A Despedida no Porto – A Dor da Partida na Imigração Italiana ao Brasil
"Antes de atravessar o oceano, milhões de italianos precisaram atravessar a mais dolorosa das fronteiras: a despedida."
Ninguém ensina uma família a se despedir para sempre.
Talvez por isso os portos tenham se tornado lugares onde o tempo parece andar mais devagar. Ali, entre malas de madeira, baús amarrados com cordas grossas, lenços brancos e lágrimas escondidas, não partiam apenas navios. Partiam vidas inteiras.
Era cedo naquela manhã. O céu ainda conservava a cor cinzenta das noites mal dormidas, e o cheiro do mar misturava-se ao da fumaça das caldeiras do vapor que aguardava ancorado. Havia um movimento incessante de homens carregando bagagens, de funcionários gritando ordens incompreensíveis e de famílias inteiras tentando prolongar alguns minutos que sabiam serem os últimos.
A mãe apertava as mãos do filho como se pudesse prendê-lo ao chão da aldeia.
O pai permanecia em silêncio, porque há dores que não encontram palavras capazes de sustentá-las. Homens acostumados à dureza do campo, ao frio do inverno e ao peso do trabalho curvavam a cabeça para esconder lágrimas que julgavam indignas de sua condição. Mas naquele dia ninguém era forte.
Nem os homens.
Nem as mulheres.
Nem as crianças.
A avó havia colocado no bolso do casaco um pequeno rosário, gasto pelo uso, dizendo apenas:
— Leva contigo. Assim Nossa Senhora saberá onde te encontrar.
E talvez fosse isso que realmente buscavam. Não a certeza do retorno, pois poucos acreditavam sinceramente nele, mas a esperança de não serem esquecidos por Deus, pela família ou pela terra que deixavam para trás.
Havia promessas sendo feitas em todos os cantos do cais.
"Voltarei em alguns anos."
"Mandarei dinheiro."
"Escreverei assim que chegar."
"Cuidem da casa."
"Rezem por nós."
E todas aquelas palavras tinham a fragilidade das coisas ditas diante do desconhecido.
Porque ninguém sabia.
Ninguém sabia se haveria colheita suficiente no Brasil.
Ninguém sabia se as crianças sobreviveriam à travessia.
Ninguém sabia se os pais ainda estariam vivos quando chegassem notícias do outro lado do oceano.
Ninguém sabia se um dia tornariam a se abraçar.
Quando o apito do navio ecoou sobre o porto, pareceu o lamento de uma criatura gigantesca anunciando que já não havia tempo para hesitações.
Foi então que os abraços mudaram.
Deixaram de ser abraços de despedida e tornaram-se abraços de memória.
Abraços destinados a durar décadas.
Talvez uma vida inteira.
As mães beijavam os rostos dos filhos repetidas vezes, como quem tenta gravar na própria alma os traços de uma face que o tempo poderia modificar. Os irmãos prometiam reencontros que jamais aconteceriam. Os noivos trocavam olhares carregados de uma esperança quase impossível.
E havia os velhos.
Os velhos olhavam em silêncio.
Sabiam, melhor do que todos, que aquela não era uma viagem.
Era uma ruptura.
Durante séculos, suas famílias haviam vivido sob o mesmo campanário, cultivado as mesmas terras, rezado diante dos mesmos altares e enterrado seus mortos no mesmo cemitério.
Agora, pela primeira vez, o oceano passaria a separar pais de filhos, irmãos de irmãos, avós de netos.
O mundo estava mudando.
E mudava à custa de corações despedaçados.
Pouco a pouco, a distância aumentou entre o cais e o navio.
Primeiro ainda era possível distinguir os rostos.
Depois apenas os gestos.
Em seguida os lenços agitados ao vento.
Até que tudo se tornou uma massa indistinta de pessoas, cores e lágrimas.
Foi nesse instante que muitos compreenderam que a verdadeira imigração não começava ao desembarcar em terras desconhecidas.
Ela começava ali.
No momento em que a terra natal desaparecia diante dos olhos.
No instante em que a torre da igreja se confundia com a neblina.
Na hora em que a voz da mãe deixava de ser um som presente para tornar-se lembrança.
Há despedidas que terminam quando se fecha uma porta.
Outras terminam quando o trem desaparece na curva da estrada.
Mas a despedida do emigrante nunca termina completamente.
Ela permanece habitando as cartas guardadas em gavetas antigas.
Sobrevive nas fotografias amareladas.
Ecoa nos sobrenomes pronunciados por filhos e netos que jamais conheceram a aldeia dos antepassados.
Continua viva em receitas transmitidas entre gerações, em palavras de um dialeto preservado dentro de casa e em objetos trazidos do outro lado do oceano.
Porque partir não era apenas deixar um lugar.
Era aceitar que uma parte de si permaneceria para sempre naquele porto.
Esperando.
Observando o horizonte.
Como se ainda acreditasse que, um dia, o navio pudesse regressar trazendo de volta aqueles que partiram em busca de pão, de terra e de esperança.
Mas os navios quase nunca retornavam.
Retornavam apenas as histórias.
E foram elas que ensinaram aos descendentes que a imigração italiana não foi feita apenas de trabalho, coragem e conquista.
Foi feita, sobretudo, de despedidas.
Despedidas tão profundas que atravessaram o oceano, sobreviveram ao tempo e continuam emocionando pessoas que nasceram mais de um século depois daquele último aceno no porto.
Nota do Autor
Há despedidas que pertencem apenas a um instante. Outras atravessam gerações.
Durante a grande imigração italiana, milhões de homens, mulheres e crianças caminharam em direção aos portos de Gênova, Nápoles, Veneza e tantos outros lugares de partida levando consigo pouco mais do que algumas roupas, uma imagem de devoção, fotografias da família, um pedaço de pão para a viagem e uma esperança maior do que o medo. Mas, no momento em que o navio soltava suas amarras, compreendiam que estavam deixando para trás muito mais do que uma terra.
Deixavam para trás a voz da mãe chamando ao entardecer, o toque dos sinos da igreja, os caminhos percorridos desde a infância, os campos cultivados por gerações, os túmulos dos antepassados e a segurança de um mundo conhecido. Partiam em busca de um futuro melhor, mas carregavam consigo a dolorosa consciência de que talvez nunca mais voltassem a rever aqueles que amavam.
Muitas dessas despedidas transformaram-se em separações definitivas. Pais morreram sem reencontrar os filhos. Irmãos envelheceram em continentes distintos. Noivas permaneceram esperando por cartas que jamais chegaram. Avós conheceram seus netos apenas através de fotografias amareladas pelo tempo. E, ainda assim, aqueles homens e mulheres encontraram forças para seguir adiante, construir novas comunidades, abrir clareiras na mata, erguer casas, plantar vinhedos e transmitir às gerações futuras o legado de sua coragem.
A Despedida no Porto é uma homenagem a todos os emigrantes que tiveram de aprender a viver com a saudade como companheira permanente. É uma lembrança de que a história da imigração não foi feita apenas de trabalho, conquistas e prosperidade, mas também de lágrimas silenciosas, abraços prolongados e promessas de reencontro que o destino muitas vezes não permitiu cumprir.
Porque, no fundo, a grande imigração italiana começou muito antes do desembarque em terras brasileiras. Ela nasceu no instante em que alguém precisou soltar a mão da mãe, abraçar pela última vez o pai envelhecido, voltar os olhos para a aldeia distante e aceitar que a vida jamais seria a mesma.
"Entre o apito do navio e o último aceno, milhões de italianos deixaram para trás uma vida inteira"
E talvez seja justamente por isso que, ainda hoje, mais de um século depois, seus descendentes continuam emocionando-se diante de antigas fotografias, cartas esquecidas em gavetas e histórias contadas ao redor da mesa. Porque, em cada família de origem italiana, permanece vivo o eco daquele derradeiro adeus pronunciado no porto de partida, quando o oceano começou a separar corpos, mas nunca conseguiu separar memórias.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta