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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Quando a Polenta Era o Café da Manhã, o Almoço e a Janta


 

Quando a Polenta Era o Café da Manhã, o Almoço e a Janta

Há lembranças que não têm perfume de flores. Têm cheiro de lenha queimando ainda antes do amanhecer. Têm o vapor espesso que sobe lentamente de um grande tacho de cobre, enquanto uma colher de madeira, já escurecida pelos anos, gira sem descanso sobre uma massa amarela que alimentou mais vidas do que qualquer banquete jamais poderia imaginar. Quem hoje encontra a polenta servida em travessas elegantes, acompanhada de carnes nobres e vinhos generosos, dificilmente imagina que houve um tempo em que ela não era um prato. Era o próprio destino. Era café da manhã, almoço e janta. Era o calendário da sobrevivência.

Os primeiros imigrantes italianos que chegaram às colônias da Serra Gaúcha encontraram uma terra exuberante, mas muda. A floresta oferecia madeira, água e promessas, porém não entregava pão. Antes que as videiras florescessem, antes que os trigais amadurecessem e antes mesmo que os pomares dessem sombra, existia apenas o trabalho. E o trabalho, quando não encontra alimento suficiente, aprende a conversar com a simplicidade.

O milho tornou-se um velho amigo. Adaptou-se depressa às clareiras abertas a machado. Crescia onde o trigo fracassava e onde a saudade não conseguia impedir a esperança. Bastava moê-lo no moinho da comunidade para que se transformasse naquela farinha grossa que, misturada apenas com água e um pouco de sal, produzia a refeição capaz de sustentar uma família inteira.

Não havia escolha. A abundância ainda era uma palavra desconhecida. A mesa dos colonos raramente conhecia carne fresca. As galinhas precisavam botar ovos antes de irem para a panela. Os porcos representavam uma riqueza que só podia ser abatida em ocasiões especiais. O leite era precioso demais para ser desperdiçado. O queijo exigia tempo. A manteiga exigia paciência. A polenta, ao contrário, exigia apenas fogo, farinha e braços fortes.

E braços fortes nunca faltaram naquela gente.

As mulheres despertavam antes do primeiro canto do galo. Enquanto os homens afivelavam o machado à cintura, elas já alimentavam o fogão de pedras com lenha ainda úmida do sereno da noite. A água começava lentamente a ferver. Depois vinha a farinha despejada aos poucos, evitando os grumos que denunciavam a inexperiência. A colher grande trabalhava sem descanso. Não era apenas uma receita. Era um exercício de resistência. Mexer uma panela de polenta significava preparar o dia inteiro de uma família que pisaria barro, derrubaria árvores, carregaria toras e enfrentaria um mundo que ainda estava sendo construído.

Quando finalmente ficava pronta, era despejada sobre uma tábua redonda de madeira. Não havia pratos para todos. Muito menos talheres. A faca ou um fio de barbante dividia a massa fumegante em porções iguais. Cada pedaço carregava uma justiça silenciosa: ninguém comia mais porque era mais velho; todos precisavam sobreviver ao dia seguinte.

Naquela época, a fome não fazia discursos. Apenas sentava-se discretamente à mesa.

A mesma polenta que alimentava o café da manhã voltava ao meio-dia, agora acompanhada, quando havia sorte, de algumas folhas de radicci colhidas na horta ou de um molho simples preparado com tomates da estação. À noite reaparecia outra vez, já endurecida, cortada em fatias e aquecida sobre a chapa do fogão. Às vezes bastava esfregar um dente de alho sobre sua superfície dourada para que o jantar parecesse mais generoso do que realmente era.

As crianças cresceram acreditando que aquele sabor fazia parte da própria natureza. Assim como existia chuva, frio e pinheiros, existia polenta. Não perguntavam quando haveria outra comida. Perguntavam apenas se haveria mais um pedaço.

Curiosamente, ninguém reclamava da monotonia. A repetição era um luxo reservado aos que tinham o que repetir. Para quem conhecia a insegurança das colheitas, comer a mesma refeição três vezes por dia significava, paradoxalmente, uma pequena vitória sobre a miséria.

A polenta tornou-se também uma professora silenciosa. Ensinava economia, porque nada podia ser desperdiçado. Ensinava paciência, porque não admitia pressa. Ensinava união, porque era difícil preparar grandes tachos sozinho. E ensinava humildade, pois lembrava diariamente que o essencial da vida quase sempre nasce das coisas mais simples.

Os anos passaram. As colônias prosperaram. As videiras finalmente produziram vinho. Vieram os parreirais, os salames, os queijos curados, as cantinas, as festas e a fartura que parecia impossível naqueles primeiros tempos. A polenta permaneceu sobre a mesa, mas mudou de posição. Deixou de ser necessidade para tornar-se tradição.

É curioso como a memória humana trabalha. Quando há abundância, esquecemos facilmente o sofrimento que a precedeu. Servimos polenta em restaurantes elegantes, fotografamos o prato, elogiamos sua textura cremosa e discutimos receitas. Poucos imaginam que, escondida atrás daquele amarelo dourado, existe uma história feita de calos, lágrimas e perseverança.

Talvez seja por isso que as nonas nunca permitiam que um pedaço fosse jogado fora. Não era apenas comida. Era respeito. Cada fatia carregava a lembrança dos dias em que a panela precisava alimentar muitos estômagos e quase nenhum sonho parecia possível.

Quem observa uma velha fotografia das primeiras famílias italianas dificilmente percebe o verdadeiro protagonista daquela imagem. Não é o chapéu gasto do colono, nem o vestido escuro da mulher, nem a mata ao fundo. É a invisível certeza de que, ao voltar do trabalho, haveria um tacho sobre o fogão esperando por todos.

A polenta salvou mais do que corpos. Salvou famílias da desesperança. Deu tempo para que as crianças crescessem, para que os parreirais florescessem e para que as pequenas casas de madeira se transformassem em comunidades, igrejas e cidades. Alimentou uma geração inteira até que a terra começasse finalmente a retribuir o suor recebido.

Hoje, quando a mesa está repleta e os netos escolhem entre dezenas de pratos, talvez valha a pena servir uma simples fatia de polenta e permanecer alguns instantes em silêncio. Não pelo sabor, mas pela memória. Porque dentro dela ainda vivem homens que derrubaram florestas, mulheres que enfrentaram o frio antes do nascer do sol e crianças que aprenderam, muito cedo, que a dignidade também pode ser feita de milho, água, sal e esperança.

Há alimentos que saciam a fome. Outros alimentam a história. A polenta conseguiu fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

É comum que o olhar contemporâneo associe a polenta à fartura das mesas italianas, às festas típicas e aos restaurantes coloniais onde ela chega acompanhada de carnes, molhos e vinhos. No entanto, essa imagem pertence a um tempo muito posterior ao da grande imigração italiana para o sul do Brasil. Nos primeiros anos das colônias, entre o final do século XIX e o início do século XX, a realidade era bem diferente.

As famílias que desembarcaram na Serra Gaúcha encontraram uma terra fértil, mas inteiramente coberta por matas. Antes que pudessem colher qualquer fruto do próprio trabalho, era necessário derrubar árvores, construir um abrigo, abrir caminhos, preparar o solo e esperar pacientemente pelas primeiras safras. Durante esse longo período, a alimentação era determinada muito mais pela necessidade do que pela tradição.

O milho revelou-se uma das culturas mais adaptáveis às condições locais. Produzia relativamente rápido, resistia ao clima e podia ser armazenado por longos períodos. Transformado em farinha, garantia uma refeição quente, nutritiva e suficiente para sustentar homens, mulheres e crianças submetidos a jornadas exaustivas de trabalho físico. Não se tratava de preferência gastronômica, mas de uma solução prática diante das limitações impostas pela natureza e pela escassez.

Convém lembrar que aqueles colonos chegaram praticamente sem recursos. Muitos haviam vendido tudo o que possuíam para custear a viagem ou haviam contraído dívidas para atravessar o Atlântico. Os primeiros anos foram marcados pela ausência de estradas, pela dificuldade de transporte, pela distância dos mercados e pela quase inexistência de produtos industrializados. Aquilo que hoje se compra facilmente precisava, naquela época, ser produzido pela própria família.

A diversidade alimentar surgiria apenas com o passar dos anos. À medida que os pomares amadureciam, os rebanhos aumentavam, as hortas prosperavam e o comércio se estabelecia entre as colônias, a mesa tornava-se mais variada. Até lá, a simplicidade não era uma escolha cultural, mas uma consequência inevitável das circunstâncias.

Talvez por isso a polenta tenha conquistado um lugar tão profundo na memória dos descendentes de imigrantes. Ela deixou de representar apenas um alimento para tornar-se um símbolo da capacidade humana de resistir às adversidades sem perder a esperança. Cada geração passou a enxergar naquele prato muito mais do que farinha de milho: reconheceu nele o testemunho silencioso do esforço de homens e mulheres que transformaram uma floresta em lar.

Ao escrever esta crônica, procurei recordar justamente esse significado. Não o da polenta celebrada pela culinária, mas o da polenta que sustentou vidas quando quase nada mais existia. Conhecer essa história é compreender que a prosperidade construída pelos imigrantes italianos nasceu de gestos modestos, repetidos todos os dias com coragem, disciplina e uma extraordinária confiança no futuro. Em muitas casas, antes que houvesse abundância, houve apenas trabalho. E, sobre o fogão, um tacho fumegante lembrava diariamente que a esperança também precisava ser alimentada.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 29 de julho de 2026

La Traversa de Me Nona



Na stòria de fadiga, amor e speransa tra i primi imigranti taliani del Rio Grande del Sud

La Traversa de Me Nona

Me nona la portava sempre la traversa. No zera solo par no sporcar el vesti. Chi pensa cussì no el ga mia cognossesto la vita dei primi coloni. Na traversa, ai tempi de la colónia, la valea più de tante robe care, parchè la fasea de tuto e la compagnava la dona dal cantar del gal fin che el fogo del fogolar el se spegnea. La zera sempre davanti al peto, consumà dal sudor, dal sole, da la piova e dai ani, ma ogni rimendo el contava na stòria che nissun ga mai scrito.
Quando i nostri veci i ga messo pè in sta tera de mata, no i ga trovà campi pronti, vigne, stale o orti. Ghe zera solo àlbari grossi, spin, piera e fadiga. La manara la sonava da matina fin sera e ogni tronco che cascava el parea dir che la speransa gavea ancora forsa de caminar. Ma mentre l'omo el taiava la mata, la dona la tegnia in piè la famèia. E la traversa la zera sempre là, come ´na compagna che no se lamentava mai.
Con la fadiga la fasea colar el sudor fin sora i oci, la traversa la servia par netarse la fàcia. Con la nostalgia de la Itàlia la strenzea el cuor, la stessa traversa la sugava làgreme che nissun dovea védar. No zera vergogna de pianser, ma ai nostri veci ghe zera poco tempo par farlo. El laoro el domandava sempre de pi de quel che el corpo podea dar.
Quante volte mi go visto le vècie tor su pomi, peri, patate, fasioi e panòcie con i canton dea traversa, fazendo de quela tela na sporta improvisà. Quante volte la go vista tegner do ove calde, qualche toco de pan o -na manada de nose da portar ai putei. E quante altre volte la servia par ciapar la ramina del bolo, cavar fora el paiol de polenta dal fogo o spostar na pignata sensa brusarse le man. No ghe zera roba che no podesse vegnir fata con na traversa ben ligà.
Ma el mestier pì grando de quela traversa no zera portar robe. El zera portar amore. La copriva el puteo che gavea ciapà fredo, netava le so man sporche de tera, fermava el sangue de qualche sbuciada e, dopo, con ´na caresa, fasea passar anca el pianzer. Se la mama gavea poco da meter in tola, la traversa no la podea far vegnir pì pan, ma la podea tegner insieme la dignità de ´na famèia che no domandava gnente a nissun.
Le done de la colónia no ga lassà libri, no ga fato discorsi e gnanca i so nomi i ze restà mia scriti sora le piere. La so memòria la ze restà drento le case, ´ntel profumo del pan, ´ntela polenta che boieva pian pian e ´ntei remendi de ´na traversa consumà da ani de fadiga. Le ga costruì paesi sensa farse notar, le ga fato vegnir grandi i fioi, le ga tegnesto viva la fede e le ga imparà a sorider anca quando el cuor el gavea voia de pianser.
Ancò, quando vardo na vècia traversa impicà drio na porta de cusina, no vardo solo on toco de tela. Me par de védar le man de me nona che le se move ancora, sento el profumo del fogo a legna, del pan apena sfornà e de la polenta che fuma sora la tola. Me par de sentir el silénsio de quei ani lontan, quando la ricessa de ´na famèia no la zera misurà dai schei, ma da la forsa de continuar anca dopo na zornada che parea no finir mai. Forse la stòria la se ricorda dei òmeni che i ga verto strade, butà zo la mata e tirà su le prime case. Mi, invese, credo che senza la traversa de le nostre none gnanca una de quele imprese la sarìa stada possìbile. Parché tante volte ze le robe pì semplici che, sensa far rumor, le sostegne in pè el mondo.


Nota de l'Autor

Mi go volù scrìvar sta crònica parchè, tante volte, la vera stòria no la ze sta ´ntei grandi fati che tuti i ricorda, ma ´ntele robe pìcole che el tempo ga quasi fato desmentegar. La traversa de na dona par tanti la par solo on toco de tela, ma par mi la ze un documento de carne e de fadiga, capasse de contar la vita dei primi imigranti mèio de tante fotografie o de tanti libri. Le famèie che ga verto la mata e ga fato nasser i nostri paesi le ga lassà poche robe scrite, ma le ga lassà segni che ancora incoi se pol leger co' el cuor. Una traversa consumà dal laoro la parla de povertà, de coràio, de fede, de amor de mama e de quel sacrifìssio silensioso che ga tegnù in piè generassion intiere. Se no racogliemo ancò ste memòrie, doman no resterà altro che nomi e date, mentre la vera ánima de la colónia la rischia de ´ndar sperdu par sempre. Sta crònica la ze ´na òpera de fantasia, ma la so essensa la vien da la memòria de tante famèie taliane che i ga fato de la traversa ´na compagna inseparàbile de ogni zornada. Se, dopo averla leto, qualchedun el se ricorda de la traversa de la nona, del profumo del fogolar o de ´na vècia fotografia de famèia, lora sto toco de memòria el gavarà trovà el so posto e el so significà.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

El Fogon

 


El Fogon

 

Parlo del fogon de sti ani,

parlo del fogon a legna,

parlo del fogolar d’italiani,

quel fogon su ’l qual se impara tute le robe de ’na famèia.

Sensa el fogon, no saremia gnanca vivi.

Sensa el fogon, no se podea portar avanti gnente.

Sensa el fogon, no se podea manco magnar.

El fogon a legna,

chel vecio, grande, de maton consumà dai ani,

el zera come ’n pare:

duro, testa grossa, ma sempre lì,

sempre pronto a scaldar ’l cuor de chi che ghe stà intorno.

El fogon el zera ’l cuor de casa,

come ’na barca che no se rovesa mai.

Sempre a scaldar la famèia,

sempre a ciamar drento tuti i parenti —

che i sia strachi de zugà, sudà,

o che i vegnia da la piantaion con el fredo ’nte le òsse.

El fogon el zera anca ’n maestro:

el insegnava ai primi italiani le prime parole del Brasil,

con la fiama che brusa,

con le mame che movea el brondin,

con le none che contea stòrie par no far pianser i putei.

D’inverno o d’istà,

tute le matin scomìnsia così:

el nono, la nona e ’l fogon.

El papà, la mama co el so cimarón.

I fiòi, la casa de legna,

i gati, la polenta, el pan par i tosati.

Quante patate magnà,

quante ridada, quante piandada,

e anca quante brusada, perché el fogon no perdona.

Ma ogni brusada zera ’na memòria.

Ogni bronsa zera ’na stòria.

La polenta sbulenta ’nte la cusìna,

con el fumo che sa de bon.

Intorno, la famèia:

streta, rumorosa, viva.

E là, ’nte la luse calda del fogon,

se imparava a star inseme,

a no molar,

a tegnerse drento come ’na famèia vera.

Parché el fuogon, sì, el scalda,

ma el ricorda.

El ricorda tuti quei che no ghe ze pì,

tuti quei che i ga lassà impronte ’nte la cusina,

sui muri, sui tochi de legna,

e anca ’nte i nostri cuor.

El fogon no el ze massa ’na màchina:

el ze ´n armàrio de memòrie.

E fintanto che ’na famèa la ga la bronsa viva,

gnente, gnente del mondo se pol considerar perdù.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta 

terça-feira, 21 de outubro de 2025

A Polenta: O Alimento Pobre dos Nossos Avós


A Polenta 

O Alimento Pobre dos Nossos Avós

A polenta é, ao mesmo tempo, alimento e memória: um prato simples que atravessou séculos, transformações agrícolas e oceanos para chegar à mesa dos nossos avós e ainda hoje marcar reuniões familiares, festas e lembranças. Sua história mistura ingredientes, movimentos populacionais e adaptações regionais — e, embora o milho seja hoje o ingrediente mais associado à polenta, sua linhagem é muito mais antiga e complexa.

Origens antigas: do “puls” romano ao mingau europeu

Muito antes do milho — planta americana trazida ao Velho Mundo após 1492 — existia, na Europa e no Mediterrâneo, uma papa espessa chamada puls, feita com farro, aveia, painço ou outras farinhas. Essa papa era consumida desde o Império Romano por soldados e camponeses como alimento energético e barato. Ao longo dos séculos, diferentes farinhas foram usadas conforme a disponibilidade local; a transformação para a polenta de milho só ocorreu depois que o milho se espalhou pela Europa.

A chegada do milho e a “revolução” da polenta no Norte da Itália

O milho foi introduzido na Itália a partir das Américas e, sobretudo entre os séculos XVI e XVII, tornou-se cultivo essencial em muitas regiões do Norte — Friuli, Veneto, Lombardia, Piemonte e Valtellina — substituindo parte das culturas tradicionais. Essa transição elevou o papel do mingau de milho como alimento diário: barato, nutritivo e fácil de preparar em larga quantidade. Historiadores e chefs italianos notam que a difusão do milho provocou uma verdadeira transformação alimentar no mundo rural do norte italiano.

Variedades regionais: polenta mole, polenta dura e a taragna

Nem toda polenta é igual. Existem técnicas e farinhas que mudam textura e sabor: a polenta mole (cremosa) é servida logo após o cozimento, como um mingau; a polenta dura é deixada esfriar, cortada e grelhada ou frita; a polenta mesclada, típica de regiões montanhosas como Valtellina e Bergamo, combina fubá com farinha de trigo sarraceno (também chamada grão saraceno) e recebe manteiga e queijos locais como o Casera, resultando em textura mais rústica e sabor mais forte. A polenta mesclada reflete a agricultura de montanha e a tradição de agregar gorduras e queijos para obter maior calorias e sabor. 

Técnicas tradicionais: panelão, mèstola e o gesto de mexer

A preparação tradicional, sobretudo em festas e ambientes rurais, usava o paiolo — um grande caldeirão de cobre — e uma longa colher (remo) de madeira (mèstola), já que a polenta precisa ser mexida por longos minutos para atingir a textura correta. O ritual de mexer, em família ou entre vizinhos, transformava o preparo em um momento comunitário. Hoje existem versões modernas e rápidas, mas o método clássico permanece símbolo de autenticidade. 

A polenta que atravessou o Atlântico: a Itália no Sul do Brasil

No fim do século XIX, milhões de italianos emigraram para o Brasil. Muitos desses migrantes vieram do Norte da Itália, levando consigo hábitos alimentares — entre eles a polenta. No Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), a polenta enraizou-se com adaptações locais: uso do fubá (milho moído localmente), combinação com molhos, carnes de galinha, porco, queijos e o surgimento de preparações como a polenta frita — que hoje é popular até em bares como petisco. Pesquisas acadêmicas e reportagens gastronômicas ressaltam que a polenta transformou-se em referência da culinária ítalo-brasileira e patrimônio cultural alimentar em bairros e colônias. 

Polenta na mesa e na cultura popular

Além de prato do cotidiano, a polenta teve (hoje menos) papel em festas, casamentos e almoços de domingo. Em algumas regiões italianas, pratos à base de polenta acompanham peixes de água doce, guisados de caça, ragu de carne ou simplesmente com manteiga e queijo. No Brasil, tornou-se parte da identidade ítalo-brasileira: desde a receita mais simples com manteiga até preparações mais elaboradas em restaurantes que resgatam técnicas tradicionais. Matérias jornalísticas e estudos locais mostram como a polenta funciona como elo entre memórias familiares e identidade regional. 

Receitas e sugestões práticas (breve guia)

  • Polenta mole clássica: proporção tradicional aproximada — 1 parte de fubá para 4-5 partes de água salgada; ferver a água, adicionar fubá aos poucos mexendo sempre; cozinhar em fogo baixo por 30–45 minutos até engrossar; finalizar com manteiga e queijo ralado. (Observação: proporções variam por preferência regional e tipo de farinha.)

  • Polenta dura para grelhar/fritar: despeje a polenta cozida em forma, deixe esfriar e firmar; cortar em fatias e grelhar/assar/fritar; ótimo acompanhamento para carnes e embutidos. 

  • Polenta negra ou mesclada: use mistura de fubá e farinha de trigo sarraceno; cozinhe lentamente e incorpore manteiga e queijo Casera ao final. Tradicional nas zonas alpinas.

Polenta como patrimônio imaterial e memória viva

Mais do que alimento, a polenta é símbolo de resistência e adaptação: alimento dos “pòveri” que virou prato adorado por todos, memória de jantares familiares, ponto de encontro intergeracional. Em comunidades de descendentes de italianos no Brasil, a polenta ainda é ensinada de mãe para filho, aparece em festas de paróquia e nas memórias contadas nas mesas. Estudos de antropologia alimentar e textos locais sublinham essa dimensão afetiva e identitária.



domingo, 10 de setembro de 2023

Raízes na Terra: A Jornada dos Belliner em Colônia Dona Isabel







No final do século XIX, quase no alvorecer de 1900, quando o vapor que trouxe os Belliner se aproximou do porto de Rio Grande, o coração de Antonio Belliner estava repleto de esperança e expectativa. Ao seu lado, sua esposa Maria e seus quatro filhos – Giuseppe, Carlo, Isabella e Rosa – pensavam no litoral distante do Porto de Gênova desaparecendo no horizonte, deixando para trás uma vida de dificuldades em uma Itália empobrecida, em busca de um futuro melhor nas terras férteis do sul do Brasil. Tinham deixado pequena vila onde nasceram, no interior da província de Treviso, abandonando uma vida de contínuo trabalho de gerações da família, sempre na terra de outros. Tinham em mente satisfazer o tão desejado sonho de um dia serem proprietários da terra em que trabalhavam. 

Após muitos dias de viagem pelo grande mar e pelos rios do grande estado brasileiro, onde dias viraram semanas que pareciam infindáveis, agora já no pequeno porto fluvial, com os poucos pertences e as crianças em um grande carroção puxado por mulas, a família Belliner chegou à Colônia Dona Isabel, um lugar onde as colinas verdejantes e os vales exuberantes os acolheram. Aqui, eles enfrentaram inúmeras adversidades enquanto construíam suas vidas. A avó, nonna Augusta, tornou-se o pilar da família com suas histórias e sua sabedoria ancestral, mantendo a tradição italiana viva. 

Os dois meninos, Giuseppe e Carlo, logo se tornaram inseparáveis dos campos e vinhedos. Eles aprenderam com o pai a arte da vinicultura e passaram longas horas sob o sol escaldante, cuidando das videiras que se estendiam até onde os olhos podiam ver. As meninas, Isabella e Rosa, ajudavam a mãe Maria na cozinha, preparando pratos italianos tradicionais com ingredientes locais.

A vida na colônia não foi fácil. Os Belliner enfrentaram invernos rigorosos, safras difíceis e a distância da família na Itália. No entanto, através da perseverança e do apoio mútuo, eles prosperaram. Giuseppe e Carlo eventualmente casaram com duas irmãs da vizinhança, construindo suas próprias famílias e vinícolas.

Com o tempo, a Colônia Dona Isabel prosperou, graças ao trabalho árduo e à devoção dos imigrantes italianos. A família Belliner e seus descendentes se tornaram uma parte fundamental dessa história, com suas tradições e vinícolas florescendo nas terras férteis do sul do Brasil.

Hoje, quando alguém visita à antiga Colônia Dona Isabel, ainda pode saborear o vinho premiado da Vinícola Belliner e ouvir as histórias de nonna Isabella, que atravessaram o tempo, mantendo viva a memória da jornada corajosa e do legado dos imigrantes italianos no sul do Brasil.