domingo, 4 de janeiro de 2026

O Plebiscito Fraudado de 1866: Como o Vêneto Foi Incorporado ao Reino da Itália

 

O Plebiscito Fraudado de 1866: Como o Vêneto Foi Incorporado ao Reino da Itália

História do Vêneto • Unificação Italiana

Introdução

O plebiscito de 1866, realizado para decidir se o Vêneto deveria ser anexado ao recém-formado Reino da Itália, é até hoje considerado um dos processos eleitorais mais contestados do século XIX. Embora oficialmente apresentado como um “livre ato de vontade popular”, o referendo foi marcado por pressões militares, ausência de liberdade de voto, participação simbólica dos austríacos e uma intensa campanha de manipulação política.

Para muitos estudiosos, como Ettore Beggiato em “1866 – La Grande Truffa”, o plebiscito foi menos uma escolha democrática e mais uma formalidade política para legitimar uma decisão já tomada de antemão pelas potências europeias.

O Contexto Histórico: Uma Decisão Tomada Antes Mesmo da Votação

Em 1866, durante a Terceira Guerra da Independência, o Império Austro-Húngaro decidiu ceder o Vêneto à França, que por sua vez o entregaria ao Reino da Itália — independentemente do resultado de qualquer votação.
Ou seja:

  • A Itália já receberia o Vêneto, pois isso estava definido em acordos diplomáticos entre Napoleão III e Viena.

  • O plebiscito foi convocado apenas para dar aparência de legitimidade, como era prática política do século XIX.

Assim, quando o eleitorado foi votar, a questão já estava resolvida nos bastidores.

Falta de Liberdade de Voto: Um Plebiscito Sob Presença Militar

No momento da votação, o Vêneto estava ocupado por tropas italianas e francesas. A legislação eleitoral exigia:

  • voto público, não secreto;

  • obrigatoriedade de preencher cédulas pré-impressas fornecidas pelo governo;

  • voto depositado diante de autoridades italianas.

A presença de militares italianos na maior parte das cidades criou um ambiente de pressão psicológica e, em alguns casos, coerção direta.

O Modelo das Cédulas: Sim ou… Sim?

Um dos elementos mais citados nas denúncias históricas é o formato das cédulas:

  • A cédula do SIM era decorada, colorida, com símbolos do novo Reino da Itália, incentivando seu uso.

  • A cédula do NÃO era simples, pequena e sem símbolo estatal, o que tornava evidente para qualquer observador quem votava contra a anexação.

Votar “não” significava se expor publicamente — algo arriscado em um ambiente militarizado.

A Prática Eleitoral: Urnas sem Controle e Fraude Estrutural

Diversos relatos da época, além de documentos analisados posteriormente, apontam irregularidades estruturais:

  • Mesários nomeados pelo governo italiano, não escolhidos localmente.

  • Falta de verificação de identidade, permitindo votos repetidos.

  • Urnas não lacradas e transportadas sem fiscalização.

  • Apressamento artificial da votação para evitar qualquer contestação.

Em algumas cidades, como relatado em crônicas da época, os mesários simplesmente “assinalavam o SIM” para os analfabetos — que eram maioria.

Resultados Improváveis

Oficialmente, o resultado final foi:

  • SIM: 646.789

  • NÃO: 69

Esse placar é considerado estatisticamente impossível por historiadores independentes. Para efeito comparativo:

  • Em 1866, o Vêneto possuía forte presença rural tradicionalista.

  • Grande parte da população era fiel ao imperador Francisco José e temia impostos italianos mais altos.

  • Havia aversão às guerras italianas que devastavam o território desde 1848.

Ainda assim, o resultado teria sido praticamente unânime — um cenário incompatível com a realidade social e política conhecida.

Por que o plebiscito foi considerado uma fraude?

A soma dos fatores demonstra por que muitos estudiosos afirmam que o referendo foi um ato político encenado, não um processo democrático:

1. O território já estava cedido antes da votação.

A opinião do povo não mudava nada.

2. Voto público e não secreto.

Denúncia clara de intimidação.

3. Supervisão militar italiana.

Qualquer oposição era vista como deslealdade.

4. Mesários nomeados pelo governo pró-unificação.

Impossível neutralidade.

5. Cédulas direcionadas (propaganda dentro do voto).

6. Resultados estatisticamente irreais.

7. Testemunhos contemporâneos que acusam irregularidades.

Consequências para o Povo Vêneto

Depois do plebiscito, o Vêneto sofreu mudanças profundas:

  • Aumento de impostos italianos, muito mais altos que os austríacos.

  • Recrutamento militar obrigatório, que levou jovens venetos para guerras que não eram suas.

  • Crise agrária, pois a Itália impôs tarifas que prejudicaram os camponeses.

  • Explosão migratória: entre 1875 e 1900, centenas de milhares de venetos emigraram para Brasil, Argentina e outros países.

O plebiscito, em vez de representar um novo começo, marcou o início de décadas de empobrecimento e perda de autonomia regional.

Conclusão 

O plebiscito de 1866 no Vêneto é um dos capítulos mais polêmicos da unificação italiana. Longe de ser uma consulta livre e democrática, o processo funcionou como uma formalidade para legitimar uma decisão diplomática pré-acordada entre potências europeias. Seus efeitos foram profundos: perda de autonomia, crise econômica e a maior onda migratória da história vêneta. Por tudo isso os venetos de hoje — e todos os descendentes espalhados pelo mundo — deveriam buscar compreender com maior profundidade o que realmente ocorreu no plebiscito de 1866 e quais foram suas consequências sociais, políticas e culturais. Trata-se de um capítulo decisivo da história regional, frequentemente reduzido a poucas linhas nos livros escolares, mas que marcou de forma permanente o destino do Vêneto. Entender esse episódio não é apenas revisitar um fato antigo: é recuperar a memória de um povo que, muitas vezes sem voz, teve seu futuro decidido por acordos internacionais, pressões militares e uma consulta popular cuja legitimidade permanece amplamente contestada. Ao aprofundar esse conhecimento, os venetos podem reencontrar suas raízes, compreender as razões da grande diáspora que espalhou suas famílias pelo Brasil, Argentina e outros países, e reconhecer a complexidade das forças históricas que moldaram sua identidade. Conhecer essa história é, antes de tudo, um exercício de dignidade cultural.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta