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domingo, 23 de novembro de 2025

A Emigração dos Vênetos: Origens, Transformações e o Legado de um Povo em Movimento


A Emigração dos Vênetos: Origens, Transformações e o Legado de um Povo em Movimento

1. O Vêneto e o nascimento de uma terra de partida

Quando o Vêneto foi anexado ao recém-unificado Estado italiano, na década de 1860, sua porção setentrional já acumulava uma longa tradição migratória. Os habitantes das montanhas, pressionados pela pobreza e pela falta de terras, deixavam suas aldeias para trabalhar temporariamente em diversas regiões da Europa central e dos Bálcãs.

Essas partidas curtas conhecidas migração golondrina, abasteciam obras públicas, estradas, ferrovias, derrubadas de mata e inúmeros ofícios ambulantes que aos poucos viraram especialidade local: afiadores, funileiros, gravuristas, entalhadores e fabricantes de cadeiras percorriam fronteiras em busca de sustento.

2. A virada transoceânica: o salto rumo ao Brasil e à Argentina

A partir de meados da década de 1870, o movimento migratório adquiriu um novo caráter. Famílias inteiras começaram a atravessar o Atlântico, dando início às grandes correntes migratórias em direção ao Brasil e à Argentina. A década de 1890 marcou o auge desse fenômeno, quando milhares de camponeses vênetos – muitos que jamais haviam migrado antes – embarcaram para a América.

A miséria rural, a pelagra, a ausência de perspectivas e a desconfiança em relação às elites locais empurraram inúmeros lares à decisão drástica de partir definitivamente.

3. A expansão contínua de um fluxo aparentemente incontrolável

Embora o Estado italiano acreditasse que esse êxodo seria breve, o deslocamento só cresceu. Com o avanço das ferrovias e do transporte marítimo, novas rotas se abriram, tornando a mobilidade uma alternativa real para praticamente todo jovem camponês vêneto no início do século XX. A partir desse período, a migração temporária e definitiva espalhou-se para destinos europeus e outros continentes.

4. As migrações temporárias: um fenômeno pouco estudado, mas decisivo

Menos celebrada que a grande emigração para as Américas, a migração sazonal teve impacto social e cultural profundo. Em 1914, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, cerca de 170 mil vênetos foram obrigados a retornar às pressas. Muitos voltaram no ano seguinte para atender à convocação militar.

Após o conflito, as partidas recomeçaram com vigor: rumo às Américas, às áreas rurais despovoadas do sul da França e até à distante Austrália.

5. Entre o trabalho, o exílio e o fascismo

O fluxo migratório não envolvia apenas trabalhadores. A partir dos anos 1920, opositores políticos fugiram da violência fascista, ao mesmo tempo em que o regime moldava e restringia a mobilidade dos demais. Mesmo assim, a migração interna se intensificou, especialmente com o povoamento do Agro Pontino e de outras regiões em processo de colonização.

6. A busca por trabalho na Europa e no mundo após 1938

Com acordos bilaterais entre Itália e Alemanha a partir de 1938, muitos vênetos foram enviados como mão de obra para o Terceiro Reich. Essa política se manteve após a Segunda Guerra Mundial. A reconstrução europeia exigia trabalhadores, e o Vêneto respondeu: Bélgica (1946), França (1946), Suíça (1948), Argentina (1948), Venezuela (1949), Brasil (1950), Austrália (1950), Canadá (1951).

Grande parte desses migrantes enfrentou condições precárias, empregos pesados e vigilância severa nos países de destino.

7. A virada dos anos 1960 e a transformação do Vêneto em terra de chegada

O saldo migratório do Vêneto só mudou ao final dos anos 1960, quando retornos aumentaram e novas partidas rarearam. Nos anos 1980, um fenômeno novo emergiu: o Vêneto passou a receber trabalhadores estrangeiros de países pobres ou instáveis, transformando-se lentamente em região de imigração.

8. A emigração definitiva: identidade, memória e reconexão

As grandes ondas migratórias – especialmente as de 1890, 1920 e 1950 – tornaram-se objeto de estudo, além de inspirarem iniciativas culturais voltadas a reencontrar descendentes espalhados pelo mundo. Brasileiros, argentinos e australianos de origem vêneta têm buscado suas raízes, reconstruindo vínculos afetivos que muitas vezes foram rompidos por saídas marcadas pela dor e pelo ressentimento.

Essas diásporas criaram comunidades vibrantes e, em diversos casos, indivíduos de grande projeção social.

9. O silêncio da migração temporária e o apagamento da memória

Enquanto a emigração definitiva ganhou espaço nas narrativas oficiais, a migração temporária permaneceu esquecida. Muitos trabalhadores retornados eram recebidos com frieza ou desinteresse, e suas experiências foram apagadas, como também aconteceu com veteranos da Segunda Guerra ou prisioneiros que voltaram da Alemanha.

Só recentemente suas histórias começaram a ser registradas.

10. O “verdadeiro Vêneto”: entre o enraizamento e o impulso para partir

Pesquisas indicam que o Vêneto do século XIX não era homogêneo como se costuma imaginar. Havia uma convivência constante entre dois tipos de grupos:
• os que permaneciam — agricultores, guardiões das tradições locais;
• os que partiam — trabalhadores habituados à mobilidade, à improvisação e à mudança.

Com o passar das décadas, essas identidades se misturaram, formando uma sociedade capaz de equilibrar tradição e inovação, estabilidade e ousadia. Esse híbrido cultural foi fundamental para o desenvolvimento econômico do século XX.

11. A mobilidade como essência vêneta

Estudos mostram que a maioria dos homens rurais nascidos entre 1880 e 1930 viveu ao menos uma experiência migratória. Essa mobilidade contrasta com a imagem clássica do camponês imobilizado à terra. A migração transformou comunidades, abriu horizontes e alimentou um ciclo contínuo entre partir e retornar.

12. Um futuro moldado por novos encontros

Hoje, a dinâmica se renova: o diálogo entre os antigos vênetos e os novos imigrantes que chegam ao território. É um processo complexo, que exige compreensão e gestão, mas que também pode gerar novas sínteses sociais, assim como aconteceu no passado.

Nota do Autor

Este texto apresenta uma visão ampla e reinterpretada da história migratória dos vênetos, abordando desde as primeiras partidas sazonais até as grandes ondas transoceânicas. A narrativa reorganiza os fatos, contextualiza mudanças sociais e destaca como a mobilidade moldou a identidade cultural da região. Ao reestruturar a história em seções temáticas, busca-se oferecer uma leitura mais clara, atualizada sem comprometer o rigor histórico.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



domingo, 16 de novembro de 2025

A Emigração Vêneta: Origem, Transformações e Impacto Global

 

Família de emigrantes italianos do Vêneto partindo para a América no final do século XIX.

A Emigração Vêneta: Origem, Transformações e Impacto Global

A história completa da mobilidade vêneta do século XIX ao século XX

A trajetória da emigração vêneta é uma das mais marcantes da história italiana. Entre o século XIX e meados do século XX, centenas de milhares de habitantes do Vêneto deixaram seus vilarejos, movidos pela pobreza, pelas crises agrárias e pelas transformações políticas que sacudiam a recém-unificada Itália. Essa mobilidade — temporária ou definitiva — moldou profundamente a cultura, a economia e a identidade regional.

1. Raízes da Mobilidade: O Vêneto Pré-Unificação

Muito antes da unificação italiana, o norte do Vêneto já vivia intensos fluxos migratórios. As populações das áreas alpinas praticavam a emigração sazonal, deslocando-se para a França, Suíça, Balcãs e Europa Central para trabalhar em obras públicas, serrarias, estradas, ferrovias e atividades artesanais.

Alguns vilarejos tornaram-se especialistas em ocupações específicas: funileiros, afiadores, entalhadores, fabricantes de cadeiras, vendedores ambulantes e gravuristas. Essa tradição formou uma cultura de mobilidade que mais tarde ampliaria o grande êxodo.

2. O Início do Êxodo Transoceânico (1870–1890)

A partir da década de 1870, começou uma mudança radical: famílias inteiras do Vêneto passaram a embarcar para o Brasil e a Argentina.
A grande emigração atingiu seu pico por volta de 1890, levando camponeses de todas as províncias, inclusive aqueles que jamais haviam migrado.

Fatores determinantes:

  • miséria rural persistente,

  • pelagra,

  • pressão demográfica,

  • falta de oportunidades,

  • descrença na classe dirigente,

  • crise política e fiscal do novo Estado italiano.

Cerca de um quinto da população rural vêneta deixou sua terra nesses anos.

3. O Século XX e o Aprofundamento da Emigração

Apesar das expectativas governamentais de que o fenômeno diminuiria, o movimento continuou crescendo. O avanço ferroviário e marítimo abriu caminho para destinos ainda mais distantes: Austrália, Estados Unidos e o sudoeste francês.

A emigração temporária — menos estudada, porém essencial — sustentou famílias inteiras e contribuiu para dinamizar economias locais, criando uma ponte constante entre os vilarejos e a experiência internacional.

4. A Ruptura da Primeira Guerra Mundial

Em 1914, a eclosão da Grande Guerra provocou a volta forçada de cerca de 170 mil venetos. No ano seguinte, muitos retornaram ao front para cumprir o chamado às armas.
Terminada a guerra, o ciclo migratório recomeçou com ainda mais intensidade, abrangendo tanto partidas definitivas quanto sazonais.

Exilados políticos, perseguidos pelo fascismo, também engrossaram esse fluxo.

5. A Era Fascista e a Redefinição dos Destinos Migratórios

A crise de 1929 e as políticas restritivas do regime modificaram rotas, mas não reduziram substancialmente o número de partidas.
Nesse período:

  • milhares migraram internamente para o Agro Pontino,

  • outros foram enviados às colônias africanas,

  • mulheres tiveram participação crescente no trabalho sazonal,

  • e o acordo ítalo-alemão de 1938 direcionou mão de obra para a Alemanha nazista.

6. O Pós-Guerra e a Diáspora Global (1946–1960)

Terminada a Segunda Guerra Mundial, iniciou-se uma nova onda massiva de emigração, desta vez amparada por acordos bilaterais:

  • Bélgica (1946) – minas de carvão

  • França (1946) – operariado industrial e agrícola

  • Suíça (1948) – trabalhadores sazonais

  • Argentina (1948)

  • Venezuela (1949)

  • Brasil (1950)

  • Austrália (1950)

  • Canadá (1951)

Vênetos ocuparam os trabalhos mais duros, muitas vezes sob vigilância policial e vivendo em alojamentos precários.

7. Retornos, Mudanças e a Inversão do Fluxo (1960–1980)

Nos anos 1960, o saldo migratório do Vêneto tornou-se positivo: mais pessoas voltavam do que partiam.
A prosperidade italiana, aliada ao desenvolvimento industrial do nordeste, reduziu drasticamente as saídas.
Na década de 1980, ocorreu um fenômeno inédito: o Vêneto passou a receber imigrantes de países como Marrocos, Albânia, Gana, Senegal e China.

A antiga terra de emigrantes tornava-se terra de acolhida.

8. O Impacto Cultural, Econômico e Identitário da Emigração Vêneta

A emigração definitiva foi amplamente estudada e valorizada — especialmente por comunidades italianas no Brasil, Argentina e Austrália, onde descendentes preservaram tradições, dialetos e memórias familiares.

Entretanto, a emigração temporária permaneceu marginalizada. Muitos trabalhadores que retornaram ao Vêneto foram recebidos com indiferença e precisaram apagar suas experiências para se reintegrar.
A cultura oficial levou décadas para reconhecer seu papel fundamental na formação da sociedade moderna vêneta.

Essa mobilidade criou um “Vêneto dual”:

  • dos que ficavam,

  • e dos que partiam.

A fusão dessas duas mentalidades — estabilidade e espírito aventureiro — ajudou a formar o dinamismo econômico das décadas seguintes.

9. O Legado Contemporâneo

Hoje, a região encara um novo desafio: integrar sua identidade histórica a novos fluxos migratórios.
Assim como no passado, a convivência entre diferentes povos pode gerar tensões, mas também inovação e renovação cultural.

A história ensina que a força do Vêneto sempre esteve na capacidade de transformar movimento em oportunidade.


NOTA EXPLICATIVA

A emigração vêneta representou um dos movimentos humanos mais enriquecedores para os países que tiveram a fortuna de receber esses imigrantes. Com sua cultura do trabalho, disciplina, espírito comunitário e forte capacidade de adaptação, os vênetos contribuíram decisivamente para o desenvolvimento agrícola, urbano, econômico e cultural de diversas regiões do mundo. No Brasil, na Argentina, na Austrália e em tantos outros destinos, deixaram marcas profundas na arquitetura rural, na organização social, nas tradições, na gastronomia e no empreendedorismo. A presença desses imigrantes não apenas impulsionou economias locais, mas também ajudou a moldar identidades regionais, somando valores, técnicas e modos de vida que continuam vivos até hoje. Trata-se de um legado que ultrapassa fronteiras e permanece essencial para compreender a formação moderna desses países.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 19 de abril de 2025

Os Ventos de Esperança

 

Os Ventos de Esperança

Em 1892, Giulia Salve se despediu do pequeno vilarejo de Monteferro, na costa da Itália, com o coração dividido entre o medo e a esperança. Com apenas 25 anos, deixou para trás a mãe viúva, Anna, e a irmã mais nova, Lucrezia, que choravam enquanto o vapor La Fortuna partia lentamente do porto de Nápoles em direção às Américas. Giulia sabia que sua decisão de partir era um sacrifício, mas também a única chance de oferecer um futuro melhor para sua família.

O embarque fora marcado por cerimônias emocionantes. Antes de pisar no navio, um padre abençoou os viajantes como se eles estivessem prestes a enfrentar a morte. “É um ato de fé,” dizia ele, distribuindo pequenos crucifixos para os que embarcavam. Giulia guardou o seu no bolso do vestido, segurando-o com força enquanto a terra desaparecia no horizonte.

A bordo, a realidade era um misto de caos e resignação. Giulia compartilhava o convés com suas inseparáveis companheiras, Teresa Marinelli e Antonia Fiori, além de dezenas de outros emigrantes. Eram 23 dias de travessia no oceano, marcados pelo calor sufocante, pelas tempestades e pelo cheiro penetrante do mar. No pequeno espaço que dividiam, não havia privacidade, e cada centímetro de madeira era disputado por pessoas e seus escassos pertences.

Os primeiros dias foram os mais difíceis. O balanço do navio provocava náuseas incessantes, e os enjoos eram tão intensos que muitas vezes nem conseguiam comer o pão duro que recebiam como refeição. As noites, por sua vez, eram povoadas pelo choro de crianças, gemidos de idosos e os rangidos constantes do casco.

No quinto dia, a morte visitou o vapor. Um idoso, já debilitado, não resistiu à febre que o consumia, e um menino de apenas três anos sucumbiu logo em seguida. Giulia jamais esqueceria o som das preces murmuradas enquanto os corpos eram lançados ao mar. “Os peixes farão o enterro,” comentou Teresa, tentando esconder a voz embargada. A cena deixou marcas profundas em todos, e a atmosfera tornou-se ainda mais pesada.

Apesar disso, havia momentos em que a esperança emergia entre as dificuldades. Durante as noites, um violinista napolitano tocava músicas de sua terra, e os passageiros se reuniam para cantar, aprendendo canções argentinas trazidas por aqueles que já conheciam o destino. Giulia, com sua voz doce, era frequentemente chamada para cantar e, por um breve instante, as notas musicais faziam o oceano parecer menos vasto.

Ela escrevia mentalmente cartas para a mãe e a irmã, narrando tudo que vivia. “Mamãe, aqui há um mundo novo, cheio de vozes de todas as partes: poloneses, húngaros, judeus, e nós, italianos, cada um falando sua própria língua, como na Torre de Babel que o padre nos ensinou.”

Enquanto o navio seguia sua rota, Giulia e suas companheiras começaram a formar laços com outros viajantes. Ela se tornou próxima de uma jovem da Puglia chamada Maria e de uma família judaica que estava em busca de segurança na América do Sul. Trocaram histórias, receitas e até algumas palavras de seus idiomas nativos.

Giulia também era uma fonte de força para os outros. Quando o desespero tomava conta, ela incentivava: “Coragem, estamos perto de um novo começo.” Ela sabia que, mesmo com o coração pesado de saudades, o futuro dependia de sua capacidade de resistir.

Quando finalmente avistaram as luzes de Buenos Aires, a emoção foi avassaladora. Giulia sentiu lágrimas rolarem por seu rosto, misturando-se ao vento salgado do mar. Mas ao desembarcar, ela percebeu que os desafios estavam apenas começando.

Nos primeiros dias na nova terra, Giulia e suas amigas enfrentaram o desconhecido. As ruas eram agitadas, com pessoas gritando em línguas que mal entendiam. Encontrar trabalho foi uma tarefa árdua, mas Giulia conseguiu um emprego como costureira em uma fábrica, enquanto Teresa e Antonia se empregaram na lavoura. Juntas, dividiam um pequeno quarto nos arredores da cidade e economizavam cada centavo para enviar notícias e dinheiro para suas famílias na Itália.

A vida na Argentina trouxe uma mistura de dificuldades e pequenas vitórias. Giulia nunca deixava de escrever para a mãe e Lucrezia, descrevendo as peculiaridades do Novo Mundo. “Mamãe, aqui há sol, mas falta o calor do lar. Tenho fé de que um dia nos reencontraremos.”

Nos momentos de folga, Giulia se dedicava a aprender espanhol com seus colegas de trabalho, determinada a se integrar. Ela também começou a participar de encontros na comunidade italiana local, onde conheceu pessoas que haviam passado pelas mesmas provações. Esses encontros não eram apenas um consolo, mas uma oportunidade de trocar experiências e estratégias para prosperar.

Com o passar dos anos, Giulia conseguiu trazer sua mãe e sua irmã para a Argentina, reunindo finalmente a família. O pequeno vilarejo de Monteferro continuava vivo em suas memórias, mas a nova terra tornou-se um símbolo de esperança e resiliência. Giulia tornou-se uma figura importante na comunidade, ajudando outros emigrantes a se adaptarem e a enfrentarem os desafios com coragem e determinação.

Mesmo décadas depois, as noites no convés do La Fortuna continuavam vivas em sua memória, como um lembrete de que, mesmo em meio às adversidades, é possível construir uma nova vida e encontrar um novo lar.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

A Imigração Italiana na Argentina: Mi emigro par magnar



No anos finais do século XIX e início do século XX na América do Sul, tanto a Argentina como o Brasil, se constituíram na terra prometida para aqueles que deixavam a Itália. 
No caso da Argentina os imigrantes italianos foram os mais numerosos neste verdadeiro êxodo que esvaziou os campos e as pequenas cidades italianas de norte ao sul do país. Foi uma corrida desenfreada, na qual desembarcaram na Argentina em quantidades crescentes nos anos de 1886 a 1889. Foram cerca de 43.000, 67.000, 75.000, 88.000 respectivamente. 
Em 1889 a prosperidade platina atingiu seu auge e em 1890 quando veio uma grande crise crise no país atingindo os recém chegados imigrantes. O fluxo migratório para a Argentina foi o maior entre aqueles para as Américas. A maioria dos imigrantes era proveniente das províncias do norte da Itália. O período de maior entrada de imigrantes italianos na Argentina foi aquele entre os anos de 1876 até 1925. 
"Mi emigro par magnar..." assim se expressou um imigrante às autoridades portuárias tão logo desembarcou na nova terra. Os interesses dos grande empresários, principalmente do setor agrícola estavam sendo atingidos com aquela fuga em massa e o parlamento italiano fez algumas tentativas isoladas para frear essa grande saída de mão de obra necessária para a Itália, criando algumas leis que dificultava a emigração. Assim responderam os emigrantes "Ma se intanto mi no magno! Come se ga da fare a spetar
Sem dúvida, este não foi o único motivo que fez milhões de italianos deixarem as suas terras e empreenderem uma difícil viagem para o outro lado do oceano. Muitos jovens emigraram para fugir de suas famílias, outros esperavam fazer fortuna, outros, finalmente, perseguidos pelas autoridades foram forçados a deixar a Itália por motivos políticos.
A imigração italiana para a Argentina é um fenômeno que se prolongou, se bem que com menor intensidade, até o ano de 1959. Os italianos que chegaram à Argentina no século XIX partiram de todas as regiões da Itália, especialmente do norte, como: Piemonte, Liguria, Lombardia e Vêneto. No século XX saíram do sul da Itália, desde a Calabria, Campania e Sicilia. 
Em 1853, a Argentina tornou-se uma república federal. O governo platino empenhou-se no projeto de colonização agrícola estatal atraindo uma grande parte daquelas populações migrantes da Europa. A partir desse período ocorreram as primeiras tentativas de imigrantes italianos em adquirir terrenos das províncias ou diretamente do governo federal argentino. 
Nos primeiros anos chegaram pequenos grupos de imigrantes, mas entre 1860 e 1878, a aquisição de grandes porções de terras deu um impulso significativo à política fundiária do governo.
A imigração em massa para a Argentina só pôde acontecer, primeiro pela Constituição do país de 1853, que deu a liberdade de imigração e em segundo lugar pela Lei de Imigração e Colonização de 1876 que criou algumas facilidades para os imigrantes, tais como: hospedagem gratuita por cinco dias, passagem de trem gratuita para o interior do país, escritório de emprego, promessas de concessão de terras públicas, que na prática teve efeitos limitados. Apesar disso a dificuldade de integração foi considerável. 
A Comissão de Imigração nasceu com a finalidade de criar condições para o aumento da produção agrícola e incentivar a imigração de camponeses para o país. A produção agrícola argentina era insuficiente para as necessidades nacionais: os cereais eram importados pagando-os com o produto da venda da carne.