terça-feira, 25 de novembro de 2025

A Tradição do Arenque Defumado Atado ao Barbante no Vêneto e Sua Ligação com a Pelagra


A Tradição do Arenque Defumado Atado ao Barbante no Vêneto e Sua Ligação com a Pelagra


Introdução

Entre as lembranças mais fortes da vida rural no antigo Vêneto, que ecoam ainda entre os descendentes de emigrantes, há uma imagem simbólica: um arenque defumado pendurado por um barbante sobre a mesa de comer. Esse gesto — simples, mas carregado de significado — era testemunho da pobreza endêmica das famílias venetas no final do século XIX e início do XX. 

A Tradição do Arenque 

Nas narrativas orais dos mais velhos, quando a família se reunia para comer, quase nunca havia proteína ou carne suficiente. A base era normalmente polenta — feita de farinha de milho, alimento barato, mas pouco nutritivo para quem dependia exclusivamente dele. 
Para dar algum sabor àquela refeição humilde, atavam um arenque defumado por um barbante e penduravam-no sobre a mesa. Depois, cada membro esfregava sua fatia de polenta quente na superfície do peixe, transferindo um pouco do gosto salgado e defumado para a polenta. Outras variantes dessa memória mencionam salame pendurado ou até ossos usados para fazer caldo (“brodo”) — que circulava entre as casas da vizinhança, cada dia uma família preparava o brodo. 

Ligação com a Pelagra

A razão pela qual esse costume ficou registrado nas tradições orais vai além da criatividade culinária: reflete privação. Muitos relatos afirmam que a má alimentação, a quase ausência de fontes de proteína e a dependência de alimentos baratos como a polenta contribuíram para doenças graves, especialmente a pelagra
A pelagra é uma doença nutricional causada pela deficiência de niacina (vitamina B3) e aminoácidos como o triptofano. Historicamente, houve sérios surtos de pellagra no Vêneto rural: segundo registros, a miséria, a monocultura do milho e a baixa variedade alimentar foram fatores decisivos. Fontes históricas confirmam que entre as populações mais pobres do Vêneto, a incidência da pellagra era especialmente alta no final do século XIX e início do XX. 

Além disso, especialistas em história social e da saúde apontam que a precariedade da dieta era uma das principais forças motrizes da emigração — muitos deixaram o Vêneto para fugir da fome e da doença (como a pelagra). 

Contexto Cultural e Histórico 

Esse costume pode ser visto como parte de uma economia de sobrevivência, típica das comunidades agrícolas pobres da planície do Vêneto. A polenta, alimento barato e saciante, era central na cultura alimentar do Vêneto; segundo estudos sobre a migração veneta e a alimentação, esses pratos simples reforçavam também os laços comunitários e familiares.

Além disso, em tradições alimentares venetas existe registro de peixes salgados, defumados ou curados, que eram usados para conservar proteína em condições de escassez.
O ritual de pendurar peixe ou carne sobre a mesa pode, assim, representar tanto a pobreza quanto a invenção popular para driblar a limitação de recursos.

6. Conclusão

A imagem do arenque defumado pendurado por um barbante sobre a mesa é mais do que uma curiosidade gastronômica: é um símbolo forte da miséria veneta e da luta das famílias para sobreviver com pouca comida e quase nenhuma proteína. Esse costume reforça não só a criatividade e a resiliência cultural, mas também a memória histórica de doenças graves como a pelagra, vinculadas à desnutrição. Hoje, preservar esse relato é valorizar a experiência dos antepassados venetos, lembrando às novas gerações o que significava ter necessidade — e por que a alimentação é tão central para a saúde e a dignidade humana.

7. Nota do Autor

Como autor, ressalto que este texto parte de relatos orais transmitidos pelos descendentes de emigrantes vênetos e de pesquisas históricas sobre a pobreza rural e a pelagra no Vêneto. Ao combinar tradição narrativa com fontes históricas confiáveis, meu objetivo é dar voz a uma memória muitas vezes esquecida: a de comunidades que usavam soluções criativas para driblar a escassez, mas pagavam um preço alto em saúde. Esse tema reafirma a importância de entender a relação entre cultura alimentar e bem-estar social.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


Relação de Imigrantes Italianos, Vapor Poitou fevereiro 1876

Vapor Giulio Cesare

 


Vapor Poitou

Procedente de Marsella

Ano 1876



Belizia

Benassi

Callarco

Calomino

Cambellini

Campagna

Cassano

Cataldo

Cervelli

Conte

De Buono

Di Salvo

Eognini

Eramontano

Filippo

Giambastiani

Giorgi

Grassia

Grillo

Guiliani

Gullo/Gollo

Julianello

Luchesi

Magri

Mandadori

Manfredi

Marotta

Mazzullo

Morello

Patitucci

Pellegrino

Pilayo

Ragghianti

Rago

Ramunno

Rittratte

Santarzo

Santoro

Sciomarella

Serpa

Siciliano

Ungaretti

Viggiano

Yarbo