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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Impacto Emocional e os Desafios da Emigração Italiana para o Brasil


O Impacto Emocional e os Desafios da Emigração Italiana para o Brasil


A experiência migratória italiana do final do século XIX raramente era acompanhada de preparo psicológico ou orientação adequada. Falava-se muito das causas da partida — a pobreza crescente, a falta de terras, o esgotamento das possibilidades no campo — e também das promessas feitas por intermediários e agentes, que apresentavam o ultramar como solução definitiva para todas as carências. No entanto, pouco se refletia sobre o impacto humano mais profundo dessa decisão. Migrar era visto como um gesto quase natural, um deslocamento físico, sem que se considerassem as marcas emocionais que acompanhariam quem partia.

Hoje se compreende que a emigração não significou apenas uma mudança geográfica, mas uma ruptura na biografia de cada indivíduo. Muitos partiram imbuídos de esperança, mas sem perceber que deixavam para trás redes de afeto, hábitos enraizados, paisagens familiares e a memória viva de seus vilarejos. A decisão raramente vinha acompanhada de preparação interior: acreditava-se que a simples perspectiva de uma vida melhor resolveria todas as dores, quando, na verdade, era apenas o início de um processo complexo de perda e reconstrução.

Somava-se a isso a desinformação. A imagem do Brasil circulava em folhetos, conversas e relatos fragmentários, quase sempre idealizados. Falava-se de terras férteis e abundância, mas pouco se mencionavam o clima intenso, as doenças tropicais, a exigência de trabalho pesado e as dificuldades de adaptação. O choque entre a promessa e a realidade era brusco e, muitas vezes, doloroso. Não era raro que o entusiasmo inicial cedesse lugar à frustração silenciosa.

A barreira da língua ampliava esse sentimento. Muitos italianos falavam apenas seus dialetos locais; ao chegar, encontravam o português — distante e estranho. A impossibilidade de se expressar plenamente criava isolamento e insegurança, limitava o acesso a serviços e dificultava a defesa de direitos. Dentro das colônias, o uso do dialeto tornava-se abrigo, mas também reforçava a percepção de distância do novo país.

Nessa travessia entre mundos, a identidade também se transformava. O emigrante já não era inteiramente aquilo que fora em sua terra, mas tampouco se reconhecia ainda como parte do lugar de chegada. Vivia em um espaço intermediário — uma espécie de fronteira interior — que provocava inquietação constante. A saudade não era um sentimento ocasional, mas presença diária que se infiltrava nos gestos, nas lembranças e nos silêncios.

As famílias, por sua vez, passavam por mudanças profundas. Papéis se alteravam, responsabilidades se redistribuíam, e muitas vezes a promessa de prosperidade tardava a se realizar. Havia cansaço físico, angústia pela incerteza e um senso de dever que nem sempre conseguia silenciar a nostalgia. Entre os mais jovens e os mais velhos, em especial, surgiam formas de sofrimento que hoje se reconheceriam como efeitos emocionais da ruptura com o lugar de origem.

Também o ambiente contribuía para acentuar essas tensões. O trabalho exaustivo na lavoura, o calor intenso, as doenças endêmicas e a precariedade dos primeiros anos na colônia colocavam os emigrantes diante de uma realidade bem diferente do que haviam imaginado. Alguns recorriam ao álcool; outros se recolhiam em silenciosa tristeza; outros ainda se amparavam na fé.

Frente a tudo isso, as comunidades encontraram meios de recompor o sentido de pertença. Igrejas, capelas, associações de auxílio mútuo, festas tradicionais e o próprio campanário repetido nas novas paisagens funcionavam como pontes invisíveis com a terra deixada para trás. Reconstruir símbolos, preservar o dialeto, compartilhar memórias e rezas era uma forma de dizer que, embora tivessem partido, não estavam totalmente desenraizados.

Assim, percebe-se que a emigração italiana não foi apenas deslocamento físico rumo a novas terras, mas uma travessia interior complexa, feita de saudade, esperança, perdas e reinvenção. A preparação para esse processo quase não existia; ela foi sendo construída na prática, no esforço diário de sobreviver, adaptar-se e recriar, no Novo Mundo, fragmentos da vida que ficara para trás.

Nota explicativa

Este texto aborda os aspectos emocionais, psicológicos e sociais vivenciados pelos emigrantes italianos que se dirigiram ao Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX. Diferentemente das análises centradas apenas nas causas econômicas da partida ou nas condições materiais das viagens, a reflexão aqui desenvolvida destaca sentimentos de ruptura, saudade, insegurança, choque cultural e processos de adaptação à nova realidade. O objetivo não é idealizar ou dramatizar a experiência migratória, mas ampliar a compreensão desse fenômeno, considerando também suas dimensões humanas, identitárias e afetivas, muitas vezes pouco registradas pelas fontes históricas tradicionais.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta





quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Vapor Portena 1876 os Passageiros Italianos e a Viagem de Imigração para o Brasil

 


Vapor Portena 1876 

Os Passageiros Italianos e Viagem de Imigração para o Brasil  


Procedência Porto de Le Havre


Ampozzan 

Argento 

Atanasio 

Bailini 

Basso 

Belloni 

Bergagno 

Bombassaro 

Brambilla 

Capello 

Capetto 

Casagrande 

Conte 

Crivellati 

Curiolo 

Dalle Grave 

Deboni 

Ferrero 

Fizian 

Fortin 

Garbin 

Gaspar 

Gasperi 

Giovannoni 

Gentile 

Marzorati 

Masadei  

Martorano 

Maddalena 

Marjetti 

Patatucci 

Pratiei 

Ponzoni 

Rech 

Sabben 

Salvaor 

Sicilia 

Susin 

Tome 

Valentin 

Viannesi 

Vicelli 

Virgilio 

Zollet 

Zucco


Nota explicativa:

O presente registro refere-se aos passageiros do vapor Portena, que partiu em 1876 do porto de Havre, realizando escalas na Europa antes de rumar ao Brasil. A lista reúne sobrenomes de imigrantes italianos que integraram esse fluxo migratório do século XIX, importante para estudos de história, memória comunitária e pesquisas genealógicas. Os nomes preservam a grafia histórica original, podendo apresentar variações devido à transcrição de documentos de época, o que é comum em registros de bordo e arquivos migratórios. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



domingo, 18 de janeiro de 2026

Da Fome no Vêneto aos Cafezais de Piracicaba a Saga de uma Família Italiana no Brasil (1882)



 Da Fome no Vêneto aos Cafezais de Piracicaba a Saga de uma Família Italiana no Brasil (1882)

Sob o peso de um céu baixo e invernal, a planície do baixo Pó parecia conter a respiração. Ali, entre Bressane, em Castelguglielmo, e a localidade de Corà, no município de Bagnolo di Po, a vida seguia um ritmo antigo, marcado mais pela escassez do que pela esperança. Lorenzo crescera nesse mundo de campos alugados, mãos calejadas e promessas sempre adiadas. Santina, filha de uma família ainda mais numerosa, aprendera cedo que mesas grandes não significavam fartura, mas partilha silenciosa de migalhas.

Casaram-se na igreja da Natività della Beata Vergine Maria, em Bagnolo di Po, um templo antigo de paredes grossas, erguido para resistir aos séculos e às intempéries. Aquele casamento não fora apenas a união de dois jovens, mas a junção de duas histórias marcadas pela mesma pobreza resignada. Após a cerimônia, instalaram-se na casa dos pais de Lorenzo, onde cada novo dia significava mais uma boca a alimentar e menos pão a dividir.

Giuseppe nasceu primeiro, trazendo consigo uma alegria tímida, quase contida, como se até a felicidade precisasse pedir licença. Quase dois anos depois veio Francesco, e com ele a certeza de que o frágil equilíbrio daquela família de camponeses arrendatários havia se rompido. O trabalho tornara-se raro no campo vêneto, e quando surgia era mal pago. As dívidas com o proprietário da terra cresciam como uma sombra persistente, acumulando-se num ritmo impossível de ser vencido.

A Itália, recém-unificada, ainda não conseguira cumprir as promessas de dignidade feitas aos seus filhos. Do norte ao sul, o valor do trabalho caía, enquanto a fome avançava pelos casebres mal conservados. A pelagra deformava corpos e destinos, e a mortalidade infantil rondava como uma presença constante, silenciosa e cruel. Nesse cenário, a emigração deixou de ser um sonho distante para tornar-se a única saída plausível. Era comentada nos adros das igrejas, recomendada por párocos como Don Felice, discutida em sussurros nas casas humildes de Castelguglielmo e arredores.

Em 1882, Lorenzo e Santina compreenderam que permanecer significava definhar. A decisão de partir amadureceu entre noites insones e contas impagáveis, até tornar-se inevitável. A despedida foi dilacerante. Os avós choraram como quem enterra o futuro, certos de que jamais tornariam a ver os netos. O adeus carregava a gravidade de uma separação definitiva, um corte profundo na carne da família.

Partiram ainda de madrugada, sob um frio cortante e uma fina camada de neve que cobria a terra, caminhando até a estação de trem. O destino era o porto de Gênova, onde os aguardava o Adria, um grande navio de ferro e madeira que simbolizava tanto o medo quanto a esperança. Com a ajuda do pároco e os conselhos do prefeito, amigo antigo da família, Lorenzo conseguiu um lugar na embarcação dentro da cota de transporte gratuito oferecida pelo governo brasileiro, ansioso por braços que sustentassem as vastas plantações de café da província de São Paulo.

A travessia durou mais de trinta dias. Foram semanas de desconforto, doenças e saudade, em porões superlotados onde o ar rarefeito se misturava ao cheiro de sal, suor e resignação. Santina protegeu os filhos como pôde, enquanto Lorenzo se agarrava à ideia de que, do outro lado do oceano, a vida poderia enfim começar de novo.

Quando o Adria aportou em Santos, o calor úmido e o cheiro da terra tropical anunciaram um mundo radicalmente diferente. Representantes da Fazenda Santa Clara aguardavam os recém-chegados. De lá, seguiram para os arredores de Piracicaba, onde extensas fazendas de café se espalhavam até onde a vista alcançava. O trabalho era duro, extenuante, mas havia algo novo: a possibilidade concreta de sobreviver, de alimentar os filhos com regularidade, de sonhar sem culpa.

Os primeiros anos foram de adaptação e resistência. A língua estranha, o clima implacável e a disciplina rígida das fazendas testaram a força daquela família. Ainda assim, Lorenzo encontrou no labor diário uma dignidade que lhe fora negada na terra natal. Santina transformou a precariedade em lar, mantendo vivos os costumes, a fé e a memória da Itália distante.

Com o tempo, Giuseppe e Francesco cresceram entre os cafezais, carregando nos gestos a herança dos campos do Vêneto e, no olhar, a promessa de um futuro brasileiro. A história de Lorenzo e Santina, como a de tantos outros, foi feita de perdas irreparáveis e conquistas silenciosas. Não houve glória, apenas perseverança. E foi essa perseverança que lançou raízes profundas no interior paulista, dando origem a gerações que, décadas depois, ainda sentiriam no sangue o eco daquela partida sob a neve.

A emigração não lhes devolveu o que fora deixado para trás, mas concedeu algo igualmente valioso: a chance de recomeçar. E nesse recomeço, marcado pelo trabalho árduo e pela esperança teimosa, construiu-se um legado que atravessaria o tempo, unindo dois mundos pela memória e pelo esforço de quem ousou partir quando ficar já não era possível.

Nota do Autor

Esta narrativa é uma obra de ficção histórica, construída a partir de cartas, anotações e relatos fragmentários deixados por uma família de emigrantes italianos que optou por permanecer anônima. Os nomes dos personagens, assim como alguns detalhes de ambientação, foram utilizados como licenças literárias, com o objetivo de conferir maior humanidade, fluidez narrativa e identificação emocional ao leitor.

Embora os personagens sejam fictícios, os fatos históricos, o contexto social, as condições da emigração, a travessia marítima e o trabalho nas fazendas de café do interior paulista refletem fielmente experiências reais vividas por milhares de famílias italianas no final do século XIX.

Esta história não pretende substituir o documento histórico, mas dar voz literária à memória coletiva daqueles que partiram sem deixar seus nomes nos livros, mas deixaram sua marca profunda na formação do Brasil. 

Se você, ao ler este texto, sentir de repente o perfume dos cafezais em flor ou o aroma do café sendo coado na cozinha pela mãe ou pela nonna numa manhã fria, então este relato cumpriu o seu propósito. Não deixe de comentar aqui no blog quais recordações essa leitura despertou em sua memória.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Navio Adria (29 de setembro de 1891) os Imigrantes Italianos Encaminhados ao Espírito Santo



Navio Adria (29 de setembro de 1891) os Imigrantes Italianos Encaminhados ao Espírito Santo



Agostini - Ambroso - Androvanti - Antolini - Artioli - Bacchin -  Baldan - Baldo - Ballerini - Baraldi - Barbato - Barbieri - Barina - Barolo - Bassani - Bassi - Basso - Bastasin - Bazzan - Bellodi -  Bellotto - Belluzzo - Benetti - Beolo - Bergamini - Bergamo -  Bernardo - Bersanetti - Bertan - Bettioli - Bezzolato - Bianchi - Bisol - Boldrin - Bonato - Bondi - Bonifaccio - Boninsegna - Bonisiol -  Borsato - Bortolato - Bortoletto - Bottani -  Braccioli - Brazzale - Brazzalotto - Brotto - Brun -  Brunelli - Busatto - Callegaro - Calzolari - Campagnaro -  Campagnola -Campagnolo - Cantarella - Cantarelli - Cantelle - Capovilla - Carlesso - Carloni - Carraro - Casagrande - Casari - Casato - Cavalieri - Cavaller - Cavallini - Cavolo - Cebin - Ceccon - Celeghini - Celin - Cesca - Chesini - Chinellato - Chivato - Cicola - Cinel - Cliode - Coeron - Coppo - Crivellari - Cuccato - Cuoggo - Cuogo - Da Broi - Da Ros - Da Rui - Dal Bon - Dal Cin - Dal Ponte - Dal Pozzo - Dal Zilio - Dalla Lana - Dalle Crode -  Dall'occo - Danieletto - Dario - De Bortoli - De Lazzari - De Marchiori - Denti - Doro - Dragoni - Fabbri - Facchini - Facco - Fambri -  Fanticelli - Fantoni - Fasolato - Fasolo - Fassina - Favaro - Favero - Ferrari - Ferreti - Fiabani - Fin - Finetti - Folli - Fontebasso - Forese - Franco - Freddo - Friggi - Frignani - Galbero - Galetto - Galli - Gallina - Galvani - Gardiman - Garofolin - Gasparini - Genovese - Ghirardelli - Giacetti - Giampicoli - Giana - Gibellatto - Giuli - Gozoni - Grassi - Gravetti - Greco - Greim Fermberg - Griggio - Guerini - Guerra - Guidolin - Innocente - Lazzarini - Levizzani - Lima - Lombardi - Longhin - Lorenzato - Lorenzi - Lovegiato - Lovo - Magri - Malanguti - Malestia - Mantagana - Marazzato -  Marazzatto - Marchetti - Marchi - Marcolan - Marconato - Marini - Marvochi - Masino - Mattiazzo - Mazzocco - Meneghello - Mertelello - Meschieri - Miatto - Milanetto - Minello - Miotto - Mirandola - Mistura -  Modenesi - Moletta - Molinari - Monelli - Montagnari - Montanari - Morini - Munaio - Munaro - Napponi - Nardotto - Nasello - Occhi - Ongarato - Pagliani - Pampolini - Pandolfi - Pasin - Pasti - Pavanetti - Pellizari - Pericolosi - Perin - Peruzzo -Pesenato - Piccagli - Piccoli - Pietrobon - Pinoffo -  Pinton - Piovan - Pisana - Pol - Polati - Poletti - Pollastri -  Polo - Pompolini - Pozzebon - Prior - Rassin - Rebonato - Reggiani - Rigan - Rigato - Righetti - Righini - Rizzolo - Rosani - Rosato - Rosignolo -  Rossato - Salviato - Sarto - Sartori - Scabello - Scalambra - Scamperle - Scapinello - Schiavi - Segala - Segato - Segola - Simonin -  Sommaggio - Spoladori - Squizzoto - Stopiglia - Straforini -  Succi - Tacchetto - Taddei - Tedeschi - Tirelli - Todesco - Toglia -  Tonchetto - Tonetti - Tonetto - Tovani - Trevisan - Ugulini -  Valle - Venturin - Vezzuro - Vialetto - Vincenzi - Volpato - Volponi - Zaganelli - Zagni - Zambolin - Zampieri - Zanasi - Zanin -  Zantani - Zardini - Zucchetto

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Emigração Italiana e Saúde nas Viagens Marítimas (1870–1925) As Doenças, Condições e Travessias


Emigração Italiana e Saúde nas Viagens Marítimas (1870–1925) as 

Doenças, Condições e Travessias

A travessia transoceânica e a saúde dos emigrantes

A emigração italiana em massa para as Américas, intensificada a partir das últimas décadas do século XIX, constituiu não apenas um fenômeno social e econômico de grandes proporções, mas também um grave desafio sanitário. As longas viagens marítimas, realizadas em condições frequentemente precárias, expuseram milhões de emigrantes a riscos elevados de doenças, sofrimento físico e mortalidade.

Os principais dados disponíveis sobre a saúde dos emigrantes durante as travessias transoceânicas provêm das estatísticas do Commissariato Generale dell’Emigrazione e dos relatórios anuais elaborados por médicos e oficiais da Marinha italiana destacados para o serviço de migração. Esses documentos, embora limitados por critérios imperfeitos de registro e por subnotificações evidentes, permitem reconstruir um panorama consistente das condições sanitárias enfrentadas pelos italianos entre 1903 e 1925, tanto nas viagens de ida quanto nas de retorno da América do Norte e da América do Sul.

É necessário ressaltar que os serviços de saúde voltados à emigração encontravam-se, durante boa parte desse período, mal estruturados e insuficientes, tanto nos portos de embarque quanto a bordo das embarcações. Assim, as estatísticas oficiais refletem mais a dimensão geral do problema sanitário do que a incidência real de patologias específicas, que em muitos casos permaneceram invisíveis aos registros formais.

Condições de viagem antes da legislação sanitária

Antes da promulgação da Lei de 31 de janeiro de 1901, que passou a regulamentar de forma mais rigorosa o transporte marítimo de emigrantes italianos, as travessias eram marcadas por condições alarmantes. A duração média da viagem para as Américas ultrapassava frequentemente trinta dias, realizados em porões superlotados, com ventilação insuficiente e padrões mínimos de higiene ignorados.

Um médico da época sintetizou a situação de maneira contundente ao afirmar que, no transporte de emigrantes, “a higiene e a limpeza estavam em permanente conflito com a especulação econômica: faltavam espaço e ar”. Essa lógica mercantil, priorizando o lucro das companhias de navegação, contribuiu decisivamente para a disseminação de doenças a bordo.

Alojamento, ventilação e água potável

Os emigrantes eram acomodados em beliches dispostos em dois ou três níveis, organizados em corredores estreitos que recebiam ar quase exclusivamente por meio de escotilhas. A altura entre os beliches era insuficiente: variava de cerca de 1,60 m nos níveis superiores a 1,90 m nos inferiores, comprometendo a circulação de ar e favorecendo ambientes abafados e úmidos.

Nessas condições, tornavam-se frequentes as doenças respiratórias, como bronquites, pneumonias e infecções pulmonares, agravadas pela concentração humana e pela má qualidade do ar.

Outro problema grave dizia respeito ao abastecimento de água potável. A água era armazenada em reservatórios metálicos revestidos internamente por cimento. O constante balanço das embarcações fazia com que o revestimento se deteriorasse, turvando a água. Em contato com o ferro oxidado, o líquido adquiria coloração avermelhada, sendo consumido pelos passageiros sem qualquer processo de destilação ou filtragem, uma vez que muitos navios sequer possuíam destiladores a bordo.

Alimentação durante a travessia

A alimentação fornecida aos emigrantes seguia regulamentos formais que, na prática, poucos compreendiam plenamente, sobretudo devido ao elevado índice de analfabetismo. O regime alimentar alternava entre dias considerados “magros” e “gordos”, com cardápios baseados em café, arroz ou massas.

A composição das refeições variava conforme a origem regional predominante a bordo: emigrantes do norte da Itália consumiam mais arroz, enquanto os do sul recebiam com maior frequência pratos à base de macarrão. Do ponto de vista estritamente nutricional, a ração diária oferecida durante a travessia era, paradoxalmente, mais abundante e equilibradado que aquela a que muitos emigrantes estavam habituados em suas regiões de origem, marcadas pela pobreza extrema e por dietas deficientes.

Limites dos registros sanitários oficiais

Os dados estatísticos disponíveis referem-se exclusivamente às doenças identificadas pelos médicos de bordo ou comissários governamentais, excluindo um número significativo de casos não declarados. Muitos emigrantes evitavam procurar atendimento médico por desconfiança da autoridade sanitária, pelo receio de serem impedidos de desembarcar no país de destino ou de serem internados e repatriados.

Além disso, uma parcela expressiva do fluxo migratório escapava totalmente a qualquer controle sanitário, seja por embarcar em portos estrangeiros, por viajar em navios sem serviço médico regular ou por utilizar modalidades semi-privadas de transporte, frequentemente toleradas pelas companhias de navegação.

Dessa forma, qualquer tentativa de mensurar de forma precisa a situação sanitária da emigração transoceânica com base apenas nas fontes oficiais resulta inevitavelmente em números subestimados, que não refletem a real magnitude dos problemas de saúde enfrentados durante a travessia.

Principais doenças registradas (1903–1925)

Apesar das limitações, as estatísticas de saúde do período revelam a persistência de determinadas patologias, tanto nas viagens de ida quanto nas de retorno. Entre as mais frequentes destacam-se:

  • Sarampo, com alta incidência nas viagens de ida;

  • Malária, particularmente presente nos deslocamentos rumo à América do Norte e do Sul;

  • Escabiose (sarna) e condromatose, mais comuns nas viagens para a América do Sul;

  • Tracomatuberculose pulmonar e, em menor escala, ancilostomíase, predominantes nas viagens de retorno.

A ancilostomíase, por exemplo, praticamente inexistente nos registros das viagens de ida, aparece nos retornos, refletindo as condições sanitárias precárias enfrentadas por muitos emigrantes nas áreas rurais das Américas.

Mortalidade, retorno e seleção migratória

As taxas de morbidade e mortalidade, embora não atingissem níveis catastróficos, mostravam-se mais elevadas nas rotas para a América do Sul, onde predominavam deslocamentos familiares, incluindo crianças e idosos, mais vulneráveis às doenças.

Nas repatriações provenientes da América do Norte, os índices mais elevados estavam associados à tuberculose, ao tracoma e a casos de alienação mental, revelando o desgaste físico e psicológico provocado por anos de trabalho extenuante e condições de vida adversas.

É significativo observar que o fluxo migratório para os Estados Unidos era composto majoritariamente por indivíduos em boa condição física e idade produtiva, resultado tanto de um processo de auto-seleção dos emigrantes quanto dos rigorosos exames médicos impostos pelas autoridades norte-americanas nos portos de entrada, como Ellis Island.

Considerações finais

O estudo dos aspectos sanitários da emigração italiana por via marítima revela uma dimensão frequentemente secundarizada da Grande Emigração: o custo humano da travessia. As doenças, o sofrimento e a precariedade das condições de viagem refletem não apenas limitações técnicas da época, mas também profundas desigualdades sociais e a fragilidade das políticas públicas diante de um fenômeno migratório de massa.

Mesmo incompletas, as estatísticas sanitárias do período constituem uma fonte essencial para compreender a relação entre emigração, pobreza, saúde pública e estrutura social das classes populares italianas entre o final do século XIX e o início do século XX — um legado histórico que ainda ecoa na memória das comunidades descendentes espalhadas pelas Américas.

Nota do Autor

A análise dos aspectos sanitários da emigração italiana por via marítima permite lançar luz sobre uma das dimensões mais silenciosas da Grande Emigração: o impacto direto das condições de viagem sobre a saúde das populações deslocadas. Muito além de um simples deslocamento geográfico, a travessia transoceânica constituiu uma experiência marcada por vulnerabilidades físicas, riscos epidemiológicos e profundas desigualdades sociais.

Ao recorrer a estatísticas oficiais, relatórios médicos de bordo e estudos históricos consolidados, este texto busca contextualizar a emigração italiana no quadro mais amplo da saúde pública entre os séculos XIX e XX. As doenças registradas, as limitações dos controles sanitários e a precariedade estrutural dos navios refletem não apenas os limites técnicos da época, mas também as contradições de um sistema migratório orientado pela lógica econômica e pela exploração da mão de obra.

Compreender esses aspectos é essencial para valorizar a trajetória dos emigrantes e reconhecer o custo humano que acompanhou a formação das comunidades italianas nas Américas, cuja herança cultural permanece viva até os dias atuais.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 10 de janeiro de 2026

Sob o Sol de Santa Teresa no Interior da Província de São Paulo

 


Sob o Sol de Santa Teresa no Interior da Província de São Paulo


Em março de 1889, um homem simples da província de Treviso, chamado Giuseppe Marchetto, tomou a decisão que mudaria para sempre o destino de sua família. Nascido em um pequeno vilarejo agrícola próximo a Conegliano, crescera entre vinhas pobres e campos de trigo que mal sustentavam os seus. A fome, a escassez de terras e a promessa de uma vida melhor empurraram-no para a grande travessia. Carregava consigo a esperança de que o Brasil, distante e misterioso, ofereceria aquilo que sua pátria não podia mais dar: terra e futuro para seus filhos.

Era filho de camponeses que, geração após geração, haviam aprendido a extrair da terra dura e ingrata apenas o suficiente para sobreviver. Ainda menino, Giuseppe conheceu o peso do trabalho árduo sob o sol e a frustração de ver as colheitas minguarem diante das geadas tardias ou da seca implacável. O suor que escorria pelo rosto de seu pai, as mãos calejadas de sua mãe e o vazio constante na mesa familiar eram marcas que moldaram sua infância. O vilarejo onde crescera parecia imóvel, preso ao tempo, como se ali os séculos não tivessem avançado, e as mesmas dificuldades que haviam esmagado seus avós agora recaíam sobre ele.

No entanto, no coração desse homem de poucas posses, nascia uma inquietação que não podia mais ser contida. Giuseppe via seus filhos crescerem com os mesmos olhos famintos que conhecera na própria infância e, no silêncio das madrugadas, alimentava o medo de que o destino deles se repetisse, fechado no mesmo círculo de miséria e renúncias. Cada vez que ouvia histórias sobre terras distantes, sobre navios que cruzavam oceanos levando famílias inteiras rumo ao desconhecido, sentia que a vida o chamava para além das colinas do Vêneto. A América, descrita por cartas que chegavam esparsas de conhecidos já emigrados, ganhava contornos quase míticos: terras vermelhas, férteis, esperando apenas mãos dispostas a cultivá-las.

Decidir partir não foi apenas um ato de coragem, mas também de desespero. Giuseppe sabia que deixava para trás raízes profundas, sepulturas de antepassados, o sino da igreja que ritmara sua vida, a língua e os gestos de uma comunidade que lhe dera identidade. No entanto, carregava consigo algo mais forte que a saudade: a determinação de oferecer aos seus filhos uma chance que ele nunca tivera. E assim, com o coração dividido entre o apego ao solo natal e a esperança depositada em terras desconhecidas, lançou-se à jornada que marcaria para sempre a memória de sua família.

O navio que o trouxe à América foi para ele um purgatório flutuante. O espaço reduzido, o calor insuportável e a presença de centenas de emigrantes comprimidos em condições precárias transformaram a travessia em tormento. Dias seguidos de mares agitados e o sufoco de um ar pesado faziam cada respiração parecer insuficiente. Para as crianças, o suplício era ainda maior: febres, choros incessantes e a falta de alimento adequado enfraqueciam seus pequenos corpos. Giuseppe se culpava em silêncio, acreditando ter condenado os filhos a uma provação que talvez não resistissem.

As horas arrastavam-se como se o tempo tivesse perdido qualquer medida, e a esperança que o sustentava antes do embarque agora se diluía no enjoo, na sede e no medo constante. A água escassa, de gosto salobro, parecia mais um veneno do que alívio, e o pão distribuído, duro e insosso, mal podia ser chamado de alimento. O ar daquelas cabines escuras, carregado do cheiro de suor, vômito e doença, tornava-se insuportável, e muitos preferiam permanecer no convés, enfrentando o vento cortante e a maresia, a sufocar nas entranhas do navio. O som constante das ondas que batiam contra o casco misturava-se ao lamento humano, como se o próprio mar zombasse daquela multidão que ousara desafiá-lo. Giuseppe, ao ver os olhos febris de seus filhos e a palidez crescente de sua esposa, sentia o coração esmagado pela impotência. Cada gemido infantil era para ele uma acusação muda, lembrando-lhe que sua busca por um futuro melhor poderia, ironicamente, selar o fim da própria família.

Quando, após longas semanas, o navio enfim alcançou o porto de Santos, não houve alívio imediato. O desembarque trouxe apenas novas provações. Ali, uma massa de imigrantes, igualmente exaustos, aguardava por respostas e direções que nunca vinham. Amontoados em vagões de trem improvisados, foram levados até São Paulo. O cansaço crescia, assim como a sensação de abandono. Na chamada Casa da Imigração, a multidão era tão densa que a cada passo alguém tropeçava sobre corpos prostrados no chão. O ar era pesado de choro infantil, de gemidos abafados, de mães desesperadas que embalavam crianças febris, enquanto homens se punham contra a parede tentando suportar a impotência. Giuseppe, de olhar fixo e coração dilacerado, passava noites em claro, dividido entre a angústia e o remorso de ter arrastado a família para aquele abismo.

Quatro dias depois, foi enfim transferido para o destino prometido: a Colônia de Santa Teresa, no interior da província de São Paulo. Mas o que encontrou não passava de um cenário de desolação. As casas que lhes haviam sido prometidas não estavam prontas, e 138 pessoas foram obrigadas a se amontoar em uma única construção improvisada. O chão de terra batida mal continha a umidade que escorria pelas paredes, e o ar saturado fazia a sobrevivência quase impossível. Os filhos de Giuseppe começaram a adoecer; as pernas frágeis já não os sustentavam, e os gemidos infantis o feriam mais do que qualquer trabalho forçado. Ele via cada um se debilitar como se a própria vida lhes fosse arrancada dia após dia.

O peso da consciência crescia. As noites eram intermináveis, povoadas pelo choro que ecoava das crianças, pelas preces murmuradas das mães e pelo silêncio pesado dos homens, que se limitavam a esperar. Giuseppe, muitas vezes, deixou-se vencer pelas lágrimas, chorando em segredo como se pudesse, com isso, aliviar a dor de todos. A América, que lhe havia sido pintada como terra de promissão, surgia agora como uma cruel armadilha.

Apesar de tudo, ele não desistiu. Trabalhou a terra hostil, suportou a fome e a doença, agarrou-se à esperança de que os filhos que sobrevivessem pudessem um dia colher frutos diferentes daqueles que lhe haviam sido negados no Vêneto. Sua determinação, alimentada pelo desespero, converteu-se em resistência.

Na Colônia de Santa Teresa, sob o sol inclemente do interior paulista, Giuseppe Marchetto não encontrou o paraíso que lhe haviam prometido. Encontrou, sim, a luta diária pela sobrevivência, marcada por perdas e privações. Mas também descobriu a força de uma gente que, mesmo dilacerada, insistia em plantar raízes em solo estranho.

E foi assim que sua vida, moldada pelo sacrifício, deixou um legado invisível mas duradouro: o testemunho de que o caminho dos imigrantes não se fazia de glória fácil, mas de sofrimento, resiliência e esperança tecida no fio mais tênue da existência.

Com o passar dos anos, quando suas mãos já não tinham a mesma firmeza para trabalhar a terra e seus olhos carregavam a névoa do tempo, Giuseppe encontrava consolo em observar os filhos e netos crescerem sobre aquele solo que antes lhe parecera inóspito. Cada casa erguida, cada parreira que vingava, cada criança que corria livre pelos campos vermelhos era, para ele, a confirmação de que a travessia e a dor não haviam sido em vão. Não havia riqueza acumulada, tampouco monumentos erguidos em sua memória, mas a continuidade da vida — enraizada em um chão antes estranho — era a prova silenciosa de sua vitória. No coração de Giuseppe, o Brasil já não era apenas o destino distante e misterioso que um dia escolhera às cegas: tornara-se o espaço onde sua linhagem aprendera a florescer, entre perdas e renascimentos. E, ao fim, sua história se confundia com a de tantos outros anônimos que, vindos de longe, deixaram atrás de si não apenas descendentes, mas também a marca indelével de coragem diante do impossível.

Nota do Autor

Esta narrativa é uma criação literária, mas suas raízes estão profundamente fincadas na realidade histórica. Os nomes aqui apresentados — Giuseppe Marchetto, sua família e seus conterrâneos — são fictícios, escolhidos para preservar a liberdade narrativa e a fluidez do enredo. No entanto, cada detalhe de sua trajetória, desde a partida na província de Treviso até a adaptação nas terras vermelhas do Brasil, foi inspirado em cartas, registros e documentos autênticos do final do século XIX, hoje preservados em museus e arquivos do interior do estado de São Paulo.

O que o leitor encontra nestas páginas é, portanto, uma recriação fiel do espírito da época: a esperança que impulsionava os emigrantes, o sofrimento vivido nas travessias, as dificuldades da adaptação em um país desconhecido e, sobretudo, a herança silenciosa deixada por homens e mulheres comuns que, em meio a privações, ajudaram a construir os alicerces de uma nova sociedade.

Ao dar voz a personagens inventados, busquei resgatar a memória coletiva dos que não deixaram suas histórias registradas, mas cuja experiência se repete em milhares de famílias descendentes. Este livro é, antes de tudo, uma homenagem a eles — aos imigrantes anônimos que, entre lágrimas e esperanças, encontraram no Brasil o palco definitivo de suas vidas.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Sob o Céu do Novo Mundo, Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

 


Sob o Céu do Novo Mundo

Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

(inspirada em fatos da Grande Emigração Italiana – 1887)

O vento soprava do leste com uma força surda, arrastando sobre o porto de Gênova uma cortina de névoa que cheirava a sal e carvão. As gaivotas rodavam em círculos acima das chaminés dos vapores, confundidas entre o rumor dos apitos e o grito dos homens que descarregavam fardos. No convés inferior do vapor Speranza, misturados aos barris de vinho e aos sacos de farinha, embarcavam mais de mil e duzentas almas — famílias inteiras, viúvas, crianças, camponeses, costureiras, pedreiros, e uma jovem professora de vinte e um anos chamada Rosa Venturini, natural de um pequeno vilarejo entre as planícies úmidas do Polesine.

Rosa não sabia que aquele amanhecer de 1887 seria o último que veria na Itália. Desde a morte do pai, vítima da pelagra que devastava os camponeses pobres, a vida em casa tornara-se uma sucessão de dias vazios. A mãe vendia ovos e fiava lã para sobreviver, enquanto o irmão mais velho fora recrutado para o exército, deixando-as com um campo encharcado e uma casa que ameaçava ruir a cada cheia do Pó. A promessa do Brasil — terras férteis, salário certo, passagem gratuita — soava como um milagre.

Os jornais de Rovigo, vendidos nas feiras, anunciavam as companhias de navegação com letras gordas e promessas extravagantes. Falavam de um país onde o sol não se escondia e o trigo crescia sem pedir chuva. O governo brasileiro, diziam, buscava gente branca, laboriosa e cristã para substituir os braços negros recém-libertos. E os agentes, instalados nas praças das pequenas cidades, anotavam nomes, vendiam sonhos e recolhiam moedas para garantir uma vaga num dos vapores que partiam de Gênova, de Nápoles ou de Palermo.

Rosa, filha da filanda, formada no internato de Pádua entre as “jovens pobres e pericolanti”, não tinha nada a perder. Com o último dinheiro que restava, comprou uma pequena mala de madeira, um lenço bordado pela mãe e três saquinhos de linho com sementes de feijão e manjericão. Queria plantá-los na terra estrangeira, quando o mar terminasse.

Durante os primeiros dias, o navio avançou lento e os passageiros suportavam o balanço com uma resignação quase religiosa. O cheiro de ferrugem, suor e maresia impregnava tudo. No porão, o ar era espesso e o espaço, exíguo. As mulheres dormiam sobre tábuas cobertas por panos úmidos; as crianças tossiam. O capitão, um genovês de barba amarelada, mantinha a terceira classe trancada, e só pela manhã deixava que subissem ao convés para respirar um pouco de ar.

A travessia parecia interminável. Chovia quase todos os dias. O mar batia nas chapas de ferro como um tambor, e cada estalo fazia o navio estremecer como um corpo febril. Rosa escrevia anotações num pequeno caderno encapado com tecido azul, tentando registrar o que via e o que sentia. Falava do frio que penetrava os ossos, da comida rançosa que cheirava a mofo, dos marinheiros que vendiam pedaços de queijo escondidos, e das mães que, em desespero, trocavam as últimas moedas por um gole de água limpa.

Na terceira semana de viagem, uma mulher de Vercelli deu à luz um menino entre as caixas do porão. Ao mesmo tempo, uma criança morreu de febre. Rosa recordou a cena por toda a vida: os marinheiros costurando uma pequena mortalha de lona, o corpo leve sendo depositado sobre uma tábua e, depois, o som oco do corpo tocando a água, como uma pedra. A mãe repetia, sem lágrimas, que aquele seria o último dos seus filhos a morrer.

Speranza seguia o seu rumo, arrastando a miséria e a fé de um povo inteiro sobre o Atlântico. Lá em cima, os oficiais brindavam com vinho; lá embaixo, os emigrantes rezavam. Era uma humanidade empilhada, sem nomes, marcada por tosse, fome e esperança.

Rosa observava o mar. Não o temia mais. A imensidão parecia responder-lhe com silêncio, e naquele silêncio ela começou a compreender o que significava emigrar: não era partir de um lugar, mas deixar para trás a própria forma de existir. O que estava diante dela não era o Brasil, mas o vazio entre o que se sonha e o que se alcança.

Na noite do trigésimo sexto dia, o vento amainou e um clarão rompeu o nevoeiro. Do convés, os passageiros viram uma faixa verde ao longe. Alguns se ajoelharam, outros choraram. Era a costa do Rio de Janeiro, coberta por um véu de névoa dourada. Rosa sentiu o coração bater rápido. Pensou na mãe, na casa de barro, nas plantações do Pó e nos sinos de domingo. Em seguida, apertou contra o peito o caderno e os saquinhos de linho, como se neles repousasse o fio invisível que ainda a ligava à terra natal.

A banda do porto tocava uma marcha festiva para os senhores de fraque que esperavam no cais, enquanto as autoridades da imigração inspecionavam os recém-chegados. A bordo, o calor era sufocante, e a alegria inicial logo deu lugar à confusão. Homens gritavam ordens em português, grupos eram separados, nomes eram trocados, famílias se perdiam. O navio que prometera liberdade entregava seus passageiros a um novo cativeiro.

Seguram viagem até o porto de Santos onde Rosa foi levada com outras mulheres para uma hospedaria pública, onde passariam a noite antes de seguirem viagem para o interior. As paredes cheiravam a cal, e o chão era de pedra fria. No alto da janela, via-se apenas uma faixa estreita de céu — o primeiro céu estrangeiro da sua vida.

Naquela noite, não dormiu. O corpo doía, mas os olhos não se fechavam. Pensava no mar, nas promessas dos agentes, na terra que ainda não vira. Pensava também que talvez a esperança não estivesse no que o Brasil oferecia, mas no que ela seria capaz de construir ali.

Quando o dia clareou, uma brisa quente entrou pela janela. Rosa levantou-se, amarrou os cabelos e desamarrou os saquinhos de linho. Em um vaso de barro depositou as sementes de feijão e manjericão, molhando a terra com a água que restava no cantil. Não sabia se germinariam, mas aquele gesto — pequeno e silencioso — era tudo o que lhe restava da Itália.

Enquanto o sol subia sobre o porto, Rosa Venturini compreendeu que, para muitos, o mar havia sido apenas o caminho do exílio. Para ela, seria o divisor entre o passado e o destino

Na manhã seguinte, o pátio da hospedaria fervilhava de gente. Famílias inteiras esperavam a chamada dos nomes que seriam enviados às fazendas. Os funcionários da agência de colonização anotavam números, riscando listas com lápis úmido de suor. As vozes se misturavam num idioma que os recém-chegados ainda não compreendiam, e o medo, disfarçado de expectativa, atravessava os rostos queimados de sol e sal.

Rosa foi designada a um grupo de colonos destinado ao interior da província de São Paulo, em uma propriedade chamada Fazenda Santa Luzia, pertencente a um certo coronel Álvaro Moreira, homem conhecido pela severidade e pelas lavouras extensas de café. O trajeto até lá seria longo, feito em vagões de madeira, sob o calor que subia do chão e parecia não ter fim.

Durante a viagem, o trem cortava planícies e matas intermináveis. Pelas janelas abertas, o vento trazia o cheiro de terra quente e fumaça. Aos poucos, o mar e o passado iam ficando para trás, substituídos por uma paisagem que parecia viva e selvagem. Homens com chapéus de palha trabalhavam nas margens dos trilhos, negros recém-libertos misturavam-se aos brancos recém-chegados, e Rosa percebia, sem compreender direito, que aquele país nascera de um conflito silencioso entre servidão e esperança.

Quando enfim chegaram à fazenda, o sol estava alto e o ar cheirava a café recém-tostado. À frente da sede, homens montados os observavam, avaliando cada corpo, cada gesto. O administrador, de voz seca e olhar impaciente, leu as instruções e apontou as casas que seriam distribuídas às famílias. Eram pequenas construções de barro e madeira, dispostas em linha ao lado da mata. Rosa recebeu uma das menores, sozinha, pois era mulher solteira.

Na primeira noite, não houve descanso. Os mosquitos zuniam como lâminas, e o calor tornava o ar irrespirável. Do lado de fora, o som da mata parecia uma língua desconhecida — gritos de aves, farfalhar de folhas, o rugido distante de algum animal. Rosa acendeu uma lamparina e observou o pequeno espaço que agora lhe pertencia: uma cama de tábuas, um fogareiro de ferro, um balde com água amarelada. Era pouco, mas era dela.

Nos dias seguintes, o trabalho começou antes do nascer do sol. O campo de café se estendia em fileiras longas, e cada planta exigia capina, adubação e poda. O contrato prometia pagamento por produção, mas logo ela percebeu que o sistema era uma armadilha. O preço do quilo de café variava conforme a vontade do patrão, e o valor das ferramentas e alimentos era descontado do salário antes mesmo de ser recebido. Muitos colonos endividavam-se antes do fim do primeiro mês.

Rosa não reclamava. Aprendera desde menina que a resignação também era uma forma de resistência. Guardava as forças para o fim da tarde, quando o sol se escondia e o silêncio caía sobre as plantações. Nesses momentos, ela voltava à casa, lavava o rosto com a água morna do balde e regava os vasinhos de barro que havia trazido da Itália. As sementes germinaram. Pequenos brotos verdes despontaram, frágeis, mas determinados. Aqueles fios de vida tornaram-se sua companhia e sua fé.

As estações se sucederam lentamente. A colônia crescia em volta da fazenda: homens erguiam capelas, mulheres ensinavam as crianças a ler com livros que restaram das malas. O idioma se misturava — português, vêneto, lombardo, piemontês — formando uma língua nova, feita de sons duros e ternos. Às vezes, Rosa escrevia cartas para a mãe, que ainda vivia no Polesine. Não falava das dívidas nem das dores. Contava apenas das árvores imensas, do céu sem fim e das noites em que as estrelas pareciam cair sobre a terra.

No quinto ano, o Brasil já lhe parecia menos hostil. Aprendera a lidar com o clima, a força do trabalho e o ritmo da colheita. Em cada saco de café que carregava, sentia o peso da promessa que a trouxera até ali — e a dívida silenciosa que carregava com todos os que haviam morrido no caminho.

Quando o coronel Moreira morreu, a fazenda foi dividida entre os herdeiros, e parte das terras foi vendida a colonos. Rosa comprou um pequeno lote, com o dinheiro guardado em anos de sacrifício. Na encosta do terreno, plantou as primeiras fileiras de café por conta própria, ao lado dos pés de feijão e das ervas que haviam nascido dos vasinhos trazidos do navio.

Com o tempo, sua casa tornou-se ponto de passagem para os novos imigrantes que chegavam em busca de orientação. Muitos a chamavam de dona Rosa da Esperança. Ela acolhia os que vinham famintos, dividia o pão, emprestava sementes e contava a mesma história de sempre: a travessia, o navio, o mar e o primeiro dia em terra estrangeira.

Nunca mais voltou à Itália. As cartas que enviava cessaram quando soube que a mãe havia morrido, sozinha, numa casa fria de inverno. Rosa guardou a última resposta recebida dentro do caderno azul, agora amarelado e manchado de café.

Nos últimos anos de vida, quando o corpo já não obedecia, ela costumava sentar-se sob a sombra das árvores e observar as plantações que cobriam o horizonte. Ali, compreendeu que o destino dos emigrantes era o mesmo das sementes que lançara na terra: nascer em lugar estranho, resistir às tempestades e florescer, mesmo quando o solo parecia não acolher.

Quando Rosa Venturini morreu, numa manhã de verão, ninguém soube ao certo sua idade. Diziam que partira em paz, com as mãos ainda sujas de terra e o rosto voltado para o nascente. No quintal, os pés de manjericão que trouxera da Itália continuavam a crescer, exalando um perfume doce que se misturava ao aroma forte do café.

E assim, sob o céu imenso do novo mundo, cumpria-se mais uma história de esperança e exílio — uma entre tantas que fizeram da miséria um ato de coragem e do desterro, uma forma silenciosa de eternidade. 

Nota do Autor

Esta obra nasceu do silêncio de um caderno de capa azul. Entre suas páginas amareladas repousavam fragmentos de uma vida: cartas dobradas com cuidado, anotações de viagem, orações em italiano antigo, e uma flor seca, guardada como se fosse a última lembrança de um tempo que não volta. O caderno pertenceu a uma mulher que cruzou o oceano em 1887, deixando para trás uma Itália devastada pela fome, pela pobreza e pela desesperança. Viveu o restante de seus dias no interior do Brasil, onde a terra nova exigia o mesmo que o mar havia exigido: coragem e fé.

Os nomes que aparecem nesta narrativa — Rosa Venturini, Fazenda Santa Luzia, Coronel Álvaro Moreira — são fictícios. Foram alterados para proteger a identidade dos verdadeiros personagens e para permitir que o enredo respirasse com liberdade literária. Mas a história é autêntica.

Cada detalhe foi reconstruído com base nas cartas originais que a protagonista guardou em seu caderno, escritas entre 1887 e 1924, hoje custodiadas no Museu Histórico da cidade onde ela viveu e morreu. A emoção contida nestas páginas não é invenção. Está presente nas palavras que ela escreveu com a caligrafia firme de quem aprendeu a ler na pobreza e a sonhar na adversidade. São linhas simples, mas nelas cabem todas as dores e esperanças de uma geração que deixou o velho continente em busca de um pedaço de chão no novo mundo. Rosa — ou como quer que se chamasse de fato — representa milhares de italianos anônimos que cruzaram o Atlântico com a alma carregada de saudade e fé.

Ao reconstituir sua jornada, tentei não apenas contar uma história, mas ouvir o eco de tantas vozes que o tempo quase apagou. Que este livro sirva de tributo aos que vieram antes de nós — e que, ao pisar uma terra estranha, fizeram dela o próprio lar.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 27 de dezembro de 2025

Giovanni Battista Scalabrini o Bispo dos Migrantes e a Missão de Amparo aos Italianos no Século XIX

 



Quem Foi Giovanni Battista Scalabrini

Giovanni Battista Scalabrini nasceu em 8 de julho de 1839, na cidade de Como, Itália. Tornou-se bispo de Piacenza e dedicou sua vida a acolher e proteger os emigrantes italianos. Ingressou no seminário aos 18 anos, foi ordenado sacerdote em 1863 e consagrado bispo em 1876.

Sensibilidade ao Sofrimento dos Emigrantes

. As Despedidas nas Estações e o Drama da Emigração

Sua profunda compaixão com o drama migratório começou ao observar famílias italianas que se reuniam nas estações ferroviárias rumo ao Porto de Gênova, onde embarcariam para as Américas. Scalabrini relatou cenas emocionantes nas quais homens, mulheres e crianças deixavam seus povoados entre lágrimas e lembranças, abandonando ao mesmo tempo uma realidade marcada pelo alistamento militar obrigatório e pela carga pesada de impostos.

. A Visão da Igreja sobre a Questão Social

Convencido de que a Igreja deveria atuar diretamente para defender os emigrantes, escreveu em sua carta pastoral de 1882 que era necessário participar da vida pública com todos os meios legítimos para promover a verdade e a justiça. Em 1891, reforçou essa visão afirmando que era preciso “sair do templo” para agir de modo realmente transformador.

As Obras Fundadas por Scalabrini

. Congregações e Apoio ao Emigrante

Com o objetivo de enfrentar o sofrimento dos emigrantes, Scalabrini propôs leis sobre a emigração e, em 1887, fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos. Depois criou a Sociedade São Rafael, destinada a ajudar viajantes e recém-chegados.

. Atuação Feminina na Missão

Em 1895, fundou a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos e, em 1900, concedeu reconhecimento diocesano às Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração, enviando-as para auxiliar emigrantes italianos no Brasil.

Viagens às Américas e Legado

. Visita aos Emigrantes Italianos nas Américas

Aos 62 anos, Scalabrini decidiu conhecer pessoalmente as condições de vida dos emigrantes. Entre 1901 e 1904, viajou pelos Estados Unidos, Brasil e Argentina, fortalecendo o trabalho missionário iniciado pela sua congregação.

. Beatificação e Reconhecimento

Scalabrini faleceu em 1º de junho de 1905. Seu compromisso com a dignidade humana e sua defesa incansável dos migrantes levaram à sua beatificação em 9 de novembro de 1997 pelo Papa João Paulo II. Em 2022, Giovanni Battista Scalabrini foi canonizado pelo Papa Francisco, sendo reconhecido oficialmente como São João Batista Scalabrini, Patrono dos Migrantes.

Conclusão / Nota do Autor

Giovanni Battista Scalabrini foi uma figura decisiva para a proteção dos emigrantes italianos no século XIX e início do XX. Sua visão humanitária, seu compromisso social e as congregações que fundou continuam presentes no trabalho scalabriniano em diversos países. Este texto busca preservar sua memória e destacar a relevância de sua missão para a história da migração italiana.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




sábado, 13 de dezembro de 2025

Sobrenomes Italianos do Alto Uruguai e Suas Origens nas Regiões da Itália



Sobrenomes Italianos da Região do Alto Uruguai e Suas Origens nas Regiões da Itália


AITA – GEMONA UD
BAGGIO – VILLARASPA VI
BALDISSERA – GEMONA UD
BANDIERA – RIESE PIO X TV
BARBIERI – DUEVILLE VI
BARICHELLO – LOREGGIA PD
BATTISTELLA – SCHIAVON TV
BEAL – BELLUNO
BENINCÀ – CORNUDA TV
BERTOLDO – FERRARA – MONTE BALDO VR
BEVILAQUA – BUSCO TV
BINOTTO – DUEVILLE VI
BISOGNIN – LONIGO VI
BOIANI – SAN BENEDETTO PÒ MN
BONATTO – TV
BORDIGNON – VEDELAGO TV
BORTOLAZZO – QUINTO VICENTINO VI
BOTTEGA – REFRONTOLO TV / CARBONERA TV
BRAGAGNOLLO - S. MARTIN DEI LUPARI PD
BRESOLIN – CAVAZZO DEL TOMBA TV / PEDEROBBA TV
BRIZOTTO – PRATA PN
BRONDANI – GEMONA UD
BUSANELLO – CESSALTO TV
BUSANELLO – MOTTA DI LIVENZA TV
BUSATO – FONGARA VI
BUSETTO – CALDOGNO VI
BUSNELLO – PEDEROBBA TV
CAPPELLETTO – VR
CARLESSO – MAROSTICA
CARLOTTO – BUZZOLLO VI / SELVA DI TREVISO TV
CASARIN – LOREGGIA PD
CASSOL – LIBANO BL
CELLA – CAVALIER TV
CERETTA – MONTICELLO CONTE OTTO VI
CERVI – MELETOLE REGGIO EMILIA
CERVO – PÒSINA VI
COMASSETO – PEDEROBBA TV
COPETTI – GEMONA UD
DAL LAGO – VERONA
DALCIN – VITTORIO VENETO TV
DALLACOSTA – ENEGO VI
DALMASO – VEGLIA – VITTORIO VENETO
DALMOLIN – LIBANO BL
DANESI – RODIGO MN
DE MARCO – TÈRMINE DI CADORE BL
DE DAVID – SEDICO BL
FILIPPETTO – TAMAI PN
FIORAVANTE – MONTEBELLUNA TV
FIORENTIN – PEDEROBBA TV
FRESCURA – MALVENA VI
GIACCOMINI – CHIARANO TV
GIRARDELLO – BREGANZE VI / VALLÀ TV
GOLIN – NAGHERELLO TV
GUARIENTI – RALLO TN
LAZZARI – TRISSINO VALDOGNO VI / BERGAMO BG
LAZZARINI – COGOZZO MN
LAZZAROTTO – VALSTAGNA VI
LORENZI – VALDASTICO VI
LORENZONI – MAROSTICA VI
LUNARDELLI – MANSUÈ TV
MAGNABOSCO – ZEVIO VR / COLOGNA VENETA VR
MANTOVANI – CICUGNAGO MN
MARCHESAN - CASTELFRENCO TV
MARCON – DUEVILLE VI
MASSIGNAN – MONTECCHIO MAGGIORE VI
MAZZONETTO – ROVARÈ TV / CAMPOSAMPIERO PD
MENEGHEL – PRATA UD
MIOSO – SAN GREGORIO VR
MORETTO – TAMBOLO PD
MORO – PRATA PN
MUNARETTO - VI
NARDI – FERRARA MN
PAGLIARINI – BOVOLONE VR
PASELLO – VILLA BARTOLOMEA VR
PASINATO – CITTADELLA PD / RESANA TV
PASSUELLO – S. GIACOMO – LUSIANA VI
PAVAN – TREViGNANO TV
PECCIN – PRATA PN
PEGORARO – ROSSANO VENETO VI
PESSUTTI – PORDENONE PN 
PIAZZETTA – PEDEROBBA TV
PICCOLI - PEDEROBBA TV
PIGATTO – ALCIGNANO VI
PIOVESAN – S. CRISTINA TV
PIVETTA – TAMAI PN
PIVOTTO – VI
POLLASTRI – MEDOLLA MO
POZZOBON – CAVASAGRA TV
POZZOBON – SAN MARTINO TV
PUTTON – PEDEROBBA TV
RIGON – ALBAREDO D´ADIGE VR
ROSA – MANIAGO UD
ROSSATTO – MUZZOLON VI
ROSSO – MANSUÈ TV
ROSTIROLA – PEDEROBBA TV
SANDRI – VI
SARTORI – SCHIO e GRANCONA VI / PRAVISDOMINI TV / PIAZZOLLA SUL BRENTA
SCARIOT – UDINE
SCOLARI – COLOGNA VENETA VR
SEGALLA – VR
SEGATTO – NOVALÈ VI
SERAFINI – GEMONA UD
SOLIMAN – ISOLA DELLA SCALA VR
SPONCHIADO – CARBONERA TV
STANGHERLINI – CASTELFRANCO TV
TONIAL – PORDENONE PD
TONETTO – MN
TRENTIN – MONTEGALDA VI
VEDANA – SÉDICO BL
VEDOVATO – CAMPOSAMPIERO PD
VENDRUSCOLO – RIVAROTTA PN
VICENZI – CASALE RONCOFERARO MN
VIERO – MAROSTICA VI / VILLARASPA VI
VIZZOTTO – PIAVON TV
ZAGO – CHIARANO TV
ZAGO – CIARANO TV E MANSUÈ
ZARDO – LORIA TV


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS