As Doze Famílias que Deixaram Istrana - A Fundação Italiana da Colônia São Carlos, no Paraná
"Toda grande comunidade nasceu um dia da coragem de poucas famílias que tiveram a ousadia de trocar o passado pela esperança."
Às vezes, a História não muda por causa de reis, generais ou guerras. Às vezes, ela muda quando um pequeno grupo de camponeses decide abandonar tudo o que possui para atravessar um oceano em busca de uma vida que ainda não existe. Foi exatamente isso que aconteceu em meados de 1888.
Na localidade de Ospedaletto, no município de Istrana, um pequeno comune da província de Treviso, no coração do Vêneto, viviam doze famílias de agricultores. Eram homens e mulheres acostumados ao trabalho duro, à terra úmida sob os pés e às colheitas que determinavam o ritmo da vida. A maioria cultivava propriedades que pertenciam a outros. Eram meeiros e arrendatários, presos a um sistema que lhes permitia sobreviver, mas raramente prosperar.
As casas eram modestas, sempre cheias de crianças. As famílias cresciam, mas a terra permanecia a mesma. Cada inverno parecia mais rigoroso que o anterior, e cada colheita deixava a sensação de que o esforço nunca seria suficiente.
Quando o Vêneto foi incorporado ao recém-formado Reino da Itália, muitos acreditaram que dias melhores estavam por vir. A realidade, porém, mostrou-se diferente. Os novos impostos recaíram com violência sobre quem menos possuía. As sucessivas crises agrícolas reduziram ainda mais a produção, enquanto o custo da sobrevivência aumentava ano após ano.
Foram justamente os pequenos agricultores que pagaram o preço mais alto pela construção da nova Itália.
A esperança começou então a apontar para o outro lado do oceano.
A palavra América circulava pelas aldeias quase como uma promessa. Falava-se de terras férteis, de propriedades próprias e da possibilidade de construir um futuro que na terra natal parecia definitivamente perdido.
Pouco a pouco, a decisão amadureceu.
Não foi um gesto impulsivo, mas uma escolha dolorosa.
Partir significava abandonar a casa onde haviam nascido, a igreja onde haviam sido batizados, os campos cultivados por seus pais e avós, os vizinhos de toda uma vida e os túmulos daqueles que jamais poderiam acompanhar a viagem.
Na despedida, ninguém sabia se algum dia voltaria a rever aquelas paisagens.
Levaram apenas o indispensável.
Algumas roupas, ferramentas, imagens religiosas cuidadosamente protegidas entre panos, rosários já gastos pelas orações, documentos de família e sementes que simbolizavam muito mais do que alimento: representavam a esperança de fazer a vida florescer novamente.
No porto de Gênova embarcaram no vapor Rio de Janeiro.
Quase todos viam o mar pela primeira vez.
Diante daquela imensidão azul compreenderam que o oceano não separava apenas dois continentes. Separava duas existências.
A travessia foi longa.
Muito mais longa do que imaginavam.
Durante muitas semanas viveram em alojamentos apertados, enfrentando calor, umidade, alimentação precária, doenças e uma rotina marcada pela incerteza. Os dias confundiam-se uns com os outros. Restavam apenas o balanço constante do navio e a esperança de avistar terra firme.
Foi durante essa viagem que aconteceu a maior tragédia.
Uma criança de apenas um ano de idade adoeceu e morreu antes que o navio alcançasse qualquer porto.
Conforme determinavam as regras da navegação, o pequeno corpo precisou ser entregue ao mar.
O silêncio tomou conta do convés.
As orações misturaram-se ao som das ondas.
Quando o oceano recebeu aquela criança, todos compreenderam que a viagem para a América exigia muito mais do que coragem. Exigia renúncias impossíveis de medir.
Décadas depois, aquele episódio ainda permanecia vivo na memória dos sobreviventes.
Finalmente, o vapor chegou ao porto de Santos.
Mas a jornada ainda estava apenas começando.
Os imigrantes seguiram para Paranaguá e, dali, alcançaram a Colônia São Carlos, no Paraná, uma área destinada ao povoamento agrícola.
Cada família recebeu um lote de terra equivalente a dezoito campos trevisanos, cerca de noventa e três mil metros quadrados.
Era muita terra.
Mas era também muita floresta.
Antes de plantar, era preciso derrubar árvores centenárias. Antes de colher, era necessário construir abrigo. Antes de pensar no futuro, era preciso sobreviver ao presente.
Os primeiros dias foram extremamente difíceis.
Durante semanas, muitas famílias dormiram diretamente sobre o chão, enquanto levantavam os primeiros barracões que serviriam de moradia.
Apesar de todas as dificuldades, havia uma certeza compartilhada por todos.
Nenhuma comunidade sobreviveria sem fé.
Por isso, uma das primeiras construções erguidas foi uma pequena capela. Como ainda não havia sacerdotes na região, os próprios colonos organizavam as orações, ensinavam catecismo às crianças, rezavam o rosário e mantinham viva a tradição religiosa que haviam trazido do Vêneto.
Ao mesmo tempo, surgiam os primeiros ensinamentos, transformando um simples abrigo em escola improvisada para que os filhos aprendessem a ler, escrever e preservar a língua e os costumes de seus antepassados.
Cartas atravessavam regularmente o Atlântico.
Nelas seguiam relatos sobre a nova terra, as dificuldades da floresta, as primeiras colheitas, os casamentos, os nascimentos e as perdas. Eram mensagens carregadas de saudade, mas também de esperança. Graças a elas, muitos parentes que permaneceram na Itália passaram a conhecer a verdadeira realidade da imigração, muito diferente das promessas feitas pelos agentes de colonização.
Os anos passaram.
As árvores deram lugar às lavouras.
Os barracões transformaram-se em casas.
As picadas tornaram-se estradas.
A pequena comunidade cresceu.
As crianças tornaram-se adultos e construíram novas famílias.
Hoje, a antiga Colônia São Carlos integra a cidade da Lapa, no Paraná.
Poucos imaginam que aquele lugar nasceu do esforço silencioso de apenas doze famílias vindas de um pequeno comune do Vêneto.
Entretanto, cada rua, cada propriedade e cada descendente preservam uma parte dessa história.
A verdadeira riqueza daqueles pioneiros nunca foi a terra que receberam.
Foi a coragem de abandonar um passado marcado pela pobreza para construir um futuro que existia apenas na força da esperança.
Foi essa coragem, muito mais do que qualquer documento oficial, que lançou os alicerces de uma comunidade inteira e transformou o sonho de doze famílias em um legado que atravessou gerações e continua vivo até os dias de hoje.
Nota do Autor
Ao longo da História, milhões de pessoas atravessaram oceanos. Pouquíssimas, porém, deixaram registros capazes de contar o que realmente sentiram quando olharam para trás pela última vez e compreenderam que jamais voltariam a viver na terra onde nasceram.
Esta narrativa nasceu da necessidade de dar voz justamente a esses homens, mulheres e crianças que raramente aparecem nos grandes livros de História. Pessoas comuns, sem títulos de nobreza, sem riqueza e sem poder, mas cuja coragem foi extraordinária. Eram agricultores anônimos que carregavam nas mãos apenas as marcas do trabalho e, no coração, uma esperança maior do que o medo.
Ao escrever estas páginas, procurei enxergar a imigração italiana não como uma sequência de datas, navios ou estatísticas, mas como aquilo que verdadeiramente foi: uma profunda experiência humana. Cada despedida significava romper laços construídos ao longo de gerações. Cada milha navegada afastava os imigrantes da própria infância. Cada amanhecer no oceano representava uma aposta silenciosa de que o sofrimento faria sentido quando seus filhos finalmente encontrassem uma vida melhor.
A história dessas doze famílias é, na verdade, a história de milhares de outras que partiram do Vêneto, do Friuli, da Lombardia, do Piemonte e de tantas regiões da Itália levando quase nada além da fé, da dignidade e da disposição para recomeçar. Em cada uma delas existia o mesmo medo do desconhecido, a mesma saudade da terra natal e a mesma determinação de transformar uma floresta em lar.
Enquanto escrevia este texto, não consegui deixar de imaginar o instante em que o navio desaparecia lentamente no horizonte. Naquele momento, ficavam para trás as casas, os sinos das igrejas, as videiras, os campos cultivados pelos avós e até mesmo os túmulos da família. A partir dali, restava apenas o oceano e uma esperança quase impossível de explicar.
Talvez seja justamente essa esperança o maior legado deixado pelos imigrantes italianos. Eles ensinaram que a verdadeira riqueza nunca esteve na terra que possuíam, mas na coragem de reconstruir a própria vida quando tudo parecia perdido. Transformaram saudade em trabalho, dificuldades em perseverança e sofrimento em futuro.
Se, ao terminar esta leitura, você recordar os rostos de seus avós, bisavós ou daqueles que um dia cruzaram o Atlântico para que hoje existíssemos, então este texto terá cumprido sua missão.
Porque nenhuma família começa no presente.
Todas carregam, silenciosamente, a memória daqueles que um dia tiveram a coragem de partir para que as gerações futuras tivessem o privilégio de permanecer.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares