse migrar. ´Ntei stati del sudeste del Brasil, miaia de contadin italiani i ze stà anca sistemà par laorar ’nte le grande fasende de cafè paulista e capixaba.

Le rason che spinse milioni de italiani a lassar la so tera le ze stà tante: la misèria, la soprapopolassion, la disocupassion e le guere in Itàlia, e par contro, le oportunità che ghe parea de catar in Brasil. La domanda mundial de cafè la cresseva e el Brasil, paese zòvene e in fase de svilupo, el zera vardà come un “El Dorado”.

Le condission de vita dei pìcoli contadin, dei fituali e dei mesadri el zera quasi le stesse dei brassianti, e tanti de quei picoli paron de tera i ze stà spentonà a laorar come operai in altre zone par sopravìvere. La emigrassion la ze stà vardà come ’na solussion a la gran crisi de disocupassion che zà da ani colpiva el Regno d’Itàlia.

Insieme a le famèie, partì anca la cultura: le língue, i costumi, i modi de laorar. E anca i fati polìtici, le carestie, i laori de staion le guerre i ga dà forsa a l’idea de partir. L’economia italiana del tempo la zera in gran parte baseà ´ntel campo, ma ferma e indrio rispeto ai altri paesi europei. El svilupo industrial el venia lento e el squilìbrio tra el nord e el sud de la penìnsola lo rendea ancor pì difìssil.

“La gran emigrassion europea durante el sècolo XIX la ze, sopratuto, conseguensa de le trasformassion agràrie portà dal capitalismo. El campo lu el ze diventà un espulsor de persone in tuti i paesi europei, in tempi diversi, ma con lo stesso destino: la distrussion de l’òrdine tradisional de la campagna, che tegniva in equilibrio la produssion agrìcola e artisianal durante le staion de l’ano”.

La situassion económica in Itàlia a quei tempi la segnava forte la dessision de lassar tuto e ’ndar verso el Brasil, che par tanti parea pròprio el “El Dorado” de l’Amèrica.


Nota

La létera che scomìnsia sto articolo la ze un testimónio vero de un emigrante véneto stabilì ’nte el Brasil verso la fin del sècolo XIX. La so vose, schieta e sincera, la ze el spècio de miliaia de òmeni e done che i ga lassà un’Itàlia segnada da la misèria del campo, da la sovrapopolassion e dal ritardo económico, par sercar fortune nuove al de là del Atlàntico.

Tra el 1875 e el 1920, el Brasil lu el acolse un gran nùmaro de italiani, sopratuto dal nord de la penìnsola. Le dificoltà del campo, agravà dal capitalismo agràrio e dal fermo industrial, ga spinto famèie intere a l’emigrar. In Brasil, la fin de la schiavitù e l’espansion de le piantaioni de cafè ga verzo spàssio ai laoradori foresti, che i ze stà messi sia ’nte le colónie agrìcole del Sud che ’nte le fasende del Sudeste.

Sto movimento umano no el ze stà solo un fato demogràfico: el ga cambià profondamente le comunità italiane d’origine e la società brasilian che stava nassendo. I emigranti i ga portà novi costumi, novi tecniche agrìcole e novi forme de sossiabilità, anca se i ga sofresti la duresa del laoro, la lontanansa e la dificoltà de l’adatarse. El Brasil, par contro, el guadagnò un contingente de laoradori lìbari che i ga contribuì al svilupo económico e a la creassion de ’na diversità culturale che ancòi fa parte de la so identità.

La lètara riportà la sintetisa ben sto momento stòrico: la rotura con l’opression del passà e la costrussion de ’na nova identità ’nte tere lontan. Con sto framento de memòria, situà ´ntel so contesto, se vol onorar le generassion de emigranti che, con fadiga e coraio, i ga trasformà sia l’Itàlia che i ga lassà sia el Brasil che i ga contribuì a costruir.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta