terça-feira, 30 de junho de 2026

O Relógio que Emigrou: uma crônica sobre a imigração italiana no Brasil



 

O Relógio que Emigrou: uma crônica sobre a imigração italiana no Brasil

"Alguns objetos deixam de marcar as horas para começar a contar histórias."

O velho relógio de bolso de meu bisavô jamais voltou a marcar a hora de sua aldeia no Vêneto. Quando desembarcou no Brasil, em algum dia perdido de 1877, talvez tenha percebido que o tempo também emigrava. Ficaram para trás a torre da igreja, os campos de trigo e a voz da mãe chamando ao entardecer. Diante dele havia apenas a mata fechada, a promessa de terra e uma saudade que aprenderia a carregar por toda a vida.

Dizem que o relógio era de prata escurecida, gasto nas bordas pelo contato constante com as mãos calejadas do trabalho. Trazia uma pequena corrente e uma tampa que se abria com um leve estalo. Não era um objeto valioso para o mundo, mas continha um universo inteiro para quem o possuía. Em seu mostrador estavam escondidas as horas da infância, os domingos de missa, os sinos anunciando festas de padroeiro, o cheiro do pão saindo do forno e as conversas em dialeto que enchiam as noites de inverno.

Talvez tenha sido aberto muitas vezes durante a travessia do Atlântico. Não para verificar o tempo, pois os dias no navio confundiam-se entre o balanço das ondas e a monotonia do horizonte, mas para recordar que existira uma vida antes daquela viagem. Um homem que abandona sua terra não leva apenas roupas ou ferramentas. Carrega consigo pedaços invisíveis de um mundo inteiro.

No Brasil, porém, o relógio passou a marcar outras horas.

As horas da derrubada da mata.

As horas do primeiro barraco coberto de tábuas irregulares.

As horas das mãos feridas pelo machado.

As horas das sementes lançadas sobre uma terra desconhecida.

As horas das noites em que o silêncio da floresta parecia mais assustador do que qualquer tempestade enfrentada no oceano.

Meu bisavô talvez tenha descoberto cedo que o tempo da imigração possui um ritmo próprio. Não se mede apenas pelos ponteiros, mas pelas ausências. Conta-se pelos aniversários passados sem a família distante, pelos funerais aos quais nunca se pôde comparecer, pelas crianças que cresceram sem conhecer os avós, pelas cartas que levavam meses para chegar e, às vezes, uma eternidade para serem respondidas.

Imagino-o sentado diante de casa, ao cair da tarde, observando o céu avermelhado do Brasil. Retirava o relógio do bolso do colete, abria-o lentamente e permanecia alguns instantes em silêncio. Talvez não estivesse vendo os números. Talvez enxergasse novamente a aldeia deixada para trás. Talvez escutasse o sino da igreja tocando ao longe, mesmo estando a milhares de quilômetros de distância.

Com o passar dos anos, a mata transformou-se em lavoura. O barraco tornou-se casa. A estrada de barro converteu-se em caminho de vizinhos, parentes e compadres. Vieram os filhos, os netos, as festas comunitárias, as capelas erguidas em pedra e madeira, os vinhedos plantados com esperança e a língua antiga sobrevivendo nas cozinhas e nos alpendres.

Mas o relógio permaneceu o mesmo.

Continuou guardando um tempo que não existia mais.

Hoje, repousa numa gaveta antiga, já incapaz de funcionar. Seus ponteiros pararam há muito tempo, congelados numa hora qualquer que ninguém consegue decifrar. Ainda assim, de certa maneira, ele continua marcando o tempo.

Não o tempo dos relógios modernos, das agendas ou dos compromissos.

Marca o tempo da memória.

O tempo dos homens que partiram pobres e desconhecidos, atravessaram o oceano com medo e esperança, abriram clareiras na mata e construíram, com o suor das próprias mãos, um mundo novo para aqueles que ainda nasceriam.

Talvez seja por isso que os descendentes de imigrantes guardam com tanto cuidado fotografias amareladas, cartas antigas e objetos aparentemente sem importância. Porque entendem, mesmo sem dizer, que certas coisas não servem apenas para lembrar o passado.

Servem para impedir que ele desapareça.

E, enquanto houver alguém disposto a abrir uma velha gaveta, segurar um relógio gasto pelo tempo e perguntar quem foi aquele homem que o trouxe da Itália, o relógio de meu bisavô continuará funcionando.

Não para medir as horas.

Mas para contar uma história.


Nota do Autor

Entre os poucos bens que muitos imigrantes italianos trouxeram para o Brasil, havia objetos de valor modesto, mas de significado imenso: um rosário gasto pelo uso, uma fotografia de família, uma imagem da Madona, algumas cartas cuidadosamente dobradas e, por vezes, um simples relógio de bolso. Eram fragmentos de uma vida interrompida pela necessidade, pequenas âncoras de memória lançadas contra a força implacável do esquecimento.

O Relógio que Emigrou nasceu da ideia de que os homens não atravessam oceanos sozinhos. Com eles viajam lembranças, afetos, vozes, cheiros, paisagens e tempos que jamais poderão ser recuperados. Ao deixar sua aldeia no Vêneto, o emigrante não abandonava apenas uma terra; deixava para trás a infância, os sinos da igreja, os caminhos conhecidos, os rostos amados e uma parte de si mesmo que permaneceria para sempre do outro lado do mar.

Para milhões de italianos, emigrar significou aprender a viver entre dois mundos: aquele que a necessidade obrigou a abandonar e aquele que a esperança ajudou a construir. E, durante toda a vida, muitos carregaram no bolso, no coração ou na memória um relógio invisível, cujos ponteiros continuavam marcando as horas da terra natal.

Esta crônica é uma homenagem a todos aqueles que partiram levando consigo pouco mais do que coragem, fé e saudade. Aos homens e mulheres que transformaram a mata em lavoura, o barraco em casa, a distância em lembrança e o sofrimento em legado para as gerações futuras.

Porque alguns relógios deixam de medir o tempo para guardar histórias.

E enquanto houver descendentes dispostos a escutar a voz dos seus antepassados, abrir antigas gavetas e perguntar quem foram aqueles que cruzaram o Atlântico em busca de um mundo novo, o relógio dos emigrantes continuará funcionando.

Não para contar horas.

Mas para lembrar que existem partidas que nunca terminam, porque permanecem pulsando, silenciosamente, na memória dos filhos, dos netos e dos bisnetos de uma imigração construída com trabalho, esperança e um amor imenso pela terra que ficou para trás.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



A Carta da Fome em Silveira Martins - A Saga de um Imigrante Italiano em 1889


 

A Carta da Fome em Silveira Martins - A Saga de um Imigrante Italiano em 1889

"Quando a prosperidade prometida não chegou, restaram a fome, a saudade e uma carta capaz de atravessar mais de um século".


Em abril de 1889, quando o outono começava a cobrir de névoa os vales da colônia de Silveira Martins, no coração da província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Pietro Zanella já não era o mesmo homem que havia deixado o Vêneto anos antes. O jovem camponês que atravessara o Atlântico carregando sonhos de prosperidade transformara-se em um colono exausto, marcado pelo peso da terra, pelas doenças e pela lenta erosão das esperanças.

Pietro nascera em uma pequena comunidade rural das colinas vênetas, numa região onde os sobrenomes Zanella, Furlan, Bortoluzzi e Meneghetti eram tão comuns quanto as videiras que se agarravam às encostas. Sua infância transcorrera sob a sombra de uma Itália recém-unificada, mas incapaz de oferecer sustento digno a milhões de trabalhadores rurais. As colheitas incertas, os impostos elevados e a fragmentação das propriedades empurravam famílias inteiras para a miséria.

Quando os agentes de emigração começaram a percorrer as aldeias prometendo terras férteis no Brasil, Pietro enxergou uma oportunidade que parecia enviada pela Providência. O governo brasileiro necessitava de colonos para ocupar vastas extensões de terra no sul do país, e as propagandas descreviam um mundo onde o trabalho seria recompensado com abundância. Para um homem acostumado a cultivar terras que pertenciam a outros, a ideia de possuir um pedaço próprio de chão era poderosa demais para ser ignorada.

A viagem foi longa e penosa. O navio transportava centenas de italianos comprimidos em porões úmidos, onde o cheiro de maresia se misturava ao de corpos cansados e alimentos deteriorados. Durante semanas, o oceano pareceu infinito. Crianças adoeceram. Velhos morreram. Muitos chegaram ao Brasil debilitados antes mesmo de iniciar a nova vida que tanto desejavam.

Depois de desembarcar, Pietro seguiu com outros imigrantes rumo às colônias do Rio Grande do Sul. O caminho para Silveira Martins revelou uma paisagem muito diferente daquela que imaginara. Havia matas densas, estradas precárias e uma natureza que precisava ser vencida antes de oferecer qualquer recompensa. A terra existia, mas estava coberta por árvores gigantescas. Antes de plantar milho, trigo ou videiras, era preciso derrubar a floresta.

Os primeiros anos foram consumidos pelo trabalho incessante. Cada metro de terreno aberto exigia dias de esforço. O machado tornou-se uma extensão dos braços dos colonos. Casas de madeira surgiam lentamente entre os troncos queimados. Pequenas roças começavam a aparecer onde antes havia apenas mata fechada.

Mas a realidade mostrou-se mais cruel do que os folhetos distribuídos na Itália. As colheitas nem sempre correspondiam às expectativas. O isolamento dificultava a venda dos produtos. Ferramentas eram caras. Os caminhos transformavam-se em lama durante os períodos de chuva. Muitas famílias viviam permanentemente endividadas.

Pietro constituiu família na colônia. Sua casa encheu-se de vozes infantis e responsabilidades crescentes. Entre seus filhos estavam Caterina, Antonio Bartolo, Giovanni Luigi e Angela Maria. Como tantas outras crianças da imigração, cresceram ajudando nos trabalhos da propriedade desde muito cedo. Aprenderam a lidar com a enxada antes mesmo de conhecer plenamente as letras.

Entretanto, à medida que a década de 1880 avançava, dificuldades sucessivas começaram a atingir a família. Uma combinação de colheitas insuficientes, enfermidades e pobreza extrema transformou a sobrevivência diária em uma luta constante. A alimentação tornou-se escassa. O dinheiro praticamente desapareceu. As crianças começaram a apresentar sinais de doença.

Naquele tempo, uma enfermidade podia significar uma sentença de morte. Médicos eram raros nas colônias. Medicamentos custavam caro. Muitas vezes, os colonos dependiam da ajuda de padres, curandeiros ou da solidariedade dos vizinhos.

Foi nesse contexto que Pietro tomou uma decisão dolorosa. Incapaz de escrever corretamente e sem recursos para manter correspondência regular com os parentes que permaneciam na Itália, procurou o secretário da comunidade. O homem era um dos poucos que dominavam a escrita e frequentemente auxiliava os colonos analfabetos ou sem instrução formal.

Naquele abril de 1889, Pietro pediu que fossem registradas algumas linhas destinadas aos familiares do outro lado do oceano. A carta não falava de prosperidade. Não descrevia colheitas abundantes nem terras generosas. Era um documento de sofrimento.

Nela, relatava que todos os seus filhos estavam doentes. Escrevia que as crianças não conseguiam obter os alimentos necessários nem respirar um ar que lhes devolvesse a saúde. Mencionava nominalmente Caterina, Antonio Bartolo, Giovanni Luigi e Angela Maria. Explicava que também se encontrava em situação precária e que lhe faltavam recursos para enfrentar tantas dificuldades.

A pobreza era tão severa que Pietro não possuía dinheiro sequer para custear a correspondência. Pedia que o secretário realizasse um ato de caridade e enviasse a carta gratuitamente. Solicitava ainda que outras mensagens vindas da Itália lhe fossem entregues sem cobrança. O pedido revelava uma condição extrema, na qual até mesmo alguns centavos representavam um luxo inalcançável.

Ao final, indicava cuidadosamente seu endereço na colônia de Silveira Martins, então vinculada ao município de Santa Maria da Boca do Monte, na província do Rio Grande do Sul. Era a tentativa de manter viva uma ponte frágil entre dois continentes.

Aquela carta jamais foi destinada à publicação. Não foi escrita para autoridades nem para jornais. Era apenas o apelo de um pai angustiado. Contudo, mais de um século depois, ela permanece como testemunho silencioso de uma realidade frequentemente esquecida.

A história da imigração italiana costuma ser contada através das narrativas de sucesso: os agricultores que prosperaram, os comerciantes que enriqueceram e as famílias que construíram patrimônios duradouros. Mas, por trás dessas conquistas, existiram milhares de homens como Pietro Zanella. Colonos que enfrentaram a fome, a doença e a incerteza. Homens e mulheres que cruzaram o oceano acreditando em um futuro melhor e descobriram que a esperança, por si só, não era suficiente para vencer todas as adversidades.

Ainda assim, eles permaneceram. Construíram estradas, abriram lavouras, ergueram capelas, escolas e comunidades inteiras. Seus filhos e netos transformaram a paisagem do sul do Brasil. O sofrimento registrado naquela carta não foi em vão. Cada linha escrita pelo secretário de Silveira Martins tornou-se parte da memória de uma geração que ajudou a construir um país enquanto lutava, diariamente, para sobreviver.

E assim, entre a fome e a esperança, entre a saudade da Itália e a dureza da terra brasileira, a vida de Pietro Zanella seguiu seu curso. Como a de tantos outros emigrantes, ela foi marcada não pelas promessas que ouviram antes da partida, mas pela coragem extraordinária que demonstraram depois da chegada.

Nota do Autor

A história que o leitor acaba de percorrer não fala dos grandes vencedores da imigração italiana. Não narra a trajetória daqueles que enriqueceram, adquiriram extensas propriedades ou deixaram sobrenomes associados à prosperidade. Pelo contrário. Esta é a história de um homem comum, um entre milhares que cruzaram o Atlântico carregando sonhos legítimos e encontraram uma realidade muito mais dura do que aquela prometida pelos agentes de emigração.

A narrativa foi inspirada em uma carta histórica escrita em 1889 por um imigrante estabelecido na região da atual Quarta Colônia de Imigração Italiana, no Rio Grande do Sul. Embora os personagens tenham recebido nomes fictícios e diversos elementos tenham sido recriados literariamente, o drama humano retratado nestas páginas nasceu de um documento real, preservado graças ao esforço daqueles que compreenderam a importância de guardar a memória dos pioneiros.

Quando pensamos na imigração italiana, somos naturalmente atraídos pelas histórias de sucesso. Elas nos enchem de orgulho e ajudam a explicar a formação de muitas comunidades que floresceram ao longo das gerações. Entretanto, existe uma parte dessa história que raramente ocupa espaço nas comemorações, nos monumentos ou nas fotografias de família.

É a história dos que não venceram.

Dos que trabalharam do amanhecer ao anoitecer e mesmo assim continuaram pobres. Dos que enfrentaram a mata fechada, a distância dos mercados, as doenças, a falta de médicos, as colheitas insuficientes e o peso esmagador da saudade. Dos que enterraram filhos, perderam colheitas e viram o sonho da prosperidade permanecer sempre alguns passos além do alcance de suas mãos calejadas.

Esses homens e mulheres não fracassaram por falta de coragem. Não fracassaram por preguiça. Não fracassaram por falta de fé.

Muitas vezes fracassaram porque a vida pode ser cruel até mesmo com aqueles que mais se esforçam.

Ao escrever esta história, procurei recordar justamente esses pioneiros esquecidos. Aqueles cujos nomes desapareceram dos registros familiares, mas cujo suor ajudou a abrir estradas, erguer capelas, construir escolas e transformar a paisagem da Quarta Colônia. Ainda que não tenham colhido os frutos que sonhavam, participaram da construção de um legado que chegaria às gerações seguintes.

Aos meus leitores ítalo-descendentes, deixo uma reflexão.

Quando olharem para a trajetória de seus antepassados, não pensem apenas nos que prosperaram. Pensem também nos que sofreram em silêncio. Naqueles que escreveram cartas pedindo ajuda. Naqueles que jamais retornaram à Itália. Naqueles que enfrentaram a pobreza mesmo depois de atravessar um oceano em busca de uma vida melhor.

A memória de um povo não é feita apenas de vitórias. Ela também é construída pelas derrotas, pelos sacrifícios e pelas esperanças que nunca chegaram a se realizar.

Talvez a maior homenagem que possamos prestar a esses pioneiros seja justamente esta: não permitir que sejam esquecidos.

Porque cada propriedade construída na Quarta Colônia, cada igreja erguida, cada comunidade formada e cada família que prosperou no decorrer das décadas repousa, de alguma forma, sobre o esforço daqueles que vieram antes — inclusive dos que nunca conheceram o sucesso que tanto procuraram.

Que esta história seja, portanto, uma lembrança e um agradecimento.

Agradecimento aos vencedores.

Mas, sobretudo, aos esquecidos.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Homem que Deixou San Benedetto Pò - Imigração Italiana

 


O Homem que Deixou San Benedetto Pò  Imigração Italiana

"Deixaram para trás a terra onde nasceram, mas ajudaram a construir uma nova pátria entre as florestas da Serra Gaúcha."


No outono de 1876, as águas lentas do rio Pó refletiam os céus cinzentos que cobriam a planície de Mantova. Na localidade de San Benedetto Pò, uma das mais antigas e conhecidas comunidades agrícolas da Lombardia, vivia Carlo Benassi, homem de trinta e três anos, agricultor como haviam sido seu pai, seu avô e quase todos os seus antepassados. Sua vida transcorria entre os campos, as estações e o trabalho incessante que parecia nunca produzir frutos suficientes para garantir um futuro melhor à esposa Teresa e aos filhos pequenos.

A unificação da Itália despertara esperanças em muitas famílias, mas a realidade das zonas rurais continuava difícil. Os impostos aumentavam, os arrendamentos consumiam grande parte dos rendimentos e as colheitas dependiam de fatores que nenhum agricultor podia controlar. Em San Benedetto Po, como em tantas localidades da Baixa Mantovana, homens e mulheres trabalhavam de sol a sol sem jamais conseguirem possuir a terra que cultivavam. Carlo conhecia aquela realidade desde a infância e, embora amasse profundamente sua terra natal, começava a compreender que seus filhos provavelmente herdariam as mesmas dificuldades que haviam marcado a vida de seus pais.

Foi nesse contexto que começaram a chegar notícias da América. Cartas escritas por emigrantes, relatos publicados em jornais e histórias transmitidas por viajantes falavam de um país distante chamado Brasil. Contava-se que o governo incentivava a colonização de vastas áreas ainda cobertas por florestas e que famílias trabalhadoras poderiam receber lotes de terra para construir uma nova vida. Muitos duvidavam dessas promessas. Outros acreditavam apenas parcialmente nelas. Carlo, porém, enxergava naquelas notícias algo que havia muito tempo não sentia: esperança.

A decisão de partir amadureceu lentamente. Durante meses, ele e Teresa conversaram sobre o futuro da família. Cada colheita insuficiente reforçava a sensação de que permanecer significava aceitar um destino já escrito. Partir era arriscado, mas oferecia a possibilidade de mudar a história de seus descendentes. No final daquele ano, venderam quase tudo o que possuíam. Ferramentas, móveis, utensílios e pequenos animais desapareceram pouco a pouco. Cada objeto vendido representava uma despedida silenciosa da vida que construíram em San Benedetto Po.

Quando chegou o dia da partida, Carlo caminhou pela última vez pelas ruas de sua localidade natal. Observou a grande abadia beneditina que havia testemunhado séculos de história, contemplou os campos que conhecia desde menino e recolheu um pequeno punhado de terra do quintal da casa onde crescera. Guardou-o cuidadosamente dentro de um saco de pano. Não era um objeto valioso, mas simbolizava suas raízes, sua família e a pátria que levava consigo no coração.

A despedida dos parentes foi marcada por lágrimas e abraços demorados. Muitos prometiam reencontros futuros. Outros permaneciam em silêncio, compreendendo que talvez nunca mais voltassem a ver aqueles que partiam. A emigração era mais do que uma viagem; era um rompimento doloroso com tudo aquilo que havia sido familiar durante gerações.

Em Gênova, o porto estava repleto de famílias provenientes de diversas regiões da Itália. Homens, mulheres e crianças aguardavam o embarque carregando baús, colchões, roupas e sonhos. Quando o navio finalmente deixou o cais, uma mistura de esperança e tristeza tomou conta dos passageiros. A costa italiana foi desaparecendo lentamente até transformar-se numa linha distante no horizonte. Muitos permaneceram observando em silêncio, como se tentassem gravar na memória a última imagem da terra natal.

A travessia do Atlântico foi longa. O oceano parecia infinito. Dias inteiros eram consumidos pelo balanço constante do navio, pelas conversas entre emigrantes e pela saudade daqueles que haviam ficado para trás. Durante a viagem, Carlo atravessou pela primeira vez a linha do Equador. Os marinheiros explicavam a importância daquele ponto imaginário que dividia o mundo em dois hemisférios. Para homens que haviam passado a maior parte da vida trabalhando em pequenas propriedades rurais, aquela experiência parecia extraordinária.

Após semanas de navegação, os passageiros avistaram o litoral brasileiro. O Rio de Janeiro surgiu diante deles como uma paisagem impressionante, cercada por montanhas cobertas de vegetação exuberante. O calor tropical, os novos aromas e a movimentação do porto faziam os recém-chegados perceber que haviam alcançado um mundo completamente diferente daquele que deixaram para trás.

Entretanto, o destino de Carlo não era o Rio de Janeiro. Após os procedimentos de desembarque e registro, sua família embarcou novamente rumo ao sul do Império. Durante vários dias, o navio costeou o litoral brasileiro até alcançar o Porto de Rio Grande  onde os passageiros desembarcaram e foram abrigados em grande galpões de madeira esperando pelas embarcações fluviais para a continuação da. viagem até o local a eles destinado. Depois de alguns dias veio a ordem de embarcarem novamente. Com pequenos navios fluviais a vapor seguiram pelo rio Guaíba até Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Deste ponto a viagem continuou entrando nas águas do Rio Caí pelas quais, navegando contra a correnteza, atingiram o Porto Guimarães, mais tarde chamado de Porto de São Sebastião do Caí, na cidade de Montenegro. A viagem revelou a imensidão daquele país e aumentou ainda mais a ansiedade dos emigrantes, que aguardavam o momento de conhecer as terras prometidas.

Após o desembarque e depois de um dia de descanso vieram os caminhos de terra. Estradas rudimentares cortavam matas e colinas, exigindo paciência e resistência. Carroças atolavam na lama, animais cansavam e muitas vezes os colonos precisavam seguir a pé, carregando parte de seus pertences. A cada curva da estrada, a paisagem tornava-se mais montanhosa e mais coberta por florestas.

Quando finalmente chegaram à Colônia Dona Isabel, Carlo compreendeu que a verdadeira aventura estava apenas começando. Diante dele erguiam-se montanhas cobertas por araucárias gigantescas. Vales profundos desapareciam entre a neblina das manhãs. A floresta parecia não ter fim. Embora o clima fosse mais ameno do que em muitas regiões do Brasil, aquele ambiente ainda representava um desafio imenso para famílias acostumadas às planícies cultivadas da Lombardia.

Poucos dias depois, Carlo foi conduzido pelos funcionários do governo até o lote que receberia. O que encontrou não se parecia com os campos agrícolas que imaginara. Não havia vinhedos, nem plantações, nem casas prontas. Havia apenas mata virgem. Árvores centenárias cobriam praticamente toda a extensão da propriedade. O silêncio era interrompido apenas pelo canto dos pássaros e pelo som distante de pequenos cursos d’água atravessando a floresta.

Apesar da dimensão do desafio, Carlo e Tereza sentiram algo que jamais experimentaram na Itália. Pela primeira vez na vida, aquela terra lhes pertencia. Não era propriedade de um senhor distante. Não era um campo arrendado. Era deles. O futuro dependeria do trabalho de suas próprias mãos e do esforço de sua família.

Os primeiros meses exigiram sacrifícios enormes. Antes de plantar qualquer coisa, era necessário derrubar árvores, remover raízes e construir um abrigo. Os machados trabalhavam do amanhecer ao anoitecer. As araucárias pareciam monumentos erguidos pela própria natureza e sua derrubada exigia dias inteiros de esforço. Aos poucos surgiram as primeiras clareiras. Depois vieram os ranchos de madeira cobertos por tabuinhas que os imigrantes chamavam de scandole e as pequenas áreas destinadas ao cultivo.

A adaptação também exigiu mudanças na alimentação. Muitos alimentos tradicionais eram impossíveis de encontrar. Em seu lugar surgiam produtos desconhecidos para os recém-chegados. Milho, feijão, pinhão e mandioca tornaram-se parte do cotidiano. Com o passar do tempo, os colonos aprenderam a combinar os conhecimentos trazidos da Itália com os recursos disponíveis na nova terra.

As primeiras plantações representavam mais do que alimento. Representavam a vitória da persistência sobre as dificuldades. O milho crescia nas áreas recém-abertas. Hortas começavam a produzir. Árvores frutíferas eram plantadas ao redor das moradias. Alguns colonos já sonhavam em cultivar videiras e produzir vinho, mantendo viva uma tradição profundamente ligada à cultura italiana.

Ao redor da colônia, famílias vindas de diversas regiões da Itália ajudavam-se mutuamente. Compartilhavam ferramentas, sementes e conhecimentos. Juntos construíam capelas, abriam estradas e transformavam a floresta em comunidade. Aquela solidariedade tornou-se uma das maiores forças dos pioneiros da Serra Gaúcha.

Quando Carlo escreveu sua primeira carta para os parentes de San Benedetto Po, encontrou dificuldade para descrever tudo o que via. Como explicar a grandiosidade das araucárias? Como contar que possuía mais terra do que seus antepassados haviam sonhado cultivar? Como transmitir a mistura de cansaço, saudade e esperança que preenchia seus dias? Ainda assim escreveu. Falou das dificuldades, mas também das oportunidades. Falou da saudade de San Benedetto Po, mas também da confiança que depositava no futuro.

Os anos passaram e as mudanças tornaram-se visíveis. Onde antes existia apenas mata surgiram lavouras, caminhos, escolas e capelas. As famílias cresceram. As comunidades prosperaram. Os filhos de Carlo passaram a falar o seu dialeto em casa e português nas relações do dia a dia. Sem perceber, estavam ajudando a construir uma nova sociedade sem abandonar completamente as raízes herdadas de seus antepassados.

Na velhice, Carlo costumava observar as colinas cultivadas da Colônia Dona Isabel e recordar o dia em que chegara àquele lugar. Onde antes existia uma floresta aparentemente infinita, agora havia propriedades produtivas, famílias estabelecidas e uma comunidade vibrante. O trabalho de milhares de imigrantes havia transformado profundamente a paisagem.

Ele jamais voltou a caminhar pelas margens do rio Pó. Nunca mais viu a abadia de San Benedetto Po nem os campos de sua infância. Contudo, conservou durante toda a vida o pequeno saco de terra trazido da Itália. Quando os cabelos embranqueceram e as mãos perderam a força da juventude, costumava segurá-lo em silêncio. Dentro daquele simples pedaço de tecido conviviam duas pátrias: a que o viu nascer e a que ajudou a construir.

Hoje, os descendentes daqueles pioneiros percorrem as ruas, vinhedos e comunidades que nasceram do esforço de homens e mulheres como Carlo Benassi. Muitos dos seus nomes desapareceram dos registros oficiais, mas sua obra permanece viva. Cada propriedade aberta na mata, cada capela construída, cada parreira plantada e cada família formada representam uma parte do legado deixado por aqueles emigrantes.

A verdadeira herança dos pioneiros não foi apenas a terra que conquistaram. Foi a coragem de abandonar o conhecido para enfrentar o desconhecido, a perseverança para vencer dificuldades aparentemente insuperáveis e a determinação de construir um futuro melhor para as gerações que viriam depois. É por isso que sua memória continua viva. Em cada sobrenome herdado, em cada fotografia antiga preservada pelas famílias e em cada história contada de geração em geração ainda ressoa a mesma chama que levou Carlo Benassi a deixar San Benedetto Po e atravessar o oceano em busca de uma nova vida.


Nota do Autor

Existem histórias que pertencem aos livros e existem histórias que pertencem à memória dos povos. A narrativa que o leitor acaba de conhecer encontra-se justamente entre esses dois mundos.

Esta é uma obra de ficção inspirada na realidade vivida por milhares de imigrantes italianos que deixaram suas aldeias, suas famílias e suas certezas para atravessar o oceano em direção a um destino desconhecido. Os personagens aqui retratados possuem nomes fictícios, assim como alguns acontecimentos foram adaptados para atender às necessidades da narrativa. Contudo, o contexto histórico, os desafios enfrentados, os sentimentos descritos e a essência da jornada permanecem profundamente enraizados na experiência real daqueles homens e mulheres que participaram da grande imigração italiana para o Brasil.

Ao escrever esta história, procurei imaginar não apenas os fatos, mas também as emoções que acompanharam aqueles pioneiros. O que passava pelo coração de um pai ao deixar para trás a terra onde seus antepassados viveram durante séculos? Como era olhar pela última vez para a aldeia natal sem saber se algum dia voltaria a vê-la? Que força extraordinária era necessária para atravessar um oceano, enfrentar florestas virgens, construir uma casa do nada e começar uma nova vida em um continente desconhecido?

Muitas vezes, quando observamos as cidades prósperas, os vinhedos, as estradas, as escolas, as igrejas e as comunidades que hoje fazem parte da paisagem do Rio Grande do Sul, esquecemos que tudo isso teve origem no esforço silencioso de pessoas comuns. Homens e mulheres que possuíam pouco mais do que coragem, fé e disposição para o trabalho. Foram eles que abriram picadas na mata, derrubaram araucárias gigantescas, construíram os primeiros ranchos, cultivaram os primeiros campos e lançaram os alicerces de uma sociedade que transformaria para sempre a história da região.

O progresso do Rio Grande do Sul e de grande parte do Brasil não pode ser compreendido sem reconhecer a contribuição desses pioneiros. Eles trouxeram consigo conhecimentos agrícolas, valores familiares, tradições comunitárias, espírito empreendedor e uma extraordinária capacidade de superar adversidades. Onde existiam apenas florestas e caminhos precários, surgiram colônias, vilas, cidades e centros de produção que ajudaram a impulsionar o desenvolvimento econômico e cultural do país.

Mas talvez o maior legado desses imigrantes não esteja nas construções, nas lavouras ou nas riquezas que deixaram. Talvez esteja no exemplo. Um exemplo de perseverança diante das dificuldades, de amor à família, de confiança no futuro e de coragem para recomeçar quando tudo parecia incerto.

Se você é descendente daqueles homens e mulheres que cruzaram o Atlântico, espero que encontre nestas páginas algo mais do que uma simples narrativa. Espero que encontre um reflexo da trajetória de seus próprios antepassados. Talvez os nomes sejam diferentes. Talvez a aldeia de origem não seja a mesma. Talvez os detalhes da viagem tenham sido outros. Mas os sentimentos, os medos, os sonhos e os sacrifícios certamente foram semelhantes.

Que esta história sirva como uma homenagem a todos aqueles que partiram sem garantias, enfrentaram dificuldades inimagináveis e, mesmo assim, nunca desistiram. Graças a eles, milhões de brasileiros carregam hoje não apenas um sobrenome herdado, mas também uma herança de trabalho, dignidade e esperança.

A memória desses pioneiros merece ser preservada, contada e transmitida às novas gerações. Porque enquanto suas histórias continuarem sendo lembradas, eles jamais deixarão de caminhar ao nosso lado.

Dr. Luiz Carlos Piazzetta


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domingo, 28 de junho de 2026

O Homem que Via a Mãe Envelhecer Pelas Cartas - A Imigração Italiana na Argentina



O Homem que Via a Mãe Envelhecer Pelas Cartas - A Imigração Italiana na Argentina

"Alguns emigrantes cruzaram o oceano uma única vez, mas passaram a vida inteira tentando voltar para casa através das cartas."

Buenos Aires, 4 de julho de 1886.

Quando Nicolò Schiaffino deixou a pequena localidade de Avegno, nas colinas do levante ligure, acreditava que a parte mais difícil da emigração seria atravessar o oceano. Durante semanas enfrentou o balanço do navio, o cheiro da terceira classe, a comida escassa e a incerteza do futuro. Como milhares de italianos, imaginava que a chegada à Argentina representaria o fim dos sofrimentos e o início de uma vida melhor. Descobriria, porém, que o mar não era a maior distância que um homem podia percorrer.
Ao desembarcar em Buenos Aires, encontrou uma cidade muito diferente das descrições que circulavam nas tavernas da Ligúria. Havia riqueza, sem dúvida, mas ela parecia pertencer sempre a outra pessoa. Para os recém-chegados existiam ruas poeirentas, pensões lotadas, quartos alugados por preços absurdos e jornadas de trabalho que começavam antes do amanhecer e terminavam depois do anoitecer. Nicolò conseguiu emprego carregando mercadorias em depósitos próximos ao porto. O serviço era pesado, mas não lhe causava tanta aflição quanto as noites.
Era à noite que surgia o silêncio.
Naquele silêncio, longe dos companheiros de trabalho e do barulho das carroças, a lembrança da família reaparecia com força. Pensava na mãe envelhecendo em Avegno, na irmã Maddalena, nos irmãos, nos sobrinhos que talvez viessem a nascer sem que ele os conhecesse. Foi então que começou a escrever cartas. No início eram simples relatos sobre saúde e trabalho. Com o passar do tempo, tornaram-se algo muito maior. Eram a única forma de continuar pertencendo àquela família.
As respostas demoravam meses para atravessar o Atlântico. Quando uma carta chegava às suas mãos, trazia notícias que já pertenciam ao passado. Uma festa religiosa ocorrida meses antes. A morte de um primo. Uma colheita ruim. O casamento de um conhecido. Nicolò percebia que a vida continuava em sua terra natal sem a sua presença. Era como observar a própria existência através de uma janela distante.
Em janeiro de 1887, a situação econômica argentina começou a preocupar os trabalhadores. O ouro subia de valor continuamente. O aluguel aumentava. A comida tornava-se mais cara. Muitos imigrantes que haviam partido sonhando enriquecer mal conseguiam sobreviver. Alguns escreviam cartas mentirosas para não preocupar as famílias. Outros exageravam o sucesso para justificar a partida. Nicolò preferia a sinceridade. Dizia à irmã que era preciso pensar muito antes de emigrar. A América não era o paraíso anunciado pelos agentes de imigração.
Os cortiços de Buenos Aires transformavam-se em pequenos mundos. Em um mesmo corredor conviviam genoveses, napolitanos, piemonteses, espanhóis e franceses. Havia homens que chegavam cheios de esperança e, poucos meses depois, já pareciam velhos. A pobreza não era novidade para eles. A solidão, sim.
Muitos procuravam companhia nos cafés e tabernas. Outros afundavam na bebida. Nicolò observava tudo aquilo com atenção. Durante anos repetiu para a irmã que não pensava em casar. Considerava a vida instável demais. As mulheres honestas eram poucas, dizia. Os custos eram elevados. O futuro permanecia incerto. No fundo, porém, existia outro motivo. Casar significava admitir que talvez nunca regressasse à Ligúria.
O tempo passou sem pedir licença.
Buenos Aires crescia rapidamente. Novas ruas surgiam. Novos bairros apareciam. Os navios continuavam despejando milhares de europeus no porto. Enquanto isso, a distância entre Nicolò e sua família tornava-se cada vez maior. Não uma distância geográfica, mas temporal. A mãe envelhecia. Os irmãos construíam suas próprias vidas. Os sobrinhos cresciam. E ele conhecia tudo apenas através de folhas de papel.
Em fevereiro de 1888, escreveu incentivando um dos irmãos a emigrar. Os salários argentinos pareciam mais atraentes do que os italianos. Entretanto, o conselho vinha acompanhado de advertências. O trabalho era duro. Os alugueis consumiam grande parte dos ganhos. Nada era tão fácil quanto parecia. Ainda assim, muitos continuavam partindo. A miséria da Europa empurrava multidões para o outro lado do oceano.
Pouco depois, Nicolò conheceu Giuseppina Bozzo, filha de ligures estabelecidos nos arredores da cidade. Ela compreendia sentimentos que ele jamais conseguira explicar aos argentinos. Conhecia a saudade das montanhas, das pequenas igrejas de pedra, do som dos sinos que marcavam as horas das aldeias da Ligúria. A amizade transformou-se em amor. O amor transformou-se em casamento.
Quando escreveu para a irmã em março de 1890, já não era o mesmo homem que desembarcara quatro anos antes. Agora tinha esposa. Tinha responsabilidades. Tinha uma casa modesta. Tinha raízes que começavam a penetrar no solo argentino.
Naquele mesmo ano, a influenza espalhou-se por Buenos Aires. Quase todos adoeceram. Nicolò também. Enquanto permanecia febril na cama, imaginou o que aconteceria se morresse. Quem avisaria sua mãe? Quanto tempo levaria para a notícia chegar à Ligúria? Talvez meses. Talvez mais. A simples ideia de desaparecer sem rever a família o aterrorizou.
Sobreviveu à doença, mas algo mudou dentro dele.
Pela primeira vez compreendeu que o retorno talvez nunca acontecesse.
A década de 1890 trouxe novos desafios. A economia argentina atravessava dificuldades. O valor do ouro disparava. Enviar dinheiro para a Itália tornava-se quase impossível. Em todas as cartas aparecia a mesma frustração. Queria ajudar a mãe, mas as circunstâncias não permitiam. O custo da vida consumia quase tudo. Os imigrantes continuavam trabalhando sem descanso para manter um padrão de vida apenas ligeiramente melhor do que aquele que haviam deixado para trás.
Em março de 1895, Nicolò observava o filho brincando diante da casa e sentia uma felicidade que jamais imaginara experimentar. Ao mesmo tempo, uma tristeza silenciosa crescia em seu coração. O menino falava espanhol com naturalidade. Conhecia Buenos Aires melhor do que qualquer aldeia da Ligúria. Pertencia à Argentina. O pai, não. Nicolò vivia entre dois mundos.
Naquele mesmo ano, recebeu notícias de parentes e conhecidos espalhados pelos bairros italianos da capital argentina. Alguns prosperavam. Outros fracassavam. Muitos desapareciam sem deixar rastros. A cidade tinha o hábito de engolir pessoas.
Foi também nesse período que começou a repetir uma frase que resumiria toda uma geração de emigrantes:
— Se na Itália choram, na América não riem.
A frase não significava fracasso.
Significava maturidade.
Significava compreender que a pobreza existia dos dois lados do oceano. Que o trabalho duro não desaparecia ao cruzar o Atlântico. Que a felicidade não era garantida por nenhum porto de chegada.
Em agosto de 1895, a mãe ainda vivia. A notícia trouxe alívio. A cada carta, entretanto, Nicolò percebia que ela se tornava mais frágil. O tempo avançava sem piedade. Ele desejava ajudá-la financeiramente, mas a situação econômica continuava difícil. O ouro permanecia alto. As despesas aumentavam. Os sonhos de riqueza haviam desaparecido havia muito tempo.
Em maio de 1896, escreveu novamente para a irmã. Agora possuía esposa, um filho e uma pequena filha. Trabalhava muito. Os negócios caminhavam de forma regular. A vida seguia adiante. Porém, ao terminar a carta, permaneceu longo tempo olhando para a folha de papel. De repente compreendeu algo que jamais lhe ocorrera. Conhecia perfeitamente o rosto dos filhos. Sabia como sorriam. Sabia como corriam. Sabia o tom exato de suas vozes. Mas já não conseguia recordar claramente o rosto da mãe. Tentou reconstruí-lo na memória. As feições surgiam confusas. Os detalhes desapareciam. Foi então que percebeu o verdadeiro preço da emigração. Não era o oceano. Não era a pobreza. Não era o trabalho. Era o tempo. O tempo que continuava correndo em dois continentes diferentes.
O tempo que roubava abraços, aniversários, despedidas e reencontros.
O tempo que transformava filhos em estrangeiros e mães em lembranças.
Nicolò Schiaffino jamais se tornou rico. Nunca regressou triunfante à Ligúria. Como milhares de italianos de sua geração, construiu uma vida honrada trabalhando sem descanso numa terra distante. E, ao fazê-lo, descobriu uma verdade que nenhum folheto de imigração ousava mencionar: alguns homens atravessam o oceano uma única vez, mas passam o resto da vida viajando entre aquilo que deixaram para trás e aquilo que conseguiram construir adiante.

Nota do Autor

A história que você acaba de ler foi inspirada em correspondências autênticas escritas por um imigrante italiano estabelecido em Buenos Aires entre os anos de 1886 e 1896. Embora os personagens, os nomes e diversos acontecimentos tenham sido recriados literariamente, os sentimentos, as dificuldades e os dilemas humanos retratados nesta narrativa encontram sólido fundamento na experiência vivida por milhares de italianos que deixaram sua terra natal em busca de uma vida melhor na Argentina.

Quando se fala da grande imigração italiana para a América do Sul, muitas vezes a memória coletiva privilegia as histórias de sucesso, as famílias que prosperaram e as comunidades que floresceram em terras distantes. Entretanto, as cartas deixadas pelos próprios emigrantes revelam uma realidade muito mais complexa e profundamente humana.

A Argentina do final do século XIX atraía multidões com a promessa de trabalho, salários mais elevados e oportunidades inexistentes em muitas regiões da Itália. Contudo, ao desembarcarem em Buenos Aires, Rosário ou outras cidades do país, muitos imigrantes encontravam uma realidade bem diferente daquela imaginada durante a travessia do Atlântico. Os aluguéis eram caros, os empregos instáveis, as crises econômicas frequentes e o custo de vida consumia boa parte dos ganhos obtidos com enorme sacrifício.

Mas os maiores sofrimentos nem sempre eram materiais.

Havia uma dor silenciosa que acompanhava quase todos os emigrantes: a distância. Num tempo em que uma carta podia levar meses para atravessar o oceano, pais envelheciam sem a presença dos filhos, irmãos tornavam-se estranhos uns aos outros, sobrinhos cresciam sem conhecer os tios e muitas despedidas transformavam-se, sem que ninguém soubesse, em despedidas definitivas.

As cartas preservadas nos arquivos históricos mostram homens e mulheres que viviam permanentemente divididos entre dois mundos. Seus corpos estavam na Argentina, mas parte de suas almas permanecia nas aldeias, montanhas e pequenas cidades da Itália. Construíam novas famílias, aprendiam novos costumes e criavam filhos argentinos, enquanto continuavam sonhando com rostos, vozes e lugares que talvez nunca mais tornassem a ver.

Talvez seja essa a maior tragédia humana da imigração: não a pobreza, nem o trabalho exaustivo, nem as dificuldades da adaptação, mas o preço invisível pago pelo tempo. Um preço medido em aniversários perdidos, abraços adiados, funerais ausentes e lembranças que lentamente se apagam.

Ao recriar esta história, procurei homenagear não apenas aqueles que partiram, mas também aqueles que ficaram. As mães que aguardaram notícias durante anos. Os pais que envelheceram olhando para a estrada. Os irmãos que conservaram cartas amareladas como se fossem tesouros. E todos os descendentes que hoje buscam compreender as escolhas, os sofrimentos e as esperanças daqueles que atravessaram o oceano em busca de um futuro melhor.

Que estas páginas sirvam como um convite à reflexão. Por trás de cada sobrenome italiano preservado na Argentina existe uma história de coragem, renúncia e resistência. E por trás de cada carta sobrevivente existe uma voz que ainda hoje nos recorda que emigrar nunca significou apenas mudar de país. Significou, muitas vezes, aprender a viver entre a saudade do passado e a esperança do futuro.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


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sábado, 27 de junho de 2026

La Pàtria che no la ze mia Rivà | Imigração Italiana no Brasil em 1885

 

"A pátria prometida nunca chegou. No lugar dela vieram 
a mata,  o trabalho duro e a coragem de continuar vivendo."

La Pàtria che no la ze mia Rivà 
Stòria de un emigrante del Véneto sparì ´nte le promèsse de la 
colónia brasilian – Ano 1885


Lorenzo Vianello nassùo in ‘na vilota al interno del comun de Cesiomaggiore, un posto quasi desmentegà sui pié dei Alpi Belunesi, ‘ndove i teià rossi de le case i dormiva soto la neve par mesi interi e i campani i suonava pì par i morti che par i vivi. Lu el zera el fiol del meso de ‘na famèia con oto persone, nipote de un ex-soldà austrìaco e de ‘na dona che la zera morta partorindo el sètimo fiol. So pare taiava piere, so mare filava lana — tuti do con le man inflamà e i visi segnà da un tempo che no gavea pietà.

La vita a Cesiomaggiore la zera un inventàrio de rinùnssie. ´Ntei inverni, la fame la rivava insieme con el vento che vegniva da le montagne. ´Nte l’està, vegniva i esatori con le so tasse. L’Itàlia, che la zera sta unificà solo da poco tempo, la zera ancora un imbròio de misèria par chi che viveva fora de le grande sità. Le promesse del novo regno se sentiva solo ´ntei saloni de Turìn o Florensa. Par i contadin vèneti, ‘sta “unificassion” la zera gnente altro che un’altra maniera de pagar nove tasse.

A disdoto ani, Lorenzo el conosséa za el peso de ‘na zapa e el silénsio de la doménega sensa pan. El savea che no gavaria mai eredità ‘na tera — ma solo dèbiti. A ventiséi ani, el se sposò con Angela Dalla Rosa, fiola de un botar. Lei ga avù do fiòi in tre ani. La situassion la diventava pì bruta ogni olta che vegniva la racolta. Quando che le notìssie del Brasil le zera rivà — tera gràtis, passagio pagà, casa assecurà — le pareva che vegniva da un altro mondo. Un mondo che se ciamava “colónia”, parola che, par quei che stava là, la zera ancora sinónimo de speransa.

I ga vendesto tuto quel che no zera indispensàbile. El resto el ga stà impachetà ´nte teli de lin e portà fin a Génova in do veci bauli de legno. I ga partì ‘na matina tùrbia de otobre, insieme a altre famèie del Véneto, de Trento, de Udini. El viaio el ga durà pì de trenta zorni. El magnar el ze finì prima del previsto. El che el ze restà zera viscoti dure, aqua salmastra e preghiere basse ´nte le note che i putei i tossiva fin che no restava pì respiro.

I ga rivà dal Véneto fin al porto del Rio de Janeiro, come se fasea par quela època, dopo setimane chiusi ´ntei sotani del bastimento, imucià, sensa ària. Là i ga passà par l’ispession mèdica, el registro e el control de dogana. Tanti, come lori, che i zera sta destinà par le colónie del sud, i ga dovesto star par zorni ´nte la Hospedaria dos Imigrantes, ‘na costrussion granda, con muri forti e le paroe de desene de léngoe che se mescolava, fin che no vegniva fora ‘na nave par el sud.

Finalmente i ga sbarcà al porto de Desterro, dopo un altro trato de mar, e da là i ga proseguì in careta, e un pò a pié, traversando boscaglie fonde, fin che i ga rivà a Urussanga, ‘na radura cavà con la scure e con el sudor, drento al cuor de la mata atlàntica.

Là, Lorenzo el ga ritrovà suo antico mestiere de muraro e el se ofrì par laorar con la comission de ingegneri che el goerno l’avea mandà par misurar e spartir i loti. Tra quei òmeni ghe zera un altro talian, Michele, un sicilian con el parlar grosso e i modi decisi. ´Nte sinque zorni, Lorenzo el ga aiutà a registrar dosentosinquanta emigranti — un lavor che ghe ga portà in man quel che no gavea mai vardado in tuta la so vita. El lucichio de le lire che el tegnea in man el zera quasi come un sònio. Ma ‘sto oro novo no copriva mica el ingano vècio.

Le promesse le zera come la nèbia de la so tera nativa: fonde la matina, sparì a mesdì. El goerno ancora no gavea pagà i laoradori. La sircular de dicembre del 1884, che prometea de portar i parenti da l’Itàlia, la zera deventà carta morta. E i aministradori locai i tratava i talian con sospeto — boni par laorar, ma no par protestar. Bastava che un ghe domandasse qualcosa, che sùito i ghe ricordava che no zera “nassionài”. I zera, e i sarìa restà, stranieri.

Ma anca cussì, Urussanga la tacava a prender forma. Fondata uficiàalmente ´ntel 1878, la zera ‘na de le cónie programà dal governo imperial par sistemar i emigranti talian sui monti de la provìncia de Santa Catarina. Piantà tra col e vali fondi e ùmidi, i coloni i vegniva dal Véneto, da la Lombardia, dal Friuli — portando poco pì de la fede, la léngoa e do altri feri. Strade no ghe zera — solo sentieri taài a colpi de facòn, e la òrdine la nassea ‘ndove prima ghe gera solo mata.

Case de piera se tirava su cn ‘na sòrte de fermesa europea, ma con solo un pian — no par mancansa de tècnica, ma par mancansa de tempo. La mata la premeva, el clima domandava riparo. Ogni muro che se tirava su zera un gesto de resistensa; ogni téia messa, un grido de restar.

Lorenzo el ga alsà la so casa in silénsio. No ghe zera ne anca ingegnieri né capomastri — solo instinto e urgensa. El portava i blochi su da solo, con i so fiòi pìcoli che vardava e imparava — oci atenti, taci, sporchi de tera e timor. No ghe zera scelta. O i imparava o i spariva, come tanti altri nomi svanì tra la piova e i ani. Là, la infánsia no spetava la maturità: la cresséa al ritmo del maso, con ‘na scola de sopravivensa. Ogni fiòl zera forsa de brasso. Ogni note sensa febre, ‘na vitòria.

Con la mata che scampava drio el colpo del fero, la colónia la prendeva forma pian pian: un molin tocà da ‘na roda d’aqua, ‘na ceseta de legno con el campanèl portà da l’Itàlia, la prima venda ‘ndove se scambiava savon par formento, coltel par sale. Urussanga no nassea come ‘na sità — nassea come ‘na promessa. E ‘sta promessa la custava carne, òssi e fede.

In zugno, el ga rivà don Luigi, nativo de Cimitile, ‘na vila vècia de la Campania, ‘ndove el catolicèsimo zera pì vècio de l’Itàlia stesa. El rivò con un mulo, con le borse sfregà dal sentiero e un crucifìsso de legno scuro che ghe pensolava sul peto. No rivò solo. El portava con sé qualche ìndio catechisà da le robe del alto Tubarão, che ghe dava man con le bagai e con le strade tra le picàde sconde de la mata atlàntica. La so mission zera clara: instruì i coloni su la fede, tegner l’òrdine, e mostrar che l’impero zera presente anca là, con la cruse. Ma el so modo, però, zera un altro: controlar.

El don no el ga perdù gnanca un momento. El tirò su un oratòrio de fortuna con tavole de pignole e bandierine de carta de seda par la fèsta de San Piero. El faseva mèsse, batèsimi, sposai — tuti obligatòri par registrar le famèie con i ispetori de la colónia. El parlava pian, con ´na vose fonda, oci bassi, gesti contà. Domandava el dèsimo, criticava chi che no vegniva a messa, condanava le bali e le canson profane de le feste. El diceva a alta vose che no zera ben conviver con i cabocli — anca se dopo el stesso el contava su de lori par saver ‘ndove andar.

Par qualchedun, la presensa de la Cesa la ze stà un conforto. ‘Na maniera de ritrovar la routine de la fede, che se zera perdù da quando i gavea traversà el mar — un sospiro tra el masso e el formento. Par altri, però, zera segnal de sorvegliansa. El confessionàrio pareva un posto de spionà. El pùlpito, ‘na estension de l’autorità imperial.

Quel che Lorenzo el vardava zera ‘na ripetission de quel che el gavea lassà in Itàlia: autorità vestìda da religion. Le stesse batine nere che là in paese le gà benedìo el feudalesimo e serà i oci su la misèria, adesso le tirava su la cruse ´ntel meso de la mata con la stessa ària de comando. La diferensa zera solo la léngoa de le piante e el calor. Ma el peso del poder zera el stesso. Par questo, Lorenzo el scoltava, ma no el s’inchinava. El lassava che el don el batisà i so fiòi, ma dopo el ghe insegnava a vardar col so propri oci. Parché, tra la zapa e el rosàrio, zera la prima che portava pan.

El 24 de marso, un zòvene de Santo Stefano di Cadore el morì de febre. Gavea ventido ani, el corpo magnà via in pochi zórni da brìvidi, deliri e sudor fredo. No ghe zera dotor, ne anca remedi. Solo tisane de erbe e preghiere bisbiglià. La febre, forse palustre, zera ben conossù tra i che rivava da poco — corpi debuli, pien de mar e ignoranti de le bèstie che stava ´ntei vali caldi de la montagna.

La morte la ga rivà un matin, in silénsio. Sensa campani, sensa candee, sensa cesa. Solo el rumor de la mata e el peso ´ntei oci de chi che restava. La cruse de legno che i ghe piantò in riva al sentiero la ze stà fata da Lorenzo, con le so man — legno de guatambù taià con el maso smussà, piantà tra piere ùmide de nèbia. ‘Na cruse semplice, rùvida, sensa gnanca el nome. Ma con la verità drento. Uguale a le tante che el gavea visto tra i vali de Belluno, ‘ndove i putei i moriva de polmonite e i veci de fredo. Ma adesso zera su un continente ‘ndove gnanca la tera zera conossù.

La tera no zera mica consacrà. No ghe zera prete quel zorno, né tempo par el dòlo. El fiolo lu el ze stà sepolto con la camisa dosso e ‘na medáia de Sant’Antonio sul peto. Qualcheun el disea ‘na preghiera in dialeto. Altri, solo un ceno con el capo. El silénsio zera lo stesso de tante morte che se impilava, invisìbili, lungo la strada: putei, done gravide, zòveni — morti prima de lassar segni, fora de ‘na cruse storta in meso al bosco.

Lorenzo, quel zorno, con la man sul maso, no el piansea. Ma el vardava lontan, ‘ndove finìa el monte — come par tegner in memòria el nome del morto. El savea che in pochi mesi el mato gavaria coperto tuto. Che la piova la gavaria s-ciavà le trace e el baro el gavaria coerto i ossi. Ma fin che la cruse restava drita, anca storta, qualcun ghe ricordarìa. E ricordar, ‘ndove no ghe zera né confini né cimiteri, zera za ‘na forma de resistensa.

El Brasile el cambiava ministri come che un cámbia camisa. I gabineti i cascava, i presidenti de provìnsia i vegniva sostiùi ogni tanto, e ogni autorità nova la portava ‘na promessa nova — granda de parole, corta de memòria. La sircular de dicembre del 1884, scrita dal Ministero de l’Agricoltura par permeter l’arivo dei parenti dei emigranti, la zera sparì tra i casseti de la burocrassia imperial. Stampà con i squili ´ntei zornai de la Corte, la zera sta lesesta con speransa ´ntei coloni, ma dopo pochi mesi la zera morta, sofocà da el disinteresse, dai cambi de comando e da la mancansa de comprenssion verso chi che stava lontan da la capital.

El governo brasilian el restava in silénsio. Un silénsio grosso, fato de tinta seca e promesse morte.

Ma Lorenzo el scrivea ancora. Con la pena fina, su le carte ormai zaldote che el siapava con el almossarife de la colónia, el mandava lètare al fradèo, restà a Santo Stefano. Ghe contava la dura verità de ‘sto mondo novo — le falsità tra i coloni, el fango che entrava fin inte le fessure del solo, le malatie che portava via i putei in silénsio, le tere che domandava sangue prima de dar spighe. No el ga contà de glòria, ma la roba vera. Nuda e cruda.

E ogni lètara el finiva sempre con la stessa frase. Come un ino sconfito ma tenase. ‘Na renga che no domandava pietà, ma che afirmava ‘na scelta fata con i piè sporchi de pólvere:

“Se vivo ‘ntel Brasile, è perché in Itàlia si moriva pègio.”

Zera la verità seca de chi che no el zera scampà par soniar, ma parché no ghe zera pì tera soto i piè. ‘Na verità che bastava poche parole par spiegar la lontanansa, el esìlio, el sacrifìssio — e, sopratuto, el silénsio conivente tra chi che el zera restà e chi che el zera quando el ga partì.

Nota de l’Autor

Sto libro che el ze ‘na fision basà su robe vere. La stòria de Lorenzo — un omo del Véneto che el ga traversà l’ocean ‘nte l’ano 1885 con un baule de legno, la fé s-ciopà da la vita e el spìrito de ‘ndar a ciapàr un tocheto de tera — la ze anca la stòria de miàia. Miàia de vosi che se ga tacà in meso ai boschi del Brasile, sepolte soto le date ufissiai, le carta ministeriài e le promesse mai mantenude.

Par ani, mi go scavà tra le lètare vècie, i relati del Ministero de l’Agricultura, i verbài de le càmare de colònia e i diari de bordo che se desfàva tra le man. I nomi, qua, i ze inventà. Ma i sentimenti, gnanca par ombra. La delusion, la fadiga crua, el parlar che no se capiva, la fé s-ciopà tra speransa e paura, la morte sensa nome de chi che no la ga resistì — tute ste robe le fa parte de ‘na memòria che ancora la bate, là, in meso ai sassi dei fondamenti e le crose desmentegà a la riva dei boschi.

“La Pàtria che No la Ze Mia Rivà” la ze, prima de tuto, un tìtolo de dolor. Par tanti emigranti talian, el Brasile no el ze stà ‘na tera promessa, ma ‘na continuassion de l’abandono. I ze rivà par scapar da la fame, da la servitù e da la guera, e i ga catà la selva, la lontanansa e la solitùdine come novi paroni. La pàtria — quela de i reclami, de le paroe dei mediadori e de le circolari imperiai — la no la ze mai rivà. Quela che la ze rivà, la ze stà la boscaia. La zapa. E el silénsio.

Sto libro che el ze ‘na prova che stà a scoltà quel silénsio.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


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