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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O Impacto Emocional e os Desafios da Emigração Italiana para o Brasil


O Impacto Emocional e os Desafios da Emigração Italiana para o Brasil


A experiência migratória italiana do final do século XIX raramente era acompanhada de preparo psicológico ou orientação adequada. Falava-se muito das causas da partida — a pobreza crescente, a falta de terras, o esgotamento das possibilidades no campo — e também das promessas feitas por intermediários e agentes, que apresentavam o ultramar como solução definitiva para todas as carências. No entanto, pouco se refletia sobre o impacto humano mais profundo dessa decisão. Migrar era visto como um gesto quase natural, um deslocamento físico, sem que se considerassem as marcas emocionais que acompanhariam quem partia.

Hoje se compreende que a emigração não significou apenas uma mudança geográfica, mas uma ruptura na biografia de cada indivíduo. Muitos partiram imbuídos de esperança, mas sem perceber que deixavam para trás redes de afeto, hábitos enraizados, paisagens familiares e a memória viva de seus vilarejos. A decisão raramente vinha acompanhada de preparação interior: acreditava-se que a simples perspectiva de uma vida melhor resolveria todas as dores, quando, na verdade, era apenas o início de um processo complexo de perda e reconstrução.

Somava-se a isso a desinformação. A imagem do Brasil circulava em folhetos, conversas e relatos fragmentários, quase sempre idealizados. Falava-se de terras férteis e abundância, mas pouco se mencionavam o clima intenso, as doenças tropicais, a exigência de trabalho pesado e as dificuldades de adaptação. O choque entre a promessa e a realidade era brusco e, muitas vezes, doloroso. Não era raro que o entusiasmo inicial cedesse lugar à frustração silenciosa.

A barreira da língua ampliava esse sentimento. Muitos italianos falavam apenas seus dialetos locais; ao chegar, encontravam o português — distante e estranho. A impossibilidade de se expressar plenamente criava isolamento e insegurança, limitava o acesso a serviços e dificultava a defesa de direitos. Dentro das colônias, o uso do dialeto tornava-se abrigo, mas também reforçava a percepção de distância do novo país.

Nessa travessia entre mundos, a identidade também se transformava. O emigrante já não era inteiramente aquilo que fora em sua terra, mas tampouco se reconhecia ainda como parte do lugar de chegada. Vivia em um espaço intermediário — uma espécie de fronteira interior — que provocava inquietação constante. A saudade não era um sentimento ocasional, mas presença diária que se infiltrava nos gestos, nas lembranças e nos silêncios.

As famílias, por sua vez, passavam por mudanças profundas. Papéis se alteravam, responsabilidades se redistribuíam, e muitas vezes a promessa de prosperidade tardava a se realizar. Havia cansaço físico, angústia pela incerteza e um senso de dever que nem sempre conseguia silenciar a nostalgia. Entre os mais jovens e os mais velhos, em especial, surgiam formas de sofrimento que hoje se reconheceriam como efeitos emocionais da ruptura com o lugar de origem.

Também o ambiente contribuía para acentuar essas tensões. O trabalho exaustivo na lavoura, o calor intenso, as doenças endêmicas e a precariedade dos primeiros anos na colônia colocavam os emigrantes diante de uma realidade bem diferente do que haviam imaginado. Alguns recorriam ao álcool; outros se recolhiam em silenciosa tristeza; outros ainda se amparavam na fé.

Frente a tudo isso, as comunidades encontraram meios de recompor o sentido de pertença. Igrejas, capelas, associações de auxílio mútuo, festas tradicionais e o próprio campanário repetido nas novas paisagens funcionavam como pontes invisíveis com a terra deixada para trás. Reconstruir símbolos, preservar o dialeto, compartilhar memórias e rezas era uma forma de dizer que, embora tivessem partido, não estavam totalmente desenraizados.

Assim, percebe-se que a emigração italiana não foi apenas deslocamento físico rumo a novas terras, mas uma travessia interior complexa, feita de saudade, esperança, perdas e reinvenção. A preparação para esse processo quase não existia; ela foi sendo construída na prática, no esforço diário de sobreviver, adaptar-se e recriar, no Novo Mundo, fragmentos da vida que ficara para trás.

Nota explicativa

Este texto aborda os aspectos emocionais, psicológicos e sociais vivenciados pelos emigrantes italianos que se dirigiram ao Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX. Diferentemente das análises centradas apenas nas causas econômicas da partida ou nas condições materiais das viagens, a reflexão aqui desenvolvida destaca sentimentos de ruptura, saudade, insegurança, choque cultural e processos de adaptação à nova realidade. O objetivo não é idealizar ou dramatizar a experiência migratória, mas ampliar a compreensão desse fenômeno, considerando também suas dimensões humanas, identitárias e afetivas, muitas vezes pouco registradas pelas fontes históricas tradicionais.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta





domingo, 18 de janeiro de 2026

Da Fome no Vêneto aos Cafezais de Piracicaba a Saga de uma Família Italiana no Brasil (1882)



 Da Fome no Vêneto aos Cafezais de Piracicaba a Saga de uma Família Italiana no Brasil (1882)

Sob o peso de um céu baixo e invernal, a planície do baixo Pó parecia conter a respiração. Ali, entre Bressane, em Castelguglielmo, e a localidade de Corà, no município de Bagnolo di Po, a vida seguia um ritmo antigo, marcado mais pela escassez do que pela esperança. Lorenzo crescera nesse mundo de campos alugados, mãos calejadas e promessas sempre adiadas. Santina, filha de uma família ainda mais numerosa, aprendera cedo que mesas grandes não significavam fartura, mas partilha silenciosa de migalhas.

Casaram-se na igreja da Natività della Beata Vergine Maria, em Bagnolo di Po, um templo antigo de paredes grossas, erguido para resistir aos séculos e às intempéries. Aquele casamento não fora apenas a união de dois jovens, mas a junção de duas histórias marcadas pela mesma pobreza resignada. Após a cerimônia, instalaram-se na casa dos pais de Lorenzo, onde cada novo dia significava mais uma boca a alimentar e menos pão a dividir.

Giuseppe nasceu primeiro, trazendo consigo uma alegria tímida, quase contida, como se até a felicidade precisasse pedir licença. Quase dois anos depois veio Francesco, e com ele a certeza de que o frágil equilíbrio daquela família de camponeses arrendatários havia se rompido. O trabalho tornara-se raro no campo vêneto, e quando surgia era mal pago. As dívidas com o proprietário da terra cresciam como uma sombra persistente, acumulando-se num ritmo impossível de ser vencido.

A Itália, recém-unificada, ainda não conseguira cumprir as promessas de dignidade feitas aos seus filhos. Do norte ao sul, o valor do trabalho caía, enquanto a fome avançava pelos casebres mal conservados. A pelagra deformava corpos e destinos, e a mortalidade infantil rondava como uma presença constante, silenciosa e cruel. Nesse cenário, a emigração deixou de ser um sonho distante para tornar-se a única saída plausível. Era comentada nos adros das igrejas, recomendada por párocos como Don Felice, discutida em sussurros nas casas humildes de Castelguglielmo e arredores.

Em 1882, Lorenzo e Santina compreenderam que permanecer significava definhar. A decisão de partir amadureceu entre noites insones e contas impagáveis, até tornar-se inevitável. A despedida foi dilacerante. Os avós choraram como quem enterra o futuro, certos de que jamais tornariam a ver os netos. O adeus carregava a gravidade de uma separação definitiva, um corte profundo na carne da família.

Partiram ainda de madrugada, sob um frio cortante e uma fina camada de neve que cobria a terra, caminhando até a estação de trem. O destino era o porto de Gênova, onde os aguardava o Adria, um grande navio de ferro e madeira que simbolizava tanto o medo quanto a esperança. Com a ajuda do pároco e os conselhos do prefeito, amigo antigo da família, Lorenzo conseguiu um lugar na embarcação dentro da cota de transporte gratuito oferecida pelo governo brasileiro, ansioso por braços que sustentassem as vastas plantações de café da província de São Paulo.

A travessia durou mais de trinta dias. Foram semanas de desconforto, doenças e saudade, em porões superlotados onde o ar rarefeito se misturava ao cheiro de sal, suor e resignação. Santina protegeu os filhos como pôde, enquanto Lorenzo se agarrava à ideia de que, do outro lado do oceano, a vida poderia enfim começar de novo.

Quando o Adria aportou em Santos, o calor úmido e o cheiro da terra tropical anunciaram um mundo radicalmente diferente. Representantes da Fazenda Santa Clara aguardavam os recém-chegados. De lá, seguiram para os arredores de Piracicaba, onde extensas fazendas de café se espalhavam até onde a vista alcançava. O trabalho era duro, extenuante, mas havia algo novo: a possibilidade concreta de sobreviver, de alimentar os filhos com regularidade, de sonhar sem culpa.

Os primeiros anos foram de adaptação e resistência. A língua estranha, o clima implacável e a disciplina rígida das fazendas testaram a força daquela família. Ainda assim, Lorenzo encontrou no labor diário uma dignidade que lhe fora negada na terra natal. Santina transformou a precariedade em lar, mantendo vivos os costumes, a fé e a memória da Itália distante.

Com o tempo, Giuseppe e Francesco cresceram entre os cafezais, carregando nos gestos a herança dos campos do Vêneto e, no olhar, a promessa de um futuro brasileiro. A história de Lorenzo e Santina, como a de tantos outros, foi feita de perdas irreparáveis e conquistas silenciosas. Não houve glória, apenas perseverança. E foi essa perseverança que lançou raízes profundas no interior paulista, dando origem a gerações que, décadas depois, ainda sentiriam no sangue o eco daquela partida sob a neve.

A emigração não lhes devolveu o que fora deixado para trás, mas concedeu algo igualmente valioso: a chance de recomeçar. E nesse recomeço, marcado pelo trabalho árduo e pela esperança teimosa, construiu-se um legado que atravessaria o tempo, unindo dois mundos pela memória e pelo esforço de quem ousou partir quando ficar já não era possível.

Nota do Autor

Esta narrativa é uma obra de ficção histórica, construída a partir de cartas, anotações e relatos fragmentários deixados por uma família de emigrantes italianos que optou por permanecer anônima. Os nomes dos personagens, assim como alguns detalhes de ambientação, foram utilizados como licenças literárias, com o objetivo de conferir maior humanidade, fluidez narrativa e identificação emocional ao leitor.

Embora os personagens sejam fictícios, os fatos históricos, o contexto social, as condições da emigração, a travessia marítima e o trabalho nas fazendas de café do interior paulista refletem fielmente experiências reais vividas por milhares de famílias italianas no final do século XIX.

Esta história não pretende substituir o documento histórico, mas dar voz literária à memória coletiva daqueles que partiram sem deixar seus nomes nos livros, mas deixaram sua marca profunda na formação do Brasil. 

Se você, ao ler este texto, sentir de repente o perfume dos cafezais em flor ou o aroma do café sendo coado na cozinha pela mãe ou pela nonna numa manhã fria, então este relato cumpriu o seu propósito. Não deixe de comentar aqui no blog quais recordações essa leitura despertou em sua memória.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Emigração Italiana e Saúde nas Viagens Marítimas (1870–1925) As Doenças, Condições e Travessias


Emigração Italiana e Saúde nas Viagens Marítimas (1870–1925) as 

Doenças, Condições e Travessias

A travessia transoceânica e a saúde dos emigrantes

A emigração italiana em massa para as Américas, intensificada a partir das últimas décadas do século XIX, constituiu não apenas um fenômeno social e econômico de grandes proporções, mas também um grave desafio sanitário. As longas viagens marítimas, realizadas em condições frequentemente precárias, expuseram milhões de emigrantes a riscos elevados de doenças, sofrimento físico e mortalidade.

Os principais dados disponíveis sobre a saúde dos emigrantes durante as travessias transoceânicas provêm das estatísticas do Commissariato Generale dell’Emigrazione e dos relatórios anuais elaborados por médicos e oficiais da Marinha italiana destacados para o serviço de migração. Esses documentos, embora limitados por critérios imperfeitos de registro e por subnotificações evidentes, permitem reconstruir um panorama consistente das condições sanitárias enfrentadas pelos italianos entre 1903 e 1925, tanto nas viagens de ida quanto nas de retorno da América do Norte e da América do Sul.

É necessário ressaltar que os serviços de saúde voltados à emigração encontravam-se, durante boa parte desse período, mal estruturados e insuficientes, tanto nos portos de embarque quanto a bordo das embarcações. Assim, as estatísticas oficiais refletem mais a dimensão geral do problema sanitário do que a incidência real de patologias específicas, que em muitos casos permaneceram invisíveis aos registros formais.

Condições de viagem antes da legislação sanitária

Antes da promulgação da Lei de 31 de janeiro de 1901, que passou a regulamentar de forma mais rigorosa o transporte marítimo de emigrantes italianos, as travessias eram marcadas por condições alarmantes. A duração média da viagem para as Américas ultrapassava frequentemente trinta dias, realizados em porões superlotados, com ventilação insuficiente e padrões mínimos de higiene ignorados.

Um médico da época sintetizou a situação de maneira contundente ao afirmar que, no transporte de emigrantes, “a higiene e a limpeza estavam em permanente conflito com a especulação econômica: faltavam espaço e ar”. Essa lógica mercantil, priorizando o lucro das companhias de navegação, contribuiu decisivamente para a disseminação de doenças a bordo.

Alojamento, ventilação e água potável

Os emigrantes eram acomodados em beliches dispostos em dois ou três níveis, organizados em corredores estreitos que recebiam ar quase exclusivamente por meio de escotilhas. A altura entre os beliches era insuficiente: variava de cerca de 1,60 m nos níveis superiores a 1,90 m nos inferiores, comprometendo a circulação de ar e favorecendo ambientes abafados e úmidos.

Nessas condições, tornavam-se frequentes as doenças respiratórias, como bronquites, pneumonias e infecções pulmonares, agravadas pela concentração humana e pela má qualidade do ar.

Outro problema grave dizia respeito ao abastecimento de água potável. A água era armazenada em reservatórios metálicos revestidos internamente por cimento. O constante balanço das embarcações fazia com que o revestimento se deteriorasse, turvando a água. Em contato com o ferro oxidado, o líquido adquiria coloração avermelhada, sendo consumido pelos passageiros sem qualquer processo de destilação ou filtragem, uma vez que muitos navios sequer possuíam destiladores a bordo.

Alimentação durante a travessia

A alimentação fornecida aos emigrantes seguia regulamentos formais que, na prática, poucos compreendiam plenamente, sobretudo devido ao elevado índice de analfabetismo. O regime alimentar alternava entre dias considerados “magros” e “gordos”, com cardápios baseados em café, arroz ou massas.

A composição das refeições variava conforme a origem regional predominante a bordo: emigrantes do norte da Itália consumiam mais arroz, enquanto os do sul recebiam com maior frequência pratos à base de macarrão. Do ponto de vista estritamente nutricional, a ração diária oferecida durante a travessia era, paradoxalmente, mais abundante e equilibradado que aquela a que muitos emigrantes estavam habituados em suas regiões de origem, marcadas pela pobreza extrema e por dietas deficientes.

Limites dos registros sanitários oficiais

Os dados estatísticos disponíveis referem-se exclusivamente às doenças identificadas pelos médicos de bordo ou comissários governamentais, excluindo um número significativo de casos não declarados. Muitos emigrantes evitavam procurar atendimento médico por desconfiança da autoridade sanitária, pelo receio de serem impedidos de desembarcar no país de destino ou de serem internados e repatriados.

Além disso, uma parcela expressiva do fluxo migratório escapava totalmente a qualquer controle sanitário, seja por embarcar em portos estrangeiros, por viajar em navios sem serviço médico regular ou por utilizar modalidades semi-privadas de transporte, frequentemente toleradas pelas companhias de navegação.

Dessa forma, qualquer tentativa de mensurar de forma precisa a situação sanitária da emigração transoceânica com base apenas nas fontes oficiais resulta inevitavelmente em números subestimados, que não refletem a real magnitude dos problemas de saúde enfrentados durante a travessia.

Principais doenças registradas (1903–1925)

Apesar das limitações, as estatísticas de saúde do período revelam a persistência de determinadas patologias, tanto nas viagens de ida quanto nas de retorno. Entre as mais frequentes destacam-se:

  • Sarampo, com alta incidência nas viagens de ida;

  • Malária, particularmente presente nos deslocamentos rumo à América do Norte e do Sul;

  • Escabiose (sarna) e condromatose, mais comuns nas viagens para a América do Sul;

  • Tracomatuberculose pulmonar e, em menor escala, ancilostomíase, predominantes nas viagens de retorno.

A ancilostomíase, por exemplo, praticamente inexistente nos registros das viagens de ida, aparece nos retornos, refletindo as condições sanitárias precárias enfrentadas por muitos emigrantes nas áreas rurais das Américas.

Mortalidade, retorno e seleção migratória

As taxas de morbidade e mortalidade, embora não atingissem níveis catastróficos, mostravam-se mais elevadas nas rotas para a América do Sul, onde predominavam deslocamentos familiares, incluindo crianças e idosos, mais vulneráveis às doenças.

Nas repatriações provenientes da América do Norte, os índices mais elevados estavam associados à tuberculose, ao tracoma e a casos de alienação mental, revelando o desgaste físico e psicológico provocado por anos de trabalho extenuante e condições de vida adversas.

É significativo observar que o fluxo migratório para os Estados Unidos era composto majoritariamente por indivíduos em boa condição física e idade produtiva, resultado tanto de um processo de auto-seleção dos emigrantes quanto dos rigorosos exames médicos impostos pelas autoridades norte-americanas nos portos de entrada, como Ellis Island.

Considerações finais

O estudo dos aspectos sanitários da emigração italiana por via marítima revela uma dimensão frequentemente secundarizada da Grande Emigração: o custo humano da travessia. As doenças, o sofrimento e a precariedade das condições de viagem refletem não apenas limitações técnicas da época, mas também profundas desigualdades sociais e a fragilidade das políticas públicas diante de um fenômeno migratório de massa.

Mesmo incompletas, as estatísticas sanitárias do período constituem uma fonte essencial para compreender a relação entre emigração, pobreza, saúde pública e estrutura social das classes populares italianas entre o final do século XIX e o início do século XX — um legado histórico que ainda ecoa na memória das comunidades descendentes espalhadas pelas Américas.

Nota do Autor

A análise dos aspectos sanitários da emigração italiana por via marítima permite lançar luz sobre uma das dimensões mais silenciosas da Grande Emigração: o impacto direto das condições de viagem sobre a saúde das populações deslocadas. Muito além de um simples deslocamento geográfico, a travessia transoceânica constituiu uma experiência marcada por vulnerabilidades físicas, riscos epidemiológicos e profundas desigualdades sociais.

Ao recorrer a estatísticas oficiais, relatórios médicos de bordo e estudos históricos consolidados, este texto busca contextualizar a emigração italiana no quadro mais amplo da saúde pública entre os séculos XIX e XX. As doenças registradas, as limitações dos controles sanitários e a precariedade estrutural dos navios refletem não apenas os limites técnicos da época, mas também as contradições de um sistema migratório orientado pela lógica econômica e pela exploração da mão de obra.

Compreender esses aspectos é essencial para valorizar a trajetória dos emigrantes e reconhecer o custo humano que acompanhou a formação das comunidades italianas nas Américas, cuja herança cultural permanece viva até os dias atuais.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 10 de janeiro de 2026

Sob o Sol de Santa Teresa no Interior da Província de São Paulo

 


Sob o Sol de Santa Teresa no Interior da Província de São Paulo


Em março de 1889, um homem simples da província de Treviso, chamado Giuseppe Marchetto, tomou a decisão que mudaria para sempre o destino de sua família. Nascido em um pequeno vilarejo agrícola próximo a Conegliano, crescera entre vinhas pobres e campos de trigo que mal sustentavam os seus. A fome, a escassez de terras e a promessa de uma vida melhor empurraram-no para a grande travessia. Carregava consigo a esperança de que o Brasil, distante e misterioso, ofereceria aquilo que sua pátria não podia mais dar: terra e futuro para seus filhos.

Era filho de camponeses que, geração após geração, haviam aprendido a extrair da terra dura e ingrata apenas o suficiente para sobreviver. Ainda menino, Giuseppe conheceu o peso do trabalho árduo sob o sol e a frustração de ver as colheitas minguarem diante das geadas tardias ou da seca implacável. O suor que escorria pelo rosto de seu pai, as mãos calejadas de sua mãe e o vazio constante na mesa familiar eram marcas que moldaram sua infância. O vilarejo onde crescera parecia imóvel, preso ao tempo, como se ali os séculos não tivessem avançado, e as mesmas dificuldades que haviam esmagado seus avós agora recaíam sobre ele.

No entanto, no coração desse homem de poucas posses, nascia uma inquietação que não podia mais ser contida. Giuseppe via seus filhos crescerem com os mesmos olhos famintos que conhecera na própria infância e, no silêncio das madrugadas, alimentava o medo de que o destino deles se repetisse, fechado no mesmo círculo de miséria e renúncias. Cada vez que ouvia histórias sobre terras distantes, sobre navios que cruzavam oceanos levando famílias inteiras rumo ao desconhecido, sentia que a vida o chamava para além das colinas do Vêneto. A América, descrita por cartas que chegavam esparsas de conhecidos já emigrados, ganhava contornos quase míticos: terras vermelhas, férteis, esperando apenas mãos dispostas a cultivá-las.

Decidir partir não foi apenas um ato de coragem, mas também de desespero. Giuseppe sabia que deixava para trás raízes profundas, sepulturas de antepassados, o sino da igreja que ritmara sua vida, a língua e os gestos de uma comunidade que lhe dera identidade. No entanto, carregava consigo algo mais forte que a saudade: a determinação de oferecer aos seus filhos uma chance que ele nunca tivera. E assim, com o coração dividido entre o apego ao solo natal e a esperança depositada em terras desconhecidas, lançou-se à jornada que marcaria para sempre a memória de sua família.

O navio que o trouxe à América foi para ele um purgatório flutuante. O espaço reduzido, o calor insuportável e a presença de centenas de emigrantes comprimidos em condições precárias transformaram a travessia em tormento. Dias seguidos de mares agitados e o sufoco de um ar pesado faziam cada respiração parecer insuficiente. Para as crianças, o suplício era ainda maior: febres, choros incessantes e a falta de alimento adequado enfraqueciam seus pequenos corpos. Giuseppe se culpava em silêncio, acreditando ter condenado os filhos a uma provação que talvez não resistissem.

As horas arrastavam-se como se o tempo tivesse perdido qualquer medida, e a esperança que o sustentava antes do embarque agora se diluía no enjoo, na sede e no medo constante. A água escassa, de gosto salobro, parecia mais um veneno do que alívio, e o pão distribuído, duro e insosso, mal podia ser chamado de alimento. O ar daquelas cabines escuras, carregado do cheiro de suor, vômito e doença, tornava-se insuportável, e muitos preferiam permanecer no convés, enfrentando o vento cortante e a maresia, a sufocar nas entranhas do navio. O som constante das ondas que batiam contra o casco misturava-se ao lamento humano, como se o próprio mar zombasse daquela multidão que ousara desafiá-lo. Giuseppe, ao ver os olhos febris de seus filhos e a palidez crescente de sua esposa, sentia o coração esmagado pela impotência. Cada gemido infantil era para ele uma acusação muda, lembrando-lhe que sua busca por um futuro melhor poderia, ironicamente, selar o fim da própria família.

Quando, após longas semanas, o navio enfim alcançou o porto de Santos, não houve alívio imediato. O desembarque trouxe apenas novas provações. Ali, uma massa de imigrantes, igualmente exaustos, aguardava por respostas e direções que nunca vinham. Amontoados em vagões de trem improvisados, foram levados até São Paulo. O cansaço crescia, assim como a sensação de abandono. Na chamada Casa da Imigração, a multidão era tão densa que a cada passo alguém tropeçava sobre corpos prostrados no chão. O ar era pesado de choro infantil, de gemidos abafados, de mães desesperadas que embalavam crianças febris, enquanto homens se punham contra a parede tentando suportar a impotência. Giuseppe, de olhar fixo e coração dilacerado, passava noites em claro, dividido entre a angústia e o remorso de ter arrastado a família para aquele abismo.

Quatro dias depois, foi enfim transferido para o destino prometido: a Colônia de Santa Teresa, no interior da província de São Paulo. Mas o que encontrou não passava de um cenário de desolação. As casas que lhes haviam sido prometidas não estavam prontas, e 138 pessoas foram obrigadas a se amontoar em uma única construção improvisada. O chão de terra batida mal continha a umidade que escorria pelas paredes, e o ar saturado fazia a sobrevivência quase impossível. Os filhos de Giuseppe começaram a adoecer; as pernas frágeis já não os sustentavam, e os gemidos infantis o feriam mais do que qualquer trabalho forçado. Ele via cada um se debilitar como se a própria vida lhes fosse arrancada dia após dia.

O peso da consciência crescia. As noites eram intermináveis, povoadas pelo choro que ecoava das crianças, pelas preces murmuradas das mães e pelo silêncio pesado dos homens, que se limitavam a esperar. Giuseppe, muitas vezes, deixou-se vencer pelas lágrimas, chorando em segredo como se pudesse, com isso, aliviar a dor de todos. A América, que lhe havia sido pintada como terra de promissão, surgia agora como uma cruel armadilha.

Apesar de tudo, ele não desistiu. Trabalhou a terra hostil, suportou a fome e a doença, agarrou-se à esperança de que os filhos que sobrevivessem pudessem um dia colher frutos diferentes daqueles que lhe haviam sido negados no Vêneto. Sua determinação, alimentada pelo desespero, converteu-se em resistência.

Na Colônia de Santa Teresa, sob o sol inclemente do interior paulista, Giuseppe Marchetto não encontrou o paraíso que lhe haviam prometido. Encontrou, sim, a luta diária pela sobrevivência, marcada por perdas e privações. Mas também descobriu a força de uma gente que, mesmo dilacerada, insistia em plantar raízes em solo estranho.

E foi assim que sua vida, moldada pelo sacrifício, deixou um legado invisível mas duradouro: o testemunho de que o caminho dos imigrantes não se fazia de glória fácil, mas de sofrimento, resiliência e esperança tecida no fio mais tênue da existência.

Com o passar dos anos, quando suas mãos já não tinham a mesma firmeza para trabalhar a terra e seus olhos carregavam a névoa do tempo, Giuseppe encontrava consolo em observar os filhos e netos crescerem sobre aquele solo que antes lhe parecera inóspito. Cada casa erguida, cada parreira que vingava, cada criança que corria livre pelos campos vermelhos era, para ele, a confirmação de que a travessia e a dor não haviam sido em vão. Não havia riqueza acumulada, tampouco monumentos erguidos em sua memória, mas a continuidade da vida — enraizada em um chão antes estranho — era a prova silenciosa de sua vitória. No coração de Giuseppe, o Brasil já não era apenas o destino distante e misterioso que um dia escolhera às cegas: tornara-se o espaço onde sua linhagem aprendera a florescer, entre perdas e renascimentos. E, ao fim, sua história se confundia com a de tantos outros anônimos que, vindos de longe, deixaram atrás de si não apenas descendentes, mas também a marca indelével de coragem diante do impossível.

Nota do Autor

Esta narrativa é uma criação literária, mas suas raízes estão profundamente fincadas na realidade histórica. Os nomes aqui apresentados — Giuseppe Marchetto, sua família e seus conterrâneos — são fictícios, escolhidos para preservar a liberdade narrativa e a fluidez do enredo. No entanto, cada detalhe de sua trajetória, desde a partida na província de Treviso até a adaptação nas terras vermelhas do Brasil, foi inspirado em cartas, registros e documentos autênticos do final do século XIX, hoje preservados em museus e arquivos do interior do estado de São Paulo.

O que o leitor encontra nestas páginas é, portanto, uma recriação fiel do espírito da época: a esperança que impulsionava os emigrantes, o sofrimento vivido nas travessias, as dificuldades da adaptação em um país desconhecido e, sobretudo, a herança silenciosa deixada por homens e mulheres comuns que, em meio a privações, ajudaram a construir os alicerces de uma nova sociedade.

Ao dar voz a personagens inventados, busquei resgatar a memória coletiva dos que não deixaram suas histórias registradas, mas cuja experiência se repete em milhares de famílias descendentes. Este livro é, antes de tudo, uma homenagem a eles — aos imigrantes anônimos que, entre lágrimas e esperanças, encontraram no Brasil o palco definitivo de suas vidas.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O Último Porto: A travessia de Domenico Del Muschio

 


O Último Porto 

A Travessia de Domenico Del Muschio

Buenos Aires, 2 de abril de 1883.

A emigração italiana no final do século XIX

O dia nascia úmido sobre o Rio da Prata. Um vento frio descia das águas largas e cinzentas, arrastando o cheiro de carvão, maresia e esperança. Naquela manhã, Domenico Del Muschio, com vinte e seis anos e a alma envelhecida pela miséria, entendeu que já não havia retorno possível. O mundo de antes — as colinas verdeadas de Castelfranco Veneto, o sino que marcava o meio-dia, o olhar cansado da mãe à soleira da porta — ficara para sempre do outro lado do oceano.

A partida de Castelfranco Veneto

Partira em 14 de março, quando o inverno europeu ainda se agarrava aos telhados e o vento trazia o gosto amargo da pobreza. Levava consigo uma pequena mala de madeira de pinheiro, duas mudas de roupa, um rosário e uma carta do pároco que o recomendava “como homem de boa conduta e disposição para o trabalho”. Ao embarcar em Gênova, olhara pela última vez para o porto, sem saber se aquele adeus seria definitivo.

A travessia do Atlântico a bordo do navio Italia

O navio Italia partira às duas da tarde. No convés, uma multidão de rostos pálidos, famílias inteiras, crianças agarradas às saias das mães e velhos de chapéu na mão. 

O oceano como prova e transformação

No primeiro dia, o mar fora um espelho azul e sereno, e os emigrantes, embriagados pela ideia de um novo mundo, cantavam hinos e baladas de suas aldeias. Mas dois dias depois, o Atlântico se revoltara. Ondas de seis metros varriam o convés, o vento rugia como uma fera, e muitos rezavam ajoelhados, certos de que jamais veriam a terra firme.

Domenico aguentou firme, sustentando um companheiro com náuseas e ajudando uma mulher a segurar o berço improvisado do filho. Quando, após quarenta e oito horas, o mar enfim se acalmou, a bordo surgiu um estranho sentimento de fraternidade: eram todos sobreviventes.

Buenos Aires: o primeiro contato com a América

O navio atracou em Montevidéu no dia 29 de março. O ar da América do Sul parecia mais leve, o céu, mais alto. Dali seguiram para Buenos Aires, e quando a cidade surgiu no horizonte — uma sucessão de torres, cais e fumaça —, Domenico teve a impressão de que o próprio destino o chamava.
Ecco l’America...”, murmurou um velho paduano ao seu lado.
Domenico não respondeu. Apenas fixou o olhar na linha do porto, como se buscasse ali um sinal divino de que sua travessia não fora em vão.

O Hotel de los Inmigrantes e a espera pelo destino

Foram recebidos pelo Comitê de Imigração que os levaram a um enorme galpão onde dormiram três noites sobre colchões de palha. O ar cheirava a suor, sal e desesperança. Homens tossiam, crianças choravam, e as mulheres improvisavam orações nas línguas de suas aldeias. No terceiro dia, foram conduzidos ao Hotel de los Inmigrantes, um edifício sólido, de janelas altas e paredes caiadas. Ali, pela primeira vez em semanas, Domenico comeu pão fresco e carne quente.

Buenos Aires era uma cidade desmedida. As ruas largas, as carruagens barulhentas, as vitrines francesas, os cabarés e os sinos formavam uma sinfonia de excessos. Nada lembrava a Itália. A cada esquina, ele via um pedaço de mundo diferente: espanhóis que gritavam nos mercados, ingleses que dirigiam ferrovias, crioulos de olhar atento, italianos que vendiam frutas ou puxavam carroças. Tudo pulsava, mas nada lhe pertencia.

Do porto à terra: a colonização agrícola em Córdoba

Nos dias seguintes, tentou arranjar trabalho. As promessas eram muitas — nos campos de trigo de Santa Fé, nas fazendas de Córdoba, nas linhas férreas que cortavam o interior. Mas o dinheiro da passagem ainda era uma dívida, e cada oferta trazia o peso da incerteza. Alguns companheiros já haviam partido; outros se rendiam à nostalgia e sonhavam com o retorno impossível.

A vida do colono e a construção de um lar

Domenico escrevia cartas todas as noites, mesmo quando não havia papel suficiente. Nelas, contava à família que estava bem, que o mar fora generoso e o navio, seguro; que os marinheiros eram gentis e os dias alegres, ainda que longos. Mentia com doçura — não por vaidade, mas para proteger quem amava. Dizia à mãe para não se preocupar, que logo enviaria dinheiro, que encontraria trabalho e que Deus não o abandonara.

Às vezes, à noite, caminhava até o porto. Via o reflexo das luzes tremendo na água escura e sentia o coração se apertar. Cada navio que partia era como uma ferida nova, lembrando-o do que deixara. Mas, pouco a pouco, começou a perceber que a vida — como o mar — não volta atrás: apenas segue, muda de forma, mas nunca retorna.

Na manhã de 2 de abril, sentou-se diante da janela do dormitório e escreveu a carta que marcaria o início de sua nova existência. Com letra firme, narrou o que vivera:

Sbarcammo il giorno 31 Marzo, e fummo accolti dal Comitato d’Immigrazione. Qui ci trattano con cortesia. Buenos Ayres è una gran bella città, ma molto differente dalle nostre. Se avrò fortuna, vi manderò qualche soldo appena possibile.

Dobrou a folha com cuidado, como se guardasse nela o próprio destino. Lá fora, os sinos da Catedral repicavam, misturando-se ao rumor das carroças e ao apito dos navios.

Domenico Del Muschio levantou-se. Havia um brilho novo em seus olhos — a chama dos que compreendem que o futuro não se espera: constrói-se.
Deixou o abrigo dos imigrantes e caminhou rumo ao cais, onde um agente procurava trabalhadores para o interior. O vento soprava do sul, carregando o cheiro de maresia e promessas.

E, enquanto o sol se erguia sobre a cidade que não dormia, Domenico percebeu, pela primeira vez, que a América não era o fim de sua jornada — era apenas o primeiro passo de uma travessia maior: a travessia de um homem em busca de si mesmo.

Quando Domenico Del Muschio deixou Buenos Aires, o outono já se fazia sentir. Os jacarandás das avenidas tingiam o ar de lilás e a cidade parecia respirar um ritmo que ele não compreendia. Um agente do Comitê de Imigração o havia recrutado para trabalhar numa colônia agrícola nas imediações de Río Segundo, na província de Córdoba. Disseram-lhe que havia terra fértil, que os italianos eram bem-vindos, que o futuro estava no interior.

Partiu de trem numa manhã cinzenta. O barulho metálico das rodas sobre os trilhos parecia repetir as batidas de seu próprio coração. Através da janela, via a paisagem mudar: primeiro os subúrbios poeirentos de Buenos Aires, depois o pampa sem fim, verde e dourado sob o vento. A vastidão da Argentina o intimidava. Havia algo de sagrado e de selvagem naquele espaço onde o horizonte nunca terminava.

Três dias depois, chegou a uma pequena estação de madeira. Um homem de chapéu de palha o esperava — chamava-se Don Esteban, capataz da fazenda San Joaquín. Falava um espanhol rápido, difícil de entender, mas os gestos bastavam. Levaram-no em carroça por caminhos de terra até a colônia.

Lá encontrou outros italianos: piemonteses, lombardos, vênetos, alguns calabreses. Cada um carregava uma história parecida com a sua — fome, dívidas, sonhos. As casas eram simples, de barro e telha; o trabalho, duro. Dormiam pouco, comiam menos, e o sol do meio-dia queimava a pele até doer. Mas à noite, quando o vento soprava entre os eucaliptos, acendiam uma fogueira e o som das vozes italianas preenchia a solidão. Cantavam canções antigas, falavam da pátria e riam do próprio destino.

Domenico começou como ajudante na lavoura de trigo. As mãos, antes acostumadas à madeira e à enxada, se encheram de calos. Aprendeu a lidar com as mulas, a manejar o arado, a ler o céu para prever as chuvas. Havia dias em que a fadiga o fazia cair de joelhos, mas ele se erguia, movido por uma força que nem compreendia.

Família, pertencimento e resistência

Em dezembro de 1883, conheceu Lucía Benítez, filha de um pequeno arrendatário espanhol. Ela levava o almoço ao pai nos campos, e Domenico, ao vê-la pela primeira vez, sentiu o mesmo desconcerto que o mar lhe causara: uma vertigem de infinitude. Lucía era firme, de olhos escuros e voz baixa. Falava pouco, mas havia ternura em cada gesto. Com o tempo, começaram a trocar palavras, depois risos, e em menos de um ano, partilhavam o mesmo destino.

Casaram-se em 1884, numa pequena capela erguida por padres franciscanos. O padre abençoou a união em castelhano e italiano, e o coro improvisado de imigrantes cantou um hino que ninguém soube de onde vinha. Foi o primeiro dia em que Domenico se sentiu, verdadeiramente, parte de alguma coisa.

A luta pela terra e a dignidade

A vida na colônia, porém, não era fácil. O ano seguinte trouxe seca e gafanhotos. O trigo queimou nos campos, os animais morreram, e muitos abandonaram a região. Domenico resistiu. Construíra uma casa de adobe com as próprias mãos, e agora tinha Lucía e um filho recém-nascido, Matteo. Prometera a si mesmo que jamais fugiria de novo.

Às vezes, nas madrugadas, olhava o menino dormir e pensava no pai que deixara na Itália. Imaginava-o velho, de mãos trêmulas, lendo as cartas que ele ainda enviava quando podia. Nessas horas, sentia o peso do tempo e a distância como duas âncoras invisíveis.

Mas a América também lhe dera algo novo: uma fé silenciosa no trabalho. Sabia que o futuro não era presenteado a ninguém — era cavado, palmo a palmo, com suor e teimosia.

No fim de 1885, o trigo voltou a crescer. As espigas douradas ondulavam sob o vento como um mar terrestre. Lucía, de pé à porta, observava Domenico voltar dos campos com o pequeno Matteo nos ombros. O sol poente tingia de cobre o horizonte, e por um instante, tudo parecia em paz.

Domenico Del Muschio não era mais o emigrante perdido do porto. Tornara-se colono, pai e construtor de um destino. A carta escrita em Buenos Aires, há dois anos, repousava agora dentro de uma caixa de madeira, junto com outras que nunca chegaram a ser enviadas.

Sabia que a vida ainda lhe cobraria muito, mas, ao olhar para aquele campo imenso e silencioso, compreendeu que, enfim, havia encontrado um lar.

Os anos que se seguiram transformaram a vida de Domenico Del Muschio numa sucessão de estações e colheitas. Cada ano era um risco, cada safra uma aposta silenciosa contra o destino. O solo argentino recompensava os que sabiam escutar-lhe o ritmo, e Domenico aprendera a fazê-lo com humildade e disciplina.

Em 1886, a colônia de San Joaquín prosperava. O governo havia distribuído títulos de terra aos colonos mais antigos, e Domenico — então com pouco mais de trinta anos — recebeu um pequeno lote às margens do arroyo Las Piedras. Construiu ali uma casa sólida, de tijolos e telhado de zinco, e plantou fileiras de videiras trazidas do Vêneto, mudas que havia escondido na mala durante a travessia oceânica.

A vida parecia enfim recompensar a obstinação. Matteo, o filho mais velho, crescia forte e curioso, e Lucía esperava a segunda criança, uma menina a quem dariam o nome de Giovanna, em homenagem à mãe de Domenico, que ficara na Itália.

Aos domingos, as famílias italianas e espanholas reuniam-se sob a sombra dos plátanos, onde se partilhavam o pão, o vinho espesso e o som distante de uma sanfona. Nessas tardes, o passado e o presente se confundiam: o aroma das colinas do Vêneto parecia fundir-se ao pó seco das planícies argentinas. Havia, naquele convívio simples, um sentimento de pertença, como se a nova terra começasse, pouco a pouco, a aceitá-los.

Entretanto, o destino, incerto como o vento dos pampas, logo mostrou outra face. Em 1888, chegaram rumores vindos da capital: a expansão das ferrovias, o avanço das fronteiras agrícolas e os primeiros sinais da concentração de terras. A riqueza do trigo transformava a paisagem e atraía novos interesses. Os grandes proprietários começaram a cercar áreas antes livres, expulsando famílias inteiras.

A tranquilidade da colônia de San Joaquín foi ameaçada. A luta pelos direitos de posse mobilizou os colonos mais antigos, e Domenico, quase sem perceber, tornou-se uma das vozes principais do movimento. Sua resistência era silenciosa, mas firme. Não havia esquecido as humilhações da terra natal, nem os dias em que o trabalho de gerações fora engolido pela miséria.

Durante meses, travou-se uma batalha lenta e exaustiva, feita de papéis, promessas e esperas. Quando finalmente, em 1890, o governo provincial reconheceu os direitos dos colonos, muitos já haviam desistido. Domenico, porém, permaneceu. Pagara caro por isso: noites de incerteza, dívidas crescentes e o peso da responsabilidade sobre os ombros. Ainda assim, a vitória o marcou como um homem que aprendera a persistir contra as forças invisíveis do poder.

Lucía via a transformação do marido com um misto de orgulho e apreensão. O jovem emigrante que um dia chegara de navio tornara-se um homem de voz firme e olhar cansado. O tempo deixara-lhe os ombros arqueados, as mãos endurecidas e a expressão severa de quem aprendeu a confiar apenas na própria resistência.

No inverno de 1893, uma geada destruiu parte da plantação. A fome e o desânimo abateram-se sobre a colônia. Foi nesse momento que Domenico se uniu a dois companheiros para fundar uma pequena moenda de trigo, iniciativa que lhes permitiria produzir farinha local e depender menos dos grandes comerciantes. O projeto exigiu esforço coletivo, improviso e coragem, mas deu certo. Pela primeira vez, Domenico sentiu que podia moldar o próprio destino, em vez de apenas reagir a ele.

Quando os trigais voltaram a crescer, na primavera seguinte, as colinas pareciam cobertas por uma luz nova. Aquele mar dourado representava mais do que o sustento: era a vitória silenciosa dos que haviam deixado tudo para trás.

Aos poucos, a figura de Domenico passou a ser associada à fundação da colônia. Os registros oficiais mencionavam seu nome entre os pioneiros, e mesmo os mais jovens o citavam como exemplo de firmeza e decência.

Em 1895, San Joaquín já era um povoado próspero, com escola, capela e pequenas casas alinhadas ao longo da estrada principal. As famílias cresciam, e o idioma italiano misturava-se ao espanhol dos criollos, criando uma nova sonoridade, um novo modo de ser.

Nas noites de céu aberto, Domenico costumava sentar-se diante de sua casa e observar o horizonte. O vento quente soprava do sul, trazendo consigo o perfume das ervas e o rumor distante do arroyo. Nessas horas, a lembrança da Itália surgia nítida: os sinos de Bassano del Grappa, o frio das manhãs, o rosto envelhecido da mãe que jamais voltaria a ver.

Com o tempo, compreendeu que a emigração era mais do que uma travessia — era uma herança que se transmitia no silêncio, um vínculo entre o que se perdeu e o que ainda se podia construir. A Itália permanecia dentro dele, não como um lugar, mas como uma voz que o acompanhava em cada amanhecer, no coração vasto e solitário das planícies argentinas. 

O tempo, que outrora parecia correr veloz como os ventos dos pampas, passou a mover-se lentamente sobre a vida de Domenico Del Muschio. Os anos de trabalho e sacrifício haviam moldado nele a serenidade de quem compreende que o destino não é algo a ser vencido, mas aceito com dignidade.

Na virada do século, San Joaquín era já um pequeno mundo autônomo. As ruas de terra batida transformaram-se em estradas ladeadas por amoreiras, a capela fora reconstruída em alvenaria e o sino, trazido da Itália por um grupo de colonos, marcava o compasso das estações. Domenico observava tudo com o olhar distante de quem havia visto nascer, crescer e amadurecer aquela terra.

Os filhos seguiram caminhos distintos. Matteo herdou o ofício da terra e administrava as plantações com rigor e devoção. Giovanna, de temperamento doce e decidido, casara-se com um professor vindo de Córdoba, e o casal passara a lecionar na pequena escola da colônia. Domenico via neles a continuação silenciosa de um sonho que começara num porto distante, quando ainda acreditava que um homem pudesse reinventar o próprio destino.

Apesar das conquistas, havia em seu coração uma sombra que jamais se dissipara. A promessa feita à mãe, na véspera da partida, o acompanhava como uma ferida aberta: o juramento de que voltaria à Itália, nem que fosse por um único verão, para beijar-lhe as mãos envelhecidas. Durante anos, essa promessa foi o norte de sua esperança. Mas o tempo, as dívidas e a vida no campo impuseram outros rumos.

Nunca houve recursos suficientes, nem paz política o bastante para permitir-lhe regressar. O Atlântico tornara-se uma distância intransponível, não apenas de água, mas de circunstâncias. Ainda assim, fiel à palavra, Domenico enviava sempre que podia um envelope com algum dinheiro à mãe, junto com uma breve carta escrita em caligrafia trêmula. Nessas cartas, descrevia o trigo amadurecendo, o riso dos filhos, a amplidão das planícies argentinas. E pedia, como se confessasse, que ela o perdoasse pela ausência.

As respostas chegavam raramente, e com o passar dos anos cessaram por completo. O silêncio da Itália pesou-lhe mais do que qualquer miséria. Soube, por meio de um conhecido vindo de Bassano, que a mãe falecera no inverno de 1901, assistida por uma vizinha, e que guardava ainda a última carta do filho dentro do missal. Nenhuma notícia lhe ferira tanto. A partir daquele dia, Domenico entendeu que a pátria que havia deixado não existia mais. Restava-lhe apenas a terra onde envelhecia.

Velhice, memória e herança

A velhice chegou sem aviso, como o outono que cobre as vinhas de sombra e silêncio. As mãos, outrora firmes, tremiam ao toque das ferramentas. As pernas, endurecidas de tanto caminhar, já não suportavam longas jornadas. Ainda assim, insistia em trabalhar, mesmo quando o corpo lhe pedia descanso. O campo era a extensão de sua própria carne — deixá-lo significava aceitar o fim.

Com o tempo, passou a recolher-se à varanda da casa, de onde observava os trigais dourados movendo-se como ondas sob o vento. Nesses momentos, a lembrança da juventude surgia vívida: o convés do navio, o brilho do sol sobre o mar, o cheiro do carvão e do sal. A travessia parecia próxima, como se pudesse ser retomada a qualquer instante.

Os vizinhos o respeitavam como a um patriarca silencioso. Quando o viam passar, curvado e lento, diziam que aquele homem havia trazido a colônia nas costas. E de certo modo era verdade: sem sua persistência, talvez San Joaquín nunca tivesse florescido.

No inverno de 1912, Domenico adoeceu. A febre chegou como um vento quente, e o corpo, cansado de tantas estações, rendeu-se pouco a pouco. Durante semanas permaneceu acamado, cercado pela família e pelo rumor constante da chuva batendo no telhado de zinco.

Em seus últimos dias, permaneceu lúcido, mas em silêncio. Parecia contemplar algo que os outros não podiam ver. Alguns diziam que sorria discretamente, como se finalmente enxergasse, do outro lado do tempo, a colina verde de sua infância.

O emigrante como fundador

Morreu numa madrugada fria de agosto, quando a aurora ainda se escondia atrás das montanhas de Córdoba. No momento em que seu coração cessou, o vento soprou forte do leste, e as janelas da casa se abriram sozinhas, deixando entrar um perfume leve de terra molhada e uvas maduras.

Foi sepultado no pequeno cemitério da colônia, sob uma cruz simples de madeira, ao lado de outros pioneiros. Nenhuma inscrição grandiosa, apenas o nome, a data e a palavra “Emigrante”.

E, embora jamais tenha regressado à Itália, suas raízes ali permaneceram — invisíveis, profundas, entrelaçadas à terra estrangeira que ele transformara em lar. Porque, em verdade, Domenico Del Muschio nunca deixara a pátria: apenas a espalhara, grão a grão, no solo que o acolheu.

Nota do Autor

Esta história nasceu de uma carta verdadeira. O documento, datado de 2 de abril de 1883, foi escrito em Buenos Aires por um jovem imigrante italiano que havia partido da Itália a bordo de um navio em direção à América do Sul. Nela, o autor descrevia com simplicidade e emoção a travessia do oceano, as tempestades suportadas, a chegada a Montevidéu e depois a Buenos Aires, e a espera incerta por trabalho e destino. As palavras estavam manchadas pelo tempo — algumas quase ilegíveis —, mas o que atravessou os séculos foi o que nenhuma tinta desbota: a coragem, a saudade e a fé de quem deixou tudo para recomeçar num continente desconhecido.

Domenico Del Muschio, o protagonista desta narrativa, é uma recriação literária desse emigrante anônimo. O nome foi alterado por respeito à memória dos descendentes e para preservar o anonimato do autor da carta, mas cada sentimento, cada gesto, cada linha desta história tem origem naquele testemunho real. Escrever sobre ele foi, antes de tudo, um ato de restituição — dar voz a um entre milhões que atravessaram o oceano movidos por um sonho e pela necessidade. O que se lê aqui não é apenas a vida de um homem, mas o espelho de uma geração que deixou a pátria sem saber se um dia voltaria a vê-la.As palavras de Domenico — e de tantos outros como ele — lembram-nos de que a história da emigração não é feita apenas de números e estatísticas, mas de rostos, cartas e esperanças. E talvez, em cada um de nós, ainda ressoe o eco desse mesmo mar que eles cruzaram, buscando um novo mundo onde pudessem simplesmente viver com dignidade.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sábado, 6 de dezembro de 2025

Emigrantes de Sandrigo (1885–1900) e a Lista Histórica de Italianos que Deixaram a Itália


 

Emigrantes de Sandrigo (1885–1900) e a  Lista Histórica de Italianos que Deixaram a Itália


Resumo Explicativo

Este registro reúne os nomes dos emigrantes do Comune de Sandrigo, na província de Vicenza, que partiram entre 1885 e 1900. A relação inclui famílias inteiras, indivíduos isolados, profissões, datas de saída e, em alguns casos, informações sobre retornos. Organizada por ano, a lista serve como fonte valiosa para descendentes, genealogistas e pesquisadores da emigração italiana do final do século XIX.



LISTA DE EMIGRANTES (1885–1900)


Anno 1885
Menin Giovanni
Valerio Antonio

Anno 1886
Chemello Teresa
Novello Maria

Anno 1888
Alberti Sebastiano
Barbieri Giovanni
Basso Antonio
Basso Giovanni
Battistella Giovanni
Binda Sante
Bonato Valentino
Caichiolo Giovanni
Campese Giuseppe
Casagrande Giuseppe
Cason Giovanni
Centofante Girolamo
Chemello Antonio
Chemello Francesco
Chemello Giovanni
Costernaro Sebastiano
Crovadore Antonio
Essi Davide
Faresin Giuseppe
Faresin Maria
Ferracin Francesco
Frigo Sebastiano
Garbossa Giovanni
Garbossa Pietro
Gardellin Ottavio
Garzaro Lorenzo
Gasparotto Vicenzo
Girotto Cesare
Gobbato Clemente
Guadagnin Antonio
Marchetto Francesco
Marchiorato Nicola
Meneghin Girolamo
Miglioranza Giuseppe
Lovo Luigi
Miola Santo
Mion Domenico
Mion Giovanni
Morello Giacomo
Motterle Bortolo
Muzzolin Francesco
Nichele Nicolò
Panzolato Bernardo
Parise Luigia
Pedon Stefano
Pianezzola Giuseppe
Pozzato Luigi
Pozzato Mateo
Pozzato Valentino
Rossi Marco
Saccardo Luigi
Schirato Valentino
Tessari Pietro
Trentin Girolamo
Trentin Quirino
Valerio Francesco
Zoico Angelo
Zolin Giobatta
Zolin Marco
Villanova Tomaso

Anno 1889
Pianezzola Giuseppe

Anno 1891
Ampesi Benimiano
Basso Angelo
Bassoi Francesco
Basso Pietro
Benvenuto Carlo
Bigarella Lorenzo
Cason Girolamo
Donadello Lorenzo
Ferronato Giacomo
Frison Domenico
Frison Giovanni
Giaretta Maria
Marostica Luigi
Mela Bonaventura
Pianezzola Giuseppe
Pianezzola Teresa
Pigato Maria
Ramina Girolamo
Sartore Felice
Savio Angelo
Savio Sante
Valerio Antonio
Zoccolin Edoardo
Zorzi Giomaria

Anno 1892
Andrighetto Stefano
Baldisseri Antonio
Barbieri Valentino
Ferronato Bortolo
Saccardi Andrea
Tonin Giuseppe
Tonin Lorenzo
Zanasso Girolamo

Anno 1893
Balasso Domenico
Cesari Bortolo
Menin Giovanni
Trentin Girolamo
Valerio Francesco

Anno 1894
Boscato Giovanni
Enzetti Paolo
Miotti Vittoria
Zanasso Luigi

Anno 1895
Appoloni Francesco
Casagrande Gaetano
Centofonte Luigi
Chemello Elisabetta
Chemello Francesco
Crovadore Francesco
Crovadore Giuseppe
Fracasso Giuseppe
Gardelin Giobatta
Garzaro Bortolo
Marcato Girolamo
Marangon Giovanni
Mosele Giobatta
Zaccaria Giovanni

Anno 1896
Barbieri Domenico
Barbieri Giobatta
Boarotto Giobatta
Chemello Girolamo
Cristofori Marco
Fracasso Girolamno
Manfrin Girolamno
Milan Oliva
Stivanin Luigi
Tendolin Taddeo
Trentin Girolamo
Valerio Antonio
Zolin Antonio

Anno 1897
Antonello Serafino
Battistella Bortolo
Ramina Giacomo

Anno 1898
Baggio Cardina
Bigarella Lucia
Chemello Domenico
Corà Girolamo
Poletto Giovanni Battista

Anno 1899
Corradin Francesco
Cason Leonardo

Anno 1900
Caicchiolo Giovanni
Corà Francesco
Menin Giovanni
Novello Luigi
Verona Francesco
Zanasso Luigi
Zolin Domenico

EMIGRANTES DE 1888 — DETALHAMENTO

Nome – Ano de nascimento – Profissão – Data de partida/retorno (quando indicado)

 

Alberti Sebastiano (1842), contadino – 08/10/1888
Barbieri Giovanni (1857), contadino – 08/10/1888
Basso Antonio (1848), contadino – 25/10/1888
Basso Giovanni
Battistella Giovanni (1842), contadino – 10/10/1888
Binda Sante
Bonato Valentino (1839), contadino – 28/11/1888
Caichiolo Giovanni
Campese Giuseppe (1808), contadino – 17/10/1888
Casagrande Giuseppe (1826), sarto – 25/10/1888
Cason Giovanni
Centofante Girolamo (1851), industriante – 17/10/1888
Chemello Antonio (1847), contadino – 20/10/1888
Chemello Francesco
Chemello Giovanni (1865), contadino – 01/11/1888
Costenaro Sebastiano (1855), contadino – 10/10/1888
Crovadore Antonio (1859), contadino – 28/10/1888 (retorno 1892)
Essi Davide
Faresin Giuseppe (1868), contadino – 28/08/1888
Faresin Maria – 20/10/1888 (retorno 1892)
Ferracin Francesco
Frigo Sebastiano (1848), contadino – 28/10/1888
Garbossa Giovanni
Garbossa Pietro
Gardellin Ottavio
Garzaro Lorenzo (1860), contadino – 22/11/1888 (retorno 1895)
Gasparotto Vicenzo (1867), contadino – 28/08/1888
Girotto Cesare
Gobbato Clemente
Guadagnin Antonio (1867), contadino – 17/10/1888 (retorno 1892)
Lovo Luigi (1845), contadino – 10/10/1888
Marchetto Francesco (1842), contadino – 20/10/1888
Marchiorato Nicola (1848), allevatore – 08/11/1888 (retorno 1902)
Meneghin Girolamo
Miglioranza Giuseppe
Miola Santo (1845), bovaro – 30/11/1888
Mion Domenico
Mion Giovanni (1841), possidente – 10/10/1888
Morello Giacomo (1827), falegname – 10/10/1888
Motterle Bortolo (1844), contadino – 08/06/1888
Muzzolin Francesco
Nichele Nicolò (1826), contadino – 30/11/1888
Panzolato Bernardo (1848), contadino – 22/12/1888
Parise Luigia (1854), contadina – 08/10/1888
Pedon Stefano (1851), contadino – 02/11/1888
Pianezzola Giuseppe
Pozzato Luigi
Pozzato Mateo
Pozzato Valentino (1856), industriante – 28/10/1888
Rossi Marco (1855), contadino – 24/10/1888
Saccardo Luigi (1859), bovaro – 08/10/1888
Schirato Valentino (1844), falegname – 10/10/1888
Tessari Pietro
Trentin Girolamo
Trentin Quirino
Valerio Francesco (1867), contadino – 22/11/1888
Zoico Angelo (1835), possidente – 28/10/1888
Zolin Giobatta (1868), contadino – 28/08/1888
Zolin Marco
Villanova Tomaso (1853), fabbro – 25/11/1888