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terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Homem que Construiu uma Igreja Antes da Própria Casa


O Homem que Construiu uma Igreja Antes da Própria Casa

Uma história da imigração italiana no Rio Grande do Sul

"Antes de levantar as paredes da própria casa, ele ajudou a erguer o lugar onde nasceria uma comunidade inteira."

Belluno, Reino da Itália, março de 1878. 

Quando Angelo Vianello terminou de encaixar a última viga do telhado da pequena igreja de San Bartolomeo, desceu lentamente do andaime, retirou o chapéu e passou a mão sobre a madeira recém-aparelhada. Não havia pregos aparentes, folgas entre as juntas nem desalinhamentos. Desde menino aprendera com o pai que uma igreja deveria atravessar gerações sem pedir licença ao tempo. A madeira podia envelhecer, escurecer e até ranger durante os invernos, mas jamais deveria perder a dignidade. Angelo tinha trinta e quatro anos e era conhecido em toda a região como maestro d'ascia, mestre carpinteiro capaz de transformar troncos brutos em telhados que pareciam desafiar os ventos das montanhas. Era um ofício respeitado, mas já não bastava para alimentar a família. A Itália recém-unificada continuava pobre. Os impostos aumentavam, as encomendas diminuíam e os proprietários rurais retardavam qualquer construção que não fosse absolutamente necessária. Havia dias em que Angelo voltava para casa com as mãos cheias de serragem e os bolsos completamente vazios.

Sua esposa, Lucia Zanet, nunca lhe perguntou quanto dinheiro trouxera. Bastava olhar seus olhos cansados para compreender a resposta. Tinham três filhos pequenos e um quarto estava para nascer. A oficina herdada do pai permanecia organizada como um altar: plainas, formões, serras e esquadros pendiam da parede exatamente onde o velho Vianello os deixara antes de morrer. Angelo acreditava que ferramentas também guardavam memória. Cada cabo polido pelo uso carregava o suor de homens que haviam construído casas, celeiros e campanários por toda a Província de Belluno. Mas ferramentas não compravam farinha, nem pagavam impostos.

Foi no início daquele verão que chegou à vila uma carta enviada por um primo distante estabelecido na Colônia Caxias, no sul do Brasil. O papel atravessara o Atlântico dobrado quatro vezes e ainda conservava manchas de umidade. A caligrafia dizia que a mata era fechada, o trabalho brutal e os invernos inesperadamente frios, mas acrescentava uma frase que fez Angelo permanecer longos minutos em silêncio: "Aqui falta tudo, menos terra. E homens que saibam construir." Naquela noite, pela primeira vez, ele falou em emigrar.

Os meses seguintes foram consumidos pelas despedidas invisíveis. Vendeu a oficina a um jovem aprendiz, entregou as ferramentas mais pesadas ao irmão mais novo e escolheu apenas aquelas que caberiam em um baú de madeira: um machado de corte fino, duas plainas, um formão, um esquadro de ferro, um serrote dobrável e um pequeno martelo cuja cabeça fora forjada pelo próprio pai. Quando um vizinho perguntou por que levava tantas ferramentas para um país coberto por florestas, Angelo respondeu apenas que árvores não se transformavam sozinhas em casas.

No porto de Gênova, em setembro de 1878, descobriu que milhares de pessoas carregavam a mesma esperança embrulhada em malas semelhantes à sua. Havia mulheres abraçadas a imagens de santos, crianças que jamais tinham visto o mar e homens que fingiam coragem enquanto observavam o tamanho do vapor ancorado. O navio partiu ao entardecer. À medida que o litoral desaparecia, Angelo percebeu que não sentia medo do oceano. Temia apenas esquecer o som dos sinos de sua aldeia.

A travessia ensinou que o Atlântico era capaz de reduzir todos os homens à mesma condição. Carpinteiros, camponeses, pedreiros e ferreiros dividiam a mesma água escassa, a mesma comida pobre e o mesmo cheiro de madeira úmida misturado ao sal. Houve tempestades que fizeram o casco gemer durante noites inteiras. Houve febres, enterros no mar e crianças que nasceram antes de conhecer qualquer continente. Angelo ocupava as horas afiando silenciosamente suas ferramentas. Alguns zombavam daquele cuidado. Outros diziam que era inútil preparar instrumentos para um lugar desconhecido. Ele apenas respondia que uma ferramenta bem conservada era uma promessa de futuro.

Quando desembarcaram em Porto Alegre, seguiram em carroças durante dias até alcançar as colônias da Serra. O funcionário do governo entregou-lhe um mapa rudimentar indicando o lote que receberia. Angelo caminhou entre pinheiros, canelas e cedros gigantes até encontrar o marco de madeira que delimitava sua propriedade. Ficou longo tempo observando a floresta. Não enxergava uma fazenda. Não via um campo. Via apenas árvores antigas que pareciam existir desde antes da chegada dos primeiros homens àquelas montanhas. Compreendeu que recebera menos uma terra do que uma tarefa.

Os primeiros meses consumiram todas as forças da comunidade. As famílias construíram ranchos cobertos por folhas, abriram pequenas clareiras, improvisaram roças e aprenderam que a mata escondia muito mais do que madeira. Havia serpentes, enxames, temporais repentinos e um barro vermelho que prendia as botas como se desejasse impedir qualquer avanço. Angelo passava os dias ajudando os vizinhos a levantar paredes e telhados. Conhecia os encaixes corretos, distribuía o peso das vigas e escolhia a madeira adequada para cada estrutura. Quando finalmente chegou sua vez de construir a própria casa, todos imaginaram que ele começaria imediatamente.

Na manhã seguinte, porém, reuniu os colonos junto a um enorme cedro derrubado dias antes. Sem discursos longos, desenhou no chão um retângulo com a ponta do machado. Explicou que ali seria construída uma pequena capela de madeira. Alguns homens estranharam a ideia. Havia famílias vivendo em abrigos improvisados, crianças dormindo sobre o chão batido e mulheres cozinhando sob coberturas de galhos. Parecia absurdo erguer uma igreja antes que todos possuíssem uma casa definitiva.

Angelo ouviu cada argumento sem interromper ninguém. Depois pegou uma viga recém-aparelhada, colocou-a sobre os ombros e caminhou sozinho até o local marcado. Não pronunciou outra palavra. A resposta estava naquele gesto. Um a um, os demais homens começaram a acompanhá-lo. Ao final da tarde, dezenas de vigas já estavam alinhadas no terreno. Na semana seguinte, mulheres preparavam refeições para os trabalhadores enquanto adolescentes buscavam pedras para o alicerce. As crianças recolhiam lascas de madeira para alimentar o fogo. Sem perceber, toda a comunidade construía algo que pertenceria igualmente a todos.

A pequena capela ficou pronta antes do início do inverno. Não possuía torre, vitrais nem bancos suficientes. O altar era uma mesa de madeira polida pelo próprio Angelo. O crucifixo fora entalhado por ele durante as noites, à luz de um lampião de querosene. O sino ainda não existia. Quando chegava a hora da oração, bastava bater três vezes contra uma chapa de ferro pendurada na entrada. O som espalhava-se pela mata e era suficiente para reunir famílias que caminhavam quilômetros por picadas abertas a machado.

Somente depois da capela concluída Angelo iniciou a construção da própria casa. Levantou-a com a mesma precisão das igrejas que construíra na Itália. Lucia costumava dizer que o marido media as vigas como quem escrevia uma oração. Anos mais tarde, quando novas famílias chegaram à colônia, a pequena capela tornou-se escola durante a semana, cartório improvisado nos casamentos, abrigo durante tempestades e lugar onde se discutiam estradas, pontes e plantações. Em torno dela nasceram armazéns, ferrarias, casas comerciais e novas moradias. Sem que ninguém percebesse, a futura vila cresceu ao redor da construção que um dia parecera um luxo desnecessário.

Quarenta anos depois, a velha capela de madeira foi substituída por uma igreja de pedra. Os filhos dos pioneiros já falavam português e o talian com naturalidade. Os netos quase não compreendiam o dialeto dos avós. A antiga clareira transformara-se em praça, e onde antes existiam apenas picadas havia ruas, comércio e crianças correndo depois da missa. Durante a inauguração da nova matriz, um sacerdote perguntou aos moradores mais antigos quem havia construído a primeira igreja da comunidade. Poucos responderam de imediato. O tempo tinha o hábito de apagar os nomes daqueles que levantavam os alicerces.

Angelo Vianello morreu no inverno seguinte, aos setenta e cinco anos. Em sua oficina, cuidadosamente organizada como no tempo do pai, encontraram apenas um pedaço de madeira de cedro com uma frase gravada à ponta de formão. Não era um ensinamento para os filhos nem um testamento. Era apenas a certeza simples de um homem que compreendera o verdadeiro significado da colonização:

"Uma casa protege uma família. Uma igreja ensina um povo a permanecer unido."


Nota do Autor

Ao longo de muitos anos pesquisando a imigração italiana, aprendi que as grandes histórias quase nunca estão nos documentos oficiais. Os registros de desembarque, as listas de passageiros, os livros de terras e os relatórios governamentais nos informam datas, nomes e números, mas permanecem em silêncio sobre aquilo que realmente edificou as primeiras comunidades: a solidariedade, a fé e o trabalho coletivo.

O Homem que Construiu uma Igreja Antes da Própria Casa é uma obra de ficção. Angelo Vianello, sua família e os acontecimentos aqui narrados são personagens e situações criados literariamente. No entanto, a essência da história é profundamente verdadeira.

Em praticamente todas as colônias italianas do Rio Grande do Sul, a capela foi muito mais do que um templo religioso. Antes da existência de escolas, cartórios, salões comunitários ou sedes administrativas, era nela que os colonos rezavam, discutiam os problemas da comunidade, organizavam mutirões, acolhiam recém-chegados, celebravam casamentos, batizados e despediam-se dos que partiam. Em muitas localidades, a igreja tornou-se o verdadeiro marco fundador em torno do qual nasceram as futuras vilas e cidades.

Também é historicamente verdadeiro que muitos dos primeiros imigrantes trouxeram da Itália ofícios especializados — carpinteiros, pedreiros, ferreiros, canteiros, marceneiros e construtores — conhecimentos que foram decisivos para transformar a floresta em comunidades organizadas. Sem esses homens e mulheres, a colonização da Serra Gaúcha teria seguido um caminho muito diferente.

Escrevi esta narrativa para prestar homenagem a esses pioneiros anônimos, cujos nomes raramente aparecem nos livros de História, mas cuja obra permanece viva nas igrejas centenárias, nas praças, nas escolas e nas cidades que ajudaram a erguer. Muitas vezes lembramos os grandes líderes, os administradores e os políticos; quase nunca lembramos daqueles que serraram a primeira tábua, levantaram a primeira viga ou colocaram a primeira pedra.

Se, ao terminar esta leitura, o leitor olhar para a antiga igreja de sua comunidade e imaginar que, antes das paredes de pedra, existiu uma pequena capela de madeira construída por mãos calejadas de imigrantes, então esta história terá cumprido seu propósito.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta


👉 Se esta história lembrou a trajetória de seus antepassados, compartilhe-a. Cada igreja centenária da Serra Gaúcha guarda, entre suas pedras e vigas, o trabalho silencioso dos imigrantes que construíram muito mais do que templos: construíram comunidades.


sábado, 15 de agosto de 2026

O Banco de Pedra em Frente da Igreja – Memórias de Pederobba e da Imigração Italiana


O velho banco de pedra da praça de Pederobba simboliza as conversas, os encontros e as despedidas que antecederam a grande imigração italiana para o Brasil. 


O Banco de Pedra em Frente da Igreja

Memórias de Pederobba e da Imigração Italiana

"Alguns bancos guardam apenas o peso de quem se senta. Aquele, diante da igreja de Pederobba, carregou durante gerações o peso das despedidas, das esperanças e dos sonhos que atravessaram o oceano."


Havia um banco de pedra diante da igreja de Pederobba. Não era bonito, nem grande, nem fora construído para chamar a atenção de quem passava pela praça estreita que se abria diante do templo. Suas pedras haviam sido retiradas dos próprios arredores da vila, assentadas por mãos acostumadas a erguer muros, conter barrancos e cultivar vinhedos. Ninguém imaginou, quando ali o colocaram, que aquele simples banco acabaria conhecendo mais histórias do que qualquer livro guardado na sacristia.

Em 1889, Pederobba era uma pequena comunidade cercada pelas colinas do Trevigiano, onde o rio Piave seguia seu curso silencioso e as estações do ano determinavam o ritmo da vida. O sino da igreja dividia o tempo melhor do que qualquer relógio. Chamava para a missa, anunciava casamentos, lamentava funerais, avisava incêndios, festejava o Natal e fazia toda a vila compreender, apenas pelo modo de tocar, se o dia trazia alegria ou tristeza.

Muito antes de o padre abrir as portas da igreja aos domingos, o banco já recebia seus primeiros visitantes. Eram os homens mais idosos da vila. Chegavam devagar, trazendo nos ombros o peso dos invernos e das colheitas. Sentavam-se lado a lado, quase sempre nos mesmos lugares, como se cada pedra tivesse aprendido o nome de quem a ocupava. Falavam pouco no início. Observavam o movimento da praça, a fumaça saindo das chaminés, os primeiros raios de sol iluminando o campanário. Depois começavam as conversas sobre o trigo, o milho, as videiras, o preço dos animais na feira de Montebelluna, as geadas tardias e a eterna preocupação de fazer a terra produzir mais do que ela parecia disposta a oferecer.

Quando a missa terminava, o banco deixava de ser apenas um assento. Transformava-se na continuação natural da própria igreja. A fé reunia as pessoas sob o mesmo teto; a vida as mantinha reunidas do lado de fora. Ali se comentavam os sermões, resolviam-se pequenas divergências entre vizinhos, acertavam-se parcerias para a próxima vindima, combinavam-se mutirões para reconstruir um telhado levado pelo vento ou colher o feno antes da chuva.

As mulheres permaneciam próximas, formando pequenos grupos onde circulavam notícias que jamais apareceriam nos registros da paróquia. Falava-se do nascimento de uma criança, da doença de uma nonna, do casamento marcado para o verão seguinte, das economias feitas durante o inverno e da farinha que precisaria durar até a próxima safra. Entre uma oração e outra, era ali que a comunidade costurava sua verdadeira convivência.

As crianças transformavam a praça em um mundo sem fronteiras. Corriam em volta do banco, escondiam-se atrás de seus encostos de pedra, inventavam batalhas imaginárias e perseguições intermináveis. Seus risos misturavam-se ao bater das asas dos pombos que pousavam junto ao adro da igreja. Para elas, aquele banco não era memória nem símbolo. Era apenas mais um pedaço do universo onde a infância parecia eterna.

Os rapazes conheciam outro significado para aquele lugar. Permaneciam ali por mais tempo do que seria necessário, fingindo conversar sobre a colheita enquanto aguardavam discretamente a saída das moças. Bastava um olhar mais demorado ou um leve sorriso para que o domingo inteiro adquirisse outro sentido. Muitos casamentos que anos depois seriam abençoados naquele mesmo altar começaram, sem que ninguém percebesse, diante daquele velho banco de pedra.

Foi também ali que chegaram as primeiras conversas sobre um país distante chamado Brasil. Inicialmente pareciam histórias improváveis, trazidas por cartas escritas com caligrafia insegura, vindas de parentes que haviam atravessado o oceano alguns anos antes. Falavam de florestas imensas, de terras que podiam ser cultivadas, de lotes próprios, de uma vida difícil, mas livre da dependência dos grandes proprietários. Havia exageros, havia silêncios e havia saudade. Cada carta trazia esperança suficiente para alimentar um sonho e incertezas suficientes para provocar medo.

Pouco a pouco, os assuntos da praça mudaram. Já não se discutia apenas a próxima safra. Passou-se a falar de passaportes, de documentos, de agentes de imigração, do dinheiro necessário para alcançar o porto de Gênova. Algumas famílias faziam contas em voz baixa. Outras permaneciam caladas, como se pronunciar a palavra partida fosse acelerar um destino que ainda tentavam evitar.

O banco assistiu a despedidas que jamais foram registradas por fotógrafo algum. Mães abraçavam filhos procurando esconder as lágrimas. Pais mantinham o rosto firme enquanto apertavam as mãos calejadas dos rapazes que embarcariam rumo ao desconhecido. Avós permaneciam imóveis, olhando demoradamente para quem talvez nunca mais voltasse a cruzar aquela praça. Não havia discursos. Havia apenas o silêncio pesado das separações definitivas.

Depois que as carroças desapareciam pela estrada, a praça voltava a ficar quieta. O banco permanecia exatamente onde sempre estivera. Apenas havia menos gente sentada sobre ele. Em algumas manhãs de domingo surgiam espaços vazios entre aqueles que antes se acomodavam lado a lado. A ausência também ocupa lugar, e as pedras aprenderam isso antes mesmo dos homens.

Os anos passaram. Vieram novas colheitas, novos casamentos, novos funerais. Crianças que brincavam ao redor do banco tornaram-se adultos. Os velhos desapareceram um a um. Outros ocuparam seus lugares sem perceber que repetiam os mesmos gestos, cruzavam as pernas do mesmo modo e voltavam os olhos para a mesma estrada por onde tantos haviam partido.

Talvez nenhuma construção daquela pequena vila tenha conhecido tão profundamente a alma de seu povo quanto aquele banco de pedra. A igreja guardava a fé. O campanário guardava o tempo. O cemitério guardava os que partiram para a eternidade. Mas o banco guardava algo ainda mais frágil e precioso: a vida comum. Era nele que a comunidade respirava entre uma missa e outra, entre um nascimento e um funeral, entre uma boa colheita e um inverno rigoroso, entre a esperança de permanecer e a coragem de partir.

Hoje, quem passa apressado pela praça talvez veja apenas um antigo banco de pedra desgastado pelas chuvas e pelos invernos do Vêneto. Poucos imaginam que aquelas pedras ouviram milhares de confidências, testemunharam os primeiros amores, sentiram o peso das despedidas e acompanharam o instante em que uma pequena vila começou a espalhar seus filhos pelos quatro cantos do mundo. As pedras jamais aprenderam a falar. Ainda assim, continuam contando a história de Pederobba a todos que sabem sentar-se por alguns minutos e escutar o silêncio.

"As pedras daquele banco nunca disseram uma palavra. Ainda assim, conhecem a história da comunidade melhor do que qualquer livro, porque foram testemunhas silenciosas de tudo aquilo que o tempo jamais conseguirá apagar."


Nota do Autor

Nas pequenas comunidades do Vêneto oitocentista, a praça em frente à igreja desempenhava um papel que hoje dificilmente conseguimos imaginar. Em uma época em que não existiam jornais de circulação diária, telefone, rádio ou qualquer outro meio rápido de comunicação, aquele espaço era o verdadeiro coração da vida pública. Após a missa dominical, quando praticamente toda a população se encontrava reunida, circulavam as notícias vindas das cidades vizinhas, anunciavam-se feiras, comentavam-se decisões das autoridades, acertavam-se negócios, contratavam-se trabalhadores para as colheitas e fortaleciam-se os laços de solidariedade que permitiam às pequenas comunidades enfrentar os períodos mais difíceis.

Foi também nesses encontros que muitos habitantes do Vêneto ouviram, pela primeira vez, relatos sobre a emigração para a América. Antes mesmo de ler uma carta ou conversar com um agente de imigração, era na praça que se espalhavam as histórias trazidas por viajantes, comerciantes ou parentes que regressavam temporariamente. Assim, a decisão de atravessar o oceano não nasceu apenas da pobreza ou da falta de terras, mas também das conversas compartilhadas entre vizinhos, onde a esperança, os receios e os sonhos circulavam de boca em boca.

Talvez por isso os antigos bancos de pedra conservem um significado que vai muito além de sua função prática. Eles representam uma época em que o convívio era parte indispensável da existência, quando a comunidade aprendia a decidir seu futuro olhando nos olhos de seus próprios membros. Em certo sentido, foi sobre essas pedras, muito antes dos portos e dos navios, que começou a ser escrita a história da grande imigração italiana para o Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Le Mèsse inte le Capèle del´Interno de Barão de Cotegipe

 



Le Mèsse inte le Capèle del´Interno 

de Barão de Cotegipe


In ogni comunità de Baron de Cotegipe ghe zera sempre na césa, na capèla, che la podéa èsser pì granda o pì pìcola, a seconda de quante faméie che ghe stava ´nte la zona. La capèla la ghe dava anca gestion al cimitero locale e a na cánsia de bòce, drio a qual, spesso, ghe podéa èsser un baretin, che’l andava i sabo de pomerìgio, la doménega e in certi posti anca i dì de fèsta.

Le cese le zera gestìe da ‘na diressiòn, formada dai residenti del posto, eleti par un ano, che i stava sempre in contato con la paròchia, che la gavea sede inte’l comune. Ogni ano, el prete el vigniva ogni tanto inte ‘na cesa, ndove che’l diseva messa al manco na olta l’ano, sempre nel dì del santo a chi che la césa la gera dedicà. El podea tornare anca in ocasiòn speciali, come batèsimi, crèsime, e quando zera a disposission, par la morte de qualche sòci.

De la doménega, quando el prete no vigniva, la comunità la fàva un incontro religioso, ndove uno dei residenti, de sòlito chi che ghe savea de pì de i riti catòlici, el "pregava la corona", cioè, el pregava la corona con tuti quei che ghe zera.

El dì avanti de la fèsta del paròn, la césa la gavea sempre pien de atività, ndove i sòci, tuti volontári, i lavorava par preparar el pranso che se servirìa el dì dopo. Questa atività finìa spesso de note.

La matina de la fèsta, i residenti i rivava co tanti mezi de trasporto, qualchidun anca da chilometri de distansa, e i ghe scominciava a trovare presso la césa. Qualchidun i ndava a visitar anca el cimitero, par visitar la tomba dei parenti morti. Dopo ‘sta vìsita, i se ciapava soto i àlberi grossi, aspetando che fusse rivà el prete. El vigniva da la sede del comune, dopo aver dito do messe in la cesa dea paròchia, drio ‘na vècia camionata Rurale Willys. De sòlito la messa inte le cese le zera segnàe par le undese e la finìa verso mezodì, quando che se faseva un gran pranso coletivo, la cui guadagno la zera par la paròchia e na altra par mantegner la capèla. El pranso de sòlito el zera un gran spèto, pagando ‘na ficha a la cassa de la capèla. La carne e i altri alimenti par preparar i piati i zera donà dai soci, e tuto el che se guadagnava andava par la ceseta e la paròchia.

Quando la camioneta de el prete se vedeva lontana sù per la strada, se scominciava a sonar el campanin del campanile, costruìo anca lu de legno come la capèla.

I fedeli i scominciava a ndare drento, omo e done separàe, sùbito al’entrata, fin che i ciapava el so posto.

In te, nel canto del'altar, ghe zera do àngeli grandi con i ale, che i tegniva ‘na candela cada un. Davanti ogni àngelo ghe zera ‘na fila de banchi. L’àngelo de sinistra zera de color blu, e quelo de destra de rosa. I omini e i tosatei i se sedeva davanti al àngelo blu, e le done e i putèi davanti al rosa. I banchi i zera venti, ma cambiava a seconda de la lunghessa de la capèla.

Sto costume interesante de separar omo e done par la messa se podeva ancora védare fin i ani ’90.

In quel periodo le messe le zera in portughese, e no pì in latìn, e durava circa ‘na ora, o qualchidun de pì a seconda del prete. Durante el sermon, se el prete el zera de origini taliane, o se i fedeli de ‘sta capèla i zera per la magior parte taliani, el podea parlar in talian, la lèngoa vèneto-brasilian, ‘na lèngoa creàda intel Rio Grande do Sul da i migranti. In altri posti el sermon el podea èsser anca in polaco, visto che sta etnia la zera presente in grande nùmero in Baròn de Cotegipe e anca in altri comuni vicini.

Ogni capèla la gavea el so coro, che ghe cantava co’l prete. I corali se sfidava con quei de altre comunità. Lori i zera sempre formà dai residenti, omo e done, reghidi da qualchidun che savea pì de mùsica. A volte ghe meteva un violin o pì spesso na fisarmónica.

Finìa la messa, tuti i ghe ndava drio ndove che se servirìa el spèto. Alora zera sempre fora, atorno a ‘na granda griglia. No ghe zera tole e sèda par tuti, cusì che ogni faméia se sistemava come che i podea, su la tèra, soto ai grandi àlbari, co’l spèto infilà drento l’erba. Come go dito, el spèto se comprava avanti de la messa e chi che lo comprava el ciapava ‘na ficha col nùmero del spèto. Le bevande se comprava al baretin drio la cànsia de bòce o in altro posto improvisà.

Dopo magnar, se sentiva i canti, che i amici improvissava, vedendo chi che cantea pì forte, quasi sempre con l'aiuto de qualchi bicer de vin. Le done se ciapava pì lontan de i omini par parlar e sentirse le novità de l’altre faméie.


segunda-feira, 20 de julho de 2020

O Clero na Itália do Século XIX

La Questua pintura de Gaetano Chierici


Nos anos 1800, além de padres, bispos e cardeais comuns, no clero ainda existiam eremitas e capelães, ou seja, sacerdotes que viviam em um oratório ou ermita, abades e padres sem paróquia. 

Eles eram reconhecidos por sua barba desgrenhada, roupas velhas e mal cuidadas, cajado de peregrino e caixa de esmolas, Eles foram desaparecendo aos poucos, ao longo do século, devido novas diretrizes da Igreja, como a reforma do clero mudando bastante a vida deles. A necessidade de formação teológica, com estudos sendo realizados cada vez mais em seminários, capazes de dar a preparação necessária para aqueles que queriam ser sacerdotes.

No século 19 um homem se tornava sacerdote por muitas razões além daquelas que aconteciam nos séculos anteriores. De fato, se até os anos do século XVIII o sacerdócio era escolhido através de estratégias familiares ou pelo rapaz ter privilégios sociais e econômicos, nos anos do século XIX a carreira eclesiástica era escolhida principalmente porque o candidato queria se comprometer em trabalhar e a fazer o bem para sociedade.

Essa mudança na escolha para o sacerdócio significa que o número de padres sofreu uma diminuição, especialmente após o ano de 1848, também porque o padrão de vida dos padres de uma paróquia era agora bastante modesto, semelhante ao dos professores do ensino fundamental.

Dom Bosco


Uma figura típica do "padre comprometido" foi Dom Giovanni Bosco, que fundou em 1846, nos arredores de Turim, o primeiro oratório, de San Francesco di Sales, ou oratório salesiano.

Esses locais de formação religiosa e ensino se espalharam rapidamente por várias regiões e eram voltados principalmente para jovens das classes menos favorecidas, aos quais era oferecido um local controlado de socialização, para contrastar a perda dos valores tradicionais que agora ocorria com a expansão da industrialização. 

Piccola Casa della Divina Provvidenza a Torino

Quase na mesma época, Giuseppe Cottolengo, em 1862, fundou a pequena casa da providência divina que acolhia os pobres e doentes rejeitados pelos hospitais e mais tarde aqueles incapazes.

Deve-se dizer, no entanto, que no século XIX a igreja foi liberal apenas por um curto período, isso por volta de 1848, e que sua abertura à sociedade com as escolas de Dom Bosco e o hospital de Cottolengo, contrastava com o novo estado italiano, que se considerava a única entidade que lidava com os vários problemas da sociedade.

De fato, as relações entre o papa e o estado secular eram bastantes difíceis, principalmente quando Roma foi conquistada e se tornou a capital do Reino da Itália, ocasião em que ao papa restou apenas o Vaticano.

Entretanto a Roma eclesiástica em 1870 ainda era muito poderosa, tendo 206 conventos entre homens e mulheres, 350 igrejas, 250 oratórios, cerca de sessenta paróquias e aproximadamente 8000 religiosos.