O Sanguanel das Colônias, Lenda, Memória e Espírito dos Imigrantes Italianos no RS
Nas matas cerradas do sul do Brasil,
onde a serra se curva ao vento e à fé,
ergueram-se casas de lenha e silêncio
sobre a esperança trazida do Vêneto.
Ali, entre o suor e a reza noturna,
nasceu também o mito que anda sem sombra:
o Sanguanel, filho da terra e do medo,
eco do passado que nunca partiu.
Veio no porão dos navios, sem nome,
junto às preces que cruzaram o mar.
Não pisou o cais, mas pisou o destino
dos homens que trocaram pátria por roça.
Entre a enxada e a saudade, foi ficando,
pequeno espírito de astúcia e vigília,
tecido de rumor, de tropeço e de riso torto,
presença invisível nas noites sem lua.
Não é demônio nem santo esquecido:
é memória travessa da pobreza antiga,
é sombra que imita o cansaço dos vivos,
é o atraso no passo, o nó no caminho.
Quando o milho não brota e a vaca se perde,
quando a porta range sem vento algum,
é ele que ronda, feito sussurro antigo,
lembrando que a terra também tem vontade.
Nas colônias de Bento, Garibaldi e Caxias,
onde a uva sangra no tempo da vindima,
ouviu-se seu rastro entre os parreirais:
folhas viradas, ferramentas mudadas,
o pão que some, o vinho que entorna,
não por maldade, mas por travessura.
O Sanguanel não fere: provoca,
para testar a paciência dos homens.
É filho da oralidade e da vigília,
criado ao redor do fogão de lenha,
quando a noite pedia histórias
para espantar a fome e o frio.
As nonas contavam, os netos tremiam,
e o mito se tornava educação:
respeita a mata, cuida do gado,
não ria do que não entende.
Ele conhece os atalhos da colônia,
os desvios entre capão e potreiro,
onde o silêncio pesa mais que a fala
e o breu engole até pensamento.
Ali caminha o Sanguanel sem peso,
sem deixar pegada nem culpa,
guardião irônico da fronteira
entre o visível e o que se pressente.
Não nasceu do nada: veio da Europa,
dos lares pobres do norte da Itália,
onde já rondavam seres pequenos
que punham à prova a ordem do mundo.
O colono não trouxe só sementes,
trouxe também seus medos e mitos,
e no solo vermelho do Sul
eles criaram nova raiz.
O Sanguanel é espelho do colono:
baixo de estatura, mas grande em astúcia,
sobrevive à força e à escassez,
ri quando a vida pesa demais.
É o espírito da adaptação,
da inteligência que escapa ao controle,
o jeito torto de resistir
quando tudo parece negar futuro.
Hoje, quando a mata recua e a estrada avança,
ele não some — apenas muda de veste.
Habita o ranger dos galpões antigos,
o eco nas cantinas abandonadas.
Está na palavra que não se explica,
no arrepio que corre sem motivo,
na herança invisível que pulsa
no sangue dos descendentes.
Ó Sanguanel, guardião das colônias,
não te expulsaremos com descrença.
Tu és parte da história que sangra e canta,
da memória que o tempo não apaga.
Entre o real e o simbólico, tu caminhas,
como o colono caminhou entre dois mundos.
E enquanto houver terra, suor e lembrança,
teu passo pequeno seguirá eterno.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta