Mostrando postagens com marcador brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador brasil. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O Nome Gravado na Cruz de Madeira | A Memória da Imigração Italiana

 


O Nome Gravado na Cruz de Madeira

"Há nomes que desapareceram da madeira, mas jamais foram apagados da memória das famílias que aprenderam a transformar saudade em eternidade."

Há uma espécie de silêncio que só existe nos cemitérios antigos das colônias italianas. Não é o silêncio da ausência, mas o da permanência. As árvores continuam respirando sobre as sepulturas, o vento percorre as folhas como quem recita antigas ladainhas, e a chuva, paciente, vai alisando a madeira até transformá-la quase em memória pura.

Foi ali que compreendi que a imigração nunca terminou.

Ela continua acontecendo todas as vezes que alguém para diante de uma cruz envelhecida e tenta decifrar um nome que o tempo quase apagou.

As primeiras cruzes eram simples. Não havia mármore, granito nem escultores. Havia pinheiros derrubados na mata, machados gastos pelo trabalho e mãos acostumadas a construir casas, pontes, cercas e esperança. Quando a morte chegava, era da mesma madeira da floresta que nascia a última homenagem.

A cruz não pretendia desafiar os séculos. Pretendia apenas dizer que ali alguém havia existido.

Um nome gravado com canivete era tudo o que restava entre o esquecimento e a eternidade.

Muitos daqueles homens tinham deixado aldeias pequenas do Vêneto, do Trentino, da Lombardia ou do Friuli. Embarcaram levando poucas roupas, um rosário, algumas fotografias e uma fé que parecia maior que o próprio oceano. Sonhavam plantar videiras, construir uma casa de pedra e oferecer aos filhos um destino menos cruel do que aquele que haviam conhecido na Europa.

Mas nem todos conseguiram envelhecer à sombra das parreiras.

Houve crianças vencidas pelas febres antes mesmo de aprenderem as primeiras palavras em português. Houve mulheres que chegaram exaustas depois da travessia e nunca recuperaram as forças. Houve homens que enfrentaram árvores gigantescas durante o dia para, à noite, serem derrotados por doenças para as quais não existia remédio.

A terra que prometia futuro também exigia um preço.

E esse preço, muitas vezes, era escrito sobre uma pequena cruz de madeira.

Imagino um pai escolhendo, entre tantos troncos da mata, um pedaço reto de pinheiro. Não porque fosse bonito, mas porque era digno. Sentado diante da casa de tábuas ainda cheirando à resina, ele afia lentamente o canivete. Cada golpe da lâmina parece mais pesado do que o machado que havia aberto a floresta. A madeira oferece pouca resistência; o coração, nenhuma.

Primeiro surge a cruz.

Depois, as letras.

Cada letra é uma despedida.

Cada risco parece arrancar um pouco da própria alma.

Talvez o nome tenha sido gravado sem grande habilidade. Talvez algumas letras tenham ficado tortas. Talvez o homem nunca tivesse aprendido a escrever corretamente. Mas ninguém poderia dizer que aquelas palavras não foram escritas com amor.

Existe uma caligrafia que pertence apenas à dor.

Ela não se aprende nas escolas.

Ela nasce quando as lágrimas caem sobre a madeira antes mesmo de o nome terminar de ser gravado.

Décadas passaram.

As casas de madeira transformaram-se em sobrados de alvenaria. As trilhas tornaram-se estradas. A luz elétrica substituiu os lampiões. Os netos aprenderam outras profissões, falaram outras línguas e atravessaram cidades que os avós jamais imaginaram existir.

Entretanto, em muitos cemitérios do interior, aquelas cruzes permaneceram.

Algumas inclinadas.

Outras cobertas de musgo.

Outras quase vencidas pelo tempo.

Mas ainda de pé.

É curioso perceber como a madeira envelhece de maneira semelhante à memória. Ambas racham, escurecem, perdem detalhes, mas conservam aquilo que realmente importa.

Mesmo quando as letras desaparecem, continua existindo uma presença impossível de explicar.

Há quem pense que genealogia seja apenas procurar sobrenomes em velhos documentos.

Talvez seja muito mais do que isso.

Talvez seja caminhar entre essas cruzes e compreender que cada família começou porque alguém aceitou viver onde nada existia. Antes dos cartórios organizados, antes das fotografias abundantes, antes das certidões preservadas, existiu apenas um nome gravado à mão sobre uma tábua retirada da floresta.

Ali estava escrita toda uma biografia.

Não havia necessidade de muitas palavras.

A cruz dizia o restante.

Dizia das noites frias passadas em barracas improvisadas.

Das sementes lançadas em terras desconhecidas.

Das saudades escondidas para não entristecer os filhos.

Das cartas que jamais receberam resposta.

Das festas de colheita em que se cantava para esquecer o cansaço.

Das orações feitas em dialeto quando ninguém mais entendia aquele idioma.

Tudo permanecia silenciosamente guardado naquela madeira.

Os anos ensinaram outra lição.

Descobri que nenhuma cruz marca apenas o lugar onde alguém terminou sua caminhada.

Ela também indica o ponto exato onde outra história começou.

Muitas famílias prosperaram porque alguém permaneceu firme depois de uma perda que parecia insuportável. Continuaram plantando, construindo, educando filhos e netos. A dor não encerrou a esperança; apenas a tornou mais humilde.

Talvez seja por isso que aqueles antigos cemitérios nunca transmitam desespero.

Transmitam serenidade.

Quem repousa ali pertence a uma geração que compreendia o valor do sacrifício sem transformá-lo em espetáculo. Sofriam em silêncio, trabalhavam em silêncio e amavam com uma intensidade que raramente precisava de palavras.

A madeira das cruzes um dia desaparecerá completamente.

Os insetos, a chuva, o sol e o vento concluirão aquilo que o tempo iniciou.

Entretanto, há uma matéria muito mais resistente do que qualquer árvore.

É a gratidão.

Enquanto houver um descendente disposto a pronunciar aqueles antigos sobrenomes com respeito, nenhuma cruz terá desaparecido de verdade.

Porque a madeira foi apenas o suporte.

O nome era apenas um sinal.

O verdadeiro monumento sempre esteve invisível.

Foi construído dentro das famílias, transmitido de geração em geração, como uma herança silenciosa que não cabe nos inventários.

E talvez seja justamente essa a maior vitória dos imigrantes.

Eles partiram sem imaginar que seus nomes, gravados um dia sobre uma simples cruz de madeira, acabariam gravados para sempre na própria história do Brasil.


Nota do Autor

Sempre me impressionou perceber que os grandes acontecimentos da História costumam sobreviver nos livros, enquanto as maiores demonstrações de amor permanecem escondidas em objetos que quase ninguém observa. Entre eles, talvez nenhum seja mais humilde do que uma antiga cruz de madeira esquecida em um pequeno cemitério do interior.

Ao caminhar por velhos cemitérios das antigas colônias italianas, aprendi que aquelas cruzes não representam apenas a morte de alguém. Elas testemunham uma época inteira. Cada uma foi talhada pelas mãos calejadas de homens que haviam atravessado o Atlântico em busca de uma vida melhor e que, muitas vezes, precisaram enfrentar a dor antes mesmo de colher os frutos da esperança. Não havia recursos para monumentos de pedra. Restava a madeira retirada da própria floresta, um canivete, algumas letras gravadas com esforço e uma fé capaz de transformar a simplicidade em eternidade.

Foi essa aparente insignificância que me motivou a escrever esta crônica.

Vivemos em um tempo em que somos atraídos por grandes monumentos, datas memoráveis e personagens célebres. Entretanto, a verdadeira história da imigração italiana foi construída por pessoas comuns, cujos nomes dificilmente aparecem nos livros escolares. Muitos deles sobreviveram apenas porque um pai, um irmão ou um filho encontrou forças para gravá-los em uma cruz antes que o tempo começasse seu paciente trabalho de apagar as marcas da madeira.

Sempre que encontro uma dessas cruzes envelhecidas, penso que ela vale tanto quanto um documento histórico. Ali não está apenas o registro de uma morte, mas a prova silenciosa de uma vida inteira de coragem. Sob aquela madeira repousam sonhos interrompidos, saudades da Itália, sacrifícios desconhecidos e o preço humano pago para que as gerações seguintes pudessem viver com mais dignidade.

Talvez muitos passem diante dessas cruzes sem lhes dedicar um único olhar. Eu, porém, vejo nelas um dos capítulos mais emocionantes da imigração. A madeira envelhece, as letras desaparecem e o tempo cobre tudo com musgo e silêncio. Ainda assim, aquilo que realmente importa permanece vivo: a memória de pessoas simples que transformaram sofrimento em futuro.

