Da Fome no Vêneto à Terra Prometida no Brasil A Saga de Carlo De Luca
A vida de Carlo De Luca começou entre colinas úmidas e vinhedos pobres da localidade de Piai, no município de Fregona, onde o Vêneto do fim do século XIX já não era a terra cantada nas memórias antigas. Era um mundo cansado, espremido entre o excesso de braços e a falta de pão. Quando Carlo se casou, em 1884, na igreja de Santa Maria Maddalena, tinha apenas 22 anos, mas carregava nos ombros o peso de um chefe de família amadurecido à força. Giuditta Gavi, com seus 18 anos, vinda de Cappella Maggiore, era feita da mesma matéria rude: robusta, silenciosa e resistente, moldada por anos de trabalho precoce e privações.
O casamento não trouxe casa nova nem autonomia. Como era costume, foram viver sob o mesmo teto da mãe viúva de Carlo, cercados pelos cinco irmãos, alguns ainda crianças. A morte súbita do pai, um ano antes, havia quebrado o frágil equilíbrio daquela família numerosa. Carlo, o primogênito, tornou-se o sustentáculo de todos. Em mesas longas, repartiam migalhas, mediam o pão com cuidado e aprendiam, desde cedo, que a fome não chegava de uma vez: rondava, observava, voltava — até se instalar.
A província de Treviso, como todo o Vêneto, afundava numa crise sem precedentes. O trabalho rural rareava, as pequenas manufaturas fechavam, e a terra, concentrada nas mãos de poucos, não pertencia a quem a fazia produzir. Carlo trabalhava como colono, mas a maior parte da colheita ia para um patrão ausente, dono de campos que ele nunca pisaria com os próprios pés. O sonho antigo — possuir a própria terra — parecia cada vez mais distante.
No primeiro ano de casamento nasceu Isabella, a primogênita. O nascimento trouxe alegria, mas também a consciência brutal de que aquele mundo não tinha mais espaço para novos filhos. Era a mesma certeza que se espalhava pelas aldeias, contaminando tavernas, praças e até as igrejas. A emigração deixara de ser exceção e se tornara esperança coletiva. Padres atentos ao sofrimento do povo já não falavam apenas de resignação, mas de partida. Falava-se do Brasil, terra distante e quase mítica, descrita como vasta, fértil, um El Dorado americano onde o homem simples poderia, enfim, trabalhar para si.
Foi com a ajuda de don Luigi, o velho pároco, que Carlo conseguiu inscrever a família no programa de colonização promovido pelo governo brasileiro. Os bilhetes seriam pagos, a travessia garantida, e ao final aguardava-os um lote de terra no sul do país, na Colônia Dona Isabel, no Rio Grande do Sul, fundada poucos anos antes e apresentada como exemplo de progresso. Carlo assinou o contrato com mãos firmes e coração inquieto, selando o destino não apenas da esposa e da filha, mas da mãe e dos irmãos que dele dependiam.
Em dezembro de 1887, numa manhã escura, gelada e coberta de neve, o grupo deixou Piai. Não houve grandes palavras. Apenas abraços longos, lágrimas contidas e o sino da igreja marcando a separação definitiva entre o que fora e o que jamais voltaria a ser. O trem os levou até Gênova, onde o Città di Milano os aguardava no cais, enorme, negro de fuligem, cuspindo fumaça pela chaminé como um monstro de ferro faminto por vidas.
A travessia foi dura, como tantas outras. Mais de trinta dias de mar fechado, porões úmidos, comida escassa e doenças à espreita. A breve parada em Nápoles apenas aumentou o amontoado humano: centenas de novos emigrantes, vindos do sul, subiram a bordo carregando sacos, caixas e dialetos estranhos. O navio tornou-se um pequeno mundo de miséria e esperança, onde o tempo parecia suspenso entre o enjoo e a oração silenciosa.
Quando finalmente avistaram o Rio de Janeiro, o alívio não foi imediato. A viagem continuou por caminhos desconhecidos: outros navios, rios largos, estradas improvisadas. Somente semanas depois alcançaram o sul, subindo a serra até a Colônia Dona Isabel, onde a mata fechada substituía os campos europeus e o silêncio era cortado apenas pelo machado e pelo canto distante dos pássaros.
Ali não havia casas prontas nem lavouras abertas. Havia terra bruta, coberta por florestas densas, e a promessa escrita em papel. Carlo recebeu um lote inclinado, pedregoso, mas seu. Pela primeira vez, a terra não pertencia a um patrão invisível. Pertencia ao suor que nela cairia. Com a ajuda dos irmãos, ergueu um abrigo simples de madeira. A mãe, já envelhecida pelas perdas, tornou-se o eixo doméstico, cuidando de Isabella enquanto Giuditta enfrentava, sem queixas, a nova rotina de trabalho pesado.
Os primeiros anos foram de provação. O frio da serra gaúcha castigava no inverno; no verão, a umidade e os insetos testavam os limites do corpo. Houve doenças, colheitas perdidas, mortes na colônia vizinha. Ainda assim, pouco a pouco, o chão cedia. As árvores caíam, o milho brotava, a videira se adaptava. A comunidade crescia, unida pela mesma língua fragmentada, pela fé e pela memória comum de uma Itália deixada para trás.
Outros filhos nasceram. Isabella cresceu entre a roça e a escola improvisada da colônia, aprendendo a ler em português e a falar o dialeto do pai. Carlo envelheceu antes do tempo, mas nunca se curvou. Cada safra colhida reforçava a certeza de que a decisão, por mais dolorosa, fora necessária. Ele não enriquecera, mas conquistara aquilo que o Vêneto lhe negara: dignidade, terra e futuro.
Quando, anos depois, Carlo olhava os campos abertos onde antes havia mata fechada, compreendia que sua história não era única. Era parte de uma corrente humana imensa que atravessara o oceano para reinventar a própria existência. A grande emigração italiana não fora apenas uma fuga da fome, mas um ato de coragem coletiva. E na Colônia Dona Isabel, entre vinhedos jovens e casas de madeira, a vida de Carlo De Luca tornara-se prova silenciosa de que, às vezes, é preciso abandonar tudo para, enfim, possuir alguma coisa.
Nota do Autor
Este texto nasceu do silêncio das fontes, das lacunas dos documentos e das memórias quebradas que chegaram até nós como ecos de dor, coragem e incerteza. A travessia dos italianos rumo ao Brasil não foi apenas um deslocamento geográfico — foi uma ruptura interior. Cada embarque significou abandonar o que se era para tentar sobreviver ao que ainda não se conhecia.
Ao escrever estas linhas, procurei ir além dos números e das estatísticas. Busquei alcançar o que não ficou registrado: o peso da despedida, o medo que não se dizia em voz alta, o cansaço acumulado nos corpos e nas almas daqueles que desceram aos porões dos navios com mais esperança do que certezas.
Se você, leitor, ao terminar esta leitura, estiver sentindo o odor acre do mar, o balanço inquieto das águas e aquele medo atávico transmitido pelos antepassados que cruzaram o oceano sem saber se veriam terra outra vez, então esta narrativa atingiu o seu objetivo.
E, se essas páginas despertaram lembranças, imagens ou emoções que parecem vir de longe, deixe suas experiências nos comentários deste blog. Sua memória também faz parte dessa história.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
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