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sábado, 11 de julho de 2026

Sob o Vento da América - A Saga de um Camponês de Cremona na Imigração Italiana ao Brasil

 


Sob o Vento da América - A Saga de um Camponês de Cremona na Imigração Italiana ao Brasil

A saga de Matteo Orlandi, camponês de Cremona, diante da promessa americana em 1882

Em 1882, nas planícies encharcadas da província de Cremona, o clima continental impunha sua marca implacável: invernos longos, frios e envolvidos em nevoeiros densos, seguidos por verões sufocantes e úmidos. Para as pequenas famílias camponesas, dependentes de técnicas agrícolas rudimentares, aquele cenário era um adversário constante. Matteo Orlandi nascera na localidade de Ca’ dei Gatti, um recanto modesto no interior do comune de Pieve d’Olmi. Desde a infância, testemunhava as geadas castigarem as sementes e os verões abrasadores secarem o solo, enquanto a esperança de colheitas regulares se desfazia sob o peso de uma terra cansada e ingrata.

A parcela herdada do pai era pequena e improdutiva: um retalho exíguo de terra, marcado por sulcos cansados e por veios empobrecidos, frutos de gerações de parcelamentos hereditários que fragmentaram o solo até sua exaustão. Os nutrientes, antes abundantes, foram consumidos sem trégua, e as colheitas cada vez mais magras mal sustentavam a subsistência diária. A terra, que já fora generosa em tempos idos, agora mostrava-se estéril, incapaz de alimentar adequadamente a família que dela dependia.

A crise agrária que assolava a região não era apenas um presságio, mas um quadro concreto que se desenhava com nitidez inquietante. O Inchiesta Agraria de 1884, ainda que realizado alguns anos após, revelava uma realidade que já começava a fazer sentir seu peso naquela primeira metade da década: os campos, outrora férteis, entregavam cada vez menos grãos, vítimas do desgaste e da exaustão dos solos. Simultaneamente, os preços das colheitas despencavam no mercado, desvalorizando ainda mais o fruto do trabalho árduo dos camponeses.

Para piorar, os impostos sobre as terras — uma carga pesada e implacável — continuavam a crescer, sufocando quem já mal conseguia sobreviver. As políticas públicas, voltadas a favorecer a emergente burguesia industrial e os grandes latifundiários, negligenciavam as necessidades e dificuldades dos pequenos agricultores. A monocultura familiar, antes sustentáculo e orgulho, transformara-se numa sombra pálida de seu passado, um resquício frágil e cansado que resistia à força da crise.

Naquela terra exaurida, onde a esperança parecia murchar junto com as plantas, a perspectiva de um futuro digno tornava-se cada vez mais distante, e o silêncio dos campos desolados ecoava a resignação de muitas famílias presas num ciclo implacável de pobreza e incertezas.

Famílias como a de Matteo viviam à mercê das colheitas falhas e da miséria crescente que corroía as esperanças nos anos que sucederam a unificação italiana. O arremedo estatal de proteção industrial beneficiava sobretudo grandes proprietários; os pequenos camponeses, por outro lado, viam-se ainda mais sufocados pela ausência de crédito, pelas dívidas de meia-taxa e pelos cochichos sobre terras e impostos impagáveis.

Contra esse sombrio pano de fundo, chegou a Matteo uma carta que se revelou como um lampejo inesperado de esperança e inquietação. Não se tratava apenas de palavras escritas, mas de um documento carregado de promessas e avisos, enviado por um conhecido distante ou talvez por um agente recrutador que percorria as aldeias em busca de almas dispostas a recomeçar. A carta narrava com minúcia um fenômeno até então desconhecido para muitos naquelas paragens: multidões de homens, mulheres e famílias inteiras — muitos deles sequer cientes da existência da América, ao menos não para além dos rumores e das lendas — estavam sendo convocados por emissários especializados para se lançarem numa aventura rumo ao Brasil, uma terra estrangeira onde a promessa de terras férteis e liberdade parecia ganhar forma concreta.

O relato pintava um quadro vívido e inquietante: aqueles camponeses, esmagados pela pobreza e pela impossibilidade de uma vida digna, erguiam-se quase como um só corpo, uma massa movida por um desespero coletivo e por uma ânsia de fuga que lembrava os relatos de condenados exilados nas longínquas estepes da Sibéria. A carta descrevia as filas de embarque, o murmúrio crescente entre as comunidades, e o clamor dos que já haviam tomado a decisão de partir — uma decisão que não era apenas pessoal, mas quase uma rebelião silenciosa contra o destino implacável da terra natal.

Matteo, ao ouvir esse rumor se espalhar pelos arredores do comune, viu e ouviu os gritos que se elevavam no ar rarefeito: “Viva l’America!” — exclamações carregadas de uma fervorosa esperança e de um medo disfarçado, proferidas pelos que deixavam tudo para trás. Esses gritos, ao se espalharem, contagiavam os que permaneciam, insuflando-lhes a dúvida, a inquietação e, por vezes, uma vontade crescente de seguir o mesmo caminho. A carta não apenas informava, mas acendia um fogo novo — um convite à transformação, um sussurro que prometia a possibilidade de um futuro onde o trabalho árduo pudesse finalmente ser recompensado com a posse da terra.

Casado e pai de dois filhos pequenos, Matteo carregava sobre os ombros o peso de um futuro cada vez mais incerto e nebuloso. As incertezas cresciam como sombras ao entardecer, enquanto ele observava, quase em silêncio, as fileiras ordenadas de vizinhos — homens e mulheres de semblante cansado, rostos marcados pela dureza da terra e pelo cansaço da vida — empilhando malas, documentos e poucas posses em preparação para o que parecia ser uma jornada sem retorno. Havia naqueles movimentos uma mistura complexa de emoções: o medo do desconhecido, a esperança sussurrada, a angústia do abandono.

Matteo percebia que muitos partiam não por convicção plena, mas empurrados por uma força invisível, uma espécie de impulso coletivo que transbordava nas comunidades camponesas. Era a lei silenciosa, implacável e antiga da imitação — uma lei que não dependia da razão ou da informação, mas do instinto de sobrevivência e da necessidade de pertencimento. Entre aqueles camponeses, muitos analfabetos e à mercê das palavras que circulavam como rumores, a carta recebida não era apenas um convite, mas uma ordem tácita a seguir os passos dos primeiros que partiram, ainda que o destino fosse incerto.

A essa “lei da imitação” se aliava a ignorância do que realmente os aguardava além-mar: o Brasil, aquele país distante, vasto e estranho, era para muitos apenas uma promessa vaga, uma esperança construída a partir de relatos distorcidos e sonhos entrecortados pelo medo. Matteo sabia que a coragem de partir era, para muitos, uma coragem que surgia da falta de alternativas, da impossibilidade de permanecer naquele solo que não dava mais frutos, e da necessidade premente de buscar uma vida diferente — fosse qual fosse o preço.

A decisão de emigrar não brotara unicamente da miséria opressora que corroía o corpo e a alma; nascera também de um vento — um vento metafórico, porém palpável no íntimo, que soprava entre as sombras da rotina exaurida e trazia consigo o anúncio sutil de uma promessa inédita. Esse vento carregava consigo o sopro de uma possibilidade — a possibilidade, até então remota e quase inacessível, de tornar-se proprietário de um pedaço de terra distante, longe das amarras da velha ordem, longe da terra fatigada e das mãos calejadas que mal conseguiam sustentar o cotidiano.

Era uma voz que, ainda que distante, penetrou profundamente na consciência de Matteo. A carta, com suas palavras cuidadosamente traçadas, ressoava como um eco persistente em seus pensamentos inquietos, como um chamado ancestral que misturava esperança e receio. Aquela voz invisível falava de milhares que partiriam nos anos subsequentes — homens, mulheres, famílias inteiras que deixariam para trás casas silenciosas e campos abandonados, suas raízes arrancadas da terra natal.

Esses emigrantes aspiravam a transformar seu destino, a abandonar para sempre a condição de servos ou peões, e a erguer-se, finalmente, na condição de “patrões” — donos de sua própria terra, arquitetos de um futuro que ainda não existia, mas que podia ser desenhado com as próprias mãos. Era a promessa de um mundo novo, um mundo onde a liberdade e a dignidade poderiam ser cultivadas lado a lado com a terra, sob um céu estrangeiro, porém cheio de possibilidades.

Matteo vendeu o pouco que possuía, tomou um trem até Genova, onde se juntou a uma grande caravana de camponeses e artesãos embarcando no navio rumo ao Brasil. A viagem, cruel e silenciosa, cruzou o Atlântico — trazendo consigo esperanças, temores e famílias inteiras.

Quando finalmente pisou em solo brasileiro, algo mudou: a terra vibrava de possibilidades. Estabeleceu-se num núcleo colonizador chamado Colonia Conde d’Eu, semelhante aos primeiros assentamentos de italianos no Rio Grande do Sul, onde muitos vindos do norte da Itália buscavam o sonho de se tornarem pequenos proprietários.

Matteo ergueu, com labor incessante e mãos calejadas, uma modesta plantação de uvas e grãos que, embora singela, representava a materialização concreta de um sonho há muito acalentado. Cada fileira de videiras e cada sulco aberto na terra estrangeira eram testemunhas silenciosas do esforço incansável e da paciência férrea que ele dedicava àquela nova vida. As estações, que no Brasil se apresentavam em ritmo inverso e sob um clima menos cruel — desprovidas do frio rigoroso que castigava as planícies de Cremona, e com verões que, embora quentes, não sufocavam com a mesma intensidade — ofereceram-lhe um ciclo agrícola mais generoso, onde a terra parecia agradecer o cuidado recebido.

Longe do seu município natal, onde o inverno derrubava geadas e o solo cansado lutava para alimentar, Matteo descobriu um terreno propício para renascer, para semear esperança e colher sustento. Mas, apesar da distância física e das diferenças climáticas, o coração de Matteo nunca abandonou a memória das planícies frias que o viram crescer, nem esqueceu o vento cortante que, tempos atrás, sussurrou em seus ouvidos a inquietude da partida e o chamado da mudança. Era uma presença invisível, quase palpável, que o acompanhava nas noites silenciosas, lembrando-o das raízes que o haviam moldado e da coragem necessária para fincar novos alicerces em terras distantes.

Anos depois, Matteo contemplava seus filhos crescerem entre parreirais vigorosos, cujos frutos amadureciam sob o sol generoso, oferecendo não apenas uvas, mas o pão cotidiano que sustentava a família e simbolizava a conquista de um novo destino. Na serenidade dessas terras distantes, ele sentia que cumprira, enfim, a promessa silenciosa e solene contida naquela carta de 1882 — um compromisso firmado não apenas com a esperança, mas com a coragem de abandonar o conhecido em busca do incerto.

Não retornara jamais para “adquirir o campicello” sonhado que a terra natal lhe negara; em vez disso, conquistara outro pedaço de chão, fértil e promissor, sob um céu estrangeiro e vasto, onde as estações pintavam a vida em cores distintas, mas igualmente generosas. Ali, longe das planícies frias e das neblinas de Cremona, Matteo edificara sua própria narrativa, entrelaçada com o suor e a perseverança, que desafiava as raízes fixas da tradição para florescer em solo novo.

Sua saga, contada e recontada nas décadas seguintes, como um romance folhetinesco entre os descendentes e vizinhos, transformou seu nome em sinônimo de audácia e desarraigamento — um símbolo vivo da luta pela dignidade e pelo recomeço. Assim, Matteo erigiu, na terra do futuro, um legado de resistência e esperança, um monumento invisível que jamais encontrara entre as encostas silenciosas e as gélidas manhãs de Cremona, mas que agora florescia em cada parreira, em cada gesto de seus filhos, como testemunho eterno da coragem de quem ousou partir.

Nota do Autor

Esta narrativa é mais do que um relato histórico; é uma homenagem silenciosa à coragem dos que partiram, carregando apenas a esperança no olhar e o desejo de um futuro digno no coração. Matteo Orlandi, nome fictício, representa cada homem, cada mulher e cada família que enfrentaram o desconhecido — não por simples aventura, mas pela urgência vital de reescrever suas histórias, de romper as amarras de uma terra que já não lhes prometia sustento.

Ao mergulhar nesta saga, procurei dar voz àquelas existências muitas vezes silenciadas pela distância do tempo e pela imensidão das geografias atravessadas. Cada palavra é uma ponte entre o passado esquecido e as raízes profundas que florescem nas gerações que hoje cultivam novas terras, longe de seus berços originais. Que esta história sirva para lembrar que a coragem não está apenas nos grandes gestos, mas também na decisão silenciosa de partir — de abandonar o conhecido para abraçar o incerto. E que, nas páginas da vida, mesmo o mais humilde “campicello” pode tornar-se o alicerce de um legado imortal.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 16 de maio de 2026

Soto el Fredo Ciel dei Monti Gaùssi

 


Soto el Fredo Ciel dei Monti Gaùssi

La saga de Giacomo Parotto ´nte la Colònia Conde D’Eu


Zera el 1882, con su le coline sassorose de San Gervasio Bresciano, un comune de Brescia, Lombardia, la febre de l’emigrassion la se spaiava come un fogo che nissun riussiva a fermar. No ghe zera bisogno de carteli in piassa, né de aviso in ciesa. Bastava scoltar le ciàcoe basse drento i cantoni o sui campi par capir che na nova mania la zera vegnù su le famèie: l’Amèrica.

Fin no tanto tempo indrio, i òmeni del paese i se movea solo par stagion, ndando a laorar su i risai del Piemonte o su le fàbriche de maton del Véneto, e po i tornava con qualchi sbranca de monede par comprarse ´na vaca o sistemar el teto. Ma quel inverno, qualchidun de novo el zera vegnù. El nome “Brasile” el spuntava drento le ciàcoe come ‘na promessa e ´na sfida. Pochi savea ´ndove che zera — qualchedun pensava a ‘na isola drento el mar, altri che zera ancora roba de Portogalo —, ma tuti disea che là le tere le zera grasse, calde, che in pochi mesi se guadagnava quelo che in Itàlia ghe voleva ani interi.

La vita in Itàlia no zera gnanca bona par dar un fià de speransa. El Regno, unì da poco, el zera ancora vassilava, ciapà drento un sistema storto e un Stato che no zera bon a tegner sù la gente de campagna. ´Nte el nord, là ndove che viveva Giacomo Parotto, i bei paesagi de vigne e campi de grano i nascondea ´na realtà amara: la misèria e la mancansa de laoro i se spaiava come ‘na mala pianta.

I coloni paroni, come Giacomo, i zera restà schiavi de dèbiti che no se podea mai pagar. Par seminar bisognava ciapar prèstiti con usure da far paura; par restituir bisognava dar via mesa racolta, e quando la racolta la se sfasea — come che zera sucesso da ani —, el dèbito el cressea ancora de pì. El pan de ogni zorno el zera scarso, e la polenta, prima glòria e sustento de la campagna, la rivava in tola in panari sempre pì pòveri.

De avanso, gnente. Le parole dei polìtici zera vento. Altri paesi de Europa i ´ndava avanti con le fàbriche e le strade nove, l’Itàlia restava piantà ´nte un sistema vècio, manegià dai latifondisti e da ‘na burocrasia che ingiassava tuto. Par la gente de le vile, la vita la zera un passassoto scuro: laorar fin a consumarse, pagar dèbiti che mai no calava, vardar i fiòi cresser magri e sensa speransa.

´Nte sto sofoco, la parola “Mèrica” la s’iluminava come ´na fiameta. No zera importante saver ben che cosa ghe zera drento a quel osseano — bastava saver che là, forse, ghe zera ‘na porta fora da la misèria. Par Giacomo, l’idea la ze nassù pian pian, come un pensier proibì… ma con i mesi che passava e i dèbiti cresseva, el pensier el diventava sempre pì grosso, fin che no el zera stà pì da tegnerli zo.

Giacomo Parotto, lora con trentadue ani, no zera un omo de fàvole. Laorador nato, con le man dure da laorar e da inverni lunghi, el gavea orgòio de la tera lassà dal so pare. Ma tre ani de fila la racolta de grano la zera ´ndà a monte. Le seche gavea brusà le vigne. E, par finir, le tasse le zera montà ancora. Con tre fiòi pìcolini e la mòier, Caterina, zà malandà de salute, Giacomo lu el ga capì che emigrar la zera forse l’ùnica salvassion.

No la zè stà un lampo. La resolussion come go dito prima, la ze vegnù pian pian, vardando i visin sparir da un zorno a l’altro, vendendo tuto quel che gavea par pagar el viaio. In fondo, no zera la speransa che movea quela fiumana de gente, ma l’imitassion: nissun voleva restar drìo a vardar i altri che se tirava su. E le lètare che rivava da oltre mar le zera pien de conti gonfià: tera larga, racolte grasse, oro par tera.

´Na sera de otobre, con la legna che scotava sul fogon, Giacomo l’ha dito a la mòier che la resolussion la zera fata: Brasil. Caterina no la ga dito gnente sùbito. Lei savea che discuter no servia. In paese se disea che chi che scartava la “ciamà de l’Amèrica” el zera condenà a morir ´nte la stessa misèria de sempre. E Caterina la gavea pì paura par i so fiòi che par lei.

Radise ´ntei Monti

I ani i ga passà, e Giacomo el ga imparà a tegner la mata a bada. Con i visin, el taia picade, el fa sercade, el spartisse semense. In pochi ani, un vignal el se spande sora la costa dolse drìo la casa, come che volesse strensarla drento un abràssio. Le prime piantine, rami presiosi strensà in strasse ùmide e portà via de la lontan Itàlia, i zera resistì al viaio longo. Giacomo, co le man pasienti, i gavea inestà su le vide brave che ghe cressea là, selvàdeghe, ben prima che rivasse i coloni. El risultà el ze stà sorprendente: le vite le ga ciapà la forsa de le piantte selvàdeghe e el gusto fin de l’uva de la so tera nativa. Ogni ramo novo el zera come un legame invisìbile tra el passà e el presente, e el profumo dolse dei primi fior de primavera el segnava che quela costa no zera pì solo tera — zera memòria viva, piantà ´nte’l Brasil. ´Nte l’autun, l’odor de l’ua madura el empinia l’ària, e Giacomo el soniava de far vin come quel che so pare el fasea in Lombardia.

La comunità la cresseva con la rivada de novi emigranti. Italiani de region diverse i mescolava dialeti, maniere e tipi di magnar. Ghe zera feste, messe e, qualche volta, bale su confini.


El Prèssio e la Promessa

Dopo trè desseni, Giacomo Parotto lu el zera un omo stimà in tuta la region. I so fiòi i gavea za tera e famèie pròprie. El vignal, adesso grande e produtivo, el fasea un vin bianco de rara qualità, que el zera apresà e vendù fin anca in altre colónie. Caterina, anca se segnà dal tempo e dal laoro duro, la tegnea ancora quel sguardo fermo e deciso che lei gavea la sera che lori i zera partì da l’Itàlia, come se el coraio de quela partensa la batesse ancora drento el so spìrito.

La sera, sentà apresso al fogon, Giacomo el lassava la mente scorrere tra i ani de fadiga e sacrifìssio. L’Amèrica, lontan dal paradiso che i ghe gavea promesso, la se zera si mostrà dura e spietà. Ma là, tra sudor, pasiensa e speransa ostinada, la zera nassù na vitòria silensiosa sora la misèria — ‘na richessa che gnente oro la podea misurar, incisa par sempre drento el cuor de chi gavea avù el coraio de sóniar.

Nota del Autor

Sto brano el fa parte de un libro de fission, con personagi e nomi inventà, ma la stòria la se inspira a na lètera vera, tegnù in un archìvio pùblico. El protagonista, come tanti de la so època, el zera nato in ‘na tera segnà da la povertà, dai limiti de la vita contadina e da la mancanza de ocasion che prometea solo fadiga e dolore. Sto contesto, insieme co la coraio e la speransa, el ghe dà la spinta de lassar l’Itàlia e sercar un futuro mèio oltre mar. Scrivendo sta òpera, mi go volù no solo contar la so stòria, ma anca onorar tuti quei pionieri che, con fadiga dura e determinassion, i ga trasformà la vècia Colònia Conde d’Eu ´nte la sità viva de Garibaldi. Incòi, le so memòrie le vive ´nte i spumanti che la region la produse e ´nte la forsa silensiosa de chi, contro ogni dificultà, la ga costruì un futuro che parea impossìbile. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Jornada de Rinaldo e Giuseppe: Da Itália para a Colônia Conde D'Eu no Brasil



No gélido inverno de 1889, Rinaldo Battista R., e seu cunhado Giuseppe G. enfrentavam uma reviravolta inesperada nos seus destinos. A possibilidade de uma nova vida no Brasil, surgida através da Società di Navigazione Generale Italiana, uma empresa de navegação encarregada e comissionada pelo governo brasileiro para recrutar mão de obra italiana por todo o país,  pagando os respectivos bilhetes de transporte, foi interrompida por uma decisão do parlamento italiano, suspendendo temporariamente a emigração subsidiada para o Brasil, jogando seus sonhos num abismo de incertezas.

Em Cantonata, a pequena localidade onde agora estavam morando, localizada no coração da província de Cremona, devido as más condições do tempo, naquele ano os campos de linho produziram apenas um terço do esperado. A neblina pairava sobre os trigais, reduzindo a colheita pela metade. A uva, símbolo de prosperidade, murchava nas vinhas, enquanto as tempestades dispersas causavam estragos generalizados. A desesperança se entrelaçava com seus dias e então tentaram uma mudança de  residência, deixando para trás Costa Santa Caterina, onde nasceram e sempre viveram, em busca de melhores condições em Cantonata. Ainda assim, as sombras da incerteza pairavam, alimentadas pela incansável espera do possível levantamento do veto governamental à emigração subsidiada.

Para essa empreitada tiveram ajuda de Pierino, um amigo comum, que não poupou esforços para ajudá-los conseguir as passagens gratuitas para o Brasil. Seus corações permaneciam aquecidos pela esperança, mesmo diante da crueza do inverno e das agruras da vida rural na Itália daquele ano.

Finalmente, em 1891, as nuvens da proibição se dissiparam. Embarcaram finalmente para o Brasil, a bordo de um grande navio a vapor, chegando depois de 40 dias na Colônia Conde D'Eu, localizada no coração do Rio Grande do Sul. A terra prometida acolheu-os generosamente, e a semente de seus sonhos, outrora plantada na Itália congelada, agora florescia em terras brasileiras.

Os primeiros anos no novo país foram desafiadores, na verdade muito duros, mas com perseverança e trabalho árduo, os dois  cunhados construíram um novo lar. Em poucos anos encontraram o amor, Giuseppe com Maria e Rinaldo com Carmela, ambas filhas de famílias imigrantes da região do Vêneto, que haviam se estabelecido 15 anos antes naquela colônia. As duas famílias cresceram, as colheitas abundaram, e logo puderam adquirir mais lotes de terra, tornando bem mais extensas as suas propriedades, consolidando de vez as suas presenças na colônia.

À medida que as décadas avançavam, puderam acompanhar os filhos seguindo seus passos, expandindo os vinhedos, modernizando as técnicas agrícolas e construindo uma base sólida para as gerações futuras. A Colônia Conde D'Eu, hoje a bela cidade gaúcha de Garibaldi, tornou-se o seu lar, não apenas geograficamente, mas no tecido de suas vidas e memórias.

A jornada dos dois cunhados cremoneses, que começou na Itália gelada, culminou numa história de sucesso, determinação e prosperidade nas vastas terras do Rio Grande do Sul. O Brasil passou a ser  a  segunda pátria deles, acolhendo-os generosamente, os quais, por nossa vez, plantaram raízes profundas e duradouras neste solo fértil.



domingo, 18 de junho de 2023

Legados de Honra: Os Sobrenomes que Marcaram os Imigrantes Italianos nas Colônias do Rio Grande do Sul




Sobrenomes de Imigrantes Italianos Pioneiros nas  Colônias Dona Isabel e Conde d’Eu 

 Esta lista pode não estar completa faltando algum sobrenome



Accorsi, Adami, Adamoli, Agazzi, Agliatti, Agnoletto, Agostini, Alberici, Alberti, Alberti, Allegretti, Ambrosi, Anadro, Andreola, Andriollo, Arbusti, Arioli, Ariotti, Arisi, Arigoni, Arsego, Asolini, Astolfi, Attuatti, Azzulari, Bacin, Bagattini,Baiocco, Balbinot, Baldasso, Baldi, Baldin, Ballarini, Ballestrelli, Ballin, Balzan, Bandino, Barater, Baratto, Barbieri, Barni, Baron, Barrichello, Bartolozzi, Baruffi,Baseggio, Basei, Basiggio, Bassani, Bassi, Basso, Battistuzzi, Bau, Bavaresco, Beal, Beduschi, Belatto, Bellaboni, Bellaver, Bellini, Bellotti, Belluzzo, Benedusi, Benvenutti, Bergamaschi, Bernard, Bernardi, Bernardon, Bersaghi, Berselli, Bertani, Berti, Berticelli, Bertoldi, Bertolini, Bertoncello, Bertuol, Bettinelli, Betto, Bez, Biacchi, Bianchetti, Bianchi, Biasibetti, Biasion, Biazus, Bissolotti, Bocca, Bocchi, Bonacina, Bonassi, Bonato, Bonatti, Bonazzi, Bonet, Bonetti, Bonfanti, Bonini, Boninsegna, Borcioni, Bordignon, Bordini, Bortolaz, Bortolini, Bortolozzi, Bos, Bottesini, Bovo, Bozzetto, Brancher, Branchi, Breda, Brignoni, Brochi, Brugalli, Bruschi, Bussinello, Cadore, Cagliari, Calcagnoto, Caldart, Callevi, Camello, Camera, Camillo, Campagnoni, Campio, Campiol, Cannini, Canova, Capelletto, Capellini, Cappellari, Cappi, Carli, Carlotto, Carnacini, Carniel, Carraro, Casagrande, Casellani, Cassol, Castaldo, Castelli, Cattani, Cattuzzo, Cauduro, Cavagnoli, Cavalet, Cavallari, Cè, Cecconello, Cecconi, Ceratti, Ceresa, Ceresoli, Cerini, Cesca, Checchi, Chiapperin, Chiarellotto, Chies, Chiesa, Chiossi, Chittò, Cignacchi, Cipriandi, Cobalchini, Colazioli, Colbacchini, Collonna, Colnaghi, Colombelli, Colussi, Comarella, Comin, Cominetti, Compagnoni, Comunello, Concatto, Conci, Concli, Conti, Conz, Conzatti, Corbellini, Cortesi, Coser, Costa, Crestani, Cristofori, Cunco, Cusin, Cutti, D’agostini, D’Ambrosi, D’Arrigo, Da Cas, Da Riva, Da Roit, Dadalt, Dal Dosso, Dal Pissol, Dal Piva, Dal Ponte, Dal Zocchio, Dalcorso, Dall’Acqua, Dalla Valle, Dallago, Dallavecchia, Dalle Laste, Dalle Laste, Dalmagro, Dalmolin, Dalri, Damin, Darè, Dartora, Datta, Davoglio, De Boni, De Conto, De Gaspari, De Grossi, De Lucca, De Marchi, De Mari, De Paris, De Rossi, De Venz, De Venzo, De Zan, Debastiani, Debona, Decarli, Decesero, Decesero, Degaspari, Degeroni,Deitos, Del Pizzol, Del Sassi, Delani, Della Libera, Dellai, Demarchi, Denardi, Denardi, Denicolò, Destri, Di Pomo, Dissegna, Ditòs, Do Campo, Dolfini, Dolmina, Domenegatto, Donada, Donadel, Donatti, Donatti, Dondoni, Dondoni, Dorigatti, Enos, Fabbian, Fabbrin, Fabbrizio, Faccio, Facciocchi, Faes, Faggion, Fantin, Fardo, Farina, Fascicolo, Fasolo, Favero, Fazzioni, Fedirizzi, Felice, Ferla, Ferrareto, Ferrari, Ferrarini, Ferretti, Ficcagni, Fin, Fiorentin, Fiornentin, Fiorot, Fistarol, Fittarelli, Floriani, Folgatti, Folle, Fonini, Fontana, Fontanella, Forestieri, Franceschet, Franceschini, Francio, Franciosi, Franzoloso, Frare, Frasnelli, Frittoli, Frizzo, Fronza, Frosi, Fucina, Fumegalli, 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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

O Caminho dos Imigrantes Italianos no Brasil

Travessia do Rio Caí

 



Os primeiros imigrantes italianos que chegavam ao Brasil desembarcavam exclusivamente pelo porto do Rio de Janeiro. Desciam nas instalações portuárias da Ilha das Flores, onde se situava a Hospedaria dos Imigrantes, que os acolhia pelo prazo máximo de oito dias  depois seguiam o seu destino. 

A partir de 1882, com o grande aumento do fluxo de imigrantes, o desembarque também passou a ser feito pelo porto de Santos, especialmente para aqueles imigrantes cujo destino final era o Estado de São Paulo. Os recém chegados faziam o trajeto desde o porto até a cidade de São Paulo, por trem ou em grandes carroças. Ficavam hospedados na Hospedaria dos Imigrantes esperando pelos representantes dos fazendeiros que vinham busca-los. 

Os imigrantes já vinham da Itália com contratos assinados com grandes fazendeiros de café, e também de algodão, e somente depois de registrados na hospedaria é que ficavam sabendo para onde seriam levados.

Aqueles imigrantes que seguiriam ainda para outros destinos na região Sul, como os portos de Paranaguá, Laguna ou Porto Alegre, eram transportados por navios costeiros brasileiros de menor calado. 

Os imigrantes que estavam destinados às colônias italianas do Sul do país, criadas a partir de 1875, paravam no porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. 

Depois de uma parada de alguns dias, esperando pelas pequenas embarcações fluviais a vapor, ainda na Lagoa dos Patos, passavam por Pelotas até Porto Alegre, para então começar a subir pelos rios Caí ou Jacuí, até desembarcarem no local mais próximo de onde estavam situadas as colônias italianas recém criadas pelo governo brasileiro.

Subindo o rio Caí, os imigrantes que estavam destinados para as Colônia Dona Isabel e Conde d'Eu, hoje respectivamente as cidades de Bento Gonçalves e Garibaldi, desembarcavam em Montenegro. Já aqueles destinados para a Colônia Caxias, desembarcavam em São Sebastião do Caí. 

Do desembarque, nos portos do rio Caí, até as respectivas colônias, precisavam vencer uma longa distância, cujo percurso era feito em carroções puxados por bois ou a pé. A estrada era somente uma estreita picada no meio da mata, aberta a facão pelos próprios imigrantes e funcionários do governo brasileiro que os acompanhavam. 

No fim do trecho plano da chamada estrada Rio Branco, às margens do Rio Caí, tinha então início a parte mais difícil do trajeto que era a subida da Serra. Mas, antes de seguirem viagem, muitos paravam na improvisada hospedaria para se alimentar e descansar. Os italianos eram acompanhados por alguns funcionários do serviço de imigração que além do transporte, também serviam de guias para localizar o lote de terra correspondente a cada um dos imigrantes. 

Os imigrantes italianos que seguiram para a Colônia Silveira Martins, nome dado em homenagem ao presidente da província, porém, mais conhecida como quarta colônia de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul, tiveram que subir pelo rio Jacuí até Rio Pardo e completar o restante do caminho em carros de bois ou a pé, até a localidade de Val de Buia.

A 4ª Colônia, criada em 1877, ficava próximo do município de Santa Maria, uma extensa região no planalto central do estado que engloba os atuais municípios de Silveira Martins, Ivorá, Faxinal do Soturno, Dona Francisca, Nova Palma, Pinhal Grande e São João do Polêsine, além de partes dos municípios de Agudo, Itaara e Restinga Seca.



Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS