História do Vêneto e da grande emigração italiana, quando milhões deixaram a Itália entre os séculos XIX e XX em busca de uma vida melhor no Brasil e no mundo. Contato com o autor luizcpiazzetta@gmail.com
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Sob os Pinheiros do Novo Mundo e a Emigração Italiana de Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli ao Brasil (1878)
sexta-feira, 14 de novembro de 2025
Do Vêneto à Serra Gaúcha: a jornada de Carlo Bernardini e o início da Colônia Caxias – 1890
Do Vêneto à Serra Gaúcha: a jornada de Carlo Bernardini e o início da Colônia Caxias – 1890
A Travessia de Carlo Bernardini
Quando o navio cruzou o Atlântico e o horizonte começou a se apagar sob o peso das nuvens, Carlo Bernardini entendeu que a vida antiga havia terminado. Maser, o vilarejo de colinas e neblinas na província de Treviso, ficava para trás como um quadro guardado na memória. No outono de 1887, abandonara a terra natal com o coração dividido entre a necessidade e a esperança. A Itália, unificada há pouco, era uma promessa quebrada; o solo empobrecido, o trabalho escasso, o pão medido em fatias. A América, ao contrário, era um rumor distante — o país onde se dizia que o trigo brotava sem pedir licença e o governo entregava terra a quem tivesse coragem de lavrá-la.
Três anos depois, no alto da serra do Rio Grande do Sul, Carlo aprendera a suportar o peso dos dias. Trabalhava para o governo, abrindo picadas e demarcando os terrenos que seriam destinados aos imigrantes. O engenheiro responsável — um brasileiro de fala pausada e modos firmes — reconhecera em Carlo um homem de confiança, e por isso intercedeu unto ao governo que lhe concedeu um lote à beira da estrada principal da Colônia Caxias. Era um pedaço de terra rude e fértil, onde o mato se erguia até o peito e o ar cheirava a resina.
Carlo construiu ali uma casa simples, de madeira escura, e cada tábua pregada era um gesto de renascimento. Trabalhava desde o romper do dia, recebendo cinco florins por jornada — o suficiente para manter o corpo de pé e o espírito em paz. Com o pouco que ganhava, comprou duas vacas e um cavalo, sinal de que o tempo começava a recompensá-lo. O governo prometera novos pagamentos, e ele esperava pelo próximo como quem espera a colheita depois da seca.
A solidão era a única coisa que o dinheiro não comprava. Nas tardes em que a chuva descia grossa sobre o vale, Carlo sentava-se diante da janela e olhava o caminho lamacento por onde, de tempos em tempos, passavam tropeiros, colonos e carroças cobertas. A ausência dos pais lhe pesava como pedra no peito. Sonhava em vê-los chegar, velhos e curvados, trazendo consigo o cheiro da terra vêneta e o calor das vozes familiares.
O Brasil, aos seus olhos, era um mundo novo e indecifrável. As florestas pareciam intermináveis, e os sons da mata — pássaros, insetos, o estalo dos galhos — lembravam-lhe que estava longe de tudo o que conhecia. Ainda assim, havia uma força secreta naquela solidão. O trabalho constante, o suor e o cansaço faziam-no sentir parte da paisagem. A cada árvore derrubada, a cada cerca erguida, Carlo via nascer não apenas uma colônia, mas uma civilização.
Os colonos que chegavam de outras partes da Itália traziam histórias parecidas: fome, dívidas, despedidas. Todos falavam com o mesmo sotaque cansado e o mesmo brilho de obstinação nos olhos. Juntos, transformavam o mato em lavoura, as picadas em estradas, os barracos em vilas. O nome “Caxias” começava a ganhar sentido — símbolo de uma nova vida construída sobre o esforço de quem não tinha nada além das próprias mãos.
Com o passar dos meses, a colônia se organizou. A estrada principal virou o eixo da vida comunitária: ao longo dela, surgiram a venda, a ferraria, a igreja de madeira e, mais tarde, a escola. Carlo era visto como um dos pioneiros — um homem que aprendera a lidar com as ferramentas do governo e com a dureza da terra. O engenheiro Brito, seu superior, elogiava-lhe a disciplina e a fé.
Apesar do progresso, a saudade nunca o abandonou. Nas noites de verão, quando o vento trazia o cheiro úmido da floresta, Carlo recordava o som dos sinos de Maser e a voz da mãe chamando da porta. Sonhava que, um dia, poderia juntar dinheiro suficiente para trazê-los. Imaginava o pai caminhando pela estrada de Caxias, espantado com a vastidão da América, e a mãe chorando de emoção diante da casa que o filho erguera com as próprias mãos.
O tempo, no entanto, seguia implacável. As cartas que mandava à Itália demoravam meses, e muitas não recebiam resposta. Ainda assim, ele escrevia, movido por um dever silencioso: o de manter viva a ponte entre o velho e o novo mundo. Em cada linha, descrevia os vales, o trabalho, a esperança de que um dia todos se reuniriam sob o mesmo teto.
Quando o outono de 1890 chegou, Carlo percebeu que o Brasil já o transformara. Não era mais o camponês de Maser, mas um homem endurecido pela distância e pelo destino. Os calos nas mãos eram suas medalhas; o campo que arava, seu testamento. Olhava a colônia e via crianças correndo, mulheres amassando pão, homens carregando madeira — a prova de que o sacrifício não fora em vão.
Naquela terra distante, Carlo encontrou mais do que trabalho: encontrou sentido. A solidão dera lugar à certeza de pertencer a algo maior. A Colônia Caxias, ainda jovem e coberta de mato, tornava-se um pedaço de Itália fincado no coração do sul.
Sob o céu avermelhado do entardecer, Carlo Bernardini ergueu os olhos e pensou que talvez o futuro começasse ali — no ponto exato em que o cansaço e a esperança se encontravam.
Nota do Autor
Esta narrativa é uma obra de ficção histórica, construída a partir de fatos, datas e emoções reais contidas em antigas cartas de emigrantes italianos do Vêneto, hoje preservadas em acervos museológicos do Rio Grande do Sul.
Embora os nomes e alguns detalhes tenham sido alterados, o enredo segue de perto as experiências relatadas por esses pioneiros que deixaram Maser e outras pequenas vilas de Treviso em direção às matas e vales da Colônia Caxias, no final do século XIX.
Trata-se, portanto, de uma recriação literária — uma tentativa de dar voz a homens e mulheres anônimos que transformaram o exílio em pátria e a saudade em herança. Suas palavras, escritas há mais de um século, continuam a atravessar o tempo, lembrando-nos que a história da imigração italiana no Brasil não é feita apenas de datas, mas de silêncios, distâncias e esperanças.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Dal Vèneto a la Serra Gaúcha: La Zornada de Carlo Bernardini e el Scomìnsio de la Colònia Caxias – 1890 CORRIGINDO
Dal Vèneto a la "Serra Gaúcha": la zornada de Carlo Bernardini e el scomìnsio de la Colónia Caxias – 1890
Ma la nostalgia no lo molava mai. Ne le noti de estate, co el vento portava l’odor umido del mato, Carlo rivedeva la nèbia de Maser, i sò campi, el fogo ne la casa. El sognava che, un dì, i genitori i rivasse anca lori, e che la mare la piangesse de contentessa vardando la casa nova che el fiol gaveva fato co le man.
Le letare le partiva ogni tanto, ma poche le rivava in tera. El sapeva che le parole, qualche volta, le se perdeva tra i monti e i mari. Ma el scriveva lo stesso, perché scrìvar iera come respirar. El ghe contava de la vita de Caxias, de la tera che rendeva, de la speransa de rivédarse tuto un giorno.
Soto quel ciel rosso de sera, Carlo Bernardini alzò el sguardo e capì che forse el futuro el naséa lì — proprio nel ponto dove la fadiga e la speransa se tocava.
Nota del Autor
’Sta stòria la ze ’na fission stòrica, ma nassesta sora le parole vere de emigranti veneti che, tra el fin del sècolo XIX, i scrivea da le colonie del Rio Grande do Sul.
Le so lètare, incoi custodì in musei e archivi, le conta la fadiga, la lontanansa e la fede de chi che i ga lassà Maser e le contrade de Treviso par trovar vita nova tra i monti e i vali de Caxias.
I nomi i ze stà cambià, ma l’ànima de la stòria la resta vera. L’intento de ’sto raconto el ze de far parlar ’na altra volta ancora quei òmeni e quei done che, con le man rote e el cuor pien de speransa, i ga fato del silénsio ’na pàtria e de la misèria ’na eredità.
Le so vose, scrite sora carta descolorà dal tempo, le resona ancora tra ’sti monti — come ’na preghiera che no se desmentega mai.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
quinta-feira, 15 de maio de 2025
A Aventura de Lorenzo
A Aventura de Lorenzo
Lorenzo nasceu em 1853 em uma vila chamada Schiavonia, no interior do comune de Este, na província de Padova. Desde pequeno, aprendera com o pai o ofício árduo da lavoura, enfrentando os caprichos do clima e a opressão dos impostos que tiravam quase tudo o que conseguiam da terra. Na pracinha local ouvira histórias sobre um novo mundo, uma terra distante onde os campos eram vastos e a oportunidade esperava por aqueles dispostos a trabalhar. O mais importante: o governo imperial brasileiro fornecia gratuitamente as passagens de navio até o Brasil e o transporte até o local da colonia. Também poderia adquirir do governo a bom preço, e em muitas prestações anuais, a tão sonhada terra, ambição de toda a sua família por gerações. Aos vinte e quatro anos, a promessa de uma vida melhor se tornou irresistível.
No inverno de 1877, despediu-se dos pais e irmãos e embarcou em Gênova rumo ao Brasil. O navio estava abarrotado de emigrantes, todos buscando uma nova chance. A viagem durou 23 dias. O mar castigava os passageiros com seu balanço incessante; a comida era escassa e insossa. Água potável racionada e instalações sanitárias sem muita privacidade e insuficientes para tantos passageiros. No primeiro dia, Lorenzo sentiu o estômago revirar e passou horas debruçado sobre as amuradas, mas aos poucos acostumou-se. Sua esposa, Lucia, não teve a mesma sorte e passou grande parte da travessia enjoada e enfraquecida. Em meio a mil e quinhentas almas a bordo, uma criança nasceu e outra faleceu, levada por uma febre cruel.
No dia 1º de março de 1878 desembarcaram finalmente no porto de Rio Grande, após trocarem de navio no porto do Rio de Janeiro, onde apresentaram seus documentos e obtiveram permissão oficial de entrar no Brasil. A cidade era uma confusão de sons e cheiros desconhecidos, um choque para os recém-chegados. Foram mantidos ali por longos doze dias, abrigados precariamente em grandes galpões de madeira bruta que serviam de alojamento, aguardando a ordem de embarque no transporte fluvial em direção ao interior do estado, onde a promessa de terra e trabalho os esperava. Quando enfim partiram, embarcaram em um vapor fluvial e enfrentaram a correnteza por cerca de dez horas. Cruzaram a vasta Lagoa dos Patos e adentraram a foz do rio Caí, avançando por entre florestas cerradas e matas exuberantes que emolduravam o trajeto. Após uma longa jornada rio acima, alcançaram o porto São João, às margens do rio Caí, na cidade de São Sebastião do Caí. Dali, seguiram a pé e em grandes carroças puxadas por bois, atravessando trilhas íngremes e caminhos tortuosos, rumo à Colônia Caxias, acompanhados por alguns funcionários do governo. A recepção foi calorosa, mas a realidade rapidamente se impôs. A terra era fértil, mas bruta, exigindo força e perseverança. Lorenzo recebeu um lote de terra em meio à mata densa. Junto com outros colonos, construiu um barraco com as toras das árvores abatidas para formar uma clareira, coberta com folhas de palmeiras e de outras de folhas largas e começou a desbravar o solo. O trabalho era incessante: grossas árvores precisavam ser derrubadas, raízes arrancadas e o solo preparado com fogo para o plantio. Durante os primeiros meses, viveram com o pouco que lhes davam e com o que conseguiam caçar. Não havia médicos por perto, e uma simples febre poderia significar morte.
Aos poucos, o assentamento prosperou. A colônia foi crescendo, e os italianos começaram a erguer casas de pedra, escolas e uma igreja. Lorenzo, com sua experiência no cultivo, tornou-se um dos primeiros a plantar trigo em grande escala, o que lhe garantiu um rendimento melhor do que muitos outros. A colônia passou a produzir excedente, e os colonos começaram a comercializar seus grãos e mais tarde vinhos com outras cidades próximas e até a capital Porto Alegre, aproveitando o rio Caí para o transporte.
Os anos passaram, e Lorenzo viu seus filhos crescerem falando o talian, a língua italiana falada em todas as regiões de colonização, misturando-se à nova terra sem esquecer as raízes. Quando a Itália mergulhou na guerra, ele fez questão de enviar gratuitamente parte de sua colheita como ajuda aos compatriotas. Feito que mereceu uma homenagem do país com o título de comendador. Embora tivesse encontrado no Brasil uma nova pátria, nunca esqueceu a dor da partida.
Morreu em 1921, aos sessenta e oito anos, respeitado por sua comunidade e reconhecido como um dos pioneiros que ajudaram a construir a próspera Colônia Caxias. Seu nome ecoaria por gerações, não apenas como um lavrador habilidoso, mas como um homem que transformou sacrifício em legado, dor em esperança e uma terra desconhecida em lar.
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A Imigração Italiana e o Nascimento de Caxias do Sul no Rio Grande do Sul
Foi sobretudo na América do Sul, e em particular no Brasil, que a emigração italiana produziu, sob a pressão das cada vez maiores ondas de chegadas de imigrantes italianos dos anos 1890, a propagação de dezenas de povoações que deram início às etapas da evolução normal de um tecido urbano, passando rapidamente de aglomerados de cabanas à cidades populosas e cheias de vida.
A cidade de Caxias do Sul, localizada no estado do Rio Grande do Sul, pode ser tomada como exemplo emblemático: em 1880, as primeiras casas de madeira parecem ser dominadas pelas grandes copas de árvores que sobreviveram ao desmatamento dos colonizadores; cercas improvisadas com troncos irregulares dominam as ruas esburacadas e lamacentas.
Alguns anos depois, a fotografia já revela a presença de um projeto urbanístico específico: as casas, mais numerosas e bem conservadas, erguendo-se às margens de uma rua larga, a futura rua Julio de Castilhos.
Na década de 1920 a cidade se mostrava com ruas largas e bem cuidadas, onde os carros começaram a substituir as carroças e carruagens; a corrente elétrica anima lojas, palácios e residências que, com a pompa das fachadas, testemunham o nível de riqueza alcançado pela burguesia local.
Em torno dos edifícios públicos a presença massiva de pessoas, por ocasião de celebrações religiosas ou civis, dá a medida da vitalidade e expansão contínua de uma cidade onde a presença e a cultura dos emigrantes venetos são cruciais.
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O Caminho dos Imigrantes Italianos no Brasil
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Os Imigrantes Italianos nos Campos de Cima da Serra do RS
Texto da página oficial da Prefeitura de Caxias do Sul
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
A Chegada dos Imigrantes Italianos na Colônia Caxias
Erechim RS











