sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O Cão Que Me Levou às Origens Italianas da Minha Família


O Cão Que Me Levou às Origens Italianas da Minha Família

“Às vezes, uma história familiar inteira permanece escondida durante décadas, esperando apenas que uma pequena pista apareça no momento certo.”

Desde menino, e isso já faz muito tempo, sempre tive curiosidade pela história da minha família. Estamos falando da década de 1950, quando eu ainda era criança e já me perguntava quem tinham sido meus antepassados, o que faziam, de onde haviam vindo, por que deixaram a Itália e como tinham chegado ao Brasil.
Eu sabia que minhas raízes eram italianas, principalmente pelo sobrenome e por algumas informações vagas transmitidas pelos mais velhos. Mas saber que uma família veio da Itália é muito diferente de saber de onde, exatamente, ela veio. Eu queria encontrar aquele lugar no mapa. Queria descobrir a comunidade, a região, a história daqueles que haviam atravessado o oceano e deixado para trás uma parte de sua vida.
Durante muitos anos procurei respostas por conta própria. Perguntava aos parentes mais velhos, tentava reunir as poucas lembranças existentes e buscava algum indício que pudesse orientar a pesquisa. Na minha cidade havia várias famílias com o mesmo sobrenome. Algumas eu sabia que eram parentes; outras, não. Mas faltava justamente aquilo que eu mais procurava: uma ligação concreta com o lugar de origem na Itália.
Casei, tive filhos e a vontade de conhecer minhas raízes tornou-se ainda maior. Eu queria um dia poder contar aos meus filhos não apenas que nossos antepassados eram italianos, mas de onde eles haviam vindo e como aquela história havia chegado até nós.
Foi então que, ainda numa época em que não existia internet, aconteceu algo que eu jamais poderia imaginar.
Eu havia comprado uma casa com um grande terreno e queria ter um cão para ajudar na segurança. Para conhecer melhor as raças, pedi emprestado a um casal de amigos um livro ilustrado sobre cães. Entre tantas raças, escolhi o Rottweiler.
Comecei então a procurar um criador. Entrei em contato com o Kennel Clube e perguntei onde poderia encontrar um canil de boa reputação. Indicaram-me um dos criadores mais conhecidos da região, também ligado à criação de cavalos e à atividade rural.
Perguntei o nome do proprietário.
Quando ouvi o sobrenome, levei um susto.
Era o mesmo sobrenome da minha família.
Mais do que isso: descobri que o proprietário do canil era meu primo, filho de um irmão mais velho de meu pai. Nós havíamos nos conhecido na infância, mas fazia muitos anos que não nos víamos. Ele também não sabia que eu morava naquela região.
Fui visitá-lo.
No canil havia uma cadela Rottweiler com sete filhotes, todos com pouco mais de um mês. Meu primo permitiu que eu escolhesse um deles. Escolhi o meu e combinei de buscá-lo quando completasse dois meses de idade.
O filhote já estava registrado no Kennel Clube e tinha recebido um nome: Danke.
Naquele momento, eu não poderia imaginar o quanto aquele cão ainda estaria ligado à minha história.
A reaproximação com meu primo acabou nos levando também a conversar sobre nossa família. Ele era alguns anos mais velho e, assim como eu, sabia muito pouco sobre a origem de nossos antepassados italianos. Seu pai, meu tio, dizia que o avô e o bisavô que haviam vindo da Itália não gostavam de falar sobre o passado.
Durante uma dessas conversas, meu primo se lembrou de algo que havia encontrado muitos anos antes.
Depois da morte de nosso avô, seu pai havia recebido alguns de seus livros. Dentro de um deles, meu primo encontrou um pequeno pedaço de papel amarelado, escrito a lápis. Havia apenas uma palavra:
Pederobba.
Para mim, aquilo poderia ser a primeira pista concreta que eu procurava havia tantos anos.
Mas havia um problema: no início da década de 1980, não existia internet. Não tínhamos mecanismos de busca, bancos de dados genealógicos ou mapas digitais. Uma palavra escrita em um papel antigo podia ser uma pista preciosa, mas também podia permanecer indecifrável por muito tempo.
Eu era radioamador e mantinha contatos frequentes com pessoas de diferentes partes do mundo. O radioamadorismo exigia familiaridade com geografia e, durante meus contatos, eu costumava receber cartões QSL, muitos deles acompanhados de fotografias, cartões-postais ou mapas das cidades e regiões dos outros operadores.
Foi justamente por meio de um amigo radioamador italiano que a pista começou a ganhar forma.
Ele me enviou um mapa da província de Treviso e um cartão-postal da cidade de Treviso, distribuído pelo jornal local Tribuna di Treviso. Ao examinar o mapa, encontrei o nome que estava procurando:
Pederobba. O lugar ficava na província de Treviso, próximo à divisa com a província de Belluno.
Pela primeira vez, aquela palavra escrita a lápis no velho livro tinha encontrado um lugar concreto no mapa. Eu finalmente sabia onde procurar.
Mas ainda não sabia se Pederobba era realmente a terra de meus antepassados.
Decidi então escrever para o diretor do jornal Tribuna di Treviso. Meu italiano era muito limitado. Para escrever a carta, precisei recorrer a um pequeno dicionário português-italiano. Expliquei quem eu era, onde morava, que estava procurando minhas origens familiares e que acreditava que meus antepassados poderiam ter vindo da província de Treviso.
Fiz uma pergunta simples: seria possível verificar se existiam leitores ou assinantes do jornal com o mesmo sobrenome que o meu?
Minha intenção era apenas encontrar minhas raízes.
Pouco mais de um mês depois, aconteceu algo que jamais esqueci.
Recebi quase ao mesmo tempo seis cartas vindas da Itália, todas relacionadas ao meu sobrenome. O diretor do jornal havia se sensibilizado com a minha história e com aquela carta escrita em um italiano ainda muito rudimentar. Decidiu publicá-la em uma edição dominical, distribuída por toda a província.
Das seis cartas, duas vieram de pessoas que realmente tinham um parentesco distante comigo.
Um casal de Pederobba se dispôs a ajudar na pesquisa. Eles procuraram outras pessoas, conversaram com conhecidos e chegaram até um historiador local que, pelo seu extraordinário conhecimento da história e das famílias do município, era considerado uma espécie de arquivo vivo de Pederobba.
A partir daí, a pesquisa ganhou outro rumo.
Mantive correspondência frequente com aquelas pessoas e, no ano seguinte, viajei à Itália.
Eu ainda não dominava o italiano. Viajei em uma excursão que ficaria hospedada a cerca de uma hora e meia de automóvel de Pederobba. Eu teria apenas um dia para encontrar aquelas pessoas e, para isso, precisei abrir mão de uma visita programada ao Santuário de Santo Antônio, em Pádua.
Naquela manhã, o casal foi me buscar no hotel.
Levaram-me para sua casa, onde me esperava um grande almoço com vários familiares. Depois, durante a tarde, mostraram-me Pederobba e os lugares ligados à história de nossa família.
Aquele encontro representou muito mais do que uma viagem. Pela primeira vez, eu estava diante da terra que durante tantos anos havia existido apenas como uma pergunta na minha memória.
Mais tarde, estudei italiano e voltei muitas vezes à Itália. Como não havia hospedagem suficiente em Pederobba, passei a ficar em um município vizinho Alano di Piave, e ainda eu sem saber era o local de nascimento do meu trisavô. Aos poucos, com novas viagens, documentos, cartas, conversas e pesquisas, fui reconstruindo a história de minha família.
Foi assim que aquela palavra escrita a lápis em um velho livro deixou de ser apenas uma pista. Pederobba tornou-se um lugar real, uma referência concreta e, sobretudo, parte da minha própria história.
Tudo isso aconteceu há mais de quarenta anos. Danke viveu pouco tempo, mas foi um grande amigo e um fiel companheiro. E, sem que eu pudesse imaginar no dia em que o escolhi, acabou fazendo parte da descoberta das minhas próprias raízes.
O mais curioso é que seu nome já estava escolhido antes de eu conhecer o primo, o velho bilhete ou Pederobba. Danke, em alemão, significa “obrigado”.
Pode ter sido apenas uma coincidência. Mas, depois de tudo o que aconteceu, essa palavra adquiriu para mim um significado que o tempo não apagou.
Quando penso naquele cão e na história que começou com ele, só consigo dizer:
Danke. Obrigado.

Nota do autor 

Esta é uma história real da minha própria família. Os acontecimentos narrados ocorreram há mais de quatro décadas, quando ainda não existia a internet e as pesquisas genealógicas dependiam de cartas, mapas, jornais, documentos, contatos pessoais e, muitas vezes, de muita persistência. Durante mais de três décadas, também acompanhei de perto inúmeras famílias de descendentes de italianos em suas buscas pelas próprias origens. Aprendi que uma pesquisa familiar pode começar com uma pista aparentemente insignificante: um nome, uma fotografia, uma certidão, uma lembrança de família ou, como aconteceu comigo, um pequeno bilhete escrito a lápis dentro de um velho livro. As imagens que acompanham este artigo são ilustrativas e foram geradas por inteligência artificial. Elas não representam fotografias reais dos acontecimentos narrados. O relato, porém, é verdadeiro e conta como consegui reencontrar minhas raízes em Pederobba, na província de Treviso, Itália.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares



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