segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O Medo da Mata na Imigração Italiana para o Brasil

 


O Medo da Mata na Imigração Italiana para o Brasil

Antes mesmo de derrubarem a primeira árvore, muitos imigrantes italianos já haviam aprendido a temer a floresta. Não a conheciam como paisagem. Conheciam-na como rumor. Ela surgia nas conversas entre colonos mais antigos, nos relatos sussurrados ao redor do fogo, nas cartas que conseguiam atravessar o oceano e retornar às aldeias do Vêneto, do Trentino ou da Lombardia. Era descrita não apenas como mata, mas como imensidão — uma extensão viva e escura que parecia resistir à presença humana. Para homens acostumados aos campos divididos da Europa, às colinas cultivadas havia séculos e às aldeias onde o toque dos sinos delimitava o mundo conhecido, a floresta brasileira representava algo muito mais profundo do que uma dificuldade material. Ela representava o desconhecido absoluto. Ao chegarem às colônias do sul do Brasil no final do século XIX, muitos esperavam encontrar terras prontas para cultivo. A propaganda emigratória frequentemente mostrava campos abertos, pequenas propriedades produtivas e um horizonte de abundância. Em vez disso, encontraram paredões verdes que pareciam não ter fim. Árvores gigantescas ocultavam o céu. A umidade impregnava roupas, ferramentas e paredes improvisadas. Sons inexplicáveis atravessavam a noite. E, sobretudo, havia a sensação permanente de isolamento — como se o mundo civilizado houvesse terminado muitos quilômetros antes. A mata não era apenas um obstáculo físico. Tornava-se uma presença psicológica. Durante o dia, exigia esforço brutal. Abrir uma clareira significava enfrentar troncos imensos, raízes profundas e um terreno irregular que parecia desfazer qualquer tentativa de ordem. O trabalho consumia semanas para produzir poucos metros utilizáveis. O machado, símbolo de progresso nas fotografias posteriores da colonização, era naquele momento instrumento de sobrevivência. À noite, porém, o medo mudava de forma. Os animais desconhecidos ocupavam a imaginação dos recém-chegados com intensidade quase mítica. Muitos jamais haviam visto serpentes tropicais, bugios, grandes felinos ou insetos de dimensões incomuns. O simples ruído vindo da mata fechada adquiria proporções ameaçadoras. Um galho quebrado podia significar perigo. Um uivo distante bastava para impedir o sono.

A floresta brasileira possuía sons que os europeus não sabiam interpretar. E aquilo que não se compreende tende a crescer dentro da mente. Havia também as doenças. Na Itália, a pobreza era familiar; no Brasil, a enfermidade parecia imprevisível. Febres surgiam sem explicação clara. Feridas infeccionavam rapidamente sob o clima úmido. Picadas de insetos podiam transformar-se em ameaça séria. A ausência de médicos e o isolamento das colônias faziam com que males relativamente simples adquirissem gravidade extrema. Muitas famílias viviam sob a impressão constante de vulnerabilidade — não apenas diante da natureza, mas diante da incapacidade de entendê-la. Esse sentimento aprofundava o desgaste emocional. Em diversas colônias, os primeiros anos foram marcados por uma solidão difícil de descrever. As casas ficavam afastadas entre si. As estradas, quando existiam, tornavam-se intransitáveis com a chuva. O contato com centros urbanos era raro. Para muitos imigrantes, especialmente mulheres e idosos, a percepção era a de terem sido lançados para fora do mundo conhecido. A floresta contribuía para essa sensação de exílio permanente. Na Europa, mesmo na pobreza, existia continuidade histórica. Igrejas antigas, vilarejos familiares, cemitérios onde repousavam gerações inteiras. No Brasil, havia apenas mata. Uma mata tão vasta que parecia apagar referências anteriores. Alguns imigrantes relatavam angústia ao perceber que, ao redor de suas casas improvisadas, tudo permanecia estranho — as árvores, os pássaros, o clima, os odores. Nada respondia à memória. E talvez tenha sido justamente isso o que tornou a adaptação tão dolorosa.A luta contra a floresta não era apenas econômica. Era simbólica. Derrubar árvores significava também domesticar o medo, impor limites ao desconhecido e criar pequenas ilhas de familiaridade em meio à imensidão. Cada clareira aberta representava mais do que terra cultivável: era uma tentativa de reconstruir o mundo. Por isso, as primeiras capelas tiveram importância tão profunda.

O sino, quando finalmente surgia, não chamava apenas para a oração. Ele organizava o espaço psicológico da comunidade. O som metálico atravessando a mata criava a sensação de que ainda existia ordem, proximidade humana e permanência. Ao redor dessas capelas nasceram escolas, armazéns, vínculos comunitários e festas religiosas que ajudaram os imigrantes a resistir ao sentimento de desenraizamento. Pouco a pouco, a mata deixava de ser apenas ameaça. Mas esse processo levou tempo — e cobrou um preço emocional raramente mencionado nos relatos oficiais da colonização. Muitos pioneiros viveram anos sob tensão contínua. O silêncio excessivo das noites, interrompido por ruídos desconhecidos, alimentava ansiedade. O isolamento produzia melancolia. A distância da Itália transformava lembranças simples — uma praça, uma videira, o som de um dialeto — em formas de sofrimento silencioso. Ainda assim, permaneceram. E talvez uma das dimensões mais impressionantes da imigração italiana no Brasil resida exatamente nisso: na capacidade de continuar apesar do medo. Porque houve medo. Medo real, concreto, cotidiano. Medo da doença, da fome, dos animais, da solidão e, acima de tudo, da possibilidade de desaparecer sem deixar vestígios em um território que parecia indiferente à presença humana. Com o passar das décadas, porém, aquilo que inicialmente fora ameaça transformou-se em paisagem familiar. As clareiras tornaram-se propriedades. Os caminhos viraram estradas. A floresta recuou diante das lavouras, das casas de pedra e das comunidades consolidadas. Os filhos dos pioneiros já não viam a mata com os mesmos olhos. Mas os primeiros viram. E é importante lembrar disso. Porque, para compreender verdadeiramente a experiência daqueles imigrantes, não basta celebrar a coragem posterior. É preciso reconhecer o temor inicial — profundo, humano e absolutamente legítimo. A floresta brasileira não foi apenas cenário da imigração. Foi uma presença constante. Uma presença que intimidava, isolava e adoecia, mas que também moldou o caráter daqueles que aprenderam, lentamente, a viver dentro dela.


Nota do Autor

A memória da imigração italiana no Brasil costuma privilegiar os resultados visíveis da colonização: as casas de pedra, as plantações, o desenvolvimento das comunidades e a consolidação econômica de muitas famílias. São elementos reais e merecidamente valorizados. Contudo, existe uma dimensão menos perceptível dessa experiência — a do impacto psicológico causado pelo ambiente encontrado pelos pioneiros. Para muitos imigrantes vindos do norte da Itália no final do século XIX, a floresta brasileira representava algo inteiramente fora de sua experiência cultural. Diferentemente das paisagens europeias, moldadas por séculos de ocupação humana, grande parte das regiões coloniais do sul do Brasil ainda era coberta por mata densa e pouco integrada às estruturas urbanas. O isolamento, a dificuldade de comunicação, as doenças tropicais e a ausência de referências familiares produziram um sentimento de insegurança que marcou profundamente os primeiros anos da imigração. Este texto procura explorar justamente essa dimensão humana do medo — não como sinal de fraqueza, mas como reação natural diante do desconhecido. Os pioneiros italianos não enfrentaram apenas dificuldades econômicas ou físicas; enfrentaram também o desafio emocional de habitar um espaço que lhes parecia estranho e, muitas vezes, hostil. Aos descendentes daqueles colonos, talvez essa realidade ajude a compreender certos traços herdados ao longo das gerações: o apego à comunidade, à religiosidade, à família e ao trabalho coletivo. Em contextos de isolamento extremo, esses elementos funcionavam não apenas como valores culturais, mas como formas concretas de resistência psicológica. Ao revisitar o medo da mata, o objetivo não é romantizar o sofrimento nem transformar a imigração em narrativa de tragédia. Busca-se, antes, ampliar o entendimento sobre aquilo que significou recomeçar em um território desconhecido — onde cada som da floresta podia parecer ameaça e cada pequena clareira aberta representava uma vitória contra a insegurança e o isolamento. Porque, no fim, antes de construir colônias, os imigrantes precisaram aprender a permanecer. E permanecer, naquele mundo de mata fechada e silêncio profundo, exigiu uma coragem que raramente aparece nas fotografias antigas.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares






Lista de Passageiros Italianos Desembarcados do Vapor Mokley em 1876


VAPOR MOKLEY
1876
  • Bertolli
  • Bissetti
  • Bladessarini
  • Bonadini
  • Bontemezane
  • Bressin
  • Brogliali
  • Caelli
  • Cartinone
  • Cattano
  • Cervi
  • Conalizi
  • Consin
  • Domenico
  • Fevre
  • Garattil
  • Gaspari
  • Gasschi 
  • Huller
  • Lanaseni 
  • Lazzarini
  • Lazzate
  • Mappalli
  • Menetrier
  • Nessini 
  • Ogliane
  • Panzera
  • Peroti
  • Piansentini
  • Piazzi
  • Remonti
  • Rocelli
  • Tonalze
  • Valbasco
  • Valerio
  • Vigano

Families from Polignano a Mare (Bari) Who Immigrated to São Paulo, Brazil

 


Families from Polignano a Mare (Bari) Who Immigrated to São Paulo, Brazil

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As Mulheres que Também Atravessaram o Oceano: Mulheres na Imigração Italiana


As Mulheres que Também Atravessaram o Oceano: Mulheres na Imigração Italiana

“Elas não foram apenas acompanhantes na viagem da família. As mulheres italianas também atravessaram o oceano e ajudaram a transformar a imigração em uma nova história de vida.”

Quando se fala na grande imigração italiana entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, é comum imaginar um homem sozinho, carregando uma pequena mala, deixando para trás sua aldeia e embarcando em um navio rumo a um país desconhecido. Essa imagem não está errada, mas é incompleta. Por muito tempo, a história da imigração foi contada principalmente através dos homens. Entretanto, ao lado deles existiam mulheres que partiram, mulheres que ficaram e mulheres que, mesmo sem cruzar imediatamente o oceano, tiveram participação decisiva na construção do futuro de suas famílias.
A emigração italiana não foi igual em todos os períodos nem aconteceu da mesma maneira para todos os destinos. Em determinadas correntes migratórias, principalmente nas primeiras fases, predominavam os homens. Muitos viajavam sozinhos porque pretendiam trabalhar durante algum tempo, juntar dinheiro e depois retornar à Itália. Eram trabalhadores rurais, pedreiros, mineiros, operários e trabalhadores sazonais que circulavam entre diferentes países em busca de oportunidades.
Mas nem sempre o retorno acontecia. Em muitos casos, aquilo que começava como uma viagem temporária acabava transformando-se em uma mudança definitiva. O marido que havia partido sozinho passava a enviar dinheiro para casa. Depois vinha uma carta. Mais tarde, talvez uma fotografia. E finalmente surgia a possibilidade de que a esposa e os filhos também viajassem.
Era nesse momento que a história da imigração começava a mudar de natureza. Já não se tratava apenas de um homem procurando trabalho longe de casa. Era uma família procurando construir uma nova vida.

As mulheres que ficaram na Itália

Antes de falar das mulheres que atravessaram o Atlântico, é preciso lembrar aquelas que permaneceram na Itália enquanto os homens partiam.
A ausência de um marido, pai ou filho alterava profundamente a rotina familiar. A casa continuava funcionando, os filhos precisavam ser cuidados e, nas famílias camponesas, a terra não podia simplesmente ser abandonada.
A mulher que permanecia na aldeia podia assumir responsabilidades que antes eram compartilhadas com o marido. A administração da casa, o cuidado com os filhos e parte das tarefas relacionadas à propriedade passavam a depender ainda mais dela.
Havia também uma questão fundamental: o dinheiro enviado pelo emigrante.
As remessas tinham enorme importância para muitas famílias. O dinheiro recebido do exterior podia ajudar na compra de alimentos, no pagamento de dívidas, na melhoria da casa ou na aquisição de terras. Em determinados casos, permitia à família elevar gradualmente suas condições materiais.
Assim, a mulher que recebia e administrava esse dinheiro não era simplesmente alguém esperando pelo marido. Ela participava diretamente da estratégia econômica familiar.
As relações com os correios, bancos, agentes de remessas e repartições públicas também podiam colocar essas mulheres em contato com instituições que anteriormente faziam pouco parte de sua vida cotidiana.
Isso não significa que a imigração tenha produzido automaticamente a emancipação feminina. A sociedade italiana daquele período continuava marcada por profundas desigualdades entre homens e mulheres. Mas a ausência masculina podia ampliar, na prática, as responsabilidades e o poder de decisão de algumas mulheres.
Enquanto o marido estava longe, a vida precisava continuar. E muitas vezes era a mulher quem fazia essa vida continuar.

Quando chegava a hora de partir

Para algumas famílias, a separação durava meses ou anos. Para outras, chegava o momento do reencontro.
Mulheres viajavam para encontrar maridos que já estavam estabelecidos no exterior. Outras partiam acompanhadas dos filhos. Algumas viajavam com parentes ou integravam grupos familiares maiores.
A viagem feminina tinha dificuldades próprias. Não era apenas uma mudança de endereço. Significava abandonar uma comunidade conhecida, deixar parentes, amigos, costumes e uma paisagem que fazia parte da própria identidade.
No Brasil, milhares de mulheres italianas fizeram essa travessia. Muitas chegaram acompanhadas de maridos e filhos; outras vieram posteriormente, quando o processo de instalação da família já estava mais avançado.
Ao desembarcarem, encontravam uma realidade muito diferente daquela que conheciam. Mesmo quando a família se dirigia para uma colônia agrícola formada por italianos, era necessário adaptar-se ao clima, à alimentação, à língua, ao trabalho e às condições locais.
Em regiões de colonização italiana no Sul do Brasil, como partes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, as mulheres participaram intensamente da formação das comunidades. O trabalho familiar nas propriedades rurais dependia da participação de todos.
A imigração, nesses lugares, não foi apenas uma aventura individual. Foi uma experiência coletiva de construção.

O trabalho das imigrantes

A imagem da mulher italiana exclusivamente dentro de casa também não explica toda a realidade.
Nas famílias de agricultores, o trabalho feminino era fundamental. As mulheres participavam de atividades agrícolas, cuidavam de animais, preparavam alimentos, preservavam produtos, cuidavam da horta e realizavam inúmeras tarefas indispensáveis à sobrevivência da família.
Em áreas urbanas, muitas encontraram outras formas de trabalho. Algumas atuaram no serviço doméstico, em pequenas atividades comerciais, na produção de alimentos ou em trabalhos realizados dentro da própria residência. Outras ingressaram no trabalho industrial.
Nos países que receberam grandes contingentes de italianos, inclusive o Brasil e os Estados Unidos, mulheres imigrantes participaram de diferentes setores da economia. As oportunidades e condições variavam conforme a região, o período e a origem social de cada família.
O trabalho feminino também podia permanecer invisível porque era realizado dentro da própria casa. Uma mulher que costurava, produzia alimentos para vender, recebia hóspedes ou ajudava na pequena atividade comercial da família podia contribuir significativamente para a renda doméstica sem aparecer nas estatísticas do trabalho industrial.
E havia ainda outra característica: muitas mulheres acumulavam atividades.
Trabalhavam durante o dia e continuavam trabalhando em casa. Cuidavam dos filhos, preparavam as refeições, organizavam a casa e ajudavam o marido nas atividades econômicas da família.
A imigração não eliminou as antigas responsabilidades femininas. Em muitos casos, simplesmente acrescentou novas responsabilidades a elas.

A vida nas cidades e as dificuldades do trabalho industrial

Nos grandes centros urbanos, especialmente onde a industrialização atraía mão de obra estrangeira, a experiência podia ser bastante diferente daquela vivida nas colônias agrícolas.
Mulheres imigrantes trabalharam em fábricas, especialmente em setores como o têxtil e o de confecções. As condições de trabalho do período eram frequentemente duras, e a legislação trabalhista ainda era muito limitada em comparação com os padrões atuais.
Jornadas longas, baixos salários e ambientes pouco seguros faziam parte da realidade de muitos trabalhadores, homens e mulheres.
As jovens estavam entre as pessoas mais vulneráveis. A pouca idade, a pobreza, a dificuldade com o idioma e a falta de conhecimento sobre os direitos existentes podiam aumentar a exposição a abusos.
Também existem registros históricos de exploração sexual e tráfico de mulheres envolvendo imigrantes europeias, inclusive italianas, em diferentes países durante aquele período. Esses casos foram graves e reais, mas não devem ser usados para representar toda a experiência da imigração feminina italiana. A maioria das mulheres italianas que migrou viveu histórias muito diferentes: trabalhou, criou filhos, formou famílias e participou da construção de comunidades.
A história precisa registrar as situações de exploração sem transformar exceções dramáticas em retrato de milhões de vidas.

Mães entre duas culturas

Talvez seja dentro da família que encontramos uma das contribuições mais profundas das mulheres italianas para as comunidades de imigrantes.
A mãe frequentemente se encontrava diante de uma tarefa delicada: criar os filhos em um país diferente daquele onde havia nascido.
Dentro de casa, permaneciam palavras italianas ou dialetais, receitas, costumes, histórias familiares, devoções religiosas e lembranças da terra de origem. Do lado de fora, os filhos aprendiam a língua e os hábitos da sociedade brasileira.
No Brasil, essa convivência produziu situações muito particulares. Em determinadas comunidades do Sul, por exemplo, variedades linguísticas de origem italiana permaneceram vivas por gerações. Entre elas está o talian, desenvolvido no contexto das comunidades de imigrantes italianos, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
A cozinha também se tornou uma espécie de arquivo familiar. Receitas trazidas da Itália foram modificadas pelos ingredientes disponíveis no Brasil e transmitidas de uma geração para outra.
A mulher desempenhou papel importante nessa transmissão cotidiana da memória.
Mas preservar não significava conservar tudo exatamente como era.
Os filhos cresciam brasileiros. Frequentavam escolas brasileiras, conviviam com outras culturas e estabeleciam novos vínculos. A identidade das famílias foi, portanto, se transformando ao longo das gerações.
A italianidade que permaneceu no Brasil não foi uma fotografia congelada da Itália do século XIX. Foi uma nova identidade, construída pelo encontro entre a herança italiana e a experiência brasileira.

Cartas que atravessavam o oceano

Antes do telefone se tornar acessível e muito antes da internet, a distância era uma realidade concreta.
As cartas eram uma das principais formas de comunicação entre os familiares separados pela imigração.
Uma família na Itália podia esperar semanas pelas notícias de um filho que estava no Brasil. Uma esposa podia receber uma carta do marido contando sobre o trabalho, a viagem, a nova moradia ou as dificuldades encontradas.
As cartas carregavam notícias, mas também carregavam sentimentos.
Havia saudade, preocupação, esperança e, muitas vezes, pedidos para que outros familiares também partissem.
As fotografias tinham papel semelhante. Um retrato enviado pelo correio podia ser uma das poucas imagens disponíveis de um familiar que vivia do outro lado do oceano.
Por isso, fotografias antigas encontradas hoje em gavetas, baús e álbuns familiares podem representar muito mais do que simples lembranças. Elas são vestígios materiais de uma época em que a distância entre a Itália e o Brasil podia significar uma separação de milhares de quilômetros e meses de espera.

As mulheres e a construção das comunidades italianas

Quando as famílias começaram a se estabelecer definitivamente no Brasil, as mulheres ajudaram a transformar grupos de imigrantes em comunidades.
A vida comunitária não se limitava ao local de trabalho ou à propriedade rural. Ela acontecia também nas casas, nas igrejas, nas festas religiosas, nas escolas, nos pequenos estabelecimentos comerciais e nas relações de vizinhança.
As mulheres estavam presentes nesses espaços e ajudavam a manter redes de parentesco, amizade e solidariedade.
Quando uma nova família chegava, muitas vezes encontrava apoio em parentes ou conhecidos que já estavam estabelecidos. Informações sobre trabalho, moradia, terras e oportunidades circulavam por essas redes.
A família italiana, portanto, não se formava isoladamente. Ela fazia parte de uma rede maior.
E essa rede ajudava a tornar possível a sobrevivência em uma sociedade desconhecida.

A mulher como guardiã da memória familiar

Há outro aspecto que merece atenção: a memória.
Em muitas famílias de origem italiana, foram as mulheres que conservaram histórias, nomes, fotografias, receitas, objetos e lembranças dos antepassados.
Uma avó podia saber o nome da aldeia de onde havia vindo o bisavô. Uma mãe podia guardar uma carta recebida décadas antes. Um antigo caderno de receitas podia conter palavras escritas em italiano ou dialeto. Uma fotografia podia registrar pessoas cujo nome já não aparecia em nenhum documento oficial.
Esses pequenos objetos, aparentemente sem importância, acabaram se tornando fontes preciosas para as gerações posteriores.
Hoje, quando descendentes de italianos procuram reconstruir suas genealogias, frequentemente encontram nesses registros familiares pistas que ajudam a localizar nomes, localidades e relações de parentesco.
A história oficial registra navios, números, leis, portos e estatísticas. A memória familiar, por sua vez, conserva aquilo que muitas vezes não aparece nos documentos: como as pessoas viveram, sentiram e enfrentaram a mudança.

Uma imigração que também foi feminina

A grande imigração italiana não pode ser compreendida apenas através dos homens que partiram.
É preciso olhar para as mulheres que permaneceram temporariamente na Itália, administraram famílias, receberam remessas e sustentaram a vida doméstica enquanto esperavam notícias.
É preciso lembrar também aquelas que atravessaram o oceano com filhos pequenos, que chegaram a portos brasileiros sem saber exatamente o que encontrariam e que precisaram reconstruir a própria vida em uma sociedade diferente.
É necessário recordar as trabalhadoras das fábricas, as agricultoras, as empregadas domésticas, as comerciantes, as costureiras, as mães e as avós.
E é preciso reconhecer também aquelas que, sem perceber, ajudaram a construir uma ponte entre gerações.
A história dessas mulheres não é uma história única. Algumas encontraram novas oportunidades; outras enfrentaram pobreza, exploração e preconceito. Algumas mantiveram durante toda a vida uma forte ligação com a Itália; outras se tornaram profundamente brasileiras. Muitas fizeram as duas coisas ao mesmo tempo.
Foi assim que nasceram tantas famílias ítalo-brasileiras.
A imigração italiana não foi apenas uma travessia marítima. Foi uma transformação da família, da identidade e da própria maneira de viver.
E nessa transformação as mulheres não foram personagens secundárias.
Elas estavam nas casas que ficaram na Itália, nas propriedades rurais do Brasil, nas fábricas das cidades, nas cozinhas, nas escolas, nas igrejas, nas fotografias, nas cartas e nas lembranças transmitidas de geração em geração.
Quando um descendente brasileiro procura hoje saber de onde vieram seus antepassados italianos, talvez esteja procurando um homem cujo nome aparece em um registro de imigração. Mas, por trás desse nome, quase sempre existe uma história maior.
Pode haver uma esposa que esperou.
Uma mãe que sustentou a família.
Uma filha que atravessou o oceano.
Uma avó que conservou uma fotografia.
Uma mulher que ensinou aos filhos algumas palavras da antiga terra.
E é justamente por isso que a história da imigração italiana precisa ser contada também no feminino.
Porque os italianos não construíram suas novas vidas sozinhos.
Ao lado deles estavam mulheres que, de diferentes maneiras, ajudaram a transformar uma viagem em permanência, uma família em comunidade e uma lembrança da Itália em parte da história do Brasil.

Nota do Autor
Ao contar a história da imigração italiana, é fácil concentrar a atenção nos homens que partiram primeiro, nos navios, nos portos, nas colônias agrícolas, nas fábricas e nos lugares onde encontraram trabalho. Mas essa perspectiva deixa de fora uma parte fundamental dessa história: as mulheres.
Nem todas viveram a imigração da mesma maneira. Algumas permaneceram na Itália durante anos enquanto maridos, pais ou filhos trabalhavam no exterior. Outras atravessaram o oceano posteriormente para reunir a família. Muitas viajaram com filhos pequenos e precisaram reconstruir sua vida em uma sociedade desconhecida. Houve também mulheres que trabalharam na agricultura, nas fábricas, no serviço doméstico, no comércio ou dentro de suas próprias casas.
Por isso, este artigo não pretende apresentar uma experiência feminina única, mas mostrar a diversidade de situações enfrentadas pelas italianas durante o grande movimento migratório dos séculos XIX e XX.
No Brasil, sua presença foi particularmente importante na formação das famílias e comunidades de imigrantes. Além do trabalho, muitas participaram da transmissão da língua, das receitas, das tradições religiosas, das histórias familiares e das lembranças da terra de origem. Foi também através dessas pequenas memórias cotidianas que parte da herança italiana atravessou gerações.
Ao recuperar essas trajetórias, procuramos lembrar que a imigração não foi feita apenas por aqueles que aparecem nos registros de embarque. Por trás de muitos nomes encontrados nos documentos existem mulheres cujas histórias permaneceram dentro das famílias, transmitidas de mãe para filha, de avó para neto.
Talvez seja justamente por isso que, quando procuramos compreender a história de nossos antepassados italianos, precisamos olhar não apenas para quem partiu, mas também para quem esperou, acompanhou, trabalhou, criou os filhos e ajudou a transformar uma nova terra em lar.