Mostrando postagens com marcador Século XIX. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Século XIX. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de novembro de 2025

A Emigração Italiana para o Brasil: História, Dor e Esperança

 


A Emigração Italiana para o Brasil: 

Uma História de Esperança, Dor e Silêncio dos Imigrantes Italianos


Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o Brasil se transformou no destino de centenas de milhares de italianos que, movidos por necessidade e esperança, cruzaram o oceano Atlântico em busca de uma vida melhor. Dentre eles, os vênetos — naturais da região do Vêneto, ao norte da Itália — formaram uma das maiores correntes migratórias rumo às lavouras brasileiras.

O Vêneto e a raiz da partida

Após a unificação da Itália, em 1870, o país enfrentou uma severa crise econômica. No Vêneto, então composto por províncias como Padova, Rovigo, Treviso, Verona, Veneza, Vicenza e Belluno (com Udine até 1900), a pobreza se alastrou entre os pequenos proprietários rurais. A estrutura agrária era arcaica, os impostos aumentaram, e os preços dos produtos agrícolas caíram drasticamente. Famílias numerosas dividiam pequenas parcelas de terra, insuficientes para garantir sustento. A polenta, à base de milho, era o alimento diário das camadas mais pobres, enquanto a carne era consumida apenas em ocasiões festivas. O vinho bom e o pão branco, por sua vez, estavam reservados às épocas de colheita e às casas mais abastadas.

As condições de moradia também eram precárias. Casebres de pedras soltas, chão batido e pouca mobília contrastavam com os altares improvisados com imagens do Sagrado Coração de Jesus e da Virgem Maria, testemunhas silenciosas da fé e da resignação de um povo. Quando os filhos cresciam, os mais velhos assumiam o trabalho do pai, geralmente por volta dos 46 ou 47 anos, e o ciclo recomeçava. O casamento, feito por acordo entre famílias, acontecia cedo: os homens, entre 23 e 25 anos; as mulheres, entre 18 e 23. Viúvos com filhos pequenos costumavam se casar novamente com moças jovens e de braços fortes, valorizadas por sua capacidade de trabalho e fertilidade.

Diante desse cenário, a emigração tornou-se uma válvula de escape para a miséria. Muitos vendiam suas posses logo após a colheita do trigo, entre setembro e novembro, reuniam o que podiam carregar e partiam, muitas vezes em família, sem planos de retorno.

A travessia e a chegada ao Brasil

A chegada ao Brasil se intensificou entre 1870 e 1920, quando mais de 960 mil italianos desembarcaram no país. São Paulo foi o principal destino, recebendo cerca de 70% desse contingente. Outros estados também atraíram italianos: Rio Grande do Sul (10%), Minas Gerais (8%), Espírito Santo (6%), Santa Catarina (4%) e Paraná (2%). Essas estatísticas, colhidas nos registros da Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, mostram uma forte concentração inicial no Sudeste, mas também indicam a dispersão gradual dos imigrantes.

Contudo, os registros italianos apresentam números ainda maiores. Considerando o princípio do jus sanguinis(nacionalidade por descendência), a Itália contabilizou como italianos os filhos nascidos fora do país, o que eleva a estimativa para cerca de 1,5 milhão de emigrantes para o Brasil — 850 mil só para São Paulo. No Brasil, por outro lado, adota-se o critério jus soli, o que reduz os números oficiais.

Ao desembarcar, os recém-chegados aguardavam nos centros de acolhimento a distribuição para as fazendas. Alguns vinham contratados por intermédio de agentes oficiais ou particulares; outros, por conta própria, lançavam-se à busca de trabalho, de fazenda em fazenda, até encontrar colocação. Muitos insistiam para que familiares e conterrâneos fossem mantidos juntos, numa tentativa de preservar os laços de solidariedade.

Do sonho à frustração: a vida nas fazendas brasileiras

A realidade no Brasil, no entanto, mostrou-se dura. Nas lavouras de café paulista, os italianos substituíram os escravizados recém-libertos. O sistema de parceria, em que os colonos plantavam e colhiam o café em troca de uma fração da produção, rapidamente revelou sua face cruel: dívidas crescentes, preços controlados pelos fazendeiros e abusos frequentes. O colono italiano tornou-se refém do patrão. Relatos de maus-tratos se multiplicaram, incluindo agressões físicas e psicológicas.

Em 1895, escandalizado pelas denúncias, o governo da Itália suspendeu temporariamente a imigração subsidiada para o Brasil. Somente pessoas com recursos próprios puderam continuar partindo. Ainda assim, o fluxo não cessou. Em 1902, com o Decreto Prinetti, a Itália proibiu em definitivo o envio de trabalhadores para o Brasil com passagem custeada pelo governo, selando o fim da grande imigração incentivada.

Dos quase um milhão de italianos que vieram entre 1870 e 1920, cerca de 357 mil deixaram o Estado de São Paulo, migrando para países como Argentina e Estados Unidos, que ofereciam melhores condições de trabalho e salários. O movimento não era apenas por ambição, mas por desilusão com a vida nas plantações brasileiras.

Desmemória, dispersão e silêncio

Ao longo das décadas, muitos descendentes deixaram de saber com exatidão a cidade ou a província de origem de suas famílias. O rompimento com o passado, muitas vezes intencional, era uma forma de sobrevivência emocional. Os que chegaram aqui raramente contavam aos filhos sobre as dificuldades vividas na Itália. Sabiam que a volta era impossível — e, por isso, preferiam o silêncio. Os traumas da travessia, da pobreza e da opressão eram engolidos pelo trabalho árduo e pelas novas responsabilidades.

Casos de famílias separadas durante fugas de fazendas não são raros. Um imigrante relatou, por exemplo, que fugiu sozinho após sofrer humilhações, deixando para trás irmãos e tios com os quais viera da Itália. Nunca mais soube deles. Situações como essa explicam por que hoje tantos brasileiros com o mesmo sobrenome não sabem se são parentes. No início do século XX, no entanto, todos conheciam suas raízes — sabiam os nomes dos avós, a aldeia de onde vieram, e a história familiar era parte viva do cotidiano.

Em 1904, um relatório diplomático italiano informou que 424 imigrantes embarcaram de Santos para a Argentina, insatisfeitos com o Brasil. E muitos outros fizeram o mesmo, silenciosamente.

Legado e identidade

Ainda que a memória dos sofrimentos tenha sido abafada, a marca da imigração italiana no Brasil é profunda. Da língua às tradições culinárias, das festas religiosas às comunidades rurais formadas no interior, o legado persiste. Os descendentes podem não saber a origem precisa de seus bisavós, mas herdaram deles a resiliência, o senso de comunidade e o valor do trabalho.

A grande ironia é que muitos dos que partiram em busca de uma nova vida foram recebidos com dureza em seu novo lar. E mesmo assim, plantaram raízes. A dor foi o adubo — e a memória, mesmo fragmentada, ainda brota nas histórias de família contadas em voz baixa, nos sobrenomes repetidos com orgulho, nos documentos antigos guardados como relíquias.

A história da imigração italiana no Brasil não é apenas uma narrativa de deslocamento, mas de reconstrução. E, acima de tudo, de um povo que, mesmo longe da pátria, construiu outra. 

Nota Explicativa

Este texto apresenta, de forma resumida e acessível, o contexto histórico da emigração italiana para o Brasil entre o fim do século XIX e o início do século XX. Explica as causas da partida no Vêneto, as dificuldades da travessia, a dura realidade nas fazendas brasileiras e o impacto dessa migração na memória e na identidade dos descendentes.



domingo, 23 de novembro de 2025

A Emigração dos Vênetos: Origens, Transformações e o Legado de um Povo em Movimento


A Emigração dos Vênetos: Origens, Transformações e o Legado de um Povo em Movimento

1. O Vêneto e o nascimento de uma terra de partida

Quando o Vêneto foi anexado ao recém-unificado Estado italiano, na década de 1860, sua porção setentrional já acumulava uma longa tradição migratória. Os habitantes das montanhas, pressionados pela pobreza e pela falta de terras, deixavam suas aldeias para trabalhar temporariamente em diversas regiões da Europa central e dos Bálcãs.

Essas partidas curtas conhecidas migração golondrina, abasteciam obras públicas, estradas, ferrovias, derrubadas de mata e inúmeros ofícios ambulantes que aos poucos viraram especialidade local: afiadores, funileiros, gravuristas, entalhadores e fabricantes de cadeiras percorriam fronteiras em busca de sustento.

2. A virada transoceânica: o salto rumo ao Brasil e à Argentina

A partir de meados da década de 1870, o movimento migratório adquiriu um novo caráter. Famílias inteiras começaram a atravessar o Atlântico, dando início às grandes correntes migratórias em direção ao Brasil e à Argentina. A década de 1890 marcou o auge desse fenômeno, quando milhares de camponeses vênetos – muitos que jamais haviam migrado antes – embarcaram para a América.

A miséria rural, a pelagra, a ausência de perspectivas e a desconfiança em relação às elites locais empurraram inúmeros lares à decisão drástica de partir definitivamente.

3. A expansão contínua de um fluxo aparentemente incontrolável

Embora o Estado italiano acreditasse que esse êxodo seria breve, o deslocamento só cresceu. Com o avanço das ferrovias e do transporte marítimo, novas rotas se abriram, tornando a mobilidade uma alternativa real para praticamente todo jovem camponês vêneto no início do século XX. A partir desse período, a migração temporária e definitiva espalhou-se para destinos europeus e outros continentes.

4. As migrações temporárias: um fenômeno pouco estudado, mas decisivo

Menos celebrada que a grande emigração para as Américas, a migração sazonal teve impacto social e cultural profundo. Em 1914, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, cerca de 170 mil vênetos foram obrigados a retornar às pressas. Muitos voltaram no ano seguinte para atender à convocação militar.

Após o conflito, as partidas recomeçaram com vigor: rumo às Américas, às áreas rurais despovoadas do sul da França e até à distante Austrália.

5. Entre o trabalho, o exílio e o fascismo

O fluxo migratório não envolvia apenas trabalhadores. A partir dos anos 1920, opositores políticos fugiram da violência fascista, ao mesmo tempo em que o regime moldava e restringia a mobilidade dos demais. Mesmo assim, a migração interna se intensificou, especialmente com o povoamento do Agro Pontino e de outras regiões em processo de colonização.

6. A busca por trabalho na Europa e no mundo após 1938

Com acordos bilaterais entre Itália e Alemanha a partir de 1938, muitos vênetos foram enviados como mão de obra para o Terceiro Reich. Essa política se manteve após a Segunda Guerra Mundial. A reconstrução europeia exigia trabalhadores, e o Vêneto respondeu: Bélgica (1946), França (1946), Suíça (1948), Argentina (1948), Venezuela (1949), Brasil (1950), Austrália (1950), Canadá (1951).

Grande parte desses migrantes enfrentou condições precárias, empregos pesados e vigilância severa nos países de destino.

7. A virada dos anos 1960 e a transformação do Vêneto em terra de chegada

O saldo migratório do Vêneto só mudou ao final dos anos 1960, quando retornos aumentaram e novas partidas rarearam. Nos anos 1980, um fenômeno novo emergiu: o Vêneto passou a receber trabalhadores estrangeiros de países pobres ou instáveis, transformando-se lentamente em região de imigração.

8. A emigração definitiva: identidade, memória e reconexão

As grandes ondas migratórias – especialmente as de 1890, 1920 e 1950 – tornaram-se objeto de estudo, além de inspirarem iniciativas culturais voltadas a reencontrar descendentes espalhados pelo mundo. Brasileiros, argentinos e australianos de origem vêneta têm buscado suas raízes, reconstruindo vínculos afetivos que muitas vezes foram rompidos por saídas marcadas pela dor e pelo ressentimento.

Essas diásporas criaram comunidades vibrantes e, em diversos casos, indivíduos de grande projeção social.

9. O silêncio da migração temporária e o apagamento da memória

Enquanto a emigração definitiva ganhou espaço nas narrativas oficiais, a migração temporária permaneceu esquecida. Muitos trabalhadores retornados eram recebidos com frieza ou desinteresse, e suas experiências foram apagadas, como também aconteceu com veteranos da Segunda Guerra ou prisioneiros que voltaram da Alemanha.

Só recentemente suas histórias começaram a ser registradas.

10. O “verdadeiro Vêneto”: entre o enraizamento e o impulso para partir

Pesquisas indicam que o Vêneto do século XIX não era homogêneo como se costuma imaginar. Havia uma convivência constante entre dois tipos de grupos:
• os que permaneciam — agricultores, guardiões das tradições locais;
• os que partiam — trabalhadores habituados à mobilidade, à improvisação e à mudança.

Com o passar das décadas, essas identidades se misturaram, formando uma sociedade capaz de equilibrar tradição e inovação, estabilidade e ousadia. Esse híbrido cultural foi fundamental para o desenvolvimento econômico do século XX.

11. A mobilidade como essência vêneta

Estudos mostram que a maioria dos homens rurais nascidos entre 1880 e 1930 viveu ao menos uma experiência migratória. Essa mobilidade contrasta com a imagem clássica do camponês imobilizado à terra. A migração transformou comunidades, abriu horizontes e alimentou um ciclo contínuo entre partir e retornar.

12. Um futuro moldado por novos encontros

Hoje, a dinâmica se renova: o diálogo entre os antigos vênetos e os novos imigrantes que chegam ao território. É um processo complexo, que exige compreensão e gestão, mas que também pode gerar novas sínteses sociais, assim como aconteceu no passado.

Nota do Autor

Este texto apresenta uma visão ampla e reinterpretada da história migratória dos vênetos, abordando desde as primeiras partidas sazonais até as grandes ondas transoceânicas. A narrativa reorganiza os fatos, contextualiza mudanças sociais e destaca como a mobilidade moldou a identidade cultural da região. Ao reestruturar a história em seções temáticas, busca-se oferecer uma leitura mais clara, atualizada sem comprometer o rigor histórico.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 22 de novembro de 2025

Sob o Céu da Colônia: A Jornada de um Imigrante Italiano (1879)


Sob o Céu da Colônia: A Jornada de um Imigrante Italiano (1879)

I – O Chamado da Fome e da Esperança

No inverno de 1879, Matteo Ferrarin deixou a vila Ramodipalo, comune de Lendinara no Polesine, às margens do grande rio Pó, com a alma coberta de lama e o corpo esgotado de fome. A enchente daquele ano levara as colheitas, o celeiro e a última razão para ficar. Desde o outono, o correio do vilarejo trazia cartas de parentes que haviam partido antes dele — cartas manchadas de saudade e promessas. Falavam de um lugar longínquo chamado Brasil, onde o governo oferecia terras férteis e liberdade.
Matteo não sabia apontar no mapa onde ficava aquele país, mas a palavra “terra” bastou. Vendera o arado e a mula velha para comprar um casaco usado e um bilhete de terceira classe para o navio “Piemonte”, que partiria de Gênova rumo ao Rio de Janeiro. Ao embarcar, não olhou para trás. Quem o visse naquela manhã não veria um homem: veria uma ideia — a esperança encarnada.

II – O Mar e os Mortos

A travessia durou trinta e seis dias. O convés fedia a carvão, suor e desespero. As crianças tossiam até o sangue, os homens dividiam goles de água morna, e as mulheres rezavam. Matteo dormia no chão de madeira, entre cordas e barris. A quase cada amanhecer, o mar recebia um corpo, e o sino do navio soava em lamento.
Certa madrugada, um berço improvisado embalou um recém-nascido enquanto, no mesmo instante, dois homens eram lançados ao oceano envoltos em lençóis. Matteo aprendeu ali a primeira lição do Novo Mundo: a vida e a morte viajavam lado a lado.
Houve um dia, no meio da neblina, em que o vapor pareceu parar sobre as ondas. Do alto do mastro, um marinheiro gritou: “Terra!”. O navio inteiro se levantou. Era o porto do Rio de Janeiro, um cenário de montanhas azuis e luzes refletidas nas águas. Muitos choraram; outros se calaram, incapazes de acreditar que ainda respiravam. Mas para Mattio a viagem deveria continuar com outro navio em direção ao sul.

III – O Sul Prometido

No cais de Rio Grande, Matteo e os demais foram recebidos por funcionários do Império. Deram-lhes pão, água e um pedaço de papel com o nome do destino: “Colônia Dona Isabel, Província de São Pedro do Rio Grande do Sul”.
Após alguns dias hospedados num grande alojamento de madeira rústica, embarcaram novamente — agora num pequeno vapor chamado Guimarães, que os levaria contra a correnteza do rio Guaíba, na Lagoa dos Patos, e depois pelo rio Caí. O cheiro da água doce, a lentidão do barco, a chuva constante: tudo parecia mais distante do que o mar.
Quando o Guimarães ancorou em Montenegro, a terra firme parecia tremer. Ali terminava o caminho das águas. O resto da jornada seria feito a pé e em grandes carroças puxadas por mulas. As mulheres grávidas e as crianças pequenas iam nas carroças; os homens, como Matteo, abriam picadas na mata com facões fornecidos pelos funcionários da emigração que os acompanhava.

A Colônia Dona Isabel ficava a pouco mais de um dia de viagem de onde desembarcaram. O barro engolia os passos, os mosquitos feriam a pele, e o silêncio da floresta era quebrado apenas pelo estalo dos troncos e o ranger das rodas. À noite, dormiam sob as estrelas — um céu tão escuro e profundo que parecia outro mundo. Matteo passou a chamar aquele caminho de “estrada da provação”.

IV – O Lote 83

Quando finalmente chegaram ao destino, foram levados a uma clareira recém-aberta. Um homem de chapéu e casaco negro — um agrimensor brasileiro — leu uma lista e chamou o nome de cada família. A cada nome, uma estaca de madeira era fincada no chão.
Matteo recebeu o lote número 83. Olhou ao redor: uma colina coberta de mato, pedras, árvores e até um pequeno rio. Nenhum sinal de estrada, de vizinho, de pão. Apenas floresta. O intérprete, um genovês que falava um português arrastado, disse-lhe:
— Tuto ghe ze, tuto ze tuo. Tudo o que há, é teu.
Matteo compreendeu: o Brasil não era a terra prometida, mas o inferno que se devia conquistar com as próprias mãos.

V – A Casa de Troncos

Os meses seguintes foram de solidão e chuva. Matteo construiu uma cabana com troncos e galhos cortados à machado. Dormia sobre folhas secas, comia o que caçava e o que o mato dava. Aprendeu a reconhecer o som das cobras, a cor das frutas e o cheiro das tempestades.
Certa manhã, encontrou um vizinho lombardo, Luigi Bellato, que o ajudou a fazer a cobertura de folhas de palmeiras, Em troca, Matteo ofereceu metade de um porco do mato que havia conseguido caçar em uma arapuca improvisada. Assim nasceu a fraternidade dos esquecidos.
Quando o inverno chegou, o frio da serra quase o matou. Foi então que a solidariedade salvou vidas: mulheres friulanas e tirolesas se reuniram para fazer pão e sopa de pinhões; homens se juntaram para abrir um caminho de terra que ligava os lotes até a sede. Daquela união nasceu a primeira comunidade da colônia Dona Isabel.

VI – A Semente do Futuro

No segundo ano, Matteo abriu o primeiro pedaço de terra para o plantio. Guardava ainda, embrulhados num lenço, os grãos de milho e feijão que trouxera da Itália — a última herança da terra natal. Plantou-os em silêncio, como quem reza.
Quando brotaram os primeiros talos, chorou. Não era só o milho que nascia: era a certeza de que, apesar de tudo, a vida continuava.
Ao redor, outros faziam o mesmo. O som dos machados, das enxadas e das vozes formava uma música áspera, mas bela. Entre os pinheiros e os vales, a colônia começava a existir.

VII – O Homem que Ficou

Matteo envelheceu sem nunca retornar à Itália. O tempo fez dele um colono respeitado, embora pobre. Nas noites de inverno, ao lado do fogo, contava aos recém-chegados a história do navio Guimarães, da floresta e da chuva.
Morreu numa manhã fria, diante do mesmo campo que plantara quarenta anos antes. Sobre sua tumba simples, os filhos escreveram:

“Qui riposa Matteo Ferrarin. Vignesto per sercar tera e el ga trovà el mondo.

Aqui repousa Matteo Ferrarin. Veio buscar terra e encontrou o mundo.

Epílogo

Hoje, onde antes havia mata, há vinhedos, igrejas e estradas. Ninguém se lembra do velho Matteo, mas cada videira que cresce entre as pedras carrega algo do seu suor.
E sob o céu da colônia — o mesmo céu que o recebeu em 1879 — a terra vermelha ainda fala o idioma dos primeiros que a amaram. 

Nota do Autor

Os nomes e alguns detalhes desta narrativa foram alterados para preservar a identidade das famílias envolvidas. No entanto, a história de Matteo Ferrarin é verdadeira — reconstruída a partir de cartas originais escritas por imigrantes italianos do final do século XIX, hoje conservadas no acervo de um museu histórico do Rio Grande do Sul.
Essas cartas, redigidas em dialetos do Vêneto, Friuli e Lombardia, são testemunhos de uma época em que milhões de italianos deixaram a sua terra natal movidos por fome, esperança e fé. Cada linha carrega o peso de um adeus e a força de um recomeço.
A trajetória de Matteo representa a de tantos outros colonos que cruzaram o Atlântico em busca de dignidade, enfrentaram a selva do sul do Brasil e transformaram a dor em herança. Sob o mesmo céu que os acolheu, permanece viva a memória dos que, como ele, vieram procurar terra — e encontraram um novo mundo.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta



segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Chiara Granelli: Coraio e Solitùdine ´nte l’Imigrassion Italiana

 


Chiara Granelli: Coraio e Solitùdine ´nte l’Imigrassion Italiana


El autono se stava pian pian desmentegando sora i coli de la Liguria, quando Chiara Granelli capì che gnente la ligava pì a quela tera. La casa paterna, che ‘na volta zera pien de vosi e de pase, adesso no zera che ‘n ricoaro silensioso de memòrie sfadà. El marìo, Pietro, el zera partì da qualche setimana, prometendo de vender la picola proprietà che lui aveva eredità dopo la morte de la mare. El gavea dito che saria tornà tra pochi zorni, con i schei bastanti par la traversia dei do. Ma el tenpo el zera passà, e sol el silénsio el ze tornà — un silénsio grosso, come la nèbia che se distende sora le viti morte a l’àlbori.

Chiara la capì, sensa sentir gnente, che la zera restà sola. No zera la prima volta che Pietro la tradia con le so busìe. Da tanto che l’alcol el l’avea trasformà in un foresto, un omo che gavea perso la strada e la rason. A ogni tempo, se scioglieva un fià de pi la promesa d’un futuro insieme. E con l’inverno el se avisinava, portando ‘l fredo che taia l’ánima, Chiara la decise che no zera pi tempo de spetar nissun.

La ga vendesto quel poco che ghe restava — ‘na vaca magra, ‘na colsa de lino, l’anelo de fidansamento — e la comprò in bilieto su el vapor Liberty, che dovea partir da Zenoa verso l’Amèrica. No savea cossa la spetava da l’altra banda, ma la savea ben cossa la lassava drìo: la misèria, la vergogna e l’ombra d’un amor che s’era fato veleno.

El porto de Zénoa riboliva de corpi e de soni. Òmini sporchi de carbon spingèa bauli e valise; done tegnea i putei che dormia fra piansi e tossi; i veci se inzinociava davanti al mar, come par domandar perdon de abandonar la pàtria. Chiara vardava tuto con el cuor impastà tra la paura e el coraio. No gavea mai visto el mar. Davanti a quel orisonte de aqua infinita, la se sentì picenina, come ‘na foia menà dal vento.

El Liberty el partì in ‘na matina nebiosa, lassando drìo el odor de sal e de carbone, e portando via centenaia de ànime sbandonà da la so fortuna. La tersa classe, ndove che Chiara la zera acomodà, zera ‘n buco sofocante. L’ària la odorava de sudore, mufa e disperassion. Lei dormia sora un catre de legno, tra gemiti, tossi e el sbatocar sensa fine de le onde. A note, con le lusarne se spegnea, la sentiva pianser le done e scricolar le catene de l’àncora, come se el vapor intiero piansesse el so destin.

I zorni in mar se strascinava in ‘na monotonia amara. Chiara contava el tempo con el nasser e el tramonto del sol, con le porssion poche de pan e brodo, con le tempeste che sbatacava el ponte come se ‘l mondo dovesse cascar. Qualche volta, la ghe parea de sentir el nome de Pietro tra el suon del vento — ‘na ilusion che la fasea pianser sensa saver parché. Altre volte la se imaginava che lu la spetasse a Nova York, pentì, sòbrio, domandando perdon. Ma a volte lei sperava anca che el fusse morto, parché al manco la so assensa gavesse un senso.

Quande el vapor finalmente el ga vardà la Stàtua de la Libertà, Chiara no sentì la gioia che lei spetava. ´Ntei so òci ghe zera el brilo de chi vardava ‘na roba massa lontan. L’Amèrica la se mostrava come ‘na vision: prometente, ma freda e sensa ánima.

Ellis Island, l’ària odorava de desinfetante e paura. I imigranti i zera controlà come bèstie: òci, denti, man, polmoni. Tanti i zera rimandà indrio, altri spariva ´ntei coridoi sensa fin de l’ispession. Chiara, sola e sensa altri documenti che ‘l so passaporto stropià, la ga afrontà le file con rassegnassion. La ze stà liberà al terso zorno, co’ ‘n timbro che ghe dava el dirito de esistar in quel mondo novo — e gnente certessa su cossa far de ‘sta esistensa.

´Ntei primi mesi, lei lavorò come cossidora in ‘na fàbrica de vestiti al Lower East Side. Lei guadagnava poco, vivea in stansete ùmide, dormia contornà da altre done perse come lei. Da le finestre, lei vardava el cielo griso de Nova York rifletarse ´ntele poce de piova e lei pensava al sol de le cołine italian, a la casa che no zera pi, a l’omo che no zera mai tornà.

Con el tempo, el silénsio el ga diventà la so ùnica compagnia. No parlava inglese, e nissun volea sentir el so parlar de misèria. Le domèneghe lei passava ´nte la cesa de Santa Maria, no par fede, ma par ricordo. Qualche volta, quando l’òrgano suonava, lei serava i oci e la imaginava el vento che sbatea sora le montagne de la Liguria.

I ani i ga passà lenti. Chiara la se ga invecià sensa quasi capirlo. Le rughe le ga vigneste fora come mape d’un passato che no volea morir. Mai pì la sentì gnente de Pietro. Forse el se zera negà in qualch’osteria, o forse el continuava a bever la vita fin che no restava gnente. Lei preferia no saverlo.

‘Na tarde d’inverno, con la neve che cascava sora la sità e el fiume Hudson che parea ‘n spècio bianco, Chiara la se sentò su el molo. Lei vardava i navì che partia e rivava, portando e riportando i soni de altri. El vento ghe taiava el viso, e la sentì el stesso fredo de quel zorno che lei avea lassà l’Itàlia. Lei capì alora che el mar, quel stesso mar che ghe parea ‘na libartà, zera stà anca la so preson.

Lei morì sola, qualche setimana dopo, in ‘na stanseta de pension, con la fàssia seren come chi finalmente capisse che serte traversie no ghe ze ritorno. I visin i ga metesto insieme qualche moneta e la ga sepoli in ‘na fossa comun, con el nome de Chiara Granelli – imigrante italiana, 43 ani.

Nissun savea che lei zera ‘stà la dona che gavea traversà el mar da sola. Ma forse, da qualche parte fra le onde del Atlàntico, se sente ancora l’eco del so passo fermo su el Liberty — el passo de ´na dona che gavea osà sfidar el destin, anca quando el destin l’avea desmentegà de lei.


Nota del Autor

Chiara Granelli no la ze mia sol un nome de dona, ma el ritrato de miliaie che el tempo el ga tacà via. ‘Sta stòria che te lesi la ze inventà, ma la ga nassesto da lètare vere, da scriti sbrindolà e da ricordi sparsi ´ntei loghi scuri e profondi dei vapori che traversava l’Atlàntico a la fin del sècolo XIX.

Tra el 1880 e el 1910, pì de quatro milioni de italiani i ga lassà la so pàtria in serca d’una vita manco crudele. Tanti i ga ´ndà verso l’Amèrica del Sud; altri, come Chiara, verso i Stati Uniti, ndove Nova York la zera el primo respiro — e, qualche volta, anca l’ùltimo — de chi scapava da la fame, da le guere e da le desilusion.

Le done che partia da sole, come lei, el femenin se fermava tra la casa, l’ubidensa e el silénsio, traversar el mar sensa un omo zera un ato de ribelion e disperassion. Lore I zera cossidore, contadine, védove, done sbandonà; portava i so putei in brasso e la nostalgia ´ntel cuor. E anca se tante le ze sparì tra fàbriche, stansoni e ospedai sensa nome, ognuna de lore la ga aceso ‘na pienina fiama ´nte la vastità de la stòria.

Chiara la ze el sìmbolo de tute ‘ste vosi che el mar el ga magnà. El so nome el riposa sora le onde, ma el so corao el rimbomba ´nte le generassion che i ga vegnesto dopo — le nepote e bisnepote che, sensa saverlo, le ga eredità la forsa silensiosa de chi zera vignesto prima.

La tragèdia de la so solitùdine la ze, insieme, ‘na vitòria: la vitòria de aver osà viver, de aver traversà el limite che la paura imponea.
E come el vapor Liberty, che la ga portà via da tuto quel che lei amava, Chiara la continua a navegar ´ntel tempo — ‘na dona de carne e ànima, sperduta tra el ricordo e l’òblio, sìmbolo eterno de tute che le ga traversà el mar da sole.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



domingo, 16 de novembro de 2025

A Jornada de Carlo Venturin: A Vida de um Emigrante Italiano nas Fazendas de Café do Brasil

 


A Jornada de Carlo Venturin: A Vida de um Emigrante Italiano nas Fazendas de Café do Brasil


A travessia de Carlo Venturin rumo ao Brasil marcou o início de uma transformação profunda, típica dos movimentos migratórios que moldaram o final do século XIX. Foram quarenta dias confinados no porão úmido de um navio superlotado, onde a fome, as doenças e o ar rarefeito corroíam lentamente a vitalidade de cada passageiro. Naquele espaço escuro, Carlo compreendeu que deixar a planície nevada próxima a Milão significava renunciar não apenas ao passado, mas também às certezas de sua própria identidade.

Quando o navio finalmente atracou em Santos, a sensação de alívio durou pouco. Os recém-chegados foram rapidamente enviados às fazendas de café do interior paulista, como peças substituíveis de um sistema que prometia trabalho, mas entregava cativeiro disfarçado. Na Fazenda Boa Fortuna, Carlo descobriu um regime silencioso e implacável: preços inflacionados pelo próprio patrão, dívidas que cresciam sem controle e uma rotina intensa que transformava cada dia em prova de resistência.

O sol tropical, muito mais severo do que qualquer verão italiano, marcava sua pele como ferro quente. Ainda assim, Carlo enxergava nos cafezais uma metáfora de sua própria existência. As raízes das plantas, forçadas a se adaptar ao solo estranho, refletiam sua tentativa de fincar lugar em uma terra que exigia mais do que ele imaginara ser capaz de oferecer.

À noite, quando o silêncio tomava o campo, Carlo permitia-se recordar o cheiro da polenta recém-feita, o frio úmido das ruas de Milão e o conforto seco da neve sob as botas. Essas lembranças tinham o peso de um mundo inteiro, mas também a força necessária para mantê-lo de pé. Ele sabia que não havia retorno. Sua persistência era agora uma construção voltada para o futuro, mesmo que seus filhos ainda não existissem. A promessa de oferecer a eles um destino menos árduo guiava seus passos.

Assim se formava a trajetória de Carlo Venturin: uma vida moldada por trabalho incansável, adaptação e esperança teimosa. Seu esforço silencioso refletia a jornada de milhares de italianos que deixaram a Europa em busca de dignidade. No calor intenso das plantações de café, Carlo reconstruía a si mesmo e deixava, sem perceber, as primeiras raízes de uma história que seus descendentes carregariam como legado.

Nota do Autor

Este texto é baseado em elementos históricos reais da imigração italiana no Brasil. Todos os nomes, incluindo Carlo Venturin, são fictícios, utilizados apenas para preservar a privacidade e representar, de forma literária, a experiência coletiva de milhares de emigrantes que enfrentaram a travessia atlântica, o trabalho duro nas fazendas de café e os desafios de reconstruir a vida em um país desconhecido.



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Do Vêneto à Serra Gaúcha: a jornada de Carlo Bernardini e o início da Colônia Caxias – 1890

 


Do Vêneto à Serra Gaúcha: a jornada de Carlo Bernardini e o início da Colônia Caxias – 1890


A Travessia de Carlo Bernardini

Quando o navio cruzou o Atlântico e o horizonte começou a se apagar sob o peso das nuvens, Carlo Bernardini entendeu que a vida antiga havia terminado. Maser, o vilarejo de colinas e neblinas na província de Treviso, ficava para trás como um quadro guardado na memória. No outono de 1887, abandonara a terra natal com o coração dividido entre a necessidade e a esperança. A Itália, unificada há pouco, era uma promessa quebrada; o solo empobrecido, o trabalho escasso, o pão medido em fatias. A América, ao contrário, era um rumor distante — o país onde se dizia que o trigo brotava sem pedir licença e o governo entregava terra a quem tivesse coragem de lavrá-la.

Três anos depois, no alto da serra do Rio Grande do Sul, Carlo aprendera a suportar o peso dos dias. Trabalhava para o governo, abrindo picadas e demarcando os terrenos que seriam destinados aos imigrantes. O engenheiro responsável — um brasileiro de fala pausada e modos firmes — reconhecera em Carlo um homem de confiança, e por isso intercedeu unto ao governo que lhe concedeu um lote à beira da estrada principal da Colônia Caxias. Era um pedaço de terra rude e fértil, onde o mato se erguia até o peito e o ar cheirava a resina.

Carlo construiu ali uma casa simples, de madeira escura, e cada tábua pregada era um gesto de renascimento. Trabalhava desde o romper do dia, recebendo cinco florins por jornada — o suficiente para manter o corpo de pé e o espírito em paz. Com o pouco que ganhava, comprou duas vacas e um cavalo, sinal de que o tempo começava a recompensá-lo. O governo prometera novos pagamentos, e ele esperava pelo próximo como quem espera a colheita depois da seca.

A solidão era a única coisa que o dinheiro não comprava. Nas tardes em que a chuva descia grossa sobre o vale, Carlo sentava-se diante da janela e olhava o caminho lamacento por onde, de tempos em tempos, passavam tropeiros, colonos e carroças cobertas. A ausência dos pais lhe pesava como pedra no peito. Sonhava em vê-los chegar, velhos e curvados, trazendo consigo o cheiro da terra vêneta e o calor das vozes familiares.

O Brasil, aos seus olhos, era um mundo novo e indecifrável. As florestas pareciam intermináveis, e os sons da mata — pássaros, insetos, o estalo dos galhos — lembravam-lhe que estava longe de tudo o que conhecia. Ainda assim, havia uma força secreta naquela solidão. O trabalho constante, o suor e o cansaço faziam-no sentir parte da paisagem. A cada árvore derrubada, a cada cerca erguida, Carlo via nascer não apenas uma colônia, mas uma civilização.

Os colonos que chegavam de outras partes da Itália traziam histórias parecidas: fome, dívidas, despedidas. Todos falavam com o mesmo sotaque cansado e o mesmo brilho de obstinação nos olhos. Juntos, transformavam o mato em lavoura, as picadas em estradas, os barracos em vilas. O nome “Caxias” começava a ganhar sentido — símbolo de uma nova vida construída sobre o esforço de quem não tinha nada além das próprias mãos.

Com o passar dos meses, a colônia se organizou. A estrada principal virou o eixo da vida comunitária: ao longo dela, surgiram a venda, a ferraria, a igreja de madeira e, mais tarde, a escola. Carlo era visto como um dos pioneiros — um homem que aprendera a lidar com as ferramentas do governo e com a dureza da terra. O engenheiro Brito, seu superior, elogiava-lhe a disciplina e a fé.

Apesar do progresso, a saudade nunca o abandonou. Nas noites de verão, quando o vento trazia o cheiro úmido da floresta, Carlo recordava o som dos sinos de Maser e a voz da mãe chamando da porta. Sonhava que, um dia, poderia juntar dinheiro suficiente para trazê-los. Imaginava o pai caminhando pela estrada de Caxias, espantado com a vastidão da América, e a mãe chorando de emoção diante da casa que o filho erguera com as próprias mãos.

O tempo, no entanto, seguia implacável. As cartas que mandava à Itália demoravam meses, e muitas não recebiam resposta. Ainda assim, ele escrevia, movido por um dever silencioso: o de manter viva a ponte entre o velho e o novo mundo. Em cada linha, descrevia os vales, o trabalho, a esperança de que um dia todos se reuniriam sob o mesmo teto.

Quando o outono de 1890 chegou, Carlo percebeu que o Brasil já o transformara. Não era mais o camponês de Maser, mas um homem endurecido pela distância e pelo destino. Os calos nas mãos eram suas medalhas; o campo que arava, seu testamento. Olhava a colônia e via crianças correndo, mulheres amassando pão, homens carregando madeira — a prova de que o sacrifício não fora em vão.

Naquela terra distante, Carlo encontrou mais do que trabalho: encontrou sentido. A solidão dera lugar à certeza de pertencer a algo maior. A Colônia Caxias, ainda jovem e coberta de mato, tornava-se um pedaço de Itália fincado no coração do sul.

Sob o céu avermelhado do entardecer, Carlo Bernardini ergueu os olhos e pensou que talvez o futuro começasse ali — no ponto exato em que o cansaço e a esperança se encontravam.

Nota do Autor

Esta narrativa é uma obra de ficção histórica, construída a partir de fatos, datas e emoções reais contidas em antigas cartas de emigrantes italianos do Vêneto, hoje preservadas em acervos museológicos do Rio Grande do Sul.

Embora os nomes e alguns detalhes tenham sido alterados, o enredo segue de perto as experiências relatadas por esses pioneiros que deixaram Maser e outras pequenas vilas de Treviso em direção às matas e vales da Colônia Caxias, no final do século XIX.

Trata-se, portanto, de uma recriação literária — uma tentativa de dar voz a homens e mulheres anônimos que transformaram o exílio em pátria e a saudade em herança. Suas palavras, escritas há mais de um século, continuam a atravessar o tempo, lembrando-nos que a história da imigração italiana no Brasil não é feita apenas de datas, mas de silêncios, distâncias e esperanças.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Do Vêneto a Nova York – A Coragem de Carlo Damiani na Emigração Italiana do Século XIX


 

Do Vêneto a Nova York – A Coragem de Carlo Damiani na Emigração Italiana do Século XIX


O inverno de 1895 chegava áspero sobre os vales do Vêneto, e nas colinas de Vicenza o frio parecia ainda mais cruel quando misturado à fome. Carlo Damiani, homem de trinta e poucos anos, olhava para os campos vazios, onde nem as vinhas resistiam mais. O trigo era pouco, o trabalho escasso, e os filhos — Luigi e Domenico — pediam pão antes mesmo que o sol nascesse. A mulher, Rosina, tentava esconder o desespero costurando roupas e fazendo alguns serviços para alguns vizinhos mais ricos, e a velha mãe, já perto dos noventa, rezava em silêncio, pedindo aos santos que protegessem os seus.

Naquela época, a Itália sangrava lentamente. O país, desde a unificação que prometia vida nova, ainda não encontrara um caminho seguro para seus filhos: impostos altos, pobreza no campo, miséria nas vilas. A palavra “América” era sussurrada nas tavernas como uma promessa — uma esperança vestida de vapor e distância.

Carlo decidiu partir. Não foi uma escolha fácil, mas uma necessidade. Vendeu as poucas ferramentas que possuía e conseguiu, com ajuda de conhecidos, um bilhete de terceira classe no navio Conte di Genova, que partiria de Gênova rumo a Nova York. No dia da despedida, Rosina chorou em silêncio. Os filhos, Luigi com sete anos e Domenico com cinco, agarraram-se às pernas do pai. Prometeu que voltaria um dia, ou que encontraria um modo de trazê-los para junto dele.

A viagem foi um inferno. Na terceira classe, o ar era pesado, o convés abafado, e o mar castigava o casco do navio como se quisesse devolver os passageiros ao seu destino. Carlo dividia o espaço com dezenas de outros camponeses, todos com o mesmo olhar: o medo e a esperança misturados como sal e suor.

Quando o Conte di Genova finalmente avistou a Estátua da Liberdade, Carlo sentiu o peito apertar. Nova York se ergueu diante dele como um monstro e uma promessa. Ellis Island, com seus corredores cheios e o cheiro de desinfetante, foi o primeiro solo americano que seus pés tocaram. Ali, entre filas intermináveis e perguntas em uma língua incompreensível, começou sua nova vida.

Trabalhou no que apareceu: carregador no porto, servente nas obras do metrô, limpador de fornos. As mãos se tornaram calos, o corpo emagreceu, mas a vontade de vencer nunca o deixou. Escrevia cartas sempre que podia, contando a Rosina sobre o trabalho duro e o frio que cortava os ossos. Mandava moedas, pequenas, mas cheias de esperança.

Três anos depois, em 1898, Carlo finalmente conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar as passagens da família. Em sua última carta, escrita com emoção e traços incertos, dizia:

“Rosina mia, vinde. Traz os meninos. A terra aqui é dura, mas há pão. Há futuro.”

Rosina embarcou com Luigi, Domenico e os três irmãos mais novos de Carlo — Francesco, Pietro e Innocente. A mãe, infelizmente, não viveu para ver o reencontro. Morreu um ano antes, aos noventa, com um rosário nas mãos, murmurando o nome do filho perdido no mar.

O reencontro no porto de Nova York foi silencioso e comovente. Carlo esperava entre a multidão, com o chapéu gasto nas mãos. Quando viu Rosina e os meninos descendo a escada do navio, o tempo pareceu parar. Abraçaram-se longamente, sem palavras.

A família Damiani instalou-se em Little Italy, em um pequeno apartamento na Mulberry Street. Carlo e Rosina trabalharam incansavelmente: ele nas obras e depois como ajudante de um sapateiro, ela costurando para famílias italianas mais abastadas. Luigi e Domenico cresceram entre dois mundos — italianos de alma, americanos por destino.

Nos domingos, Carlo costumava sentar-se na soleira da porta, com o olhar perdido entre os prédios de tijolo e o ruído distante das carruagens. Dizia que o vento que vinha do rio trazia cheiro de casa — cheiro das colinas de Vicenza, das vinhas secas, do pão de milho que sua mãe fazia.

Nunca mais voltou à Itália. Mas também nunca a deixou de verdade. Guardava, no fundo de uma caixa de madeira, as cartas da irmã mais velha, casada, que lhe escrevia sobre a vila, sobre os invernos e as colheitas que já não vinham.

Carlo Damiani morreu velho, em 1932, no bairro que o acolhera. Na parede, uma fotografia amarelada mostrava o casal no dia do reencontro. E no olhar de Carlo — firme, cansado, mas sereno — ainda se podia ler a mesma esperança que um dia o fizera atravessar o oceano em busca de um futuro melhor.

Era um homem simples, mas grande em coragem — como tantos outros que deixaram o Vêneto para escrever, com suor e saudade, as primeiras páginas da história italiana na América. 


Nota do Autor

A história de Carlo Damiani nasceu da leitura de uma antiga carta escrita em 1896 por uma imigrante italiana já estabelecida nos Estados Unidos. Entre linhas trêmulas e palavras cheias de saudade, percebi a voz viva de um tempo em que partir era o mesmo que se despedir da própria terra — e, muitas vezes, da própria vida.

Nessa carta simples, encontrei o eco de milhares de existências anônimas que, como Carlo, deixaram o Vêneto e outras regiões da Itália em busca de um futuro melhor. A miséria do final do século XIX, o desemprego no campo, a fome e o peso da desesperança forçaram homens e mulheres a atravessar oceanos, levando consigo apenas a fé, a coragem e o amor pelos seus.

Escolhi Carlo Damiani como símbolo desse imigrante silencioso — o pai de família que parte sozinho, acreditando que o sacrifício individual pode garantir o bem dos que ficam. Através dele, procurei retratar o drama humano da emigração italiana para a América: a solidão das longas travessias, o choque de culturas, a vida nas ruas apertadas de Nova York e, sobretudo, a esperança teimosa que manteve vivos tantos corações.

Escrever esta narrativa foi uma forma de prestar homenagem à geração que construiu, com mãos calejadas e lágrimas escondidas, os alicerces de uma nova vida em terras estrangeiras. São histórias como a de Carlo que explicam por que, ainda hoje, o sangue italiano pulsa forte nas veias dos descendentes espalhados pelas Américas.

Cada nome, cada carta, cada lembrança desse tempo é uma ponte entre o passado e o presente. E enquanto houver quem conte essas histórias, nenhum desses imigrantes será esquecido.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil


A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil

1. As Raízes no Vêneto: Terra, Trabalho e Tradição Italiana

No sopé dos Pré-Alpes Vênetos, onde colinas se estendem sobre vales férteis, ergue-se Pederobba, pequeno município da província de Treviso, no Vêneto, norte da Itália. Suas ruas estreitas e casas de pedra, com telhados de terracota, guardam séculos de histórias.
Às margens do rio Piave, os vinhedos de Raboso del Piave e Glera — esta última casta que mais tarde daria origem ao célebre espumante Prosecco — compõem uma paisagem que reflete o espírito do povo vêneto: trabalhador, apegado à terra e à fé.

Entre bosques de castanheiros e faias, a vida seguia o compasso das estações e dos sinos da igreja matriz. Ali nasceu a trajetória de uma família cuja herança artesanal atravessaria o oceano: os Piazzetta, artífices da madeira e da esperança.


2. O Ofício Herdado: A Tradição da Marcenaria Vêneta e a Família Piazzetta

É nesse mundo moldado por terra, trabalho e fé que conhecemos Giuseppe Piazzetta, filho de Domenico Antonio, nascido em 1808 na localidade de Fener, município de Alano di Piave, pequena cidade vizinha de Pederobba.
Desde cedo, aprendeu com o pai o ofício da marcenaria vêneta, feito de paciência, precisão e respeito pela madeira. Ao mudar-se para Pederobba, fixou-se no antigo bairro chamado Ghetto, onde abriu uma oficina no térreo da casa de dois andares.

O cheiro de madeira recém-cortada e o brilho das ferramentas herdadas de gerações enchiam o espaço de vida. Ali cresceu Francesco Piazzetta, filho de Giuseppe, jovem de olhar atento e mãos habilidosas, que herdaria não apenas o ofício, mas o amor pelo trabalho bem feito.

Com o passar dos anos, Francesco tornou-se conhecido em toda a região: carpinteiro respeitado, atendia desde agricultores simples até ricas famílias proprietárias de vilas.
As tradições locais — festas das colheitas, celebrações religiosas e encontros nas praças — davam ritmo aos dias. Porém, sob a serenidade das colinas, sopravam ventos de mudança: a Itália unificada enfrentava crises e impostos pesados. Francesco sentia crescer em si uma inquietude, um chamado silencioso por novos horizontes.


3. Amor, Luto e a Decisão de Emigrar para o Brasil

Foi em uma das festas do Vêneto que Francesco conheceu Maria Augusta Verri, moça de Segusino, filha do dono de uma antiga estalagem frequentada por balseiros do Piave. O encontro foi imediato: ela trazia nos olhos o brilho sereno da confiança e nas palavras a doçura que acalmava o ambiente.
Casaram-se no verão seguinte, sob o perfume das flores de laranjeira, e fizeram da casa simples, reformada por Francesco, o lar onde nasceriam cinco filhos: Giovana Antonia (Giovanella) a primogenita, nome dado em homenagem ao avôGiovanni Battista (GioBatta)Maria Augusta (nome em homenagem a mãe)Colomba e Noè.

O lar pulsava com o som das ferramentas e o cheiro de madeira. A oficina tornou-se o centro da vida familiar e da comunidade. Porém, com o tempo, as dificuldades se avolumaram. A Itália rural tornava-se árida para quem buscava sustento e futuro. As cartas que chegavam de parentes e amigos que haviam partido falavam de terras férteis no Brasil, onde o trabalho era recompensado e a esperança renascia.

A tragédia, contudo, precipitou a decisão: em 1886, Maria Augusta morreu aos 42 anos, vítima de câncer. A casa mergulhou em silêncio e luto. Francesco, agora viúvo e cansado, apoiou-se nos filhos, mas sentia-se impotente diante do futuro. Quando Giovanella casou-se e partiu, restou-lhe a certeza de que seria preciso recomeçar longe dali.

Assim amadureceu a decisão: emigrar para o Brasil, país que oferecia oportunidades a famílias do Vêneto e de Treviso. Vendeu a casa, o terreno e a oficina. Com o pouco que reuniu, decidiu embarcar com os filhos rumo ao desconhecido.


4. A Travessia dos Emigrantes Italianos: Do Piave ao Atlântico

No final de novembro de 1890, quatro anos após a morte da esposa, Francesco Piazzetta e seus filhos deixaram Pederobba sob neve fina. A despedida de Giovanna, que ficaria na Itália, foi silenciosa e dolorosa. Seguiram a pé até Cornuda, de onde embarcaram de trem para Gênova, o grande porto dos sonhos e das partidas.

Ali, o navio Adria, imponente e escuro, aguardava centenas de emigrantes italianos. A bordo, viveram a dureza da travessia: camarotes apertados, ar pesado, calor e frio alternados, e o balanço incessante do mar. Crianças choravam, mães rezavam, homens fitavam o horizonte em silêncio.

Durante semanas, o mar foi tudo o que existia — uma linha infinita entre o passado e o futuro. Francesco, muitas vezes, observava o pôr do sol no convés, imaginando a terra prometida.
Quando o navio Adria finalmente adentrou a Baía de Guanabara, o brilho das montanhas e o calor tropical anunciaram o Brasil, o novo destino.


5. O Novo Mundo: Da Ilha das Flores à Colônia Dantas no Paraná

Os imigrantes italianos foram recebidos na Hospedaria da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, onde passaram pelos trâmites de registro e inspeção médica.
Durante dois dias, conviveram com famílias de diversas regiões da Itália, ouvindo dialetos distintos e sentindo o impacto do clima tropical. No terceiro dia, receberam ordens para embarcar no navio Maranhão, que os levaria ao sul do país.

Ao avistar Paranaguá, o primeiro porto do Paraná, Francesco sentiu renascer o ânimo. Daquele ponto, seguiriam por trem pela Serra do Mar até Curitiba, capital da província.
Pela janela do comboio, os filhos contemplavam montanhas cobertas por névoa e cachoeiras que despencavam entre florestas densas.
Para olhos habituados às vinhas do Vêneto, o verde intenso parecia um outro mundo.

Ao entardecer, quando o trem parou na estação de Curitiba, a família sentiu que havia chegado ao destino do recomeço.


6. O Recomeço na Terra Vermelha do Paraná: A Vida dos Imigrantes Italianos

Da estação, seguiram em carroça até a Colônia Dantas, um dos núcleos formados por colonos italianos no Paraná. O caminho era de barro e neblina, cercado por pinheirais e clareiras abertas no campo.
No lote que haviam adquirido, encontraram uma casa simples de madeira, com telhado gasto e chão de terra batida. Mesmo assim, aquele abrigo representava o primeiro lar em terras brasileiras.

Com ferramentas trazidas de Pederobba, Francesco e seus filhos reconstruíram o espaço e iniciaram uma pequena oficina. Giovanni, o mais velho, assumiu o papel de braço direito do pai; Noè, ainda criança, ajudava como podia.
Nos primeiros meses, o trabalho era pesado e as encomendas escassas, mas logo começaram a ser procurados pelos vizinhos e pela cidade de Curitiba.

Francesco e Giovanni trabalharam na Estrada de Ferro do Paraná, consertando e montando interiores de vagões, além de fabricar móveis sob encomenda.
Aos domingos, sob a luz da lamparina, o pai ensinava aos filhos a arte do encaixe e do polimento. A marcenaria vêneta, agora enraizada no solo vermelho do Brasil, voltava a florescer.


7. A Herança da Madeira e da Fé: O Legado da Família Piazzetta

Aos poucos, a oficina Piazzetta tornou-se referência entre os colonos italianos da região. Cada mesa, cama ou janela produzida era mais do que um objeto: era símbolo de perseverança e continuidade cultural.
As tradições do Vêneto permaneciam vivas — o idioma misto, as festas religiosas, o vinho caseiro, o respeito ao trabalho.

Francesco envelheceu com dignidade, encontrando na nova terra a mesma essência que o movera desde o início: o trabalho como forma de fé. Faleceu em 1922 com 83 anos de idade.
Sua história se uniu à de milhares de famílias italianas que emigraram para o Brasil em busca de futuro.
A saga dos Piazzetta, nascida nas colinas do Piave e renascida no Paraná, tornou-se exemplo da coragem e da força que moldaram a identidade dos descendentes de italianos no Brasil.


8. Nota do Autor: Uma História Verdadeira da Imigração Italiana

Esta obra — A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil — baseia-se em história real, reconstruída a partir de lembranças familiares e registros preservados ao longo de gerações. 

Os Piazzetta, originários de Pederobba, Treviso, representam tantas famílias italianas que deixaram o Vêneto no final do século XIX em busca de uma nova vida nas colônias do sul do Brasil.
Mais que uma travessia geográfica, é um percurso humano: o relato da coragem, da fé e da esperança de imigrantes que transformaram saudade em trabalho e sonho em legado.

Esta saga é também um ato de gratidão: uma homenagem aos que cruzaram o mar e plantaram, na terra vermelha do Paraná, as raízes de uma herança que ainda floresce entre seus descendentes italianos.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Chiara Granelli: Coragem e Solidão na Imigração Italiana


Chiara Granelli: Coragem e Solidão na Imigração Italiana


O outono despedia-se lentamente nas colinas da Liguria quando Chiara Granelli percebeu que nada mais a prendia àquela terra. A casa paterna, outrora repleta de vozes e passos, agora era apenas um abrigo silencioso de memórias esfareladas. O marido, Pietro, partira semanas antes prometendo vender a pequena propriedade herdada após a morte da mãe. Disse que voltaria em poucos dias, trazendo dinheiro suficiente para a travessia dos dois. Mas o tempo passou, e só o silêncio retornou — um silêncio denso, como a névoa que cobria as videiras mortas ao amanhecer.

Chiara compreendeu, sem precisar ouvir, que havia sido deixada para trás. Não era a primeira vez que Pietro a traía com mentiras. Há muito o álcool o transformara num estranho, um homem que perdera o rumo e o juízo. A cada garrafa, mais se dissolvia a promessa de um futuro comum. E quando o inverno se aproximou, trazendo o frio que cortava a alma, Chiara decidiu que não esperaria mais por ninguém.

Vendeu o pouco que lhe restava — uma vaca magra, uma colcha de linho, o anel de noivado — e comprou uma passagem no navio Liberty, que partiria de Gênova rumo à América. Não sabia o que a esperava do outro lado, mas sabia o que deixava: a miséria, a vergonha e a sombra de um amor que havia se tornado veneno.

O porto de Gênova fervilhava de corpos e sonhos. Homens sujos de carvão empurravam malas e baús; mulheres seguravam crianças adormecidas entre choros e tosses; velhos ajoelhavam-se diante do mar, como se pedissem perdão por abandonar a pátria. Chiara observava tudo com o coração preso entre o medo e a coragem. Nunca havia visto o mar. Diante daquele horizonte líquido e infinito, sentiu-se pequena como uma folha lançada ao vento.

Liberty zarpou numa manhã enevoada, deixando para trás o cheiro de sal e carvão, levando a bordo centenas de almas exiladas da própria sorte. A terceira classe, onde Chiara viajava, era um porão sufocante. O ar cheirava a suor, mofo e desespero. Dormia sobre um catre de madeira, cercada por gemidos, tosses e o balançar incessante das ondas. À noite, quando as luzes se apagavam, ouvia o choro das mulheres e o ranger das correntes que seguravam as âncoras, como se o navio inteiro lamentasse seu destino.

Os dias no mar arrastavam-se em uma monotonia cruel. Chiara contava o tempo pelo nascer e pôr do sol, pela distribuição das escassas porções de pão e caldo, pelas tempestades que sacudiam o convés como se o mundo fosse desabar. Em certos momentos, pensava ter ouvido o nome de Pietro entre o barulho do vento — uma alucinação que a fazia chorar sem saber por quê. Às vezes imaginava que ele a esperava em Nova York, arrependido, sóbrio, pedindo perdão. Outras vezes desejava que ele estivesse morto, para que ao menos sua ausência tivesse sentido.

Quando o navio finalmente avistou a Estátua da Liberdade, Chiara não sentiu o júbilo que esperava. Havia em seus olhos o brilho de quem contempla algo distante demais. A América surgia diante dela como uma miragem: promissora, mas impessoal, fria e indiferente.

Em Ellis Island, o ar cheirava a desinfetante e medo. Os imigrantes eram examinados como animais: olhos, dentes, mãos, pulmões. Muitos eram devolvidos, outros desapareciam nos corredores intermináveis da inspeção. Chiara, sozinha e sem documentos além do passaporte amassado, enfrentou as filas com resignação. Foi liberada no terceiro dia, com um carimbo que lhe dava o direito de existir naquele novo mundo — e nenhuma certeza sobre o que fazer com essa existência.

Nos primeiros meses, trabalhou como costureira em uma fábrica de roupas no Lower East Side. Ganhava pouco, vivia em quartos úmidos, dormia cercada por outras mulheres tão perdidas quanto ela. Nas janelas, via o céu cinzento de Nova York refletir-se nas poças de chuva e pensava no sol das colinas italianas, na casa que já não existia, no homem que jamais voltara.

Com o tempo, o silêncio tornou-se sua única companhia. Não falava o inglês, e ninguém queria ouvir o sotaque da miséria. Passava os domingos na igreja de Santa Maria, não por fé, mas por lembrança. Às vezes, quando o órgão tocava, fechava os olhos e imaginava o som do vento batendo nas montanhas da Liguria.

Os anos correram lentos. Chiara envelheceu sem perceber. As rugas vieram como mapas de um passado que se recusava a morrer. Nunca mais ouviu notícias de Pietro. Talvez ele tivesse se afogado em alguma taberna, ou talvez simplesmente continuasse bebendo a vida até o esquecimento. Ela preferia não saber.

Numa tarde de inverno, enquanto a neve caía sobre a cidade e o rio Hudson se tornava um espelho pálido, Chiara sentou-se à beira do cais. Observou os navios que partiam e chegavam, levando e trazendo sonhos alheios. O vento cortava-lhe o rosto, e ela sentiu o mesmo frio do dia em que deixara a Itália. Percebeu, então, que o mar, o mesmo que um dia prometera libertá-la, havia sido também sua prisão.

Morreu sozinha, semanas depois, em um quarto de pensão, o rosto sereno como quem enfim compreende que certas travessias não têm volta. Os vizinhos juntaram algumas moedas e enterraram-na em uma vala comum, sob o nome de Chiara Granelli – imigrante italiana, 43 anos.

Ninguém soube que ela fora a mulher que atravessou o mar sozinha. Mas talvez, em algum lugar entre as ondas do Atlântico, ainda ressoe a lembrança de seu passo firme ao subir no Liberty — o passo de uma mulher que ousou desafiar o destino, mesmo quando o destino já a havia esquecido.

Nota do Autor

Chiara Granelli não é apenas um nome de mulher, mas o retrato de milhares que o tempo silenciou. A história aqui narrada é ficcional, mas nasce de cartas verdadeiras, de escritos fragmentados e de lembranças dispersas nos porões dos navios que cruzaram o Atlântico no final do século XIX.

Entre 1880 e 1910, mais de quatro milhões de italianos deixaram sua pátria em busca de uma vida menos cruel. Muitos seguiram para a América do Sul; outros, como Chiara, para os Estados Unidos, onde Nova York se tornara o primeiro respiro — e às vezes o último — de tantos que fugiam da fome, das guerras e das desilusões.

As mulheres que partiram sozinhas, como ela, representavam uma exceção corajosa e dolorosa. Em uma época em que o destino feminino se limitava ao lar, à obediência e ao silêncio, atravessar o mar sem um homem era um ato de rebeldia e desespero. Eram costureiras, camponesas, viúvas, esposas abandonadas; carregavam filhos nos braços e saudades no coração. E ainda que suas vidas se apagassem em fábricas, cortiços e hospitais anônimos, cada uma delas acendeu uma pequena chama na imensidão da história.

Chiara simboliza todas essas vozes que o oceano engoliu. Seu nome repousa sobre as ondas, mas sua coragem ecoa nas gerações que vieram depois — as netas e bisnetas que herdaram, sem saber, a fibra silenciosa das que vieram antes.
A tragédia de sua solidão é, ao mesmo tempo, uma vitória: a vitória de ter ousado viver, de ter cruzado o limite imposto pelo medo.

Assim como o navio Liberty, que a levou para longe de tudo o que amava, Chiara permanece navegando no tempo — uma mulher de carne e alma, perdida entre a lembrança e o esquecimento, símbolo eterno de todas as que atravessaram o mar sozinhas.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta