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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sob o Sol de Santa Fé e a Vida dos Irmãos Borteline

 

Sob o Sol de Santa Fé e a Vida dos Irmãos Borteline

A Partida

A aldeia de Casette Antonelli, em Potenza Picena, onde Domenico e Giacomo Borteline nasceram era bem pequena, perdida entre vales estreitos e campos ressequidos do sul da Itália. As casas pequenas e mal conservadas se amontoavam em desalinho ao redor da igreja, e a terra, dividida entre muitas famílias, era agora uma colcha de retalhos que já não bastava para cada família viver. O trigo mal crescia, o milho secava nos verões inclementes e os vinhedos produziam apenas o suficiente para encher alguns poucos barris de vinho e as oliveiras, orgulho local, que sempre foram a principal fonte de recursos e sustento da região passavam por uma época de baixa produtividade que os mais velhos imputavam aa mudanças do clima.

A vida era marcada pela escassez. Quando o inverno se prolongava, faltava até pão. As mães estendiam caldos de legumes até o limite, enquanto os homens sonhavam com horizontes mais amplos. As cartas que chegavam da América falavam de campos imensos, terras férteis e oportunidades para quem tivesse coragem. Foi nesse cenário desolador de penúria e falta de esperança que os irmãos decidiram partir. Não havia mais futuro na aldeia. Venderam os poucos pertences que possuíam, despediram-se entre lágrimas e seguiram rumo ao porto de Napoli. Ali embarcaram em um navio que vinha de Genova, carregando centenas de famílias como a deles, todos com o mesmo destino: a Argentina.

A Travessia

O navio Città di Genova era um mundo de ferro e madeira, abarrotado de homens, mulheres e crianças. O espaço nos porões era mínimo, o ar rarefeito e pesado. Muitos adoeciam pelo confinamento e má alimentação, alguns não resistiam. O mar castigava sem piedade, e as ondas faziam balançar o casco como se fosse um brinquedo frágil.

Domenico e Giacomo suportaram como puderam. Passaram semanas alimentando-se de pão endurecido e sopa rala. O cheiro de sal, suor e febre impregnava tudo. Ainda assim, entre a dor e o cansaço, havia a chama da esperança. Cada amanhecer era um passo a mais em direção a um novo mundo.

Quando finalmente avistaram a costa da América, sentiram-se renascidos. O horizonte plano parecia prometer um futuro diferente.

A Chegada a Rosário de Santa Fé

Rosário era uma cidade em crescimento, movimentada por carroças rangendo sobre o paralelepípedo irregular, mercadores gritando preços em espanhol rápido e imigrantes que se amontoavam em busca de trabalho e orientação. Os navios que chegavam traziam continuamente novas levas de famílias desesperadas, e a cada desembarque as ruas se enchiam de vozes estrangeiras, sons misturados de dialetos italianos, línguas do leste europeu e até mesmo alemão. Havia uma sensação de movimento incessante, como se todos corressem atrás de um destino que nunca se deixava alcançar.

Os irmãos Borteline foram encaminhados às colônias agrícolas de Santa Fé, onde lhes disseram que poderiam arrendar terras. O solo parecia fértil, estendendo-se até perder de vista, uma planície infinita que impressionava quem vinha de aldeias encravadas entre colinas estreitas. O horizonte parecia uma promessa de abundância, e por um instante os dois acreditaram que finalmente haviam encontrado o lugar onde poderiam recomeçar.

Mas logo compreenderam a armadilha: o preço do arrendamento era alto demais, sufocante, pensado para manter o colono sempre dependente. Dividiam as parcelas com outros compatriotas para suavizar a carga, mas ao final da colheita restava pouco além do que comer. O que sobrava mal cobria as necessidades mais básicas — farinha para o pão, sal para conservar algum pedaço de carne, lenha para suportar o frio das noites de inverno.

As dívidas cresciam como sombra permanente, pesando sobre cada decisão, cada gesto, cada semente lançada ao chão. E como se isso não bastasse, as raras máquinas agrícolas, caras e frágeis, quebravam a cada safra. Um arado que se partia, uma engrenagem que se corroía, um eixo que cedia no meio do trabalho — tudo significava uma nova conta a pagar, um novo contrato de reparo, uma nova dívida. O conserto custava mais do que podiam suportar, e cada reparação parecia empurrá-los ainda mais fundo num poço sem saída.

Quando conseguiam levantar os olhos do chão, viam apenas a figura distante dos patrões, homens que passavam a cavalo vigiando as terras de longe, indiferentes ao sofrimento dos colonos. Para eles, os imigrantes eram apenas braços a mais para trabalhar, peças substituíveis numa engrenagem de produção. Não havia compaixão nem reconhecimento, apenas a frieza de quem calculava lucros e perdas, como se vidas humanas fossem números em um livro de contas.

A cada dia que passava, os irmãos compreendiam melhor que a terra que lhes prometeram como esperança havia se transformado em prisão. E mesmo assim, era nessa terra hostil que teriam de lançar raízes, porque não havia retorno possível.

O Peso da Solidão

As famílias italianas, que haviam partido juntas, estavam agora espalhadas pelas planícies. Uns em Rosário, outros em povoados mais distantes. O que antes era proximidade tornou-se dispersão. As vozes que se misturavam na aldeia natal, os rostos conhecidos que dividiam o pão e a esperança durante a travessia, haviam desaparecido na vastidão da terra argentina. Cada família seguia seu próprio destino, separada por léguas de campo, e a ausência dos vizinhos de outrora pesava como um silêncio opressor.

Domenico e Giacomo, acostumados ao convívio da aldeia natal, sentiram na pele a solidão do pampa. Lá, nas colinas de Marche, bastava abrir a porta para encontrar o olhar de um parente ou de um vizinho, ouvir o mugido das vacas no curral ao lado, ou o riso das crianças correndo pela rua de pedra. Ali, em Santa Fé, não havia nada além de horizonte vazio. O silêncio das noites era cortado apenas pelo vento, e esse vento parecia carregar consigo a lembrança daquilo que haviam perdido. Às vezes, deitados em seus catres improvisados, tinham a sensação de que o próprio ar pesava com a distância.

As lembranças da Itália se tornavam mais dolorosas justamente porque eram vivas demais. Cada detalhe surgia com nitidez cruel: o cheiro das uvas esmagadas no lagar, o canto longínquo dos sinos chamando para a missa ao entardecer, o verde das colinas que parecia ondular sob a luz dourada do verão. Eram imagens que ardiam como feridas abertas, pois sabiam que talvez nunca mais as veriam de perto.

As cartas que recebiam — muito raras e incertas — eram como bálsamos em meio à aridez. A chegada de uma carta era um acontecimento que transformava o dia inteiro: mãos trêmulas rasgavam o papel, olhos famintos percorriam cada linha. As palavras escritas à pressa por um pai idoso, por uma irmã distante ou por um amigo de infância, eram como água fresca em garganta ressecada. Mas também traziam dor, pois lembravam que um pedaço deles permanecera preso à aldeia, e que a distância, imensa e quase intransponível, os condenava a viver em dois mundos ao mesmo tempo.

Recordavam os vinhedos de casa, as colinas verdes repletas de oliveiras, o som dos sinos no entardecer. A saudade se misturava ao cansaço dos dias e à dureza da terra que exigia sempre mais. E era nesse cruzamento de lembrança e exaustão que compreendiam sua verdadeira condição: estrangeiros no presente, órfãos do passado, eternamente suspensos entre aquilo que deixaram e aquilo que ainda não haviam alcançado.

O Ciclo das Colheitas

O trigo era a esperança e o tormento dos colonos. Quando crescia dourado e viçoso, o campo parecia anunciar tempos melhores. Mas bastava uma praga, uma geada repentina ou uma estiagem prolongada para que todo esforço se perdesse.

Os irmãos Borteline trabalharam anos sem ver o fruto do próprio suor. Três anos seguidos de colheitas frustradas deixaram-nos apenas dívidas. A mesa oferecia pão escasso, caldo frugal e às vezes um pedaço de carne salgada. As mulheres costuravam roupas com tecidos gastos, e as crianças corriam descalças pelo campo.

Ainda assim, o trabalho não parava. A vida era uma sucessão de amanheceres e noites, sempre iguais, sempre pesados. A cada madrugada, Domenico e Giacomo levantavam-se antes do sol, o corpo cansado e a alma abatida, mas ainda agarrados à esperança teimosa de que o próximo ano seria diferente. A esperança era tudo o que lhes restava — e, paradoxalmente, era também o que mais pesava, porque a cada safra perdida o sonho parecia mais distante.

Quando caminhavam pelos campos ressequidos, viam no trigo murcho não apenas a falência da terra, mas também a ameaça de perder o pouco que construíam. O coração apertava-se diante dos filhos famintos, dos olhares das esposas tentando esconder a angústia para não desanimar os homens. Era um silêncio duro, pesado como chumbo, no qual até as crianças, por vezes, deixavam de brincar.

O trigo, que na Itália evocava fartura e festa nas colheitas, havia se transformado em símbolo de castigo. Cada espiga que murchava era como uma ferida aberta. Mas mesmo na dor, a memória dos campos da aldeia natal surgia como alento: recordavam as ceifas animadas, o cheiro do pão fresco saindo do forno comunitário, o riso dos vizinhos ajudando uns aos outros. Agora, no pampa sem fronteiras, cada família estava sozinha diante de sua luta, e a solidariedade rareava, sufocada pela pobreza.

Os Borteline aprenderam a conviver com a espera. Esperar pela chuva, esperar pela colheita, esperar pelo alívio que nunca vinha. O tempo parecia um círculo fechado, no qual a esperança se confundia com o sofrimento — e a vida seguia, dura, inquebrantável como a própria terra.

As Cartas à Itália

Em meio às dificuldades, os irmãos escreviam cartas aos parentes que haviam ficado na aldeia natal. Nessas páginas derramavam sua dor e suplicavam que não acreditassem nas promessas fáceis de emigração. Contavam da solidão, das dívidas, do preço do arrendamento, das máquinas quebradas. Advertiam que a América não era paraíso, mas terra de sacrifícios. Rogavam que, se alguém ainda pensasse em atravessar o oceano, viesse preparado para uma vida de labuta sem fim. As cartas eram também uma forma de resistir. Ao escrever, sentiam-se menos esquecidos, menos perdidos na imensidão do pampa. Cada palavra era um fio que ainda os ligava à terra de origem, como se ao grafar o nome de sua aldeia conseguissem ouvir o eco dos sinos na praça ou sentir o cheiro do pão assando no forno comunitário. Havia noites em que, à luz fraca da lamparina, Domenico e Giacomo se sentavam lado a lado para rascunhar suas linhas em papéis amarelados, muitas vezes comprados a custo. A pena arranhava o papel devagar, e as palavras saíam carregadas de lágrimas contidas. Não escreviam apenas para informar, mas para clamar: não venham iludidos, não se deixem seduzir pelos agentes que falam de terras fartas e promessas fáceis. A América exige sangue e suor, e dela pouco se recebe em troca. As cartas demoravam meses para chegar, quando chegavam. Às vezes, nunca havia resposta, e a espera tornava-se tortura. Ainda assim, insistiam em escrever. Era como se, naquele gesto, reencontrassem um pedaço de si mesmos. O simples ato de pôr no papel suas dores dava-lhes a sensação de que não estavam totalmente sós. E, no fundo, cada carta também continha um traço de esperança escondida: a de que, um dia, pudessem voltar para a aldeia natal, ou que ao menos sua voz, ainda que distante, fosse ouvida e lembrada.

O Legado

Os anos se sucederam, e os irmãos Borteline envelheceram sob o sol ardente de Santa Fé. Nunca conseguiram comprar terras próprias. Permaneceram presos ao ciclo do arrendamento, vivendo entre dívidas e esperanças. Mas deixaram uma herança invisível. Seus filhos cresceram aprendendo a trabalhar, a resistir, a não se curvar. O que transmitiram não foi riqueza material, mas a dignidade de quem enfrentou a adversidade sem jamais desistir. Sob o céu aberto da Argentina, a vida dos Borteline se confundiu com o pó da terra, com as sementes espalhadas ao vento, com as lágrimas que nunca deixaram de cair. Sua história não foi de abundância, mas de luta. E é nessa luta que repousa a grandeza silenciosa de toda uma geração de emigrantes italianos.

Os cabelos de Domenico embranqueceram cedo, queimados pelo sol e pelo peso dos dias. Ele partiu primeiro, numa tarde quente, depois de uma vida inteira inclinada sobre o arado. Não deixou posses, mas a memória de um homem que jamais abandonou os seus, que resistiu até o último fôlego. Giacomo sobreviveu ao irmão alguns anos, arrastando o corpo cansado pelos mesmos campos que nunca lhe pertenceram. Morreu simples e silencioso, como vivera, deixando atrás de si apenas a marca invisível de quem suportou sem reclamar. Suas sepulturas ficaram em um pequeno cemitério de colônia, entre cruzes de madeira carcomidas pelo tempo. Nenhum monumento se ergueu sobre seus nomes. Mas os descendentes guardaram suas histórias em sussurros e lembranças, como quem segura um fio precioso que não pode se perder.

A geração seguinte já falava castelhano misturado ao dialeto dos avós, frequentava escolas improvisadas e sonhava com horizontes maiores. Alguns deixaram os campos e migraram para as cidades, tornaram-se comerciantes, operários, professores. Outros permaneceram na terra, repetindo o gesto ancestral de semear e colher, mas sempre carregando no coração a lembrança dos que haviam aberto o caminho. Assim, mesmo sem deixar fortunas, Domenico e Giacomo Borteline tornaram-se raízes. Suas vidas, sofridas e silenciosas, sustentaram o tronco e os galhos que vieram depois. Foram homens comuns, mas sua grandeza residia justamente nisso: no esforço contínuo, na capacidade de resistir, no legado de coragem que se transmitiu de geração em geração.

E assim como tantas famílias de emigrantes italianos, os Borteline se tornaram parte inseparável da própria Argentina. Misturaram-se à poeira das estradas, ao trigo dourado do pampa, às canções que embalavam as noites solitárias. Sua história, embora marcada pela dureza, transformou-se em testemunho de perseverança — um testemunho silencioso, mas eterno. 

Nota do Autor

Esta narrativa nasceu da leitura de antigas cartas de emigrantes italianos, documentos carregados de emoção e de verdade. Foram testemunhos escritos há mais de um século, em que homens e mulheres comuns derramaram no papel suas esperanças, seus temores e as dores da vida em terras distantes. Entre as linhas amareladas pelo tempo, encontrei o retrato de uma geração que deixou suas aldeias na Itália, atravessou o oceano e enfrentou a solidão do pampa argentino com uma coragem silenciosa. Os personagens aqui descritos têm nomes alterados. Tomei essa liberdade por respeito aos descendentes que ainda hoje carregam a memória de seus antepassados. Mais do que contar a vida de uma família em particular, busquei dar voz a todos aqueles que compartilharam a mesma experiência — os milhares de emigrantes que, com sacrifício pessoal imenso, ajudaram a erguer a Argentina moderna.

Esta é, portanto, uma homenagem. Não a homens célebres, mas aos anônimos que semearam com suas mãos calejadas o trigo do pampa, que suportaram dívidas e perdas, que criaram filhos entre a dureza e a esperança. Foram eles que, mesmo sem deixar monumentos ou riquezas, construíram as bases humanas, culturais e sociais de um país inteiro. Que ao recordar a história dos irmãos Borteline, recordemos também a grandeza silenciosa de toda uma geração de emigrantes italianos. Eles não vieram em busca de glória, mas de sobrevivência; e ao lutar pela vida, acabaram por deixar à Argentina a herança mais preciosa: sua força, sua dignidade e sua perseverança. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Quando o País Itália Ainda Não Existia e A Verdadeira História por Trás das Origens dos Imigrantes

 


Quando o País Itália Ainda Não Existia e A Verdadeira História por Trás das Origens dos Imigrantes

Poucos brasileiros descendentes de italianos sabem que, quando os primeiros imigrantes desembarcaram no Brasil, a Itália como país tinha apenas 9 anos de existência. Até 1866, a península não era uma nação unificada, mas um conjunto de Estados independentes, cada qual com governo, leis, cultura e línguas próprias. Somente a partir da unificação — e após o conturbado plebiscito que anexou o Vêneto — passou a existir oficialmente o Reino da Itália, governado pela Casa de Savoia, originária do Piemonte.

Antes da Unificação: Uma Península Fragmentada

Durante o século XVIII, o território hoje conhecido como Itália era composto por diversos Estados soberanos, entre eles:

  • Reino da Sardenha

  • Reino de Nápoles

  • Estado da Igreja

  • Ducado de Milão

  • Sereníssima República de Veneza

Cada um possuía identidade distinta, com tradições, economias e línguas muito diferentes entre si. Não havia um sentimento nacional italiano — ele sequer faria sentido naquele contexto.

O Risorgimento e o Nascimento da Itália

No século XIX, iniciou-se o longo processo de unificação chamado Risorgimento, celebrado na Itália em 17 de março. Após guerras e mobilizações políticas, formou-se o Reino da Itália, considerado concluído somente em 1866, quando o Vêneto foi anexado após um polêmico e manipulado plebiscito. Pesquisadores apontam irregularidades profundas, como detalha o livro “1866 – La Grande Truffa”, de E. Beggiato.

A unificação coincidiu com um momento dramático: fome, miséria, crise agrícola e desemprego devastavam tanto o Norte quanto o Sul, alimentando o início da emigração em massa para a América.

Os Imigrantes Não Falavam Italiano

Os antepassados que chegaram ao Brasil a partir de 1875 não sabiam italiano, porque:

  1. O italiano não existia como língua nacional até a unificação.

  2. As populações se identificavam pela província, não pela nacionalidade “italiana”.

  3. Cada região falava seu dialeto próprio, muitos deles línguas inteiras com estrutura própria, como o vêneto.

Quando o novo Estado precisou definir um idioma, adotou-se o toscano literário, usado por Dante, Petrarca e Boccaccio. Assim, o “italiano” foi uma língua oficial imposta de cima para baixo — e desconhecida da maioria dos emigrantes.

O Vêneto, a Crise e o Êxodo para o Brasil

A anexação do Vêneto agravou ainda mais a crise econômica local, acelerando o colapso rural e a fuga de milhões de pessoas. O êxodo tornou-se uma válvula de escape para evitar uma possível guerra civil. O peso dessa transformação recaiu sobre os agricultores pobres do Norte e do Sul.

A maioria dos emigrantes era semianalfabeta, e seus dialetos — sobretudo após a queda da Sereníssima República de Veneza em 1797 — quase já não eram escritos. Mesmo assim, eram portadores da rica herança cultural de uma das mais poderosas repúblicas marítimas da história.

Milhares desses vênetos vieram para o Brasil, estabelecendo-se principalmente no Rio Grande do SulSanta CatarinaEspírito Santo, além de São Paulo e Minas Gerais, onde foram destinados às fazendas de café após a abolição da escravidão.

O Nascimento do Talian no Brasil

A língua vêneta, com grande diversidade interna, era o idioma da maioria dos imigrantes do Sul. No convés dos navios, eles já percebiam a dificuldade de comunicação entre dialetos distintos. No isolamento das colônias gaúchas, surgiu então uma nova língua: o Talian.

Criado a partir da mistura dos dialetos vênetos e influências de outras regiões, o Talian se consolidou como uma língua própria, rica e melodiosa. Como mais de 50% dos imigrantes do RS eram vênetos, o vêneto exerceu influência dominante na formação do novo idioma.

Hoje, o Talian e o vêneto italiano são totalmente compreensíveis entre si, embora tenham evoluído de formas diferentes:

  • O Talian incorporou palavras e construções do português ao longo de 140 anos.

  • O vêneto europeu recebeu forte influência do italiano contemporâneo.

Para muitos descendentes, o Talian é a verdadeira língua mãe.

A Presença Atual do Talian no Brasil

O Talian permanece vivo:

  • mais de 1 milhão de brasileiros falam fluentemente,

  • outro tanto o compreende,

  • há escolas, programas de rádio e escritores dedicados ao idioma,

  • existem mais de 100 livros publicados em Talian, além de dicionários,

  • a obra clássica “Vita e Stòria de Nanetto Pippeta” (1924) é seu marco literário.

Peças de teatro também são encenadas nessa língua, que hoje é considerada a segunda língua mais falada do Rio Grande do Sul, depois do português.


Nota do autor

Este texto foi escrito com o objetivo de esclarecer um ponto essencial sobre a origem dos imigrantes italianos no Brasil: muitos deles partiram de uma península fragmentada, em um período em que a Itália ainda não existia como país unificado. Ao abordar o Risorgimento, a anexação do Vêneto, a crise econômica e o surgimento do Talian no Brasil, busco aproximar os descendentes de italianos de sua verdadeira história familiar, mostrando que seus antepassados se identificavam sobretudo com suas regiões, dialetos e comunidades locais.

Mais do que narrar dados históricos, procuro valorizar a formação cultural desses imigrantes, explicar por que eles não falavam italiano padrão e destacar como o contato entre diferentes dialetos deu origem a uma nova língua viva no Brasil. A intenção é contribuir para o entendimento das raízes vênetas e italianas, da trajetória migratória e do impacto desse processo na identidade de milhões de brasileiros. Este trabalho não pretende esgotar o tema, mas incentivar a pesquisa, a preservação do Talian e o reconhecimento da verdadeira diversidade que marca a história da imigração italiana no Brasil.

Dr. Luiz C: B. Piazzetta



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Sob os Pinheiros do Novo Mundo e a Emigração Italiana de Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli ao Brasil (1878)


Sob os Pinheiros do Novo Mundo

A Emigração Italiana de Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli ao Brasil (1878)

Quando Domenico Rampallo deixou Stroppare, na planície pobre de Albettone, não partiu apenas de uma aldeia: afastou-se de um mundo que já não o comportava. A pequena localidade vêneta, cercada por campos arrendados e casas de pedra baixa, era o cenário de uma repetição secular de fadiga e escassez. A terra, esgotada por gerações de mãos camponesas, dava cada vez menos, enquanto exigia sempre o mesmo esforço brutal.

Domenico crescera ali, como seu pai e seu avô, sob contratos injustos, colheitas incertas e a humilhação silenciosa de trabalhar o que jamais seria seu. Giuseppina Novelli, de Ponte de Barbarano, trazia história semelhante: família numerosa, mesas sempre apertadas, futuro estreito. Aprendera cedo que o destino das mulheres camponesas era resistir — primeiro na casa do pai, depois na do marido.

Casaram-se na igreja de Santa Maria Assunta, em Barbarano, algumas semanas antes da partida. Não houve tempo para a ilusão de um lar recém-formado. O matrimônio foi mais um pacto de sobrevivência do que celebração. Sob a bênção antiga da igreja, prometeram-se não apenas amor, mas resistência — algo que nem sabiam ainda o quanto lhes seria exigido.

A viagem até Gênova foi, para ambos, a primeira ruptura concreta com o mundo conhecido. A cidade portuária, ruidosa e impessoal, acolhia diariamente milhares de destinos interrompidos. O Città di Milano aguardava no cais como um gigante de ferro e vapor, pronto para engolir vidas.

No porão do navio, Domenico e Giuseppina perderam rapidamente a noção de individualidade. Homens, mulheres e crianças eram reduzidos a corpos em trânsito. O ar tornava-se irrespirável à noite; os dias, longos e indistintos. O mar, ora benigno, ora cruel, ensinava que a travessia não era metáfora — era prova.

Em Nápoles, o navio inchou ainda mais de humanidade: mais de 550 emigrantes do sul da Itália embarcaram, trazendo consigo dialetos ásperos, gestos dramáticos e uma miséria ainda mais profunda. O Città di Milano transformou-se num microcosmo da Itália falida: norte e sul unidos não por ideais, mas pela expulsão.

Os trinta dias de viagem foram um lento processo de despojamento. Muitos adoeceram. Alguns morreram. Outros perderam a capacidade de imaginar o retorno. Giuseppina, frequentemente nauseada, mantinha-se firme, apoiada no silêncio concentrado de Domenico, que começava a compreender que o homem que chegaria ao Brasil já não seria o mesmo que partira do Vêneto.

O Rio de Janeiro surgiu envolto em calor, montanhas abruptas e uma vegetação que parecia crescer sem limites. Permaneceram três dias na Hospedaria de Emigrantes, um lugar de espera e vigilância, onde eram contados, examinados e redistribuídos como força de trabalho. Ali, o Brasil não era promessa nem ameaça — era incógnita.

O vapor Maranhão conduziu-os ao longo da costa. Em Santos e Paranaguá, despediram-se de companheiros que jamais tornariam a ver. Cada parada era uma fratura no grupo, um destino que se separava para sempre.

No porto de Rio Grande, encontraram o frio, o vento e barracões improvisados. A travessia ainda não havia terminado. Restava o trecho mais cruel: o interior. Até Montenegro, seguiram por rios e caminhos incertos. Dali, a pé. Homens e crianças maiores avançavam sobre trilhas lamacentas; grávidas, idosos e pequenos eram transportados em carroças puxadas por mulas, rangendo sob o peso da exaustão humana.

Quando chegaram ao lote destinado à Colônia Caxias, a realidade impôs-se sem mediações. Cinquenta hectares de floresta cerrada, dominada por pinheiros colossais, erguiam-se diante deles como uma muralha natural. Árvores que desafiavam a compreensão de quem viera de campos abertos e colinas domesticadas.

Antes de qualquer construção, a sobrevivência exigiu improviso. Encontraram abrigo no oco de um enorme embu, uma árvore tão vasta que parecia guardar dentro de si a memória da floresta. Ali viveram quase uma semana, protegidos da chuva, do vento e do medo noturno. Alimentavam-se do parco auxílio governamental e dos pinhões, abundantes e nutritivos, recolhidos no chão da mata.

A cabana de paus e barro nasceu lentamente, erguida mais por teimosia do que por técnica. Cada árvore derrubada era uma batalha vencida; cada noite superada, uma pequena fundação.

Naquele silêncio verde, Domenico compreendeu que não estava apenas abrindo clareira na floresta, mas inaugurando um futuro. Giuseppina, com mãos calejadas e olhar endurecido, transformava a precariedade em ordem possível. O Brasil não os acolheu com gentileza — mas lhes ofereceu algo que a Itália negara: a possibilidade de permanecer.

Assim começou a história dos Rampallo no Novo Mundo — não como epopeia heroica, mas como a lenta e obstinada construção da dignidade humana. 

Nota do Autor

Esta narrativa é parte de uma obra de ficção histórica. Embora esteja ancorada em contextos, rotas migratórias e circunstâncias amplamente documentadas da Grande Emigração Italiana do século XIX, os nomes das personagens, os vínculos familiares e as localidades mencionadas são criações literárias, utilizadas como recursos narrativos para dar forma humana a uma experiência coletiva.
Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli não representam indivíduos históricos identificáveis, mas símbolos de milhares de homens e mulheres reais que, entre as décadas finais do oitocento, deixaram aldeias do Vêneto, da Lombardia, do Piemonte e do sul da Itália, atravessaram o Atlântico em condições adversas e enfrentaram a floresta, o isolamento e a incerteza nas colônias agrícolas do sul do Brasil.
Os episódios descritos — a travessia marítima, a hospedagem nas casas de imigrantes, o deslocamento interno, o impacto da mata virgem e a precariedade inicial — refletem experiências recorrentes e historicamente verificáveis, mas são aqui reelaborados literariamente, sem pretensão documental ou genealógica.
O objetivo desta obra não é reconstituir trajetórias individuais com exatidão factual, mas resgatar a dimensão humana, emocional e moral da emigração, muitas vezes ausente dos registros oficiais. Ao recorrer à ficção, busca-se revelar uma verdade mais profunda: a de um povo deslocado pela pobreza, forjado pelo trabalho e unido pela esperança silenciosa de permanência.
Que o leitor compreenda este texto como um exercício de memória simbólica, uma homenagem àqueles que não deixaram cartas, fotografias ou nomes gravados na história, mas que ainda vivem no idioma, nos costumes e na paisagem humana do sul do Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


domingo, 28 de dezembro de 2025

A Caminho da Terra Prometida


Caminho da Terra Prometida
Da incerteza em Marselha à conquista de um pedaço de chão no interior do Brasil – 1877

O porto de Marselha, naquela manhã úmida e enevoada de novembro de 1877, parecia mais uma ferida aberta no fim do mundo do que o começo de uma esperança. As brumas espessas se arrastavam preguiçosamente sobre os trilhos ainda mornos, enquanto os guinchos metálicos dos guindastes e os apitos roucos dos navios cortavam o silêncio como lamentos de uma terra que não abraçava, apenas engolia.

Lorenzo Benedette desceu do trem com passos lentos, como se cada movimento fosse arrastado por um peso invisível. Usava a mesma roupa puída que vestira ao deixar Sant’Andrea, na província de Padova: um paletó surrado demais para esconder o frio, um chapéu deformado pela chuva e pela esperança, e nos olhos semicerrados, não apenas pela fumaça das chaminés do cais, mas também por uma mistura de cansaço, medo e decisão.

Partira porque não havia mais escolha. A unificação da Itália, que prometera progresso, trouxera apenas desilusão para os campos. O pão rareava nas mesas. O trabalho minguava com a mecanização das grandes propriedades. O novo governo, distante e implacável, aumentara os impostos até tornar impossível a vida dos pequenos lavradores. A carestia, a fome e o desemprego não eram mais ameaças futuras: eram presenças diárias, que batiam à porta como velhas conhecidas. Em Sant’Andrea, cada família conhecia alguém que havia partido. E agora chegara a vez de Lorenzo.

Aquilo que lhe haviam descrito como o portal para um futuro promissor não tinha brilho algum. Nenhum perfume de promessas. Nenhuma aura de renascimento. O que havia era o cheiro salgado do mar misturado à ferrugem das grandes caixas de ferro, ao suor de operários famintos, à madeira úmida das docas e ao odor acre de centenas de corpos amontoados, cada um carregando no peito uma versão do mesmo desejo: partir. Partir para qualquer lugar onde o pão não fosse racionado e a dignidade não precisasse se ajoelhar.

Ali, sob o céu opaco de Marselha, Lorenzo compreendeu que a travessia já havia começado — não no oceano, mas no espírito. E que o caminho até o tal “Novo Mundo” seria, antes de tudo, um lento desprender-se daquilo que, até então, definira quem ele era.

Ele não vinha sozinho. Ao seu lado, como uma extensão de sua própria determinação, estava Giulia — a esposa de mãos calejadas e olhar cansado, que carregava nos gestos a mesma força silenciosa com que sustentara, por anos, a família nos campos áridos de Sant’Andrea. Os ombros dela, arqueados pelo esforço, sustentavam um embrulho modesto: algumas mudas de roupa, cuidadosamente dobradas, e um pedaço de pão já duro, guardado como se fosse reserva de esperança para a travessia.

Atrás deles, dois pequenos mundos caminhavam com passos incertos. Matteo, o mais velho, de olhar curioso mas assustado, tentava compreender por que as vozes ao redor falavam uma língua que soava áspera e estrangeira. Rosa, a menor, agarrava a barra do vestido da mãe, segurando firme como se aquele pedaço de tecido fosse âncora contra um mar de rostos desconhecidos.

Nas mãos de Lorenzo, um maço de papéis envolto em barbante — as cartas oficiais do prefeito de Sant’Andrea. Eram mais do que folhas carimbadas; carregavam a tinta de uma promessa feita à distância: transporte seguro até o Brasil e, ao final, um pedaço de terra própria. Um sonho que, para muitos na vila, parecia tão vasto e inalcançável quanto o próprio oceano que eles estavam prestes a enfrentar.

Mas o navio que os aguardava não era o que lhes haviam descrito. O cargueiro a vela, encostado ao cais, era velho, escuro, e exalava um cheiro de peixe rançoso. “Apenas alguns dias de espera”, disseram-lhes os agentes, “até que chegue a embarcação certa”. Lorenzo sabia, pela inquietação que se espalhava entre os outros emigrantes, que a espera poderia ser muito mais longa. Quatro dias se passaram. Nenhuma vela nova apareceu no horizonte.

O grupo de mais de trezentas pessoas, amontoado nos galpões do porto, vivia de sardinhas salgadas e pão duro. As mães tentavam acalmar crianças febris. Os homens, de rostos tensos, discutiam entre si e com os representantes da companhia. Um boato cresceu: talvez não houvesse mais navio para o Brasil naquele mês. Talvez a promessa não passasse de engano — ou de fraude.

Numa tarde fria, Lorenzo procurou papel e tinta emprestados. Precisava escrever a Sant’Andrea. Não para pedir ajuda por orgulho, mas porque já não via outro caminho. Dirigiu a carta ao cunhado, Pietro, e ao velho prefeito que havia jurado protegê-los. Contou-lhes sobre o abandono, sobre o medo de serem deixados à própria sorte numa cidade estrangeira, sem dinheiro, sem amigos, sem a língua para se defender. Suplicou que intercedessem junto às autoridades e que, se possível, enviassem recursos para tirá-los daquela situação. Cada palavra era um pedaço de dignidade arrancada de si mesmo.

Enquanto a carta seguia para a Itália, os dias em Marselha arrastavam-se. Um casal do Trento perdeu um filho para a febre. Uma família de Treviso decidiu desistir e tentar voltar à aldeia — mas não havia como. A maioria estava presa ali, refém de um sistema cruel que tratava gente como carga de descarte.

Foi apenas no vigésimo dia que um novo navio atracou. Chamava-se San Michele. Não era muito melhor que o anterior, mas era a única esperança. Os emigrantes embarcaram sob chuva fina. Lorenzo, com Giulia e os filhos, subiu a rampa de madeira com passos trêmulos. Ao olhar para trás, viu a silhueta cinza de Marselha desaparecer lentamente. Naquele momento, fez um juramento silencioso: não importava o que encontrasse no Brasil, nunca mais voltaria a depender de promessas vazias.

A travessia foi longa, marcada por tempestades e enfermidades. Mas, ao cabo de dois meses, o San Michele ancorou em Santos, depois de passar pelo porto do Rio de Janeiro onde os imigrantes foram examinados e receberam os papéis de permanência. Dali, a viagem continuou por trem, através de trilhas de terra até o interior de São Paulo. Foi em Araraquara que Lorenzo e Giulia encontraram um pedaço de chão — pequeno, íngreme, cheio de pedras — que podiam chamar de seu.

Os anos que seguiram não foram fáceis. O solo, ingrato, exigia mais suor do que Lorenzo imaginara. Mas, pela primeira vez, o grão que germinava era dele. As mãos calejadas que colhiam milho, feijão e café não obedeciam mais a ordens de patrões. Cada amanhecer era duro, mas era livre.

Nas noites tranquilas, Lorenzo contava aos filhos maiores sobre Marselha, sobre a carta, sobre o medo de não chegar. Matteo e Rosa ouviam em silêncio, como se guardassem um segredo de família. E Lorenzo sempre terminava da mesma maneira:

— Foi naquele porto que aprendi que a esperança é como uma vela no mar. Pequena, frágil… mas capaz de atravessar oceanos inteiros.

E assim, entre pedras e raízes, construiu não apenas sua lavoura, mas o futuro de uma geração inteira.


Nota do Autor

Esta narrativa nasceu de uma carta escrita em novembro de 1877, a partir do porto de Marselha, por um emigrante italiano que, preso entre promessas quebradas e a incerteza da viagem, suplicava ajuda à sua família e à sua comunidade para não ser abandonado longe de casa.

Os nomes, lugares e detalhes pessoais foram alterados, mas a essência do drama humano permanece fiel: a solidão de quem deixa a terra natal, o medo de não chegar ao destino, a força silenciosa necessária para continuar mesmo quando todas as garantias desaparecem.

Transformar esta carta em história é, antes de tudo, um ato de resgate. Não apenas para preservar a memória de um homem, mas para dar voz a milhares de outros que viveram experiências semelhantes — homens e mulheres que, empurrados pela necessidade, cruzaram oceanos e suportaram privações inimagináveis em busca de dignidade e futuro.

Ao narrar a trajetória de Lorenzo Benedette, ofereço aos descendentes desses emigrantes pioneiros um fragmento do que poderia ter sido a vida de seus avós, bisavós e tataravós. Que esta história sirva de homenagem a todos eles — e lembrete de que cada pedaço de terra conquistado aqui no Brasil carrega, em silêncio, o peso de mares revoltos e promessas feitas do outro lado do Atlântico.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sábado, 20 de dezembro de 2025

A Epopeia da Emigração Vêneta: A Saga dos Italianos no Sul do Brasil e na América


A Epopeia da Emigração Vêneta

A saga dos italianos no sul do Brasil e na América

de Giovanni Meo Zilio

A primeira emigração organizada com partida do Vêneto (em boa parte da província de Treviso e, em menor medida, da Lombardia e do Friuli) remonta a 1875. De fato, a partir daquele ano começaram a chegar ao Brasil — nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo e, sobretudo, na chamada “zona de colonização italiana” situada no Nordeste do primeiro estado, que hoje tem como centro econômico, comercial e cultural a florescente cidade de Caxias do Sul, com cerca de 500.000 habitantes: milagre de desenvolvimento e modelo de “um outro Vêneto” transplantado e crescido além-oceano. A isso devem ser acrescentadas outras correntes emigratórias, sobretudo para a Argentina e o Uruguai, onde muitos italianos já estavam presentes antes, e, em menor medida, para países menores como o México.

As principais causas do fenômeno emigratório foram, como é sabido, a miséria e a marginalização das classes rurais da época, quando não a própria fome, juntamente com o sonho da propriedade da terra por parte de nossos camponeses (então verdadeiros “servos da gleba”), muitas vezes enganados por propagandas falaciosas e interesseiras, favorecidas, por sua vez, pela ignorância misturada à esperança, que é sempre a última a morrer. Mas deve-se levar em conta também aquele espírito irreprimível de aventura, aquela atração pelo novo e pelo distante que sempre agiu sobre a humanidade e que frequentemente é negligenciado pelos historiadores da emigração.

A travessia atlântica naquela época (no fundo dos porões) foi, por si só, uma epopeia que ainda está presente na memória coletiva, transmitida em episódios comoventes nas lembranças dos velhos e na copiosa literatura popular, sobretudo vêneto-brasileira (cantos, poesias, relatos), que, a partir das celebrações do centenário da primeira emigração “in loco” (1975), explodiu aqui e ali também em formas estilisticamente relevantes. Do mesmo modo, permanece na memória coletiva a epopeia das inenarráveis condições de chegada e de instalação e as lutas da primeira geração para desmatar a montanha com as próprias mãos, para se defender dos animais ferozes, das serpentes, dos índios, das doenças, para construir do nada estradas e habitações, para enfrentar continuamente o medo que se tornava uma obsessão…

Esta história de ilusões e sofrimentos, de heroísmo e humilhações, esta “história interna” da nossa emigração, que representa o reverso da história externa da qual mais se ocuparam os estudiosos, ainda está toda por ser aprofundada.

No que diz respeito ao sul do Brasil, que pode ser considerado emblemático, um primeiro grupo de emigrantes chegou, depois de peripécias e sofrimentos indescritíveis, àquele lugar que hoje se chama Nova Milano, nas proximidades de Caxias do Sul. Do porto de Porto Alegre eles prosseguiam em barcaças ao longo do rio Caí e depois a pé, por quilômetros e quilômetros, através da selva, com as poucas ferramentas e pertences nas costas, abrindo caminho à força de “facão”, até alcançar as terras que lhes haviam sido atribuídas, bem no meio da floresta, ao norte dos territórios planos e mais férteis ocupados pela emigração alemã cinquenta anos antes. Pode-se imaginar o custo humano de tudo isso, depois de terem cortado as pontes atrás de si, vendendo seus poucos haveres antes de partir da Itália.

Os vestígios da primeira colonização ainda podem ser vistos hoje em muitos nomes de lugares, como a citada Nova Milano, Garibaldi, Nova Bassano, Nova Brescia, Nova Treviso, Nova Venezia, Nova Padua, Monteberico…; enquanto outros, como Nova Vicenza e Nova Trento, mudaram posteriormente seus nomes originais para os nomes brasileiros de Farroupilha e Flores da Cunha, em períodos caracterizados por xenofobia. Tal xenofobia do governo central chegou ao ponto de que, nos anos da última guerra, àqueles nossos imigrantes que não sabiam falar o brasileiro, foi proibido (sob pena de prisão) falar a sua língua vêneta, com as consequências morais que é fácil imaginar, além das dificuldades práticas (que muitas vezes desembocavam no tragicômico!) que tudo isso produziu entre aquela pobre gente marginalizada a quem se tirava até mesmo a palavra…

Trata-se, de qualquer modo, de um fenômeno imponente — no Brasil como na Argentina — tanto pela extensão, quanto pela população (da ordem de milhões de descendentes), quanto pela homogeneidade e vitalidade — o qual por mais de um século foi negligenciado, quando não ignorado, pelo governo italiano e por suas instituições.

A imensa maioria das primeiras correntes imigratórias era composta por camponeses que implantaram no novo território as culturas e os métodos agrícolas típicos de suas zonas de proveniência (aos quais se acrescentaram artesãos e comerciantes). A cultura que se impôs sobre as outras foi a da videira, com a consequente industrialização do vinho e dos outros derivados da uva, que ainda hoje representam a maior fonte de riqueza do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, que abastece todo o Brasil.

Percorrendo o campo ainda se encontram vivos certos antigos instrumentos (entre nós já quase desaparecidos) da agricultura do século XIX e da vida doméstica de então (em Nova Padua, nas proximidades de Caxias, o monumento ao imigrante, na praça do povoado, é representado solenemente por uma verdadeira “caldeira da polenta” sobre um imponente pedestal). A alimentação no campo ainda é substancialmente a tradicional do Vêneto, à qual se acrescentou o autóctone e indispensável “churrasco” (carne na brasa).

A religião é ainda intensamente seguida e sentida, também porque o clero católico e a organização religiosa acompanharam, desde o primeiro momento, o destino dos emigrantes. Basta pensar que as “capelas” foram até hoje os principais centros comunitários na “colônia” (leia-se campo), não apenas religiosos, mas também de organização social e cultural, e que ao redor delas foram se formando gradualmente as paróquias e os municípios. Em anos recentes, nas aldeias onde não havia um pároco estável, podia-se assistir a cenas, para nós inacreditáveis, como a da população reunida em um galpão que servia de igreja, para celebrar os ritos religiosos sem nenhum sacerdote e sob a orientação daquele que é chamado “padre leigo”, com a participação ativa e solene dos anciãos do lugar.

Quem vive em “colônia”, e conservou em sua maioria o ofício e as tradições dos primeiros emigrantes, até pouco tempo atrás ainda era considerado como marginalizado e visto com suficiência inclusive pelos próprios descendentes de vênetos que habitavam as grandes cidades. Apenas há algumas décadas, desde que foram retomados os contatos efetivos com a Itália, está despertando e se estendendo uma consciência positiva das próprias origens (não mais mito opaco e distante a ser esquecido), com um impulso para reencontrar a identidade histórica: uma busca, muitas vezes comovente, das próprias fontes para restabelecer aquele “cordão umbilical” que havia sido cortado havia mais de 100 anos.

O fenômeno mais imponente dentro desta “história de imigrantes sem história”, como alguém a definiu melancolicamente, é a manutenção, após um século, da própria língua de origem (o vêneto), em nível familiar, interfamiliar e, em determinadas ocasiões (festas, comemorações, jogos, reuniões conviviais, etc.), também em nível comunitário; com um grau de vitalidade e de conservação, no campo, que muitas vezes supera até mesmo aquele do Vêneto da Itália que, como se sabe, ainda está bem enraizado entre nós. Trata-se daquilo que os dialetólogos chamam de “ilha linguística”, relativamente homogênea, onde a língua vêneta acabou triunfando sobre o lombardo e o friulano, estendendo-se como uma “koiné” intervêneta dentro de um contexto heterofônico (o luso-brasileiro). Isso nos permite reconstruir, como “in vitro”, após três ou quatro ou até mais gerações, a língua dos nossos avós e bisavós, sobretudo nos aspectos orais não documentados, como a pronúncia e a entonação, ou o uso de certos provérbios, modos de dizer, cantos da época. Assim, através da história das palavras (as conservadas, as alteradas e as substituídas) podemos reconstruir alguns recortes da história (muitas vezes comovente) daquelas comunidades. Ela, por sua vez, representa um vislumbre dramático e apaixonante da história da Itália e da história do Brasil.

Quem escreve estas linhas é um velho emigrante que experimentou pessoalmente aquilo que muitas centenas de milhares de compatriotas viveram: testemunha direta da situação de quantos, no imediato pós-guerra, atravessaram o oceano amontoados no porão de velhos navios Liberty, restos de guerra, dormindo em beliches de quatro ou cinco camas dispostas verticalmente, com um calor incrível e em condições infernais de promiscuidade. Ele percorreu as Américas de ponta a ponta por muitos anos, desde os áridos planaltos do México até a desolada Patagônia argentina. Por muitos anos na condição de emigrante e depois como estudioso e pesquisador. Como tantos outros emigrantes, viveu na própria carne o drama do transplante, a mortificação dos afetos, a ânsia de tantas ilusões, o naufrágio de tantas esperanças. Não ignora, portanto, ao lado da dimensão histórica do fenômeno migratório, a dor, a fadiga e a coragem que o acompanharam, também porque ele próprio começou de baixo — como se costuma dizer — realizando trabalhos manuais de sobrevivência. Mas a sua história pessoal é pouca coisa diante da história geracional de nossas comunidades, que viveram, sobretudo no imenso Brasil, uma epopeia inenarrável de lutas, sacrifícios, em condições de vida infra-humanas (principalmente as primeiras gerações); epopeia transmitida oralmente (porque na maioria dos casos se tratava de gente que não sabia ler nem escrever) de pai para filho, melhor, de mãe para filha, porque as mulheres, como sempre, são as depositárias das tradições mais vitais e essenciais.

As primeiras gerações enfrentaram, como foi dito, sacrifícios inenarráveis, abandonadas nas florestas; sem Lares e sem Penates, isto é, sem casa e sem família, obrigadas a sobreviver em condições dramáticas. Até sem a palavra, como foi dito acima: sem a palavra não há identidade, não há comunidade nem comunicação, portanto não há vida que possa ser chamada de humana. Mas eles resistiram com os dentes cerrados, com dignidade e coragem, apesar das humilhantes e ardentes condições de inferioridade.

Não só no Brasil, mas também na Argentina e em outros lugares, sobretudo os vênetos, os lombardos e os friulanos, os chamados “polentões” (lembre-se que “polenta”, no rioplatense popular, passou a significar força, coragem), juntamente com os sólidos piemonteses e os industriosos e parcimoniosos genoveses, ofereceram, com as luzes e sombras naturais em todas as coisas humanas, uma contribuição de progresso ao país que os acolheu. Eles conservaram no coração, desde o último quarto do século passado, o sonho e o mito da pátria-mãe, da mãe-madrasta que os abandonou por mais de cem anos. Eles, porém, continuaram a recordá-la e a sonhá-la nos intermináveis “filós” dos estábulos camponeses, na comovida e discreta intimidade familiar, nas emocionadas reuniões comunitárias, nas humildes preces cotidianas.

Através das gerações conservaram, de forma incrível, sua língua, os usos, os costumes, os ritos, as festas, as danças, os jogos (o tresette, as bochas, a mora, a “cuccagna”). Jogos temperados com certas expressões nossas, já não mais blasfemas, porque eufemizadas, como “Ostrega!”, “Ostregheta!” ou “Sacramenta!”. Ainda se ouvem os cantos comunitários de outrora, que em grande parte nós perdemos, e que os ajudaram moralmente a viver, a sobreviver: nos lugares mais perdidos. Nas praças de alguns povoados encontramos, como monumentos, além da “caldeira” da polenta, como já dito, a carroça ou o carrinho de mão, a gôndola veneziana, o leão de São Marcos (inclusive o símbolo do Município de Octavio Rocha, no Rio Grande do Sul, representa o leão de São Marcos que segura firmemente na pata o cacho de uva em vez do livro tradicional!).

Aquelas pessoas, com o saco às costas (com a mala de madeira em uma segunda fase e de papelão em uma terceira), desde o século passado aliviaram nossa pressão demográfica, prestaram um serviço histórico à Itália, aliviaram-nos da fome, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, com suas remessas, e hoje compram em primeiro lugar produtos italianos e, assim, fortalecem o comércio e a economia do nosso país. Estima-se em mais de 100.000 bilhões o impacto econômico proveniente da colaboração dos nossos emigrantes.

Esse povo é sangue do nosso sangue, gente que sofreu moral e materialmente a marginalização secular e da qual também temos algo a aprender ou reaprender: aqueles valores que hoje, em grande parte, se vão esquecendo.

A Itália, hoje, não pode deixar de honrar a sua dívida secular, histórica, moral e política.

Nota 

Era o mês de Dezembro do ano de 1996 quando, por uma semana, o Prof. Meo Zilio foi hóspede em minha casa, ocasião em que eu o levava todos os dias às casas dos antigos descendentes, para suas visitas e entrevistas.
Nesse período ele me presenteou com este seu artigo, ainda na época inédito ou quase em publicação, não me recordo bem. Conservo-o até hoje como uma bela lembrança do professor amigo.
Para recordá-lo, decidi hoje recolocá-lo neste blog, texto traduzido do italiano mas mantendo a sua forma original.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O Último Porto: A travessia de Domenico Del Muschio

 


O Último Porto 

A Travessia de Domenico Del Muschio

Buenos Aires, 2 de abril de 1883.

A emigração italiana no final do século XIX

O dia nascia úmido sobre o Rio da Prata. Um vento frio descia das águas largas e cinzentas, arrastando o cheiro de carvão, maresia e esperança. Naquela manhã, Domenico Del Muschio, com vinte e seis anos e a alma envelhecida pela miséria, entendeu que já não havia retorno possível. O mundo de antes — as colinas verdeadas de Castelfranco Veneto, o sino que marcava o meio-dia, o olhar cansado da mãe à soleira da porta — ficara para sempre do outro lado do oceano.

A partida de Castelfranco Veneto

Partira em 14 de março, quando o inverno europeu ainda se agarrava aos telhados e o vento trazia o gosto amargo da pobreza. Levava consigo uma pequena mala de madeira de pinheiro, duas mudas de roupa, um rosário e uma carta do pároco que o recomendava “como homem de boa conduta e disposição para o trabalho”. Ao embarcar em Gênova, olhara pela última vez para o porto, sem saber se aquele adeus seria definitivo.

A travessia do Atlântico a bordo do navio Italia

O navio Italia partira às duas da tarde. No convés, uma multidão de rostos pálidos, famílias inteiras, crianças agarradas às saias das mães e velhos de chapéu na mão. 

O oceano como prova e transformação

No primeiro dia, o mar fora um espelho azul e sereno, e os emigrantes, embriagados pela ideia de um novo mundo, cantavam hinos e baladas de suas aldeias. Mas dois dias depois, o Atlântico se revoltara. Ondas de seis metros varriam o convés, o vento rugia como uma fera, e muitos rezavam ajoelhados, certos de que jamais veriam a terra firme.

Domenico aguentou firme, sustentando um companheiro com náuseas e ajudando uma mulher a segurar o berço improvisado do filho. Quando, após quarenta e oito horas, o mar enfim se acalmou, a bordo surgiu um estranho sentimento de fraternidade: eram todos sobreviventes.

Buenos Aires: o primeiro contato com a América

O navio atracou em Montevidéu no dia 29 de março. O ar da América do Sul parecia mais leve, o céu, mais alto. Dali seguiram para Buenos Aires, e quando a cidade surgiu no horizonte — uma sucessão de torres, cais e fumaça —, Domenico teve a impressão de que o próprio destino o chamava.
Ecco l’America...”, murmurou um velho paduano ao seu lado.
Domenico não respondeu. Apenas fixou o olhar na linha do porto, como se buscasse ali um sinal divino de que sua travessia não fora em vão.

O Hotel de los Inmigrantes e a espera pelo destino

Foram recebidos pelo Comitê de Imigração que os levaram a um enorme galpão onde dormiram três noites sobre colchões de palha. O ar cheirava a suor, sal e desesperança. Homens tossiam, crianças choravam, e as mulheres improvisavam orações nas línguas de suas aldeias. No terceiro dia, foram conduzidos ao Hotel de los Inmigrantes, um edifício sólido, de janelas altas e paredes caiadas. Ali, pela primeira vez em semanas, Domenico comeu pão fresco e carne quente.

Buenos Aires era uma cidade desmedida. As ruas largas, as carruagens barulhentas, as vitrines francesas, os cabarés e os sinos formavam uma sinfonia de excessos. Nada lembrava a Itália. A cada esquina, ele via um pedaço de mundo diferente: espanhóis que gritavam nos mercados, ingleses que dirigiam ferrovias, crioulos de olhar atento, italianos que vendiam frutas ou puxavam carroças. Tudo pulsava, mas nada lhe pertencia.

Do porto à terra: a colonização agrícola em Córdoba

Nos dias seguintes, tentou arranjar trabalho. As promessas eram muitas — nos campos de trigo de Santa Fé, nas fazendas de Córdoba, nas linhas férreas que cortavam o interior. Mas o dinheiro da passagem ainda era uma dívida, e cada oferta trazia o peso da incerteza. Alguns companheiros já haviam partido; outros se rendiam à nostalgia e sonhavam com o retorno impossível.

A vida do colono e a construção de um lar

Domenico escrevia cartas todas as noites, mesmo quando não havia papel suficiente. Nelas, contava à família que estava bem, que o mar fora generoso e o navio, seguro; que os marinheiros eram gentis e os dias alegres, ainda que longos. Mentia com doçura — não por vaidade, mas para proteger quem amava. Dizia à mãe para não se preocupar, que logo enviaria dinheiro, que encontraria trabalho e que Deus não o abandonara.

Às vezes, à noite, caminhava até o porto. Via o reflexo das luzes tremendo na água escura e sentia o coração se apertar. Cada navio que partia era como uma ferida nova, lembrando-o do que deixara. Mas, pouco a pouco, começou a perceber que a vida — como o mar — não volta atrás: apenas segue, muda de forma, mas nunca retorna.

Na manhã de 2 de abril, sentou-se diante da janela do dormitório e escreveu a carta que marcaria o início de sua nova existência. Com letra firme, narrou o que vivera:

Sbarcammo il giorno 31 Marzo, e fummo accolti dal Comitato d’Immigrazione. Qui ci trattano con cortesia. Buenos Ayres è una gran bella città, ma molto differente dalle nostre. Se avrò fortuna, vi manderò qualche soldo appena possibile.

Dobrou a folha com cuidado, como se guardasse nela o próprio destino. Lá fora, os sinos da Catedral repicavam, misturando-se ao rumor das carroças e ao apito dos navios.

Domenico Del Muschio levantou-se. Havia um brilho novo em seus olhos — a chama dos que compreendem que o futuro não se espera: constrói-se.
Deixou o abrigo dos imigrantes e caminhou rumo ao cais, onde um agente procurava trabalhadores para o interior. O vento soprava do sul, carregando o cheiro de maresia e promessas.

E, enquanto o sol se erguia sobre a cidade que não dormia, Domenico percebeu, pela primeira vez, que a América não era o fim de sua jornada — era apenas o primeiro passo de uma travessia maior: a travessia de um homem em busca de si mesmo.

Quando Domenico Del Muschio deixou Buenos Aires, o outono já se fazia sentir. Os jacarandás das avenidas tingiam o ar de lilás e a cidade parecia respirar um ritmo que ele não compreendia. Um agente do Comitê de Imigração o havia recrutado para trabalhar numa colônia agrícola nas imediações de Río Segundo, na província de Córdoba. Disseram-lhe que havia terra fértil, que os italianos eram bem-vindos, que o futuro estava no interior.

Partiu de trem numa manhã cinzenta. O barulho metálico das rodas sobre os trilhos parecia repetir as batidas de seu próprio coração. Através da janela, via a paisagem mudar: primeiro os subúrbios poeirentos de Buenos Aires, depois o pampa sem fim, verde e dourado sob o vento. A vastidão da Argentina o intimidava. Havia algo de sagrado e de selvagem naquele espaço onde o horizonte nunca terminava.

Três dias depois, chegou a uma pequena estação de madeira. Um homem de chapéu de palha o esperava — chamava-se Don Esteban, capataz da fazenda San Joaquín. Falava um espanhol rápido, difícil de entender, mas os gestos bastavam. Levaram-no em carroça por caminhos de terra até a colônia.

Lá encontrou outros italianos: piemonteses, lombardos, vênetos, alguns calabreses. Cada um carregava uma história parecida com a sua — fome, dívidas, sonhos. As casas eram simples, de barro e telha; o trabalho, duro. Dormiam pouco, comiam menos, e o sol do meio-dia queimava a pele até doer. Mas à noite, quando o vento soprava entre os eucaliptos, acendiam uma fogueira e o som das vozes italianas preenchia a solidão. Cantavam canções antigas, falavam da pátria e riam do próprio destino.

Domenico começou como ajudante na lavoura de trigo. As mãos, antes acostumadas à madeira e à enxada, se encheram de calos. Aprendeu a lidar com as mulas, a manejar o arado, a ler o céu para prever as chuvas. Havia dias em que a fadiga o fazia cair de joelhos, mas ele se erguia, movido por uma força que nem compreendia.

Família, pertencimento e resistência

Em dezembro de 1883, conheceu Lucía Benítez, filha de um pequeno arrendatário espanhol. Ela levava o almoço ao pai nos campos, e Domenico, ao vê-la pela primeira vez, sentiu o mesmo desconcerto que o mar lhe causara: uma vertigem de infinitude. Lucía era firme, de olhos escuros e voz baixa. Falava pouco, mas havia ternura em cada gesto. Com o tempo, começaram a trocar palavras, depois risos, e em menos de um ano, partilhavam o mesmo destino.

Casaram-se em 1884, numa pequena capela erguida por padres franciscanos. O padre abençoou a união em castelhano e italiano, e o coro improvisado de imigrantes cantou um hino que ninguém soube de onde vinha. Foi o primeiro dia em que Domenico se sentiu, verdadeiramente, parte de alguma coisa.

A luta pela terra e a dignidade

A vida na colônia, porém, não era fácil. O ano seguinte trouxe seca e gafanhotos. O trigo queimou nos campos, os animais morreram, e muitos abandonaram a região. Domenico resistiu. Construíra uma casa de adobe com as próprias mãos, e agora tinha Lucía e um filho recém-nascido, Matteo. Prometera a si mesmo que jamais fugiria de novo.

Às vezes, nas madrugadas, olhava o menino dormir e pensava no pai que deixara na Itália. Imaginava-o velho, de mãos trêmulas, lendo as cartas que ele ainda enviava quando podia. Nessas horas, sentia o peso do tempo e a distância como duas âncoras invisíveis.

Mas a América também lhe dera algo novo: uma fé silenciosa no trabalho. Sabia que o futuro não era presenteado a ninguém — era cavado, palmo a palmo, com suor e teimosia.

No fim de 1885, o trigo voltou a crescer. As espigas douradas ondulavam sob o vento como um mar terrestre. Lucía, de pé à porta, observava Domenico voltar dos campos com o pequeno Matteo nos ombros. O sol poente tingia de cobre o horizonte, e por um instante, tudo parecia em paz.

Domenico Del Muschio não era mais o emigrante perdido do porto. Tornara-se colono, pai e construtor de um destino. A carta escrita em Buenos Aires, há dois anos, repousava agora dentro de uma caixa de madeira, junto com outras que nunca chegaram a ser enviadas.

Sabia que a vida ainda lhe cobraria muito, mas, ao olhar para aquele campo imenso e silencioso, compreendeu que, enfim, havia encontrado um lar.

Os anos que se seguiram transformaram a vida de Domenico Del Muschio numa sucessão de estações e colheitas. Cada ano era um risco, cada safra uma aposta silenciosa contra o destino. O solo argentino recompensava os que sabiam escutar-lhe o ritmo, e Domenico aprendera a fazê-lo com humildade e disciplina.

Em 1886, a colônia de San Joaquín prosperava. O governo havia distribuído títulos de terra aos colonos mais antigos, e Domenico — então com pouco mais de trinta anos — recebeu um pequeno lote às margens do arroyo Las Piedras. Construiu ali uma casa sólida, de tijolos e telhado de zinco, e plantou fileiras de videiras trazidas do Vêneto, mudas que havia escondido na mala durante a travessia oceânica.

A vida parecia enfim recompensar a obstinação. Matteo, o filho mais velho, crescia forte e curioso, e Lucía esperava a segunda criança, uma menina a quem dariam o nome de Giovanna, em homenagem à mãe de Domenico, que ficara na Itália.

Aos domingos, as famílias italianas e espanholas reuniam-se sob a sombra dos plátanos, onde se partilhavam o pão, o vinho espesso e o som distante de uma sanfona. Nessas tardes, o passado e o presente se confundiam: o aroma das colinas do Vêneto parecia fundir-se ao pó seco das planícies argentinas. Havia, naquele convívio simples, um sentimento de pertença, como se a nova terra começasse, pouco a pouco, a aceitá-los.

Entretanto, o destino, incerto como o vento dos pampas, logo mostrou outra face. Em 1888, chegaram rumores vindos da capital: a expansão das ferrovias, o avanço das fronteiras agrícolas e os primeiros sinais da concentração de terras. A riqueza do trigo transformava a paisagem e atraía novos interesses. Os grandes proprietários começaram a cercar áreas antes livres, expulsando famílias inteiras.

A tranquilidade da colônia de San Joaquín foi ameaçada. A luta pelos direitos de posse mobilizou os colonos mais antigos, e Domenico, quase sem perceber, tornou-se uma das vozes principais do movimento. Sua resistência era silenciosa, mas firme. Não havia esquecido as humilhações da terra natal, nem os dias em que o trabalho de gerações fora engolido pela miséria.

Durante meses, travou-se uma batalha lenta e exaustiva, feita de papéis, promessas e esperas. Quando finalmente, em 1890, o governo provincial reconheceu os direitos dos colonos, muitos já haviam desistido. Domenico, porém, permaneceu. Pagara caro por isso: noites de incerteza, dívidas crescentes e o peso da responsabilidade sobre os ombros. Ainda assim, a vitória o marcou como um homem que aprendera a persistir contra as forças invisíveis do poder.

Lucía via a transformação do marido com um misto de orgulho e apreensão. O jovem emigrante que um dia chegara de navio tornara-se um homem de voz firme e olhar cansado. O tempo deixara-lhe os ombros arqueados, as mãos endurecidas e a expressão severa de quem aprendeu a confiar apenas na própria resistência.

No inverno de 1893, uma geada destruiu parte da plantação. A fome e o desânimo abateram-se sobre a colônia. Foi nesse momento que Domenico se uniu a dois companheiros para fundar uma pequena moenda de trigo, iniciativa que lhes permitiria produzir farinha local e depender menos dos grandes comerciantes. O projeto exigiu esforço coletivo, improviso e coragem, mas deu certo. Pela primeira vez, Domenico sentiu que podia moldar o próprio destino, em vez de apenas reagir a ele.

Quando os trigais voltaram a crescer, na primavera seguinte, as colinas pareciam cobertas por uma luz nova. Aquele mar dourado representava mais do que o sustento: era a vitória silenciosa dos que haviam deixado tudo para trás.

Aos poucos, a figura de Domenico passou a ser associada à fundação da colônia. Os registros oficiais mencionavam seu nome entre os pioneiros, e mesmo os mais jovens o citavam como exemplo de firmeza e decência.

Em 1895, San Joaquín já era um povoado próspero, com escola, capela e pequenas casas alinhadas ao longo da estrada principal. As famílias cresciam, e o idioma italiano misturava-se ao espanhol dos criollos, criando uma nova sonoridade, um novo modo de ser.

Nas noites de céu aberto, Domenico costumava sentar-se diante de sua casa e observar o horizonte. O vento quente soprava do sul, trazendo consigo o perfume das ervas e o rumor distante do arroyo. Nessas horas, a lembrança da Itália surgia nítida: os sinos de Bassano del Grappa, o frio das manhãs, o rosto envelhecido da mãe que jamais voltaria a ver.

Com o tempo, compreendeu que a emigração era mais do que uma travessia — era uma herança que se transmitia no silêncio, um vínculo entre o que se perdeu e o que ainda se podia construir. A Itália permanecia dentro dele, não como um lugar, mas como uma voz que o acompanhava em cada amanhecer, no coração vasto e solitário das planícies argentinas. 

O tempo, que outrora parecia correr veloz como os ventos dos pampas, passou a mover-se lentamente sobre a vida de Domenico Del Muschio. Os anos de trabalho e sacrifício haviam moldado nele a serenidade de quem compreende que o destino não é algo a ser vencido, mas aceito com dignidade.

Na virada do século, San Joaquín era já um pequeno mundo autônomo. As ruas de terra batida transformaram-se em estradas ladeadas por amoreiras, a capela fora reconstruída em alvenaria e o sino, trazido da Itália por um grupo de colonos, marcava o compasso das estações. Domenico observava tudo com o olhar distante de quem havia visto nascer, crescer e amadurecer aquela terra.

Os filhos seguiram caminhos distintos. Matteo herdou o ofício da terra e administrava as plantações com rigor e devoção. Giovanna, de temperamento doce e decidido, casara-se com um professor vindo de Córdoba, e o casal passara a lecionar na pequena escola da colônia. Domenico via neles a continuação silenciosa de um sonho que começara num porto distante, quando ainda acreditava que um homem pudesse reinventar o próprio destino.

Apesar das conquistas, havia em seu coração uma sombra que jamais se dissipara. A promessa feita à mãe, na véspera da partida, o acompanhava como uma ferida aberta: o juramento de que voltaria à Itália, nem que fosse por um único verão, para beijar-lhe as mãos envelhecidas. Durante anos, essa promessa foi o norte de sua esperança. Mas o tempo, as dívidas e a vida no campo impuseram outros rumos.

Nunca houve recursos suficientes, nem paz política o bastante para permitir-lhe regressar. O Atlântico tornara-se uma distância intransponível, não apenas de água, mas de circunstâncias. Ainda assim, fiel à palavra, Domenico enviava sempre que podia um envelope com algum dinheiro à mãe, junto com uma breve carta escrita em caligrafia trêmula. Nessas cartas, descrevia o trigo amadurecendo, o riso dos filhos, a amplidão das planícies argentinas. E pedia, como se confessasse, que ela o perdoasse pela ausência.

As respostas chegavam raramente, e com o passar dos anos cessaram por completo. O silêncio da Itália pesou-lhe mais do que qualquer miséria. Soube, por meio de um conhecido vindo de Bassano, que a mãe falecera no inverno de 1901, assistida por uma vizinha, e que guardava ainda a última carta do filho dentro do missal. Nenhuma notícia lhe ferira tanto. A partir daquele dia, Domenico entendeu que a pátria que havia deixado não existia mais. Restava-lhe apenas a terra onde envelhecia.

Velhice, memória e herança

A velhice chegou sem aviso, como o outono que cobre as vinhas de sombra e silêncio. As mãos, outrora firmes, tremiam ao toque das ferramentas. As pernas, endurecidas de tanto caminhar, já não suportavam longas jornadas. Ainda assim, insistia em trabalhar, mesmo quando o corpo lhe pedia descanso. O campo era a extensão de sua própria carne — deixá-lo significava aceitar o fim.

Com o tempo, passou a recolher-se à varanda da casa, de onde observava os trigais dourados movendo-se como ondas sob o vento. Nesses momentos, a lembrança da juventude surgia vívida: o convés do navio, o brilho do sol sobre o mar, o cheiro do carvão e do sal. A travessia parecia próxima, como se pudesse ser retomada a qualquer instante.

Os vizinhos o respeitavam como a um patriarca silencioso. Quando o viam passar, curvado e lento, diziam que aquele homem havia trazido a colônia nas costas. E de certo modo era verdade: sem sua persistência, talvez San Joaquín nunca tivesse florescido.

No inverno de 1912, Domenico adoeceu. A febre chegou como um vento quente, e o corpo, cansado de tantas estações, rendeu-se pouco a pouco. Durante semanas permaneceu acamado, cercado pela família e pelo rumor constante da chuva batendo no telhado de zinco.

Em seus últimos dias, permaneceu lúcido, mas em silêncio. Parecia contemplar algo que os outros não podiam ver. Alguns diziam que sorria discretamente, como se finalmente enxergasse, do outro lado do tempo, a colina verde de sua infância.

O emigrante como fundador

Morreu numa madrugada fria de agosto, quando a aurora ainda se escondia atrás das montanhas de Córdoba. No momento em que seu coração cessou, o vento soprou forte do leste, e as janelas da casa se abriram sozinhas, deixando entrar um perfume leve de terra molhada e uvas maduras.

Foi sepultado no pequeno cemitério da colônia, sob uma cruz simples de madeira, ao lado de outros pioneiros. Nenhuma inscrição grandiosa, apenas o nome, a data e a palavra “Emigrante”.

E, embora jamais tenha regressado à Itália, suas raízes ali permaneceram — invisíveis, profundas, entrelaçadas à terra estrangeira que ele transformara em lar. Porque, em verdade, Domenico Del Muschio nunca deixara a pátria: apenas a espalhara, grão a grão, no solo que o acolheu.

Nota do Autor

Esta história nasceu de uma carta verdadeira. O documento, datado de 2 de abril de 1883, foi escrito em Buenos Aires por um jovem imigrante italiano que havia partido da Itália a bordo de um navio em direção à América do Sul. Nela, o autor descrevia com simplicidade e emoção a travessia do oceano, as tempestades suportadas, a chegada a Montevidéu e depois a Buenos Aires, e a espera incerta por trabalho e destino. As palavras estavam manchadas pelo tempo — algumas quase ilegíveis —, mas o que atravessou os séculos foi o que nenhuma tinta desbota: a coragem, a saudade e a fé de quem deixou tudo para recomeçar num continente desconhecido.

Domenico Del Muschio, o protagonista desta narrativa, é uma recriação literária desse emigrante anônimo. O nome foi alterado por respeito à memória dos descendentes e para preservar o anonimato do autor da carta, mas cada sentimento, cada gesto, cada linha desta história tem origem naquele testemunho real. Escrever sobre ele foi, antes de tudo, um ato de restituição — dar voz a um entre milhões que atravessaram o oceano movidos por um sonho e pela necessidade. O que se lê aqui não é apenas a vida de um homem, mas o espelho de uma geração que deixou a pátria sem saber se um dia voltaria a vê-la.As palavras de Domenico — e de tantos outros como ele — lembram-nos de que a história da emigração não é feita apenas de números e estatísticas, mas de rostos, cartas e esperanças. E talvez, em cada um de nós, ainda ressoe o eco desse mesmo mar que eles cruzaram, buscando um novo mundo onde pudessem simplesmente viver com dignidade.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta