Lazareto da Ilha Grande - A Estação de Quarentena que Protegia o Brasil das Epidemias no Século XIX
Durante o século XIX, o crescimento das rotas marítimas internacionais e a intensificação do fluxo de passageiros entre a Europa e a América tornaram os portos brasileiros especialmente vulneráveis à chegada de doenças epidêmicas. Nesse contexto, o Império do Brasil criou uma estrutura sanitária destinada a proteger a capital do país e seus habitantes: o Lazareto da Ilha Grande.
Localizado na enseada do Abraão, na Ilha Grande, no litoral do atual estado do Rio de Janeiro, o lazareto funcionou como estação de quarentena destinada a impedir que enfermidades contagiosas alcançassem o porto da capital imperial. O estabelecimento integrou o sistema de vigilância sanitária organizado pelas autoridades brasileiras para enfrentar epidemias que se propagavam rapidamente através das viagens marítimas.
A preocupação com o controle de doenças não era nova. Desde o início do século XIX, quando a corte portuguesa foi transferida para o Rio de Janeiro, as autoridades sanitárias passaram a adotar medidas inspiradas nos modelos europeus de quarentena. Em situações de suspeita de contágio, os navios eram impedidos de atracar e deveriam permanecer isolados em ancoradouros específicos até que os oficiais de saúde autorizassem sua entrada no porto.
Durante esse período, determinou-se que as embarcações consideradas suspeitas fossem mantidas em locais designados para quarentena, como o sítio da Boa Viagem. Nessas áreas, os navios ficavam sob vigilância sanitária enquanto médicos e inspetores avaliavam o estado de saúde de passageiros e tripulação.
Também havia determinações específicas para embarcações envolvidas no tráfico atlântico de escravizados, que deveriam cumprir quarentena em ancoradouros próprios, como o da Ilha do Bom Jesus. Essas medidas refletiam a preocupação das autoridades imperiais em controlar a disseminação de doenças em um contexto de intenso movimento marítimo.
Entretanto, com a expansão do comércio internacional e o aumento da imigração transatlântica, as estruturas existentes mostraram-se insuficientes. Em meados do século XIX foi criado, de forma provisória, um lazareto flutuante na enseada de Jurujuba, instalado em um navio adaptado para funcionar como estação de quarentena. Essa solução temporária destinava-se ao isolamento de viajantes suspeitos de doenças contagiosas, especialmente febre amarela, cólera-morbo e a chamada peste do Oriente.
Mesmo assim, as autoridades sanitárias reconheceram a necessidade de construir uma instalação permanente. Para isso foi criada uma comissão encarregada de escolher o local mais apropriado para o novo lazareto.
Após estudos técnicos, a comissão decidiu pela enseada do Abraão, na Ilha Grande. A escolha baseou-se em diversas vantagens naturais: a distância em relação ao continente facilitava o isolamento sanitário, o clima era considerado saudável e havia amplo espaço para a construção de edifícios e para a ancoragem segura de embarcações submetidas à quarentena.
A construção do Lazareto da Ilha Grande teve início em 1884, durante o reinado de Dom Pedro II, sendo concluída em fevereiro de 1886. O complexo foi projetado para funcionar como um centro de observação sanitária destinado a receber passageiros doentes ou suspeitos de enfermidades contagiosas provenientes principalmente da Europa.
Os navios que chegavam ao Brasil vindos de portos onde já haviam sido registrados casos de epidemias, ou aqueles nos quais surgiam suspeitas de doença durante a viagem, eram obrigados a cumprir quarentena na Ilha Grande. Durante esse período, passageiros e cargas eram desembarcados para inspeção, enquanto as embarcações passavam por processos de desinfecção.
No lazareto foram construídos diversos edifícios destinados a funções específicas, incluindo enfermarias, instalações administrativas, depósitos e áreas destinadas à desinfecção de bagagens e mercadorias.
O isolamento dos passageiros seguia a mesma divisão social existente a bordo dos navios. Assim, os viajantes eram separados de acordo com a classe em que haviam embarcado. Para isso, foram construídos pavilhões distintos destinados aos passageiros da primeira, segunda e terceira classes.
Esses edifícios foram erguidos a certa distância uns dos outros, de modo a reduzir o contato entre os grupos e facilitar a vigilância sanitária permanente. Enquanto os passageiros das classes superiores ocupavam quartos destinados a pequenos grupos, o pavilhão da terceira classe possuía maior capacidade e era frequentemente ocupado por imigrantes e trabalhadores.
As medidas sanitárias adotadas incluíam a desinfecção de roupas, bagagens e mercadorias utilizando substâncias químicas empregadas na medicina da época, como enxofre e ácido fênico. O objetivo era eliminar possíveis agentes transmissores de doenças que pudessem ter sido transportados durante a viagem.
Ao longo de sua existência, milhares de passageiros e centenas de navios passaram pelo Lazareto da Ilha Grande. A estação de quarentena desempenhou papel importante na proteção sanitária do porto do Rio de Janeiro, contribuindo para o controle da entrada de epidemias no país.
O lazareto manteve suas atividades principais até 1913. Com o avanço da medicina, o desenvolvimento da microbiologia e a modernização das políticas de saúde pública no início do século XX, novas formas de controle sanitário foram adotadas nos portos brasileiros.
Apesar de sua posterior desativação, o Lazareto da Ilha Grande permanece como um importante testemunho da história da saúde pública no Brasil e das estratégias adotadas pelo Estado imperial para enfrentar o desafio das epidemias em um mundo cada vez mais conectado pelas rotas marítimas.
Nota do Autor
O estudo do Lazareto da Ilha Grande insere-se no campo da história da saúde pública e das políticas sanitárias adotadas pelo Estado brasileiro no século XIX, período marcado pela intensificação das rotas marítimas internacionais e pela circulação crescente de pessoas entre continentes. Nesse contexto, o controle das epidemias tornou-se uma das principais preocupações das autoridades imperiais, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império e principal porta de entrada do país.
A criação de estações de quarentena, conhecidas como lazaretos, seguia uma tradição sanitária já consolidada nos portos europeus desde a Idade Moderna. Tais instituições tinham como objetivo isolar viajantes, tripulações e mercadorias provenientes de regiões onde houvesse suspeita de doenças contagiosas. Ao serem transplantadas para o Brasil, essas práticas refletiam a tentativa de adaptar modelos internacionais de vigilância sanitária às condições específicas do Atlântico sul.
O Lazareto da Ilha Grande, inaugurado na década de 1880, foi concebido como parte desse sistema de defesa sanitária. Localizado em área relativamente isolada do litoral fluminense, o estabelecimento permitia a observação médica de passageiros e tripulações antes que lhes fosse concedida autorização para desembarcar no porto do Rio de Janeiro. Dessa forma, buscava-se impedir que enfermidades como cólera, febre amarela e peste bubônica alcançassem a capital imperial, onde a densidade populacional e as condições urbanas favoreciam a rápida disseminação das epidemias.
A existência do lazareto também revela aspectos importantes da história social da imigração e da mobilidade transatlântica. No final do século XIX, milhares de europeus atravessavam o oceano em direção às Américas, muitos deles com destino às fazendas de café ou às colônias agrícolas do sul do Brasil. Para esses viajantes, o período de quarentena representava uma etapa adicional da travessia, marcada pela espera, pela vigilância sanitária e pela incerteza quanto ao prosseguimento da viagem.
Do ponto de vista historiográfico, o Lazareto da Ilha Grande constitui um testemunho material das estratégias adotadas pelo poder público para enfrentar as ameaças epidêmicas em uma época anterior ao pleno desenvolvimento da microbiologia e da medicina moderna. Ao mesmo tempo, ele evidencia as tensões entre mobilidade, comércio internacional e segurança sanitária, temas que permanecem relevantes na análise histórica das políticas de saúde.
Assim, mais do que um simples edifício ou instalação portuária, o lazareto deve ser compreendido como parte de um sistema mais amplo de controle das fronteiras sanitárias do Império brasileiro. Seu estudo permite compreender como o Estado, a ciência médica e a circulação global de pessoas se entrelaçaram na construção das primeiras políticas de saúde pública no Brasil.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta