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sexta-feira, 1 de maio de 2026

As Montanhas que Ficaram para Trás


As Montanhas que Ficaram para Trás

Uma história de coragem e esperança


Em uma manhã fria de março de 1877, o sino da pequena igreja da localidade denominada Pullir, uma parte de Cesiomaggiore, na província de Belluno, ecoava pelas montanhas vizinhas. Era um som familiar para Theresia, uma mulher de 40 anos, cujos dias começavam antes do sol nascer e terminavam ao cair da noite, com as mãos calejadas pelo trabalho na lavoura da canapa e o olhar firme de quem já havia enfrentado muitas provações.

Theresia era viúva havia dois anos. Seu marido, Pietro Zanet, um carpinteiro muito conhecido, respeitado pela sua habilidade com a madeira, sucumbira a uma pneumonia no rigoroso inverno de 1873. Desde então, recaiu sobre Theresia a responsabilidade de sustentar a família, com a ajuda dos filhos mais velhos, enquanto os mais novos ainda dependiam completamente de seus cuidados. As idades variavam entre 2 e 20 anos, e cada um contribuía como podia, mas o peso das decisões e da condução da casa permanecia sobre seus ombros. A fome rondava sua pequena moradia de pedra, enquanto as colheitas, castigadas por chuvas intensas e invernos rigorosos, eram insuficientes para alimentar a família.

A vida em Pullir era dura, mas as histórias de terras férteis no Brasil traziam um lampejo de esperança. Corriam boatos de que famílias inteiras haviam recomeçado em um lugar onde a terra era abundante e o trabalho recompensado com prosperidade. Alimentada por esses relatos e pelo desejo de garantir um futuro melhor para seus filhos, Theresia tomou uma decisão corajosa: deixaria Pullir com os filhos e seguiria para o Brasil.

A jornada até o porto de Gênova começou a pé e em carroça, enquanto Theresia e os filhos percorriam o trecho inicial até a estação de trem mais próxima. Daí em diante, embarcaram no trem, que os levou em uma longa e exaustiva viagem de várias horas através das montanhas e planícies italianas. O cansaço era evidente, mas a expectativa de um futuro melhor alimentava suas forças. Quando nas primeiras horas da manhã chegaram ao porto, depararam-se com o tumulto de famílias ansiosas, crianças chorando, vendedores ambulantes abordando insistentemente os recém chegados, carregadores atarefados levando grandes caixas de madeira e marinheiros sem paciência  gritando ordens. O navio que os levaria ao Brasil, uma embarcação de casco escuro chamado Colombo, parecia imponente, mas nada acolhedor.

A travessia do Atlântico revelou-se um teste de paciência e resistência. Amontoados nos porões do navio, os passageiros lidavam com o cheiro forte de carvão, fumaça, corpos suados, com a comida escassa e os enjôos constantes. Theresia, porém, mostrava-se incansável. Entre as crianças que adoeciam e os ânimos que se exaltavam, ela mantinha a calma, entoando velhas cantigas italianas e contando histórias das montanhas Dolomitas que rodeavam Pullir para distrair os filhos e os companheiros de viagem.

Na terceira semana de viagem, uma forte tempestade, que surgiu repentinamente, abateu-se sobre o navio. Ondas gigantescas balançavam a embarcação, enquanto a água invadia os porões. Theresia abraçou seus filhos e rezou com fervor, prometendo que, se sobrevivessem, dedicaria sua vida ao trabalho e à fé. O Colombo valentemente resistiu, mas os dias que se seguiram foram marcados pelo medo e pelo silêncio.

Após semanas no mar, enfrentando tempestades e o cansaço da longa travessia, o navio finalmente atracou no movimentado porto do Rio de Janeiro. O espetáculo das águas calmas da Baía de Guanabara contrastava com o caos de marinheiros, bagagens e imigrantes que desembarcavam, cada qual carregando sonhos e incertezas. Theresia e os filhos passaram pelo processo de regularização dos passaportes, aguardando ansiosamente a continuidade da viagem. Dois dias depois, embarcaram em outro navio, o Maranhão, um vapor costeiro menor que o Colombo que os levaria rumo ao sul do Brasil. A bordo, compartilharam histórias com outros imigrantes e observaram as mudanças na paisagem costeira, que alternava entre pequenas vilas e vastas áreas de mata atlântica.

Finalmente, depois de alguns dias, desembarcaram na cidade portuária de Desterro, hoje conhecida como Florianópolis, no estado de Santa Catarina. Era um novo marco em sua jornada: deixavam para trás o oceano e se preparavam para a etapa final, rumo ao coração das terras de colonização italiana. A partir de Desterro, Theresia e os filhos continuaram sua jornada rumo ao interior, enfrentando um percurso desafiador. Seguiram em carroças e a pé, cruzando montanhas íngremes, vales cobertos por densa mata atlântica e rios caudalosos que exigiam travessias improvisadas em balsas sobre troncos. Cada quilômetro percorrido era uma prova de resistência e determinação, mas também um passo mais próximo do novo lar.

Os dias de viagem eram marcados pelo cansaço físico, mas também pelo senso de comunidade que se formava entre os grupos de imigrantes que compartilhavam a mesma rota. À noite, reuniam-se ao redor de fogueiras improvisadas, onde compartilhavam histórias, rezavam e sonhavam com as terras que cultivariam.

Finalmente, após duas semanas de deslocamento, chegaram à região de Criciúma, em Santa Catarina, onde foram recebidos por representantes da colônia italiana local. Como parte do programa de colonização, Theresia recebeu um lote de terra, um terreno coberto por mata virgem que seria o ponto de partida para a construção de sua nova vida. Com a ajuda dos filhos, começou o árduo trabalho de derrubar árvores, abrir espaço para uma pequena casa e preparar o solo para o plantio.

A vida naquele início foi marcada por desafios incessantes: a adaptação ao clima úmido, a necessidade de aprender novas técnicas agrícolas e a solidão do isolamento, já que as famílias vizinhas estavam espalhadas por quilômetros. Mesmo assim, Theresia sentiu o coração aquecido pela esperança ao ver o primeiro pedaço de terra cultivado e os primeiros brotos surgindo sob o sol brasileiro. Para ela, aquele era o início de um futuro promissor, um recomeço construído com suor, fé e resiliência. 

O trabalho era árduo, mas Teresa não se deixava abater. Com a ajuda dos filhos mais velhos, construiu uma precária casa, na verdade um refúgio feito com tábuas, galhos e coberta por folhas de palmeiras e depois de limpar uma parte do terreno com a ajuda dos filhos maiores, iniciou o plantio de milho e feijão. A terra era generosa, mas os desafios persistiam: a língua era um obstáculo, o isolamento era uma constante, e a saudade de Pullir e das suas amadas montanhas era profunda.

Mesmo assim, Theresia cultivava a esperança. Com um espírito decidido, organizou reuniões com outros vizinhos, compartilhando conhecimentos e fortalecendo os laços comunitários. Aos poucos, viu seus filhos crescerem e contribuírem para a construção de uma nova vida. O mais velho, Carlo, tornou-se um comerciante respeitado, enquanto os mais jovens aprenderam a trabalhar na terra com habilidade e dedicação.

Theresia faleceu em 1920, aos 83 anos, em sua casa, cercada por filhos, noras, netos e bisnetos. Deixou um legado de coragem, trabalho e resiliência. Seus descendentes, orgulhosos de suas raízes italianas, mantêm vivas até hoje as tradições belunesas, enquanto celebram a terra que os acolheu e onde prosperaram.

Na praça central de Criciúma, ergue-se um monumento em bronze que homenageia os pioneiros da cidade. A obra, de linhas simples e austeras, retrata homens e mulheres de diferentes idades, representando as famílias que enfrentaram o desconhecido em busca de uma nova vida. Entre eles, destaca-se uma figura feminina segurando uma enxada, com o rosto erguido em direção ao horizonte, simbolizando a resiliência e a esperança que moviam aqueles que desbravaram terras e abriram caminhos.

Na base do monumento, uma placa gravada com os nomes de algumas das famílias que participaram da construção da comunidade local eterniza a memória dos primeiros colonos. Entre os nomes listados está o de Theresia Zanet, que, ao lado de seus filhos, contribuiu para transformar a região em um núcleo próspero. Embora o monumento não individualize histórias, ele simboliza a força coletiva daqueles que moldaram a história de Criciúma. Este tributo, silencioso e comedido, reflete a essência dos pioneiros: pessoas comuns que, com coragem extraordinária, superaram as adversidades de um novo mundo. Para os descendentes e visitantes, é uma lembrança tangível do preço do progresso e da força dos laços comunitários, tecida pelos que vieram antes.


Nota do Autor

Este texto é um fragmento do livro "As Montanhas que Ficaram para Trás" do mesmo autor. Embora os personagens apresentados sejam fictícios, a essência da narrativa baseia-se em eventos reais vivenciados por inúmeros imigrantes italianos que, com coragem e determinação, deixaram sua terra natal em busca de esperança no Brasil. 

Escrevi esta obra como uma forma de homenagem aos nossos antepassados. Eles enfrentaram o desconhecido, desafiaram a adversidade e, com trabalho incansável, ajudaram a construir as bases de tantas comunidades que hoje prosperam em nosso país.

A história de Theresia é também a história de milhares de homens e mulheres que trouxeram consigo mais do que sonhos de um futuro melhor. Trouxeram valores, tradições, fé e, acima de tudo, a prova de que a força do espírito humano é capaz de superar qualquer obstáculo.

Que este relato sirva para honrar sua memória e para lembrar a todos nós da importância de preservar e valorizar as raízes que nos moldam. O legado desses imigrantes é imensurável e vive não apenas na paisagem transformada, mas também na herança cultural, na gastronomia, nas celebrações e, sobretudo, no exemplo de trabalho e resiliência que deixaram para as gerações futuras.

Dedico este livro a todos os descendentes de imigrantes italianos que, como eu, sentem orgulho de suas origens e de tudo o que nossos antepassados conquistaram. Que nunca esqueçamos de onde viemos e de quanta força foi necessária para que estivéssemos aqui hoje.

Com profundo respeito e gratidão,

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sexta-feira, 24 de abril de 2026

A Verdade da Imigração Italiana no Brasil e o Drama nas Fazendas de Café em 1889

 


A Verdade da Imigração Italiana no Brasil e o Drama nas Fazendas de Café em 1889


Nas colinas suaves entre Anzano di Cappella Maggiore e as pequenas frações vizinhas, onde o vento percorria os vinhedos como um sussurro antigo, nasceu Matteo Zorzi. A terra ali era bela, mas ingrata — bela o suficiente para prender o olhar, ingrata o suficiente para expulsar seus filhos.

Matteo cresceu entre sulcos estreitos de cultivo e esperanças ainda mais estreitas. O pai, um homem de poucas palavras e mãos endurecidas, lutava contra colheitas incertas e impostos implacáveis. A mãe, silenciosa, carregava no olhar o cansaço de quem já aprendera a não esperar demais do futuro. E havia os irmãos — pequenos demais para trabalhar, grandes demais para ignorar a fome.

A decisão não foi anunciada; ela simplesmente aconteceu.

Quando os primeiros relatos começaram a circular — histórias de terras vastas no Brasil, de trabalho garantido e pão abundante — Matteo escutou como todos os outros. Mas, ao contrário de muitos, ele percebeu algo além das palavras: percebeu a urgência. A Itália não tinha mais espaço para ele. Permanecer significava definhar lentamente, como tantos antes dele.

Partiu numa manhã fria, levando consigo apenas o essencial e um peso invisível que nenhum homem conseguia deixar para trás: o da despedida.

A travessia foi um teste de resistência. No ventre do navio, entre o cheiro ácido da madeira úmida e o ar rarefeito, Matteo viu o que a esperança fazia com os homens — primeiro os erguia, depois os consumia. Alguns falavam do futuro como se já fosse presente; outros, em silêncio, começavam a compreender que talvez tivessem sido enganados.

Mas não havia retorno. O mar não permitia arrependimentos.

Quando finalmente desembarcou na província de São Paulo, Matteo foi rapidamente absorvido por um sistema que funcionava com precisão quase militar. Homens surgiam oferecendo orientação, falando um italiano quebrado, misturado com palavras desconhecidas. Diziam-se intérpretes. Prometiam trabalho, moradia, estabilidade.

Matteo desconfiou.

Observou antes de agir — um hábito que aprendera com o pai. Viu famílias sendo separadas, conduzidas para destinos incertos. Ouviu relatos sussurrados de lugares distantes, onde os recém-chegados eram deixados à própria sorte, obrigados a construir abrigo com as próprias mãos, dormindo sobre o chão frio ou sobre peles improvisadas.

Ainda assim, acabou seguindo o fluxo.

Foi assim que chegou a Ribeirão Preto — um nome que, à distância, soava como promessa. Na realidade, era o coração pulsante de um sistema que devorava homens com a mesma eficiência com que produzia riqueza.

As plantações de café se estendiam até onde a vista alcançava, fileiras intermináveis sob um sol que parecia mais próximo do que deveria. A terra vermelha grudava nos pés, nas mãos, na pele — como se quisesse marcar cada homem que ousasse enfrentá-la.

O trabalho começava antes do amanhecer e terminava quando o corpo já não respondia. Não havia espaço para fraqueza. Os patrões raramente apareciam; quem controlava o ritmo eram capatazes e administradores, homens que entendiam mais de disciplina do que de compaixão.

E os intérpretes — sempre eles — circulavam como sombras indispensáveis, intermediando tudo, cobrando por tudo.

Matteo percebeu rapidamente que o verdadeiro perigo não estava apenas no trabalho, mas na dependência. Muitos imigrantes, incapazes de compreender a língua ou o sistema, tornavam-se prisioneiros invisíveis de contratos que nunca haviam lido.

Alguns tentavam fugir.

Outros resistiam.

E havia os que simplesmente quebravam.

Nos raros momentos de descanso, Matteo observava seus companheiros. Italianos de diferentes regiões, unidos não por escolha, mas por circunstância. Alguns ainda mantinham a esperança viva; outros já carregavam nos olhos o peso da derrota.

Ele recusava-se a ceder.

Guardava cada moeda, cada aprendizado, cada detalhe daquele mundo novo. Sabia que sobreviver não seria suficiente — era preciso compreender, adaptar-se, encontrar uma forma de não ser engolido.

À noite, quando o silêncio finalmente dominava os campos, Matteo pensava em casa. Pensava nos irmãos, nos amigos, nas colinas que havia deixado para trás. E, inevitavelmente, pensava naqueles que ainda consideravam partir.

Foi então que decidiu escrever.

A carta não foi um desabafo, mas um aviso.

Descreveu os intérpretes que exploravam os recém-chegados, as promessas vazias, as dificuldades reais. Falou das famílias abandonadas em regiões isoladas, da dureza do trabalho, da solidão que nenhum relato mencionava. Mas também falou da possibilidade — pequena, difícil, mas existente — de construir algo, desde que se chegasse preparado.

Cada palavra foi escolhida com precisão.

Matteo não queria destruir sonhos, mas impedir ilusões.

Quando terminou, percebeu que aquela carta era mais do que uma mensagem. Era um testemunho. Um fragmento de verdade lançado através do oceano, na esperança de que alguém, em alguma colina distante da Itália, pudesse lê-la e entender.

E talvez, apenas talvez, fazer uma escolha diferente.

Enquanto isso, sob o céu impiedoso de Ribeirão Preto, Matteo Zorzi continuava — não como o jovem que partira, mas como o homem que aprendera, à força, que a esperança só sobrevive quando caminha lado a lado com a lucidez.

Nota do Autor

Este texto nasce do encontro entre memória e imaginação, entre o documento histórico e a necessidade de dar voz àquilo que, muitas vezes, permaneceu apenas insinuado nas entrelinhas do tempo. Sua origem remonta a fragmentos de cartas preservadas em acervos museológicos da cidade de São Paulo, bem como a relatos orais e escritos que chegaram até o autor por diferentes vias, compondo um mosaico de experiências vividas por imigrantes italianos no final do século XIX.

Essas cartas — escritas com urgência, por vezes com desalento, outras com uma esperança cautelosa — não pretendiam ser literatura. Eram, antes de tudo, testemunhos. Nelas, homens simples narravam a ruptura com sua terra natal, a travessia do oceano e o impacto de uma realidade que frequentemente destoava das promessas que os haviam impulsionado a partir. Havia nelas uma verdade crua, por vezes dura, que resistiu ao tempo não por sua forma, mas por sua autenticidade.

A presente narrativa, portanto, não é uma transcrição, mas uma recriação. Os nomes, os lugares específicos e certas circunstâncias foram deliberadamente transformados, com o propósito de preservar a essência das experiências sem se prender à literalidade documental. O que se buscou foi algo mais profundo: reconstruir, com fidelidade emocional e rigor histórico, o universo humano desses emigrantes — seus medos, suas perdas, sua resistência silenciosa e, sobretudo, sua capacidade de seguir adiante.

Ao adotar uma linguagem mais elaborada e descritiva, procurou-se também aproximar o leitor contemporâneo da densidade daquele período, evocando não apenas os fatos, mas o ambiente, as tensões e as escolhas que moldaram destinos. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de compreendê-lo em sua dimensão histórica, reconhecendo nele a força que sustentou gerações.

Se esta obra cumpre algum propósito, é o de servir como ponte: entre passado e presente, entre documento e narrativa, entre aqueles que partiram e aqueles que hoje buscam compreender suas origens. Pois, em última instância, cada linha aqui escrita é um tributo àqueles que, mesmo diante da incerteza, tiveram a coragem de atravessar o desconhecido — e de registrar, ainda que em palavras simples, a verdade de seu tempo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sexta-feira, 27 de março de 2026

A Vida de Domenico Dalmassen

 


A Vida de Domenico Dalmassen

Das Langhe à Serra Gaúcha: a travessia de um emigrante italiano


Domenico Dalmassen nasceu em 1891, no pequeno comune de Prunetto, incrustado nas colinas das Langhe, onde as vinhas e os bosques se entrelaçavam como se fossem eternos. Era conhecido entre os vizinhos pelo apelido de “Menico”, dado pela mãe, porque nascera franzino e parecia frágil demais para resistir ao peso da vida. No entanto, desde cedo, provou o contrário.

Passava os dias a vigiar as ovelhas nos pastos pedregosos, acompanhado apenas pelo vento frio que descia dos Alpes e pelo som dos chocalhos espalhados pelo vale. Quando o pai descia à planície para ceifar o trigo, Domenico o seguia com a naturalidade de quem já carregava nas costas uma vida inteira. Enquanto os homens golpeavam o cereal com foices e braços endurecidos, ele corria de um lado a outro, levando água misturada com vinagre para refrescar a garganta da equipe. O pagamento era de dez soldos por dia, quase nada, mas suficiente para que um menino se sentisse parte de um exército de homens famintos.

Nos meses em que o trabalho rareava nas colinas, ele e o pai batiam a planície, passando de uma fazenda a outra, sempre a fazer os serviços mais duros: bater grãos, arrumar barris, levantar cargas. A refeição era quatro fatias de polenta enfiadas no bolso, o leito um monte de feno no celeiro. Havia dias em que tudo se assemelhava a uma batalha interminável, uma guerra silenciosa contra a fome e a pobreza, onde o inimigo nunca se deixava derrotar.

Antes mesmo de atingir a maturidade, Domenico atravessou a fronteira e foi trabalhar na França. A ilusão de encontrar alívio evaporou rapidamente: lá, o suor tinha o mesmo gosto amargo, a fadiga o mesmo peso de chumbo.

Enquanto isso, três de seus irmãos já haviam cruzado o Atlântico e se instalado na América, ganhando a vida nas serrarias. Mandaram dinheiro para que ele pudesse segui-los. Em 1907, juntou-se a um grupo de vinte e dois conterrâneos e embarcou rumo ao novo mundo. Antes da partida, as vacinas que inflamavam os braços; depois, o embarque no imenso navio a vapor que cheirava a ferro, maresia e medo.

A travessia foi uma prova de resistência. O alimento era escasso e de má qualidade, distribuído em marmitas como ração de soldados. O porão onde Domenico foi colocado reunia trezentos homens, enquanto as mulheres eram separadas em outro espaço. O mar, agitado e cruel, castigava o casco; durante dois dias o navio ficou à deriva, subjugado pelas ondas que saltavam por cima do convés. A cada investida da tormenta, a sensação de que a morte rondava o porão se espalhava como uma febre. Mas a tempestade, como tantas outras, passou, e o navio finalmente avistou as luzes de Nova Iorque.

O primeiro trabalho de Domenico foi com uma companhia que empregava mais de cem homens vindos de sua região. O pagamento era de sete liras e meia por dez horas diárias. A vida era regida pelo som incessante da serra e pela queda das árvores. O esforço arrancava músculos e suor, mas os italianos, apesar da dureza, mantinham acesa a chama da convivência: nos fins de semana, dançavam, jogavam cartas, disputavam partidas de bola e punho, e faziam das noites uma trégua contra o cansaço.

Durante quatro anos, Domenico permaneceu naquele ciclo de trabalho e exaustão, morando em barracões de madeira improvisados, partilhando a miséria com homens que se tornaram quase irmãos. Muitos ficaram. Ele, no entanto, decidiu regressar. A mãe estava sozinha em Prunetto, e a lembrança dela pesava mais que qualquer promessa de fortuna.

Os três irmãos permaneceram na América, junto dos outros vinte e um companheiros que haviam partido juntos. Nunca mais mandaram notícias. O silêncio deles foi um corte fundo no coração de Domenico, mas também um sinal de que o destino, para cada homem, se cumpre de forma diferente. A travessia, a saudade e o retorno marcaram sua vida para sempre.

De volta à Itália, cuidou da mãe doente até o fim. Dois anos inteiros dedicados a vigiar noites silenciosas, a carregar água e lenha, a ouvir os gemidos contidos que só uma mãe solitária poderia emitir. Quando ela morreu, no início de 1909, a casa de pedra em Prunetto tornou-se apenas uma prisão de memórias. Domenico sabia que ali já não havia futuro.

Pouco depois, uma carta chegou de Caxias, no Brasil. Era de Pietro Bonelli, antigo vizinho em Prunetto, agora dono de uma concorrida fábrica de carroças na colônia italiana que florescia no coração da serra gaúcha. Precisava de homens de confiança e habilidosos na carpintaria. Domenico, que havia aprendido a arte das rodas e dos eixos durante os anos nas serrarias americanas, recebeu o convite como um sinal do destino.

A viagem ao Brasil foi longa e menos dramática que a anterior, mas ainda assim marcada pelo aperto dos porões, pelo enjoo dos mares e pela ansiedade da chegada. Ao desembarcar no Rio Grande do Sul, encontrou um mundo que ainda cheirava a floresta derrubada, mas que pulsava com a energia de milhares de colonos dispostos a transformar a mata em vinhedos, casas e fábricas.

Em Caxias, Domenico mergulhou na carpintaria como se fosse uma extensão natural de sua vida. As rodas das carroças, que exigiam precisão para resistir ao peso das estradas de barro e pedra, tornaram-se sua especialidade. Os colonos sabiam reconhecer o bom trabalho, e logo o nome de Dalmassen era sinônimo de confiança.

Foi nesse cenário que conheceu Francesca Zardi, uma jovem viúva de Maser, no Vêneto. O marido havia morrido em um acidente brutal, esmagado por um cavalo durante o trabalho na pequena gleba de terra que cultivavam. Francesca, ainda com a juventude estampada no rosto e mãe de uma menina chamada Beatrice, via-se diante de um futuro incerto. A terra que possuía era pesada demais para suas forças, e já cogitava vender e regressar para a casa dos pais na Itália.

O encontro aconteceu quase por acaso. Domenico fora chamado a consertar as rodas de uma carroça quebrada, cujas rodas rangiam sem parar nas estradas da colônia. A carroça era dela. O trabalho o levou até a pequena propriedade, onde viu uma mulher muito jovem determinada a resistir, mas visivelmente cansada. Entre as lascas de madeira e o cheiro de ferro aquecido, nasceu uma aproximação que se transformaria em destino.

Casaram-se pouco tempo depois. Francesca encontrou em Domenico a firmeza que precisava para não abandonar a terra, e ele, nela, a família que lhe havia faltado por tantos anos. Beatrice passou a chamá-lo de pai, e, naquela casa simples, construída com esforço e sonhos, a vida de Domenico Dalmassen encontrou raízes sólidas.

De filho franzino das colinas piemontesas, pastor de ovelhas e migrante errante, ele se transformou em mestre de rodas no coração da serra gaúcha, símbolo de uma geração que, entre oceanos e despedidas, construiu um novo mundo.

Nota do Autor

Esta narrativa nasceu do desejo profundo de resgatar a memória daqueles homens e mulheres que atravessaram oceanos em busca de um destino que não lhes era garantido. Escolhi Domenico Dalmassen como personagem central porque sua trajetória simboliza a vida de milhares de emigrantes italianos que, entre o final do século XIX e o início do século XX, deixaram as colinas do Piemonte e tantas outras regiões da Itália para construir, com suor e sacrifício, uma nova existência no Brasil.

A história de Domenico não pretende ser a reprodução literal de um indivíduo específico, mas sim a reconstrução literária inspirada em cartas, depoimentos e registros que chegaram até nós, testemunhando as dores da partida, os perigos da travessia e a dureza da adaptação. Ao mudar nomes, lugares e detalhes, procurei proteger a identidade dos personagens históricos e, ao mesmo tempo, dar vida a um protagonista que encarnasse a força coletiva da imigração italiana.

Escrevi esta história para dar voz àqueles que raramente puderam escrever a própria versão de suas vidas. É um tributo aos que perderam tudo e ainda assim semearam esperança, aos que encontraram no Brasil um lar distante e, sobretudo, aos que compreenderam que emigrar é viver sempre entre dois mundos: o da lembrança e o da construção.

Dr. Piazzetta



segunda-feira, 3 de março de 2025

Navios a Vapor e os Emigrantes Italianos


 

Navios a Vapor e os Emigrantes Italianos


No final do século XIX, quando os italianos do norte começaram a emigrar regularmente em massa para o Brasil e outros países americanos, a frota italiana de navegação estava extremamente atrasada em comparação com as de outras nações europeias. Havia pouquíssimos navios de passageiros sob bandeira italiana, o que representava um grande obstáculo para atender à crescente demanda de transporte de imigrantes. Os empresários e armadores italianos, ansiosos para lucrar com o boom da emigração que se iniciava, decidiram recorrer a uma frota envelhecida e obsoleta de cargueiros lentos. Muitos desses navios estavam prestes a ser desmanchados, tendo passado anos transportando carvão e outras mercadorias entre portos europeus.

Esses cargueiros, concebidos para o transporte de cargas, foram adaptados de maneira rudimentar para se tornarem navios de passageiros. Em seus porões fétidos, onde antes eram armazenados carvão e outros materiais, divisórias de madeira foram improvisadas para criar salões amplos, mas de baixa altura. Esses espaços eram escuros e mal ventilados, localizados abaixo da linha d’água, sem acesso à luz natural ou à circulação de ar. A transformação foi feita de forma apressada e inadequada, resultando em condições precárias para os passageiros que seriam forçados a suportar semanas de viagem atravessando o Atlântico.

As instalações sanitárias nesses navios eram insuficientes para todos os passageiros. Baldes de madeira com tampas foram distribuídos ao final de cada corredor de beliches para serem usados como banheiros improvisados. A ausência de qualquer tipo de privacidade ou dignidade transformava essa solução em um desafio humilhante e insalubre. A falta de água potável também era um problema crônico. Reservatórios de ferro revestidos com cimento eram utilizados para armazenar água, mas rachaduras no revestimento faziam com que a água entrasse em contato com o ferro, causando ferrugem conferindo à água uma cor escura e um gosto metálico forte e desagradável. Os passageiros eram obrigados a consumir essa água, muitas vezes contaminada, que se tornava uma das principais causas de doenças a bordo.

Os beliches de madeira eram montados em três ou quatro níveis, empilhados uns sobre os outros para maximizar o espaço. Cada passageiro tinha direito a um pequeno espaço para se deitar, dividido com outros imigrantes em condições igualmente precárias. O calor e o mau cheiro de dejectos  humanos e corpos mal lavados eram sufocantes, agravados pela ausência de ventilação. Em dias de tempestade, os porões se tornavam armadilhas perigosas, onde os passageiros eram sacudidos pelas ondas sem chance de fuga. Muitos adoeciam devido à combinação de alimentos estragados, água contaminada e falta de higiene.

No final da década de 1880, a frota italiana começou a receber novos navios mais adequados para o transporte de passageiros. Embora maiores e tecnologicamente superiores aos cargueiros adaptados, esses navios ainda apresentavam condições deploráveis para os passageiros de terceira classe. A estrutura básica melhorou ligeiramente, com espaços um pouco mais amplos e a introdução de algumas ventilações artificiais. Contudo, os porões continuavam sendo usados como alojamentos para os imigrantes mais pobres, a chamada 3ª classe, que constituíam a maioria dos passageiros.

Os novos navios eram projetados para transportar o maior número possível de pessoas, frequentemente excedendo a capacidade recomendada pela legislação do porto, as quais eram burladas pela conivência de fiscais corruptos. As condições de superlotação transformavam esses espaços em verdadeiros caldeirões de doenças. Epidemias de cólera, tifo e sarampo eram comuns, e a falta de assistência médica a bordo significava que muitos passageiros sucumbiam antes de chegar ao destino. Os corpos das vítimas eram frequentemente jogados ao mar, em cerimônias breves e tristes que reforçavam a fragilidade da condição humana diante das adversidades da travessia.

Embora os novos navios tivessem cabines mais confortáveis para os passageiros das classes superiores, os imigrantes de terceira classe continuavam a enfrentar situações desumanas. As instalações sanitárias melhoraram apenas marginalmente, e os baldes de madeira foram substituídos por sanitários comunitários rudimentares, que frequentemente transbordavam devido ao uso excessivo. A água potável continuava sendo um problema crônico, apesar dos avanços na construção dos reservatórios.

A vida a bordo era marcada por uma monotonia opressiva, interrompida apenas por tempestades ou emergências médicas. Muitos passageiros passavam os dias sentados no deck superior ou deitados em seus beliches, sem espaço para se mover ou atividades para ocupar o tempo. Alguns tentavam distrair-se cantando, rezando ou compartilhando histórias de suas terras natais e esperanças para o futuro. No entanto, a saudade e a incerteza pesavam sobre todos, criando um clima de melancolia e resignação.

Apesar de todas essas dificuldades, os imigrantes italianos viam na travessia uma chance de escapar da miséria e buscar uma vida melhor nas Américas. Muitos haviam vendido tudo o que possuíam para pagar pela passagem, embarcando nesses navios com uma mistura de medo e esperança. Para eles, cada onda enfrentada no mar representava um obstáculo rumo a um futuro incerto, mas potencialmente promissor.

Assim, os navios que transportaram os primeiros imigrantes italianos para o Brasil tornaram-se símbolos de resiliência e sacrifício. Apesar das condições subumanas, eles desempenharam um papel crucial na história da emigração italiana, levando milhões de pessoas a atravessar o Atlântico em busca de novas oportunidades e uma vida digna.



segunda-feira, 9 de setembro de 2024

A Luz da Fé: Sob o Céu do Novo Mundo



A Luz da Fé: Sob o Céu do Novo Mundo


Em 1876, na recém-criada Colônia Caxias, no Rio Grande do Sul, as primeiras famílias italianas chegavam em grandes grupos após uma longa e árdua travessia do oceano. Vindos do norte da Itália, predominantemente das regiões do Vêneto e Lombardia, esses imigrantes chegaram em busca de um futuro melhor. No entanto, logo perceberam que a nova terra, embora cheia de promessas, apresentava desafios imensos, muito maiores do que haviam imaginado. Entre esses desafios, a saudade dos entes queridos, da pátria e a ausência de estruturas essenciais, como o conforto da presença de um sacerdote, tornavam-se questões centrais para aqueles católicos devotos.
Giuseppe, um homem de meia-idade, casado, pai de uma família de quatro filhos, oriundo do Vêneto, destacava-se entre os colonos. Com o rosto marcado pelo tempo e as mãos calejadas pelo trabalho, ele carregava consigo mais do que as poucas posses que restaram após a travessia. Giuseppe trazia a memória das tradições e a fé inabalável que aprendera com seus antepassados.
Logo nos primeiros dias, a comunidade começou a sentir a ausência de um sacerdote, do conforto espiritual que a religião lhes proporcionava, algo inédito para aqueles que sempre encontraram refúgio e esperança na fé. Esta que sempre fora o alicerce de suas vidas, parecia ameaçada pela distância e pela ausência de um líder espiritual. Em uma reunião do pequeno grupo, Giuseppe foi procurado pelos outros imigrantes para assumir essa liderança espiritual.
Numa manhã de domingo, em uma clareira aberta na mata densa, as famílias se reuniram para o primeiro grupo de oração conduzido por Giuseppe. Homens, mulheres e crianças se agruparam em silêncio, com os olhos voltados para aquele homem simples que, com um livro de orações numa mão e um terço na outra, tomou a frente e começou a cerimônia. A ausência de um altar foi sentida, mas a simplicidade do local não diminuiu a devoção. Giuseppe foi uma criança frágil, magro e frequentemente acometido por ataques de bronquite. Seu pai, percebendo sua condição debilitada, dispensou-o dos trabalhos pesados na roça e traçou um plano diferente para seu futuro: mais tarde enviá-lo para um seminário. Assim, devido ao seu estado de saúde, Giuseppe pôde frequentar os quatro anos do ensino primário, onde aprendeu a ler e escrever. Desde cedo, dedicou-se a ajudar o pároco de sua pequena cidade natal, participando ativamente das missas, celebrações e diversas outras atividades religiosas, demonstrando uma profunda devoção e interesse pelas práticas da fé. Agora, trazendo consigo essas memórias e conhecimentos, ele conduzia as orações na colônia, com uma voz serena que, embora não fosse imponente, carregava a profundidade de sua devoção e a força de um coração repleto de fé.
Com o passar dos meses, Giuseppe continuou a liderar as práticas religiosas. Os grupos de oração ao ar livre tornaram-se um ritual sagrado, uma reafirmação da fé que os mantinha unidos. As reuniões eram mais do que momentos de oração; eram o alicerce da vida comunitária, onde se discutiam problemas do dia a dia, compartilhavam-se alegrias e tristezas, e se criava um senso de comunidade em meio ao isolamento.
A fé, em sua ausência física de um sacerdote, tornou-se ainda mais essencial. Ela era a chama que iluminava o caminho daqueles que estavam longe de casa, mas nunca longe de Deus. Um dia, a morte visitou a Colônia Caxias. Uma das crianças, acometida por uma doença súbita, não resistiu. A tragédia abalou profundamente a comunidade. Mais uma vez, Giuseppe assumiu a liderança, preparando a cerimônia fúnebre e oficiando as rezas como o pároco fazia na Itália, mas agora em terras estrangeiras.
No pequeno cemitério improvisado, as famílias se reuniram em volta da sepultura. Giuseppe, com lágrimas nos olhos, proferiu palavras de consolo e esperança, recordando a todos que, apesar da dor, a fé era a única coisa que nunca deveriam perder. A fé era o elo que os mantinha conectados, não apenas uns aos outros, mas também à terra que deixaram para trás e ao Deus que nunca os abandonaria.
Com o tempo, a comunidade se fortaleceu. As primeiras colheitas trouxeram um alívio modesto, mas significativo, para as necessidades diárias. A cada domingo, o grupo de oração conduzido por Giuseppe era uma reafirmação da vida que todos estavam construindo juntos, com suor, lágrimas e fé. Quando finalmente um sacerdote chegou à colônia, a importância de Giuseppe na vida espiritual da comunidade não diminuiu. Ele continuou a ser a alma daquela gente, o homem que, com fé e coragem, manteve a chama viva quando tudo parecia sombrio.
A história de Giuseppe e da Colônia Caxias é um exemplo da força indomável da fé. É a história de um povo que, mesmo diante das adversidades, encontrou na religiosidade um porto seguro, um refúgio onde podiam renovar suas forças para enfrentar os desafios do novo mundo. Sob o céu do Rio Grande do Sul, a fé continuou a iluminar o caminho daqueles que, como Giuseppe, jamais perderam a esperança.


quarta-feira, 11 de outubro de 2023

De Rovigo ao Interior de São Paulo: a Longa Jornada dos Imigrantes Italianos no Brasil

 



Santo Pazette e sua esposa, Isabella Merlini, deixaram sua terra natal em uma longa jornada transatlântica rumo à América, com destino ao Brasil, no ano de 1886. Santo Pazette nasceu na Itália em 1860, em um pequeno município do interior da província de Rovigo, no Veneto, e veio a falecer em 1941. Sua esposa, Isabella Merlini, também nasceu na mesma província, em 1866, e faleceu em  1942. Com o casal, vieram para o Brasil seus dois filhos pequenos, nascidos na Itália. Ao chegarem ao Brasil, a família se estabeleceu em um lugar distante de grandes centros, onde passaram a trabalhar na extensa fazenda de cultivo de café propriedade de um rico fazendeiro, o qual tinha até o título de Barão. Em meio às vastas terras, Santo Pazette e sua esposa dedicaram-se integralmente a cuidar de milhares de pés de café, limpando a terra do mato que teimosamente não parava de crescer. No tempo da colheita, o trabalho era dobrado. Depois de colhidos manualmente, os grãos eram levados para uma grande área calçada por pedras, para secarem ao sol. Depois de secos, o que demorava alguns dias, os grãos eram ensacados e levados em carroções até a estação ferroviária que ficava em uma comunidade vizinha. No entanto, a vida desse casal de imigrantes começou com tristezas, pois já tendo perdido dois filhos na Itália, agora, infelizmente, perderam também os dois filhos que trouxeram consigo para o Brasil. Com o tempo, o lar deles foi iluminado com o nascimento de seus outros filhos Guerino, Domenico, Giuseppe, Albino e Teresa. Todos os imigrantes que trabalhavam na fazenda, mais de uma centena, precisavam comprar alguns mantimentos no armazém local da propriedade, cujos preços eram bem mais altas que nas cidades, resultando em uma alta conta para Santo Pazette. Decidiram, então, economizar ainda mais, na alimentação diária da família passaria a base de polenta, como quando ainda moravam na Itália, um excelente alimento, e suco de laranja. A farinha de milho para preparar a polenta era adquirida em troca de milho no engenho de açúcar da mesma fazenda. Além disso, eles mantinham, com o consentimento do patrão, uma pequena horta e alguns poucos animais de criação, como 1 ou 2 porcos, uma vaca para leite e aves, cuja carne e ovos complementavam a pobre alimentação. Graças às suas economias, e para isso todos da família contribuíam, vendendo sabão, hortaliças, ovos e os doces que a prendada Isabella e a filha Teresa faziam e vendiam na própria fazenda e até nas cidades próximas, quando íam nos dias de folga ou finais de semana. Ao longo de dez longos anos, eles finalmente conseguiram deixar o trabalho assalariado na fazenda e adquiriram um terreno relativamente grande e fértil em uma cidade vizinha que estava vivendo um período de intenso crescimento da sua população. Decidiram se estabelecer ali pois já a conheciam e lá já tinham alguns amigos e até fregueses para os quitutes das mulheres da casa. Santo e Isabella, junto com todos os filhos já casados e seus primeiros netos, passaram a fazer parte da comunidade italiana local, Santo trabalhando em uma olaria, fabricando tijolos e telhas de barro e os filhos foram se colocando na crescente indústria e no comércio local. A única exceção foi sua filha Teresa Pazette, que se casou com Angelo Marino, também de origem italiana, e se estabeleceu em uma outra fazenda de plantação de cana de açúcar, onde seu marido trabalhava como gerente e ganhava mais que a maioria dos empregados. 
Com o passar dos anos, a família prosperou na nova cidade. O terreno que adquiriram tornou-se um lar acolhedor, onde plantavam não apenas diversas frutas e hortaliças que contribuíam para a mesa farta da família e o que sobrava era vendido na cidade.
Santo Pazette continuou a trabalhar na olaria, aprimorando suas habilidades na produção de tijolos e telhas, enquanto Isabella, com sua experiência culinária, expandiu a produção de doces e quitutes que se tornaram famosos na região. A pequena horta e os animais de criação no quintal contribuíam com ingredientes frescos e sadios. 
A casa dos Pazette foi se tornando um ponto de encontro para a comunidade italiana local, onde as velhas tradições italianas eram preservadas e celebradas. As festas familiares eram marcadas por risos, música e, é claro, boa comida. A história de perseverança e superação dos imigrantes italianos inspirava não apenas os descendentes da família Pazette, mas também aqueles ao seu redor.
Os filhos de Santo e Isabella seguiram caminhos diversos. Os filhos, os mais velhos,  continuaram no ramo industrial, enquanto o caçula, que tinha dom para negócios, explorou as oportunidades no comércio local e nas cidades vizinhas, abrindo uma pequena loja de material de construção, que com o tempo se transformou em um império nas mãos de seus filhos. Teresa e Angelo Marino prosperaram na fazenda de cana de açúcar, contribuindo para a prosperidade da família. Depois de alguns anos ela e marido também adquiriram uma pequena chácara na mesma cidade e passaram a morar perto dos pais.
Com o tempo, a cidade testemunhou o crescimento da comunidade italiana, que se tornou uma parte integral da cultura local. Os Pazette foram reconhecidos não apenas pelo trabalho árduo, mas também por sua generosidade e envolvimento na comunidade. Seu legado perdurou através das gerações, e o nome da família era sinônimo de resiliência e sucesso.
Ao final de suas vidas, Santo e Isabella puderam contemplar o que construíram: uma família unida, uma comunidade fortalecida e uma história de superação que seria contada por muitas gerações. Faleceram com um ano de diferença um do outro e seus túmulos, localizados no cemitério da cidade, eram visitados não apenas pela família, mas por todos que reconheciam a contribuição valiosa dos Pazette para a construção daquele lugar. A jornada que começou em uma pequena vila no interior de Rovigo, na Itália, culminou em uma vida plena e significativa no Brasil, e o nome Santo Pazette tornou-se uma referência de determinação e sucesso.



sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Vozes Ausentes: A Dor da Mãe Imigrante na Colônia Dona Isabel


 

Vozes Ausentes: 
A Dor da Mãe Imigrante na Colônia Dona Isabel


Na vastidão da colônia Dona Isabel, 
No meio do nada, isolados do mundo, 
Uma mãe carrega a dor, a angústia cruel, 
A espera dolorosa, o coração moribundo.

Três filhos ao seu lado, seu maior tesouro, 
Mas a ausência das outras, um vazio a corroer, 
O silêncio que consome, um peso agridoce, 
Quase um ano sem notícias, sem saber o que acontecer.

No seio da floresta, a mãe clama em prece, 
Anseia pelas palavras, pelas cartas esperadas, 
O eco do silêncio, uma dor que não desvanece, 
Enquanto o tempo avança, trazendo noites estreladas.

Os dias se arrastam, lentos como o vento, 
As lágrimas marcam seu rosto envelhecido, 
A esperança vacila, é um tormento, 
Nas sombras da incerteza, seu peito ferido.

A saudade aperta, o coração em pedaços, 
Perguntas sem respostas ecoam em seu ser, 
Será que estão bem? Afastadas em espaços, 
Em terras distantes, sem nenhuma saber.

No Brasil, a mãe aguarda com fervor, 
Notícias que tragam alívio e acalanto, 
Das duas filhas casadas, longe do calor, 
Nos Estados Unidos e na França, em outro canto.

A cada amanhecer, uma esperança renasce, 
A certeza de que o amor atravessa oceanos, 
Na força de uma mãe que não se esquece, 
De suas filhas queridas, mesmo em tempos insanos.

No meio da floresta, no isolamento profundo, 
A mãe sustenta a fé, a chama da espera, 
Que um dia as notícias cheguem ao seu mundo, 
E tragam alegria, um renascer primavera.

Em cada verso desse poema entrelaçado, 
Celebro a coragem dessa mãe imigrante, 
A dor, a angústia e os sentimentos abraçados, 
Na esperança de que a distância não seja constante.


de Gigi Scarsea
erechim rs




segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Solidão nas Colônias: O Chamado Desatendido


 


Solidão nas Colônias: 
O Chamado Desatendido


No silêncio das colônias distantes, 
Imigrantes sofrem, almas sedentas. 
Católicos fervorosos, anseiam por conforto, 
Mas, padres e igrejas, são miragens sombrias.

Solidão paira no ar, como névoa densa, 
Ausência de assistência, uma ferida aberta. 
Corações ansiando por guias espirituais, 
Perdidos em terras estrangeiras, sem consolo.

Nessas terras gaúchas, de fé inabalável, 
O lamento ressoa nas noites estreladas. 
O chamado desatendido, angústia persistente, 
Nas almas dos pioneiros, ecoa eternamente.


de Gigi Scarsea
erechim rs



terça-feira, 11 de abril de 2023

Imigrantes Italianos no Navio Thibes em 1889

 




NAVIO THIBES
 
RELAÇÃO DE PASSAGEIROS PROCEDENTES DE GÊNOVA DESEMBARCADOS  
NO PORTO DO RIO DE JANEIRO 
EM 24 DE MARÇO DE 1889


nº.
SobrenomeNomeIdadeCivilnac.Chegada SaídaDestino


5115
MortinigeGostiza49solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5116PossemPadloy32solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5117FranzRozmeane39solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5118ZiviceJosaf35solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5119SimonBujan33solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5120ZosanaSibana36solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5121FranzKattav36solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5122PemgengruberEduardo27solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5123NenfimBlagek41solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5124FranzBezzak46cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5125FranzGuttin40cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello

5126FranzFosseimar18solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5127FranzMargaretta14solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5128FranzAntonio10xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5129GasparMackverk42cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5130GasparGuttin35cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5131GasparRoza1xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5132GasparMaria5xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5133Luk-yTink51cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5134Luk-yMaria56cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5135Luk-yJosepha8xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5136Luk-yRosulin2xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5137JohannRastelin51xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5138FranzPrenirn37cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5139JosephFakna33solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5140CancioniJoham Battista64cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5141FranzJoham Battista31solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Campo Bello
5142SluySabec55solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5143FossumMohiorcie77viuvoAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5144FranzBlasck35solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5145FossumAmbrog24solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5146BartoloCernac46solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5147BartoloAnna46cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5148BartoloGida9xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5149BartoloGiacomo7xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5150BartoloFranz3xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5151CeamiAntonio42cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5152CeamiTereza28cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5153CeamiGio Battista7xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5154CeamiEduardo5xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5155CeamiCarl3xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5156IgnazKapriver34cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello

5157IgnazIgnez36cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5158AntonBezzach18cas.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5159FranzSabec37solt.Austriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5160FranzSabec9xAustriaco24.03.188909.04.1889Campo Bello
5161HanfaelRahnc31solt.Austriaco24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5162CeccatoGiovanni28solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5163GiacominiValentino32cas.Italiano24.03.188931.04.1889Porto Alegre
5164GiacominiMaria25cas.Italiano24.03.188931.04.1889Porto Alegre
5165GiacominiCarlo3xItaliano24.03.188931.04.1889Porto Alegre
5166GiacominiGenoveffa6mxItaliano24.03.188931.04.1889Porto Alegre
5167BettinGirolamo46cas.Italiano24.03.188909.04.1889Porto Alegre
5168BettinMaria45cas.Italiano24.03.188909.04.1889Porto Alegre
5169BettinRoza11xItaliano24.03.188909.04.1889Porto Alegre
5170BettinErminia8xItaliano24.03.188909.04.1889Porto Alegre
5171BettinGiuseppe5xItaliano24.03.188909.04.1889Porto Alegre
5172BettinLuigi4xItaliano24.03.188909.04.1889Porto Alegre
5173PasquatoDomenico30xItaliano24.03.188909.04.1889Porto Alegre
5174VanzoGiuseppe38solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5175RessatoGiuseppe31solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5176CemacchioFortunato22solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5177MagnitteEurico37solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5178GabettoGiuseppe24solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5179BertoGiacinto37cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5180BertoRosina30cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5181BertoAnna10xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5182BertoAntonio8xItaliano24.03.1889xPorto Alegre
5183BertoMaria4xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5184BertoAngelo2xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre

5185ArteseClemente47cas.Italiano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5186ArteseDomenico40cas.Italiano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5187ArteseVirginio12xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5188ArteseAntonio8xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5189ArteseGiuseppe5xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5190ArteseRegina2xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5191Fracoso(a)Antonio36cas.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello

5192Fracoso(a)Maria38cas.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5193Fracoso(a)Isabella14xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5194Fracoso(a)Mario13xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5195Fracoso(a)Giolietto10xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello

5196Fracoso(a)Alessandro8xItaliano24.03.1889xCampo Bello
5197Fracoso(a)Alberto6xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5198Fracoso(a)Angelo4mxItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5199FraçonSante38cas.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5200FraçonRoza38cas.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5201FraçonGiuditta15xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5202FraçonLeoniso13xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5203FraçonEmilio10xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5204FraçonEugenio6xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5205FraçonPierino2mxItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5206MartinaziaSante16solt.Italiano24.03.188931.04.1889Campo Bello
5207ContasaltoLuigi54cas.Italiano24.03.188931.04.1889Campo Bello
5208ContasaltoMaria52cas.Italiano24.03.188931.04.1889Campo Bello
5209ContasaltoDomenico29solt.Italiano24.03.188931.04.1889Campo Bello
5210ContasaltoGiovani16xItaliano24.03.188931.04.1889Campo Bello
5211TosoatiEmanuela21xItaliano24.03.188931.04.1889Campo Bello
5212CavaluiGiacomo27xItaliano24.03.188931.04.1889Campo Bello
5213MenonGiacomo32cas.Italiano24.03.188931.04.1889Resende
5214MenonMaria30cas.Italiano24.03.188931.04.1889Resende
5215MenonNicolo7xItaliano24.03.188931.04.1889Resende
5216MendaloErmengildo33solt.Italiano24.03.188931.04.1889Resende
5217MalisanSebastiano34viuvoItaliano24.03.188931.04.1889Resende
5218MalisanLuigia10xItaliano24.03.188931.04.1889Resende
5219MalisanRoza8xItaliano24.03.188931.04.1889Resende
5220MalisanGuerino6xItaliano24.03.188931.04.1889Resende

5221MalisanAnna3xItaliano24.03.188931.04.1889Resende
5222MalisanMaria7mxItaliano24.03.188931.04.1889Resende
5223GosiGiuseppe47solt.Italiano24.03.188925.04.1889Resende
5224TabroRegina22cas.Italiano24.03.188931.03.1889Resende
5225MossenghineAntonio47cas.Italiano24.03.188925.04.1889Resende
5226BernardoPietro41cas.Italiano24.03.1889xMinas Gerais

5227MessenghineAntonio NapolionxxItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5228MoroFerdinando48cas.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5229BaccariniFelice37cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5230BaccariniElisabetta49cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5231BaccariniCristino12xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5232TitilinoLuigi40cas.Italiano24.03.188931.03.1889Resende
5233TomiloGiovanna43viuvaItaliano24.03.188901.04.1889Minas Gerais

5234TomiloLuigi17solt.Italiano24.03.188901.04.1889Minas Gerais
5235TomiloGiuseppe15solt.Italiano24.03.188901.04.1889Minas Gerais
5236TomiloAmalio17xItaliano24.03.188901.04.1889Minas Gerais
5237TomiloRegina11xItaliano24.03.188901.04.1889Minas Gerais
5238TomiloAngelo49viuvoItaliano24.03.188901.04.1889Minas Gerais
5239TomiloErminia16xItaliano24.03.188901.04.1889Minas Gerais
5240TomiloClelia14xItaliano24.03.188901.04.1889Minas Gerais
5241TomiloMassemiliano10xItaliano24.03.188901.04.1889Minas Gerais
5242AndreotiEliseo34solt.Italiano24.03.188925.04.1889Minas Gerais
5243PentaveniLuigi28solt.Italiano24.03.188925.04.1889Minas Gerais
5244CemensatoAntonio37solt.Italiano24.03.188925.04.1889Minas Gerais
5245ScagiaretoAngelo24solt.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5246CavasniGiuseppe21solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5247CagninGiuseppe24solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5248BaessoAmadeu33solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5249BeatoGiordano17xItaliano24.03.188925.04.1889Porto Alegre

5250BoselliFerdinando36cas.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5251BoatoAntonio16solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5252PivaliFrederico44solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5253ZanungoGiuseppe24xItaliano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5254VedovateEugenio22xItaliano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5255CecatoAntonio22xItaliano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5256ImperatoreGiacomo42cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5257ImperatoreGiuseppa38cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5258ImperatoreGiuseppe16xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5259ImperatoreAntonio2xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5260ImperatoreThibes24diasxItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5261SbogoSante44cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5262SbogoLuigia38cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5263SbogoAndrea15xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5264SbogoRegina13xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5265SbogoAgostino8xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5266SbogoArturo1xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5267BetteoliPietro49cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5268BetteoliTereza45cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5269Betteoli???centi16xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5270BetteoliGiuseppe7xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5271BetteoliStella3xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5272MiottoGiulio28cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5273MiottoLucia25cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5274Pietro54xItaliano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5275NadolinAngelo46xItaliano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5276TrentinaglinGiuseppe38cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5277TrentinaglinLuigia38cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5278TrentinaglinGaetano18solt.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5279TrentinaglinAugusto15xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5280TrentinaglinGiuseppina13xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5281TrentinaglinGiovana10xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5282TrentinaglinEleonora5xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5283TrentinaglinArchangelo4xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5284TrentinaglinRegina1xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5285ValpratoAntonio20xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5286TessareseLuigi34cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5287TessareseFilomena30cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5288TessareseElisa 1xItaliano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5289AndreatoLuigi26cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5290AndreatoDomenica25cas.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5291AndreatoSante38solt.Italiano24.03.188931.03.1889Porto Alegre
5292BiginViictorio21solt.Italiano24.03.188925.04.1889Porto Alegre
5293MartonLuigia65viuvaItaliano24.03.188921.04.1889Porto Alegre
5294ZagoPacifico28cas.Italiano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5295PacificoLuigia24cas.Italiano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5296PacificoGiovanni5xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5297PacificoElizabetta5xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5298PacificoAntonio2xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5299PacificoDomenico8mxItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5300VanzoPietro44cas.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5301VanzoM. Luigia40cas.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5302VanzoGiuseppe10xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5303VanzoCarlotta8xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5304VanzoMarcella5xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5305TaschiaFranco40xItaliano24.03.188925.03.1889Campo Bello
5306SilvestreGiuseppe39cas.Italiano24.03.188925.03.1889Campo Bello
5307SilvestreLuigia37cas.Italiano24.03.188925.03.1889Campo Bello
5308SilvestreGiuseppe11xItaliano24.03.188925.03.1889Campo Bello
5309SilvestreCarlo10xItaliano24.03.188925.03.1889Campo Bello
5310SilvestreElvira5xItaliano24.03.188925.03.1889Campo Bello
5311SilvestreGiovani7mxItaliano24.03.188925.03.1889Campo Bello
5312MachinnAngelo27viuvoItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5313MachinnGiuseppe6xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5314BattanoleAngelo28cas.Italiano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5315BattanoleCezare1xItaliano24.03.188909.04.1889Campo Bello
5316RossettiLuigi16xItaliano24.03.188925.04.1889Campo Bello
5317GerattoAngelo34solt.Italiano24.03.188925.04.1889Campo Bello
5318Luigi25solt.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5319GoriGiovani Battista44solt.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5320FirmoAntonia47solt.Italiano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5321FirmoAnna39solt.Austriaco24.03.188931.03.1889Campo Bello
5322BaldoniDomenico8xItaliano24.03.188931.03.1889Campo Bello
5323PavonGio Maria54cas.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo
5324LuigiGio Maria26cas.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo
5325CasinatoGio Battista24cas.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo
5326CasinatoAngela19cas.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo

5327SalvadegoGiuseppe23solt.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo
5328PiccoloMaria52viuvaItaliano24.03.188930.03.1889São Paulo
5329PiccoloAnna16solt.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo
5330PiccoloLuigi13solt.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo
5331DozzoSebastiano22solt.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo
5332DozzoVincenzo

23solt.Italiano24.03.188930.03.1889São Paulo