- Dona Isabel (Bento Gonçalves) – 1874
- Conde d’Eu (Garibaldi) – 1874
- Fundos de Nova Palmira (Caxias do Sul) – 1875
- Silveira Martins – 1877
- Álvaro Chaves (Veranópolis) – 1884
- São Marcos e Antônio Prado – 1885
História do Vêneto e da grande emigração italiana, quando milhões deixaram a Itália entre os séculos XIX e XX em busca de uma vida melhor no Brasil e no mundo. Contato com o autor luizcpiazzetta@gmail.com
Fios de Resistência – A Agulha e a Linha nas Mãos das Mulheres Italianas na Serra Gaúcha
Nas décadas finais do século XIX e inícios do XX, quando as famílias italianas, fugindo da penúria do Vêneto, do Friuli e da Lombardia, aportavam nas colônias serranas do Rio Grande do Sul, a habilidade de manejar agulha e linha constituía para as mulheres muito mais do que um simples ofício doméstico: era um pilar de sobrevivência, dignidade e continuidade familiar.
A dona de casa imigrante acordava antes do sol e, entre o preparo da polenta, o cuidado com os filhos pequenos e as tarefas do pomar ou da lavoura miúda, reservava as horas noturnas — ou os raros momentos de pausa — para a costura. Com tecidos rústicos, muitas vezes reaproveitados de roupas antigas ou comprados com enorme sacrifício nas poucas lojas da vila, ela confeccionava camisas, calças, vestidos, aventais, roupas de baixo e até os modestos trajes de domingo. Cada ponto era dado com precisão paciente, à luz fraca de lampião a querosene ou, mais tarde, com o abençoado ronronar da máquina de pedal — um bem precioso que, adquirido após anos de economia, representava progresso palpável. A costura não apenas vestia os corpos; preservava o pudor, a decência e o orgulho de uma família que, em terra estranha, recusava-se a parecer indigente.
A moça que dominava essa arte carregava consigo um saber ancestral, transmitido de mãe para filha nas vilas italianas e que, no Brasil, ganhava contornos de urgência quase sagrada. Saber costurar significava independência relativa em meio à dependência: a menina que aprendia cedo a fazer bainhas retas, a pregar botões firmes e a cortar moldes sem desperdício tornava-se, aos olhos da comunidade, uma promessa de esposa capaz, de mãe provedora, de mulher resiliente. Naquele contexto de isolamento rural, onde o comércio era distante e os salários escassos, a ausência dessa competência poderia condenar uma família inteira a trapos ou dívidas.
Com o passar dos anos, à medida que as colônias se consolidavam e as cidades vizinhas cresciam — Caxias, Bento Gonçalves, Garibaldi —, muitas daquelas mãos habilidosas transcenderam o âmbito estritamente familiar. A necessidade de roupas prontas aumentava, e o que antes era gesto de afeto e economia transformou-se, para algumas, em ofício remunerado. Surgiram então as sartas, as costureiras profissionais que atendiam encomendas de vizinhos, de comerciantes locais e, mais tarde, de pequenas oficinas. Sentadas à janela ou em ateliês improvisados, elas cortavam, alinhavam e acabavam peças com esmero que misturava a tradição véneta ao gosto gaúcho emergente. O trabalho, ainda árduo e mal remunerado, permitia contudo um ganho próprio, uma pequena autonomia financeira que aliviava o peso do lar e, por vezes, garantia a educação de um filho ou a compra de um lote melhor.
Assim, a costura foi, para a mulher imigrante italiana no Rio Grande do Sul, fio condutor de memória e de esperança. Cada costura dada era um ato de resistência silenciosa contra a adversidade, um modo de tecer raízes em solo novo, de vestir sonhos modestos com a dignidade que a pobreza não conseguiu arrancar. E, nas dobras daqueles tecidos simples, guardava-se não só o suor de muitas noites, mas a essência de uma geração que, com linha e agulha, ajudou a construir a alma da Serra Gaúcha.
Nota do Autor
Entre a enxada que rasgava a terra e o machado que abria clareiras na mata, havia também a agulha que, silenciosamente, costurava a continuidade da vida. A mulher da imigração italiana na Serra Gaúcha não apenas vestia a família — ela restaurava a dignidade em cada bainha, reforçava a esperança em cada botão pregado, sustentava o futuro em cada molde recortado com economia e precisão. Naquelas casas de madeira, iluminadas por lamparinas trêmulas, a costura era gesto de amor e estratégia de sobrevivência. Tecidos simples ganhavam forma sob mãos disciplinadas, herdeiras de saberes trazidos do Vêneto, do Friuli e da Lombardia. A linha que atravessava o pano era também a linha invisível que ligava gerações, preservando identidade, honra e pertencimento. Recordar essas mulheres é reconhecer que a história da imigração italiana no Rio Grande do Sul não foi construída apenas com força física, mas também com delicadeza firme. Foi no silêncio das noites de costura que muitas delas ajudaram a moldar a alma econômica e cultural da Serra Gaúcha, transformando necessidade em ofício e ofício em resistência.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
O Longo Caminho dos Imigrantes Italianos até a Serra Gaúcha
Para dar seguimento ao grande projeto de trazer milhares de agricultores italianos para a província do Rio Grande do Sul, o governo imperial iniciou a construção de uma estrada na localidade de São Sebastião do Caí, para facilitar a viagem dos imigrantes e também, já pensando no escoamento dos produtos agrícolas das colônias, mas, esta só foi entregue em 1884. Foi dado a ela o nome de Estrada Rio Branco. Os imigrantes italianos chegavam no Rio Grande do Sul através de navios que atracavam no porto da cidade de Rio Grande. A partir de Pelotas, aqueles que tinham como destino final as Colônias da Serra Gaúcha, entravam na Lagoa dos Patos e desembarcavam em Porto Alegre. Depois de um parada de alguns dias, instalados nos barracões que serviam de hospedaria, aguardavam a ordem de partida para o seu destino final. Da capital gaúcha embarcavam em pequenos barcos a vapor, para uma viagem de 12 horas, subindo o Rio Caí, até o porto dos Guimarães, ponto final navegável do rio, na cidade de São Sebastião do Caí. Aqueles imigrantes que tinham como destino final as Colônias de Conde d'Eu, atual Garibaldi, e Dona Isabel, hoje Bento Gonçalves, desembarcavam um pouco antes, na cidade de Montenegro e essa viagem durava 7 horas. Os imigrantes destinados à Colônia de Caxias desembarcavam em São Sebastião do Caí. Os imigrantes embarcavam em lanchas ou em grandes barcos a vapor, conforme a altura das águas do rio. Entre as cidades de Montenegro e São Sebastião do Caí existia na época uma barragem com comportas, que regulavam a altura das águas do rio. Esta barragem com comportas foi a primeira da América do Sul e ficava no município de Pareci.
Nos primeiros anos da imigração italiana a trilha ficava no meio da mata e os imigrantes pioneiros abriam caminho com foices e facões. Existia um antigo paradouro onde descansavam para enfrentar o pior trecho, a penosa subida da Serra, que demorava três dias e três noites. Na foto acima o antigo Porto de São Sebastião do Caí anos depois em 1910, com o vapor Salvador atracado quando então ainda não havia um cais e os carroções com os pertences dos primeiros imigrantes com destino a Colônia de Caxias, precisavam subir uma forte rampa no barranco do rio. Ao fundo pode-se ver também a densa floresta, por onde as caravanas de carroças deviam passar em direção ao alto da Serra.
Alguns anos mais tarde, quando as três Colônias da Serra Gaúcha já estavam com a lotação completa, os imigrantes italianos que chegavam eram levados para a recém criada Colônia Silveira Martins, próximo a cidade de Santa Maria, a qual ficou conhecida por Quarta Colônia, por ter sido a quarta a ser criada pelo governo brasileiro. Em Porto Alegre embarcavam em pequenos barcos a vapor, subindo pelas água do Rio Jacuí e desembarcando na cidade de Rio Pardo. Desta cidade faziam o trecho restante até a colônia, a pé ou carroças, através da localidade de Val de Buia.
Nota do Autor
Este texto apresenta, em linguagem acessível, um resumo do percurso realizado pelos imigrantes italianos até as colônias da Serra Gaúcha, destacando os caminhos fluviais, as trilhas na mata e os esforços físicos envolvidos nessa jornada. Mais do que uma descrição de rotas, ele busca revelar a dimensão humana da imigração: o cansaço, a esperança e a determinação de famílias que deixaram a Europa em busca de terra, trabalho e dignidade no Brasil.
Ao narrar essas travessias, o objetivo é valorizar a memória dos que enfrentaram rios, serras e florestas para construir novas comunidades no Rio Grande do Sul. Trata-se de um convite à reflexão sobre como a infraestrutura, o território e a cultura se entrelaçaram na formação das colônias italianas e na história do estado.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta
A Colonização Italiana no Rio Grande do Sul e a Formação da Serra Gaúcha
O território que hoje forma o Rio Grande do Sul foi, durante séculos, uma área estratégica e disputada entre as coroas de Portugal e Espanha. Somente no século XVIII o povoamento passou a ocorrer de forma mais consistente, com o objetivo de garantir domínio político e ocupação efetiva da fronteira sul do Brasil. A partir daí, a região começou a se estruturar como província, com vilas, estâncias e núcleos agrícolas.
No século XIX, o Império do Brasil adotou políticas de colonização para ocupar áreas pouco povoadas e estimular a produção agrícola. A imigração europeia passou a ser vista como solução econômica e social, especialmente diante do enfraquecimento do sistema escravista. Foi nesse contexto que, em 1875, chegaram ao Rio Grande do Sul os primeiros grupos organizados de imigrantes italianos.
As primeiras colônias destinadas aos italianos foram Dona Isabel (atual Bento Gonçalves), Conde d’Eu (hoje Garibaldi) e Campo dos Bugres, que se tornaria Caxias do Sul. Pouco depois, também se consolidaram núcleos como Nova Palmira, na localidade de Nova Milano (atual Farroupilha), e a Colônia Silveira Martins, próxima à atual Santa Maria.
Esses imigrantes vinham, em sua maioria, do norte da Itália, especialmente das regiões do Vêneto, Lombardia, Trentino-Alto Ádige e Friuli. Estima-se que cerca de 54% eram vênetos, seguidos por 33% lombardos, além de trentinos, friulanos e outros grupos menores. Essa composição explica por que a cultura vêneta se tornou dominante em grande parte da serra gaúcha.
Ao chegarem, os colonos encontraram terras cobertas por mata fechada, ausência de estradas e isolamento quase total. Com trabalho árduo, abriram clareiras, construíram casas de madeira, capelas e escolas. A agricultura familiar tornou-se a base da economia local, com destaque para o cultivo da uva, do milho, do trigo e, mais tarde, para o desenvolvimento da vitivinicultura, que se tornaria símbolo da região.
Em poucos anos, os lotes iniciais ficaram ocupados. Com o crescimento das famílias, filhos e netos dos pioneiros passaram a buscar novas terras, dando origem a outros núcleos coloniais como Antônio Prado, Nova Prata, Guaporé, Veranópolis, Nova Bassano, Casca, Erechim, Getúlio Vargas, Tapejara, Sananduva e Vacaria, entre muitos outros.
A presença italiana marcou profundamente a identidade do Rio Grande do Sul. Além da contribuição econômica, os imigrantes preservaram tradições, dialetos, religiosidade, culinária e formas de organização comunitária que ainda hoje fazem parte da cultura gaúcha. Festas típicas, cantos, hábitos alimentares e até o modo de falar carregam a herança dos primeiros colonos.
A imigração italiana no Rio Grande do Sul não foi apenas um movimento populacional: foi um processo de transformação social e cultural que moldou cidades, paisagens e mentalidades. Em 2026, o estado celebrará oficialmente os 151 anos da imigração italiana, reconhecendo o papel fundamental dessas famílias na construção do sul do Brasil.
La Vècia Polenta
Polenta santa, fiola del sol,nassuda lontan soto ´n altro ciel,rivada con el vento, con el mar e con el dolor,par dar da magnar a chi gavea fame e fredo.
Prima le zera segala, castagna e anca el pan nero,poi ´l mìlio che el ga vignesto come ´n dono vero;el colono straco, sudà e sfidà,con el mìlio el ga tornà a gaver speransa.
Soto la pignata nera del fogon,la polenta la canta, la se mete a sbufar;con la mestola de fusto la vien rimestà,e ogni zirada la ze ‘na preghiera cantà.
In Vèneto la zera mama e sostegno,in Brasil la ze diventà ancora pì ben;tra boschi e ronchi da netar e arar,lei le zera forsa par no se fermar.
Taiada sul panaro, con formài e salame,o con sugo magro de struto e de pan;no zera lusso, ma zera dignità,zera la fame che imparava a se calmar.
Polenta de colono, de pianto e sudor,compagna de nave, de selva e laor;ti te si stòria che se magna col cuor,ti te si tera che canta in ogni dolor.
Dove ghe ze polenta, ghe ze famèia,ghe ze parola, ghe ze idea;no ti si piato de re, ma de verità,ti te si richessa che no se pol comprar.
O polenta, regina dei poareti e de la zente,pan de mìglio fato carne e ossa;ti te si el mìglio diventà preghiera e canson,
ti te si speransa de ogni generassion.
Nota do Autor
Sta Ode a la Polenta no la ze stada scrita solo par far poesia. La ze stada scrita par tegner verta ‘na porta: la porta de la memòria. La polenta, par i nostri noni e bisnoni, no la zera un piato qualunque la zera el pan de ogni zorno, la mama silensiosa che tegnea in piè le famèie quando la tera zera dura, el fredo feròs e la speransa poca.
In Vèneto prima, e dopo qua in la "Serra Gaúcha", la polenta la ze stada sostansa e dignità. Drento le cusine de legno e fumo, davanti el fogón che no se stufava mai, la nona smissiava la polenta con la mestola, e in ogni zirada ghe metea no solo mìglio e aqua calda, ma fadiga, amor e futuro. La pignata nera la cantava pian pian, e quel canto el zera compagnia par chi tornava straco dal laor.
Sta Ode la vol esser un ringrasiamento a tuti quei coloni che ga patì fame, fredo e paura, ma che no ga mai molà la dignità. La ze un ato de rispeto verso chi ga fato de la misèria ‘na scola de coràio e de la polenta ‘na bandiera de sopravivensa.
E adesso, a ti che lesi questi versi se te senti el profumo de la polenta che vien su da la cusina, e te rivedi to mama o to nona davanti al fogón de legna che smìssia pian pian, no sta restar in silènsio. Scrivi la to esperiensa ´ntei comentàri de sto blog. Parché ogni ricordo che se conta el ze ‘na stòria che torna a vegnir viva, e ogni stòria viva la ze ‘na radise che no more mai.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
La Lìnea Palmeiro la ga un posto de primo piano ’nte la stòria de la colonizassion italiana de la Serra Gaúcha. Creà ’ntei ani 1870, la zè stà ´na de le prime strade segnà par ricever i imigranti, organizare i lotti de tera e meter in comunicassion le prime comunità coloniai de la region.
La Lìnea Palmeiro la siapà el so nome dal ingegnere che el ga fato la demarcassion de le tere. El so percorso el gavea sirca 28 chilòmetri, conetando la vècia Colònia Dona Isabel — che incòi la ze Bento Gonçalves — fin a Colònia Nova Vicenza, che incòi la ze Farroupilha.
Su tuto sto traieto i gavea segnà 200 loti de tera, ognedun con sirca 48 etari, grando abastansa par ospitar anca pì de ’na famèia. La division la ze restà cusì:
Loti da 1 a 99: zona de Bento Gonçalves
Loti da 100 a 200: zona che incòi la ze Farroupilha
I primi italiani i ze rivà in 1875, e verso el 1880 la zente gavea za ocupà quasi tuto. I coloni i ga fato casa, i ga sbosà, i ga fato i sentieri e i ga scominsià le coltive che dopo i ani i daria origine a la tradission vinìcola de la Serra Gaúcha.
A parte de ’na strada, la Lìnea Palmeiro la ze stà el filo de vita che meteva insieme economia, comunità e la cultura de quei primi imigranti. Par là pasava tuto: prodoti de campagna, carghe, animai e anca le tradission che lori i ga portà da casa.
Sta via la permetea:
l’escolamento de la produssion agrìcola;
la comunicassion tra le comunità coloniai;
la nascita de nùclei religiosi e culturai;
el svilupo economico de la region.
La Lìnea Palmeiro la ze stà essensial par el sucesso de la colonisassion italiana ’nte el Rio Grande do Sul.
Uno dei punti pì importanti de la Lìnea Palmeiro el ze la costrussion de la prima capela dedicà a la Madona de Caravaggio, fata su el loto 139. Da quel ze nato el futuro Santuàrio de Caravaggio, incòi un sìmbolo importante de la fede de la zente de la Serra Gaúcha.
Par quei coloni, la capela la gavea el senso de:
conforto ’nte le fadighe;
union tra le famèie italiane;
conservassion de le tradission portà da l’Itàlia;
speransa par un futuro novo.
La devossion, nassù là in meso a la foresta, la ze viva fin incòi.
Capir la Lìnea Palmeiro el ze capir la nàssita vera de la Serra Gaúcha. Ogni lote, ogni famèia, ogni passo ’nte la mata ze la prova del coraio de quei che i gavea molà tuto par scominsiar da zero.
Sta strada la simbolisa:
el scomìnsio de la vitivinicoltura;
la formassion de Bento Gonçalves e Farroupilha;
la resistensa e la fede dei imigranti;
la nàssita de ’na identità ùnica ’ntel Brasil.
Salvar sta memòria la ze onorar el laoro e la vita de quei che ga fato grande la region.
Mi go scrito sto testo parchè credo che conòssere el passà el ze fondamental par valorar el presente. La stòria de la Lìnea Palmeiro no la ze so ’na lista de nùmari e loti — la ze la stòria de la lota, de la speransa e de la volontà de tante famèie italiane che i ga trovà qua el so futuro. In sti ani che se parla tanto de identità e radise, contar sta stòria la ze on modo par tegner viva la memòria de chi che i ze vegnù avanti e par dar orgòio a le generassion che vignarà.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
A Linha Palmeiro ocupa um lugar central na história da colonização italiana na Serra Gaúcha. Criada na década de 1870, ela serviu como uma das primeiras vias estruturadas para receber imigrantes, organizar os lotes agrícolas e conectar as recém-fundadas comunidades rurais da região.
A Linha Palmeiro recebeu esse nome em homenagem ao engenheiro responsável pela demarcação territorial. Seu traçado se estendia por cerca de 28 quilômetros, ligando a antiga Colônia Dona Isabel — atual Bento Gonçalves — até a Colônia Nova Vicenza, hoje Farroupilha.
Ao longo desse percurso foram demarcados 200 lotes rurais, cada um com aproximadamente 48 hectares, tamanho suficiente para abrigar mais de uma família. A divisão territorial ficou marcada da seguinte forma:
Lotes 1 a 99: área correspondente a Bento Gonçalves
Lotes 100 a 200: região onde hoje está Farroupilha
Os primeiros imigrantes italianos chegaram em 1875, e em poucos anos — por volta de 1880 — grande parte da Linha Palmeiro já estava ocupada. Esses pioneiros construíram casas, desbravaram a mata, abriram caminhos e iniciaram o cultivo que mais tarde daria origem à tradição vitivinícola da Serra Gaúcha.
Mais do que uma estrada, a Linha Palmeiro funcionou como um eixo vital de integração econômica e social. Por ela circulavam produtos agrícolas, materiais de construção, mercadorias e também histórias, tradições e laços comunitários.
A picada aberta pelos primeiros colonos logo se transformou em uma via estruturada, permitindo:
escoamento da produção agrícola para os centros de consumo;
comunicação entre as diversas comunidades coloniais;
formação de núcleos religiosos, culturais e familiares;
crescimento econômico contínuo durante todo o final do século XIX.
Essa rota foi um elemento decisivo para o sucesso da colonização italiana no Rio Grande do Sul.
Um dos marcos mais simbólicos da Linha Palmeiro é a construção da primeira capela dedicada a Nossa Senhora de Caravaggio, erguida no lote 139. Esse pequeno templo foi o embrião do que mais tarde se tornaria o Santuário de Caravaggio, um dos principais símbolos religiosos da região.
Para muitos colonos, esse espaço representava:
consolo diante das dificuldades;
a união entre famílias italianas;
a preservação das tradições espirituais trazidas da Europa;
a certeza de que aquele território seria seu novo lar.
A devoção ali iniciada atravessou gerações e permanece viva na cultura regional até hoje.
Entender a Linha Palmeiro é compreender o nascimento da Serra Gaúcha moderna. Cada lote, cada família, cada picada aberta na mata representa o esforço coletivo de imigrantes que reconstruíram suas vidas longe da Itália.
Essa rota histórica simboliza:
o início da vitivinicultura;
a formação das cidades de Bento Gonçalves e Farroupilha;
a resistência, coragem e fé dos imigrantes;
o surgimento de uma identidade cultural única no Brasil.
Ao preservar essa memória, honramos o legado de milhares de homens e mulheres que transformaram a região em um dos polos culturais e econômicos mais importantes do país.
Escrevi este texto para valorizar a memória dos imigrantes que desbravaram a Linha Palmeiro e ergueram, com esforço e esperança, as bases da Serra Gaúcha. Contar essa história é manter vivo o legado de quem lutou, sonhou e acreditou em um futuro melhor. Como descendente e pesquisador da imigração italiana, sinto que preservar essas narrativas é essencial para fortalecer nossa identidade e transmitir às novas gerações o orgulho de nossas origens.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
No ano de 1887, Attilio Zampiero deixou a pequena vila de Roverchiara, nas terras baixas de Verona, levando consigo apenas um punhado de roupas gastas, alguns utensílios herdados e a lembrança viva da pobreza que o esmagava desde menino. A vida na Itália já não oferecia nada além de dívidas e fome. O campo onde nascera não bastava para sustentar sequer uma cabra, e o suor da família escorria em vão nas pedras áridas da planície.
O Brasil surgia como promessa nos relatos que corriam de boca em boca. Falava-se de campos infinitos, madeira abundante e liberdade para cultivar o que se quisesse. Cartas mal escritas do tio Antonio, instalado havia alguns anos na colônia Dona Isabel, no Rio Grande do Sul, traziam sempre um convite insistente: vender o pouco que possuíam e atravessar o mar.
A decisão de partir foi dolorosa. A família vendeu a casa e o pedaço de terra, abandonando também os túmulos de gerações no cemitério da vila. A despedida, marcada por lágrimas silenciosas, carregava o peso de nunca mais rever a Itália. Embarcaram em Gênova no navio a vapor Colombo, abarrotado de emigrantes miseráveis. Foram trinta e dois dias de travessia. O cheiro de corpos confinados, a umidade do porão e a ameaça constante da doença tornavam cada amanhecer uma vitória. A morte rondava como um predador paciente, mas Attilio resistia com a teimosia de quem não tinha escolha.
Quando enfim alcançaram o porto de Rio Grande, descobriram que o sonho tinha um preço maior do que imaginavam. Foram alojados em barracões superlotados, à espera de embarcações fluviais que os levariam lentamente, contra a corrente, pelos rios Guaíba e Caí até Montenegro, onde descansaram apenas por uma noite antes de seguir viagem.
Daí em diante, não havia estradas, apenas trilhas abertas a facão que se perdiam no coração da mata. Attilio e a família seguiram a pé, carregando baús e trouxas improvisadas. Havia dias em que a chuva fazia do caminho um lamaçal, e, quando a noite caía, o mundo se fechava como uma cortina de escuridão sem estrelas. Cada parada era um acampamento improvisado, alimentado com fogueiras pequenas e o pouco de farinha de milho que restava.
Depois de um dia que parecia não ter fim, chegaram à Colônia Dona Isabel, onde o tio Antonio os aguardava. O reencontro trouxe alívio e lágrimas, mas a jornada ainda não estava concluída. Em uma carroça puxada a bois, avançaram mais de um dia até alcançar a recém-aberta Colônia Alfredo Chaves, o lugar destinado pelo governo. O que encontraram foi um terreno íngreme, tomado por pedras e árvores seculares, um mundo hostil que parecia zombar de qualquer tentativa de cultivo.
Attilio ergueu com as próprias mãos um rancho tosco de troncos e folhas de palmeira. Plantou milho e feijão, criou algumas galinhas e um porco. Cada dia era uma batalha contra a floresta, que parecia querer engolir de volta os homens. A saudade da Itália ardia, sobretudo quando lembrava o cheiro do pão fresco e o som dos sinos de Roverchiara. Mas a volta era impossível. O Brasil tornara-se, ao mesmo tempo, destino e prisão.
A vida em Alfredo Chaves exigia coragem dobrada. O Rio das Antas, de águas revoltas, separava a colônia da vizinha Dona Isabel. Para atravessá-lo, usavam canoas frágeis, arriscando-se contra a correnteza traiçoeira. Era ali que Attilio trocava sacos de milho por sal ou ferramentas, sempre com o medo de que a água lhe roubasse a vida, como já fizera com outros colonos.