Escrevi esta crônica porque acredito que a História não se preserva apenas nos arquivos, nos museus ou nas bibliotecas. Ela também sobrevive nesses pequenos sinais espalhados pelo caminho, quase invisíveis, esperando que alguém lhes devolva a voz. Se, depois desta leitura, algum descendente visitar o antigo cemitério de sua comunidade e parar por alguns instantes diante de uma velha cruz de madeira com um olhar diferente, então estas páginas já terão cumprido sua verdadeira missão.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O Oceano que Também Adoecia – A Verdadeira Tragédia Sanitária da Imigração Italiana ao Brasil


O Oceano que Também Adoecia – A Verdadeira Tragédia Sanitária da Imigração Italiana ao Brasil

Uma História da Travessia, das Doenças e da Esperança dos Imigrantes Italianos

O vapor deixou lentamente o porto de Gênova numa manhã fria dos primeiros anos do século XX. Enquanto o continente desaparecia atrás da névoa, ninguém imaginava que o maior inimigo daquela viagem não seria o Atlântico, mas aquilo que cada passageiro carregava dentro do próprio corpo.

Entre centenas de emigrantes seguia Giovanni Bellotto, um pequeno agricultor do Vêneto que vendera os poucos bens da família para buscar uma nova vida no Brasil. Sua esposa Teresa apertava contra o peito a filha de quatro anos, enquanto o pequeno Carlo, de apenas oito anos, observava fascinado a imensidão do mar. Como milhões de italianos daquele período, acreditavam que a travessia duraria poucas semanas. Não sabiam que, para muitos, aqueles dias pareceriam uma eternidade.

Nos porões do navio misturavam-se homens, mulheres e crianças vindos das mais diversas regiões da Itália. Havia camponeses lombardos, operários piemonteses, famílias vênetas e trabalhadores do sul da península. Eram pessoas diferentes, unidas pela mesma pobreza e pela mesma esperança.

As companhias de navegação anunciavam embarcações modernas e seguras. Os folhetos prometiam higiene, assistência médica e conforto suficiente para enfrentar o oceano. A realidade começava poucos minutos depois do embarque.

Os dormitórios eram estreitos. O ar tornava-se pesado ainda nas primeiras horas de viagem. O cheiro de roupas úmidas, comida, carvão e corpos comprimidos parecia impregnar a madeira do navio. Dormia-se pouco. Respirava-se pior.

Oficialmente, existia um serviço sanitário responsável por acompanhar a saúde dos emigrantes durante a travessia. Médicos governamentais e comissários viajantes registravam os casos de doença e elaboravam relatórios enviados posteriormente ao Comissariado Geral da Emigração italiana.

Na prática, porém, aquele sistema estava longe de funcionar como deveria.

Os próprios relatórios oficiais reconheceriam, anos depois, que os serviços sanitários, tanto em terra quanto a bordo, encontravam-se profundamente desorganizados. As estatísticas registravam apenas os doentes examinados pelos médicos do navio. Um número muito maior permanecia invisível.

Giovanni percebeu isso poucos dias depois da partida.

Um rapaz da cabine vizinha tossia sangue durante a madrugada, mas recusava qualquer atendimento. Temia que, ao chegar ao Brasil, fosse considerado incapaz para o trabalho e devolvido à Itália. Outros escondiam febres, feridas ou dificuldades para enxergar, acreditando que a doença significaria o fim do sonho americano.

O medo tornava-se mais forte que a dor.

Não era apenas desconfiança dos médicos. Muitos emigrantes vinham de aldeias onde praticamente nunca haviam recebido atendimento médico. Acostumados a enfrentar enfermidades sozinhos, viam os médicos do governo como representantes de uma autoridade capaz de destruir anos de sacrifício.

Teresa também escondia o mal-estar da filha. A menina apresentava febre leve havia dois dias, mas qualquer visita ao ambulatório parecia um risco maior do que a própria doença.

A bordo, circulavam histórias assustadoras.

Diziam que alguns passageiros eram desembarcados diretamente em hospitais. Outros comentavam que famílias inteiras haviam sido impedidas de entrar no país de destino por causa de um simples diagnóstico médico.

Ninguém sabia exatamente o que era verdade.

Mas todos acreditavam.

Décadas depois, as estatísticas confirmariam aquilo que Giovanni apenas intuía. Uma parcela significativa dos emigrantes jamais aparecia nos registros oficiais. Muitos viajavam em embarques semiclandestinos tolerados por companhias de navegação. Outros utilizavam portos estrangeiros ou embarcavam em navios praticamente desprovidos de assistência sanitária. Havia ainda aqueles que simplesmente evitavam qualquer contato com os médicos durante toda a travessia.

Por isso, os números oficiais sempre foram inferiores à verdadeira dimensão do sofrimento vivido no oceano.

À medida que o navio avançava pelo Atlântico, as doenças começavam a circular silenciosamente entre os passageiros.

O sarampo espalhava-se com rapidez assustadora, principalmente entre as crianças.

Logo atrás aparecia outra enfermidade muito conhecida pelos camponeses italianos: a malária.

Embora muitos acreditassem que a doença pertencesse apenas às regiões pantanosas da Itália, inúmeros emigrantes embarcavam já debilitados. As estatísticas sanitárias registrariam que a malária figurava entre as enfermidades mais frequentes nas viagens para a América, superada apenas pelo sarampo.

Outros passageiros apresentavam tracoma, doença que lentamente roubava a visão.

Havia também numerosos casos de escabiose, conhecida como sarna, consequência direta das precárias condições de higiene e da superlotação dos alojamentos.

O navio transformava-se numa pequena cidade flutuante onde cada enfermidade encontrava terreno fértil para se espalhar.

Giovanni observava tudo em silêncio.

Na terceira semana de viagem, um velho agricultor da Emília deixou de aparecer para as refeições. Dias depois soube-se que havia sido isolado após uma forte suspeita de tuberculose.

O simples nome da doença espalhava medo.

A tuberculose já devastava milhares de famílias italianas antes mesmo da emigração e continuaria perseguindo muitos trabalhadores durante os anos seguintes. Os registros oficiais mostrariam que ela se tornaria uma das enfermidades predominantes nas viagens de retorno das Américas, especialmente entre aqueles que regressavam debilitados após anos de trabalho pesado.

Não era a única.

Os relatórios também registrariam o aumento do tracoma entre os repatriados, além do aparecimento da ancilostomíase, praticamente inexistente nas viagens de ida e associada às difíceis condições de trabalho encontradas em diversas regiões americanas.

Nos retornos provenientes da América do Norte, além da tuberculose pulmonar, chamava atenção o elevado número de casos de transtornos mentais.

Poucos imaginavam o peso psicológico carregado por homens derrotados que regressavam sem dinheiro, sem saúde e, muitas vezes, sem família.

Giovanni nunca esqueceria um passageiro que passava horas olhando o horizonte sem pronunciar uma única palavra. Alguns diziam que perdera a esposa durante outra travessia. Outros afirmavam que enlouquecera trabalhando nas minas americanas.

Talvez ninguém soubesse a verdade.

Talvez nem ele próprio.

As estatísticas oficiais demonstrariam mais tarde que os índices de mortalidade e de adoecimento eram sistematicamente maiores nas viagens para a América do Sul. Não era coincidência.

Os navios destinados ao Brasil e à Argentina transportavam enorme quantidade de famílias completas, com mulheres, idosos e, sobretudo, crianças muito pequenas, naturalmente mais vulneráveis às epidemias e às privações da longa travessia.

Apesar disso, a maioria sobrevivia.

Quando finalmente surgiu a costa brasileira, Giovanni percebeu que todos olhavam para a terra em absoluto silêncio.

Não havia gritos.

Nem aplausos.

Apenas lágrimas discretas.

Cada sobrevivente sabia que não vencera apenas um oceano.

Vencera também semanas de medo, doenças escondidas, assistência precária e uma realidade muito diferente daquela prometida pelos agentes de imigração.

Anos depois, pesquisadores reuniriam relatórios médicos, diários de bordo e estatísticas produzidas entre 1903 e 1925. Descobririam que aqueles documentos revelavam apenas parte da verdade. Atrás de cada número existiam homens e mulheres que esconderam febres, crianças que enfrentaram o sarampo longe de casa, trabalhadores debilitados pela malária, famílias marcadas pelo tracoma e sobreviventes da tuberculose.

Os arquivos conservaram percentuais.

O oceano guardou histórias.

E foi sobre essas histórias silenciosas, quase nunca escritas nos livros oficiais, que milhões de italianos construíram o primeiro capítulo de suas vidas no Brasil. Antes mesmo de derrubarem uma única árvore, cultivarem uma única lavoura ou erguerem a primeira casa, precisaram vencer a mais invisível de todas as fronteiras: a luta pela própria sobrevivência durante a travessia do Atlântico.


Nota do Autor

Ao longo de décadas pesquisando a imigração italiana, aprendi que a História nem sempre é escrita com lágrimas. Muitas vezes ela chega até nós em forma de tabelas, relatórios, estatísticas e documentos oficiais que registram apenas aquilo que podia ser contado. Os sentimentos, os medos e as angústias quase nunca aparecem nesses papéis.

Foi exatamente por isso que senti a necessidade de escrever esta narrativa.

Quando encontrei os antigos relatórios do Comissariado Geral da Emigração Italiana e as observações feitas pelos médicos dos navios que cruzavam o Atlântico, percebi que, por trás de cada índice de mortalidade, de cada percentual de doenças e de cada registro burocrático, existiam rostos que jamais foram identificados. Eram homens, mulheres e crianças que embarcaram acreditando estar viajando para o futuro, sem imaginar que a própria travessia poderia se transformar em uma luta diária pela sobrevivência.

A grande epopeia da imigração italiana costuma ser lembrada pelas colônias fundadas, pelas florestas derrubadas, pelas cidades construídas e pelo extraordinário legado cultural deixado no Brasil. Pouco se fala, porém, sobre aquele intervalo entre o porto de partida e o porto de chegada. Pouco se recorda que o oceano também foi um campo de provas, onde a esperança dividia espaço com o medo, a saudade caminhava ao lado da incerteza e a doença podia destruir, em poucos dias, o sonho alimentado durante toda uma vida.

Escrever sobre essa travessia é devolver humanidade a milhares de pessoas que permaneceram anônimas. É lembrar que muitos esconderam sua febre para não serem impedidos de desembarcar, suportaram dores em silêncio para não comprometer o futuro da família e enfrentaram enfermidades sem qualquer garantia de assistência adequada. Eram pessoas comuns colocadas diante de circunstâncias extraordinárias.

Também considero importante recordar esse episódio porque ele nos ensina que a imigração não começou nas colônias brasileiras. Ela começou muito antes, nas aldeias italianas marcadas pela pobreza, continuou nos portos de embarque e atingiu seu momento mais dramático sobre as águas do Atlântico. O navio não era apenas um meio de transporte; era a fronteira entre duas existências. Muitos chegaram transformados para sempre, não apenas pelo oceano percorrido, mas pelas perdas, pelos sofrimentos e pelas marcas invisíveis que carregariam pelo resto da vida.

Se hoje milhões de brasileiros descendem daqueles emigrantes, é justo conhecer não apenas suas conquistas, mas também o preço humano que pagaram para alcançá-las. Nenhuma estatística consegue medir o valor da coragem de uma mãe que tentava proteger os filhos em um porão superlotado, de um pai que escondia a própria doença para não perder a oportunidade de recomeçar, ou de uma criança que atravessava o oceano sem compreender por que deixara para trás tudo o que conhecia.

Esta obra procura oferecer voz justamente a esses personagens esquecidos. Não para substituir a História documentada, mas para caminhar ao lado dela, iluminando os espaços que os arquivos não conseguiram preencher.

Porque acredito que preservar a memória da imigração italiana significa muito mais do que conservar datas, listas de passageiros e fotografias antigas. Significa compreender que a prosperidade construída por seus descendentes nasceu da coragem de homens e mulheres que aceitaram enfrentar o desconhecido quando até a própria viagem podia representar uma sentença de sofrimento.

Enquanto houver alguém disposto a contar essas histórias, aqueles viajantes continuarão chegando ao Brasil, trazendo consigo não apenas malas de madeira e sonhos de um futuro melhor, mas também a extraordinária dignidade de quem jamais permitiu que o medo fosse maior do que a esperança.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Lista de Sobrenomes Italianos em Votuporanga SP

 

Lista de Sobrenomes Italianos em Votuporanga SP

A

  

Aquiles

Albertini

Amedi

Angeluci

Armiato

Alduino

Albertone

Andreatta

Anoni

Antonell

Adriana

Albino

Andreetto

Antoneli

Arrostti

Agostineli (Agostinelli)

Adami

(Adame)

Aniceto (aniseto)

Arroio

(Arroyo)

Assone

(Assoni)

Agune

Alecio

Andreott

Antoniassi

Assumpção

Alba

Alfagalli

Andretto

Antonietto

Avinhi

Albacete

Alonso

Andreu

Antonio

Avighi

Albaneze

Amaro

Andriotti

Anzaloni

-

Albarello

Amati (Amato)

Angelo

Araldi

-

Alberico

Ambreu

Angeloni

Albelli

-

Alberti

Ambrosio

Andreo

Arduini

-

B

  

Bacanelli

Baraldo

Batarelli

Beneduzzi

Betani

Bacani

Baratta

Bat�chio

Benetti

Bernardi

Badovani

Barbarelli

Bapttista

Benini

Bertelini

Bacco

Barbin

bazilio

Belini

Bertelli

Baeza

Barbizani

Bazaghia

Benzati

Berttellini

Bafone

(Bafoni)

Barbieri

(Barbiere)

Base

(Basi)

Belucci, Beluci,

(Belucio)

Bertholaia

(Bertolaia)

Baggio

Barlioni

Bozo

Bertolchi

Berti

Bagnola

Baroni

Bazzi

Beraldi

Bertillini

Baio

Barrachini

Beazolli

Beraldo

Bertochi

Balaroni

Bartocci

Becari

Beraramo

Bertolazi

Balbi

Barussi

Belentani

Berardo

Bertoldo

Balbina

Bassaglia

Bello

Berbeli

Bertolin

Baldan

Bassoni

Belucci

Beretta

Bertolino

Baldin

(Baldini)

Barufi, Baruffi,

(Barufe)

Belatti

(Belati)

Belloni

(Belone)

Bertoli

(Bertole)

Baldicera

Basquisi

Belluci

Bergamin

Bertollo

Balduini

Bassan

Bellotti

Bergamini

Bertolozzi

Balioni

Bassi

Beleramini

Bergamo

Bertone

Balioti

Bassini

Beltran

Bernardelli

Bertuolo

Banzato

Basso

Bellutti

Bernardi

Bessa

Baptista

Batagin

Bem

Bernini

Betin

Baptistussi

Bataiello

Benati

Bersaneti

Bevilaqua

Baracioli

Batalha

Benato

Bertacini

Biage (Biagi)

Biazzoli

Bierini

Biliato

Binbato

Biovezan

Biazzoto

Bifaroni

Biliazi

Biante

Birer

Bicco

Bigai

Billalba

Bini

Bisbiliari

Bicarelli

(Bicharelli)

Bissi

(Bisse)

Bocatto, Bocato

(Bocapto)

Bochi

(Bocchi)

Bortoleto

(Bortoleto)

Busuti

Bonini

Botaro

Breviato

Brunini

Blundi

Bono

Botte (Botti)

Breseghello

Bruno

Boccin

Bonvicine

Bolta

Bressan

Bruschi

Boleri

Boracini

Bottura (Botura)

Breviglieri

Budin

Bolotari

Borelli

Bozza

Brianezi

Bufulin

Bolotario

Borgatto

Brachini

Brianti

Buizan

Bombonato

Borghi

Bracolatti

Brigati

Butarellho

Bombardi

Bortole

Bragnara

Brighenti

Buso (Buzo)

Bombini

Bortolucci

Brambila

Brocco

-

Bossan

Bossolani

Brancaglion

Brulari

-

Bonesso

Bossin

Brandini

Brunassi

-

Boni

Botta

Brassolotto

Brunelli

-

C

  

Cagliari

Cardili

Cavassani

Cherubini

Colcci

Canelli

Careti

Cavenaghi

Chiafroni

Colleta

Caudato

Carminatte

Caviglione

Chiesa

Colombro

Caldorin

Carrara

Cecato

Chinalia

Comim

Camassa

Casagrande

Cecchini

Chincheti

Comini

Camassutti

Casale

Cecolin

Chinelato

Commar

Cambiaghi

Caselli

Cegantini

Chinelato

Condini

Camilla

Coselli

Celi

Chiozini

Conti

Camillati

Castelleti

Cella

Chiparini

Coradelo

Campoli

Castellone

Celine

Chiaparini

Cornachione

Gampoghioli

Casteluci

Cenedeze

Chiuchi

Coprtiglio

Canato

Castrequini

Cerantolla

Chuppetta

Costa

Capella

Castriani

Cesario

Ciabotti

Constanzo

Capellato

Castelani

Cestari

Cicarelli

Couvre

Capelleti

Catanozi

Cetrone

Cioccari

Cremoni

Caporalin

Cavaleri

Cezareto

Ciocca

Crivellari

Capri

Cavalari

Chamati

Citrone

Cucarolle

Caproni

Cavallero

Chapiche

Cocolo

Cucarolli

Carbonaro

Cavalini

Chareli

Codinhoto

Cuin

Cardi

Cavalin

Cheregati

Colatruglio

Curti

Cazzonato

Cassonati

Casonatto

Cacionatti

Cazonato

D

  

Dainese

Dameglio

Del Alamo

De Lucca

Dotti

Dainezi

Dam

Del Armelino

Denari

Dumbra

Dal Ben

Daneluzzi

Del Gobo

De Roco

Duo

Dal Bom

Davanzo

Della Fiori

De Tomini

Duran

Daloca

Davanso

(Davanzzo)

Dellarmelino

Dezan

(Dezzan)

-

Dalossa

D’Avoghio

Dela Rovere

Domenicis

-

Dalto

Dazzi

Dal Molin

Donato

-

E

  

Escorsi

Escremin

-

-

-

F

  

Fabiano

Favaretto

Ferri

Foresto

Furlan

Fabri

Favaro

Ferro

Fornaziani

Furlaneto

Facchini

(Facchni, Faccini)

Favero

Fiamenghi

Forti

Furlanis

(Furlani)

Facin

Feddozi

Filazi

Fortunato

Fuzza

Faggion

Feffin

Fileto

Fracolla

Fuzetto

Falchi

Feltrin

Filpo

Fraioli

Fuzzari

Faneco

Ferezin

Fini

Franceschetti

-

Faneli

Ferriani

Finotti

Franchi

-

Fantin

Fava

Fiori

Francinetti

-

Farina

Ferracini

Folcchini

Franciscato

-

Farinazzo

Ferraresi

Fondello

Franzin

-

Farinelli

Ferraresze

Fontinelli

Fregonezi

-

Farma

Ferrari

Fontolan

Friozi

-

Fascina

Ferrato

Forestieri

Friase

-

G

  

Gabalini

Gaspari

Chiotto

Gondin

Grejamin

Galano

Gasparini

Giacarelli

Gorayb

Guardagnolo

Galbiati

Gastaldon

Giacheto

Gostaldon

Gualda

Galeti

Gatto

Giacomette

Gostinelli

Guarizo

Gallardi

Gava

Gianesi (Gianezzi)

Gracato

Guarnieri

Galletti

Gavazza

Gibin

Graciato

Gubolin

Gallo

Gaviolli

Giraldi

Grandizzoli

Guelfi

Gandini

Geacomini

Gerald

Grangieri

Guena

Galloro

Geanine

Gerotto

Granzzatto

Guerche

Garbelin

Geanezi

Gibertoni

Greco

Guerzoni

Gardini

Geraldi

Ginelli

Greccoto

Guzo

Garuzzi

Geretti

Giollo

Gregio

Guzzoni

Gasi

Gerollo

Giordani

Gregoleti

-

Giovanini

Girald

Gobetti

Gregui

-

H

  

Habimoradi

Hippolytto

-

-

-

I

  

Iani

Ierini

Inamorato

-

-

L

  

Lagoin

Lasso

Libert

Longuini

Lucca

Lamana

Lavesso

Liborati

Longo

Lucci

Lanzan

Lavezzo

Liobana

Loquetti

Luppo

Landi

Lazzaretti

Locatelli

Lorenzetti

Luquette

Landin

Lecho

Lodette

Loreto

-

Laridindo

Leva

Longhin

Lourencin

-

M

  

 

Macelani

Marzochi

Mataruco

Medaghia

Meschiare

Mahi

Maruci

Matheus

Mediani

Marchiolli

Machio

Mascellani

Matiazzo

Mega

Micelli

Madalosso

Maschio

Mazi

Megiani

Michilini

Madi

Massette

Maziero

Melegatti

Miglioli

Maricatto

Mozzol

Mazotti

Melin

Minto

Marin

Massuia

Mazzaferro

Melle

Milani

Marini

Massura

Mazzi

Mello

Minucelli

Marinelo

Mariotti

Masso

Melozzi

Miron

Mariotto

Mastrocolla

Massa

Menechelli

Morelato

Marquezan

Matta

Ssoni

Menegosso

Morelli

Morgani

Morgoni

Murari

Moro

Muzetti

Marangoni

Moriali

Molini

Morselli

Moretin

Martinelli

Matta

Mechi (Meche)

Meneghini

Moreti

Martini

Matarozzo

Meque

Merlote

Mazzocatto

 

 

 

 

 

 

N

  

Nadalline

Narezzi

Nonato

Nossi

Nucci

Naressi

Nascimbeni

Nordi

Novelli

-

P

  

Pacheco

Pagliarani

Palma

Paschoal

Pastorello

Padovani

Paglioni

Pansani

Paschoalotto

Pavan

Padovez

Paglione

Papali

Pascoalin

Pavani

Paduan

Paglinossi

Pardin

Pascoalini

Pavin

Pagioro

Paladini

Parra

Pascoarello

Pavolin

Pazin

Peresi

Picoli

Passarin

Polizelli

Pazini

Pergamini

Piccolo

Passoni

Poloni

Pazzotto

Perinelli

Piconze

Pinzan

Poltronieri

Pecego

Peripolli

Pienhotti

Pio

Polveri

Pedrasse

Permegiani

Pierin

Piovezan

Pozenatto

Pedrassi

Perrone

Pierini

Piovezam

Pozzobon

Pegolo

Perrucini

Pietro

Piquetti

Pozebon

Pelaia

Perseghin

Pigoni

         Pirani

Pradella

Pelegrefi

Pesciotto

Pignatari

Pistilli

Prandi

Pelegrini

Pessin

Pignati

Pitarelli

Prandini

Pelicer

Petenucci

Pilege

Pitta

Previato

Pellarin

Petini

Pilon

Piva

Prezzotto

Peluci

Petrilli

Pinatti

Pivaro

Princi

Pena

Petronillo

Piloni

Pogi

Proni

Penachioni

Piacente

Pinceratto

Poiani

Prosdocime

Penariol

Pianta

Pinge

Polachini

Puccinelli

Penarioto

Picacio

Pinhatari

Poleghati

Puci

Penasso

Piccinin

Pinhoti

Poletti

Puglia

Perbelini

Picerne

Pinzon

Poli

Pupin

Q

  

Quatrini

Quatrochi

Quinaglia

-

-

R

  

Rabelo

Redigolo

Rinaldi

Rondini

Ruari

Reganini

Redondo

Risso

Rosa

Rubio

Regiotto

Reganin

Rizzatto

Rossan

Ruela

Ragnoli

Regatieri

Rizzi

Rosario

Rufatto

Raguitto

Pegiani

Roca

Rossanezi

Russafa

Raia

Rego

Roda

Rossatto

Ruzza

Randi

Regonatto

Roma

Rossi

-

Rauchi

Ricci

Romanenghi

Rossignoli

-

Rebelato

Ricciardi

Romano

Rossini

-

Rebeschini

Rico

Roncatti

Roveri

-

Reche

Rigo

Roncolatto

Rozetto

-

S

  

Sabadotto

Sasso

Scamatti

Segantine

Solvestrini

Sabatin

Savazi

Scandelai

Segatt

Simielli

Sabino

Savani

Scarduzi

Segna

Simiolli

Sacchi

Savoini

Scandorelie

Seguar

Simonatto

Sagatine

Savoine

Scaramuzze

Selingardi

Simonetti

Saltini

Sbadellini

Scaranelli

Semenzatto

Simonis

Salvioli

Sbrogio

Schiavetto

Semenzin

Sirelli

Sandrin

Scabeloo

Scriavoni

Serantoni

Soldati

Sangregorio

Scabin

Seba

Sestini

Soler

Sano

Scacalozi

Secco

Sette

Stavarengo

Sapelli

Scaglia

Sechini

Siccoti

Stefanelli

Sarracini

Scalf

Sedano

Signorini

Stefanuti

T

  

Tadami

Testoni

Tolini

Topazzo

Troiani

Tagliari

Tehome

Tome

Toschi

Trombella

Tagliavini

Tiossi (Tossi)

Tomin

Trento

Tromboni

Tanganelli

Tirapelli

Tominatto

Trevisan

Tunussi

Terenze

Tofarelli

Tomiatti

Tridapalli

-

U

  

Uzelloto

-

-

-

-

V

  

Valdambrini

Valin

Venturini

Verlote

Viale

Valereto

Valoto

Vera

Verona

Vagnoto

Valleriani

Vechiato

Verdi

Vesutti

Vitorelli

Valeriano

Venci

Vergani

Vespa

Vizona

Valiceli

Vendramini

Vergilio

Vetorazzo

-

Z

  

Zaccaro

Zan

Zngrando

Zara

Zonta

Zafalon

Zanachi

Zariboni

Zava

Zontini

Zafani

Zanardi

Zanin

Zavatti

Zotarelli

Zaine

Zanco

Zanini

Zavate

Zuanazzi

Zamberlan

Zanelato

Zanovelli

Zieri

Zucatto

Zamboni

Zanella

Zanaquetta

Zeuli

Zuchetti

Zambonaro

Zanfolin

Zanutto

Zocatelli

-

Zanzarini

Zanzerolani

Zaparolli

Zoccal

-