Da Fome no Vêneto aos Cafezais de Piracicaba a Saga de uma Família Italiana no Brasil (1882)
Sob o peso de um céu baixo e invernal, a planície do baixo Pó parecia conter a respiração. Ali, entre Bressane, em Castelguglielmo, e a localidade de Corà, no município de Bagnolo di Po, a vida seguia um ritmo antigo, marcado mais pela escassez do que pela esperança. Lorenzo crescera nesse mundo de campos alugados, mãos calejadas e promessas sempre adiadas. Santina, filha de uma família ainda mais numerosa, aprendera cedo que mesas grandes não significavam fartura, mas partilha silenciosa de migalhas.
Casaram-se na igreja da Natività della Beata Vergine Maria, em Bagnolo di Po, um templo antigo de paredes grossas, erguido para resistir aos séculos e às intempéries. Aquele casamento não fora apenas a união de dois jovens, mas a junção de duas histórias marcadas pela mesma pobreza resignada. Após a cerimônia, instalaram-se na casa dos pais de Lorenzo, onde cada novo dia significava mais uma boca a alimentar e menos pão a dividir.
Giuseppe nasceu primeiro, trazendo consigo uma alegria tímida, quase contida, como se até a felicidade precisasse pedir licença. Quase dois anos depois veio Francesco, e com ele a certeza de que o frágil equilíbrio daquela família de camponeses arrendatários havia se rompido. O trabalho tornara-se raro no campo vêneto, e quando surgia era mal pago. As dívidas com o proprietário da terra cresciam como uma sombra persistente, acumulando-se num ritmo impossível de ser vencido.
A Itália, recém-unificada, ainda não conseguira cumprir as promessas de dignidade feitas aos seus filhos. Do norte ao sul, o valor do trabalho caía, enquanto a fome avançava pelos casebres mal conservados. A pelagra deformava corpos e destinos, e a mortalidade infantil rondava como uma presença constante, silenciosa e cruel. Nesse cenário, a emigração deixou de ser um sonho distante para tornar-se a única saída plausível. Era comentada nos adros das igrejas, recomendada por párocos como Don Felice, discutida em sussurros nas casas humildes de Castelguglielmo e arredores.
Em 1882, Lorenzo e Santina compreenderam que permanecer significava definhar. A decisão de partir amadureceu entre noites insones e contas impagáveis, até tornar-se inevitável. A despedida foi dilacerante. Os avós choraram como quem enterra o futuro, certos de que jamais tornariam a ver os netos. O adeus carregava a gravidade de uma separação definitiva, um corte profundo na carne da família.
Partiram ainda de madrugada, sob um frio cortante e uma fina camada de neve que cobria a terra, caminhando até a estação de trem. O destino era o porto de Gênova, onde os aguardava o Adria, um grande navio de ferro e madeira que simbolizava tanto o medo quanto a esperança. Com a ajuda do pároco e os conselhos do prefeito, amigo antigo da família, Lorenzo conseguiu um lugar na embarcação dentro da cota de transporte gratuito oferecida pelo governo brasileiro, ansioso por braços que sustentassem as vastas plantações de café da província de São Paulo.
A travessia durou mais de trinta dias. Foram semanas de desconforto, doenças e saudade, em porões superlotados onde o ar rarefeito se misturava ao cheiro de sal, suor e resignação. Santina protegeu os filhos como pôde, enquanto Lorenzo se agarrava à ideia de que, do outro lado do oceano, a vida poderia enfim começar de novo.
Quando o Adria aportou em Santos, o calor úmido e o cheiro da terra tropical anunciaram um mundo radicalmente diferente. Representantes da Fazenda Santa Clara aguardavam os recém-chegados. De lá, seguiram para os arredores de Piracicaba, onde extensas fazendas de café se espalhavam até onde a vista alcançava. O trabalho era duro, extenuante, mas havia algo novo: a possibilidade concreta de sobreviver, de alimentar os filhos com regularidade, de sonhar sem culpa.
Os primeiros anos foram de adaptação e resistência. A língua estranha, o clima implacável e a disciplina rígida das fazendas testaram a força daquela família. Ainda assim, Lorenzo encontrou no labor diário uma dignidade que lhe fora negada na terra natal. Santina transformou a precariedade em lar, mantendo vivos os costumes, a fé e a memória da Itália distante.
Com o tempo, Giuseppe e Francesco cresceram entre os cafezais, carregando nos gestos a herança dos campos do Vêneto e, no olhar, a promessa de um futuro brasileiro. A história de Lorenzo e Santina, como a de tantos outros, foi feita de perdas irreparáveis e conquistas silenciosas. Não houve glória, apenas perseverança. E foi essa perseverança que lançou raízes profundas no interior paulista, dando origem a gerações que, décadas depois, ainda sentiriam no sangue o eco daquela partida sob a neve.
A emigração não lhes devolveu o que fora deixado para trás, mas concedeu algo igualmente valioso: a chance de recomeçar. E nesse recomeço, marcado pelo trabalho árduo e pela esperança teimosa, construiu-se um legado que atravessaria o tempo, unindo dois mundos pela memória e pelo esforço de quem ousou partir quando ficar já não era possível.
Nota do Autor
Esta narrativa é uma obra de ficção histórica, construída a partir de cartas, anotações e relatos fragmentários deixados por uma família de emigrantes italianos que optou por permanecer anônima. Os nomes dos personagens, assim como alguns detalhes de ambientação, foram utilizados como licenças literárias, com o objetivo de conferir maior humanidade, fluidez narrativa e identificação emocional ao leitor.
Embora os personagens sejam fictícios, os fatos históricos, o contexto social, as condições da emigração, a travessia marítima e o trabalho nas fazendas de café do interior paulista refletem fielmente experiências reais vividas por milhares de famílias italianas no final do século XIX.
Esta história não pretende substituir o documento histórico, mas dar voz literária à memória coletiva daqueles que partiram sem deixar seus nomes nos livros, mas deixaram sua marca profunda na formação do Brasil.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta