Quando o País Itália Ainda Não Existia e A Verdadeira História por Trás das Origens dos Imigrantes
Poucos brasileiros descendentes de italianos sabem que, quando os primeiros imigrantes desembarcaram no Brasil, a Itália como país tinha apenas 9 anos de existência. Até 1866, a península não era uma nação unificada, mas um conjunto de Estados independentes, cada qual com governo, leis, cultura e línguas próprias. Somente a partir da unificação — e após o conturbado plebiscito que anexou o Vêneto — passou a existir oficialmente o Reino da Itália, governado pela Casa de Savoia, originária do Piemonte.
Antes da Unificação: Uma Península Fragmentada
Durante o século XVIII, o território hoje conhecido como Itália era composto por diversos Estados soberanos, entre eles:
Reino da Sardenha
Reino de Nápoles
Estado da Igreja
Ducado de Milão
Sereníssima República de Veneza
Cada um possuía identidade distinta, com tradições, economias e línguas muito diferentes entre si. Não havia um sentimento nacional italiano — ele sequer faria sentido naquele contexto.
O Risorgimento e o Nascimento da Itália
No século XIX, iniciou-se o longo processo de unificação chamado Risorgimento, celebrado na Itália em 17 de março. Após guerras e mobilizações políticas, formou-se o Reino da Itália, considerado concluído somente em 1866, quando o Vêneto foi anexado após um polêmico e manipulado plebiscito. Pesquisadores apontam irregularidades profundas, como detalha o livro “1866 – La Grande Truffa”, de E. Beggiato.
A unificação coincidiu com um momento dramático: fome, miséria, crise agrícola e desemprego devastavam tanto o Norte quanto o Sul, alimentando o início da emigração em massa para a América.
Os Imigrantes Não Falavam Italiano
Os antepassados que chegaram ao Brasil a partir de 1875 não sabiam italiano, porque:
O italiano não existia como língua nacional até a unificação.
As populações se identificavam pela província, não pela nacionalidade “italiana”.
Cada região falava seu dialeto próprio, muitos deles línguas inteiras com estrutura própria, como o vêneto.
Quando o novo Estado precisou definir um idioma, adotou-se o toscano literário, usado por Dante, Petrarca e Boccaccio. Assim, o “italiano” foi uma língua oficial imposta de cima para baixo — e desconhecida da maioria dos emigrantes.
O Vêneto, a Crise e o Êxodo para o Brasil
A anexação do Vêneto agravou ainda mais a crise econômica local, acelerando o colapso rural e a fuga de milhões de pessoas. O êxodo tornou-se uma válvula de escape para evitar uma possível guerra civil. O peso dessa transformação recaiu sobre os agricultores pobres do Norte e do Sul.
A maioria dos emigrantes era semianalfabeta, e seus dialetos — sobretudo após a queda da Sereníssima República de Veneza em 1797 — quase já não eram escritos. Mesmo assim, eram portadores da rica herança cultural de uma das mais poderosas repúblicas marítimas da história.
Milhares desses vênetos vieram para o Brasil, estabelecendo-se principalmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Espírito Santo, além de São Paulo e Minas Gerais, onde foram destinados às fazendas de café após a abolição da escravidão.
O Nascimento do Talian no Brasil
A língua vêneta, com grande diversidade interna, era o idioma da maioria dos imigrantes do Sul. No convés dos navios, eles já percebiam a dificuldade de comunicação entre dialetos distintos. No isolamento das colônias gaúchas, surgiu então uma nova língua: o Talian.
Criado a partir da mistura dos dialetos vênetos e influências de outras regiões, o Talian se consolidou como uma língua própria, rica e melodiosa. Como mais de 50% dos imigrantes do RS eram vênetos, o vêneto exerceu influência dominante na formação do novo idioma.
Hoje, o Talian e o vêneto italiano são totalmente compreensíveis entre si, embora tenham evoluído de formas diferentes:
O Talian incorporou palavras e construções do português ao longo de 140 anos.
O vêneto europeu recebeu forte influência do italiano contemporâneo.
Para muitos descendentes, o Talian é a verdadeira língua mãe.
A Presença Atual do Talian no Brasil
O Talian permanece vivo:
mais de 1 milhão de brasileiros falam fluentemente,
outro tanto o compreende,
há escolas, programas de rádio e escritores dedicados ao idioma,
existem mais de 100 livros publicados em Talian, além de dicionários,
a obra clássica “Vita e Stòria de Nanetto Pippeta” (1924) é seu marco literário.
Peças de teatro também são encenadas nessa língua, que hoje é considerada a segunda língua mais falada do Rio Grande do Sul, depois do português.
Nota do autor
Este texto foi escrito com o objetivo de esclarecer um ponto essencial sobre a origem dos imigrantes italianos no Brasil: muitos deles partiram de uma península fragmentada, em um período em que a Itália ainda não existia como país unificado. Ao abordar o Risorgimento, a anexação do Vêneto, a crise econômica e o surgimento do Talian no Brasil, busco aproximar os descendentes de italianos de sua verdadeira história familiar, mostrando que seus antepassados se identificavam sobretudo com suas regiões, dialetos e comunidades locais.
Mais do que narrar dados históricos, procuro valorizar a formação cultural desses imigrantes, explicar por que eles não falavam italiano padrão e destacar como o contato entre diferentes dialetos deu origem a uma nova língua viva no Brasil. A intenção é contribuir para o entendimento das raízes vênetas e italianas, da trajetória migratória e do impacto desse processo na identidade de milhões de brasileiros. Este trabalho não pretende esgotar o tema, mas incentivar a pesquisa, a preservação do Talian e o reconhecimento da verdadeira diversidade que marca a história da imigração italiana no Brasil.
Dr. Luiz C: B. Piazzetta