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sábado, 15 de agosto de 2026

O Banco de Pedra em Frente da Igreja – Memórias de Pederobba e da Imigração Italiana


O velho banco de pedra da praça de Pederobba simboliza as conversas, os encontros e as despedidas que antecederam a grande imigração italiana para o Brasil. 


O Banco de Pedra em Frente da Igreja

Memórias de Pederobba e da Imigração Italiana

"Alguns bancos guardam apenas o peso de quem se senta. Aquele, diante da igreja de Pederobba, carregou durante gerações o peso das despedidas, das esperanças e dos sonhos que atravessaram o oceano."


Havia um banco de pedra diante da igreja de Pederobba. Não era bonito, nem grande, nem fora construído para chamar a atenção de quem passava pela praça estreita que se abria diante do templo. Suas pedras haviam sido retiradas dos próprios arredores da vila, assentadas por mãos acostumadas a erguer muros, conter barrancos e cultivar vinhedos. Ninguém imaginou, quando ali o colocaram, que aquele simples banco acabaria conhecendo mais histórias do que qualquer livro guardado na sacristia.

Em 1889, Pederobba era uma pequena comunidade cercada pelas colinas do Trevigiano, onde o rio Piave seguia seu curso silencioso e as estações do ano determinavam o ritmo da vida. O sino da igreja dividia o tempo melhor do que qualquer relógio. Chamava para a missa, anunciava casamentos, lamentava funerais, avisava incêndios, festejava o Natal e fazia toda a vila compreender, apenas pelo modo de tocar, se o dia trazia alegria ou tristeza.

Muito antes de o padre abrir as portas da igreja aos domingos, o banco já recebia seus primeiros visitantes. Eram os homens mais idosos da vila. Chegavam devagar, trazendo nos ombros o peso dos invernos e das colheitas. Sentavam-se lado a lado, quase sempre nos mesmos lugares, como se cada pedra tivesse aprendido o nome de quem a ocupava. Falavam pouco no início. Observavam o movimento da praça, a fumaça saindo das chaminés, os primeiros raios de sol iluminando o campanário. Depois começavam as conversas sobre o trigo, o milho, as videiras, o preço dos animais na feira de Montebelluna, as geadas tardias e a eterna preocupação de fazer a terra produzir mais do que ela parecia disposta a oferecer.

Quando a missa terminava, o banco deixava de ser apenas um assento. Transformava-se na continuação natural da própria igreja. A fé reunia as pessoas sob o mesmo teto; a vida as mantinha reunidas do lado de fora. Ali se comentavam os sermões, resolviam-se pequenas divergências entre vizinhos, acertavam-se parcerias para a próxima vindima, combinavam-se mutirões para reconstruir um telhado levado pelo vento ou colher o feno antes da chuva.

As mulheres permaneciam próximas, formando pequenos grupos onde circulavam notícias que jamais apareceriam nos registros da paróquia. Falava-se do nascimento de uma criança, da doença de uma nonna, do casamento marcado para o verão seguinte, das economias feitas durante o inverno e da farinha que precisaria durar até a próxima safra. Entre uma oração e outra, era ali que a comunidade costurava sua verdadeira convivência.

As crianças transformavam a praça em um mundo sem fronteiras. Corriam em volta do banco, escondiam-se atrás de seus encostos de pedra, inventavam batalhas imaginárias e perseguições intermináveis. Seus risos misturavam-se ao bater das asas dos pombos que pousavam junto ao adro da igreja. Para elas, aquele banco não era memória nem símbolo. Era apenas mais um pedaço do universo onde a infância parecia eterna.

Os rapazes conheciam outro significado para aquele lugar. Permaneciam ali por mais tempo do que seria necessário, fingindo conversar sobre a colheita enquanto aguardavam discretamente a saída das moças. Bastava um olhar mais demorado ou um leve sorriso para que o domingo inteiro adquirisse outro sentido. Muitos casamentos que anos depois seriam abençoados naquele mesmo altar começaram, sem que ninguém percebesse, diante daquele velho banco de pedra.

Foi também ali que chegaram as primeiras conversas sobre um país distante chamado Brasil. Inicialmente pareciam histórias improváveis, trazidas por cartas escritas com caligrafia insegura, vindas de parentes que haviam atravessado o oceano alguns anos antes. Falavam de florestas imensas, de terras que podiam ser cultivadas, de lotes próprios, de uma vida difícil, mas livre da dependência dos grandes proprietários. Havia exageros, havia silêncios e havia saudade. Cada carta trazia esperança suficiente para alimentar um sonho e incertezas suficientes para provocar medo.

Pouco a pouco, os assuntos da praça mudaram. Já não se discutia apenas a próxima safra. Passou-se a falar de passaportes, de documentos, de agentes de imigração, do dinheiro necessário para alcançar o porto de Gênova. Algumas famílias faziam contas em voz baixa. Outras permaneciam caladas, como se pronunciar a palavra partida fosse acelerar um destino que ainda tentavam evitar.

O banco assistiu a despedidas que jamais foram registradas por fotógrafo algum. Mães abraçavam filhos procurando esconder as lágrimas. Pais mantinham o rosto firme enquanto apertavam as mãos calejadas dos rapazes que embarcariam rumo ao desconhecido. Avós permaneciam imóveis, olhando demoradamente para quem talvez nunca mais voltasse a cruzar aquela praça. Não havia discursos. Havia apenas o silêncio pesado das separações definitivas.

Depois que as carroças desapareciam pela estrada, a praça voltava a ficar quieta. O banco permanecia exatamente onde sempre estivera. Apenas havia menos gente sentada sobre ele. Em algumas manhãs de domingo surgiam espaços vazios entre aqueles que antes se acomodavam lado a lado. A ausência também ocupa lugar, e as pedras aprenderam isso antes mesmo dos homens.

Os anos passaram. Vieram novas colheitas, novos casamentos, novos funerais. Crianças que brincavam ao redor do banco tornaram-se adultos. Os velhos desapareceram um a um. Outros ocuparam seus lugares sem perceber que repetiam os mesmos gestos, cruzavam as pernas do mesmo modo e voltavam os olhos para a mesma estrada por onde tantos haviam partido.

Talvez nenhuma construção daquela pequena vila tenha conhecido tão profundamente a alma de seu povo quanto aquele banco de pedra. A igreja guardava a fé. O campanário guardava o tempo. O cemitério guardava os que partiram para a eternidade. Mas o banco guardava algo ainda mais frágil e precioso: a vida comum. Era nele que a comunidade respirava entre uma missa e outra, entre um nascimento e um funeral, entre uma boa colheita e um inverno rigoroso, entre a esperança de permanecer e a coragem de partir.

Hoje, quem passa apressado pela praça talvez veja apenas um antigo banco de pedra desgastado pelas chuvas e pelos invernos do Vêneto. Poucos imaginam que aquelas pedras ouviram milhares de confidências, testemunharam os primeiros amores, sentiram o peso das despedidas e acompanharam o instante em que uma pequena vila começou a espalhar seus filhos pelos quatro cantos do mundo. As pedras jamais aprenderam a falar. Ainda assim, continuam contando a história de Pederobba a todos que sabem sentar-se por alguns minutos e escutar o silêncio.

"As pedras daquele banco nunca disseram uma palavra. Ainda assim, conhecem a história da comunidade melhor do que qualquer livro, porque foram testemunhas silenciosas de tudo aquilo que o tempo jamais conseguirá apagar."


Nota do Autor

Nas pequenas comunidades do Vêneto oitocentista, a praça em frente à igreja desempenhava um papel que hoje dificilmente conseguimos imaginar. Em uma época em que não existiam jornais de circulação diária, telefone, rádio ou qualquer outro meio rápido de comunicação, aquele espaço era o verdadeiro coração da vida pública. Após a missa dominical, quando praticamente toda a população se encontrava reunida, circulavam as notícias vindas das cidades vizinhas, anunciavam-se feiras, comentavam-se decisões das autoridades, acertavam-se negócios, contratavam-se trabalhadores para as colheitas e fortaleciam-se os laços de solidariedade que permitiam às pequenas comunidades enfrentar os períodos mais difíceis.

Foi também nesses encontros que muitos habitantes do Vêneto ouviram, pela primeira vez, relatos sobre a emigração para a América. Antes mesmo de ler uma carta ou conversar com um agente de imigração, era na praça que se espalhavam as histórias trazidas por viajantes, comerciantes ou parentes que regressavam temporariamente. Assim, a decisão de atravessar o oceano não nasceu apenas da pobreza ou da falta de terras, mas também das conversas compartilhadas entre vizinhos, onde a esperança, os receios e os sonhos circulavam de boca em boca.

Talvez por isso os antigos bancos de pedra conservem um significado que vai muito além de sua função prática. Eles representam uma época em que o convívio era parte indispensável da existência, quando a comunidade aprendia a decidir seu futuro olhando nos olhos de seus próprios membros. Em certo sentido, foi sobre essas pedras, muito antes dos portos e dos navios, que começou a ser escrita a história da grande imigração italiana para o Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 8 de abril de 2024

A Influência Italiana na Colonização de Santa Catarina




Cerca de 95% dos migrantes italianos que chegaram ao território catarinense originaram-se no norte da Itália, especificamente nas regiões hoje conhecidas como Vêneto, Lombardia, Friuli Veneza Júlia e Trentino Alto Ádige. Entretanto, os primeiros imigrantes italianos que desembarcaram no estado, em 1836, vieram da Sardenha e estabeleceram a colônia de Nova Itália, atualmente conhecida como São João Batista. Contudo, sua chegada foi modesta em número e teve pouco impacto demográfico. Foi somente a partir de 1875 que o fluxo de imigrantes italianos para o estado aumentou consideravelmente. As primeiras colônias italianas foram estabelecidas nesse período, tais como Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, todas localizadas nas proximidades da colônia alemã de Blumenau, servindo como complemento a esse núcleo germânico. Em 1875, imigrantes do Tirol Italiano fundaram Nova Trento, seguido pela fundação de Porto Franco (atual Botuverá) em 1876. Os italianos que se estabeleceram nessas primeiras colônias eram principalmente oriundos da Lombardia e do Tirol Italiano, que naquela época pertencia à Áustria.
Nos anos subsequentes, várias outras colônias foram estabelecidas, com o sul de Santa Catarina se tornando o principal epicentro da colonização italiana no estado. Nessa região, foram fundadas colônias como Azambuja em 1877, Urussanga em 1878, Criciúma em 1880, Grão-Pará em 1882, Presidente Rocha (atual Treze de Maio) em 1887, além de Nova Veneza, Nova Belluno (hoje Siderópolis) e Nova Treviso (hoje Treviso) em 1891, e Acioli de Vasconcelos (atual Cocal do Sul) em 1892. Os imigrantes do sul do estado eram majoritariamente provenientes do Vêneto, com uma menor representação da Lombardia e de Friul-Veneza Júlia. Eles se dedicaram principalmente à agricultura e à mineração de carvão, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento dessa região. As festas tradicionais, como a festa do vinho e o Ritorno alle origini em Urussanga, são eventos emblemáticos que caracterizam essa colonização no sul do estado.
O fluxo de imigrantes italianos para Santa Catarina cessou em 1895, quando um pequeno número de colonos chegou para estabelecer a comunidade de Rio Jordão, no sul do estado. Esse declínio se deveu em grande parte à guerra civil que eclodiu na Itália com a Revolução Federalista e ao término do contrato que subsidiava a imigração pelos estados.
A partir de 1910, milhares de gaúchos migraram para Santa Catarina, incluindo muitos descendentes de italianos. Esses colonos ítalo-brasileiros contribuíram significativamente para a colonização do Oeste catarinense. Atualmente, Santa Catarina abriga cerca de três milhões de italianos e seus descendentes, representando aproximadamente metade da população do estado. Muito da cultura italiana ainda é preservada nos antigos centros de colonização, especialmente na culinária e na língua.


terça-feira, 7 de novembro de 2023

Ecos da Itália: A Saga dos Imigrantes Italianos que Transformaram Ribeirão Pires, São Paulo

Imigrantes italianos no Porto de Santos

 


Na região que hoje se encontra o Grande ABC Paulista, antigamente conhecido por freguesia de São Bernardo, foram criados três núcleos coloniais, diretamente subordinados ao governo imperial brasileiro: São Bernardo, São Caetano e Ribeirão Pires. 

Este último foi fundado em 1887, em zona próxima a ferrovia São Paulo Railway, a primeira estrada de ferro criada no estado de São Paulo, que ligava o planalto paulista, na Estação Jundiaí, ao litoral paulista na Estação Valongo, já na cidade de Santos.

A primeira leva de imigrantes italianos começou a chegar nos  núcleos em 1888 e início de 1889; um segundo grupo em meados de 1889, e finalmente o terceiro, em setembro de 1890. 

Algumas famílias eram provenientes de fazendas do interior de São Paulo. A maioria desses imigrantes declarou ser agricultor, entretanto, outras profissões como pintor, pedreiro, carpinteiro, sapateiro e costureira também foram encontradas nos registros ainda existentes. Traziam conhecimentos dos trabalhos que executavam nos seus locais de origem na Itália.

Os primeiros imigrantes começaram a chegar lentamente a São Caetano ainda em julho de 1877, quando foram distribuídos os lotes de terra. 

O núcleo colonial de São Bernardo começou a receber imigrantes praticamente na mesma época, entre 1877 e 1880, os quais foram  alocados em diferentes linhas. 


Navio Duchessa di Genova no Porto de Santos


O núcleo colonial de Ribeirão Pires, como já referido, foi criado em 1887, em terras próximas a ferrovia São Paulo Railway. Ainda baseando-se em alguns documentos, tais como o Livro dos Colonos,  custodiado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, este núcleo era formado por três linhas: duas delas em Ribeirão Pires, uma na zona rural e outra na zona urbana e a terceira em Pilar, formada por chácaras, distribuídas para 20 famílias, em um total de 80 pessoas, local que mais tarde veio a formar o atual município de Mauá.

Em Pilar, 13 dessas famílias italianas eram provenientes das províncias de Mantova e Verona e uma de Padova. As demais eram brasileiras de origem portuguesa. Nesse grupo de italianos estavam as famílias: Bersan, Buasi, Bernini, Cursi, Gallo, Gadioli, Lunghi, Lupi e Magrie. 

Os lotes rurais da Linha Ribeirão Pires eram em número de 25 e foram distribuídos para 24 famílias italianas, e um para uma família brasileira, que já habitava a região. Quanto a origem na Itália: 17 dessas famílias italianas eram procedentes do comune de Salzano, na província de Veneza, 4 famílias da província de Padova, 2 famílias das província de Rovigo e 1 delas da província de Treviso. Essas famílias eram constituídas por casais cuja idade estava entre 30 e 50 anos e tinham de 2 a 4 filhos, a maioria menores de 15 anos.

Com exceção da família Martineli, que havia deixado uma fazenda no interior do estado, os demais vieram diretamente da Hospedaria dos Imigrantes, na capital.

Dos 63 lotes urbanos do Núcleo de Ribeirão Pires distribuídos em 1890: 46 foram destinados à famílias italianas. Os 17 outros restantes se destinaram: 1 para uma família alemã, outro para um imigrante português e os outros 15 para famílias brasileiras.

Entre as famílias italianas podemos citar: 


Astolfo, Beletto, Massiero, Zabeo, 

Zamberto, Zonni, Pescarini, 

Gallo, Bottaccin, Pandolfi, 

Fochi, Tussi, Bertoldo, Bersan, 

Buasi, Bendinelli, Benini, Bonaventuri, 

Sacarpello, Girolano, Ganitano, Russomano, 

Luca, Lupi, Magri, Marza, 

Milan, Pellizon.