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segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Homem que Deixou San Benedetto Pò - Imigração Italiana

 


O Homem que Deixou San Benedetto Pò  Imigração Italiana

"Deixaram para trás a terra onde nasceram, mas ajudaram a construir uma nova pátria entre as florestas da Serra Gaúcha."


No outono de 1876, as águas lentas do rio Pó refletiam os céus cinzentos que cobriam a planície de Mantova. Na localidade de San Benedetto Pò, uma das mais antigas e conhecidas comunidades agrícolas da Lombardia, vivia Carlo Benassi, homem de trinta e três anos, agricultor como haviam sido seu pai, seu avô e quase todos os seus antepassados. Sua vida transcorria entre os campos, as estações e o trabalho incessante que parecia nunca produzir frutos suficientes para garantir um futuro melhor à esposa Teresa e aos filhos pequenos.

A unificação da Itália despertara esperanças em muitas famílias, mas a realidade das zonas rurais continuava difícil. Os impostos aumentavam, os arrendamentos consumiam grande parte dos rendimentos e as colheitas dependiam de fatores que nenhum agricultor podia controlar. Em San Benedetto Po, como em tantas localidades da Baixa Mantovana, homens e mulheres trabalhavam de sol a sol sem jamais conseguirem possuir a terra que cultivavam. Carlo conhecia aquela realidade desde a infância e, embora amasse profundamente sua terra natal, começava a compreender que seus filhos provavelmente herdariam as mesmas dificuldades que haviam marcado a vida de seus pais.

Foi nesse contexto que começaram a chegar notícias da América. Cartas escritas por emigrantes, relatos publicados em jornais e histórias transmitidas por viajantes falavam de um país distante chamado Brasil. Contava-se que o governo incentivava a colonização de vastas áreas ainda cobertas por florestas e que famílias trabalhadoras poderiam receber lotes de terra para construir uma nova vida. Muitos duvidavam dessas promessas. Outros acreditavam apenas parcialmente nelas. Carlo, porém, enxergava naquelas notícias algo que havia muito tempo não sentia: esperança.

A decisão de partir amadureceu lentamente. Durante meses, ele e Teresa conversaram sobre o futuro da família. Cada colheita insuficiente reforçava a sensação de que permanecer significava aceitar um destino já escrito. Partir era arriscado, mas oferecia a possibilidade de mudar a história de seus descendentes. No final daquele ano, venderam quase tudo o que possuíam. Ferramentas, móveis, utensílios e pequenos animais desapareceram pouco a pouco. Cada objeto vendido representava uma despedida silenciosa da vida que construíram em San Benedetto Po.

Quando chegou o dia da partida, Carlo caminhou pela última vez pelas ruas de sua localidade natal. Observou a grande abadia beneditina que havia testemunhado séculos de história, contemplou os campos que conhecia desde menino e recolheu um pequeno punhado de terra do quintal da casa onde crescera. Guardou-o cuidadosamente dentro de um saco de pano. Não era um objeto valioso, mas simbolizava suas raízes, sua família e a pátria que levava consigo no coração.

A despedida dos parentes foi marcada por lágrimas e abraços demorados. Muitos prometiam reencontros futuros. Outros permaneciam em silêncio, compreendendo que talvez nunca mais voltassem a ver aqueles que partiam. A emigração era mais do que uma viagem; era um rompimento doloroso com tudo aquilo que havia sido familiar durante gerações.

Em Gênova, o porto estava repleto de famílias provenientes de diversas regiões da Itália. Homens, mulheres e crianças aguardavam o embarque carregando baús, colchões, roupas e sonhos. Quando o navio finalmente deixou o cais, uma mistura de esperança e tristeza tomou conta dos passageiros. A costa italiana foi desaparecendo lentamente até transformar-se numa linha distante no horizonte. Muitos permaneceram observando em silêncio, como se tentassem gravar na memória a última imagem da terra natal.

A travessia do Atlântico foi longa. O oceano parecia infinito. Dias inteiros eram consumidos pelo balanço constante do navio, pelas conversas entre emigrantes e pela saudade daqueles que haviam ficado para trás. Durante a viagem, Carlo atravessou pela primeira vez a linha do Equador. Os marinheiros explicavam a importância daquele ponto imaginário que dividia o mundo em dois hemisférios. Para homens que haviam passado a maior parte da vida trabalhando em pequenas propriedades rurais, aquela experiência parecia extraordinária.

Após semanas de navegação, os passageiros avistaram o litoral brasileiro. O Rio de Janeiro surgiu diante deles como uma paisagem impressionante, cercada por montanhas cobertas de vegetação exuberante. O calor tropical, os novos aromas e a movimentação do porto faziam os recém-chegados perceber que haviam alcançado um mundo completamente diferente daquele que deixaram para trás.

Entretanto, o destino de Carlo não era o Rio de Janeiro. Após os procedimentos de desembarque e registro, sua família embarcou novamente rumo ao sul do Império. Durante vários dias, o navio costeou o litoral brasileiro até alcançar o Porto de Rio Grande  onde os passageiros desembarcaram e foram abrigados em grande galpões de madeira esperando pelas embarcações fluviais para a continuação da. viagem até o local a eles destinado. Depois de alguns dias veio a ordem de embarcarem novamente. Com pequenos navios fluviais a vapor seguiram pelo rio Guaíba até Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Deste ponto a viagem continuou entrando nas águas do Rio Caí pelas quais, navegando contra a correnteza, atingiram o Porto Guimarães, mais tarde chamado de Porto de São Sebastião do Caí, na cidade de Montenegro. A viagem revelou a imensidão daquele país e aumentou ainda mais a ansiedade dos emigrantes, que aguardavam o momento de conhecer as terras prometidas.

Após o desembarque e depois de um dia de descanso vieram os caminhos de terra. Estradas rudimentares cortavam matas e colinas, exigindo paciência e resistência. Carroças atolavam na lama, animais cansavam e muitas vezes os colonos precisavam seguir a pé, carregando parte de seus pertences. A cada curva da estrada, a paisagem tornava-se mais montanhosa e mais coberta por florestas.

Quando finalmente chegaram à Colônia Dona Isabel, Carlo compreendeu que a verdadeira aventura estava apenas começando. Diante dele erguiam-se montanhas cobertas por araucárias gigantescas. Vales profundos desapareciam entre a neblina das manhãs. A floresta parecia não ter fim. Embora o clima fosse mais ameno do que em muitas regiões do Brasil, aquele ambiente ainda representava um desafio imenso para famílias acostumadas às planícies cultivadas da Lombardia.

Poucos dias depois, Carlo foi conduzido pelos funcionários do governo até o lote que receberia. O que encontrou não se parecia com os campos agrícolas que imaginara. Não havia vinhedos, nem plantações, nem casas prontas. Havia apenas mata virgem. Árvores centenárias cobriam praticamente toda a extensão da propriedade. O silêncio era interrompido apenas pelo canto dos pássaros e pelo som distante de pequenos cursos d’água atravessando a floresta.

Apesar da dimensão do desafio, Carlo e Tereza sentiram algo que jamais experimentaram na Itália. Pela primeira vez na vida, aquela terra lhes pertencia. Não era propriedade de um senhor distante. Não era um campo arrendado. Era deles. O futuro dependeria do trabalho de suas próprias mãos e do esforço de sua família.

Os primeiros meses exigiram sacrifícios enormes. Antes de plantar qualquer coisa, era necessário derrubar árvores, remover raízes e construir um abrigo. Os machados trabalhavam do amanhecer ao anoitecer. As araucárias pareciam monumentos erguidos pela própria natureza e sua derrubada exigia dias inteiros de esforço. Aos poucos surgiram as primeiras clareiras. Depois vieram os ranchos de madeira cobertos por tabuinhas que os imigrantes chamavam de scandole e as pequenas áreas destinadas ao cultivo.

A adaptação também exigiu mudanças na alimentação. Muitos alimentos tradicionais eram impossíveis de encontrar. Em seu lugar surgiam produtos desconhecidos para os recém-chegados. Milho, feijão, pinhão e mandioca tornaram-se parte do cotidiano. Com o passar do tempo, os colonos aprenderam a combinar os conhecimentos trazidos da Itália com os recursos disponíveis na nova terra.

As primeiras plantações representavam mais do que alimento. Representavam a vitória da persistência sobre as dificuldades. O milho crescia nas áreas recém-abertas. Hortas começavam a produzir. Árvores frutíferas eram plantadas ao redor das moradias. Alguns colonos já sonhavam em cultivar videiras e produzir vinho, mantendo viva uma tradição profundamente ligada à cultura italiana.

Ao redor da colônia, famílias vindas de diversas regiões da Itália ajudavam-se mutuamente. Compartilhavam ferramentas, sementes e conhecimentos. Juntos construíam capelas, abriam estradas e transformavam a floresta em comunidade. Aquela solidariedade tornou-se uma das maiores forças dos pioneiros da Serra Gaúcha.

Quando Carlo escreveu sua primeira carta para os parentes de San Benedetto Po, encontrou dificuldade para descrever tudo o que via. Como explicar a grandiosidade das araucárias? Como contar que possuía mais terra do que seus antepassados haviam sonhado cultivar? Como transmitir a mistura de cansaço, saudade e esperança que preenchia seus dias? Ainda assim escreveu. Falou das dificuldades, mas também das oportunidades. Falou da saudade de San Benedetto Po, mas também da confiança que depositava no futuro.

Os anos passaram e as mudanças tornaram-se visíveis. Onde antes existia apenas mata surgiram lavouras, caminhos, escolas e capelas. As famílias cresceram. As comunidades prosperaram. Os filhos de Carlo passaram a falar o seu dialeto em casa e português nas relações do dia a dia. Sem perceber, estavam ajudando a construir uma nova sociedade sem abandonar completamente as raízes herdadas de seus antepassados.

Na velhice, Carlo costumava observar as colinas cultivadas da Colônia Dona Isabel e recordar o dia em que chegara àquele lugar. Onde antes existia uma floresta aparentemente infinita, agora havia propriedades produtivas, famílias estabelecidas e uma comunidade vibrante. O trabalho de milhares de imigrantes havia transformado profundamente a paisagem.

Ele jamais voltou a caminhar pelas margens do rio Pó. Nunca mais viu a abadia de San Benedetto Po nem os campos de sua infância. Contudo, conservou durante toda a vida o pequeno saco de terra trazido da Itália. Quando os cabelos embranqueceram e as mãos perderam a força da juventude, costumava segurá-lo em silêncio. Dentro daquele simples pedaço de tecido conviviam duas pátrias: a que o viu nascer e a que ajudou a construir.

Hoje, os descendentes daqueles pioneiros percorrem as ruas, vinhedos e comunidades que nasceram do esforço de homens e mulheres como Carlo Benassi. Muitos dos seus nomes desapareceram dos registros oficiais, mas sua obra permanece viva. Cada propriedade aberta na mata, cada capela construída, cada parreira plantada e cada família formada representam uma parte do legado deixado por aqueles emigrantes.

A verdadeira herança dos pioneiros não foi apenas a terra que conquistaram. Foi a coragem de abandonar o conhecido para enfrentar o desconhecido, a perseverança para vencer dificuldades aparentemente insuperáveis e a determinação de construir um futuro melhor para as gerações que viriam depois. É por isso que sua memória continua viva. Em cada sobrenome herdado, em cada fotografia antiga preservada pelas famílias e em cada história contada de geração em geração ainda ressoa a mesma chama que levou Carlo Benassi a deixar San Benedetto Po e atravessar o oceano em busca de uma nova vida.


Nota do Autor

Existem histórias que pertencem aos livros e existem histórias que pertencem à memória dos povos. A narrativa que o leitor acaba de conhecer encontra-se justamente entre esses dois mundos.

Esta é uma obra de ficção inspirada na realidade vivida por milhares de imigrantes italianos que deixaram suas aldeias, suas famílias e suas certezas para atravessar o oceano em direção a um destino desconhecido. Os personagens aqui retratados possuem nomes fictícios, assim como alguns acontecimentos foram adaptados para atender às necessidades da narrativa. Contudo, o contexto histórico, os desafios enfrentados, os sentimentos descritos e a essência da jornada permanecem profundamente enraizados na experiência real daqueles homens e mulheres que participaram da grande imigração italiana para o Brasil.

Ao escrever esta história, procurei imaginar não apenas os fatos, mas também as emoções que acompanharam aqueles pioneiros. O que passava pelo coração de um pai ao deixar para trás a terra onde seus antepassados viveram durante séculos? Como era olhar pela última vez para a aldeia natal sem saber se algum dia voltaria a vê-la? Que força extraordinária era necessária para atravessar um oceano, enfrentar florestas virgens, construir uma casa do nada e começar uma nova vida em um continente desconhecido?

Muitas vezes, quando observamos as cidades prósperas, os vinhedos, as estradas, as escolas, as igrejas e as comunidades que hoje fazem parte da paisagem do Rio Grande do Sul, esquecemos que tudo isso teve origem no esforço silencioso de pessoas comuns. Homens e mulheres que possuíam pouco mais do que coragem, fé e disposição para o trabalho. Foram eles que abriram picadas na mata, derrubaram araucárias gigantescas, construíram os primeiros ranchos, cultivaram os primeiros campos e lançaram os alicerces de uma sociedade que transformaria para sempre a história da região.

O progresso do Rio Grande do Sul e de grande parte do Brasil não pode ser compreendido sem reconhecer a contribuição desses pioneiros. Eles trouxeram consigo conhecimentos agrícolas, valores familiares, tradições comunitárias, espírito empreendedor e uma extraordinária capacidade de superar adversidades. Onde existiam apenas florestas e caminhos precários, surgiram colônias, vilas, cidades e centros de produção que ajudaram a impulsionar o desenvolvimento econômico e cultural do país.

Mas talvez o maior legado desses imigrantes não esteja nas construções, nas lavouras ou nas riquezas que deixaram. Talvez esteja no exemplo. Um exemplo de perseverança diante das dificuldades, de amor à família, de confiança no futuro e de coragem para recomeçar quando tudo parecia incerto.

Se você é descendente daqueles homens e mulheres que cruzaram o Atlântico, espero que encontre nestas páginas algo mais do que uma simples narrativa. Espero que encontre um reflexo da trajetória de seus próprios antepassados. Talvez os nomes sejam diferentes. Talvez a aldeia de origem não seja a mesma. Talvez os detalhes da viagem tenham sido outros. Mas os sentimentos, os medos, os sonhos e os sacrifícios certamente foram semelhantes.

Que esta história sirva como uma homenagem a todos aqueles que partiram sem garantias, enfrentaram dificuldades inimagináveis e, mesmo assim, nunca desistiram. Graças a eles, milhões de brasileiros carregam hoje não apenas um sobrenome herdado, mas também uma herança de trabalho, dignidade e esperança.

A memória desses pioneiros merece ser preservada, contada e transmitida às novas gerações. Porque enquanto suas histórias continuarem sendo lembradas, eles jamais deixarão de caminhar ao nosso lado.

Dr. Luiz Carlos Piazzetta


👉Sua família também possui histórias de imigração italiana? Compartilhe nos comentários as lembranças, fotografias e relatos preservados por seus antepassados. A memória dos pioneiros continua viva através de seus descendentes.



terça-feira, 5 de maio de 2026

Imigração Italiana de 1880 a Saga de Angelo Dal Molin no Rio Grande do Sul

 

Imigração Italiana de 1880 a Saga de Angelo Dal Molin no Rio Grande do Sul



Havia uma quietude ancestral nas colinas de San Ulderico, frazione suspensa no tempo acima do comune de Schio, onde os sinos da pequena igreja não apenas marcavam as horas, mas pareciam pesar sobre elas. Ali, onde a terra era magra e o trabalho denso, nasceu Angelo Battista Dal Molin, no inverno de 1856, sob um céu que prometia pouco além da repetição dos dias.

A vida, naquela dobra do Vêneto, era feita de ciclos que não admitiam desvios. A vinha exigia mãos firmes, o milho reclamava paciência, e o inverno cobrava o preço de tudo. Angelo cresceu com os olhos acostumados à distância — não àquela que se mede em léguas, mas à outra, mais profunda, que separa o homem daquilo que ele não ousa sequer imaginar. Ainda assim, como tantos de sua geração, ele aprendeu cedo a reconhecer os sinais de uma terra exausta. Não era apenas o solo que se esgotava, mas também as possibilidades.

Quando conheceu Teresa Bortolotto, filha de pequenos arrendatários da encosta vizinha, o mundo pareceu, por um breve instante, contido e suficiente. Casaram-se em 1878, mais por necessidade do que por escolha, como era costume, mas houve entre eles um entendimento silencioso — uma aliança forjada menos pelo afeto declarado e mais pela partilha da mesma incerteza.

Foi nesse intervalo entre o que se tinha e o que se temia perder que chegaram as notícias. Falava-se de um lugar além do oceano, onde a terra não era contada em punhados, mas em horizontes. O Brasil surgia nas palavras dos agentes de emigração como uma promessa quase indecente: campos vastos, clima generoso, futuro aberto. Poucos acreditavam integralmente. Muitos, porém, já não podiam duvidar da própria miséria.

Angelo resistiu enquanto pôde. Havia nos seus gestos um apego quase físico à terra de San Ulderico, como se abandonar aquele solo fosse romper algo mais profundo que raízes. Mas a sucessão de más colheitas, os impostos crescentes do novo Reino da Itália e a impossibilidade de sustentar uma família que começava a crescer — já havia um filho, Giovanni — tornaram a decisão menos uma escolha e mais uma rendição.

Na primavera de 1880, com os pertences reduzidos ao essencial e a dignidade comprimida no silêncio, Angelo e Teresa deixaram a colina que os vira nascer. Não houve despedidas grandiosas. Apenas olhares demorados, como se cada pedra, cada árvore, cada dobra da paisagem precisasse ser memorizada para resistir ao esquecimento.

A travessia foi longa e impiedosa. O navio, carregado de vidas suspensas, era um mundo à parte — um espaço onde o tempo se dissolvia entre o balanço constante e o odor persistente de confinamento. Teresa adoeceu na terceira semana. Angelo, sem saber rezar como os devotos nem duvidar como os descrentes, manteve-se num estado de vigília muda, como se sua simples presença pudesse impedir o pior. Sobreviveram. Muitos não tiveram o mesmo destino.

Quando enfim aportaram no sul do Brasil, o que encontraram não foi a promessa, mas o início bruto dela. A Colônia Dona Isabel, ainda em formação, era mais um projeto do que uma realidade. A mata se erguia densa e indiferente, como se ignorasse por completo a chegada daqueles homens e mulheres que pretendiam domesticá-la.

Angelo recebeu um lote de terra que, no papel, parecia generoso. Na prática, era um fragmento de mundo a ser conquistado golpe a golpe. As primeiras semanas foram de espanto e exaustão. A floresta não se rendia facilmente. Cada árvore derrubada parecia exigir uma parte do corpo, cada clareira aberta custava um dia de vida.

Teresa, que nunca havia conhecido outra paisagem senão as colinas do Vêneto, adaptou-se com uma força silenciosa. Transformou o improviso em lar, o escasso em suficiente. Aprendeu novas palavras, novos gestos, e, sem perceber, começou a construir uma existência que já não dependia da lembrança constante do que haviam deixado para trás.

Giovanni crescia entre dois mundos. Em casa, ouvia o dialeto carregado de memórias; fora dela, assimilava o som estranho de uma terra que ainda não compreendia. Era nele que o futuro se insinuava — não como ruptura, mas como transformação.

Os anos seguintes foram marcados por perdas e conquistas discretas. A terra, aos poucos, começou a responder. O milho crescia mais alto, a vinha, plantada com insistência quase teimosa, dava sinais de vida. Não era abundância, mas era suficiente para sustentar algo que, antes, parecia inalcançável: a permanência.

Angelo envelheceu sem perceber o momento exato em que deixou de ser estrangeiro. Talvez isso nunca tenha acontecido por completo. Havia nele uma espécie de dupla pertença — um homem dividido entre a colina que o formara e a terra que o aceitara à força de trabalho.

Numa tarde de outono, muitos anos depois, sentado à porta de sua casa de madeira, observando o movimento lento da nova colônia que ajudara a erguer, Angelo compreendeu algo que nunca lhe fora dito. Não haviam vindo em busca de riqueza, nem apenas de terra. Haviam vindo em busca de continuidade — de um lugar onde a vida pudesse prosseguir sem o peso constante da impossibilidade.

San Ulderico permaneceu nele como uma paisagem interior, intacta e inalcançável. Mas ali, naquela parte do Rio Grande do Sul, entre fileiras de milho e videiras ainda jovens, existia agora algo que não podia ser levado nem perdido: o resultado de tudo o que haviam sido obrigados a abandonar.

E foi nesse silêncio — não o das colinas italianas, mas o das terras abertas do sul do Brasil — que Angelo Battista Dal Molin, filho de uma terra exausta, tornou-se, enfim, homem de uma terra construída.

Nota do Autor

Há histórias que não se encontram nos arquivos oficiais, nem nos relatórios administrativos, nem nas estatísticas que resumem a grande emigração italiana do século XIX a números e fluxos. Elas sobrevivem de outra forma — na memória transmitida, nos sobrenomes preservados, nas palavras que atravessaram o oceano e ainda hoje ecoam em dialetos que o tempo não conseguiu apagar.

A narrativa de Angelo Battista Dal Molin nasce desse território invisível entre o fato histórico e a verdade humana. San Ulderico, frazione collinare do comune de Schio, foi uma das tantas origens silenciosas de homens e mulheres que partiram não por aventura, mas por necessidade. A unificação italiana, frequentemente celebrada como marco político, pouco alterou a realidade concreta das famílias camponesas do Vêneto, que continuaram presas a uma terra escassa, a impostos crescentes e a um futuro cada vez mais estreito.

O Brasil, e em particular o Rio Grande do Sul, apresentou-se então como promessa — não de riqueza imediata, mas de possibilidade. A Colônia Dona Isabel, fundada em meio à mata densa, tornou-se destino de milhares desses emigrantes que trocaram a segurança da miséria conhecida pela incerteza de uma vida por construir. Ali, enfrentaram não apenas a natureza hostil, mas também o desafio de reconstruir identidade, língua e pertencimento.

Este texto não pretende narrar um caso isolado, mas representar uma experiência coletiva. Angelo e Teresa, embora fictícios, carregam em si a essência de inúmeras trajetórias reais. Cada gesto descrito, cada decisão tomada, cada silêncio vivido encontra paralelo em cartas, relatos e memórias que chegaram até nós fragmentados, mas profundamente humanos.

Escrever sobre essa travessia é, acima de tudo, um exercício de respeito. Respeito àqueles que partiram, aos que ficaram, e aos que, sem saber exatamente de onde vieram, ainda carregam em si os vestígios dessa jornada.

Se há algo que a história da emigração nos ensina, é que a terra não é apenas um lugar — é também aquilo que se perde, aquilo que se constrói e, sobretudo, aquilo que permanece dentro de quem atravessou o mundo para continuar existindo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Da Fome no Vêneto à Terra Prometida no Brasil A Saga de Carlo De Luca

 


Da Fome no Vêneto à Terra Prometida no Brasil A Saga de Carlo De Luca


A vida de Carlo De Luca começou entre colinas úmidas e vinhedos pobres da localidade de Piai, no município de Fregona, onde o Vêneto do fim do século XIX já não era a terra cantada nas memórias antigas. Era um mundo cansado, espremido entre o excesso de braços e a falta de pão. Quando Carlo se casou, em 1884, na igreja de Santa Maria Maddalena, tinha apenas 22 anos, mas carregava nos ombros o peso de um chefe de família amadurecido à força. Giuditta Gavi, com seus 18 anos, vinda de Cappella Maggiore, era feita da mesma matéria rude: robusta, silenciosa e resistente, moldada por anos de trabalho precoce e privações.

O casamento não trouxe casa nova nem autonomia. Como era costume, foram viver sob o mesmo teto da mãe viúva de Carlo, cercados pelos cinco irmãos, alguns ainda crianças. A morte súbita do pai, um ano antes, havia quebrado o frágil equilíbrio daquela família numerosa. Carlo, o primogênito, tornou-se o sustentáculo de todos. Em mesas longas, repartiam migalhas, mediam o pão com cuidado e aprendiam, desde cedo, que a fome não chegava de uma vez: rondava, observava, voltava — até se instalar.

A província de Treviso, como todo o Vêneto, afundava numa crise sem precedentes. O trabalho rural rareava, as pequenas manufaturas fechavam, e a terra, concentrada nas mãos de poucos, não pertencia a quem a fazia produzir. Carlo trabalhava como colono, mas a maior parte da colheita ia para um patrão ausente, dono de campos que ele nunca pisaria com os próprios pés. O sonho antigo — possuir a própria terra — parecia cada vez mais distante.

No primeiro ano de casamento nasceu Isabella, a primogênita. O nascimento trouxe alegria, mas também a consciência brutal de que aquele mundo não tinha mais espaço para novos filhos. Era a mesma certeza que se espalhava pelas aldeias, contaminando tavernas, praças e até as igrejas. A emigração deixara de ser exceção e se tornara esperança coletiva. Padres atentos ao sofrimento do povo já não falavam apenas de resignação, mas de partida. Falava-se do Brasil, terra distante e quase mítica, descrita como vasta, fértil, um El Dorado americano onde o homem simples poderia, enfim, trabalhar para si.

Foi com a ajuda de don Luigi, o velho pároco, que Carlo conseguiu inscrever a família no programa de colonização promovido pelo governo brasileiro. Os bilhetes seriam pagos, a travessia garantida, e ao final aguardava-os um lote de terra no sul do país, na Colônia Dona Isabel, no Rio Grande do Sul, fundada poucos anos antes e apresentada como exemplo de progresso. Carlo assinou o contrato com mãos firmes e coração inquieto, selando o destino não apenas da esposa e da filha, mas da mãe e dos irmãos que dele dependiam.

Em dezembro de 1887, numa manhã escura, gelada e coberta de neve, o grupo deixou Piai. Não houve grandes palavras. Apenas abraços longos, lágrimas contidas e o sino da igreja marcando a separação definitiva entre o que fora e o que jamais voltaria a ser. O trem os levou até Gênova, onde o Città di Milano os aguardava no cais, enorme, negro de fuligem, cuspindo fumaça pela chaminé como um monstro de ferro faminto por vidas.

A travessia foi dura, como tantas outras. Mais de trinta dias de mar fechado, porões úmidos, comida escassa e doenças à espreita. A breve parada em Nápoles apenas aumentou o amontoado humano: centenas de novos emigrantes, vindos do sul, subiram a bordo carregando sacos, caixas e dialetos estranhos. O navio tornou-se um pequeno mundo de miséria e esperança, onde o tempo parecia suspenso entre o enjoo e a oração silenciosa.

Quando finalmente avistaram o Rio de Janeiro, o alívio não foi imediato. A viagem continuou por caminhos desconhecidos: outros navios, rios largos, estradas improvisadas. Somente semanas depois alcançaram o sul, subindo a serra até a Colônia Dona Isabel, onde a mata fechada substituía os campos europeus e o silêncio era cortado apenas pelo machado e pelo canto distante dos pássaros.

Ali não havia casas prontas nem lavouras abertas. Havia terra bruta, coberta por florestas densas, e a promessa escrita em papel. Carlo recebeu um lote inclinado, pedregoso, mas seu. Pela primeira vez, a terra não pertencia a um patrão invisível. Pertencia ao suor que nela cairia. Com a ajuda dos irmãos, ergueu um abrigo simples de madeira. A mãe, já envelhecida pelas perdas, tornou-se o eixo doméstico, cuidando de Isabella enquanto Giuditta enfrentava, sem queixas, a nova rotina de trabalho pesado.

Os primeiros anos foram de provação. O frio da serra gaúcha castigava no inverno; no verão, a umidade e os insetos testavam os limites do corpo. Houve doenças, colheitas perdidas, mortes na colônia vizinha. Ainda assim, pouco a pouco, o chão cedia. As árvores caíam, o milho brotava, a videira se adaptava. A comunidade crescia, unida pela mesma língua fragmentada, pela fé e pela memória comum de uma Itália deixada para trás.

Outros filhos nasceram. Isabella cresceu entre a roça e a escola improvisada da colônia, aprendendo a ler em português e a falar o dialeto do pai. Carlo envelheceu antes do tempo, mas nunca se curvou. Cada safra colhida reforçava a certeza de que a decisão, por mais dolorosa, fora necessária. Ele não enriquecera, mas conquistara aquilo que o Vêneto lhe negara: dignidade, terra e futuro.

Quando, anos depois, Carlo olhava os campos abertos onde antes havia mata fechada, compreendia que sua história não era única. Era parte de uma corrente humana imensa que atravessara o oceano para reinventar a própria existência. A grande emigração italiana não fora apenas uma fuga da fome, mas um ato de coragem coletiva. E na Colônia Dona Isabel, entre vinhedos jovens e casas de madeira, a vida de Carlo De Luca tornara-se prova silenciosa de que, às vezes, é preciso abandonar tudo para, enfim, possuir alguma coisa. 

Nota do Autor

Este texto nasceu do silêncio das fontes, das lacunas dos documentos e das memórias quebradas que chegaram até nós como ecos de dor, coragem e incerteza. A travessia dos italianos rumo ao Brasil não foi apenas um deslocamento geográfico — foi uma ruptura interior. Cada embarque significou abandonar o que se era para tentar sobreviver ao que ainda não se conhecia.

Ao escrever estas linhas, procurei ir além dos números e das estatísticas. Busquei alcançar o que não ficou registrado: o peso da despedida, o medo que não se dizia em voz alta, o cansaço acumulado nos corpos e nas almas daqueles que desceram aos porões dos navios com mais esperança do que certezas.

Se você, leitor, ao terminar esta leitura, estiver sentindo o odor acre do mar, o balanço inquieto das águas e aquele medo atávico transmitido pelos antepassados que cruzaram o oceano sem saber se veriam terra outra vez, então esta narrativa atingiu o seu objetivo.

E, se essas páginas despertaram lembranças, imagens ou emoções que parecem vir de longe, deixe suas experiências nos comentários deste blog. Sua memória também faz parte dessa história.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Sob o Vento das Colônias e A Travessia de Domenico Cavallin para a Colônia Dona Isabel (1878)

 


Sob o Vento das Colônias 

A Travessia de Domenico Cavallin para a Colônia Dona Isabel (1878)

História da imigração italiana no Rio Grande do Sul – Colônia Dona Isabel


Domenico Cavallin nasceu na localidade San Giovanni, pertencente ao município vêneto de Valdobbiadene, uma terra de colinas que ondulavam como um imenso tapete verde, belo à distância, mas implacável para quem dependia dele para sobreviver. Ali, sob o peso silencioso da rotina, gerações inteiras haviam aprendido a extrair sustento de parcelas mínimas de terra, trabalhando de sol a sol para colher apenas o necessário. Em San Giovanni, a esperança sempre fora um recurso tão escasso quanto o próprio dinheiro. Naquele inverno de 1878, quando os vinhedos adormeciam sob uma neblina espessa que descia dos montes, a paisagem parecia refletir a alma do lugar: silenciosa, resignada, contida. As noites eram longas e frias, e o eco distante dos sinos do campanário não trazia consolo; pelo contrário, repetia um aviso sombrio que todos já conheciam — ali, naquele canto da província de Treviso, o futuro diminuía a cada ano, como um fio de vida que se desgastava lentamente. Para muitos jovens, especialmente aqueles que, como Domenico, não herdariam terras nem ofício seguro, a pequena localidade já não oferecia caminhos, apenas a lenta certeza de que permanecer era aceitar uma vida inteira limitada pelas mesmas colinas que os cercavam desde o nascimento.

A Itália recém-unificada não oferecia saída para quem vivia nas franjas do campo. A promessa de um país moderno parecia distante demais para alcançar localidades como San Giovanni: as terras eram poucas, fragmentadas entre herdeiros, e as bocas eram muitas, sempre mais numerosas do que as colheitas exíguas que a terra permitia. A cada estação, aumentava a sensação de que o novo país existia apenas nos discursos políticos de Turim e Florença, enquanto nas aldeias rurais persistia o mesmo cenário de dívidas, impostos e escassez. Assim, as únicas promessas reais chegavam em envelopes gastos, vindos do outro lado do oceano Atlântico, trazendo a caligrafia torta de parentes que haviam partido antes. Eram cartas do Brasil, cheias de relatos incertos, mas carregadas de uma luz que não existia em Valdobbiadene. Nelas, repetia-se o nome de um destino que começava a circular entre os imigrantes: a Colônia Dona Isabel, um lugar remoto “no sul do mundo”, onde — diziam — a terra se abria como um livro em branco, esperando pela coragem de quem aceitasse recomeçar. Essas cartas, escritas por mãos calejadas que conheciam a pobreza tão bem quanto Domenico, revelavam algo quase inacreditável: que, do outro lado do oceano, homens simples finalmente respiravam dignidade. Eram palavras que atravessavam mares não apenas com notícias, mas com uma promessa silenciosa de futuro, capaz de inquietar até os mais resignados.

Domenico guardou uma dessas cartas sob o colchão por semanas, como se o simples contato com o papel pudesse iluminar os dias sombrios de San Giovanni. Ele a relia sempre que o desânimo o apertava, repetindo cada frase como quem procura sinais de um destino possível. A caligrafia trêmula do parente que escrevera do Brasil se tornara quase uma oração particular, um lembrete de que a vida podia ser maior do que a pobreza que cercava a vila. Até que, numa manhã de geada, quando o frio parecia entrar pelas frestas da casa e congelar qualquer ilusão de futuro, Domenico tomou sua decisão: partiria. Depois de uma noite inteira de vigília silenciosa, levantou-se com uma determinação inédita. Vendeu a velha carroça herdada do pai — último símbolo de um passado que já não o sustentava — e juntou moedas que mal enchiam o fundo de um bolso. Era pouco, quase nada, mas suficiente para iniciar a travessia que mudaria sua vida. A despedida da mãe foi o momento mais duro: ela não tinha palavras, apenas um olhar que misturava orgulho e temor. Antes que ele cruzasse o limiar da porta, colocou em suas mãos um pequeno crucifixo de madeira, gasto pelos anos e pelas preces. “Leva contigo”, murmurou. Domenico apertou o objeto com força, sabendo que, entre tudo o que deixava e tudo o que buscaria no caminho até a Colônia Dona Isabel, aquele crucifixo seria o único companheiro que jamais abandonaria.

A viagem de Valdobbiadene até Gênova foi longa e cansativa, uma travessia que parecia medir não apenas a distância entre duas cidades, mas o próprio peso da decisão que Domenico havia tomado. A cada milha vencida, o trem e as estradas revelavam rostos diferentes, todos marcados pelo mesmo misto de apreensão e esperança que ele próprio carregava. Entre aqueles viajantes que cruzavam seu caminho, muitos vinham de regiões vizinhas da província de Treviso: famílias inteiras de Vidor, levando baús improvisados e crianças sonolentas; grupos de jovens de Farra di Soligo, que escondiam o medo sob uma coragem quase teatral; trabalhadores de Follina e Cison di Valmarino, homens habituados ao esforço físico, mas visivelmente abalados pela incerteza que envolvia a partida. Alguns viajavam em silêncio absoluto, outros repetiam histórias sobre parentes que já haviam embarcado rumo ao Brasil, como se as palavras pudessem firmar a própria decisão. E, embora cada um carregasse motivações distintas — dívidas, sonhos, promessas ou pura necessidade —, todos traziam no olhar o mesmo brilho inquieto, uma combinação profunda de dúvida e desejo. Era esse olhar, tão humano e tão familiar, que lembrava a Domenico que sua jornada não era única: fazia parte de um movimento maior, um êxodo silencioso que transformava camponeses anônimos em imigrantes, empurrando-os em direção ao desconhecido.

O navio que os conduziu ao Brasil era um gigante cansado, um casco de ferro que rangia como se carregasse séculos de histórias e desalento. No porão, onde a maioria dos imigrantes encontrava seu lugar forçado, o ar úmido misturava o sal do oceano ao cheiro de medo que parecia escorrer das paredes escuras. Crianças choravam sem alívio, velhos apertavam terços gastos entre os dedos deformados pelo trabalho, e os dias se arrastavam em um ciclo de náuseas, escuridão e lembranças que doíam. Cada balanço do mar fazia o futuro parecer ainda mais distante, e cada noite trazia a certeza de que não havia retorno possível para quem deixara a Itália unificada em busca de sobrevivência. Ainda assim, por mais sombrio que fosse o porão, havia algo que nenhum vento contrário conseguia apagar: a esperança persistente — quase teimosa — de um recomeço. Era essa esperança que sustentava aqueles homens e mulheres, transformando a travessia do Atlântico em um ritual de passagem para uma nova vida na terra prometida.

Quando avistou o Rio de Janeiro, Domenico sentiu o coração falhar por um segundo, como se a imensidão diante dele exigisse uma pausa para ser compreendida. A cidade surgia do mar com uma grandiosidade quase irreal: montanhas íngremes que pareciam brotar das águas verdes, uma vegetação exuberante que o sol tropical incendiava em tons impossíveis, e uma luz intensa que não existia em nenhum recanto da Itália recém-unificada. Era um cenário que misturava beleza e estranhamento, marcando de forma indelével a chegada dos imigrantes italianos ao Brasil.

Mas Domenico sabia que aquele deslumbramento não seria o fim de sua jornada. O Rio de Janeiro era apenas o primeiro sopro de um continente desconhecido. Seu destino estava muito além, no extremo sul, onde as colônias italianas se multiplicavam entre vales úmidos, encostas férteis e florestas densas que ainda carregavam o cheiro da mata virgem. Para lá seguiriam homens como ele — homens que buscavam não apenas terra, mas a chance de construir uma vida que a Europa nunca lhes oferecera. Aquele era apenas o começo, o primeiro capítulo de uma travessia que o conduziria à Colônia Dona Isabel e ao coração da imigração italiana no Brasil.

A chegada à Colônia Dona Isabel foi um choque de realidade que desmontou qualquer ilusão construída pelas cartas enviadas do Brasil. Não havia estradas que facilitassem o caminho, nem casas erguidas à espera dos recém-chegados. O que se estendia diante de Domenico era uma imensidão de mata fechada, onde a vegetação densa escondia barrancos escorregadios, raízes traiçoeiras e um silêncio profundo que só era quebrado pelo ritmo cadenciado dos machados abrindo clareiras na floresta. Era o som do início de tudo — duro, lento, irremediável.

Quando finalmente recebeu o lote 56 da Linha Leopoldina, percebeu que seu novo mundo cabia naquele retângulo de floresta bruta. Ali não havia nada que lembrasse Valdobbiadene, nem as colinas suaves da frazione San Giovanni. Seus olhos, acostumados aos vinhedos ordenados do Vêneto, precisaram se habituar à desordem selvagem da mata brasileira, onde cada palmo parecia resistir ao toque humano. Para transformar aquele chão em sustento, Domenico teria de domá-lo com as próprias mãos — derrubar árvores centenárias, abrir trilhas, erguer uma casa que o protegesse das chuvas violentas e das noites úmidas que pareciam não ter fim.

Naquele primeiro instante, ele compreendeu que a colonização no sul do Brasil não era apenas promessa de terra; era sobretudo uma prova de resistência, coragem e fé. Ali começaria sua verdadeira luta por um futuro.

Os primeiros meses na Colônia Dona Isabel foram exaustivos, quase impiedosos. O sol ardia sem trégua sobre a clareira recém-aberta, queimando a pele e roubando o fôlego de quem ousava trabalhar desde antes da aurora. Quando a chuva chegava, não vinha como alívio, mas como ameaça: penetrava pelas frestas da palhoça improvisada, inundando o chão de terra batida, apagando o pequeno fogo que Domenico tentava manter aceso e transformando as noites em longas vigílias de frio e incerteza. A solidão pesava como uma rocha — silenciosa, constante, difícil de afastar.

Ainda assim, a colônia oferecia dois milagres que nenhum outro presente poderia superar: o trabalho, que dava sentido aos dias, e a amizade, que dava coragem para enfrentá-los. Foi nesse ciclo de esforço e necessidade que Domenico conheceu Caterina Fregonese, recém-chegada da localidade de Bigolino, também pertencente ao comune de Valdobbiadene. Ela era jovem, de passos firmes e olhar decidido, com uma determinação que parecia desafiar a rudeza da floresta e a precariedade das primeiras moradias.

Juntos, aprenderam a derrubar árvores que pareciam impossíveis de tombar, a abrir trilhas que serpenteavam entre galhos retorcidos e raízes profundas, e a transformar o medo silencioso das primeiras noites na mata em força compartilhada. A cada jornada, a cooperação entre eles se tornava mais natural; a cada obstáculo vencido, crescia a convicção de que recomeçar naquele pedaço de Brasil era difícil — mas possível. E talvez, pela primeira vez, Domenico sentiu que aquele novo mundo poderia, um dia, tornar-se um lar.

Ao lado dos vizinhos — a família Dalla Costa, oriunda de Pieve di Soligo; os irmãos Zanin, vindos de Sernaglia della Battaglia; e o velho Peruzzetto, que deixara para trás as colinas de Vidor — Domenico descobriu que o Brasil não era apenas um destino final, mas uma tarefa diária, quase um chamado silencioso que exigia força, coragem e persistência. A convivência com aquelas famílias, igualmente marcadas pela dureza da travessia e pela esperança de reconstruir a vida, ensinou-lhe que a colonização no sul do Brasil só era possível porque ninguém caminhava sozinho.

Cada árvore derrubada parecia um monumento erguido contra a própria adversidade. Cada tora arrastada pelo barro, sob sol ou chuva, era um lembrete de que nenhum deles havia atravessado o oceano para se render. E cada broto plantado na terra recém-limpada — milho, trigo, feijão, videiras ainda frágeis — tornava-se um gesto de afirmação: estavam vivos, estavam presentes e pertenciam àquele chão novo e indomado.

Na união entre os imigrantes, Domenico percebeu que o Brasil os moldava tanto quanto eles moldavam a terra. Era um pacto tácito entre homens e floresta, entre passado e futuro. E, dia após dia, as raízes que lançavam no solo da Colônia Dona Isabel começavam a se entrelaçar com as raízes que haviam deixado para trás na província de Treviso, criando uma nova história — deles, e de todos que chegariam depois.

Quando finalmente ergueu sua primeira casa de madeira, Domenico chorou sem pudor, como alguém que, depois de longa tempestade, avista um pedaço de céu limpo. A construção não tinha beleza: as tábuas eram irregulares, o telhado deixava passar vento pelas frestas, e o chão ainda era terra batida. Também não era grande; mal comportava o fogão improvisado, a pequena mesa de pinho e a cama onde ele caía exausto todas as noites. Mas era dele — fruto de semanas de esforço contínuo, de machadadas que feriam as mãos, de dias escuros em que a saudade da Itália quase o paralisava.

Aquela casa simples tornou-se o símbolo vivo de que a travessia do Atlântico, os medos do porão e as despedidas do Vêneto haviam valido a pena. Era a prova de que nenhum sofrimento tinha sido em vão. Ali, naquele pedaço de terras brasileiras da Colônia Dona Isabel, Domenico sentiu nascer algo que jamais encontrara em San Giovanni: a convicção profunda de que o futuro podia finalmente ser construído com as próprias mãos.

A cada martelada que ouviu ecoar na mata, ele compreendeu que não era apenas uma casa que se erguia, mas uma existência inteira que ganhava forma — uma vida nova, plantada com coragem naquele solo distante do qual começava, pouco a pouco, a sentir-se parte.

E assim, no coração verde do Rio Grande do Sul, Domenico Cavallin deixou de ser apenas um camponês anônimo da província de Treviso, moldado pelas colinas estreitas de San Giovanni e pelas limitações de uma terra que já não lhe prometia futuro. No Brasil, tornou-se mais do que imigrante: tornou-se colono, pioneiro e fundador de um modo de vida que exigia coragem para cada amanhecer e fé para cada noite.

Com o passar dos anos, suas marcas se espalharam pela Colônia Dona Isabel — na roça aberta à força dos braços, nas videiras que insistiam em crescer mesmo sob o clima incerto, nas pequenas sendas que ligavam um lote ao outro, criando uma comunidade onde antes só havia mata densa e silêncio. Cada gesto seu, cada metro de terra domada, cada árvore derrubada para dar espaço à vida, ajudou a transformar aquele núcleo isolado em povoado, o povoado em vila, e a vila em cidade.

Quando os primeiros sinos ecoaram no vale, quando as primeiras colheitas foram celebradas, e quando as crianças da segunda geração começaram a falar português com sotaque de Vêneto, Domenico compreendeu que algo maior havia sido construído — algo que sobreviveria a ele. Sua trajetória, entrelaçada às de tantos outros imigrantes italianos, tornou-se parte da memória eterna que deu origem à futura Bento Gonçalves, erguida sobre trabalho, esperança e sacrifício.

Assim, sem alarde e sem ambição além do necessário, Domenico Cavallin inscreveu seu nome na história de um novo mundo. E o Brasil, que antes lhe parecia apenas destino incerto, transformou-se no lugar onde seu passado encontrou repouso e onde seu futuro — e o de seus descendentes — encontrou raiz.

Nota do Autor 

Esta narrativa é inteiramente ficcional e não representa a biografia real de nenhuma pessoa específica. Os nomes, sobrenomes e locais utilizados — embora comuns na província de Treviso durante o período da grande emigração italiana — foram escolhidos ao acaso e servem apenas para conferir verossimilhança histórica ao enredo. O objetivo deste texto é homenagear a trajetória dos imigrantes que ajudaram a construir a Colônia Dona Isabel e preservar a memória da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Vozes Ausentes: A Dor de uma Mãe Imigrante na Colônia Dona Isabel

 



Vozes Ausentes

A Dor de uma Mãe Imigrante na 
Colônia Dona Isabel

Na vastidão da colônia esquecida,
Entre o mato fechado e o pó da estrada,
Uma mãe leva a dor, sempre escondida,
E o tempo arrasta a vida, desgraçada.

Três filhos guarda — são seu bem maior —,
Mas dois lhe faltam, e o vazio a toma.
Silêncio fere — um silêncio sem cor —,
Quase um ano sem carta, sem diploma.

No fundo da mata, seu canto é oração,
Desejo de letras que nunca vieram.
Ecoa o clamor — dor sem redenção —,
Enquanto as estrelas as noites teceram.

Os dias rastejam no chão, sem calor,
E as lágrimas riscam seu rosto cansado.
A esperança tropeça no temor,
Sozinha, ferida, num tempo calado.

A saudade aperta — estilhaça o peito —,
E a dúvida bate, sem se anunciar:
"Estão bem? Estão longe? Por que esse jeito?
Em terras distantes, vão me escutar?"

No Brasil, vela a mãe com fé e ardor,
Por notícias que tragam algum consolo,
Das filhas casadas, perdidas no amor,
Na França e nos Estados — fora do solo.

A cada alvorada, renasce o querer:
Um amor que resiste ao tempo e ao mar,
A força de mãe, que jamais vai ceder
Às marés que insistem em lhe afogar.

No ermo da mata, em silêncio profundo,
Ela acende a fé — sua última espera —,
Sonhando que as cartas cruzem o mundo
E tragam, enfim, sua aurora primeira.

Em cada estrofe que aqui se apresenta,
Celebro essa mãe de esperança em flor:
A dor, o silêncio, a alma que aguenta,
Na fé de um reencontro cheio de amor.

lcbpiazzetta

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Destino na Mata: A Jornada de Nonna Corona




Nona Corona chegou à Colônia Dona Isabel com uma bagagem repleta de esperança e coragem. Aos 62 anos, viúva a muitos anos, e com todos os seus filhos já emigrados para terras distantes, ela decidiu também deixar a Itália para não ficar sozinha. A travessia do oceano em um antigo navio de transporte de carvão foi árdua e cansativa. As condições a bordo eram precárias, com falta de higiene e comida escassa. No entanto, Nona Corona enfrentou todas as adversidades com determinação, pois tinha certeza que sua presença era necessária para a sua filha caçula.
Assim que chegou à Colônia Dona Isabel, logo no primeiro ano de sua inauguração, nona Corona mergulhou de cabeça nos trabalhos da roça, ajudando sua filha mais nova e cuidando dos seis netos, todos ainda menores de idade. Seu vigor surpreendia a todos, e sua presença era reconfortante para a família em um lugar tão distante de sua terra natal.
Os anos passaram, e Nona Corona estava feliz em sua nova vida. Ela contava histórias sobre a Itália e transmitia valores familiares aos netos. A comunidade se fortalecia, mas a falta de recursos médicos e assistência religiosa era um desafio constante. Não havia médicos na Colônia, e os padres ainda não tinham chegado à região.
Um dia, de forma repentina e misteriosa, Nona Corona não conseguiu mais andar. Seu corpo estava paralisado de um lado, e ela não conseguia falar. O desespero tomou conta da família, que não sabia como ajudá-la. A dor da impotência era avassaladora. Os netos a cercavam, com olhos cheios de lágrimas, sem entender o que estava acontecendo com sua amada nona.
Os dias passaram, e a saúde de Nona Corona foi piorando gradualmente. A família fazia o possível para aliviar seu sofrimento, mas não havia recursos médicos disponíveis. As noites eram longas e angustiantes, com a senhora em estado de coma, lutando pela vida a cada respiração.
Outros vizinhos da Colônia Dona Isabel se uniram em torno da família, oferecendo apoio e conforto. As pessoas rezavam por Nona Corona, implorando por um milagre, pois a falta de assistência religiosa tornava tudo ainda mais difícil. A esperança era a única coisa que restava.
Finalmente, após semanas de agonia, Nona Corona partiu. Sua morte deixou um vazio na comunidade. A família se reuniu para realizar um enterro simples, cavando uma cova na mata exuberante que cercava a casa. Não havia caixão nem cerimônia religiosa adequada. O desânimo e a tristeza eram profundos, e a falta de amparo religioso tornava a perda ainda mais dolorosa.
O falecimento de Nona Corona foi um lembrete brutal das dificuldades enfrentadas pelos pioneiros italianos na Colônia Dona Isabel. A falta de assistência médica e religiosa era um desafio constante, mas sua determinação e coragem continuaram a inspirar as gerações seguintes. Com o tempo, a comunidade cresceu e se fortaleceu, trazendo médicos, padres e melhorias para a região.
Nona Corona se tornou uma lenda na Colônia Dona Isabel, lembrada não apenas por sua morte trágica, mas também por sua força e amor pela família. Sua história serviu como um lembrete de como a vida era dura naqueles dias pioneiros, mas também como um testemunho da resiliência humana diante das adversidades. Ela foi, e sempre será, um símbolo de esperança e perseverança na história da colônia italiana.

domingo, 10 de setembro de 2023

Raízes na Terra: A Jornada dos Belliner em Colônia Dona Isabel







No final do século XIX, quase no alvorecer de 1900, quando o vapor que trouxe os Belliner se aproximou do porto de Rio Grande, o coração de Antonio Belliner estava repleto de esperança e expectativa. Ao seu lado, sua esposa Maria e seus quatro filhos – Giuseppe, Carlo, Isabella e Rosa – pensavam no litoral distante do Porto de Gênova desaparecendo no horizonte, deixando para trás uma vida de dificuldades em uma Itália empobrecida, em busca de um futuro melhor nas terras férteis do sul do Brasil. Tinham deixado pequena vila onde nasceram, no interior da província de Treviso, abandonando uma vida de contínuo trabalho de gerações da família, sempre na terra de outros. Tinham em mente satisfazer o tão desejado sonho de um dia serem proprietários da terra em que trabalhavam. 

Após muitos dias de viagem pelo grande mar e pelos rios do grande estado brasileiro, onde dias viraram semanas que pareciam infindáveis, agora já no pequeno porto fluvial, com os poucos pertences e as crianças em um grande carroção puxado por mulas, a família Belliner chegou à Colônia Dona Isabel, um lugar onde as colinas verdejantes e os vales exuberantes os acolheram. Aqui, eles enfrentaram inúmeras adversidades enquanto construíam suas vidas. A avó, nonna Augusta, tornou-se o pilar da família com suas histórias e sua sabedoria ancestral, mantendo a tradição italiana viva. 

Os dois meninos, Giuseppe e Carlo, logo se tornaram inseparáveis dos campos e vinhedos. Eles aprenderam com o pai a arte da vinicultura e passaram longas horas sob o sol escaldante, cuidando das videiras que se estendiam até onde os olhos podiam ver. As meninas, Isabella e Rosa, ajudavam a mãe Maria na cozinha, preparando pratos italianos tradicionais com ingredientes locais.

A vida na colônia não foi fácil. Os Belliner enfrentaram invernos rigorosos, safras difíceis e a distância da família na Itália. No entanto, através da perseverança e do apoio mútuo, eles prosperaram. Giuseppe e Carlo eventualmente casaram com duas irmãs da vizinhança, construindo suas próprias famílias e vinícolas.

Com o tempo, a Colônia Dona Isabel prosperou, graças ao trabalho árduo e à devoção dos imigrantes italianos. A família Belliner e seus descendentes se tornaram uma parte fundamental dessa história, com suas tradições e vinícolas florescendo nas terras férteis do sul do Brasil.

Hoje, quando alguém visita à antiga Colônia Dona Isabel, ainda pode saborear o vinho premiado da Vinícola Belliner e ouvir as histórias de nonna Isabella, que atravessaram o tempo, mantendo viva a memória da jornada corajosa e do legado dos imigrantes italianos no sul do Brasil.


sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Vozes Ausentes: A Dor da Mãe Imigrante na Colônia Dona Isabel


 

Vozes Ausentes: 
A Dor da Mãe Imigrante na Colônia Dona Isabel


Na vastidão da colônia Dona Isabel, 
No meio do nada, isolados do mundo, 
Uma mãe carrega a dor, a angústia cruel, 
A espera dolorosa, o coração moribundo.

Três filhos ao seu lado, seu maior tesouro, 
Mas a ausência das outras, um vazio a corroer, 
O silêncio que consome, um peso agridoce, 
Quase um ano sem notícias, sem saber o que acontecer.

No seio da floresta, a mãe clama em prece, 
Anseia pelas palavras, pelas cartas esperadas, 
O eco do silêncio, uma dor que não desvanece, 
Enquanto o tempo avança, trazendo noites estreladas.

Os dias se arrastam, lentos como o vento, 
As lágrimas marcam seu rosto envelhecido, 
A esperança vacila, é um tormento, 
Nas sombras da incerteza, seu peito ferido.

A saudade aperta, o coração em pedaços, 
Perguntas sem respostas ecoam em seu ser, 
Será que estão bem? Afastadas em espaços, 
Em terras distantes, sem nenhuma saber.

No Brasil, a mãe aguarda com fervor, 
Notícias que tragam alívio e acalanto, 
Das duas filhas casadas, longe do calor, 
Nos Estados Unidos e na França, em outro canto.

A cada amanhecer, uma esperança renasce, 
A certeza de que o amor atravessa oceanos, 
Na força de uma mãe que não se esquece, 
De suas filhas queridas, mesmo em tempos insanos.

No meio da floresta, no isolamento profundo, 
A mãe sustenta a fé, a chama da espera, 
Que um dia as notícias cheguem ao seu mundo, 
E tragam alegria, um renascer primavera.

Em cada verso desse poema entrelaçado, 
Celebro a coragem dessa mãe imigrante, 
A dor, a angústia e os sentimentos abraçados, 
Na esperança de que a distância não seja constante.


de Gigi Scarsea
erechim rs




quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Lágrimas da Floresta: A Dor de uma Mãe Imigrante Italiana

 



Lágrimas da Floresta: 
A Dor de uma Mãe Imigrante Italiana



Em meio às florestas do Rio Grande do Sul, 
Uma jovem mãe imigrante, com coração aflito, 
Sofre a dor profunda de uma perda insuportável, 
Seu pequeno filho, um mês de vida, tão querido.

Nasceu em meio ao isolamento, sem assistência, 
Na colônia Dona Isabel, onde foram levados, 
A falta de recursos e cuidados adequados, 
Fez com que o destino lhe fosse arrancado.

O choro do bebê se misturou ao vento da mata, 
Enquanto a mãe, desamparada, buscava consolo, 
No meio das árvores, suas lágrimas caíam, 
Um lamento silencioso, marcado de desconsolo.

A imensa saudade da terra distante, 
O sentimento de estar longe, sem amparo, 
Tudo se intensifica com essa perda avassaladora, 
Um filho levado, deixando um vazio amargo.

Que tristeza profunda invade seu peito, 
Como uma dor que não encontra alívio, 
Essa mãe imigrante, em meio às florestas, 
Chora a perda do seu tesouro, seu motivo.

Que o tempo traga algum conforto a essa alma, 
Que a esperança possa ressurgir em seu olhar, 
Mesmo entre as árvores, no silêncio da mata, 
Essa mãe encontra forças para continuar a caminhar.


de Gigi Scarsea
Erechim RS


quarta-feira, 28 de junho de 2023

Da Província de Treviso ao Pampa Gaúcho: A Jornada Épica de Genaro em Busca de um Futuro Melhor - parte 4








Domenico, a mãe e os irmãos trabalharam duro para limpar parte do terreno e preparar um novo pedaço de terra para as semeaduras de inverno, principalmente, de trigo. Ainda tinham parte dos mantimentos recebidos do governo e muita coisa que por vezes faltava, os vizinhos, que já moravam a mais tempo no local, davam ou vendiam para eles. A primeira safra de milho foi ótima, além das suas expectativas. A semeadura do milho apesar de ter sido feita com um pouco de atraso, foi compensada com o atraso do inverno. Mostrou que a terra era muito fértil e a safra de fim de primavera seria abundante. Aprenderam que quando o milho já estivesse com grãos, precisavam ficar mais atentos, pelo grande número de pássaros e animais selvagens, que em bandos dizimavam as plantações. O tempo corria rápido e os irmãos já haviam começado a fazer as tábuas para a construção da casa. Estavam contentes com o lugar, com a terra que compraram. Agradeciam sempre ao pai Daniele pela indicação do lugar e incentivo para emigrarem. O correio chegava mensalmente na sede da colônia, não muito distante onde moravam. Maria tinha esperanças de receber notícias das duas outras filhas. Não sabia onde miravam e nem como estavam. Antes de deixar Segusino, durante a visita ao pároco Michele, havia deixado com ele o seu novo endereço no Brasil para caso as filhas quisessem ou pudessem entrar em contato com ela. Também tinha iniciado contato por cartas com o velho padre, amigo de muitos anos da família. Estava aguardando a sua resposta. Naquele tempo, conforme o local, uma carta demorava vários meses para ser entregue ao destinatário, especialmente naquelas colônias do Rio Grande do Sul, tão distantes de tudo. A casa de madeira estava quase pronta, os rapazes tinham se saído muito bem, revelando-se bons carpinteiros. Era grande com três grandes quartos e uma sala. A cozinha, com seu fogão de chão, ficava em outra pequena dependência, separada da parte principal da casa, pelo perigo de incêndio. A safra do trigo foi ótima e a do milho excelente, ocasião em que puderam encher os depósitos no grande paiol recém-construído. Parte das safras eram vendidas e seguiam de barcos para a capital do estado e a outra parte era reservada para consumo da família. Já estavam criando galinhas e alguns porcos soltos em um cercado. Um dos filhos andava semanalmente até o correio, na sede da colônia, para ver se tinha chegado alguma carta para eles. Durante muitos meses voltavam tristes, pois, não encontraram nada. Um dia o filho mais novo, voltou gritando e correndo. De longe balançava o braço mostrando dois envelopes brancos. Saíram todos correndo ao encontro do rapaz. De todos eles somente Domenico sabia ler um pouco, pois, tinha somente estudado até a terceira série. Uma das cartas era da filha mais velha que morava nos Estados Unidos e a outra era de Don Michele. Com dificuldade a família foi se inteirando nas notícias tão aguardadas. Ficou sabendo que a filha estava bem e já tinha três filhos, dois meninos e uma menina. O marido estava bem empregado na construção civil e que tinha muito trabalho. Todos estavam bem de saúde e muito contentes na nova pátria. Ela, infelizmente, ainda não tinha recebido notícias da irmã mais nova que havia emigrado para Chipilo, no México. Encontrou o endereço da família através do padre Michele. Pela carta do antigo pároco, ficaram sabendo dos acontecimentos em Segusino e, principalmente, notícias da segunda filha. Ela, como havia previsto Maria, a filha também tinha escrito para o pároco para saber notícias do resto da família. Algum tempo depois de se estabelecerem em Chipilo, entrou em contato com Don Michele e conseguiu o endereço atual da mãe e dos irmãos no Brasil. Já era mãe de dois meninos e estava grávida do terceiro. Estavam bem de saúde e ela e o marido trabalhavam em uma terra própria, comprada a prestações do governo mexicano, onde plantavam principalmente milho e criavam vacas, cujo leite era transformado em queijos, vendidos em Chipilo e nas cidades próximas. Estavam muito felizes no novo país e até já estavam começando a ganhar dinheiro. Maria e os filhos ficaram radiantes de alegria com as boas notícias recebidas das duas.

Este conto continua
Texto de 
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS