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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Sob os Pinheiros do Novo Mundo e a Emigração Italiana de Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli ao Brasil (1878)


Sob os Pinheiros do Novo Mundo

A Emigração Italiana de Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli ao Brasil (1878)

Quando Domenico Rampallo deixou Stroppare, na planície pobre de Albettone, não partiu apenas de uma aldeia: afastou-se de um mundo que já não o comportava. A pequena localidade vêneta, cercada por campos arrendados e casas de pedra baixa, era o cenário de uma repetição secular de fadiga e escassez. A terra, esgotada por gerações de mãos camponesas, dava cada vez menos, enquanto exigia sempre o mesmo esforço brutal.

Domenico crescera ali, como seu pai e seu avô, sob contratos injustos, colheitas incertas e a humilhação silenciosa de trabalhar o que jamais seria seu. Giuseppina Novelli, de Ponte de Barbarano, trazia história semelhante: família numerosa, mesas sempre apertadas, futuro estreito. Aprendera cedo que o destino das mulheres camponesas era resistir — primeiro na casa do pai, depois na do marido.

Casaram-se na igreja de Santa Maria Assunta, em Barbarano, algumas semanas antes da partida. Não houve tempo para a ilusão de um lar recém-formado. O matrimônio foi mais um pacto de sobrevivência do que celebração. Sob a bênção antiga da igreja, prometeram-se não apenas amor, mas resistência — algo que nem sabiam ainda o quanto lhes seria exigido.

A viagem até Gênova foi, para ambos, a primeira ruptura concreta com o mundo conhecido. A cidade portuária, ruidosa e impessoal, acolhia diariamente milhares de destinos interrompidos. O Città di Milano aguardava no cais como um gigante de ferro e vapor, pronto para engolir vidas.

No porão do navio, Domenico e Giuseppina perderam rapidamente a noção de individualidade. Homens, mulheres e crianças eram reduzidos a corpos em trânsito. O ar tornava-se irrespirável à noite; os dias, longos e indistintos. O mar, ora benigno, ora cruel, ensinava que a travessia não era metáfora — era prova.

Em Nápoles, o navio inchou ainda mais de humanidade: mais de 550 emigrantes do sul da Itália embarcaram, trazendo consigo dialetos ásperos, gestos dramáticos e uma miséria ainda mais profunda. O Città di Milano transformou-se num microcosmo da Itália falida: norte e sul unidos não por ideais, mas pela expulsão.

Os trinta dias de viagem foram um lento processo de despojamento. Muitos adoeceram. Alguns morreram. Outros perderam a capacidade de imaginar o retorno. Giuseppina, frequentemente nauseada, mantinha-se firme, apoiada no silêncio concentrado de Domenico, que começava a compreender que o homem que chegaria ao Brasil já não seria o mesmo que partira do Vêneto.

O Rio de Janeiro surgiu envolto em calor, montanhas abruptas e uma vegetação que parecia crescer sem limites. Permaneceram três dias na Hospedaria de Emigrantes, um lugar de espera e vigilância, onde eram contados, examinados e redistribuídos como força de trabalho. Ali, o Brasil não era promessa nem ameaça — era incógnita.

O vapor Maranhão conduziu-os ao longo da costa. Em Santos e Paranaguá, despediram-se de companheiros que jamais tornariam a ver. Cada parada era uma fratura no grupo, um destino que se separava para sempre.

No porto de Rio Grande, encontraram o frio, o vento e barracões improvisados. A travessia ainda não havia terminado. Restava o trecho mais cruel: o interior. Até Montenegro, seguiram por rios e caminhos incertos. Dali, a pé. Homens e crianças maiores avançavam sobre trilhas lamacentas; grávidas, idosos e pequenos eram transportados em carroças puxadas por mulas, rangendo sob o peso da exaustão humana.

Quando chegaram ao lote destinado à Colônia Caxias, a realidade impôs-se sem mediações. Cinquenta hectares de floresta cerrada, dominada por pinheiros colossais, erguiam-se diante deles como uma muralha natural. Árvores que desafiavam a compreensão de quem viera de campos abertos e colinas domesticadas.

Antes de qualquer construção, a sobrevivência exigiu improviso. Encontraram abrigo no oco de um enorme embu, uma árvore tão vasta que parecia guardar dentro de si a memória da floresta. Ali viveram quase uma semana, protegidos da chuva, do vento e do medo noturno. Alimentavam-se do parco auxílio governamental e dos pinhões, abundantes e nutritivos, recolhidos no chão da mata.

A cabana de paus e barro nasceu lentamente, erguida mais por teimosia do que por técnica. Cada árvore derrubada era uma batalha vencida; cada noite superada, uma pequena fundação.

Naquele silêncio verde, Domenico compreendeu que não estava apenas abrindo clareira na floresta, mas inaugurando um futuro. Giuseppina, com mãos calejadas e olhar endurecido, transformava a precariedade em ordem possível. O Brasil não os acolheu com gentileza — mas lhes ofereceu algo que a Itália negara: a possibilidade de permanecer.

Assim começou a história dos Rampallo no Novo Mundo — não como epopeia heroica, mas como a lenta e obstinada construção da dignidade humana. 

Nota do Autor

Esta narrativa é parte de uma obra de ficção histórica. Embora esteja ancorada em contextos, rotas migratórias e circunstâncias amplamente documentadas da Grande Emigração Italiana do século XIX, os nomes das personagens, os vínculos familiares e as localidades mencionadas são criações literárias, utilizadas como recursos narrativos para dar forma humana a uma experiência coletiva.
Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli não representam indivíduos históricos identificáveis, mas símbolos de milhares de homens e mulheres reais que, entre as décadas finais do oitocento, deixaram aldeias do Vêneto, da Lombardia, do Piemonte e do sul da Itália, atravessaram o Atlântico em condições adversas e enfrentaram a floresta, o isolamento e a incerteza nas colônias agrícolas do sul do Brasil.
Os episódios descritos — a travessia marítima, a hospedagem nas casas de imigrantes, o deslocamento interno, o impacto da mata virgem e a precariedade inicial — refletem experiências recorrentes e historicamente verificáveis, mas são aqui reelaborados literariamente, sem pretensão documental ou genealógica.
O objetivo desta obra não é reconstituir trajetórias individuais com exatidão factual, mas resgatar a dimensão humana, emocional e moral da emigração, muitas vezes ausente dos registros oficiais. Ao recorrer à ficção, busca-se revelar uma verdade mais profunda: a de um povo deslocado pela pobreza, forjado pelo trabalho e unido pela esperança silenciosa de permanência.
Que o leitor compreenda este texto como um exercício de memória simbólica, uma homenagem àqueles que não deixaram cartas, fotografias ou nomes gravados na história, mas que ainda vivem no idioma, nos costumes e na paisagem humana do sul do Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Sob o Céu do Novo Mundo, Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

 


Sob o Céu do Novo Mundo

Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

(inspirada em fatos da Grande Emigração Italiana – 1887)

O vento soprava do leste com uma força surda, arrastando sobre o porto de Gênova uma cortina de névoa que cheirava a sal e carvão. As gaivotas rodavam em círculos acima das chaminés dos vapores, confundidas entre o rumor dos apitos e o grito dos homens que descarregavam fardos. No convés inferior do vapor Speranza, misturados aos barris de vinho e aos sacos de farinha, embarcavam mais de mil e duzentas almas — famílias inteiras, viúvas, crianças, camponeses, costureiras, pedreiros, e uma jovem professora de vinte e um anos chamada Rosa Venturini, natural de um pequeno vilarejo entre as planícies úmidas do Polesine.

Rosa não sabia que aquele amanhecer de 1887 seria o último que veria na Itália. Desde a morte do pai, vítima da pelagra que devastava os camponeses pobres, a vida em casa tornara-se uma sucessão de dias vazios. A mãe vendia ovos e fiava lã para sobreviver, enquanto o irmão mais velho fora recrutado para o exército, deixando-as com um campo encharcado e uma casa que ameaçava ruir a cada cheia do Pó. A promessa do Brasil — terras férteis, salário certo, passagem gratuita — soava como um milagre.

Os jornais de Rovigo, vendidos nas feiras, anunciavam as companhias de navegação com letras gordas e promessas extravagantes. Falavam de um país onde o sol não se escondia e o trigo crescia sem pedir chuva. O governo brasileiro, diziam, buscava gente branca, laboriosa e cristã para substituir os braços negros recém-libertos. E os agentes, instalados nas praças das pequenas cidades, anotavam nomes, vendiam sonhos e recolhiam moedas para garantir uma vaga num dos vapores que partiam de Gênova, de Nápoles ou de Palermo.

Rosa, filha da filanda, formada no internato de Pádua entre as “jovens pobres e pericolanti”, não tinha nada a perder. Com o último dinheiro que restava, comprou uma pequena mala de madeira, um lenço bordado pela mãe e três saquinhos de linho com sementes de feijão e manjericão. Queria plantá-los na terra estrangeira, quando o mar terminasse.

Durante os primeiros dias, o navio avançou lento e os passageiros suportavam o balanço com uma resignação quase religiosa. O cheiro de ferrugem, suor e maresia impregnava tudo. No porão, o ar era espesso e o espaço, exíguo. As mulheres dormiam sobre tábuas cobertas por panos úmidos; as crianças tossiam. O capitão, um genovês de barba amarelada, mantinha a terceira classe trancada, e só pela manhã deixava que subissem ao convés para respirar um pouco de ar.

A travessia parecia interminável. Chovia quase todos os dias. O mar batia nas chapas de ferro como um tambor, e cada estalo fazia o navio estremecer como um corpo febril. Rosa escrevia anotações num pequeno caderno encapado com tecido azul, tentando registrar o que via e o que sentia. Falava do frio que penetrava os ossos, da comida rançosa que cheirava a mofo, dos marinheiros que vendiam pedaços de queijo escondidos, e das mães que, em desespero, trocavam as últimas moedas por um gole de água limpa.

Na terceira semana de viagem, uma mulher de Vercelli deu à luz um menino entre as caixas do porão. Ao mesmo tempo, uma criança morreu de febre. Rosa recordou a cena por toda a vida: os marinheiros costurando uma pequena mortalha de lona, o corpo leve sendo depositado sobre uma tábua e, depois, o som oco do corpo tocando a água, como uma pedra. A mãe repetia, sem lágrimas, que aquele seria o último dos seus filhos a morrer.

Speranza seguia o seu rumo, arrastando a miséria e a fé de um povo inteiro sobre o Atlântico. Lá em cima, os oficiais brindavam com vinho; lá embaixo, os emigrantes rezavam. Era uma humanidade empilhada, sem nomes, marcada por tosse, fome e esperança.

Rosa observava o mar. Não o temia mais. A imensidão parecia responder-lhe com silêncio, e naquele silêncio ela começou a compreender o que significava emigrar: não era partir de um lugar, mas deixar para trás a própria forma de existir. O que estava diante dela não era o Brasil, mas o vazio entre o que se sonha e o que se alcança.

Na noite do trigésimo sexto dia, o vento amainou e um clarão rompeu o nevoeiro. Do convés, os passageiros viram uma faixa verde ao longe. Alguns se ajoelharam, outros choraram. Era a costa do Rio de Janeiro, coberta por um véu de névoa dourada. Rosa sentiu o coração bater rápido. Pensou na mãe, na casa de barro, nas plantações do Pó e nos sinos de domingo. Em seguida, apertou contra o peito o caderno e os saquinhos de linho, como se neles repousasse o fio invisível que ainda a ligava à terra natal.

A banda do porto tocava uma marcha festiva para os senhores de fraque que esperavam no cais, enquanto as autoridades da imigração inspecionavam os recém-chegados. A bordo, o calor era sufocante, e a alegria inicial logo deu lugar à confusão. Homens gritavam ordens em português, grupos eram separados, nomes eram trocados, famílias se perdiam. O navio que prometera liberdade entregava seus passageiros a um novo cativeiro.

Seguram viagem até o porto de Santos onde Rosa foi levada com outras mulheres para uma hospedaria pública, onde passariam a noite antes de seguirem viagem para o interior. As paredes cheiravam a cal, e o chão era de pedra fria. No alto da janela, via-se apenas uma faixa estreita de céu — o primeiro céu estrangeiro da sua vida.

Naquela noite, não dormiu. O corpo doía, mas os olhos não se fechavam. Pensava no mar, nas promessas dos agentes, na terra que ainda não vira. Pensava também que talvez a esperança não estivesse no que o Brasil oferecia, mas no que ela seria capaz de construir ali.

Quando o dia clareou, uma brisa quente entrou pela janela. Rosa levantou-se, amarrou os cabelos e desamarrou os saquinhos de linho. Em um vaso de barro depositou as sementes de feijão e manjericão, molhando a terra com a água que restava no cantil. Não sabia se germinariam, mas aquele gesto — pequeno e silencioso — era tudo o que lhe restava da Itália.

Enquanto o sol subia sobre o porto, Rosa Venturini compreendeu que, para muitos, o mar havia sido apenas o caminho do exílio. Para ela, seria o divisor entre o passado e o destino

Na manhã seguinte, o pátio da hospedaria fervilhava de gente. Famílias inteiras esperavam a chamada dos nomes que seriam enviados às fazendas. Os funcionários da agência de colonização anotavam números, riscando listas com lápis úmido de suor. As vozes se misturavam num idioma que os recém-chegados ainda não compreendiam, e o medo, disfarçado de expectativa, atravessava os rostos queimados de sol e sal.

Rosa foi designada a um grupo de colonos destinado ao interior da província de São Paulo, em uma propriedade chamada Fazenda Santa Luzia, pertencente a um certo coronel Álvaro Moreira, homem conhecido pela severidade e pelas lavouras extensas de café. O trajeto até lá seria longo, feito em vagões de madeira, sob o calor que subia do chão e parecia não ter fim.

Durante a viagem, o trem cortava planícies e matas intermináveis. Pelas janelas abertas, o vento trazia o cheiro de terra quente e fumaça. Aos poucos, o mar e o passado iam ficando para trás, substituídos por uma paisagem que parecia viva e selvagem. Homens com chapéus de palha trabalhavam nas margens dos trilhos, negros recém-libertos misturavam-se aos brancos recém-chegados, e Rosa percebia, sem compreender direito, que aquele país nascera de um conflito silencioso entre servidão e esperança.

Quando enfim chegaram à fazenda, o sol estava alto e o ar cheirava a café recém-tostado. À frente da sede, homens montados os observavam, avaliando cada corpo, cada gesto. O administrador, de voz seca e olhar impaciente, leu as instruções e apontou as casas que seriam distribuídas às famílias. Eram pequenas construções de barro e madeira, dispostas em linha ao lado da mata. Rosa recebeu uma das menores, sozinha, pois era mulher solteira.

Na primeira noite, não houve descanso. Os mosquitos zuniam como lâminas, e o calor tornava o ar irrespirável. Do lado de fora, o som da mata parecia uma língua desconhecida — gritos de aves, farfalhar de folhas, o rugido distante de algum animal. Rosa acendeu uma lamparina e observou o pequeno espaço que agora lhe pertencia: uma cama de tábuas, um fogareiro de ferro, um balde com água amarelada. Era pouco, mas era dela.

Nos dias seguintes, o trabalho começou antes do nascer do sol. O campo de café se estendia em fileiras longas, e cada planta exigia capina, adubação e poda. O contrato prometia pagamento por produção, mas logo ela percebeu que o sistema era uma armadilha. O preço do quilo de café variava conforme a vontade do patrão, e o valor das ferramentas e alimentos era descontado do salário antes mesmo de ser recebido. Muitos colonos endividavam-se antes do fim do primeiro mês.

Rosa não reclamava. Aprendera desde menina que a resignação também era uma forma de resistência. Guardava as forças para o fim da tarde, quando o sol se escondia e o silêncio caía sobre as plantações. Nesses momentos, ela voltava à casa, lavava o rosto com a água morna do balde e regava os vasinhos de barro que havia trazido da Itália. As sementes germinaram. Pequenos brotos verdes despontaram, frágeis, mas determinados. Aqueles fios de vida tornaram-se sua companhia e sua fé.

As estações se sucederam lentamente. A colônia crescia em volta da fazenda: homens erguiam capelas, mulheres ensinavam as crianças a ler com livros que restaram das malas. O idioma se misturava — português, vêneto, lombardo, piemontês — formando uma língua nova, feita de sons duros e ternos. Às vezes, Rosa escrevia cartas para a mãe, que ainda vivia no Polesine. Não falava das dívidas nem das dores. Contava apenas das árvores imensas, do céu sem fim e das noites em que as estrelas pareciam cair sobre a terra.

No quinto ano, o Brasil já lhe parecia menos hostil. Aprendera a lidar com o clima, a força do trabalho e o ritmo da colheita. Em cada saco de café que carregava, sentia o peso da promessa que a trouxera até ali — e a dívida silenciosa que carregava com todos os que haviam morrido no caminho.

Quando o coronel Moreira morreu, a fazenda foi dividida entre os herdeiros, e parte das terras foi vendida a colonos. Rosa comprou um pequeno lote, com o dinheiro guardado em anos de sacrifício. Na encosta do terreno, plantou as primeiras fileiras de café por conta própria, ao lado dos pés de feijão e das ervas que haviam nascido dos vasinhos trazidos do navio.

Com o tempo, sua casa tornou-se ponto de passagem para os novos imigrantes que chegavam em busca de orientação. Muitos a chamavam de dona Rosa da Esperança. Ela acolhia os que vinham famintos, dividia o pão, emprestava sementes e contava a mesma história de sempre: a travessia, o navio, o mar e o primeiro dia em terra estrangeira.

Nunca mais voltou à Itália. As cartas que enviava cessaram quando soube que a mãe havia morrido, sozinha, numa casa fria de inverno. Rosa guardou a última resposta recebida dentro do caderno azul, agora amarelado e manchado de café.

Nos últimos anos de vida, quando o corpo já não obedecia, ela costumava sentar-se sob a sombra das árvores e observar as plantações que cobriam o horizonte. Ali, compreendeu que o destino dos emigrantes era o mesmo das sementes que lançara na terra: nascer em lugar estranho, resistir às tempestades e florescer, mesmo quando o solo parecia não acolher.

Quando Rosa Venturini morreu, numa manhã de verão, ninguém soube ao certo sua idade. Diziam que partira em paz, com as mãos ainda sujas de terra e o rosto voltado para o nascente. No quintal, os pés de manjericão que trouxera da Itália continuavam a crescer, exalando um perfume doce que se misturava ao aroma forte do café.

E assim, sob o céu imenso do novo mundo, cumpria-se mais uma história de esperança e exílio — uma entre tantas que fizeram da miséria um ato de coragem e do desterro, uma forma silenciosa de eternidade. 

Nota do Autor

Esta obra nasceu do silêncio de um caderno de capa azul. Entre suas páginas amareladas repousavam fragmentos de uma vida: cartas dobradas com cuidado, anotações de viagem, orações em italiano antigo, e uma flor seca, guardada como se fosse a última lembrança de um tempo que não volta. O caderno pertenceu a uma mulher que cruzou o oceano em 1887, deixando para trás uma Itália devastada pela fome, pela pobreza e pela desesperança. Viveu o restante de seus dias no interior do Brasil, onde a terra nova exigia o mesmo que o mar havia exigido: coragem e fé.

Os nomes que aparecem nesta narrativa — Rosa Venturini, Fazenda Santa Luzia, Coronel Álvaro Moreira — são fictícios. Foram alterados para proteger a identidade dos verdadeiros personagens e para permitir que o enredo respirasse com liberdade literária. Mas a história é autêntica.

Cada detalhe foi reconstruído com base nas cartas originais que a protagonista guardou em seu caderno, escritas entre 1887 e 1924, hoje custodiadas no Museu Histórico da cidade onde ela viveu e morreu. A emoção contida nestas páginas não é invenção. Está presente nas palavras que ela escreveu com a caligrafia firme de quem aprendeu a ler na pobreza e a sonhar na adversidade. São linhas simples, mas nelas cabem todas as dores e esperanças de uma geração que deixou o velho continente em busca de um pedaço de chão no novo mundo. Rosa — ou como quer que se chamasse de fato — representa milhares de italianos anônimos que cruzaram o Atlântico com a alma carregada de saudade e fé.

Ao reconstituir sua jornada, tentei não apenas contar uma história, mas ouvir o eco de tantas vozes que o tempo quase apagou. Que este livro sirva de tributo aos que vieram antes de nós — e que, ao pisar uma terra estranha, fizeram dela o próprio lar.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 27 de dezembro de 2025

Giovanni Battista Scalabrini o Bispo dos Migrantes e a Missão de Amparo aos Italianos no Século XIX

 



Quem Foi Giovanni Battista Scalabrini

Giovanni Battista Scalabrini nasceu em 8 de julho de 1839, na cidade de Como, Itália. Tornou-se bispo de Piacenza e dedicou sua vida a acolher e proteger os emigrantes italianos. Ingressou no seminário aos 18 anos, foi ordenado sacerdote em 1863 e consagrado bispo em 1876.

Sensibilidade ao Sofrimento dos Emigrantes

. As Despedidas nas Estações e o Drama da Emigração

Sua profunda compaixão com o drama migratório começou ao observar famílias italianas que se reuniam nas estações ferroviárias rumo ao Porto de Gênova, onde embarcariam para as Américas. Scalabrini relatou cenas emocionantes nas quais homens, mulheres e crianças deixavam seus povoados entre lágrimas e lembranças, abandonando ao mesmo tempo uma realidade marcada pelo alistamento militar obrigatório e pela carga pesada de impostos.

. A Visão da Igreja sobre a Questão Social

Convencido de que a Igreja deveria atuar diretamente para defender os emigrantes, escreveu em sua carta pastoral de 1882 que era necessário participar da vida pública com todos os meios legítimos para promover a verdade e a justiça. Em 1891, reforçou essa visão afirmando que era preciso “sair do templo” para agir de modo realmente transformador.

As Obras Fundadas por Scalabrini

. Congregações e Apoio ao Emigrante

Com o objetivo de enfrentar o sofrimento dos emigrantes, Scalabrini propôs leis sobre a emigração e, em 1887, fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos. Depois criou a Sociedade São Rafael, destinada a ajudar viajantes e recém-chegados.

. Atuação Feminina na Missão

Em 1895, fundou a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos e, em 1900, concedeu reconhecimento diocesano às Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração, enviando-as para auxiliar emigrantes italianos no Brasil.

Viagens às Américas e Legado

. Visita aos Emigrantes Italianos nas Américas

Aos 62 anos, Scalabrini decidiu conhecer pessoalmente as condições de vida dos emigrantes. Entre 1901 e 1904, viajou pelos Estados Unidos, Brasil e Argentina, fortalecendo o trabalho missionário iniciado pela sua congregação.

. Beatificação e Reconhecimento

Scalabrini faleceu em 1º de junho de 1905. Seu compromisso com a dignidade humana e sua defesa incansável dos migrantes levaram à sua beatificação em 9 de novembro de 1997 pelo Papa João Paulo II. Em 2022, Giovanni Battista Scalabrini foi canonizado pelo Papa Francisco, sendo reconhecido oficialmente como São João Batista Scalabrini, Patrono dos Migrantes.

Conclusão / Nota do Autor

Giovanni Battista Scalabrini foi uma figura decisiva para a proteção dos emigrantes italianos no século XIX e início do XX. Sua visão humanitária, seu compromisso social e as congregações que fundou continuam presentes no trabalho scalabriniano em diversos países. Este texto busca preservar sua memória e destacar a relevância de sua missão para a história da migração italiana.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Sob o Vento das Colônias e A Travessia de Domenico Cavallin para a Colônia Dona Isabel (1878)

 


Sob o Vento das Colônias 

A Travessia de Domenico Cavallin para a Colônia Dona Isabel (1878)

História da imigração italiana no Rio Grande do Sul – Colônia Dona Isabel


Domenico Cavallin nasceu na localidade San Giovanni, pertencente ao município vêneto de Valdobbiadene, uma terra de colinas que ondulavam como um imenso tapete verde, belo à distância, mas implacável para quem dependia dele para sobreviver. Ali, sob o peso silencioso da rotina, gerações inteiras haviam aprendido a extrair sustento de parcelas mínimas de terra, trabalhando de sol a sol para colher apenas o necessário. Em San Giovanni, a esperança sempre fora um recurso tão escasso quanto o próprio dinheiro. Naquele inverno de 1878, quando os vinhedos adormeciam sob uma neblina espessa que descia dos montes, a paisagem parecia refletir a alma do lugar: silenciosa, resignada, contida. As noites eram longas e frias, e o eco distante dos sinos do campanário não trazia consolo; pelo contrário, repetia um aviso sombrio que todos já conheciam — ali, naquele canto da província de Treviso, o futuro diminuía a cada ano, como um fio de vida que se desgastava lentamente. Para muitos jovens, especialmente aqueles que, como Domenico, não herdariam terras nem ofício seguro, a pequena localidade já não oferecia caminhos, apenas a lenta certeza de que permanecer era aceitar uma vida inteira limitada pelas mesmas colinas que os cercavam desde o nascimento.

A Itália recém-unificada não oferecia saída para quem vivia nas franjas do campo. A promessa de um país moderno parecia distante demais para alcançar localidades como San Giovanni: as terras eram poucas, fragmentadas entre herdeiros, e as bocas eram muitas, sempre mais numerosas do que as colheitas exíguas que a terra permitia. A cada estação, aumentava a sensação de que o novo país existia apenas nos discursos políticos de Turim e Florença, enquanto nas aldeias rurais persistia o mesmo cenário de dívidas, impostos e escassez. Assim, as únicas promessas reais chegavam em envelopes gastos, vindos do outro lado do oceano Atlântico, trazendo a caligrafia torta de parentes que haviam partido antes. Eram cartas do Brasil, cheias de relatos incertos, mas carregadas de uma luz que não existia em Valdobbiadene. Nelas, repetia-se o nome de um destino que começava a circular entre os imigrantes: a Colônia Dona Isabel, um lugar remoto “no sul do mundo”, onde — diziam — a terra se abria como um livro em branco, esperando pela coragem de quem aceitasse recomeçar. Essas cartas, escritas por mãos calejadas que conheciam a pobreza tão bem quanto Domenico, revelavam algo quase inacreditável: que, do outro lado do oceano, homens simples finalmente respiravam dignidade. Eram palavras que atravessavam mares não apenas com notícias, mas com uma promessa silenciosa de futuro, capaz de inquietar até os mais resignados.

Domenico guardou uma dessas cartas sob o colchão por semanas, como se o simples contato com o papel pudesse iluminar os dias sombrios de San Giovanni. Ele a relia sempre que o desânimo o apertava, repetindo cada frase como quem procura sinais de um destino possível. A caligrafia trêmula do parente que escrevera do Brasil se tornara quase uma oração particular, um lembrete de que a vida podia ser maior do que a pobreza que cercava a vila. Até que, numa manhã de geada, quando o frio parecia entrar pelas frestas da casa e congelar qualquer ilusão de futuro, Domenico tomou sua decisão: partiria. Depois de uma noite inteira de vigília silenciosa, levantou-se com uma determinação inédita. Vendeu a velha carroça herdada do pai — último símbolo de um passado que já não o sustentava — e juntou moedas que mal enchiam o fundo de um bolso. Era pouco, quase nada, mas suficiente para iniciar a travessia que mudaria sua vida. A despedida da mãe foi o momento mais duro: ela não tinha palavras, apenas um olhar que misturava orgulho e temor. Antes que ele cruzasse o limiar da porta, colocou em suas mãos um pequeno crucifixo de madeira, gasto pelos anos e pelas preces. “Leva contigo”, murmurou. Domenico apertou o objeto com força, sabendo que, entre tudo o que deixava e tudo o que buscaria no caminho até a Colônia Dona Isabel, aquele crucifixo seria o único companheiro que jamais abandonaria.

A viagem de Valdobbiadene até Gênova foi longa e cansativa, uma travessia que parecia medir não apenas a distância entre duas cidades, mas o próprio peso da decisão que Domenico havia tomado. A cada milha vencida, o trem e as estradas revelavam rostos diferentes, todos marcados pelo mesmo misto de apreensão e esperança que ele próprio carregava. Entre aqueles viajantes que cruzavam seu caminho, muitos vinham de regiões vizinhas da província de Treviso: famílias inteiras de Vidor, levando baús improvisados e crianças sonolentas; grupos de jovens de Farra di Soligo, que escondiam o medo sob uma coragem quase teatral; trabalhadores de Follina e Cison di Valmarino, homens habituados ao esforço físico, mas visivelmente abalados pela incerteza que envolvia a partida. Alguns viajavam em silêncio absoluto, outros repetiam histórias sobre parentes que já haviam embarcado rumo ao Brasil, como se as palavras pudessem firmar a própria decisão. E, embora cada um carregasse motivações distintas — dívidas, sonhos, promessas ou pura necessidade —, todos traziam no olhar o mesmo brilho inquieto, uma combinação profunda de dúvida e desejo. Era esse olhar, tão humano e tão familiar, que lembrava a Domenico que sua jornada não era única: fazia parte de um movimento maior, um êxodo silencioso que transformava camponeses anônimos em imigrantes, empurrando-os em direção ao desconhecido.

O navio que os conduziu ao Brasil era um gigante cansado, um casco de ferro que rangia como se carregasse séculos de histórias e desalento. No porão, onde a maioria dos imigrantes encontrava seu lugar forçado, o ar úmido misturava o sal do oceano ao cheiro de medo que parecia escorrer das paredes escuras. Crianças choravam sem alívio, velhos apertavam terços gastos entre os dedos deformados pelo trabalho, e os dias se arrastavam em um ciclo de náuseas, escuridão e lembranças que doíam. Cada balanço do mar fazia o futuro parecer ainda mais distante, e cada noite trazia a certeza de que não havia retorno possível para quem deixara a Itália unificada em busca de sobrevivência. Ainda assim, por mais sombrio que fosse o porão, havia algo que nenhum vento contrário conseguia apagar: a esperança persistente — quase teimosa — de um recomeço. Era essa esperança que sustentava aqueles homens e mulheres, transformando a travessia do Atlântico em um ritual de passagem para uma nova vida na terra prometida.

Quando avistou o Rio de Janeiro, Domenico sentiu o coração falhar por um segundo, como se a imensidão diante dele exigisse uma pausa para ser compreendida. A cidade surgia do mar com uma grandiosidade quase irreal: montanhas íngremes que pareciam brotar das águas verdes, uma vegetação exuberante que o sol tropical incendiava em tons impossíveis, e uma luz intensa que não existia em nenhum recanto da Itália recém-unificada. Era um cenário que misturava beleza e estranhamento, marcando de forma indelével a chegada dos imigrantes italianos ao Brasil.

Mas Domenico sabia que aquele deslumbramento não seria o fim de sua jornada. O Rio de Janeiro era apenas o primeiro sopro de um continente desconhecido. Seu destino estava muito além, no extremo sul, onde as colônias italianas se multiplicavam entre vales úmidos, encostas férteis e florestas densas que ainda carregavam o cheiro da mata virgem. Para lá seguiriam homens como ele — homens que buscavam não apenas terra, mas a chance de construir uma vida que a Europa nunca lhes oferecera. Aquele era apenas o começo, o primeiro capítulo de uma travessia que o conduziria à Colônia Dona Isabel e ao coração da imigração italiana no Brasil.

A chegada à Colônia Dona Isabel foi um choque de realidade que desmontou qualquer ilusão construída pelas cartas enviadas do Brasil. Não havia estradas que facilitassem o caminho, nem casas erguidas à espera dos recém-chegados. O que se estendia diante de Domenico era uma imensidão de mata fechada, onde a vegetação densa escondia barrancos escorregadios, raízes traiçoeiras e um silêncio profundo que só era quebrado pelo ritmo cadenciado dos machados abrindo clareiras na floresta. Era o som do início de tudo — duro, lento, irremediável.

Quando finalmente recebeu o lote 56 da Linha Leopoldina, percebeu que seu novo mundo cabia naquele retângulo de floresta bruta. Ali não havia nada que lembrasse Valdobbiadene, nem as colinas suaves da frazione San Giovanni. Seus olhos, acostumados aos vinhedos ordenados do Vêneto, precisaram se habituar à desordem selvagem da mata brasileira, onde cada palmo parecia resistir ao toque humano. Para transformar aquele chão em sustento, Domenico teria de domá-lo com as próprias mãos — derrubar árvores centenárias, abrir trilhas, erguer uma casa que o protegesse das chuvas violentas e das noites úmidas que pareciam não ter fim.

Naquele primeiro instante, ele compreendeu que a colonização no sul do Brasil não era apenas promessa de terra; era sobretudo uma prova de resistência, coragem e fé. Ali começaria sua verdadeira luta por um futuro.

Os primeiros meses na Colônia Dona Isabel foram exaustivos, quase impiedosos. O sol ardia sem trégua sobre a clareira recém-aberta, queimando a pele e roubando o fôlego de quem ousava trabalhar desde antes da aurora. Quando a chuva chegava, não vinha como alívio, mas como ameaça: penetrava pelas frestas da palhoça improvisada, inundando o chão de terra batida, apagando o pequeno fogo que Domenico tentava manter aceso e transformando as noites em longas vigílias de frio e incerteza. A solidão pesava como uma rocha — silenciosa, constante, difícil de afastar.

Ainda assim, a colônia oferecia dois milagres que nenhum outro presente poderia superar: o trabalho, que dava sentido aos dias, e a amizade, que dava coragem para enfrentá-los. Foi nesse ciclo de esforço e necessidade que Domenico conheceu Caterina Fregonese, recém-chegada da localidade de Bigolino, também pertencente ao comune de Valdobbiadene. Ela era jovem, de passos firmes e olhar decidido, com uma determinação que parecia desafiar a rudeza da floresta e a precariedade das primeiras moradias.

Juntos, aprenderam a derrubar árvores que pareciam impossíveis de tombar, a abrir trilhas que serpenteavam entre galhos retorcidos e raízes profundas, e a transformar o medo silencioso das primeiras noites na mata em força compartilhada. A cada jornada, a cooperação entre eles se tornava mais natural; a cada obstáculo vencido, crescia a convicção de que recomeçar naquele pedaço de Brasil era difícil — mas possível. E talvez, pela primeira vez, Domenico sentiu que aquele novo mundo poderia, um dia, tornar-se um lar.

Ao lado dos vizinhos — a família Dalla Costa, oriunda de Pieve di Soligo; os irmãos Zanin, vindos de Sernaglia della Battaglia; e o velho Peruzzetto, que deixara para trás as colinas de Vidor — Domenico descobriu que o Brasil não era apenas um destino final, mas uma tarefa diária, quase um chamado silencioso que exigia força, coragem e persistência. A convivência com aquelas famílias, igualmente marcadas pela dureza da travessia e pela esperança de reconstruir a vida, ensinou-lhe que a colonização no sul do Brasil só era possível porque ninguém caminhava sozinho.

Cada árvore derrubada parecia um monumento erguido contra a própria adversidade. Cada tora arrastada pelo barro, sob sol ou chuva, era um lembrete de que nenhum deles havia atravessado o oceano para se render. E cada broto plantado na terra recém-limpada — milho, trigo, feijão, videiras ainda frágeis — tornava-se um gesto de afirmação: estavam vivos, estavam presentes e pertenciam àquele chão novo e indomado.

Na união entre os imigrantes, Domenico percebeu que o Brasil os moldava tanto quanto eles moldavam a terra. Era um pacto tácito entre homens e floresta, entre passado e futuro. E, dia após dia, as raízes que lançavam no solo da Colônia Dona Isabel começavam a se entrelaçar com as raízes que haviam deixado para trás na província de Treviso, criando uma nova história — deles, e de todos que chegariam depois.

Quando finalmente ergueu sua primeira casa de madeira, Domenico chorou sem pudor, como alguém que, depois de longa tempestade, avista um pedaço de céu limpo. A construção não tinha beleza: as tábuas eram irregulares, o telhado deixava passar vento pelas frestas, e o chão ainda era terra batida. Também não era grande; mal comportava o fogão improvisado, a pequena mesa de pinho e a cama onde ele caía exausto todas as noites. Mas era dele — fruto de semanas de esforço contínuo, de machadadas que feriam as mãos, de dias escuros em que a saudade da Itália quase o paralisava.

Aquela casa simples tornou-se o símbolo vivo de que a travessia do Atlântico, os medos do porão e as despedidas do Vêneto haviam valido a pena. Era a prova de que nenhum sofrimento tinha sido em vão. Ali, naquele pedaço de terras brasileiras da Colônia Dona Isabel, Domenico sentiu nascer algo que jamais encontrara em San Giovanni: a convicção profunda de que o futuro podia finalmente ser construído com as próprias mãos.

A cada martelada que ouviu ecoar na mata, ele compreendeu que não era apenas uma casa que se erguia, mas uma existência inteira que ganhava forma — uma vida nova, plantada com coragem naquele solo distante do qual começava, pouco a pouco, a sentir-se parte.

E assim, no coração verde do Rio Grande do Sul, Domenico Cavallin deixou de ser apenas um camponês anônimo da província de Treviso, moldado pelas colinas estreitas de San Giovanni e pelas limitações de uma terra que já não lhe prometia futuro. No Brasil, tornou-se mais do que imigrante: tornou-se colono, pioneiro e fundador de um modo de vida que exigia coragem para cada amanhecer e fé para cada noite.

Com o passar dos anos, suas marcas se espalharam pela Colônia Dona Isabel — na roça aberta à força dos braços, nas videiras que insistiam em crescer mesmo sob o clima incerto, nas pequenas sendas que ligavam um lote ao outro, criando uma comunidade onde antes só havia mata densa e silêncio. Cada gesto seu, cada metro de terra domada, cada árvore derrubada para dar espaço à vida, ajudou a transformar aquele núcleo isolado em povoado, o povoado em vila, e a vila em cidade.

Quando os primeiros sinos ecoaram no vale, quando as primeiras colheitas foram celebradas, e quando as crianças da segunda geração começaram a falar português com sotaque de Vêneto, Domenico compreendeu que algo maior havia sido construído — algo que sobreviveria a ele. Sua trajetória, entrelaçada às de tantos outros imigrantes italianos, tornou-se parte da memória eterna que deu origem à futura Bento Gonçalves, erguida sobre trabalho, esperança e sacrifício.

Assim, sem alarde e sem ambição além do necessário, Domenico Cavallin inscreveu seu nome na história de um novo mundo. E o Brasil, que antes lhe parecia apenas destino incerto, transformou-se no lugar onde seu passado encontrou repouso e onde seu futuro — e o de seus descendentes — encontrou raiz.

Nota do Autor 

Esta narrativa é inteiramente ficcional e não representa a biografia real de nenhuma pessoa específica. Os nomes, sobrenomes e locais utilizados — embora comuns na província de Treviso durante o período da grande emigração italiana — foram escolhidos ao acaso e servem apenas para conferir verossimilhança histórica ao enredo. O objetivo deste texto é homenagear a trajetória dos imigrantes que ajudaram a construir a Colônia Dona Isabel e preservar a memória da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

sábado, 22 de novembro de 2025

Sob o Céu da Colônia: A Jornada de um Imigrante Italiano (1879)


Sob o Céu da Colônia: A Jornada de um Imigrante Italiano (1879)

I – O Chamado da Fome e da Esperança

No inverno de 1879, Matteo Ferrarin deixou a vila Ramodipalo, comune de Lendinara no Polesine, às margens do grande rio Pó, com a alma coberta de lama e o corpo esgotado de fome. A enchente daquele ano levara as colheitas, o celeiro e a última razão para ficar. Desde o outono, o correio do vilarejo trazia cartas de parentes que haviam partido antes dele — cartas manchadas de saudade e promessas. Falavam de um lugar longínquo chamado Brasil, onde o governo oferecia terras férteis e liberdade.
Matteo não sabia apontar no mapa onde ficava aquele país, mas a palavra “terra” bastou. Vendera o arado e a mula velha para comprar um casaco usado e um bilhete de terceira classe para o navio “Piemonte”, que partiria de Gênova rumo ao Rio de Janeiro. Ao embarcar, não olhou para trás. Quem o visse naquela manhã não veria um homem: veria uma ideia — a esperança encarnada.

II – O Mar e os Mortos

A travessia durou trinta e seis dias. O convés fedia a carvão, suor e desespero. As crianças tossiam até o sangue, os homens dividiam goles de água morna, e as mulheres rezavam. Matteo dormia no chão de madeira, entre cordas e barris. A quase cada amanhecer, o mar recebia um corpo, e o sino do navio soava em lamento.
Certa madrugada, um berço improvisado embalou um recém-nascido enquanto, no mesmo instante, dois homens eram lançados ao oceano envoltos em lençóis. Matteo aprendeu ali a primeira lição do Novo Mundo: a vida e a morte viajavam lado a lado.
Houve um dia, no meio da neblina, em que o vapor pareceu parar sobre as ondas. Do alto do mastro, um marinheiro gritou: “Terra!”. O navio inteiro se levantou. Era o porto do Rio de Janeiro, um cenário de montanhas azuis e luzes refletidas nas águas. Muitos choraram; outros se calaram, incapazes de acreditar que ainda respiravam. Mas para Mattio a viagem deveria continuar com outro navio em direção ao sul.

III – O Sul Prometido

No cais de Rio Grande, Matteo e os demais foram recebidos por funcionários do Império. Deram-lhes pão, água e um pedaço de papel com o nome do destino: “Colônia Dona Isabel, Província de São Pedro do Rio Grande do Sul”.
Após alguns dias hospedados num grande alojamento de madeira rústica, embarcaram novamente — agora num pequeno vapor chamado Guimarães, que os levaria contra a correnteza do rio Guaíba, na Lagoa dos Patos, e depois pelo rio Caí. O cheiro da água doce, a lentidão do barco, a chuva constante: tudo parecia mais distante do que o mar.
Quando o Guimarães ancorou em Montenegro, a terra firme parecia tremer. Ali terminava o caminho das águas. O resto da jornada seria feito a pé e em grandes carroças puxadas por mulas. As mulheres grávidas e as crianças pequenas iam nas carroças; os homens, como Matteo, abriam picadas na mata com facões fornecidos pelos funcionários da emigração que os acompanhava.

A Colônia Dona Isabel ficava a pouco mais de um dia de viagem de onde desembarcaram. O barro engolia os passos, os mosquitos feriam a pele, e o silêncio da floresta era quebrado apenas pelo estalo dos troncos e o ranger das rodas. À noite, dormiam sob as estrelas — um céu tão escuro e profundo que parecia outro mundo. Matteo passou a chamar aquele caminho de “estrada da provação”.

IV – O Lote 83

Quando finalmente chegaram ao destino, foram levados a uma clareira recém-aberta. Um homem de chapéu e casaco negro — um agrimensor brasileiro — leu uma lista e chamou o nome de cada família. A cada nome, uma estaca de madeira era fincada no chão.
Matteo recebeu o lote número 83. Olhou ao redor: uma colina coberta de mato, pedras, árvores e até um pequeno rio. Nenhum sinal de estrada, de vizinho, de pão. Apenas floresta. O intérprete, um genovês que falava um português arrastado, disse-lhe:
— Tuto ghe ze, tuto ze tuo. Tudo o que há, é teu.
Matteo compreendeu: o Brasil não era a terra prometida, mas o inferno que se devia conquistar com as próprias mãos.

V – A Casa de Troncos

Os meses seguintes foram de solidão e chuva. Matteo construiu uma cabana com troncos e galhos cortados à machado. Dormia sobre folhas secas, comia o que caçava e o que o mato dava. Aprendeu a reconhecer o som das cobras, a cor das frutas e o cheiro das tempestades.
Certa manhã, encontrou um vizinho lombardo, Luigi Bellato, que o ajudou a fazer a cobertura de folhas de palmeiras, Em troca, Matteo ofereceu metade de um porco do mato que havia conseguido caçar em uma arapuca improvisada. Assim nasceu a fraternidade dos esquecidos.
Quando o inverno chegou, o frio da serra quase o matou. Foi então que a solidariedade salvou vidas: mulheres friulanas e tirolesas se reuniram para fazer pão e sopa de pinhões; homens se juntaram para abrir um caminho de terra que ligava os lotes até a sede. Daquela união nasceu a primeira comunidade da colônia Dona Isabel.

VI – A Semente do Futuro

No segundo ano, Matteo abriu o primeiro pedaço de terra para o plantio. Guardava ainda, embrulhados num lenço, os grãos de milho e feijão que trouxera da Itália — a última herança da terra natal. Plantou-os em silêncio, como quem reza.
Quando brotaram os primeiros talos, chorou. Não era só o milho que nascia: era a certeza de que, apesar de tudo, a vida continuava.
Ao redor, outros faziam o mesmo. O som dos machados, das enxadas e das vozes formava uma música áspera, mas bela. Entre os pinheiros e os vales, a colônia começava a existir.

VII – O Homem que Ficou

Matteo envelheceu sem nunca retornar à Itália. O tempo fez dele um colono respeitado, embora pobre. Nas noites de inverno, ao lado do fogo, contava aos recém-chegados a história do navio Guimarães, da floresta e da chuva.
Morreu numa manhã fria, diante do mesmo campo que plantara quarenta anos antes. Sobre sua tumba simples, os filhos escreveram:

“Qui riposa Matteo Ferrarin. Vignesto per sercar tera e el ga trovà el mondo.

Aqui repousa Matteo Ferrarin. Veio buscar terra e encontrou o mundo.

Epílogo

Hoje, onde antes havia mata, há vinhedos, igrejas e estradas. Ninguém se lembra do velho Matteo, mas cada videira que cresce entre as pedras carrega algo do seu suor.
E sob o céu da colônia — o mesmo céu que o recebeu em 1879 — a terra vermelha ainda fala o idioma dos primeiros que a amaram. 

Nota do Autor

Os nomes e alguns detalhes desta narrativa foram alterados para preservar a identidade das famílias envolvidas. No entanto, a história de Matteo Ferrarin é verdadeira — reconstruída a partir de cartas originais escritas por imigrantes italianos do final do século XIX, hoje conservadas no acervo de um museu histórico do Rio Grande do Sul.
Essas cartas, redigidas em dialetos do Vêneto, Friuli e Lombardia, são testemunhos de uma época em que milhões de italianos deixaram a sua terra natal movidos por fome, esperança e fé. Cada linha carrega o peso de um adeus e a força de um recomeço.
A trajetória de Matteo representa a de tantos outros colonos que cruzaram o Atlântico em busca de dignidade, enfrentaram a selva do sul do Brasil e transformaram a dor em herança. Sob o mesmo céu que os acolheu, permanece viva a memória dos que, como ele, vieram procurar terra — e encontraram um novo mundo.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Do Vêneto à Serra Gaúcha: a jornada de Carlo Bernardini e o início da Colônia Caxias – 1890

 


Do Vêneto à Serra Gaúcha: a jornada de Carlo Bernardini e o início da Colônia Caxias – 1890


A Travessia de Carlo Bernardini

Quando o navio cruzou o Atlântico e o horizonte começou a se apagar sob o peso das nuvens, Carlo Bernardini entendeu que a vida antiga havia terminado. Maser, o vilarejo de colinas e neblinas na província de Treviso, ficava para trás como um quadro guardado na memória. No outono de 1887, abandonara a terra natal com o coração dividido entre a necessidade e a esperança. A Itália, unificada há pouco, era uma promessa quebrada; o solo empobrecido, o trabalho escasso, o pão medido em fatias. A América, ao contrário, era um rumor distante — o país onde se dizia que o trigo brotava sem pedir licença e o governo entregava terra a quem tivesse coragem de lavrá-la.

Três anos depois, no alto da serra do Rio Grande do Sul, Carlo aprendera a suportar o peso dos dias. Trabalhava para o governo, abrindo picadas e demarcando os terrenos que seriam destinados aos imigrantes. O engenheiro responsável — um brasileiro de fala pausada e modos firmes — reconhecera em Carlo um homem de confiança, e por isso intercedeu unto ao governo que lhe concedeu um lote à beira da estrada principal da Colônia Caxias. Era um pedaço de terra rude e fértil, onde o mato se erguia até o peito e o ar cheirava a resina.

Carlo construiu ali uma casa simples, de madeira escura, e cada tábua pregada era um gesto de renascimento. Trabalhava desde o romper do dia, recebendo cinco florins por jornada — o suficiente para manter o corpo de pé e o espírito em paz. Com o pouco que ganhava, comprou duas vacas e um cavalo, sinal de que o tempo começava a recompensá-lo. O governo prometera novos pagamentos, e ele esperava pelo próximo como quem espera a colheita depois da seca.

A solidão era a única coisa que o dinheiro não comprava. Nas tardes em que a chuva descia grossa sobre o vale, Carlo sentava-se diante da janela e olhava o caminho lamacento por onde, de tempos em tempos, passavam tropeiros, colonos e carroças cobertas. A ausência dos pais lhe pesava como pedra no peito. Sonhava em vê-los chegar, velhos e curvados, trazendo consigo o cheiro da terra vêneta e o calor das vozes familiares.

O Brasil, aos seus olhos, era um mundo novo e indecifrável. As florestas pareciam intermináveis, e os sons da mata — pássaros, insetos, o estalo dos galhos — lembravam-lhe que estava longe de tudo o que conhecia. Ainda assim, havia uma força secreta naquela solidão. O trabalho constante, o suor e o cansaço faziam-no sentir parte da paisagem. A cada árvore derrubada, a cada cerca erguida, Carlo via nascer não apenas uma colônia, mas uma civilização.

Os colonos que chegavam de outras partes da Itália traziam histórias parecidas: fome, dívidas, despedidas. Todos falavam com o mesmo sotaque cansado e o mesmo brilho de obstinação nos olhos. Juntos, transformavam o mato em lavoura, as picadas em estradas, os barracos em vilas. O nome “Caxias” começava a ganhar sentido — símbolo de uma nova vida construída sobre o esforço de quem não tinha nada além das próprias mãos.

Com o passar dos meses, a colônia se organizou. A estrada principal virou o eixo da vida comunitária: ao longo dela, surgiram a venda, a ferraria, a igreja de madeira e, mais tarde, a escola. Carlo era visto como um dos pioneiros — um homem que aprendera a lidar com as ferramentas do governo e com a dureza da terra. O engenheiro Brito, seu superior, elogiava-lhe a disciplina e a fé.

Apesar do progresso, a saudade nunca o abandonou. Nas noites de verão, quando o vento trazia o cheiro úmido da floresta, Carlo recordava o som dos sinos de Maser e a voz da mãe chamando da porta. Sonhava que, um dia, poderia juntar dinheiro suficiente para trazê-los. Imaginava o pai caminhando pela estrada de Caxias, espantado com a vastidão da América, e a mãe chorando de emoção diante da casa que o filho erguera com as próprias mãos.

O tempo, no entanto, seguia implacável. As cartas que mandava à Itália demoravam meses, e muitas não recebiam resposta. Ainda assim, ele escrevia, movido por um dever silencioso: o de manter viva a ponte entre o velho e o novo mundo. Em cada linha, descrevia os vales, o trabalho, a esperança de que um dia todos se reuniriam sob o mesmo teto.

Quando o outono de 1890 chegou, Carlo percebeu que o Brasil já o transformara. Não era mais o camponês de Maser, mas um homem endurecido pela distância e pelo destino. Os calos nas mãos eram suas medalhas; o campo que arava, seu testamento. Olhava a colônia e via crianças correndo, mulheres amassando pão, homens carregando madeira — a prova de que o sacrifício não fora em vão.

Naquela terra distante, Carlo encontrou mais do que trabalho: encontrou sentido. A solidão dera lugar à certeza de pertencer a algo maior. A Colônia Caxias, ainda jovem e coberta de mato, tornava-se um pedaço de Itália fincado no coração do sul.

Sob o céu avermelhado do entardecer, Carlo Bernardini ergueu os olhos e pensou que talvez o futuro começasse ali — no ponto exato em que o cansaço e a esperança se encontravam.

Nota do Autor

Esta narrativa é uma obra de ficção histórica, construída a partir de fatos, datas e emoções reais contidas em antigas cartas de emigrantes italianos do Vêneto, hoje preservadas em acervos museológicos do Rio Grande do Sul.

Embora os nomes e alguns detalhes tenham sido alterados, o enredo segue de perto as experiências relatadas por esses pioneiros que deixaram Maser e outras pequenas vilas de Treviso em direção às matas e vales da Colônia Caxias, no final do século XIX.

Trata-se, portanto, de uma recriação literária — uma tentativa de dar voz a homens e mulheres anônimos que transformaram o exílio em pátria e a saudade em herança. Suas palavras, escritas há mais de um século, continuam a atravessar o tempo, lembrando-nos que a história da imigração italiana no Brasil não é feita apenas de datas, mas de silêncios, distâncias e esperanças.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Dal Vèneto a la Serra Gaúcha: La Zornada de Carlo Bernardini e el Scomìnsio de la Colònia Caxias – 1890 CORRIGINDO

 


Dal Vèneto a la "Serra Gaúcha": la zornada de Carlo Bernardini e el scomìnsio de la Colónia Caxias – 1890

Quando el bastimento el ga traversà l’Atlántico e l’orisonte el se scoverse soto le nèbie pesà, Carlo Bernardini capì che la vita vècia la zera finì. Maser, el paeseto de coline e de nèbia in provìnsia de Treviso, restava drio de luse, come un quadro consomà dal tempo. In autono de 1887, lu avea lassà la so tera con el cuor spacà tra la misèria e la speransa.
L’Itàlia, che da poco la zera fata unita, no zera gnanca pì un sònio: tera poca, fame tanta, e el pan contà. Ma l’Amèrica, al contràrio, la se disea che la iera ’na tera de promesse, ndove el grano el nasséa sensa dificoltà e el Governo regalava tera a chi che gavéa el corio de lavorarla.

Tre ani dopo, su l’alture frede dei  monti del Rio Grande do Sul, Carlo l’avea imparà a portar su la pena del zorno. El laorava par el Governo, taiando la foresta e segnando i loti par i coloni novi. El capi ingegnere, un brasilian de modo fermo e parola lenta, l’aveva vardà che Carlo el zera un omo de fidùssia, e ghe gavea solicità per l´aministrassion de la Colònia de Caxias darghe un peso de tera lungo la strada granda.
Lì, tra i pini e el fumo de le prime foghere, Carlo l’alzò la so césa de tavole scure, e ogni martelà iera come un fià de vita nova. El lavorava da la matina fin che calava el scuro, guadagnando cinque fiorin al zorno — quanto bastava par viver e no morir de fame. Co’ quei pochi schei, el comprò do vacche e un caval, segno che la sorte, forse, la ghe faseva el primo sorriso.

El Brasile, par lù, iera un mistero che profumava de resina e de speransa. El mato se alzava fino al peto, el silensio de la selva el iera vivo come un respìro. Ogni albero butà zo, ogni pala infìssa ne la tera, iera un atto de fede.
Carlo sentiva che ’sto mondo novo, benché duro, ghe stava cambiando l’ànima.

La solitùdine la iera ’na compagna fedele. Ne le sere de piova, sentà davanti a la finestra, el vardava la strada de fango dove passava qualche caròssa o i altri emigranti che venìa dai altri paesi del Vèneto.
El pensiero del pare e de la mare el ghe serava el peto. El sognava de vedarli rivar, stanchi e curvi, portando co’ lori el odor de la tera e la vòs del campanile.

El Brasil ghe pareva un paese sensa fine. Ma sotto quel ciel tanto lontan, el sentiva ’na forsa nova che ghe teneva in piè. El lavor continuo, el sudore, la fadiga, iera diventai la so preghiera.
Con i altri coloni, che rivava da Treviso, Belluno e Vicenza, el metéa insieme speranse e mani. De mato fazéa campo, de pietra fazéa casa. Caxias, pian pian, diventava ’na parola con sentido, ’na patria che naséa nel silensio.

El tempo passava, e la colònia la se sistemava. Lungo la strada granda se fazéa la venda, la ghe se alzava la gleisa, la scola, la ferraria.
Carlo, che el lavorava par el Governo, l’era vardà come un pionèr, un che sapeva tegnér su el cor anche ne le giornàe più nere.
L’ingegnere Brito, el so caposuperiore, el diseva che in quel vèneto ghe iera più corajo che in dezena de brasiliani.

Ma la nostalgia no lo molava mai. Ne le noti de estate, co el vento portava l’odor umido del mato, Carlo rivedeva la nèbia de Maser, i sò campi, el fogo ne la casa. El sognava che, un dì, i genitori i rivasse anca lori, e che la mare la piangesse de contentessa vardando la casa nova che el fiol gaveva fato co le man.

Le letare le partiva ogni tanto, ma poche le rivava in tera. El sapeva che le parole, qualche volta, le se perdeva tra i monti e i mari. Ma el scriveva lo stesso, perché scrìvar iera come respirar. El ghe contava de la vita de Caxias, de la tera che rendeva, de la speransa de rivédarse tuto un giorno.

In autun del 1890, Carlo capì che el Brasile lo gaveva fato novo.
No iera più el contadin povero de Maser, ma un omo temprà da la fadiga e da la lontanansa.
I calli ne le man iera la so gloria, la tera lavoràa el so orgoglio.
E vardando i fioi de altri coloni che coréa tra le case nove, el sentiva che el sacrificio so no iera sta invano.

Soto quel ciel rosso de sera, Carlo Bernardini alzò el sguardo e capì che forse el futuro el naséa lì — proprio nel ponto dove la fadiga e la speransa se tocava.

Nota del Autor

’Sta stòria la ze ’na fission stòrica, ma nassesta sora le parole vere de emigranti veneti che, tra el fin del sècolo XIX, i scrivea da le colonie del Rio Grande do Sul.
Le so lètare, incoi custodì in musei e archivi, le conta la fadiga, la lontanansa e la fede de chi che i ga lassà Maser e le contrade de Treviso par trovar vita nova tra i monti e i vali de Caxias.

I nomi i ze stà cambià, ma l’ànima de la stòria la resta vera. L’intento de ’sto raconto el ze de far parlar ’na altra volta ancora quei òmeni e quei done che, con le man rote e el cuor pien de speransa, i ga fato del silénsio ’na pàtria e de la misèria ’na eredità.
Le so vose, scrite sora carta descolorà dal tempo, le resona ancora tra ’sti monti — come ’na preghiera che no se desmentega mai.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Raízes e Resiliência: A Jornada das Mulheres Italianas na Emigração para a França


Raízes e Resiliência 
A Jornada das Mulheres Italianas na Emigração para a França


Devido à sua proximidade geográfica com a Itália, a França logo se tornou um dos principais destinos para os emigrantes italianos que buscavam melhores condições de vida. Essa jornada frequentemente significava abandonar o lar e a família em busca de novas oportunidades.

Embora a participação feminina nesse processo migratório tenha sido significativa, ela foi amplamente negligenciada pela narrativa oficial da emigração italiana, que tradicionalmente enfatiza as experiências masculinas. Muitos estudos focam na trajetória dos homens que emigraram sozinhos, deixando em segundo plano a contribuição das mulheres. Entretanto, é crucial reconhecer que as mulheres desempenharam papéis essenciais, tanto como companheiras dos maridos que se estabeleceram no exterior quanto como gestoras das responsabilidades domésticas e financeiras na ausência deles.

Durante o período de emigração, as mulheres italianas assumiram tarefas essenciais, como cuidar das crianças, dos idosos e dos interesses econômicos da família. Algumas, no entanto, também decidiram partir, motivadas por fatores que iam desde a necessidade de sustentar suas famílias até o desejo de conquistar independência econômica. Na França, essas mulheres mostraram uma incrível capacidade de adaptação, ocupando empregos variados, desde o trabalho doméstico e atividades sazonais na agricultura até posições na indústria têxil. Seu papel foi fundamental para o bem-estar e a estabilidade de suas famílias.

A contribuição das mulheres italianas para a formação das comunidades ítalo-francesas foi marcante e duradoura. Estudos históricos e análises documentais revelam o impacto dessas mulheres no enriquecimento cultural e na construção de sociedades mais inclusivas. Além disso, as redes de apoio social e familiar desempenharam um papel essencial nesse contexto, ajudando as migrantes a encontrar trabalho e manter os laços com suas origens.

Ao longo do final do século XIX e início do século XX, o cenário econômico na França favoreceu a presença das mulheres italianas, especialmente em funções que preenchiam lacunas no mercado de trabalho. Enquanto a Itália rural enfrentava crises agrárias e falta de oportunidades, a França necessitava de mão de obra, sobretudo após a Primeira Guerra Mundial, quando a escassez de trabalhadores homens se tornou um desafio significativo.

Outro aspecto relevante é a migração feminina independente. Embora muitas mulheres emigrassem acompanhadas de suas famílias, havia também aquelas que partiam sozinhas em busca de trabalho. Essas mulheres geralmente ocupavam posições em servios domésticos ou indústrias urbanas, enfrentando condições de trabalho muitas vezes difíceis e vivendo em acomodações precárias. Contudo, sua presença desafiava os padrões tradicionais de gênero, destacando coragem e resiliência.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as mulheres ítalo-francesas também tiveram um papel significativo na resistência à ocupação nazista. Elas atuaram como mensageiras, colaboradoras em redes clandestinas e fornecedoras de abrigo para perseguidos, reafirmando seu papel como agentes ativos em momentos históricos cruciais.

As experiências dessas mulheres também contribuíram para mudar as percepções sobre o papel feminino na sociedade. Ao assumirem novas responsabilidades fora do lar, elas influenciaram, ainda que de maneira indireta, o pensamento sobre direitos das mulheres e igualdade de gênero.

A emigração feminina italiana para a França é um capítulo essencial da história da migração europeia. Ela destaca o papel vital dessas mulheres na formação de comunidades italianas na França e na construção de uma história mais inclusiva e plural. Seu legado merece ser amplamente reconhecido e estudado, pois é um testemunho poderoso de sua contribuição à diversidade cultural e às transformações sociais em escala global.



quinta-feira, 8 de agosto de 2024

O Fluxo Migratório Italiano: Uma Jornada Transoceânica


"Deixo minha casa, deixo o país e vou para a América para capinar. Parto em busca da fortuna e há um mês não vejo mais terra: só céu e mar.  Deixo minha casa, a bela Itália, para ir tão longe, em terra estrangeira. E sob um outro céu e uma outra estrela levo os filhos e a mulher para lá começar com melancolia pensando no campo onde nasci, naquela velha e santa mãe e em todas as coisas queridas do passado...”  Assim escreveu um emigrante italiano durante a viagem, ainda no navio.

De acordo com o pesquisador e escritor Delisio Villa, autor do conhecido livro Storia dimenticata: "O ano de 1860 é considerado o ano zero da emigração italiana". 
Nesse ano, começa a longa jornada dos italianos em busca de novos espaços, na Europa e na América. Uma fotografia precisa da situação da Itália nos últimos anos do século XIX, região por região, das condições de vida da maior parte dos italianos, podemos conhecer no chamado Relatório Jacini, uma abrangente pesquisa nacional realizada pelo parlamento italiano, da situação agrária do país publicada entre 1881 e 1890. Este documento oficial diz que: 
"Nos vales dos Alpes e dos Apeninos, e também nas planícies, especialmente no sul da Itália, e até mesmo em algumas províncias entre as mais bem cultivadas do norte da Itália, surgem barracos onde em um único cômodo enfumaçado e sem ar e luz vivem juntos homens, cabras, porcos e galinhas. E esses barracos podem ser contados talvez em centenas de milhares¨.
Uma análise das causas subjacentes à vasta migração transoceânica ocorrida entre 1880 e 1914 revela uma gama diversificada de fatores. Simplificando, o movimento migratório foi impulsionado por uma combinação de mudanças demográficas, como a redução da taxa de mortalidade e a estabilização da taxa de natalidade após 1870, e fatores econômicos, destacando-se a crise agrícola dos anos 1880, que resultou em escassez de alimentos e uma crise econômica substancial.
No entanto, a principal motivação para a migração maciça foi a incapacidade dos camponeses em adquirir capital líquido, o que levou grandes contingentes a empreender a perigosa travessia oceânica em busca de oportunidades. Esses eventos, combinados com a imposição de tributos sobre a farinha, cujo não pagamento poderia levar ao confisco das propriedades, resultaram em um êxodo em massa das áreas rurais.
Para contextualizar, entre os anos de 1875 e 1881, aproximadamente 61.831 pequenas propriedades no campo foram confiscadas, e entre 1884 e 1901 outras 215.759 pequenas propriedades rurais enfrentaram o mesmo destino desafortunado.
Este retrato sombrio por si só evidencia que os fatores que impulsionaram a migração superavam em peso os fatores de atração. O movimento migratório não encontrou barreiras significativas por parte das elites da época, as quais, pelo contrário, acolheram com alívio uma emigração que servia como uma válvula de escape para manter a estabilidade social. 
Naturalmente, houve oposição à emigração, sobretudo por parte dos proprietários de terras, preocupados com a diminuição visível da mão de obra devido ao êxodo, o que poderia levar a aumentos salariais e a condições de trabalho mais favoráveis aos camponeses. No entanto, a favor da emigração, houve um movimento crescente liderado pelos armadores genoveses, proprietários das grandes companhias italianas de navegação da época, agindo em comum acordo com países que procuravam desesperadamente mão de obra em toda a Europa.
Este breve relato do relatório Jacini ilustra a dureza e a dificuldade da vida na Itália naquele período e a mentalidade que os italianos deviam ter diante dessa situação. A difícil situação interna e a percepção de que a Itália oferecia poucas perspectivas levaram milhões de italianos a deixar sua terra natal em busca de novos horizontes. A situação interna estava muito difícil, com falta de trabalho de norte a sul do país, com a fome rondando os lares mesmo na área rural. Assim começou um processo que ao longo de um século levaria milhões de italianos a se estabelecerem em diversas partes do mundo.
Quanto às regiões de origem dos emigrantes e aos destinos para os quais os italianos se dirigiram, os padrões de migração variaram ao longo do tempo e geograficamente. As regiões do Norte foram as primeiras a sentir os efeitos das intempéries, da importação de cereais de outros países, dos diversos impostos que gravavam impiedosamente os mais desprotegidos, da industrialização que dava os primeiros passos, enquanto áreas como o Nordeste e o Sul testemunharam fluxos migratórios mais substanciais. O atraso da emigração do sul em relação ao norte pode ser atribuído a vários fatores, incluindo a gradual participação na migração e a falta de recursos financeiros para enfrentar as viagens.
Em relação aos destinos, entre 1876 e 1885, a Europa Central, principalmente França, Áustria, Alemanha foram as principais metas escolhidas, representando cerca de 64% dos emigrantes. Posteriormente, com o persistir das condições adversas na Itália, os destinos transoceânicos, como Brasil, Argentina e Estados Unidos, ganharam mais peso. Após a Primeira Guerra Mundial, a emigração no continente europeu voltou a predominar, devido em parte às restrições impostas por alguns países receptores, como os Estados Unidos.
No Brasil, especialmente, houve uma grande afluência de italianos a partir do final do século XIX até meados do século XX. Estes imigrantes buscavam aqui melhores condições de vida do que as encontradas em suas terras de origem. Muitos desembarcaram nos portos de Santos, Rio de Janeiro e Paranaguá, cada um trazendo consigo uma história singular, mas todos unidos pelo desejo comum de encontrar um lugar onde pudessem viver dignamente e oferecer um futuro melhor para suas famílias.
A imigração italiana no Brasil em si teve início em 1874 tendo como destino o estado do Espírito Santo que recebeu a primeira leva de italianos e ao longo de um século trouxe cerca de um milhão e meio de italianos para os portos brasileiros.