quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Fraglie na Itália Média: A Organização dos Ofícios Artesanais


 

Fraglie na Itália Média 

A Organização dos Ofícios Artesanais

A origem do conceito de corporação

O termo corporação só surgiu no século XVIII, criado para substituir denominações muito mais antigas — como as guildas — usadas para definir uma confraternidade ou irmandade de profissionais dedicados a um mesmo ofício. Antes disso, desde o século XII, já existiam na Sereníssima República de Veneza e nas grandes cidades italianas — como Pádua, Vicenza, Florença e Bolonha — as chamadas fraglie, forma primitiva, estruturada e regulamentada dessas associações profissionais.

O que eram as fraglie

As fraglie eram irmandades artesanais que reuniam artífices de uma mesma profissão, além de religiosos ligados ao mesmo ofício. Sua função principal era regular o processo produtivo urbano, organizar o trabalho artesanal e garantir padrões que servissem tanto aos consumidores quanto aos próprios trabalhadores.

Funções econômicas e produtivas

As fraglie:

  • regulamentavam a produção artesanal nas cidades;

  • defendiam os interesses dos associados;

  • negociavam preços de forma eficiente;

  • asseguravam a qualidade do trabalho e dos produtos;

  • impediam que qualquer artesão cobrasse valores abusivos ou utilizasse materiais de qualidade inferior;

  • evitavam a concorrência interna desleal;

  • protegiam o mercado local, proibindo a entrada de produtos similares vindos de fora.

Essas medidas garantiam equilíbrio econômico e proteção ao ofício, elemento essencial para a vida urbana medieval.

Formação profissional dentro das fraglie

Uma das grandes contribuições das fraglie foi a criação de um sistema sólido de formação artesanal, separando seus membros em:

  • mestres,

  • oficiais,

  • aprendizes.

As fraglie controlavam o ingresso na profissão, definindo regras rígidas para capacitação e avaliando o domínio técnico antes de conceder o título de mestre. Esse modelo garantiria por séculos a excelência dos produtos italianos.

Estrutura religiosa e social das fraglie

O capítulo e o santo protetor

As irmandades reuniam-se no capítulo, normalmente instalado em uma igreja onde mantinham:

  • um altar, ou

  • uma capela,

dedicados ao santo protetor do ofício.

Durante as grandes procissões religiosas — especialmente as festas do padroeiro — as fraglie participavam com pompa, em demonstrações públicas de devoção e prestígio.

Assistência social e proteção dos membros

Além da dimensão religiosa, as fraglie ofereciam um verdadeiro sistema de proteção social medieval:

  • auxílio em caso de velhice,

  • amparo em doenças,

  • suporte em invalidez,

  • ajuda às famílias de associados falecidos.

Essas funções reforçavam o caráter comunitário e essencial dessas associações.

Organização interna: Gastaldi e Massari

Os dirigentes de uma fraglia eram chamados gastaldi, responsáveis pela coordenação das atividades da irmandade. Já os massari cuidavam da arrecadação e do patrimônio, administrando as contribuições financeiras dos membros.

Ambos os cargos eram eletivos, e a participação no pleito era aberta a todos os associados. O modelo democrático contribuía para a coesão e transparência interna.

As fraglie nas cidades italianas

No século XIII, apenas na cidade de Pádua já existiam trinta e seis fraglie oficialmente registradas. As autoridades municipais:

  • limitavam o número de irmandades, e

  • obrigavam todos os profissionais de ofícios regulamentados a se inscreverem.

Esse controle garantia ordem, qualidade e segurança econômica para as cidades medievais.

Nota do Autor

Este texto foi elaborado para iluminar a importância das fraglie, as antigas irmandades que organizaram a vida econômica, religiosa e social das cidades italianas medievais. Ao recuperar a história dessas associações — muitas vezes esquecidas — buscamos mostrar como elas moldaram ofícios, preservaram tradições e criaram as bases do trabalho artesanal que acompanhou milhares de imigrantes para o Novo Mundo. Entender as fraglie é compreender não apenas a estrutura dos ofícios antigos, mas também a riqueza cultural que formou parte essencial da identidade italiana.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta