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sábado, 20 de dezembro de 2025

A Epopeia da Emigração Vêneta: A Saga dos Italianos no Sul do Brasil e na América


A Epopeia da Emigração Vêneta

A saga dos italianos no sul do Brasil e na América

de Giovanni Meo Zilio

A primeira emigração organizada com partida do Vêneto (em boa parte da província de Treviso e, em menor medida, da Lombardia e do Friuli) remonta a 1875. De fato, a partir daquele ano começaram a chegar ao Brasil — nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo e, sobretudo, na chamada “zona de colonização italiana” situada no Nordeste do primeiro estado, que hoje tem como centro econômico, comercial e cultural a florescente cidade de Caxias do Sul, com cerca de 500.000 habitantes: milagre de desenvolvimento e modelo de “um outro Vêneto” transplantado e crescido além-oceano. A isso devem ser acrescentadas outras correntes emigratórias, sobretudo para a Argentina e o Uruguai, onde muitos italianos já estavam presentes antes, e, em menor medida, para países menores como o México.

As principais causas do fenômeno emigratório foram, como é sabido, a miséria e a marginalização das classes rurais da época, quando não a própria fome, juntamente com o sonho da propriedade da terra por parte de nossos camponeses (então verdadeiros “servos da gleba”), muitas vezes enganados por propagandas falaciosas e interesseiras, favorecidas, por sua vez, pela ignorância misturada à esperança, que é sempre a última a morrer. Mas deve-se levar em conta também aquele espírito irreprimível de aventura, aquela atração pelo novo e pelo distante que sempre agiu sobre a humanidade e que frequentemente é negligenciado pelos historiadores da emigração.

A travessia atlântica naquela época (no fundo dos porões) foi, por si só, uma epopeia que ainda está presente na memória coletiva, transmitida em episódios comoventes nas lembranças dos velhos e na copiosa literatura popular, sobretudo vêneto-brasileira (cantos, poesias, relatos), que, a partir das celebrações do centenário da primeira emigração “in loco” (1975), explodiu aqui e ali também em formas estilisticamente relevantes. Do mesmo modo, permanece na memória coletiva a epopeia das inenarráveis condições de chegada e de instalação e as lutas da primeira geração para desmatar a montanha com as próprias mãos, para se defender dos animais ferozes, das serpentes, dos índios, das doenças, para construir do nada estradas e habitações, para enfrentar continuamente o medo que se tornava uma obsessão…

Esta história de ilusões e sofrimentos, de heroísmo e humilhações, esta “história interna” da nossa emigração, que representa o reverso da história externa da qual mais se ocuparam os estudiosos, ainda está toda por ser aprofundada.

No que diz respeito ao sul do Brasil, que pode ser considerado emblemático, um primeiro grupo de emigrantes chegou, depois de peripécias e sofrimentos indescritíveis, àquele lugar que hoje se chama Nova Milano, nas proximidades de Caxias do Sul. Do porto de Porto Alegre eles prosseguiam em barcaças ao longo do rio Caí e depois a pé, por quilômetros e quilômetros, através da selva, com as poucas ferramentas e pertences nas costas, abrindo caminho à força de “facão”, até alcançar as terras que lhes haviam sido atribuídas, bem no meio da floresta, ao norte dos territórios planos e mais férteis ocupados pela emigração alemã cinquenta anos antes. Pode-se imaginar o custo humano de tudo isso, depois de terem cortado as pontes atrás de si, vendendo seus poucos haveres antes de partir da Itália.

Os vestígios da primeira colonização ainda podem ser vistos hoje em muitos nomes de lugares, como a citada Nova Milano, Garibaldi, Nova Bassano, Nova Brescia, Nova Treviso, Nova Venezia, Nova Padua, Monteberico…; enquanto outros, como Nova Vicenza e Nova Trento, mudaram posteriormente seus nomes originais para os nomes brasileiros de Farroupilha e Flores da Cunha, em períodos caracterizados por xenofobia. Tal xenofobia do governo central chegou ao ponto de que, nos anos da última guerra, àqueles nossos imigrantes que não sabiam falar o brasileiro, foi proibido (sob pena de prisão) falar a sua língua vêneta, com as consequências morais que é fácil imaginar, além das dificuldades práticas (que muitas vezes desembocavam no tragicômico!) que tudo isso produziu entre aquela pobre gente marginalizada a quem se tirava até mesmo a palavra…

Trata-se, de qualquer modo, de um fenômeno imponente — no Brasil como na Argentina — tanto pela extensão, quanto pela população (da ordem de milhões de descendentes), quanto pela homogeneidade e vitalidade — o qual por mais de um século foi negligenciado, quando não ignorado, pelo governo italiano e por suas instituições.

A imensa maioria das primeiras correntes imigratórias era composta por camponeses que implantaram no novo território as culturas e os métodos agrícolas típicos de suas zonas de proveniência (aos quais se acrescentaram artesãos e comerciantes). A cultura que se impôs sobre as outras foi a da videira, com a consequente industrialização do vinho e dos outros derivados da uva, que ainda hoje representam a maior fonte de riqueza do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, que abastece todo o Brasil.

Percorrendo o campo ainda se encontram vivos certos antigos instrumentos (entre nós já quase desaparecidos) da agricultura do século XIX e da vida doméstica de então (em Nova Padua, nas proximidades de Caxias, o monumento ao imigrante, na praça do povoado, é representado solenemente por uma verdadeira “caldeira da polenta” sobre um imponente pedestal). A alimentação no campo ainda é substancialmente a tradicional do Vêneto, à qual se acrescentou o autóctone e indispensável “churrasco” (carne na brasa).

A religião é ainda intensamente seguida e sentida, também porque o clero católico e a organização religiosa acompanharam, desde o primeiro momento, o destino dos emigrantes. Basta pensar que as “capelas” foram até hoje os principais centros comunitários na “colônia” (leia-se campo), não apenas religiosos, mas também de organização social e cultural, e que ao redor delas foram se formando gradualmente as paróquias e os municípios. Em anos recentes, nas aldeias onde não havia um pároco estável, podia-se assistir a cenas, para nós inacreditáveis, como a da população reunida em um galpão que servia de igreja, para celebrar os ritos religiosos sem nenhum sacerdote e sob a orientação daquele que é chamado “padre leigo”, com a participação ativa e solene dos anciãos do lugar.

Quem vive em “colônia”, e conservou em sua maioria o ofício e as tradições dos primeiros emigrantes, até pouco tempo atrás ainda era considerado como marginalizado e visto com suficiência inclusive pelos próprios descendentes de vênetos que habitavam as grandes cidades. Apenas há algumas décadas, desde que foram retomados os contatos efetivos com a Itália, está despertando e se estendendo uma consciência positiva das próprias origens (não mais mito opaco e distante a ser esquecido), com um impulso para reencontrar a identidade histórica: uma busca, muitas vezes comovente, das próprias fontes para restabelecer aquele “cordão umbilical” que havia sido cortado havia mais de 100 anos.

O fenômeno mais imponente dentro desta “história de imigrantes sem história”, como alguém a definiu melancolicamente, é a manutenção, após um século, da própria língua de origem (o vêneto), em nível familiar, interfamiliar e, em determinadas ocasiões (festas, comemorações, jogos, reuniões conviviais, etc.), também em nível comunitário; com um grau de vitalidade e de conservação, no campo, que muitas vezes supera até mesmo aquele do Vêneto da Itália que, como se sabe, ainda está bem enraizado entre nós. Trata-se daquilo que os dialetólogos chamam de “ilha linguística”, relativamente homogênea, onde a língua vêneta acabou triunfando sobre o lombardo e o friulano, estendendo-se como uma “koiné” intervêneta dentro de um contexto heterofônico (o luso-brasileiro). Isso nos permite reconstruir, como “in vitro”, após três ou quatro ou até mais gerações, a língua dos nossos avós e bisavós, sobretudo nos aspectos orais não documentados, como a pronúncia e a entonação, ou o uso de certos provérbios, modos de dizer, cantos da época. Assim, através da história das palavras (as conservadas, as alteradas e as substituídas) podemos reconstruir alguns recortes da história (muitas vezes comovente) daquelas comunidades. Ela, por sua vez, representa um vislumbre dramático e apaixonante da história da Itália e da história do Brasil.

Quem escreve estas linhas é um velho emigrante que experimentou pessoalmente aquilo que muitas centenas de milhares de compatriotas viveram: testemunha direta da situação de quantos, no imediato pós-guerra, atravessaram o oceano amontoados no porão de velhos navios Liberty, restos de guerra, dormindo em beliches de quatro ou cinco camas dispostas verticalmente, com um calor incrível e em condições infernais de promiscuidade. Ele percorreu as Américas de ponta a ponta por muitos anos, desde os áridos planaltos do México até a desolada Patagônia argentina. Por muitos anos na condição de emigrante e depois como estudioso e pesquisador. Como tantos outros emigrantes, viveu na própria carne o drama do transplante, a mortificação dos afetos, a ânsia de tantas ilusões, o naufrágio de tantas esperanças. Não ignora, portanto, ao lado da dimensão histórica do fenômeno migratório, a dor, a fadiga e a coragem que o acompanharam, também porque ele próprio começou de baixo — como se costuma dizer — realizando trabalhos manuais de sobrevivência. Mas a sua história pessoal é pouca coisa diante da história geracional de nossas comunidades, que viveram, sobretudo no imenso Brasil, uma epopeia inenarrável de lutas, sacrifícios, em condições de vida infra-humanas (principalmente as primeiras gerações); epopeia transmitida oralmente (porque na maioria dos casos se tratava de gente que não sabia ler nem escrever) de pai para filho, melhor, de mãe para filha, porque as mulheres, como sempre, são as depositárias das tradições mais vitais e essenciais.

As primeiras gerações enfrentaram, como foi dito, sacrifícios inenarráveis, abandonadas nas florestas; sem Lares e sem Penates, isto é, sem casa e sem família, obrigadas a sobreviver em condições dramáticas. Até sem a palavra, como foi dito acima: sem a palavra não há identidade, não há comunidade nem comunicação, portanto não há vida que possa ser chamada de humana. Mas eles resistiram com os dentes cerrados, com dignidade e coragem, apesar das humilhantes e ardentes condições de inferioridade.

Não só no Brasil, mas também na Argentina e em outros lugares, sobretudo os vênetos, os lombardos e os friulanos, os chamados “polentões” (lembre-se que “polenta”, no rioplatense popular, passou a significar força, coragem), juntamente com os sólidos piemonteses e os industriosos e parcimoniosos genoveses, ofereceram, com as luzes e sombras naturais em todas as coisas humanas, uma contribuição de progresso ao país que os acolheu. Eles conservaram no coração, desde o último quarto do século passado, o sonho e o mito da pátria-mãe, da mãe-madrasta que os abandonou por mais de cem anos. Eles, porém, continuaram a recordá-la e a sonhá-la nos intermináveis “filós” dos estábulos camponeses, na comovida e discreta intimidade familiar, nas emocionadas reuniões comunitárias, nas humildes preces cotidianas.

Através das gerações conservaram, de forma incrível, sua língua, os usos, os costumes, os ritos, as festas, as danças, os jogos (o tresette, as bochas, a mora, a “cuccagna”). Jogos temperados com certas expressões nossas, já não mais blasfemas, porque eufemizadas, como “Ostrega!”, “Ostregheta!” ou “Sacramenta!”. Ainda se ouvem os cantos comunitários de outrora, que em grande parte nós perdemos, e que os ajudaram moralmente a viver, a sobreviver: nos lugares mais perdidos. Nas praças de alguns povoados encontramos, como monumentos, além da “caldeira” da polenta, como já dito, a carroça ou o carrinho de mão, a gôndola veneziana, o leão de São Marcos (inclusive o símbolo do Município de Octavio Rocha, no Rio Grande do Sul, representa o leão de São Marcos que segura firmemente na pata o cacho de uva em vez do livro tradicional!).

Aquelas pessoas, com o saco às costas (com a mala de madeira em uma segunda fase e de papelão em uma terceira), desde o século passado aliviaram nossa pressão demográfica, prestaram um serviço histórico à Itália, aliviaram-nos da fome, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, com suas remessas, e hoje compram em primeiro lugar produtos italianos e, assim, fortalecem o comércio e a economia do nosso país. Estima-se em mais de 100.000 bilhões o impacto econômico proveniente da colaboração dos nossos emigrantes.

Esse povo é sangue do nosso sangue, gente que sofreu moral e materialmente a marginalização secular e da qual também temos algo a aprender ou reaprender: aqueles valores que hoje, em grande parte, se vão esquecendo.

A Itália, hoje, não pode deixar de honrar a sua dívida secular, histórica, moral e política.

Nota 

Era o mês de Dezembro do ano de 1996 quando, por uma semana, o Prof. Meo Zilio foi hóspede em minha casa, ocasião em que eu o levava todos os dias às casas dos antigos descendentes, para suas visitas e entrevistas.
Nesse período ele me presenteou com este seu artigo, ainda na época inédito ou quase em publicação, não me recordo bem. Conservo-o até hoje como uma bela lembrança do professor amigo.
Para recordá-lo, decidi hoje recolocá-lo neste blog, texto traduzido do italiano mas mantendo a sua forma original.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Entre Ramos e Lembranças — A Velhice, a Doença e a Morte nas Colônias Italianas do Sul do Brasil



Entre Ramos e Lembranças — A Velhice, a Doença e a Morte nas Colônias Italianas do Sul do Brasil


Desde o momento da chegada ao solo gaúcho, os imigrantes italianos — muitos oriundos do Vêneto, Lombardia, Trentino e outras regiões do norte da Itália — trouxeram consigo não só a esperança de uma nova vida, mas também tradições profundas, moldadas por fé, costume e comunidade. 

Nas colônias rurais, onde cada colônia ou lote era isolado de seus vizinhos, a vida transcorria entre o trabalho na terra, a construção da casa, o cultivo da videira ou da lavoura — e, por consequência, o enfrentamento das agruras da existência: doenças, velhice, sofrimento. A ausência de médicos ou hospitais próximos tornava cada enfermidade uma provação marcada pela incerteza. 

Nessas circunstâncias, a comunidade se tornava o sustentáculo de quem adoecia. Famílias, vizinhos e amigos organizavam rodízios de cuidado, muitas vezes clareados por lamparinas na noite do campo, garantindo auxílio, conforto e presença. A religiosidade — herança da terra natal — servia de alicerce: rezas em dialeto, terços, pequenos altares domésticos, lamparinas e a fé em santos aliados ao cotidiano.

Quando a enfermidade se tornava incurável, ou a velhice chegava, a expectativa era de uma passagem serena — marcada pela certeza de dever cumprido, de uma vida dedicada à labuta e à família. E a morte, longe de ser tratada apenas como um fim, era compreendida como um rito de passagem: cercada de devoção, temor e respeito quase reverente.

Ritos, crendices e práticas de despedida

No leito final, familiares pediam perdão de possíveis mágoas, afinavam a reconciliação — como se a alma precisasse partir em paz. A casa recebia velas acesas, água benta, orações. O corpo do falecido era lavado com cuidado, vestido com suas melhores roupas, mantendo os olhos fechados — pois deixá-los abertos era interpretado como mau presságio, prenunciando outra morte na família em breve.

O velório durava longas horas — por vezes um dia inteiro — geralmente na sala de estar ou quarto da casa, com o corpo sobre o leito original, ou depois sobre tábuas apoiadas em cadeiras, aguardando a confecção do caixão por um carpinteiro da comunidade. A carroça puxada por bois, coberta por panos negros, transportava o féretro até a igreja ou, quando não havia padre, o rosário era recitado em comunidade. Nos cortejos, mulheres cobriam a cabeça com véus, os homens tiravam o chapéu. Na chegada ao cemitério, os presentes lançavam terra sobre o caixão — simbolizando o retorno do corpo à terra que haviam cultivado.

Em muitas localidades, após o enterro eram celebradas missas e novenas em intenção da alma do falecido — um laço de fé que permitia aos vivos expressar dor, saudade e esperança de reconforto eterno para quem partira. 

Memória, retratos e legado de ancestralidade

Numa época em que o retrato fotográfico era privilégio raro — e os fotógrafos geralmente “itinerantes” —, a morte chegava com um pedido mórbido e terno: famílias chamavam o retratista para fotografar o falecido dentro do caixão, cercado por parentes, como forma de eternizar sua memória. Para muitos, era a única recordação visível do ente querido que partiu. Essa tradição — estranha aos olhos modernos — revela a força do afeto, da saudade e do desejo de fixar raízes mesmo na dor. 

Essa memória, hoje, encontra-se preservada em acervos, fotografias amareladas, narrativas orais, costumes transmitidos de geração a geração, e no patrimônio imaterial — o dialeto, a fé, os costumes, o respeito pelos mais velhos —, compondo a gama que identificam as comunidades ítalo-gaúchas. 

Novas camadas de crenças, medos e rituais — além do funeral tradicional

Com base em relatos históricos e etnográficos sobre os imigrantes italianos (e seus descendentes) no Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, identificam-se as seguintes crenças, simpatias e tabus associados à doença, à velhice e à morte:

Crença na alma e no “vínculo espiritual” após a morte — Algumas tradições consideravam que a alma do falecido permanecia temporariamente “presa” ao corpo até o enterro. Se o corpo não fosse lavado corretamente, ou se não fosse vestido apropriadamente, isso poderia trazer mau-agouro, dificuldade da alma “partir” ou mesmo o retorno como espírito perturbador. 

Uso de água benta e rezas para purificação e proteção — Era comum lavar o corpo com água benta, como forma de “limpar” o falecido, afastar maus espíritos, e garantir uma passagem segura da alma. 

Preparação ritual cuidadosa do corpo: roupas limpas, lençóis brancos, itens religiosos — Vestir o corpo com roupas limpas e claras (às vezes branco), cobri-lo com lençol branco, incluir crucifixos, terços ou outros objetos sagrados junto ao corpo, como proteção espiritual.

Medo de “mão errada” ou “olhares errados”: preservação dos olhos fechados — A crença de que deixar os olhos abertos poderia atrair má sorte ou permitir que o falecido “chamasse” outros familiares, provocando uma nova morte. Isso aparece nas práticas funerárias descritas nas comunidades. 

Ritos de purificação da casa após a saída do corpo — Depois do velório e enterro, era costume varrer a casa por alguém de fora da família e abrir portas ou janelas, simbolizando que a morte havia saído e para evitar que o “espírito” permanecesse preso. 

Medo do “não enterro digno”: o temor de que funerais mal feitos causassem desgraça à família — Nas comunidades de colonos, a ausência de médicos, a pobreza, o isolamento, às vezes tornava difícil cuidar do corpo corretamente, o que gerava ansiedade sobre o destino da alma. 

Valorização da comunidade e do cuidado mútuo — curandeiros, benzedeiras, rezas, fé popular — Com a falta de acesso a médicos ou hospitais, os colonos recorriam a remédios populares, “curas de fé”, benzedeiras, rezas, invocações religiosas ou até práticas espirituais herdadas da Itália — um sincretismo entre catolicismo e fé popular. 

Temor dos “mortos que não descansam”: fantasmas, aparições, locais amaldiçoados — Algumas comunidades mantinham o medo de espíritos, especialmente de pessoas mortas de forma violenta ou abandonadas — a migração muitas vezes deixava pessoas pelo caminho. Os cemitérios, velórios ou até casas onde alguém havia morrido eram vistos com suspeita ou respeito reverente. 

Penitências, promessas, devoções às almas dos falecidos e santos de proteção — A religiosidade manifestava-se não apenas em missas ou novenas, mas na devoção a santos e às almas do purgatório, acreditando-se que estas podiam interceder em momentos de calamidade, doença ou morte. 

Esses elementos mostram que, para muitos imigrantes, a experiência da morte — e o receio da doença — iam muito além do fim da vida física; envolviam a sobrevivência espiritual, o medo do desconhecido, a proteção da comunidade e uma religiosidade intensa que se adaptava às novas realidades do Brasil, mas mantendo vivas crenças trazidas da Itália.

Conclusão — Vida, Morte e Comunidade: herança que permanece

A experiência dos imigrantes italianos, especialmente dos vênetos, nas colônias do Rio Grande do Sul, mostra como a doença, a velhice e a morte foram atravessadas não apenas como tragédias individuais, mas como fenômenos coletivos, marcados pela solidariedade, pela fé e pela memória. O cuidado mútuo, os ritos de despedida, o respeito aos mais velhos, as tradições de luto e as práticas simbólicas revelam uma cultura de proximidade — essencial para enfrentar a dureza da terra, o isolamento, o sofrimento e a mortalidade. Hoje, ao revisitar essas narrativas, resgatamos não só costumes e crenças, mas também valores de comunidade, pertencimento e humanidade — um legado que permanece vivo em famílias, histórias, fotografias e na paisagem social do Sul do Brasil.

Nota do Autor

Este texto pretende dar voz às memórias silenciosas dos pioneiros italianos no Rio Grande do Sul — suas dores, suas esperanças, seus rituais de fé e despedida. Ao resgatar esses fragmentos de vida e morte, busca-se fortalecer a compreensão da identidade ítalo-gaúcha e preservar para as novas gerações o valor da comunidade, da memória e da tradição.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Cesare Petruzzio – Das Vinhas de Vittorio Veneto às Matas do Rio Grande do Sul


Cesare Petruzzio – Das Vinhas de Vittorio Veneto às Matas do Rio Grande do Sul


Nascido em 1860, em Manzana, um pequeno vilarejo encravado nas colinas do comune de Vittorio Veneto, no coração da província de Treviso, Cesare Petruzzio cresceu cercado pelo verde profundo dos vinhedos, que se estendiam como tapetes sobre o relevo ondulado da região. Cada parreiral parecia carregar não apenas uvas, mas também a memória de gerações de famílias que ali haviam trabalhado a terra com mãos calejadas e esperanças silenciosas. Era uma vida marcada pelo labor incessante, pelo ritmo das estações e pelo peso das tradições que moldavam cada escolha, cada gesto.

Filho de meeiros, Cesare aprendeu desde cedo que a terra, embora bela e fértil, também podia ser implacável. O trabalho na vinha, os invernos rigorosos e as promessas nunca cumpridas da unificação italiana deixavam marcas profundas na pele, no corpo e no espírito. As palavras sobre progresso e justiça, que chegavam em folhetos ou discursos pomposos, eram como nuvens passageiras: bonitas de longe, mas incapazes de aliviar a fome, a miséria e o cansaço que se acumulavam dia após dia.

À medida que crescia, Cesare sentia a esperança de um futuro melhor escapar-lhe entre os dedos, tão efêmera quanto o aroma das uvas maduras que enchiam o ar do vilarejo. As colinas do Vêneto pareciam silenciosas testemunhas de uma vida de sofrimento, onde cada família sustentava-se com esforço titânico, mas sempre à mercê do acaso e da injustiça. Mesmo assim, havia algo nos olhos de Cesare — uma inquietação silenciosa, uma chama que recusava-se a se apagar — que o tornava diferente daqueles que simplesmente aceitavam o destino. Ele começava a sonhar com horizontes que iam além das vinhas de Manzana, imaginando um mundo onde o trabalho árduo pudesse, enfim, ser recompensado.

Aos vinte e dois anos, Cesare começou a perceber que algo estava mudando em Manzana. Rumores viajavam de boca em boca, carregados pelo vento que descia das colinas e atravessava as ruas estreitas do vilarejo: falava-se de terras vastas e férteis, no outro lado do oceano, no Brasil, onde o solo era vermelho e abundante, onde a promessa de uma vida digna não se perdia entre decretos e promessas vazias. Diziam que o governo pagaria a passagem para quem quisesse tentar a sorte naquele Novo Mundo, que havia espaço para trabalhar, plantar e, finalmente, erguer uma casa própria sem depender de senhores de terras ou da generosidade de donos de vinhedos.

Cesare ouviu esses rumores nos campos, entre fileiras de uvas, e também nas conversas baixas das tabernas, onde homens envelhecidos falavam com os olhos cheios de nostalgia e desejo. Até os párocos começaram a encorajar a partida, dando bênçãos discretas aos que sonhavam em ir embora. Em suas pregações, a emigração era apresentada quase como um ato de coragem e dignidade, uma rebelião silenciosa contra um sistema que esmagava os pobres e reduzia famílias inteiras à submissão e à miséria. Alguns padres, de fato, partiam junto com suas comunidades, carregando livros de oração e esperanças renovadas, como se quisessem assegurar que ninguém seria deixado para trás na travessia.

Para Cesare, a ideia de emigrar provocava uma mistura de medo e fascínio. Partir significava abandonar tudo que conhecia: a casa de pedra da família, os vinhedos que haviam sustentado gerações, os amigos e os rituais que marcavam cada estação do ano. Mas também representava uma promessa de liberdade, de um espaço onde a vida pudesse ser moldada pelo próprio esforço, e não pelas regras rígidas de um sistema que parecia ter esquecido os que nasciam pobres. A decisão começava a crescer dentro dele, lenta e implacável, como as raízes das parreiras que ele aprendera a cultivar: silenciosa, mas impossível de arrancar.

Foi assim que Cesare, com os olhos ainda cheios de esperança e o coração apertado de saudade, embarcou na travessia do Atlântico acompanhado de seus pais, já envelhecidos, mas ainda vigorosos e determinados, e de seus irmãos e irmãs, cujas mãos jovens ainda brilhavam com o vigor da terra natal. Cada um carregava na bagagem sonhos, lembranças e o peso silencioso da partida, sabendo que jamais poderiam voltar da mesma forma que partiram.

O navio cortava as águas revoltas do mar, rangendo sob o peso de famílias inteiras, de barris de alimentos e de esperanças contidas em baús de madeira. As noites eram longas, escuras e agitadas pelo balanço constante das ondas, que pareciam sussurrar histórias de naufrágios e promessas quebradas. Cesare passava horas no convés, observando o horizonte infinito, tentando imaginar o novo mundo que se abria à sua frente, enquanto o cheiro de maresia e o murmúrio distante das estrelas lhe recordavam Manzana, suas colinas e os vinhedos que nunca mais veria.

A viagem era uma prova de resistência. Doenças, enjoo e o frio cortante das madrugadas no convés transformavam cada instante em um desafio, e ainda assim a família Petruzzio encontrava força na união e nos pequenos gestos de solidariedade com os outros imigrantes. Havia histórias contadas em sussurros, lágrimas silenciosas, risos nervosos e a constante esperança de que, do outro lado, a vida seria diferente — uma vida onde cada homem e cada mulher poderia finalmente decidir seu destino.

Após semanas que pareceram meses, o Atlântico enfim cedeu lugar às primeiras vistas de terra firme. Após o Rio de Janeiro, onde desembarcaram e apresentaram os documentos de viagem e depois foi a vez do Rio Grande do Sul se apresentar com seu solo vermelho, denso e fértil, cortado por rios e florestas que pareciam desafiar os recém-chegados. Silveira Martins, a colônia recém-fundada, aguardava Cesare e sua família com o mesmo misto de promessa e incerteza que tinha caracterizado toda a viagem. Cada árvore derrubada, cada pedacinho de terra conquistado da mata virgem seria um passo rumo a uma nova vida — e para Cesare, uma prova de que a coragem de deixar Manzana não fora em vão.

Lá, no coração da mata cerrada, onde a sombra das árvores se entrelaçava com o canto incessante dos pássaros e o rugido distante de rios turbulentos, começaria para Cesare uma verdadeira epopeia de resistência e esperança. Cada manhã trazia consigo o desafio da natureza indomável: chuvas torrenciais que transformavam o solo em lama escorregadia, dias de sol impiedoso que castigavam a pele e a energia, e insetos e animais desconhecidos que pareciam querer testar a coragem dos recém-chegados.

A cada árvore derrubada com machados pesados, a cada pedra removida da terra vermelha e densa, Cesare sentia crescer em si algo mais do que um lar; sentia erguer-se uma nova identidade, forjada no esforço, na coragem e na determinação. O suor misturava-se à terra, deixando marcas que não seriam apagadas, lembranças tangíveis de que cada passo dado, cada hectare conquistado, era uma declaração silenciosa de vida, de pertença, de resistência.

A vida na colônia não era apenas trabalho: era aprendizado constante, adaptação e descobertas. Cesare observava o ritmo das estações, a força do vento que soprava pela mata, o modo como a chuva escorria pelos troncos e riachos, e aprendia a respeitar a terra e a ouvir seus segredos. Havia noites em que, exausto, ele olhava para o céu estrelado e pensava na aldeia distante, em Manzana, nas vinhas que moldaram sua infância, percebendo que, embora tivesse deixado o Vêneto para trás, parte de sua alma continuava ali — mas agora se entrelaçava com a terra vermelha do Rio Grande, criando raízes novas, mais profundas e irrevogáveis.

Cada vitória, por menor que fosse — um canteiro limpo, um barraco erguido, a primeira colheita que despontava no solo conquistado — representava um passo na construção de um futuro que antes parecia impossível. E, no esforço coletivo dos imigrantes italianos, Cesare descobria que aquela terra estrangeira, dura e implacável, podia se tornar um lar não apenas de sobrevivência, mas de sonhos realizados, de memória preservada e de identidade reconstruída, tijolo por tijolo, árvore por árvore, gota de suor por gota de suor.

Essa é a história de um homem comum, Cesare Petruzzio, que, como milhares de seus conterrâneos, carregou no peito a saudade de uma terra distante e a esperança de um futuro ainda por escrever. Ele transformou a dor da partida — o adeus às vinhas de Manzana, às ruas estreitas de Vittorio Veneto, às famílias e amigos deixados para trás — em força, coragem e determinação para recomeçar em uma terra desconhecida.

Em Silveira Martins, cada pedra arrancada da mata, cada árvore derrubada, cada fileira de lavoura erguida com mãos calejadas contava a história de um povo que se recusava a sucumbir. Cesare aprendeu, dia após dia, que o trabalho árduo não era apenas um meio de sobrevivência, mas também uma forma de resistência silenciosa, uma maneira de reivindicar dignidade em um mundo que, tantas vezes, negava oportunidades aos humildes.

O passado de Vittorio Veneto nunca deixou de ecoar em sua memória — o perfume das uvas maduras, o som dos sinos da aldeia, a luz dourada que se espalhava pelas colinas ao fim de cada dia — mas essas lembranças não eram correntes que o aprisionavam; eram sementes que ele plantava em terras novas, fertilizando a identidade de uma vida reconstruída. Entre as roças vermelhas, os rios caudalosos e o horizonte infinito do Rio Grande do Sul, Cesare encontrou uma nova pátria, feita de suor, sonhos e comunidade.

E assim, a saga de um homem simples tornou-se um testemunho de coragem e persistência. Um relato de perdas irreparáveis, de batalhas diárias e de pequenas vitórias que, somadas, ergueram não apenas casas e plantações, mas uma nova história de esperança. Cesare Petruzzio não apenas sobreviveu — ele viveu plenamente, deixando um legado que atravessaria gerações, lembrando a todos que, mesmo diante do desconhecido e do impossível, o espírito humano é capaz de criar raízes e florescer, mesmo nas terras mais distantes e inesperadas.

Nota do Autor

A história de Cesare Petruzzio e de sua família é fruto da imaginação do autor, e todos os nomes citados foram criados para dar vida à narrativa. No entanto, a obra se baseia em fatos históricos reais, extraídos de cartas, registros e relatos de emigrantes italianos, cuidadosamente preservados em arquivos e museus do interior paulista. Essas cartas documentam a vida, os desafios e as esperanças daqueles que, no final do século XIX, deixaram suas terras natais no Vêneto em busca de um futuro melhor no Brasil.

Ao combinar pesquisa histórica com ficção literária, procurei recriar a atmosfera, os sentimentos e a coragem desses homens, mulheres e crianças que enfrentaram longas travessias, a dureza das matas e as dificuldades de uma terra desconhecida. A narrativa procura honrar a memória desses emigrantes, transformando suas experiências em uma história que, embora inventada em seus detalhes, reflete a verdade da coragem, da perseverança e do espírito de recomeço que marcou gerações de italianos no Brasil.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



sábado, 9 de setembro de 2023

A Imigração Italiana e o Nascimento de Caxias do Sul no Rio Grande do Sul

Colônia Caxias em 1880

 


Foi sobretudo na América do Sul, e em particular no Brasil, que a emigração italiana produziu, sob a pressão das cada vez maiores ondas de chegadas de imigrantes italianos dos anos 1890, a propagação de dezenas de povoações que deram início às etapas da evolução normal de um tecido urbano, passando rapidamente de aglomerados de cabanas à cidades populosas e cheias de vida.



A cidade de Caxias do Sul em 1930



A cidade de Caxias do Sul, localizada no estado do Rio Grande do Sul, pode ser tomada como exemplo emblemático: em 1880, as primeiras casas de madeira parecem ser dominadas pelas grandes copas de árvores que sobreviveram ao desmatamento dos colonizadores; cercas improvisadas com troncos irregulares dominam as ruas esburacadas e lamacentas.



Colônia Caxias em 1884



Alguns anos depois, a fotografia já revela a presença de um projeto urbanístico específico: as casas, mais numerosas e bem conservadas, erguendo-se às margens de uma rua larga, a futura rua Julio de Castilhos.




Mapa da distribuição dos lotes na Colônia Caxias



Quando em 1913 Caxias foi reconhecida como cidade, já se apresentava como um núcleo estruturado, dentro do qual não é difícil imaginar o fervor das iniciativas e atividades, supervisionadas pelo imponente maciço da igreja matriz dedicada a Santa Teresa.


Colônia Caxias em 1890



Na década de 1920 a cidade se mostrava com ruas largas e bem cuidadas, onde os carros começaram a substituir as carroças e carruagens; a corrente elétrica anima lojas, palácios e residências que, com a pompa das fachadas, testemunham o nível de riqueza alcançado pela burguesia local.



Colônia Caxias



Em torno dos edifícios públicos a presença massiva de pessoas, por ocasião de celebrações religiosas ou civis, dá a medida da vitalidade e expansão contínua de uma cidade onde a presença e a cultura dos emigrantes venetos são cruciais.





sexta-feira, 1 de setembro de 2023

domingo, 16 de abril de 2023

Uma Epidemia: A História dos Imigrantes Italianos e a Luta Contra as Doenças a Bordo

 

Colônia Caxias em 1884


Giuseppe, um jovem italiano de 24 anos, decidiu deixar sua pequena cidade natal em busca de uma vida melhor na América. Junto com seus dois irmãos mais novos, acompanhados de outros amigos da mesma vila no interior da província de Treviso, embarcou em um navio no porto de Gênova, na Itália, em meados do ano de 1890.

A viagem através do oceano para a América foi uma aventura emocionante para o jovem Giuseppe, seus irmãos e companheiros de viagem. Empolgados pela aventura, eles estavam animados com a perspectiva de começar uma nova vida em um país desconhecido, mas, ao mesmo tempo, também bastante preocupados com os desafios que encontrariam.

O navio em que Giuseppe e seus companheiros viajavam era um velho cargueiro já prestes a ser aposentado, usado no transporte a granel de carvão, readaptado às pressas para o transporte de passageiros para aproveitar o boom da grande emigração. Era grande e espaçoso, com a antiga estiva, hoje salões, ainda cheirando carvão. Apesar das reformas as condições a bordo eram ainda bastante precárias. Como acontecia em quase todas as companhias de navegação italianas, apesar de proibido, havia sempre uma super lotação em todas as viagens, com os passageiros mal acomodados em catres beliches rústicos, distribuídos em longas fileiras nos grandes salões. A higiene deixava muito a desejar por falta de limpeza diária e de instalações sanitárias suficientes para todos. A água para higiene pessoal era também racionada, limitando a higiene daquela enorme quantidade de passageiros.  Apesar disso, os imigrantes italianos tentavam manter o ânimo e a esperança de dias melhores.
A viagem, com as suas dificuldades de alojamento seguia normalmente, quando após uma semana da partida, eclodiu uma forte epidemia de tifo que, apesar dos esforços da tripulação, rapidamente, se  espalhou pelo navio. A doença era bastante contagiosa e de transmissão oral, geralmente pela água ou os alimentos contaminados servidos a bordo. Ela se propagou com bastante velocidade, facilitada   pela falta de higiene, deixando muitos passageiros doentes e fracos, principalmente os mais velhos e as crianças. A tripulação do navio tentou isolar os doentes e cuidar deles da melhor forma possível, mas a situação logo ficou fora de controle. Giuseppe e os irmãos estavam entre os poucos passageiros que ainda não tinham sido afetados, assim se ofereceram para auxiliar. Ajudaram transportar os enfermos para uma área isolada do navio disponibilizada para esse fim. Fizeram o possível para aliviar o sofrimento deles. Giuseppe também ajudou a organizar o fornecimento de alimentos e água para os doentes, trabalhando incansavelmente para garantir que todos fossem atendidos. 
A epidemia continuou por duas semanas, e alguns passageiros não resistiram morrendo a bordo do navio. Giuseppe e seus irmãos lutaram bravamente para manter a esperança dos passageiros, mas a situação era muito grave. Em certo momento, Giuseppe esgotado também contraiu a doença e ficou doente. Ele começou a ter febre alta acompanhada de muita diarréia e vômitos, mas se recusou a desistir. Ele sabia que seus irmãos dependiam dele e que muitos passageiros estavam em situação ainda pior. Por sorte devido às boas condições de saúde a doença foi leve e em poucos dias estava bem melhor. À medida que a viagem se aproximava do fim, a epidemia foi diminuindo, graças aos esforços do jovem médico e do pessoal sanitário do navio. Muitos passageiros se recuperaram, mas três deles não tiveram tanta sorte, inclusive um amigo de Giuseppe. Finalmente, o navio chegou ao seu destino, no porto do Rio de Janeiro, mas a sonhada chegada não foi como eles imaginaram. As autoridades sanitárias do porto temiam a propagação da epidemia pela cidade e o navio foi colocado em quarentena. Giuseppe e os outros passageiros tiveram que permanecer a bordo por mais alguns dias antes de poderem desembarcar. Nem mesmo a tripulação teve permissão para deixar o navio. Quando finalmente puderam desembarcar, muitos dos passageiros estavam ainda fracos. As autoridades portuárias tiveram que tomar medidas especiais para garantir que a epidemia não se espalhasse pela cidade. Os passageiros  foram levados para o hospital da Hospedaria dos Imigrantes para a quarentena e receberem cuidados médicos. Giuseppe e seus irmãos foram examinados pelos médicos e, felizmente, foram considerados saudáveis ​​o suficiente para deixar o hospital. Eles foram liberados para continuar a viagem até o destino final que era a Colônia Caxias, no Rio Grande do Sul, onde já se encontrava um tio com a família, morando ali  há quase seis anos. Foi este mesmo tio, que já encontrava bem colocado, que escreveu chamando a família do pai deles para virem também para o Brasil. Como muitos outros imigrantes, eles enfrentaram inúmeras dificuldades, mas eles perseveraram e chegaram ao seu destino. A experiência no navio e a epidemia deixaram uma marca indelével nos três irmãos. Eles viram em primeira mão a importância da solidariedade e da empatia em momentos de crise. Eles também aprenderam a importância da higiene e da prevenção de doenças. Giuseppe e os irmãos também se estabeleceram na Colônia Caxias e, com a ajuda do tio, começaram a construir uma nova vida. Compraram lotes de terras, se casaram e  logo vieram os filhos. Os três começaram a plantar parreiras com as mudas que tinham trazido da Itália, ideia do tio. Foram bem sucedidos como agricultores e, alguns anos mais tarde com a comercialização do vinho que produziam. Jamais esqueceram aquela viagem difícil de navio e a epidemia que enfrentaram, nunca desistiram de suas esperanças e sonhos. Essa experiência ajudou a moldar as vidas dos imigrantes italianos que sobreviveram àquela  aventura. Eles enfrentaram inúmeras dificuldades no Brasil, mas perseveraram e construíram uma vida melhor para si e suas famílias. A história desses imigrantes italianos é um exemplo de como a coragem, a esperança e a resiliência podem ajudar a superar as adversidades.

Aquela viagem de navio de imigrantes italianos em 1879 foi uma experiência desafiadora e traumática para muitos. A epidemia que se espalhou pelo navio deixou muitos doentes e fracos e levou à morte de outros passageiros. No entanto, também foi um exemplo de coragem, empatia e solidariedade, mostrando a importância de cuidar uns dos outros em momentos de crise.



Texto
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS













sexta-feira, 10 de março de 2023

Morte e Superstições nas Colônias Italianas do Rio Grande do Sul

 



Nas colônias pioneiras de imigrantes italianos, a morte era vista como um evento temido e misterioso, cercado por uma série de superstições, pavores, medos, simpatias e práticas. A preparação dos falecidos antes do enterro era uma tarefa solene e sagrada, envolvendo rituais e crenças que se estendiam além da simples preparação do corpo.

Uma das superstições mais comuns era a crença de que a alma do falecido permaneceria no corpo até o momento do enterro, e por isso era importante garantir que o corpo fosse preparado com todo o respeito e cuidado. Acredita-se que a alma permaneceria presa ao corpo se alguma parte fosse danificada ou não fosse tratada adequadamente.

Para garantir que a alma do falecido pudesse descansar em paz, havia uma série de práticas que deveriam ser seguidas. Uma delas era a lavagem do corpo com água benta, para purificá-lo e afastar os espíritos malignos. O corpo também era vestido com roupas limpas e brancas, e coberto com um lençol também branco.

Outra crença popular era que as janelas da casa deveriam ser abertas no momento da morte, para permitir que a alma do falecido pudesse escapar livremente. Além disso, todos os espelhos da casa eram cobertos, para evitar que o espírito do falecido ficasse preso neles.

Durante o velório, muitas vezes havia um ritual de acender velas ao redor do corpo do falecido, simbolizando a luz que guia a alma em sua jornada para o além. O velório era uma ocasião para reunir familiares e amigos, para compartilhar a dor da perda e homenagear o falecido.

Na manhã do enterro, era comum que a casa fosse limpa e purificada com água benta. Alguns acreditavam que o cheiro do incenso também ajudava a purificar o ambiente e afastar os espíritos malignos. O corpo era então colocado em um caixão, muitas vezes adornado com flores e velas, e levado em procissão até o local do enterro.

No cemitério, era costume jogar terra em cima do caixão antes de ele ser completamente baixado na cova, como forma de simbolizar o retorno do corpo à terra. Era comum também fazer o sinal da cruz com terra na testa do falecido, para garantir que ele pudesse descansar em paz.

Além dessas práticas, também havia uma série de superstições e crenças relacionadas à morte e ao luto. Por exemplo, acredita-se que o relógio da casa deveria ser parado no momento da morte, para simbolizar que a vida do falecido havia chegado ao fim. Também era comum cobrir os espelhos da casa com um lenço preto, para evitar que o espírito do falecido ficasse preso neles.

O luto também era visto como um processo sagrado, que exigia um período de reclusão e introspecção. Era comum que os familiares do falecido vestissem roupas pretas por um período de luto, que podia durar até um ano. Durante esse período, evitava-se festas e comemorações, e a família do falecido recebia visitas de condolências.

Outra crença relacionada ao luto era a ideia de que o falecido poderia enviar mensagens do além através de sonhos ou de objetos deixados para trás. Por exemplo, se um parente falecido aparecesse em um sonho, acreditava-se que isso era um sinal de que ele estava em paz e queria se comunicar com a família. Também era comum encontrar objetos que o falecido havia deixado para trás, como um chapéu ou um lenço, e interpretá-los como uma mensagem do além.

A preparação dos falecidos antes do enterro era, portanto, um evento muito importante nas colônias pioneiras de imigrantes italianos. As crenças e práticas relacionadas à morte e ao luto eram profundamente enraizadas na cultura e tradição dessas comunidades, e refletiam a importância que esses povos davam à honra e ao respeito pelos seus entes queridos falecidos.

Apesar de todas as superstições e crenças relacionadas à morte, havia uma profunda tristeza e dor associada à perda de um ente querido. Os imigrantes italianos pioneiros nas zonas rurais do Rio Grande do Sul enfrentavam a morte sem o auxílio de médicos e hospitais, e muitas vezes não havia tratamentos disponíveis para doenças graves.

A falta de recursos médicos e o isolamento geográfico das colônias também tornavam mais difícil lidar com a morte e o luto. Muitas vezes, a morte de um membro da comunidade era vista como um evento trágico e inesperado, e as famílias não tinham muitas opções para lidar com a dor e o sofrimento.

No entanto, apesar de todas as dificuldades, os imigrantes italianos pioneiros nas zonas rurais do Rio Grande do Sul mantinham sua fé e esperança em tempos melhores. A religião desempenhava um papel importante na vida dessas comunidades, e muitas vezes era vista como um conforto e uma fonte de consolo durante momentos difíceis.

Embora a falta de recursos médicos e as superstições e crenças em torno da morte pudessem tornar a vida nas colônias pioneiras de imigrantes italianos um desafio, essas comunidades perseveravam através da força da fé e da união. A preparação dos falecidos antes do enterro era apenas uma parte do complexo conjunto de crenças, práticas e tradições que definiam a vida desses povos, e que continuam a ser valorizados e respeitados até hoje.

Além disso, as comunidades de imigrantes italianos nas zonas rurais do Rio Grande do Sul também tinham suas próprias tradições em relação ao enterro dos falecidos. Por exemplo, era comum que o caixão fosse transportado para a igreja local em um carro de boi, em um cortejo fúnebre que incluía a família do falecido e membros da comunidade.

Na igreja, o corpo era colocado em um caixão aberto para que os familiares e amigos pudessem se despedir. Era comum que os presentes fizessem o sinal da cruz e oferecessem uma última homenagem ao falecido antes de ele ser levado para o cemitério.

No cemitério, a família e amigos do falecido se reuniam em torno do túmulo para uma última despedida. O padre local realizava uma breve cerimônia de oração, e então o caixão era colocado na cova. Em seguida, os presentes jogavam flores sobre o caixão e faziam o sinal da cruz mais uma vez.

Após o enterro, era comum que a família do falecido oferecesse um banquete para a comunidade em sua casa. Essa tradição era uma forma de agradecer aos amigos e vizinhos pelo apoio e conforto oferecidos durante o período de luto, e também de honrar a memória do falecido.

No entanto, apesar das tradições e práticas em torno da morte e do enterro, os imigrantes italianos pioneiros nas zonas rurais do Rio Grande do Sul ainda enfrentavam muitos desafios e dificuldades em relação à saúde e bem-estar. A falta de médicos e hospitais, aliada ao isolamento geográfico e às condições precárias de vida, tornavam a vida nas colônias pioneiras extremamente difícil.

Para lidar com essas dificuldades, os imigrantes italianos pioneiros contavam com sua força, resiliência e união. A vida nas colônias era baseada em valores como a solidariedade, a colaboração e o trabalho duro, e as comunidades eram capazes de superar muitos obstáculos graças a esses valores.

Hoje, as comunidades de imigrantes italianos nas zonas rurais do Rio Grande do Sul continuam a honrar as tradições e crenças em torno da morte e do luto que foram estabelecidas pelos seus pioneiros. Embora as condições de vida tenham melhorado e a medicina tenha avançado, essas tradições ainda são valorizadas como parte da rica herança cultural dessas comunidades.

Além disso, a preservação dessas tradições é importante para manter a conexão com a história e a identidade das comunidades de imigrantes italianos. Elas são uma forma de manter viva a memória dos pioneiros que se estabeleceram nessas terras, enfrentaram desafios enormes e construíram uma nova vida em um lugar distante e desconhecido.

As tradições em torno da morte e do luto também refletem a forte presença da religião na vida dessas comunidades. A fé católica era e ainda é uma parte fundamental da identidade dos imigrantes italianos, e as práticas em torno da morte e do luto eram moldadas pelos ensinamentos da Igreja.

Por exemplo, a crença na vida após a morte e na existência do céu e do inferno eram fundamentais para a compreensão da morte e do luto pelos imigrantes italianos. Eles acreditavam que a alma do falecido continuava a existir em outro lugar após a morte, e que o papel da comunidade era ajudar a preparar o falecido para essa jornada.

Outra prática comum entre os imigrantes italianos era a de oferecer missas pelo falecido após o enterro. Essas missas eram uma forma de continuar a honrar a memória do falecido e de pedir por sua alma, para que ela pudesse alcançar a paz eterna.

Em resumo, as tradições, superstições, pavores, medos, simpatias e práticas em torno da preparação dos falecidos antes do enterro nas colônias pioneiras de imigrantes italianos eram moldadas pela falta de recursos e pela forte presença da religião católica na vida das comunidades. Embora possam parecer estranhas ou supersticiosas aos olhos de algumas pessoas hoje em dia, essas práticas eram uma forma importante de lidar com a morte e o luto em uma época e lugar em que a vida era muito difícil.

Ao honrar essas tradições, as comunidades de imigrantes italianos nas zonas rurais do Rio Grande do Sul estão mantendo viva a memória de seus pioneiros e preservando uma parte importante de sua história e identidade cultural.


Texto
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS