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quarta-feira, 29 de julho de 2026

As Aventuras de Vittorio Mardoni - A Saga de um Imigrante Italiano na Colonização do Brasil


 "Há homens que atravessam o oceano em busca de um pedaço de terra. Vittorio Mardoni 
encontrou muito mais: construiu um futuro para gerações inteiras."


As Aventuras de Vittorio Mardoni


O vento quente do Atlântico parecia trazer consigo tanto a esperança quanto o peso das dúvidas que assombravam Vittorio Mardoni desde que deixara Mozambano, pequeno e quase esquecido município da província de Mantova, na região da Lombardia. Era o ano de 1883, e ele não podia mais suportar a vida em uma terra onde o solo exaurido não rendia frutos suficientes para alimentar uma família que crescia exponencialmente. Três de seus irmãos já haviam se casado, e a casa paterna, já apertada, tornava-se um fardo insustentável. Por isso, quando ouviram sobre as promessas do Brasil – uma terra de oportunidades onde o governo arcava com os custos da travessia –, ele e dois de seus irmãos decidiram embarcar.

A viagem de navio foi uma prova de fogo. O porão onde ficaram, entulhado de imigrantes, tinha o ar pesado, impregnado do cheiro de suor e do desespero daqueles que deixavam tudo para trás. Tempestades sacudiram a embarcação com tal ferocidade que o casco parecia prestes a se despedaçar. Cada noite era marcada pela tensão; o som dos ventos ecoava como gritos, enquanto o balanço do navio fazia muitos perderem a esperança – e o estômago. Ainda assim, Vittorio mantinha firme uma ideia: não havia mais nada para ele na Itália. A promessa de um futuro era sua única ancora emocional.

Ao chegarem ao porto do Rio de Janeiro, os irmãos Mardoni foram conduzidos a Hospedaria dos Imigrantes, onde passaram alguns dias esperando pela continuação da viagem. O próximo destino seria decidido por um sistema burocrático, e logo foram enviados para uma fazenda no interior de São Paulo, onde precisavam trabalhar em uma grande plantação de café. As promessas de terras férteis e prosperidade revelaram-se rapidamente ilusórias. A jornada não os conduzira à liberdade, mas a uma nova forma de servidão. De sol a sol, os irmãos plantavam, colhiam e carregavam sacos de café sob a supervisão implacável de feitores brasileiros.

As noites eram marcadas pelo cansaço extremo e pela saudade. Era nesses momentos que Vittorio sentava-se ao lado de uma pequena vela, rabiscando cartas para a família que ficara em Monza. "Querida mama," escreveu em uma delas, "o trabalho aqui é árduo, mas o sonho de conquistar um pedaço de terra nos impulsiona. Diga a todos que aguardem; em breve mandarei dinheiro para que possam vir também."

Um ano depois, a esperança finalmente deu sinais de vida. Vittorio conseguiu juntar alguns recursos e, com outros colonos, decidiu desbravar terras a leste da região de Campinas. Formaram uma caravana com carroças rudimentares, onde carregavam ferramentas, algumas sementes e poucos pertences. Durante dias, atravessaram matas densas, rios traiçoeiros e campos desabitados. O som dos grilos e dos ventos na vegetação eram companhias constantes, mas o verdadeiro perigo vinha dos bandidos – os "cangaceiros", como eram chamados.

Certa noite, enquanto acampavam em uma clareira, o grupo foi surpreendido por um ataque. Três homens armados cercaram as carroças, gritando em um português que Vittorio mal compreendia. O desespero espalhou-se entre os colonos. Vittorio, no entanto, lembrou-se do rifle que havia contrabandeado da Itália. Em um movimento desesperado, ele e dois outros colonos revidaram, obrigando os atacantes a recuar. O incidente deixou claro que a nova vida seria cheia de desafios.

Finalmente, chegaram a uma área onde puderam estabelecer-se. Era um vasto descampado, cercado por mata fechada. O trabalho para transformar aquele terreno bruto em um lar parecia interminável. Começaram construindo cabanas de pau-a-pique e cultivando pequenos lotes com milho e feijão cujas sementes haviam trazido. A solidariedade entre os colonos era vital; compartilhavam ferramentas, sementes e histórias sobre as terras que haviam deixado para trás.

Ao longo dos anos, a colônia cresceu. O isolamento inicial deu lugar a uma comunidade próspera, com uma pequena capela, um mercado e até mesmo uma escola improvisada. Em 1890, Vittorio já possuía terras que ele podia chamar de suas. Era um pedaço modesto, mas cada palmo era resultado de seu suor e de sua resiliência.

Em suas últimas cartas para Monzambano, Vittorio escrevia com orgulho: "Estas terras nos deram mais do que prometiam. Não é um paraíso, mas construímos algo que é verdadeiramente nosso. Venham, mama, venham todos. Aqui, o futuro é possível."

A história de Vittorio Mardoni tornou-se lenda entre os descendentes. Ele representava a coragem de um povo que, diante da adversidade, encontrou a força para recomeçar. A Itália era uma lembrança distante, mas o legado de seu esforço continuava a florescer na terra que um dia ele chamou de "terra do futuro". 


Nota do Autor

Este texto é um excerto do romance As Aventuras de Vittorio Mardoni, uma obra de ficção que encontra suas raízes em uma história profundamente real. Embora os personagens e eventos sejam frutos da imaginação do autor, cada página foi cuidadosamente tecida com base nos desafios, dores e esperanças vividas por milhões de emigrantes italianos que, entre os séculos XIX e XX, atravessaram o Atlântico em busca de um novo começo no Brasil.

Este livro é mais do que uma narrativa; é uma homenagem à coragem e resiliência daqueles que transplantaram suas raízes para um solo desconhecido, enfrentando adversidades inimagináveis. É também um tributo às histórias de sacrifício e superação que moldaram as colônias italianas em terras brasileiras e deixaram marcas indeléveis na cultura e na identidade do país.

A jornada de Vittorio é fictícia, mas o espírito que a anima é verdadeiro. Em cada obstáculo superado pelo protagonista, em cada lágrima de saudade e em cada semente plantada no novo mundo, ecoa a história de tantos homens e mulheres que, com sonhos e esperanças, ergueram pontes entre continentes e culturas.

Com este romance, o autor busca não apenas entreter, mas também preservar e honrar o legado desses bravos pioneiros, cuja memória merece ser celebrada por gerações.

DR. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 28 de julho de 2026

O Primeiro Inverno dos Imigrantes Italianos no Sul do Brasil

 


O Primeiro Inverno dos Imigrantes Italianos no Sul do Brasil


A promessa que atravessara o oceano falava de uma terra vasta, fértil e generosa, onde o trabalho encontraria recompensa e a escassez deixaria de ser destino. Era uma promessa sustentada por relatos fragmentados, por cartas que destacavam o possível e suavizavam o difícil. Na imaginação de muitos, o Brasil assumira contornos quase uniformes — um território de calor constante, de sol abundante, de natureza exuberante e previsível.

Mas a realidade, ao se impor, revelou-se mais complexa. E foi no primeiro inverno que essa diferença se tornou incontornável.

Nas colônias do sul, erguidas às pressas entre a mata recém-aberta e a terra ainda áspera ao cultivo, o frio chegou sem anúncio. Não era o frio contínuo e conhecido das regiões alpinas, nem o inverno estruturado das planícies europeias. Era um frio irregular, que surgia em ondas, acompanhado por umidade persistente, neblinas densas e ventos que atravessavam as frestas das casas improvisadas.

As moradias, construídas com os recursos disponíveis e com o conhecimento adaptado às urgências da chegada, não ofereciam a proteção esperada. Eram estruturas frágeis, muitas vezes erguidas em madeira verde, sem isolamento adequado, com telhados que não vedavam completamente e pisos que mantinham a umidade. O interior dessas casas não representava abrigo pleno, mas uma extensão mitigada do ambiente externo.

O frio infiltrava-se lentamente, ocupando o espaço sem resistência. Instalava-se nas paredes, no chão, nas roupas e nos corpos. Não era apenas uma sensação térmica, mas uma presença constante que dificultava o descanso, reduzia a força e ampliava o cansaço acumulado.

Para aqueles que haviam deixado a Itália acreditando encontrar um clima uniforme e mais ameno, o impacto foi profundo. O inverno brasileiro, sobretudo no sul, contrariava a expectativa de uma ruptura definitiva com as dificuldades europeias. Em vez disso, apresentava uma nova forma de adversidade, menos conhecida e, por isso, mais difícil de enfrentar.

O trabalho, no entanto, não cessava. A terra exigia continuidade, mesmo sob condições adversas. A preparação para as próximas estações dependia da persistência durante os meses mais difíceis. As mãos, endurecidas pelo esforço constante, tornavam-se menos sensíveis, mais vulneráveis ao frio e à umidade. As ferramentas, simples e muitas vezes inadequadas, não facilitavam a tarefa.

A alimentação, já limitada, tornava-se ainda mais restrita. A produção inicial das colônias não era suficiente para garantir variedade ou abundância. O frio aumentava a necessidade de energia, mas os recursos disponíveis não acompanhavam essa demanda. Cada refeição era medida, cada reserva cuidadosamente administrada.

As doenças encontraram nesse cenário um terreno favorável. A combinação de frio, umidade, alimentação insuficiente e esforço físico constante enfraquecia os corpos. Problemas respiratórios tornaram-se frequentes, assim como febres persistentes e infecções que, em muitos casos, não encontravam tratamento adequado. A distância de centros urbanos e a escassez de assistência médica ampliavam os riscos.

O inverno não afetava apenas o corpo. Atuava também sobre o ânimo. A paisagem, frequentemente encoberta por neblina, limitava a visão e reduzia a sensação de horizonte. O isolamento tornava-se mais evidente, mais pesado. O silêncio da mata, interrompido apenas por sons esparsos, reforçava a percepção de distância em relação a tudo o que era familiar.

A memória da Itália, nesse contexto, adquiria novas cores. Não era apenas lembrança, mas comparação constante. O frio conhecido, enfrentado em casas mais sólidas, em comunidades estabelecidas, parecia, retrospectivamente, mais suportável. A distância transformava o passado, suavizando suas dificuldades e acentuando suas seguranças.

Ainda assim, o inverno também operava como um momento de definição. Era durante esses meses que muitos compreendiam, de forma definitiva, a dimensão do caminho escolhido. A ideia de retorno, embora presente, tornava-se cada vez menos viável. Os recursos eram escassos, as distâncias grandes, e o vínculo com a nova terra começava, ainda que lentamente, a se formar.

A adaptação não foi imediata, mas ocorreu. Ao longo dos anos, novas técnicas de construção foram desenvolvidas, materiais mais adequados passaram a ser utilizados, e o conhecimento do clima local tornou-se mais preciso. O inverno deixou de ser surpresa e passou a ser parte do ciclo esperado.

Mas o primeiro inverno permaneceu como marco. Não apenas como dificuldade enfrentada, mas como momento em que a ilusão cedeu lugar à realidade. Foi nesse período que muitos compreenderam que a promessa não era falsa, mas incompleta. Que a abundância existia, mas exigia tempo, adaptação e resistência.

A travessia do oceano havia sido o início visível da mudança. O primeiro inverno, no entanto, foi a travessia silenciosa — aquela que não se registrou em listas de passageiros ou em documentos oficiais, mas que ocorreu no interior de cada indivíduo.

E foi ao atravessar esse inverno, mais do que ao cruzar o mar, que muitos se tornaram, de fato, parte daquela nova terra.

Nota do Autor

A narrativa da imigração italiana para o sul do Brasil costuma privilegiar o gesto inaugural da travessia — o embarque, o oceano, a chegada. Contudo, foi na experiência subsequente, menos documentada e mais íntima, que se consolidaram as verdadeiras dimensões desse deslocamento humano. Entre essas experiências, o primeiro inverno ocupa um lugar singular, não apenas como episódio climático, mas como prova decisiva de adaptação.

Ao final do século XIX, milhares de famílias oriundas do norte da Itália — especialmente do Vêneto, da Lombardia e do Trentino — chegaram às regiões meridionais do Brasil sob a promessa de terras férteis e de um futuro mais estável. O que encontraram, no entanto, foi uma realidade que exigia reconstrução completa: matas densas, infraestrutura precária, isolamento geográfico e um ambiente ainda pouco compreendido.

O clima, frequentemente idealizado como mais brando e uniforme, revelou-se um elemento de confronto. O inverno no sul do Brasil, marcado por frio úmido, neblinas persistentes e, em alguns anos, geadas severas, impôs dificuldades específicas a quem ainda não dispunha de habitações adequadas nem de reservas alimentares suficientes. As primeiras moradias, erguidas com urgência e recursos limitados, não ofereciam o abrigo necessário. O frio, ao penetrar essas estruturas, tornava-se mais do que uma condição externa — transformava-se em fator constante de desgaste físico e emocional.

Registros históricos, relatos de descendentes e estudos sobre as primeiras colônias italianas indicam que esse período foi particularmente crítico. Doenças respiratórias, agravadas pela umidade e pela alimentação insuficiente, eram frequentes. A ausência de assistência médica estruturada ampliava a vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, o trabalho não podia ser interrompido: a terra exigia preparo contínuo, e a sobrevivência dependia da persistência.

Este texto busca aproximar-se dessa experiência não como exceção, mas como parte constitutiva da adaptação dos imigrantes. O primeiro inverno não foi apenas um obstáculo circunstancial, mas um momento de definição — um ponto em que expectativas e realidade se confrontaram de forma irreversível.

Ao reconhecer esse episódio, não se pretende enfatizar o sofrimento como elemento isolado, mas compreender o processo pelo qual essas comunidades se transformaram. A resistência desenvolvida nesse período contribuiu para a formação de práticas, saberes e estruturas que, ao longo do tempo, permitiram a consolidação das colônias e a integração ao novo território.

A história da imigração italiana no Brasil é, em grande medida, a história de uma construção gradual. E, nesse processo, o primeiro inverno permanece como um dos seus capítulos mais silenciosos e, ao mesmo tempo, mais reveladores — aquele em que a promessa foi testada, e a permanência, finalmente, escolhida.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 22 de julho de 2026

O Fundador da Colônia - A História do Imigrante Italiano que Ergueu uma Cidade na Serra Gaúcha

 


"Alguns homens constroem casas. Outros constroem cidades inteiras sem jamais pedir que seus nomes sejam lembrados."


O Fundador da Colônia

Santa Lúcia das Encostas, Província do Rio Grande – 1885 a 1932


O vapor atracou no porto de Rio Grande ao entardecer, envolto pela névoa salgada que subia das águas frias do sul. Aquilo que para muitos era apenas o fim da travessia, para Lorenzo Bellanto era o início de um projeto. Toscano de nascimento, contador de formação e filho de um pequeno fabricante de papel em Lucca, ele chegava ao Brasil não com a ideia de sobreviver, mas de construir.

Ao lado do amigo e sócio, Federico Salvini, Lorenzo seguiu viagem até Porto Alegre, onde a língua portuguesa soava estranha, mas os mapas e as promessas de terra pareciam generosos. De lá, compraram um carro de boi e contrataram dois peões caboclos que os guiaram por dias de lama e poeira, montanha acima, até um planalto escondido entre as encostas da serra: Santa Lúcia das Encostas. Havia uma trilha que terminava ali — e além dela, apenas o esforço humano seria capaz de abrir caminho.

A colônia era ainda um amontoado de cabanas de pinho, com um pequeno moinho d’água e meia dúzia de famílias vindas da Lombardia. Lorenzo instalou-se com discrição, mas logo se destacou ao abrir uma pequena casa de comércio. Vendia sal, querosene, ferramentas e tecidos. As famílias vinham de léguas para adquirir o que antes só era possível encontrar na capital. Ele anotava tudo em um caderno de couro — cada débito, cada promessa, cada semente de confiança.

Federico decidiu abrir uma filial em Nova Capoeira, uma colônia vizinha. Dividiram as tarefas. Lorenzo permaneceria em Santa Lúcia, onde a falta de autoridades oficiais o transformou, aos poucos, em referência para conciliações, escritura de terras, envio de cartas à Itália e até celebração de casamentos. O consulado italiano do Rio Grande do Sul o nomeou agente oficioso da região, um cargo informal, mas de grande peso entre os imigrantes.

Maria Braganze, sua esposa, era uma veneziana discreta, de fala baixa e inteligência aguda. Era ela quem lia as cartas dos colonos analfabetos, traduzia recados do consulado, confortava viúvas e alfabetizava crianças à sombra de um galpão improvisado. Foi dela a ideia de fundar a primeira escola da colônia, e dele o esforço de erguer as paredes com madeira serrada à mão, telhas de barro e janelas trazidas da cidade.

Com o tempo, Santa Lúcia deixou de ser apenas um povoado. Lorenzo organizou os documentos necessários, viajou a cavalo até Porto Alegre para convencer autoridades e conseguiu, em 1897, a elevação da colônia à categoria de município. A chegada dos irmãos maristas, trazidos por sua intercessão junto ao bispado, marcou a fundação do Ginásio São Jerônimo, o primeiro centro de estudos avançados da região, onde os filhos dos lavradores aprendiam latim, geometria e história universal.

Mas não bastava educar. Era preciso cuidar. Lorenzo fundou também a Sociedade de Socorro Fraterno Dom Amedeo, inspirada nos modelos mutualistas do norte da Itália. A sociedade amparava viúvas, pagava funerais, cuidava dos órfãos e prestava os primeiros atendimentos médicos aos feridos por ferramentas ou pelas febres do mato. Foi ele também quem trouxe os dois primeiros médicos da cidade, um genovês cismado e um brasileiro mulato que atendia a cavalo e falava com os bichos.

Ao longo de quase meio século, Lorenzo foi o eixo discreto de uma engrenagem que girava por causa de sua persistência. Quando morreu, em 1932, aos 74 anos, Santa Lúcia das Encostas já contava com prefeitura, banco, hospital, escola secundária e duas cooperativas agrícolas. O pequeno armazém de lona que ele erguera havia dado lugar a um edifício de dois andares com balcões de mármore e vitrais alemães. Mas em seu testamento, pediu que nada levasse seu nome — nem ruas, nem praças.

O povo não atendeu. No ano seguinte, a praça principal passou a se chamar Praça Bellanto, contra a vontade da família. No silêncio das tardes de verão, é possível ouvir ali o eco dos passos de um homem que chegou sem levantar poeira, mas soube, tijolo por tijolo, desenhar o futuro de um povo inteiro.


Nota do Autor

Embora esta narrativa seja fruto da imaginação, ela nasce firmemente enraizada na realidade histórica da imigração italiana no sul do Brasil. As personagens, seus conflitos e realizações são fictícios, mas muitos dos eventos, costumes e estruturas sociais que os cercam refletem com fidelidade o contexto vivido por milhares de famílias italianas que, a partir de 1875, cruzaram o oceano em busca de uma nova vida nas encostas da Serra Gaúcha.

A cidade de Santa Lúcia das Encostas, bem como a colônia de Nova Capoeira, são invenções literárias. No entanto, foram inspiradas diretamente em localidades reais, como Veranópolis (antiga Roça Reúna e Alfredo Chaves), Fagundes VarelaNova Prata e outras comunidades profundamente marcadas pelo esforço coletivo dos imigrantes italianos. Os feitos atribuídos ao protagonista Lorenzo Bellanti ecoam a trajetória de figuras reais que deixaram uma marca silenciosa porém duradoura em escolas, hospitais, associações de socorro mútuo e prefeituras nascente.

Em um momento da história em que as instituições públicas eram frágeis e distantes, muitos desses pioneiros ocuparam um espaço essencial na mediação de conflitos, na promoção da educação, na organização da vida comunitária e no incentivo à solidariedade entre compatriotas. Eles foram comerciantes, líderes informais, tradutore, construtores do invisível. Esta obra é, portanto, uma homenagem a todos aqueles cujos nomes não aparecem nos livros de história, mas que literalmente ergueram do chão as cidades que hoje prosperam.

As liberdades tomadas com os nomes, datas e locais têm como único propósito preservar a integridade literária da narrativa e evitar a apropriação indevida de biografias específicas. Nada aqui deve ser lido como um relato histórico fiel, mas sim como uma tentativa de captar o espírito de uma época — e de um povo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 18 de julho de 2026

A Influência dos Imigrantes Italianos na Formação do Brasil e da Baixa Mogiana

 


A Influência dos Imigrantes Italianos na Formação do Brasil e da Baixa Mogiana

"O café transformou a Mogiana em riqueza, mas foram os imigrantes italianos que transformaram a própria fome em trabalho, a saudade em coragem e o sacrifício em futuro".

A história do Brasil moderno não pode ser compreendida sem a participação dos milhões de imigrantes que chegaram ao país entre o final do século XIX e o início do século XX. Entre todos os grupos estrangeiros que desembarcaram em território brasileiro nesse período, nenhum foi tão numeroso e tão influente quanto os italianos. Sua presença transformou paisagens, impulsionou economias regionais, fortaleceu a agricultura, ajudou a desenvolver a indústria nascente e deixou marcas profundas na cultura brasileira que permanecem visíveis até os dias atuais.

Na região da Baixa Mogiana, localizada entre o nordeste paulista e o sul de Minas Gerais, a contribuição italiana foi particularmente significativa. Ali, milhares de famílias vindas do Vêneto, Lombardia, Piemonte, Trentino e de outras regiões da Itália encontraram uma nova pátria e ajudaram a construir algumas das mais importantes áreas produtoras de café do Brasil.

O Contexto da Grande Imigração Italiana

A segunda metade do século XIX foi um período de profundas transformações na Europa. A recém-unificada Itália enfrentava graves problemas econômicos e sociais. O crescimento populacional, a escassez de terras agrícolas, as sucessivas crises no campo e a pobreza que atingia especialmente as regiões rurais levaram milhares de famílias a procurar oportunidades além do Atlântico.

Ao mesmo tempo, o Brasil vivia a expansão da cafeicultura, especialmente no interior paulista. A necessidade crescente de trabalhadores tornou-se ainda mais urgente com o enfraquecimento gradual do sistema escravista e, posteriormente, com a Abolição da Escravidão em 1888. Nesse contexto, governos provinciais e fazendeiros passaram a incentivar a imigração europeia, financiando passagens e criando estruturas de recepção para os recém-chegados.

Milhares de italianos desembarcaram no Porto de Santos e seguiram para a Hospedaria dos Imigrantes, no bairro do Brás, em São Paulo. Ali eram registrados, recebiam assistência inicial e eram encaminhados para fazendas de café espalhadas pelo interior do estado. Somente pela Hospedaria passaram centenas de milhares de italianos, tornando-os o principal grupo migratório daquele período.

Os Italianos e a Construção da Economia Cafeeira

A riqueza que transformou São Paulo na principal força econômica brasileira teve como base o café. E por trás dessa riqueza estavam milhares de trabalhadores imigrantes.

Inicialmente, muitos italianos chegaram como colonos contratados para trabalhar nas fazendas. O sistema nem sempre correspondia às promessas feitas na Europa. Diversos imigrantes enfrentaram dificuldades, endividamento e condições de trabalho duras. Ainda assim, ao longo das décadas, muitos conseguiram acumular recursos, adquirir pequenas propriedades ou migrar para atividades urbanas.

O trabalho italiano contribuiu para aumentar a produtividade das lavouras, expandir novas áreas de cultivo e consolidar o chamado Oeste Paulista como uma das regiões agrícolas mais dinâmicas do mundo. O café financiou a construção de ferrovias, bancos, armazéns, indústrias e centros urbanos, criando as bases do desenvolvimento econômico brasileiro durante a Primeira República.

Mas a contribuição italiana não ficou restrita ao campo. Muitos imigrantes e seus descendentes tornaram-se comerciantes, artesãos, industriais, ferroviários, professores e profissionais liberais. Participaram ativamente da industrialização paulista e do crescimento das cidades, especialmente São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto e Santos.

A Baixa Mogiana: Café, Ferrovias e Imigração

Poucas regiões simbolizam tão bem a ligação entre imigração italiana e desenvolvimento econômico quanto a Baixa Mogiana.

Composta por municípios como Espírito Santo do Pinhal, Mogi Mirim, Andradas e localidades vizinhas, a região beneficiava-se de solos férteis, relevo favorável e clima adequado ao cultivo do café. Durante a expansão cafeeira do século XIX, tornou-se uma área de grande atração para fazendeiros e imigrantes.

A chegada dos italianos coincidiu com a expansão das ferrovias que ligavam o interior aos portos exportadores. O café produzido na Mogiana passou a alcançar mercados internacionais, gerando riqueza e acelerando o crescimento urbano. Cidades que antes eram pequenos povoados transformaram-se em importantes centros econômicos regionais.

Diversas famílias italianas estabeleceram-se definitivamente na região. Algumas permaneceram na agricultura; outras migraram para o comércio, para pequenas indústrias e para atividades de prestação de serviços. Ao longo das gerações, seus sobrenomes passaram a integrar a própria história local, contribuindo para a formação social e econômica da Baixa Mogiana.

O Legado Cultural dos Imigrantes Italianos

A herança italiana ultrapassou a economia. Ela tornou-se parte da identidade cultural brasileira.

Os imigrantes trouxeram tradições religiosas, festas comunitárias, formas de organização familiar, técnicas agrícolas, expressões linguísticas e hábitos alimentares que se incorporaram ao cotidiano das regiões onde se estabeleceram. Muitas comunidades construíram igrejas, capelas, sociedades de auxílio mútuo, bandas musicais e associações culturais que ajudaram a preservar suas origens enquanto se integravam à sociedade brasileira.

Na culinária, massas, pães, vinhos artesanais, embutidos e diversas receitas familiares atravessaram gerações. Na linguagem cotidiana, palavras e sotaques deixaram marcas perceptíveis. Em muitas localidades da Mogiana e do interior paulista, ainda é possível encontrar costumes herdados diretamente dos pioneiros italianos.

A valorização do trabalho, da família, da educação e da cooperação comunitária também se tornou uma característica frequentemente associada aos descendentes desses imigrantes.

Uma Herança que Continua Viva

Mais de um século depois da chegada das grandes levas migratórias, a influência italiana permanece profundamente enraizada no Brasil. Estima-se que dezenas de milhões de brasileiros possuam algum grau de ascendência italiana, formando uma das maiores comunidades de origem italiana fora da Itália.

Na Baixa Mogiana, essa herança continua visível nos sobrenomes, nos casarões do ciclo do café, nas festas religiosas, nas propriedades rurais, nos vinhedos, na gastronomia e nas histórias transmitidas de geração em geração.

A trajetória dos imigrantes italianos foi marcada por dificuldades, saudade e trabalho árduo. No entanto, foi justamente essa capacidade de adaptação e perseverança que permitiu a eles deixar uma contribuição duradoura para a formação econômica, social e cultural do Brasil. Ao ajudarem a construir lavouras, cidades, ferrovias e comunidades, também ajudaram a construir uma parte essencial da identidade brasileira.

Nota do Autor

A imigração italiana não é apenas um capítulo da história: é uma herança viva que moldou o Brasil que conhecemos hoje. Ao pesquisar e escrever este texto, meu objetivo foi valorizar o esforço, a coragem e a contribuição dos imigrantes que ajudaram a construir a economia, a cultura e a identidade das regiões onde se estabeleceram. Na Baixa Mogiana, como em tantas outras partes do país, a presença italiana deixou marcas profundas no trabalho, na vida comunitária e na formação social. Este artigo é uma homenagem à memória desses homens e mulheres que transformaram desafios em raízes e fizeram do Brasil a sua nova pátria.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Relação dos Imigrantes Italianos que Partiram de Gênova para Santa Catarina em 12 de Fevereiro de 1878


 

Vapor Colombo

Relação dos Imigrantes Italianos que Partiram de Gênova para Santa Catarina

 em 12 de Fevereiro de 1878


NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
DERETTI Luigi
DERETTI Giovanni
DERETTI Rosa
44
13
BERGAMO
"
"
Itália
"
"
Agricultor
"
"
Catolico
"
"
LAZZARI Giovanni
LAZZARI Lucia
LAZZARI Pierine
LAZZARI Paolo
LAZZARI Giocondo
39
34
8
5
3
"
"
"
"
"
"
"
"
DERETTI Angelo
DERETTI Pierina
DERETTI Rosa
DERETTI Francesco
DERETTI Luigia
DERETTI Giocondo
DERETTI Maria
35
32
9
6
3
2
0,2
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
DERETTI  Andrea
DERETTI Lucia
DERETTI Mattia
DERETTI Teresa
69
66
24
19
"
"
"
"
"
"
"
DERETTI Santo
DERETTI Angela
DERETTI Anna
DERETTI Luigia
DERETTI Angelo
35
30
7
4
2
"
"
"
"
"
"
"
"
MORBIS Giovanni
MORBIS Serafina
MORBIS Luigia
MORBIS Rosa
MORBIS Giuseppe
35
33
7
5
3
"
"
"
"
"
"
"
"
PEZZONI Giuseppe
PEZZONI Maria 
PEZZONI Enrico
43
40
7
"
"
"
"
"
"
DERETTI Battista
DERETTI Elisabetta
DERETTI Angela 
DERETTI Antonia
32
30
4
2
"
"
"
"
"
"
"
DERETTI Giovanni
DERETTI Antonia
DERETTI Maria
DERETTI Anna
33
30
7
3
"
"
"
"
"
"
"
ROBERTI Pietro
ROBERTI Teresa
ROBERTI Giacomo
ROBERTI Giulia
47
42
11 (?)
7
MANTOVA
"
"
"
"
"
"
SACCANI Secondo
SACCANI Caterina
SACCANI Rosa
SACCANI Angela
SACCANI Antonio
SACCANI Luigia
45
38
17
14
9
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
MAFFEZZOLI Lodovico
MAFFEZZOLI Serafina
MAFFEZZOLI Calisto
MAFFEZZOLI Teresa
MAFFEZZOLI Giovanni
MAFFEZZOLI Rosa
MAFFEZZOLI Santa
MAFFEZZOLI Angelo
44
43
34
33
9
6
4
1
MANTOVA
"
"
"
"
"
"
"
Italia"
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
"
"
CERATI Giulio
CERATI Elisabetta
CERATI Antonio
CERATI Angelo
CERATI Pietro
39
48
36
11
10
"
"
"
"
"
"
"
"
SABADINI Giulio
SABADINI Luigia
SABADINI Luigi
43
49
13
"
"
"
"
"
"
ROSSI Rosa
ROSSI Giuseppe
ROSSI Maria
ROSSI Emilia
ROSSI Pietro
58
29
29
18
15
"
"
"
"
"
"
"
"
BERTELLI Felice
BERTELLI Orsola
BERTELLI Elvira
BERTELLI Primitiva
BERTELLI Leonida
BERTELLIAntonio
BERTELLI Ermogine
41
45
11
9
7
3
0,7
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
RASORI Orsola
RASORI Benvenuto
58
26
"
"
"
"
"
CAVALLI Antonio
CAVALLI Carolina
32
29
"
"
"
"
"
BOZZEDA Antonio
BOZZEDA Maria
BOZZEDA Marco
52
47
4
"
"
"
"
"
"
PANINI Clemente
PANINI Onofria
33(?)
20
"
"
"
"
"
ARALDI Giovanni
ARALDI Margherita
ARALDI Giseppe
ARALDI Maria
ARALDI Maria
ARALDI Pietro

45
44
18
13
9
6
"
"
"
"
"
"
"
"
"
GUAITOLINI Santo
GUAITOLINI Luigi
GUAITOLINI Ersilio
46
12
11
"
"
"
"
"
"
BIZZARI Ermenegildo
BIZZARI Margherita
BIZZARI Rosa
BIZZARI Giovanni
41
35
9
5
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
CONTESINI Giuseppe
CONTESINI Toscana
CONTESINI Colomba
CONTESINI Federico
CONTESINI Carolina
32
32
8
5
1.3
MANTOVA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
BORINI Giacomo
BORINI Santa
BORINI Grazia
BORINI Maria
BORINI Alessandra
BORINI Alessandro
39
31
11
9
8
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
SANTINELLI Luigi
SANTINELLI Giovanna
SANTINELLI Catterina
SANTINELLI Angelo
SANTINELLI Francesco
SANTINELLI Agostino
41
40
11
9
5
3
BERGAMO
"
"
"
"
"
"
"
"
FINAZZI Giuseppe
FINAZZI Luigi
FINAZZI Giuseppe
48
12 (?)
8
"
"
"
"
"
"
FINAZZI Andrea
FINAZZI Angela
FINAZZI Angelo
36
34
1.4
"
"
"
"
"
"
BETTONI Angelo
BETTONI Francesca
BETTONI Giacomo
BETTONI Giovanni
55
50
24
21
"
"
"
"
"
"
"
VEGINI Antonio
VEGINI Antonia
VEGINI Luigi
VEGINI Davide
VEGINI Maria
41
40
21
3
0.5
"
"
"
"
"
"
"
"
VOLPI Giovanni
VOLPI Teresa
VOLPI Valentino
VOLPI Angelo
VOLPI Marietta
VOLPI Maria
30
28
27
22
2
0.2
"
"
"
"
"
"
"
"
"
BERZI Giacomo
BERZI Catterina
43
40
"
"
"
"
"
TIRONI Anna
TIRONI Abramo
TIRONO Barbara
66
24
22
"
"
"
"
"
"
TIRONI Angelo
TIRONI Teresa
30
24
"
"
"
"
"
RIVELLINI Maria
RIVELLINI Catterina
RIVELLINI Colomba
RIVELLINI Augusta
RIVELLINI Beatrice
57
24
19
17
14
"
"
 "
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
TIRONI Luigi
TIRONI Caterina
TIRONI Maria
TIRONI Francesco
TIRONI Pasquale
TIRONI Giovanni
33
30
13
8
6
0.2
BERGAMO
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
RANGHETTI Carlo
RANGHETTI Angela
RANGHETTI Giuseppe
RANGHETTI Francesco
RANGHETTI Gio Batta
RANGHETTI Giuseppe
49
44
14
13
11
10
"
"
"
"
"
"
"
"
"
BRUGNOLI Pietro
BRUGNOLI tERESA
BRUGNOLI Angelo
BRUGNOLI Luigi
BRUGNOLI Luigi
47
38
9
5
1
CREMONA
"
"
"
"
"
"
"
POLLINI Pietro
POLLINI Domenica
33
28
"
"
"
"
"
MARCHI Luigi
MARCHI Maria
MARCHI Francesco
MARCHI Aristide
MARCHI Giuseppe
38
35
13
10
1
"
"
"
"
"
"
"
"
TIUTI Francesco
TIUTI Maria
TIUTI Angelo
TIUTI Colomba
47
42
16
14
"
"
"
"
"
"
"
TAMBONI Maria
TAMBONI Francesco
TAMBONI Maria
TAMBONI Amilcare
TAMBONI Eurosia
TAMBONI Alessandro
TAMBONI Maria
44
35
35
8
7
5
2
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
VITTI Luigi
VITTI Carlo
VITTI Rosa
VITTI Andrea
VITTI Luigi
VITTI Maria
VITTI Maria
VITTI Teresa
VITTI Giovanni
38 (?)
43
35
30
13
11
6
3
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
VIGNOLO Natale
VIGNOLO Rosa
VIGNOLO Maria
40
35
6
"
"
"
"
"
"
MORO Natale
MORO Orsola
MORO Teresa
33
31
2
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
FOSSA Carlo
FOSSA Rosa
FOSSA Angelo
FOSSA Aristide
FOSSA Clementina
46
44
35
21
17
CREMONA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
FANTONI Daniele
FANTONI Barbara
FANTONI Pietro
FANTONI Carlotta
FANTONI Maria
FANTONI Regina
FANTONI Giuseppe
56
50
24
18
15
10
5
VERONA
"
"
"
"
"
"
"
"
"
ROMAGNANI Angelo
ROMAGNANI Angela
ROMAGNANI Guerino
ROMAGNANI Lucia
ROMAGNANI Maria
40
40
13
11
7
"
"
"
"
"
"
"
"
CAVEDINI 
CAVEDINI
CAVEDINI
CAVEDINI
CAVEDINI
CAVEDINI
CAVEDINI
61
33
32
29
7
5
2
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
ERBANO Giulio
ERBANO Francesco
ERBANO Elias
ERBANO Maria
ERBANO Gioachino
ERBANO Luigi
31
42
26
4
2
0.2
"
"
"
"
"
"
"
"
"
MARCONCINI Antonio
MARCONCINI Maria
MARCONCINI Anna
MARCONCINI Riccardo
MARCONCINI Pasqua
MARCONCINI Luigi
45
38
16
14
12
5
"
"
"
"
"
"
"
"
"
DALCERÈ Bernardo
DALCERÈ Caterina
DALCERÈ Angela
32
37
4
"
"
"
"
"
"
PISA Antonio
PISA Domenica
PISA Giosafat
PISA Elisabetta
PISA Domenico
PISA Luciano
PISA Teresa
52
44
20
15
12
8
5
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
GARDINI Giovito
GARDINI Regina
GARDINI Angelo
GARDINI Annunciato
32
26
2
1
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
MARCON Gio Batta
MARCON Caterina
MARCON Maria
MARCON Rosa
MARCON Angela
56
55
22
18
15
VICENZA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
MIRINI Giuseppe
MIRINI Stella
MIRINI Andrenna
MIRINI Antonio
MIRINI Ernesta
MIRINI Rosa
43
45
16
14
8
6
MANTOVA
"
"
"
"
"
"
"
"
AZZI Pietro
AZZI Teresa
AZZI Francesco
AZZI Roberto
AZZI Luigi
40
30
8
4
2
"
"
"
"
"
"
"
"
FORMICI Ernesto
FORMICI Carolina
FORMICI Demetrio
FORMICIAdalgisa
FORMICI Maria
FORMICI Dierce
30
27
5
4
2
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
AVOZANI Carlo
AVOZANI Candida
AVOZANI Onorata
AVOZANI Teresa
31
25
3
0.5
"
"
"
"
"
"
"
VECCHI Carlo
VECCHI Rosa
VECCHI Mansueto
VECCHI Felice
39
36
11
2
"
"
"
"
"
"
"
ARFINI Paolo
ARFINI Costantina
ARFINI Pietro
ARFINI Antonio
42
36
13
1
"
"
"
"
"
"
"
COPPI Pompeo
COPPI Carolina
COPPI Lorenzo
COPPI Maria
40
37 (?)
7
5
"
"
"
"
"
"
"
BELLINI Angelo
BELLINI Carolina
BELLINI Santo
27
26
3
"
"
"
"
"
"
VIGNOLI Carlo
VIGNOLI Angela
VIGNOLI Filomena
VIGNOLI Adolfo
27
26
2
0.4
"
"
"
"
"
"
"
ROSSINI Angela
ROSSINI Angelo
ROSSINI Maria
ROSSINI Antonio
ROSSINI Carolina
39
16
14
10
9
"
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
NOLLI Sante
NOLLI Rosa
NOLLI Cesare
NOLLI Leonardo
NOLLI Celso
NOLLI Giovanni
NOLLI Nicolo (?)
38
47
13
10
8
5
2
MANTOVA
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
BIANCHI Antonio
BIANCHI Luigia
BIANCHI Luigi
BIANCHI Giuseppe
28
2(?)
3
1
"
"
"
"
"
"
"
GUALTIERI Giovanni
GUALTIERI Regina
26
28
"
"
"
"
"
VISENTIN Pietro
VISENTIN Giuseppe
VISENTIN Maria
VISENTIN Angelo
58
30
22
1
VICENZA
"
"
"
"
"
"
"
VALLE Florindo
VALLE Giuseppe
35
9
"
"
"
"
"
RIGO Marco
RIGO Oliva
RIGO Giovanni
34
36
5
"
"
"
"
"
"
NOVELETTO Maria
NOVELETTO Stanislao
NOVELETTO Dionisia
45
17
14
"
"
"
"
"
"
ZONTA Andrea
ZONTA Lucia
ZONTA Prosdocimo
ZONTA Luigi
ZONTA Remigio
ZONTA Maria
ZONTA Regina
43
37
15
12
8
3
0.9
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
FACCO Francesco
FACCO Maria
FACCO Luigi
FACCO Giovanni
FACCO Maria
FACCO Giuseppe
52
46
10
8
4
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
MACCAN Giuseppe
MACCAN Giovanna
52
30
"
"
"
"
"
CIPRIAN Fortunato
CIPRIAN Elisabetta
CIPRIAN Giacomo
CIPRIAN Maria
CIPRIAN Francesco
CIPRIAN Girolamo
CIPRIAN Daniele
CIPRIAN Maria
CIPRIAN Teresa
CIPRIAN Giovanni
51
47
29
31
26
21
13
10
6
3
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
 "
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
VALLE Pietro
VALLE Maria
VALLE Angelo
VALLE Pietro
VALLE Luigia
VALLE Marta
VALLE Luigi
VALLE Maria
VALLE Regina
VALLE Giovanni
VALLE Pia
50
42
48
26
25
17
15
12
10
5
0.10
VICENZA
"
"
"
"
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
"
"
'
TESSAROLO Paolo
TESSAROLO Chiara
TESSAROLO Giovanni
TESSAROLO Elisabetta
TESSAROLO Angelo
TESSAROLO Chiara
TESSAROLO Teresa
TESSAROLO Marietta
TESSAROLO Paola
TESSAROLO Raimondo
61
58
32
28
10
8
4
4
2
0.3
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
MENEGHETTI Innocente
MENEGHETTI Luigia
MENEGHETTI Giuseppe
30
29
1
"
"
"
"
"
"
PAVANELLO Andrea
PAVANELLO Angela
PAVANELLO Euresia
PAVANELLO Luigi
PAVANELLO Domenica
39
41
17
7
5
"
"
"
"
"
"
"
"
BAGGIO Domenica
BAGGIO Antonio
BAGGIO Giovanna
BAGGIO Giacomo
44
14
11
7
"
"
"
"
"
"
"
CHIMINELLO Antonio 
CHIMINELLO Maddalena
CHIMINELLE Filippo
CHIMINELLE Olivio
37
30
2
0.5
"
 "

"
"
"
"
"
ZAGO Silvestro
ZAGO Benedetta
ZAGO Gio Batta
ZAGO Regina
ZAGO Emilia
ZAGO Angelo
ZAGO Modesta
ZAGO Aurelia
ZAGO Veneranda
ZAGO Verginia
55
53
24
24
22
16
13
11
9
5
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
NICOLI Giovanni
NICOLI Lucia
NICOLI Maria
37
32
30
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
COLVERO Antonio
COLVERO Domenica
COLVERO Teresa
COLVERO Giovanni
COLVERO Maria
COLVERO Francesco
39
37
12
10
4
1
TREVISO
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
BORTOLOTTO Francesco
BORTOLOTTO Filomena
BORTOLOTTO Giovanni
BORTOLOTTO Olivia
BORTOLOTTO Maria
BORTOLOTTO Antonio
BORTOLOTTO Petrolina
BORTOLOTTO Luigi
44
38
16
9
8
6
4
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
DALMAS Sebastiano
DALMAS Maria
DALMAS Elisabetta
DALMAS Angelo
DALMAS Vittorio
53
48
20
14
10
"
"
"
"
"
"
"
"
CODEN Paolo
CODEN Angelo
CODEN Maria
CODEN Maria
58
30
24
2
"
"
"
"
"
"
"
TRONCO Angelo
TRONCO Teresa
TRONCO Rosa
TRONCO Cristina
TRONCO Giuseppe
46
47
18
14
6
"
"
"
"
"
"
"
"
ROSSO Luigi
ROSSO Caterina
ROSSO Giovanni
ROSSO Giuditta
ROSSO Giuliana
ROSSO Giuseppe
ROSSO Bonaventura
ROSSO Paolo
44
38
11
10
7
5
3
0.2
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
CELEPRIN Pietro
CELEPRIN Teresa
CELEPRIN Giovanni
CELEPRIN Lucia
CELEPRIN Giacomo
CELEPRIN Lucia
35
31
8
5
3
0.5
"
"
"
"
"
"
"
"
"
DALCOL Antonio
DALCOL Maria
DALCOL Celeste
DALCOL Angelo
DALCOL Giovanni
DALCOL Zaccaria
DALCOL Luigia
DALCOL Luigi
45
40
19
11
10
8
6
2
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
RUI Giovanni
RUI Pasqua
RUI Teresa
RUI Maria
RUI Francesco
RUI Giovanni
RUI Augusta
29
26
3
2
0.1
46
31
TREVISO
"
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
"
"
VILLANOVA Angelo
VILLANOVA Austacchio
VILLANOVA Celestina
VILLANOVA Antonio
VILLANOVA Giovanni
VILLANOVA Mario
VILLANOVA Maria
VILLANOVA Giuseppe
VILLANOVA Rosa
71
46
18
14
11
10
7
5
3
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
SANDRE Anna
SANDRE Gio.Batta
SANDRE Giacomo
SANDRE Teodolinda
61
38
30
7
"
"
"
"
"
"
"
BOTTEGA Francesco
BOTTEGA Maria
BOTTEGA Gio.Batta
BOTTEGA Lorenzo
BOTTEGA Angelo
BOTTEGA Giovanna
51
35
12
8
6
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
BOTTEGA Giovanni
BOTTEGA Maria
BOTTEGA Antonio
BOTTEGA Augusta
BOTTEGA Maria
BOTTEGA Giacinto
BOTTEGA Albina
38
36
14
11
7
4
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
CATTELLAN Michele
CATTELLAN Antonia
CATTELLAN Maria
CATTELLAN Luigi
CETTELLAN Augusta
CATTELLAN Giacomo
43
36
14
12
7
5
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
BOS Giuseppe
BOS Anna
BOS Giovanni
BOS Francesco
BOS Luigi
50
54
24
16
13
"
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
BASSO Giovanni
BASSO Maria
BASSO Agostino
BASSO Americo
43
40
13
11
TREVISO
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
BASSO Luigi
BASSO Maria
BASSO Antonio
BASSO Fausto
BASSO Eugenio
30
30
6
4
1
"
"
"
"
"
"
"
"
VIERA Marco
VIERA Maria
VIERA Antonio
VIERA Giuditta
VIERA Maddalena
VIERA More (?)
48
40
13
11
8
6
"
"
"
"
"
"
"
"
"
VIERA Giulio
VIERA Marina
VIERA Giuseppe
VIERA Santa
VIERA Giovanni
VIERA Giuseppina
VIERA Adamo
VIERA Eva
43
31
10
9
8
6
5
3
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
PADOIN Giacomo
PADOIN Maddalena
PADOIN Giosuè
PADOIN Giovanna
PADOIN Stanislao
PADOIN Giuditta
PADOIN Giustina
54
61
26
22
16
8
8
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
AVANZINI Giuseppe
AVANZINI Carolina
AVANZINI Giuseppe
AVANZINI Carlo
AVANZINI Emilia
AVANZINI Santa
AVANZINI Gio.Batta
AVANZINI Alessandro
AVANZINI Maria
AVANZINI Carlo
47
42
45
43
20
15
10
8
4
2
MANTOVA
"
"
"
"
"
"
"

"
"
"
"
"
CIMARDI Giuseppe
CIMARDI Maria
CIMARDI Pietro
CIMARDI Caterina
CIMARDI Roma
35
30
10
4
2
"
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
CAMPAGNOLO Antonio
CAMPAGNOLO Maria
CAMPAGNOLO Carolina
CAMPAGNOLO Verginio
CAMPAGNOLO Pino
30
32
7
5
3
MATOVA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
CERATI Antonio
CERATI Teresa
CERATI Francesco
CERATI Rosa
36
9
7
0.4
"
"
"
"
"
"
"
GIUNGO Eugenio
GIUNGO Arcangelo
GIUNGO Elvira
GIUNGO Attilio
39
38
27
8
TRENTO
"
"
"
Austria
"
"
"
"
"
DALPAS Michele
DALPAS Maddalena
DALPAS Amalia
DALPAS Emmanuele
DALPAS Teresa
DALPAS Adele
50
43
21
19
17
10
"
"
"
"
"
"
"
"
"
WEBBER Giovanni
WEBBER Elisabetta
WEBBER Addolorata
WEBBER Fiorina
WEBBER Luigi
WEBBER Antonio
54
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CASTELLANI Giuseppe
CASTELLANI Giuliano
CASTELLANI Caterina
CASTELLANI Pietro
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MANTOVA
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Italia
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Nota do Autor

Cada nome inscrito nesta relação é mais do que um vestígio de papel amarelado pelo tempo. É um pulsar de vida que se acelerou ao ver, pela última vez, o contorno da costa de Gênova. É uma bagagem modesta, carregada não de objetos, mas de silêncios, despedidas e promessas. Ao reunir e divulgar a lista dos imigrantes italianos que zarparam rumo a Santa Catarina em fevereiro de 1878, sinto que não organizo dados — acompanho existências suspensas entre o que foi e o que ainda não era.

Eram homens e mulheres que deixaram para trás vilas de pedra, parreirais, montanhas e túmulos de antepassados para enfrentar o abismo do desconhecido. Do outro lado do oceano não havia certezas. Havia apenas a urgência. A fome, a pobreza e a ausência de horizonte já não permitiam ficar. O Brasil não era apenas um lugar no mapa: era uma chance de recomeço.

Escrever sobre eles é, para mim, um gesto de reverência. É devolver humanidade a quem a história, tantas vezes, reduziu a estatísticas. É recordar que o Brasil — e especialmente Santa Catarina — foi moldado por mãos calejadas, por vozes marcadas por sotaques, por corações que aprenderam a amar uma terra estranha até que ela se tornasse lar.

Se estas linhas alcançarem alguém que reconheça um sobrenome, uma origem, uma memória de família, então este trabalho cumpriu seu sentido. Porque a memória não é passado inerte. É raiz viva. E nenhuma árvore permanece de pé sem suas raízes.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta