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segunda-feira, 2 de março de 2026

Os Pilares do Novo Mundo e a Saga de Bartolomeo Sandrigo

 


Os Pilares do Novo Mundo e a Saga de Bartolomeo Sandrigo

No outono de 1855, em um vilarejo esquecido chamado Spresiano, na província de Treviso, no coração do Vêneto italiano, nasceu Bartolomeo Sandrigo. O ar estava pesado com o cheiro de folhas úmidas e terra remexida, enquanto o Rio Piave murmurava ao fundo como um lamento eterno. A Itália recém-unificada era um caldeirão de promessas quebradas: impostos esmagadores do novo reino, terras concentradas nas mãos de poucos nobres, e uma fome que roía as entranhas dos camponeses como um lobo faminto. Bartolomeo, o caçula de sete irmãos, cresceu em uma cabana de pedra e palha, onde o pai, um mezzadro explorado, labutava de sol a sol por uma fração da colheita. "A terra nos dá vida, mas nos rouba a alma", murmurava o velho Sandrig, com mãos calejadas que pareciam raízes retorcidas.

A vida rural no Vêneto era um ciclo impiedoso. Aos dez anos, Bartolomeo já manejava a enxada nos campos de milho e trigo, enquanto epidemias de pelagra – a doença da miséria, causada por dietas pobres em niacina – deixavam marcas vermelhas na pele de vizinhos. Revoltas camponesas ecoavam pelas colinas, com padres como mediadores entre os famintos e os senhores ausentes. Bartolomeo viajava a pé até Treviso para vender ovos no mercado, onde ouvia sussurros de um mundo além-mar: o Brasil, uma terra de ouro verde, onde o governo prometia lotes de terra gratuitos para quem ousasse cruzar o Atlântico. Agentes de emigração, com cartazes coloridos, pintavam quadros de abundância, mas Bartolomeo, analfabeto como a maioria, confiava nas histórias orais. "Merica", chamavam-na, uma palavra que soava como salvação.

Aos 20 anos, em 1875, a tragédia selou seu destino. Uma geada tardia destruiu a colheita, e o pai morreu de exaustão, deixando a família endividada. Bartolomeo, alto e forte como um carvalho vêneto, com olhos castanhos que guardavam uma determinação feroz, decidiu partir. Ele vendeu o pouco que restava – uma vaca magra e ferramentas enferrujadas – e comprou uma passagem subsidiada pelo governo italiano, que via na emigração uma válvula para aliviar a pressão social. Com uma mala de madeira contendo sementes de uva, uma Bíblia gasta e o rosário da mãe, ele se juntou a centenas de conterrâneos no porto de Gênova. Lá, no caos de malas e lágrimas, encontrou Maria, uma jovem de um vilarejo vizinho, órfã e destemida, que viajava sozinha para encontrar parentes distantes. Seus olhares se cruzaram como faíscas em uma forja, plantando as sementes de um amor que desafiaria oceanos.

O navio La Sofia, um vapor enferrujado de casco de ferro, zarpou em novembro de 1875, carregando 388 almas do Vêneto e Trentino. Bartolomeo e Maria, confinados no porão úmido, enfrentaram semanas de tormentas atlânticas, onde ondas como montanhas ameaçavam engolir o casco. Doenças se espalhavam como fogo em palha seca: tifo e cólera ceifaram vidas, incluindo a de uma criança que Bartolomeo ajudou a enterrar no mar. Ele, com sua força, organizava turnos para distribuir rações minguadas de pão duro e água salobra, ganhando o respeito dos companheiros. "Somos como os antigos romanos", ele dizia a Maria durante as noites insone, "construindo um império em terras selvagens".

Mas o mar não era o único inimigo. Intrigas a bordo surgiram: um agente brasileiro, um homem astuto chamado Pereira, prometia terras férteis no Rio Grande do Sul, mas sussurros revelavam que muitos imigrantes acabavam em condições semi-escravas. Bartolomeo, com sua veia de líder nata, confrontou Pereira em uma discussão acalorada, defendendo uma família que havia sido enganada com promessas falsas. Maria, com sua inteligência afiada, costurava roupas rasgadas e contava histórias folclóricas vênetas para acalmar as crianças, tecendo laços que se tornariam vitais no novo mundo. Quando o navio atracou no porto de Rio Grande em janeiro de 1876, após uma escala em Vitória, o grupo estava exausto, mas vivo. O ar tropical, carregado de umidade e cheiro de mata virgem, era um contraste chocante com as neves do Vêneto.

O governo provincial do Rio Grande do Sul, ansioso por mão de obra após a abolição gradual da escravatura, distribuiu lotes na Serra Gaúcha, uma região montanhosa e selvagem. Bartolomeo e Maria, agora casados em uma cerimônia improvisada no porto, foram designados para a Colônia Conde d'Eu, que mais tarde se tornaria Garibaldi. A terra prometida era uma floresta densa, infestada de onças e índios kaingang, que viam os invasores como ameaça. Com machados e enxadas, Bartolomeo liderou a derrubada de árvores centenárias, construindo uma cabana de toras enquanto Maria plantava as sementes trazidas da Itália – uvas moscatel que se adaptariam ao solo vulcânico.

Os desafios eram implacáveis. Chuvas torrenciais transformavam trilhas em lamaçais, e a malária ceifava vidas como uma foice invisível. Bartolomeo contraiu a febre, delirando por dias, mas Maria, com ervas trazidas e conhecimentos populares, o salvou. Rivalidades surgiram: um fazendeiro local, o Barão de Arroio Grande, cobiçava as terras dos imigrantes e enviava capangas para intimidá-los. Bartolomeo, com aliados vênetos, organizou uma milícia informal, defendendo a colônia em uma emboscada noturna que deixou cicatrizes em sua alma. "Esta terra nos testa, mas nos forja", ele confidenciava a Maria, enquanto o primeiro filho, Giuseppe, nascia em 1878, simbolizando a raiz plantada no novo solo.

Economicamente, a colônia florescia devagar. Bartolomeo introduziu técnicas de terraceamento das colinas vênetas, prevenindo erosão, e fundou uma cooperativa para produzir vinho, inspirado nas vinhas de Treviso. Mas greves eclodiram em 1880, quando o governo atrasou pagamentos por estradas construídas pelos imigrantes. Bartolomeo, ecoando as revoltas camponesas de sua juventude, liderou uma marcha até Porto Alegre, enfrentando tropas que o prenderam por semanas. Maria, sozinha com a criança, gerenciava a fazenda, negociando com comerciantes portugueses e indígenas, revelando uma resiliência que rivalizava com a de heroínas antigas.

Pelos anos 1890, a colônia havia se transformado. Bartolomeo, agora um homem de meia-idade com barba grisalha, via suas vinhas produzirem o primeiro vinho premiado, exportado para o Rio de Janeiro. Ele construiu uma igreja de pedra, dedicada a São Roque, onde festas misturavam tarantelas italianas com danças gaúchas, forjando uma identidade híbrida. Mas o preço foi alto: um filho perdido para uma enchente, rivalidades que culminaram em um duelo com um antigo inimigo, e o peso da saudade do Vêneto. Maria, sua âncora, fundou uma escola rural, ensinando o talian – o dialeto vêneto abrasileirado – a gerações que cresceriam como ítalo-brasileiros.

Em 1910, aos 55 anos, Bartolomeo refletia em sua varanda, olhando os vales verdejantes que ele ajudara a domar. Seus descendentes, agora dezenas, espalhavam-se por Caxias do Sul e Bento Gonçalves, contribuindo para a industrialização nascente. Ele morreu em 1925, durante a Revolução Federalista, deixando um legado de resiliência. Maria viveu até 1935, contando histórias que inspiraram netos a retornarem à Itália em busca de raízes, fechando o círculo de uma saga que ecoava os pilares da terra: trabalho, amor e transformação.

Nota do Autor

A história Os Pilares do Novo Mundo: A Saga de Bartolomeo Sandrig foi escrita como uma homenagem à resiliência dos imigrantes italianos que, no final do século XIX, cruzaram oceanos em busca de uma vida melhor no Brasil, particularmente no Rio Grande do Sul. A narrativa combina detalhes históricos minuciosos com personagens fictícios complexos, refletindo as lutas, esperanças e transformações de uma geração que moldou a identidade ítalo-brasileira.

O texto foi concebido a partir do pedido de explorar a vida de um imigrante vêneto, Bartolomeo Sandrigo, nascido na província de Treviso, durante a grande onda migratória italiana (1870-1930). Escolhi o Vêneto como origem por sua relevância histórica: cerca de 30% dos imigrantes italianos no Brasil vieram dessa região, atraídos por promessas de terras e oportunidades após a unificação italiana, que trouxe crise econômica e desigualdade. A Colônia Conde d’Eu (atual Garibaldi) foi selecionada como cenário por sua importância no desenvolvimento da viticultura gaúcha, um legado vivo dos imigrantes.

Bartolomeo e Maria são arquétipos dos milhares de camponeses que enfrentaram condições adversas – desde travessias marítimas perigosas até a exploração no sistema de colonato e conflitos com fazendeiros locais. A narrativa incorpora eventos históricos reais, como a chegada do navio La Sofia em 1875 e as greves dos imigrantes, mas os entrelaça com dramas pessoais – amor, perda, rivalidades. Detalhes como o cultivo de uvas moscatel, o uso do dialeto talian e a construção de igrejas refletem a pesquisa sobre a cultura vêneta e sua fusão com o contexto brasileiro.

O objetivo foi criar uma história original, evitando plágio, que não apenas entretenha, mas também ilumine o impacto da imigração italiana no Brasil. A saga de Bartolomeo reflete a construção de uma identidade híbrida, onde tradições italianas se misturaram a elementos gaúchos, indígenas e africanos, formando a base de comunidades prósperas como Caxias do Sul e Bento Gonçalves. Escrevi este texto para honrar essas vozes esquecidas, cujas lutas e conquistas continuam a ecoar na cultura, economia e paisagem do Brasil moderno.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Sobrenomes Italianos em Vila Simonsen - Votuporanga SP

 


Sobrenomes Italianos em Vila Simonsen 

Votuporanga SP


B

Baraciolli

C

Cavalari

F

Fiorentino

L

Langoni

M

Magossi

N

Nossa

P

Perinelli

S

Selosso


Nota do Autor

Esta lista reúne sobrenomes de origem italiana presentes em Vila Simonsen, distrito de Votuporanga (SP), com o objetivo de preservar a memória das famílias que ajudaram a formar a identidade local.

Mais do que uma lista de nomes, este post é um tributo aos imigrantes e descendentes que, com esforço e esperança, construíram sua história no interior paulista.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



Lìssia O Sabão de Cinzas que Atravessou o Oceano com os Imigrantes Italianos

 


A Lìssia

 O Sabão de Cinzas que Atravessou o Oceano com os Imigrantes Italianos


Antes dos detergentes, dos sabões industriais e das prateleiras cheias de produtos de limpeza, existia algo muito mais simples — e ao mesmo tempo essencial: a lìssia. Esse nome, vindo do dialeto vêneto (base do talian falado no Sul do Brasil), designava a lixívia feita com cinzas e água, usada há séculos na Itália rural para lavar roupas e produzir sabão caseiro.

Quando os imigrantes italianos deixaram o Vêneto, a Lombardia, o Trentino e outras regiões do norte da Itália rumo ao Brasil, no final do século XIX, não trouxeram apenas malas e esperança. Trouxeram também saberes domésticos, transmitidos de geração em geração. Entre eles, estava a arte de fazer a lìssia.

O que era exatamente a lìssia?

lìssia não era o sabão pronto, mas sim o líquido alcalino extraído das cinzas da madeira. Essa solução tinha forte poder de limpeza e era usada de duas formas:

• diretamente na lavagem de roupas
• como base para fabricar sabão artesanal

Na prática, era a “química da roça”: simples, eficiente e totalmente ligada à natureza.

Como se fazia a lìssia nas colônias italianas do RS

Nas casas dos colonos, tudo começava no fogão a lenha.

  1. As cinzas da queima da madeira eram guardadas e peneiradas.

  2. Depois, colocavam-se as cinzas em um recipiente grande (às vezes um barril ou gamela).

  3. Jogava-se água quente por cima.

  4. A mistura descansava e depois era coada.

O líquido que saía era a lìssia: forte, acinzentada e altamente eficiente para remover gordura e sujeira.

Da lìssia ao sabão

Para fazer sabão, os colonos misturavam a lìssia com gordura animal, geralmente banha de porco. Essa mistura era levada ao fogo e mexida por horas até engrossar. Depois, era colocada em formas, deixada esfriar e cortada em barras.

Nascia ali o sabão colonial, usado para:

• lavar roupas
• limpar pisos
• higienizar utensílios
• até mesmo para o banho em tempos de escassez

Era um produto da própria casa — feito com aquilo que a terra e o trabalho forneciam.

lìssia como parte da cultura

Mais do que um produto de limpeza, a lìssia fazia parte do cotidiano e da identidade dos imigrantes italianos no RS. As mulheres se reuniam para lavar roupa nos riachos, nos tanques ou nos fundos das casas. O cheiro da lìssia misturada à roupa molhada era parte da paisagem da colônia.

Era trabalho duro. Mas também era convivência, troca de histórias, aprendizado passado de mãe para filha.

Da Itália ao Brasil: um saber que atravessou gerações

O que começou nas aldeias do Vêneto continuou vivo nas colônias do Rio Grande do Sul. Mesmo quando o sabão industrial começou a chegar, muitas famílias mantiveram o costume da lìssia, tanto por economia quanto por tradição.

Hoje, falar de lìssia é falar de memória, identidade e resistência cultural. É lembrar que nossos antepassados sabiam transformar cinza em limpeza, escassez em solução e trabalho em dignidade.

Conclusão

lìssia é um exemplo poderoso de como o conhecimento simples pode ser profundamente humano. Ela representa o engenho dos imigrantes italianos e a maneira como reconstruíram suas vidas no Brasil — com o que tinham nas mãos. Preservar essas histórias é preservar a alma da colônia. Se você leitor ao ler este artigo se lembrar dos seus avós preparando o sabão com as cinzas do fogão, escreva contanto a sua história nos comentários desse blog como forma de preservação da nossa cultura coletiva.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




domingo, 1 de fevereiro de 2026

La Lìssia El Saon de Cenisa che el ga Straverssà el Mar coi Imigranti Italiani


La Lìssia

El Saon de Cenisa che el ga Straverssà el Mar coi Imigranti Italiani


Prima dei detergenti, dei saon de fàbrica e dei stante pieni de prodoti, ghe zera ´na roba pì sèmplise — ma fondamental: la lìssia. Sto nome, el ze vignesto dal dialeto vèneto (la basa del talian parlà ´ntel Sud del Brasil), el vol dir la lissìvia fata de cenisa e aqua, doparà da sècoli in Itàlia rural par lavar la roba e far el saon de casa.

Quando i imigranti italiani i ga lassà el Vèneto, la Lombardia, el Trentino e altre regioni del nord d’Itàlia par vegnir in Brasil, a la fin del sècolo XIX, lori no i ga portà solo valise e speransa. I ga portà anca i saver de casa, tramandà de generassion in generassion. Tra sti, ghe zera l’arte de far la lìssia.

Cosa la zera propiamente la lìssia?

La lìssia no la zera el saon pronto, ma el lìquido forte tirà fora de la cenisa de legna. Sta solussion la gavea un gran poder de netar e la zera doparà in do maniere:

• direto par lavar la roba
• come base par far el saon fato in casa

In pràtica, la zera la “chìmica de la colònia”: sèmplisse, bona e tuta ligà a la natura.

Come che se fasea la lìssia ´nte le colònie taliane del RS

Inte le case dei colòni, tuto partia dal fogon a legna.

  1. La cenisa de la legna la vegnia tegnù e passà al setàssio.

  2. Dopo, la se metea la cenisa in ´na granda gamela o in un baril.

  3. Ghe se butava sora aqua calda.

  4. La mèscola la restava a posar e dopo la se scolava.

El lìquido che vignia fora el zera la lìssia: forte, un poco grisa e bonìssima par cavar via la sporcisia e el grasso.

Da la lìssia al saon

Con sonza de porsel o con altro grasso. La roba la vegnia messa sul fogo e mestà par ore fin che la se fasea densa. Dopo, la se meteva in forme, la se lassava fredar e la se taiava a tochi.

Nasséa cussì el saonn de colònia, doparà par:

• lavar la roba
• netar el pavimento
• lavar i utensili
• e anca par el bagno, quando ghe zera poca roba

El zera un prodoto de casa — fato con quel che la tera e el laoro dava.

La lìssia come parte de la cultura

Pì che un prodoto de netìssia, la lìssia la zera parte del zorno par zorno e de l’identità dei imigranti taliani ´ntel RS. Le done se trovava insieme par lavar le robe ´ntei fiumeti, ´ntei lavador o drìo le case. El odor de la lìssia mescolà con i strassi bagnà el zera parte del paesàgio de la colònia.

Zera fadiga dura. Ma zera anca compagnìa, stòrie contade e insegnamenti passà da mama a fiola.

Da l’Itàlia al Brasil: un saver che la ga straversà le generassion

Quel chele ze scominsià ´ntei paeseti del Vèneto el ga continuà vivo ´ntele colònie del Rio Grande do Sul. Anca quando el saon de fàbrica el s’è scominsià a vegnir, tante famèie le ga tegnesto el costume de la lìssia, par economia e par tradission.

Incòi parlar de lìssia el ze parlar de memòria, identità e resistensa culturae. El ze ricordarse che i nostri veci i savea far neto con la cenisa, far solussion con la povertà e far dignità col laoro.

Conclusión

La lìssia la ze un grande esèmpio de come el saver sèmplisse el pol èsser profondamente umano. Lei rapresenta l’ingegno dei imigranti taliani e la maniera che i ga refà la so vita in Brasil — con quel che i gavea in man.

Tegner vive ste stòrie el ze tegner viva l’ànima de la colònia.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

As Consequências da Unificação Italiana para os Vênetos a História, Identidade e o Êxodo para o Brasil


As Consequências da Unificação Italiana para os Vênetos: História, Identidade e o Êxodo para o Brasil


A Unificação Italiana é frequentemente apresentada como um triunfo nacional, mas a realidade vivida pelos vênetos após 1866 foi bem diferente. A anexação do Vêneto ao recém-formado Reino da Itália trouxe impactos profundos na economia, na cultura e no cotidiano da população. Esses acontecimentos foram decisivos para o início do grande êxodo que levou milhares de vênetos ao Brasil, à Argentina e a outros países das Américas.

Este artigo explica, de forma clara e histórica, como a Unificação Italiana alterou o destino do Vêneto e por que essa mudança resultou em uma migração sem precedentes.

O Fim de Uma Autonomia Histórica

Durante quase mil anos, a Sereníssima República de Veneza foi independente, com instituições próprias e forte identidade cultural. Mesmo após sua queda em 1797, o sentimento de pertencimento permanecia vivo entre os vênetos.

Com o plebiscito de 1866, também conhecido como Plebiscito Truffa — processo bastante controverso e amplamente questionado por historiadores — o Vêneto foi anexado ao Reino da Itália. A administração piemontesa, depois de um plebiscito de resultado duvidoso pois eivado de falhas graves, tomou o controle, substituindo estruturas tradicionais por um sistema centralizado, distante e muitas vezes incompreensível para a população rural.

Os vênetos perderam:

  • suas instituições locais,

  • parte de sua autonomia,

  • modelos de governança que existiam havia séculos,

  • a sensação de continuidade histórica.

A mudança foi percebida como abrupta e, em muitos casos, injusta.

A Crise Econômica Que Se Agravou Após 1866

A economia veneta já enfrentava dificuldades antes da unificação, mas a incorporação ao novo reino intensificou os problemas. O modelo administrativo e fiscal imposto pelo governo italiano era pesado e pouco adequado às realidades rurais da região.

Os agravantes pós-unificação incluíam:

  • Aumento de impostos sobre consumo e propriedade;

  • Serviço militar obrigatório, que retirava jovens trabalhadores do campo;

  • Concorrência desigual com regiões industrializadas;

  • Pouca modernização agrícola;

  • Endividamento crescente das famílias rurais.

Sem apoio do governo central, muitas comunidades viram a pobreza aumentar de forma irreversível.

A Imposição da Língua Italiana e o Apagamento Cultural

Outro impacto direto da unificação foi a questão linguística. O vêneto, língua histórica da região, foi substituído gradualmente pelo italiano padrão, baseado no dialeto toscano.

A partir de 1866, escolas e órgãos públicos proibiam o uso do vêneto, tratando-o como linguagem inferior ou atrasada. Crianças eram incentivadas — ou forçadas — a abandonar a língua materna. O objetivo explícito era “italianizar” a população.

Para muitos vênetos, isso representou não apenas perda de idioma, mas também de identidade, memória e pertencimento.

O Vêneto e a Desigualdade Dentro do Reino da Itália

Apesar das promessas do Risorgimento, os benefícios da unificação não chegaram igualmente a todas as regiões. O Vêneto recebeu:

  • poucas obras de infraestrutura,

  • pouca industrialização,

  • escasso investimento estatal,

  • atenção política limitada.

O sentimento de abandono cresceu. Para muitos vênetos, era claro que contribuíam com impostos elevados, mas recebiam muito pouco em troca.

O Êxodo em Massa: Quando Emigrar Era a Única Saída

Entre 1875 e 1914, o Vêneto se tornou uma das regiões que mais enviaram emigrantes ao exterior. A pobreza no campo, a falta de perspectivas e os altos impostos empurraram milhares de famílias para longe de sua terra natal.

O Brasil se destacou como destino porque oferecia:

  • terra disponível,

  • promessas de trabalho,

  • possibilidade de reconstruir a vida.

Essa migração transformou a sociedade brasileira e deu origem ao Talian, língua de contato criada nas colônias do sul do Brasil a partir de variedades vênetas.

Consequências Sociais e Históricas de Longo Prazo

Os impactos da unificação ainda ecoam na cultura veneta moderna:

  • fortalecimento da identidade regional,

  • preservação do vêneto como herança cultural,

  • movimentos autonomistas,

  • memória da emigração como parte da história familiar.

Para muitos descendentes, entender essas consequências é fundamental para compreender a própria origem.

Conclusão 

A anexação do Vêneto ao Reino da Itália em 1866 marcou profundamente a região. Perderam-se autonomia, identidade e estabilidade econômica, enquanto aumentaram impostos, pobreza e desigualdade. O resultado foi um êxodo gigantesco que trouxe centenas de milhares de vênetos ao Brasil e outros milhões espalhados por outros países europeus e das Américas.

Compreender esse processo histórico ajuda a explicar por que o Talian nasceu aqui, por que tantas famílias migraram e por que a cultura veneta é tão forte entre os descendentes brasileiros. A história da unificação italiana não é apenas política; é uma história humana de perda, adaptação e reconstrução.

Nota do Autor 

Este artigo foi escrito com base em pesquisas históricas e análises culturais sobre o impacto da Unificação Italiana na vida dos vênetos. O objetivo é oferecer aos descendentes de imigrantes italianos no Brasil um conteúdo claro, profundo e fiel aos fatos, valorizando a memória de quem atravessou o oceano em busca de um novo começo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 17 de janeiro de 2026

Quando el Paese Itàlia no Esistea Ancora La Vera Orìgine dei Emigranti Italiani in Brasil

Quando el Paese Itàlia no Esistea Ancora

La Vera Orìgine dei Emigranti Italian in Brasil


Pochi brasilian dissendenti de emigranti italiani i sa che, quando i primi emigranti italiani i ze rivai in Brasil, el Paese Itàlia el gavea apena nove ani de esistensa. In quel tempo, l’Itàlia no zera ancora ‘na nassion unìa. La penìnsola la zera composta da diversi Stati indipendenti, ciaschedun con el so governo, le so lègi, la so economia, la so cultura e le so lèngue. Par la magior parte dei emigranti italiani, l’idea de ‘na “Itàlia” come pàtria comune no esistea.

Solo dopo el processo de unificassion, conosùo come Risorgimento, e dopo el polèmico plebissito che el ga portà a l’anessassion del Vèneto, el ze nato ufissialmente el Regno d’Itàlia, governà da la Casa de Savoia, originària del Piemonte. Sta trasformassion stòrica la ga cambià el destin de milioni de persone e la ze stà lo scomìnsio de la grande emigrassion italiana verso le Americhe.

Prima de l’Unificassion: ‘Na Penìnsola Spacà

Prima de l’unificassion, el territòrio che incò ciamemo Itàlia el zera ‘na penìnsola fragmentà. Durante el sècolo XVIII e el scomìnsio del XIX, ghe zera diversi Stati sovrani, come el Regno de Sardegna, el Regno de Nàpoli, el Stato de la Cesa, el Ducà de Milan e la Serenìssima Repùblica de Venèssia.

Ognun de sti Stati el gavea ‘na identità distinta. Le tradission, le forme de laorar, le strutture sossiai e, sopratuto, le lèngue, i zera profondamente diverse. No esistea un sentimento nassional italian: le persone se sentiva vèneta, lombarde, sicilian o napoletan, ma no “italiane”.

El Risorgimento e la Nàssita de l’Itàlia

´Ntel sècolo XIX el ze scominsià el longo processo polìtico e militare ciamà Risorgimento, che el ga portà a la nassita del Stato italian. Dopo guere, rivolte e aleanse, el Regno d’Itàlia el ze stà proclamà, ma la so unità la ze stada completà solo ´ntel 1866, con l’anessassion del Vèneto.

Quel plebissito el resta ancora incò motivo de discussion. Studioso e stòrici i parla de manipulassion e irregolarità gravi, come el documenta con richessa de argomenti acusatòri el libro 1866 – La Grande Truffa de Ettore Beggiato. L’unificassion, lontan da portar benessere imediato, la ga coinsidi con ‘na crisi profonda.

Fame, Crisi e Emigrassion Italiana

´Ntei ani che ga seguì l’unificassion, fame, misèria, crisi agrària e disocupassion i ga colpì duramente sia el Nord che el Sud. El peso de le tasse e de le riforme i ga agravà la situassion dei contadin pì poveri. Par tanti, l’ùnica solussion la zera partir.

Cusì el ze nato el fenòmeno de la emigrassion italiana in massa verso le Amèriche. Milioni de persone i ga lassà le so tere in serca de un futuro mèio, portando con lori poche robe materiai ma ‘na forte identità culturae.

I Emigranti Italiani no Parlava Italian

emigranti italiani in Brasile, rivai sopratuto dopo el 1875, no i parlava italian. El motivo el ze sèmplisse: l’italian no esistea come lèngua parlada dal pòpolo. Ogni region parlava el so dialeto, che spesso el zera ‘na vera lèngua, con gramàtica e lèssico propri.

El vèneto, parlà da milioni de persone ´ntel Nord-Est, el zera uno de sti idiomi. Quando el novo Stato italian el ga dovù stabilir ‘na lèngua ufissial, el ga scelto el toscan literàrio de Dante, Petrarca e Boccaccio. Sta lèngua la ze stada imposta dal alto e la no zera compresa da la magior parte dei emigranti.

El Vèneto e l’Èsodo verso el Brasile

L’anessassion del Vèneto al Regno d’Itàlia la ga pegiorà ancora de pì la crisi económica. El mondo rurae el ze entrà in colasso, e l’emigrassion la ze diventà ‘na vàlvola de sfogo par evitar tension e ribelion sossiai.

Miaia de famèie vènete i ze partì verso el Brasil, stabilendose prinssipalmente ´ntel Rio Grande do Sul, in Santa Catarina, ´ntel Espírito Santo, oltre che in San Paolo e Minas Gerais, dove tanti i ze stà mandà a laorar ´ntele fasende de cafè dopo l’abolission de la schiavitù.

La Nàssita del Talian in Brasil

La lèngua vèneta, con le so tante varianti locae, la zera la base linguìstica de la magior parte dei emigranti del Sud del Brasil. Già durante el viàio in navio, i emigranti i se rendeva conto de la dificoltà de comunicassion tra dialeti diversi. ´Ntel isolamento de le colònie del Sud del Brasile, el ze nato cusì el Talian.

El Talian el se ga formà da la mescolansa dei dialeti vèneti, con influensse de altre region e, con el passar del tempo, del portoghese. Come pì del 50% dei emigranti del Rio Grande do Sul i zera vèneta, el vèneto el ga eserssità ‘na influesa dominante.

Incò, el Talian e el vèneto parlà in Itàlia i ze largamente comprensìbili tra de lori, anca se i ga seguìo strade diverse ´ntel tempo.

El Talian Incò Vivo in Brasil

Incò el Talian in Brasil el ze ‘na lèngua viva. Pì de un milión de brasilian lo parla fluentemente, e tanti altri lo comprende. Ghe ze scole, programi de ràdio, teatro, scritori e ricercador che i laora par conservar e difonder sto património linguìstico.

Pì de cento libri i ze stadi publicà in Talian, el dissionàrio veneto riograndense7portughese del frate Alberto Stawisnki e l’opera Vita e Stòria de Nanetto Pippeta (1924) del frate Aquiles Bernardi le ze considerà el so marco literàrio. El Talian el ze incò riconossù come la seconda lèngua pì parlada del Rio Grande do Sul, dopo el portoghese.

Nota de l’Autor

Sto testo el ze stà scrito con intento stòrico e culturae. El ga come obietivo quel de spiegar le vere orìgine dei emigranti italiani in Brasile e de valorisar la diversità linguìstica e regionae de la penìnsula italiana prima de l’unificassion. El uso del talian no vol rapresentar ‘na norma ufissial, ma conservassion de ‘na memòria viva, trasmessa de generassion in generassion.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Quando o País Itália Ainda Não Existia e A Verdadeira História por Trás das Origens dos Imigrantes

 


Quando o País Itália Ainda Não Existia e A Verdadeira História por Trás das Origens dos Imigrantes

Poucos brasileiros descendentes de italianos sabem que, quando os primeiros imigrantes desembarcaram no Brasil, a Itália como país tinha apenas 9 anos de existência. Até 1866, a península não era uma nação unificada, mas um conjunto de Estados independentes, cada qual com governo, leis, cultura e línguas próprias. Somente a partir da unificação — e após o conturbado plebiscito que anexou o Vêneto — passou a existir oficialmente o Reino da Itália, governado pela Casa de Savoia, originária do Piemonte.

Antes da Unificação: Uma Península Fragmentada

Durante o século XVIII, o território hoje conhecido como Itália era composto por diversos Estados soberanos, entre eles:

  • Reino da Sardenha

  • Reino de Nápoles

  • Estado da Igreja

  • Ducado de Milão

  • Sereníssima República de Veneza

Cada um possuía identidade distinta, com tradições, economias e línguas muito diferentes entre si. Não havia um sentimento nacional italiano — ele sequer faria sentido naquele contexto.

O Risorgimento e o Nascimento da Itália

No século XIX, iniciou-se o longo processo de unificação chamado Risorgimento, celebrado na Itália em 17 de março. Após guerras e mobilizações políticas, formou-se o Reino da Itália, considerado concluído somente em 1866, quando o Vêneto foi anexado após um polêmico e manipulado plebiscito. Pesquisadores apontam irregularidades profundas, como detalha o livro “1866 – La Grande Truffa”, de E. Beggiato.

A unificação coincidiu com um momento dramático: fome, miséria, crise agrícola e desemprego devastavam tanto o Norte quanto o Sul, alimentando o início da emigração em massa para a América.

Os Imigrantes Não Falavam Italiano

Os antepassados que chegaram ao Brasil a partir de 1875 não sabiam italiano, porque:

  1. O italiano não existia como língua nacional até a unificação.

  2. As populações se identificavam pela província, não pela nacionalidade “italiana”.

  3. Cada região falava seu dialeto próprio, muitos deles línguas inteiras com estrutura própria, como o vêneto.

Quando o novo Estado precisou definir um idioma, adotou-se o toscano literário, usado por Dante, Petrarca e Boccaccio. Assim, o “italiano” foi uma língua oficial imposta de cima para baixo — e desconhecida da maioria dos emigrantes.

O Vêneto, a Crise e o Êxodo para o Brasil

A anexação do Vêneto agravou ainda mais a crise econômica local, acelerando o colapso rural e a fuga de milhões de pessoas. O êxodo tornou-se uma válvula de escape para evitar uma possível guerra civil. O peso dessa transformação recaiu sobre os agricultores pobres do Norte e do Sul.

A maioria dos emigrantes era semianalfabeta, e seus dialetos — sobretudo após a queda da Sereníssima República de Veneza em 1797 — quase já não eram escritos. Mesmo assim, eram portadores da rica herança cultural de uma das mais poderosas repúblicas marítimas da história.

Milhares desses vênetos vieram para o Brasil, estabelecendo-se principalmente no Rio Grande do SulSanta CatarinaEspírito Santo, além de São Paulo e Minas Gerais, onde foram destinados às fazendas de café após a abolição da escravidão.

O Nascimento do Talian no Brasil

A língua vêneta, com grande diversidade interna, era o idioma da maioria dos imigrantes do Sul. No convés dos navios, eles já percebiam a dificuldade de comunicação entre dialetos distintos. No isolamento das colônias gaúchas, surgiu então uma nova língua: o Talian.

Criado a partir da mistura dos dialetos vênetos e influências de outras regiões, o Talian se consolidou como uma língua própria, rica e melodiosa. Como mais de 50% dos imigrantes do RS eram vênetos, o vêneto exerceu influência dominante na formação do novo idioma.

Hoje, o Talian e o vêneto italiano são totalmente compreensíveis entre si, embora tenham evoluído de formas diferentes:

  • O Talian incorporou palavras e construções do português ao longo de 140 anos.

  • O vêneto europeu recebeu forte influência do italiano contemporâneo.

Para muitos descendentes, o Talian é a verdadeira língua mãe.

A Presença Atual do Talian no Brasil

O Talian permanece vivo:

  • mais de 1 milhão de brasileiros falam fluentemente,

  • outro tanto o compreende,

  • há escolas, programas de rádio e escritores dedicados ao idioma,

  • existem mais de 100 livros publicados em Talian, além de dicionários,

  • a obra clássica “Vita e Stòria de Nanetto Pippeta” (1924) é seu marco literário.

Peças de teatro também são encenadas nessa língua, que hoje é considerada a segunda língua mais falada do Rio Grande do Sul, depois do português.


Nota do autor

Este texto foi escrito com o objetivo de esclarecer um ponto essencial sobre a origem dos imigrantes italianos no Brasil: muitos deles partiram de uma península fragmentada, em um período em que a Itália ainda não existia como país unificado. Ao abordar o Risorgimento, a anexação do Vêneto, a crise econômica e o surgimento do Talian no Brasil, busco aproximar os descendentes de italianos de sua verdadeira história familiar, mostrando que seus antepassados se identificavam sobretudo com suas regiões, dialetos e comunidades locais.

Mais do que narrar dados históricos, procuro valorizar a formação cultural desses imigrantes, explicar por que eles não falavam italiano padrão e destacar como o contato entre diferentes dialetos deu origem a uma nova língua viva no Brasil. A intenção é contribuir para o entendimento das raízes vênetas e italianas, da trajetória migratória e do impacto desse processo na identidade de milhões de brasileiros. Este trabalho não pretende esgotar o tema, mas incentivar a pesquisa, a preservação do Talian e o reconhecimento da verdadeira diversidade que marca a história da imigração italiana no Brasil.

Dr. Luiz C: B. Piazzetta



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Religiosidade dos Imigrantes Vênetos nas Colônias Italianas do RS: Fé, Capitéis e a Formação das Comunidades

 


Religiosidade dos Imigrantes Vênetos nas Colônias Italianas do RS: Fé, Capitéis e a Formação das Comunidades

A religiosidade dos imigrantes vênetos nas colônias italianas do Rio Grande do Sul foi um dos pilares mais profundos da formação social, cultural e moral dessas comunidades. Para esses homens e mulheres, a fé católica não era apenas uma prática religiosa, mas um modo de compreender o mundo, interpretar o sofrimento e sustentar a esperança em meio às adversidades da nova terra.

A moral dos emigrantes vênetos era guiada quase inteiramente pelos preceitos da religião católica. O divino estava presente no cotidiano de forma constante: rezavam antes do trabalho, agradeciam ao final do dia, pediam perdão pelos pecados e favores nas horas de desespero. O temor a Deus funcionava como um limite moral e, ao mesmo tempo, como uma fonte de conforto. Essa devoção permanece visível ainda hoje nos inúmeros símbolos espalhados pelas antigas propriedades e comunidades: cruzes de madeira, capitéis à beira das estradas, pequenas capelas e igrejas que marcam a paisagem rural da Serra Gaúcha.

Para esses imigrantes e seus descendentes, os fenômenos da natureza nunca eram apenas acontecimentos físicos. Tempestades, secas, geadas, enchentes e deslizamentos de terra eram interpretados como sinais da presença divina. A leitura do mundo natural estava profundamente associada à fé. Em um território desconhecido, coberto por mata fechada e marcado pelo isolamento, essa religiosidade popular surgiu como resposta direta à necessidade humana de segurança, ordem e sentido.

A religião desempenhou um papel decisivo na proteção emocional e social desses grupos. Distantes da terra natal, arrancados de suas aldeias no Vêneto, muitas vezes abandonados pelo poder público e submetidos a condições de extrema precariedade, os imigrantes encontraram na fé uma forma de resistência. A igreja não representava apenas o sagrado, mas também a única instituição capaz de criar laços de solidariedade, disciplina moral e organização comunitária.

Nos primeiros núcleos coloniais do Rio Grande do Sul, o processo de ocupação do território seguia uma lógica quase sempre simbólica: antes das casas definitivas, surgiam as cruzes; antes das estradas estruturadas, os capitéis à beira dos caminhos, conhecidos como “linhas”. Esses pequenos marcos religiosos consagravam o espaço, protegiam simbolicamente o território e delimitavam a presença comunitária. Em seguida, surgiam as capelas, quase sempre construídas de forma coletiva, com madeira bruta, telhas simples e trabalho comunitário.

Com o crescimento das colônias, essas capelas deram lugar às igrejas, que se tornaram o verdadeiro coração das comunidades. Não eram apenas lugares de oração, mas os principais centros de encontro social, de tomada de decisões coletivas e de organização da vida comunitária. Em muitas localidades, as primeiras salas de aula funcionaram dentro das próprias igrejas ou nos anexos das capelas, unindo ensino, fé e identidade cultural.

As festas religiosas, as novenas, as procissões e as celebrações dos santos padroeiros constituíam as raras oportunidades de convivência social em um cotidiano marcado pelo trabalho exaustivo e pelo isolamento. Nessas festas, os imigrantes reforçavam laços, escolhiam compadres, organizavam casamentos e reafirmavam a continuidade das tradições trazidas da Itália. A religiosidade não era apenas espiritual: era profundamente social, cultural e identitária.

Mais do que uma herança devocional, a fé foi um instrumento de construção territorial. Ao erguer um capitel, o colono não apenas expressava sua devoção, mas simbolicamente transformava a mata em espaço habitado. Assim, a religiosidade dos imigrantes vênetos não apenas moldou a espiritualidade dessas comunidades, mas estruturou a própria geografia social das colônias italianas do Rio Grande do Sul.

Ainda hoje, essa herança permanece viva nas pequenas igrejas do interior, no som dos sinos, nas festas comunitárias e na memória coletiva dos descendentes. A fé que sustentou os primeiros colonos continua sendo um dos fios invisíveis que ligam o presente às origens.

Nota do autor 

Escrever sobre a religiosidade dos imigrantes vênetos não é apenas revisitar a história, mas caminhar sobre as mesmas trilhas de barro onde homens e mulheres, quase sempre em silêncio, transformaram desespero em fé. Cada capitel perdido à beira de uma estrada rural carrega mais do que um símbolo religioso: carrega lágrimas contidas, promessas sussurradas, dores que não cabiam em palavras. 

Há algo de profundamente humano nessa fé construída em meio à solidão. Não era uma religiosidade de luxo ou de conforto, mas de urgência. Era a fé de quem não tinha a quem recorrer, a não ser ao céu. Ajoelhados sobre o chão duro da nova terra, esses imigrantes pediam não riquezas, mas força para sobreviver ao dia seguinte.

Este texto é uma homenagem silenciosa a esse povo que raramente aparece nos grandes livros de história, mas que escreveu sua própria epopeia com enxadas, rosários e lágrimas. Que cada leitor descendente reconheça, nessas linhas, não apenas fatos históricos, mas o pulsar de uma herança espiritual que ainda vive nas famílias, nas festas dos santos, nas igrejas de madeira e nos sinos que ecoam nos vales do Rio Grande do Sul. Nada disso é passado. É raiz. É identidade. É memória viva.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Nadal tra la Nèbia e la Speransa: el Nadal Vèneto tra l’Antico Véneto e le Colònie del Sud del Brasil

 


Nadal tra la Nèbia e la Speransa: el Nadal Vèneto tra l’Antico Véneto e le Colònie del Sud del Brasil


El Nadal, par la zente vèneta, no el zera mai stà solo na festa del calendàrio, ma na staion de l’ánema, un tempo suspeso tra la memòria e la promessa. Nel Veneto de na olta, tra i campi magri, le case basse de piera e le stae odorose de fien, el Nadal rivava pian, come la nèbia de desembre che se stendéa sora i fossi e i filari spogli. El fredo no zera solo ´nte l’ària, ma anca ´nte le ossa e ´nte la vita dura de na zente abituà a tirar avanti con poco, contando su la tera, su la Madona e su la fede tramandà dai veci.

Le zornade se scurtea, el sol parea stanco, e la note la siapava el comando. In sto tempo, el Nadal no portava lusso, ma silénsio e respeto. Le famèie se strinséa, no tanto par la festa, ma par la necessità de star insieme. El fogo ´ntel camin, o na candea sola, diventava sentro del mondo. La luse picina la zera segno de speransa, come ´na stela lontan che no se spegnea gnanca ´ntei ani pì duri.

Ntel Véneto rural, el Nadal zera pien de segni e credense. Se vardava el tempo: se Nadal vegniva con el sereno, l’ano novo prometéa racolti boni; se vegnea con la piova o con la neve grossa, se disea che la tera la gavaria sete o fadiga. Le done pì vècie savea leser el Nadal come un libro segreto: el vento, el canto lontan de ´na civeta, el scriciolar del legno ´ntel fogo, tuto gavaria dito qualcosa del futuro.

Quando la misèria e la fame costrinse tante famèie a lassà el Véneto, el Nadal no restò indrio. El ze vignesto verso el Brasil, lungo e doloroso, portò via case, paesi e parenti, ma no portò via el Nadal. El Nadal el viaiò ´nte la mente, ´nte le preghiere sussurà, ´nte le picie imagini de santi tegnude ben strete tra i pani. Rivà in tera nova, tra la mata fita e scura del Rio Grande del Sul, el Nadal tornò a vegnir selebrà, anca se in modo diverso.

´Nte le colònie italiane del Rio Grande, el Nadal se mescolò con el silénsio del bosco e con el suon novo de na tera selvàdega. No ghe jera campane grandi, né cese de piera, ma capele de legno, costruide con fadiga e speransa. El Nadal zera segnao dal laoro fin al’ùltimo, parchè la tera no aspeta le feste. Ma pròprio par questo, quando rivea, el Nadal diventava ancora pì precioso.

Le tradission le se ga adatà. El presèpio, fato con mùscio, legneti e sassi trovadi ´ntei dintorni, diventava un ponte tra el Véneto lassà e la nova pàtria. El Bambin Gesù no zera pì solo ´nte na grota lontan, ma anca tra le radise de na tera rossa, tra el profumo de pino e de fóie ùmide. La Madona la parea vegnir pì visin, come ´na mare che la segue i so fiòi fin in capo al mondo.

Le lende e le credense continuea a viver. Se disea che la note de Nadal, el cielo se verzea par un istante, e chi gaveria sapùo vardar con el cuor puro, gaverìa visto la benedission scender sora la colònia. Ghe zera chi credea che i animài, ´ntela stala, in sto momento sacro, i capisse el mistero pì dei cristiani e i stesse in silénsio, come in preghiera. Altri disea che le ànime dei morti, specialmente quei lassadi in Europa, le tornasse a visitar le famèie, portando conforto e memòria.

El Nadal coloniae no zera fato de tàvole riche, ma de gesti sèmplissi: un pan spartì, un piato caldo, un soriso stanco ma sincero. El valore no zera ´ntela quantità, ma ´ntela condivision. Ogni brìciola la gaverìa avùo el peso de un ringrassiamento. El Nadal insegnava che la richessa vera la stava ´ntela resistensa, ´ntela capassità de continuar a credar, anca quando tuto parea contro.

Con el passar dei ani, el Nadal del Véneto e el Nadal del Rio Grande se fondéa in un solo. El ricordo de la pàtria lontan no se perdeva, ma se trasformea. El Nadal diventava sìmbolo de identità, de apartenensa, de continuità. Na festa che no guardava solo indrio, ma anca avanti, verso i fiòi e i nipoti che gaverìa parlà na lèngua mesciada, ma che ´ntel Nadal gaveria ritrovà el filo antico de le radise.

In sto senso, el Nadal no el ze solo memòria, ma anca costrussion. El Nadal el ze ´na promessa che passa de man in man, de generassion in generassion. El Nadal el ze la certessa che, anca tra la nèbia, la mata e la fadiga, la speransa la trova sempre el modo de vegnir fora, come na candela che continua a far luse, anca quando el vento prova a spegnerla.

Nota de l’Autor 

Sto testo no el ze na stòria né na cronaca, ma na evocassion. El Nadal, par la zente vèneta e par i so discendenti, el ze na eredità invisìbile, fata de paroe no dite, de gesti ripetudi e de fede silensiosa. Scrivar in talian el ze un ato de respeto e de conservassion, parché in sta lèngua ghe ze ancora el suon del Véneto antico e el respiro de le colònie del Sud del Brasil. El Nadal, in fondo, lu el ze questo: na memòria che no more, ma che contìnua a parlar, pian, a chi ga voia de scoltar.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

El Lassà del Leon de San Marco la Stòria de l’Emigrazion Vèneta e del so Impato ´ntel Brasil



 El Lassà del Leon de San Marco: la Stòria de l’Emigrassion Vèneta e del so Impato ´ntel Brasil


Leon Alà de San Marco e l’Emigrassion Vèneta


Dopo che Venessia la ga cascà in man de le trupe de Napoleón, in quel ano maledeto de 1797, quando el ùltimo Dose, Ludovico Marin, el ga abolì la Serenìssima Repùblica dopo pì de mile e cento ani de splendor, tuto quel che incorporava el Vèneto el ga scominsià a vegnir zo soto ‘na fase negra, pien de misèria e sercà de disgràsie. Dopo la dominassion dei francese e quel austrìaco, la vita de la zente agravava a ogni ano che passava.

Quando el Vèneto el ze vignesto a far parte ´ntel Regno d’Itàlia, dopo el 1860, la situassion la ze agravà ancora de pì. La tera vèneta la zera za conossù da tanti ani par la so emigrassion de staion, spèssie d’inverno, quando tanti òmeni e done i partia par l’Àustria, la Germania e altri paesi europei. Sta emigrassion temporària rivava massa forte de le zone montagnose, ndove che, par via del fredo, no se podea far altro che un toco de agricoltura par no morir de fame. De lì vegnia la zente de Belun, Vicenza e Treviso.

Dopo el Risorgimento, i veneti i ga se catà con ‘na grande carestia, mancansa de laoro e ‘na povertà che zera sempre pì granda. Mètodi de coltivar veci, concorensa de grano che veglia de altri paesi a bon mercato, slavine, aqua alta, seca, e la mancansa de fàbriche che podesse dar pan a quei che scampava dal campo, tuti sti fatori i ga dato un colpo mortal a la region.

La fame entrava ´nte le case come un vento maledeto. La polenta zera la ùnica roba che rivea su la tola; ogni tanto un po’ de erbe. Carne, late o pan bianco i zera un lusso che quasi nissun le vedea. La magior parte dei contadini no zera i paroni de gnente: laorava par un paron, che se siapava la parte pì bona de la safra. Quando i no zera assalarià, firmava contrati pesanti de mezadria, che ghe lassava poco o quase gnente.

La poca alimentassion, par ani continuà, la ga portà fora la pelagra, ‘na malatia de la misèria che invalidava la zente par mesi, obligando a vegnir internà ´ntei pelagrosari, presenti in tante sità venete.

Con la unificassion italiana, el Vèneto el ga avù ancora pì forte la crise: disocupassion, dèbiti, tase alte… tute ‘ste robe la ga fato nàsser quel fenómeno enorme che dopo el ga se ciamà la Gran Emigrasion. Un ésodo che rare volte la stòria la ga visto uguale. Famèie intere le ga partì verso el Novo Mondo, specialmente Brasil e Argentina.

Sta prima fase de l´emigrassion durò fin al 1914, quando la Prima Guera Mundial taiò tuto par meso.

Nel 2008 ghe gera 260.849 vèneti vivendo fora, 5,4% de la populassion. I pì numerosi i zera in Brasile (57.052), dopo Svissera e Argentina. Ma ‘sti nùmari no conta davero tuto: sol in Rio Grande do Sul ghe se pol dir che ghe vive un altro Vèneto, a volte ciamà la otava provìnsia vèneta.



El Vessilo Vèneto e l’Eredità de chi che ‘l ga partì

In Brasil, i vèneti i ga scrito forse la pàgina pì luminosa de la stòria del Pòpolo Vèneto. Con la so inteligensa, la cultura, la cusina, la lèngua, la fede e la maniera de viver, i ga trasformà le foreste scure brasilian in sità vive e orgogliose, che no ga gnente de manco da le sità de la tera d’origine.

Tanti i ga lassà la so tera, i so parenti e tuto quel che i gavea, savendo che no li vedaria mai pì. El viaio el ze stà anca un modo de protestar in silénsio contro ‘na Itàlia che no gavea forsa né voia de salvar la so pròpria zente. In verità, ‘sta fuga de massa evitò anca ‘na guera sivil che zera pronta a scopiar.

Ancuò ghe ze milioni de dessendenti vèneti sparpaià sopratuto in Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, San Paolo e Espírito Santo.

La origen vèneta se pò vardar ben ´ntei nomi de tante cità brasilian:

Nova Schio, Nova Bassano, Nova Treviso, Nova Veneza, San Marcos, Nova Pádua, Monte Vêneto e Monte Bèrico.

E, in sti ùltimi ani, tanti brasilian e argentini fiòi dei primi emigranti i ga fato el viaio de ritorno, fermandose de novo in Itàlia par ritrovar le radise de la so stòria.

Nota del Autor 

Sto testo el vol far capir in modo sèmplisse ma preciso la stòria del pòpolo vèneto, da la cascada de la Serenìssima fin al gran movimento de emigrassion verso el Brasil e l’Argentina. No ze ‘na opinon, ma ‘na sìntesi de quanti studi e documenti che la stòria la ga resgistrà.

El vol mostrar perché che i vèneti i ze stà obligà a partir: misèria, crise, carestie, malatie e poca speransa. Ma anca come, passà el mar, i ga costruì un mondo novo sensa perder lèngua, cultura e fede. El Leon de San Marco e la bandiera vèneta i resta siìmboli che i emigranti i ga portà ´ntel cuor e che i dessendenti, incòi, conserva con orgòio.

Sto scritoel ze stà pensà par dar al letor ‘na visión pì granda del sacrifïssio dei nostri veci e del valor de ‘sti emigranti che, con sudor e sacriìssio, i ga fato grande el Brasil.

Dr. Luiz Carlos B: Piazzetta