Os invernos castigavam com geadas que queimavam plantações inteiras. Muitas vezes, Attilio misturava farinha de milho com raízes da mata para saciar a fome dos filhos. Mas a obstinação não lhe faltava. Com vizinhos, começou a cultivar videiras, pequenas mudas trazidas escondidas da Itália, sonhando com o dia em que o vinho das colônias pudesse rivalizar com o das tavernas de Verona.
Com o tempo, Alfredo Chaves começou a se organizar. Famílias ajudavam-se em mutirões para erguer casas de pedra e capelas de madeira. Attilio, respeitado por sua tenacidade, tornava-se presença constante nas derrubadas, nas colheitas e até nas arriscadas travessias do Rio das Antas.
Mesmo assim, a saudade permanecia. Nas noites frias, o vento que soprava da serra lhe trazia lembranças da Itália. Ainda que a miséria continuasse a rondar, cada árvore derrubada e cada videira enraizada representavam conquistas arrancadas à força de um mundo desconhecido.
Foi assim que Attilio Zampiero fincou raízes no Brasil: não como promessa de riqueza imediata, mas como a única chance de sobreviver e deixar aos filhos uma herança maior do que ouro — a certeza de que, mesmo entre rios perigosos e terras ingratas, a esperança podia florescer.
Anos mais tarde, quando Alfredo Chaves recebeu o nome de Veranópolis, Attilio já sabia que aquela era sua pátria definitiva. A Itália ficara para trás como lembrança distante, mas a vida seguia ali, onde cada pedra retirada do chão e cada parreira erguida eram páginas escritas de sua própria estrada da esperança.
Nota do Autor
A história de Attilio Zampiero – A Estrada da Esperança nasce do testemunho vivo de descendentes de imigrantes italianos que se estabeleceram na antiga Colônia Alfredo Chaves, hoje Veranópolis, no final do século XIX. O personagem central, Attilio Zampiero, é fictício apenas no nome; sua trajetória, marcada pela travessia do oceano, a chegada ao Rio Grande do Sul e a luta contra a mata e a solidão, reflete fielmente a experiência relatada por seus herdeiros de memória. Por respeito ao pedido de anonimato das famílias que compartilharam suas lembranças, os nomes verdadeiros foram preservados no silêncio. Ainda assim, tudo o que aqui se narra — a viagem, os sofrimentos, a travessia do Rio das Antas, o início da vida em terras íngremes e pedregosas — pertence à realidade daqueles que ousaram trocar a Itália pela incerteza do Brasil. Attilio, portanto, é mais do que um personagem: é o símbolo de tantos homens e mulheres que construíram suas estradas de esperança no coração da serra gaúcha.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Feltre, no início do século XX, era uma pequena joia de pedra incrustada no coração agreste dos Dolomitas italianos. Cercada por montanhas que pareciam erguer muralhas contra o mundo exterior, a cidade vivia sob um ritmo próprio. As ruas estreitas, calçadas com pedras irregulares, guardavam um silêncio antigo, interrompido apenas pelo som grave das badaladas da torre da igreja, que marcavam as horas como se fossem capítulos de uma história imutável.
Aldo Bernardi nasceu e cresceu nesse cenário, filho de um lenhador. Desde cedo aprendeu a acompanhar o pai nos bosques que se estendiam como muralhas verdes ao redor da cidade. Os invernos eram longos e duros, cobrindo tudo de um branco silencioso; as manhãs de trabalho traziam o hálito gelado da montanha e o cheiro da madeira recém-cortada. A vida era dura, mas sólida. As casas de pedra, as colinas suaves, as feiras silenciosas onde mais se trocavam notícias que moedas — tudo construía um laço profundo com aquela terra.
Mas a juventude, ao contrário das montanhas, não é imóvel. Aldo cresceu num tempo em que o mundo parecia mudar rápido demais, mesmo para um lugar tão isolado. A Primeira Guerra Mundial levou rapazes conhecidos, vizinhos, primos — alguns não voltaram; outros regressaram mutilados, com um silêncio que pesava mais que qualquer relato. As fachadas da cidade carregavam marcas de estilhaços, mas eram as pessoas que traziam as cicatrizes mais fundas.
Quando a paz chegou, não trouxe alívio. Trouxe um silêncio inquietante. A guerra havia terminado, mas a pobreza permanecia. As pequenas indústrias, que haviam florescido para alimentar o conflito, fecharam suas portas. Os campos já não rendiam o suficiente para sustentar todas as famílias. Jovens circulavam sem destino, oferecendo braços fortes a quem já não tinha como pagá-los.
Foi nesse cenário que Aldo, ainda muito jovem, deixou Feltre pela primeira vez. Atravessou os Alpes rumo à França, onde trabalhou nas minas do Jura. Passava dias inteiros embaixo da terra, respirando poeira de rocha e convivendo com o silêncio sufocante das galerias. Três anos depois, regressou à sua cidade. Voltava com as mãos mais calejadas, os ombros mais curvados e um bolso quase vazio. A França dera sustento, mas não futuro.
1924: A hora da decisão
Naqueles anos, a Itália vivia sob as mudanças do regime de Mussolini, que consolidava o poder em Roma. O discurso fascista chegava às vilas mais distantes, prometendo ordem e unidade, mas também trazendo incerteza e tensão. Para muitos, a esperança passou a se depositar em lugares distantes — na América, onde cartas de parentes e conhecidos falavam de terras férteis, trabalho abundante e, talvez, um futuro digno.
Aldo começou a ouvir cada vez mais a palavra “Brasil” nos encontros de taberna e nas conversas baixas nas feiras. Em cozinhas modestas, enquanto o pão era repartido com parcimônia, famílias falavam de navios, portos, passagens e oportunidades. Aos poucos, o inevitável se impôs: o futuro não estava mais em Feltre.
A despedida
Na madrugada de 15 de julho de 1924, Feltre acordou antes do sol. Não havia festa na despedida, apenas um silêncio pesado. A mãe de Aldo mantinha os dedos entrelaçados, como se suas orações pudessem deter o inevitável. O pai, firme, olhava o filho sem palavras. A carroça de aluguel aguardava na praça para o levar até a estação de trem. Ao comando do cocheiro, as rodas começaram a girar, e Aldo permaneceu mudo, vendo as ruas se afastarem lentamente. Só depois de algumas curvas ousou virar-se para lançar o último olhar — o adeus às montanhas de sua infância.
Longarone foi apenas passagem: documentos, esperas, burocracia. Em Veneza, Aldo obteve o passaporte. Comprou pão, salame e vinho, alimento e memória comprimidos para a viagem até o porto de Gênova.
Gênova o recebeu com cheiro de sal e o barulho incessante do porto. Agentes de imigração o conduziram a um hotel barato, onde depositou bagagem e se misturou a centenas de outros viajantes. Em uma caminhada pelo cais, viu pela primeira vez o colosso metálico: o vapor Giulio Cesare, um gigante pronto para cortar o Atlântico.
Na manhã de 30 de julho, o porto fervilhava. Antes de embarcar, Aldo comprou limões — diziam que ajudavam contra o enjoo — e escreveu dois cartões para os familiares em Feltre. Ao som de três apitos longos, o navio começou a afastar-se lentamente. Em terra, centenas acenavam. Era um adeus carregado de dor e orgulho. O mar se abriu à frente como promessa e abismo.
Travessia e chegada ao Brasil
Durante a travessia, o oceano tornou-se um espaço suspenso no tempo. No porão da terceira classe, os beliches eram estreitos e o ar rarefeito. A comida era pouca e sem sabor. No convés, quando o clima ou o capitão permitia, Aldo olhava o horizonte e imaginava a nova vida. As noites eram povoadas pelo som das ondas e pela saudade de Feltre.
Ao desembarcar no Porto de Santos, o calor do Brasil o envolveu como um muro invisível. A língua era outra, os sons diferentes, o cheiro carregado de café, frutas e maresia. Dali, seguiu de trem para o Rio Grande do Sul, acompanhando um grupo de vênetos que já tinham parentes estabelecidos desde as grandes levas de emigrantes do século anterior.
Nova vida no Sul
O destino final foi a região de Bento Gonçalves, uma terra de colinas verdes que, à distância, lembrava vagamente as encostas do Vêneto. Aldo começou trabalhando como empregado em vinhedos de outros imigrantes. A poda, o plantio, a vindima — tudo era trabalho duro, mas não havia patrão estrangeiro. Aqui, o suor poderia, um dia, se transformar em terra própria.
Com o tempo, juntou economias e comprou um pequeno lote. Casou-se com Lucia Morette, filha de imigrantes estabelecidos muitos anos antes. A casa era simples, feita de madeira e pedra, mas abrigava o som de crianças e o aroma de polenta. Os filhos cresceram entre as cantinas e os parreirais, aprendendo a língua dos pais e a nova língua da terra.
Aldo ajudou na construção de uma capela, participou de mutirões para abrir estradas e plantou parreiras que, décadas depois, dariam frutos para seus netos.
E, ainda que o Atlântico o separasse de Feltre, em cada parreira carregada de uvas, em cada laje de pedra que sustentava sua casa, havia o eco distante da cidade entre as montanhas. Um eco que não se apagaria nunca.
Epílogo
O tempo, com seu ritmo silencioso, seguiu desenrolando a vida sobre as colinas da Serra Gaúcha. Aldo Bernardi partiu em um inverno calmo, quando as videiras estavam despidas e o vento trazia o mesmo frio que ele conhecera nas montanhas de Feltre.
No dia do enterro, o cortejo percorreu a pequena estrada ladeada por parreiras já antigas, plantadas por suas mãos. Filhos, netos e vizinhos carregavam não apenas o caixão, mas a memória viva de um homem que, um dia, deixou tudo para cruzar o oceano.
Seu túmulo, simples, de pedra lavrada, tinha o nome gravado em letras firmes, e ao lado um pequeno ramo de uma parreira, trazida de Feltre anos antes por um conterrâneo. Era como se as duas terras finalmente repousassem juntas, unidas para sempre.
No silêncio daquela tarde, a Serra parecia suspensa, como se os vales, as parreiras e o céu carregassem a certeza de que o sangue e o suor dos que partiram jamais seriam esquecidos.
E, nas gerações seguintes, cada vindima, cada copo erguido e cada canção entoada em dialeto vêneto, agora chamado de talian, seriam, sem saber, um brinde ao homem que ousou atravessar o mar.
A história de Aldo Bernardi foi inspirada em um relato real, de um emigrante da província de Belluno, que deixou a Itália em 1924, após breve passagem pela França anos antes, para tentar a vida no Brasil.
Sua narrativa, preservada, revela não apenas o itinerário físico — de Feltre a Longarone, de Veneza a Gênova, do vapor Giulio Cesare até as terras do Rio Grande do Sul —, mas, sobretudo, a paisagem humana de um tempo: a despedida da pátria, a travessia incerta, a adaptação em uma nova terra. Nesta versão ficcional, os nomes foram alterados, mas a essência foi mantida. Busquei preservar o tom emocional e a atmosfera histórica, dando voz ao silêncio que tantas vezes se impôs aos emigrantes.
Dedico esta obra a todos os descendentes que, espalhados pelo Brasil, ainda carregam no sotaque, nos costumes e na memória o eco distante das colinas do Vêneto.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
A Longa Espera dos Rozzo
No inverno de 1878, quando as geadas já haviam queimado as últimas folhas das parreiras e o vento atravessava os vales do Vêneto com um frio cortante, a família Rozzo tomou a decisão que mudaria para sempre a sua história. Pequenos agricultores na encosta pedregosa próxima a Vicenza, viviam de terras emprestadas, onde a colheita mal bastava para pagar o arrendamento e alimentar os nove filhos. A miséria não chegava como uma tragédia súbita, mas como uma visita constante, feita de invernos compridos, verões exaustivos e mesas onde a polenta cozida com algumas ervas era o único alimento disponível e ainda assim dividida em pedaços cada vez menores.
A notícia da emigração corria pelas aldeias como uma esperança silenciosa. Falava-se de terras distantes e desconhecidas, além do oceano, onde o governo brasileiro prometia lotes e liberdade aos colonos. As passagens, subsidiadas pelas autoridades, eram a única possibilidade para famílias como a dos Rozzo, que não possuíam sequer moedas de prata para comprar a farinha do mês. Na primavera seguinte, uma parte da família, o filho Giovanni com a mulher e um filho pequeno embarcaram em Gênova rumo ao desconhecido, com um velho baú de madeira, um crucifixo, algumas sementes e a fé de que a terra nova pudesse oferecer um futuro diferente.
Após a travessia extenuante que durou bem mais de trinta dias, desembarcaram no Rio Grande do Sul, sendo destinados à recém-formada colônia Dona Isabel. A terra era bruta, a mata densa e o isolamento quase absoluto. As casas, erguidas com toras verdes, abrigavam mais frio do que calor. A floresta, embora fértil, não perdoava: exigia anos de trabalho para ceder espaço às lavouras. O esforço consumia os dias, e o calendário se media mais pelo corte das árvores do que pelas datas do almanaque.
Enquanto isso, dois irmãos mais novos de Giovanni Rozzo — Matteo e Pietro — também haviam deixado o Vêneto, mas seu destino fora diferente. Embarcaram no ano seguinte, rumando para o interior da província de São Paulo, onde foram contratados como trabalhadores braçais em uma grande fazenda de café nas proximidades de Campinas. Ali, viviam sob condições árduas, confinados à realidade fechada da fazenda. O único comércio disponível era o pequeno armazém da própria fazenda, onde os preços eram quase o triplo daqueles praticados em Campinas. Essa diferença não era fruto do acaso, mas parte de um mecanismo que garantia ao patrão lucros extras sobre a pobreza de seus empregados. As compras — farinha, sal, querosene, um pedaço de toucinho — eram registradas em cadernos amarelados, e o acerto de contas acontecia apenas na época do pagamento, quando o saldo, quase sempre, ficava no vermelho.
A comunicação com outras localidades existia, as distancias entre as cidades menores, mas ainda era bastante precária. Havia, de fato, um acesso um pouco melhor aos correios do que nas colônias isoladas do sul, mas o sistema era frágil e permeado por desonestidade. Muitas cartas, sobretudo as que carregavam pequenas quantias de dinheiro, desapareciam no caminho e jamais chegavam ao destino. As notícias, quando vinham, já traziam o sabor amargo da demora, misturando-se à incerteza e ao silêncio que separava famílias por anos a fio.O Brasil, contudo, era imenso, e a distância entre as duas realidades era mais do que geográfica: era também um abismo de informação.
Os primeiros anos em Dona Isabel foram mergulhados num silêncio denso, quase mineral. O mundo parecia terminar nas bordas da mata fechada, e qualquer sinal vindo de fora era raro como ouro. As cartas, quando existiam, precisavam ser levadas a pé até a sede da colônia, a vários quilômetros de distância, por trilhas enlameadas no inverno e cobertas de pó no verão. Mesmo quando finalmente alcançavam o correio, não havia garantia de chegada: muitas se perdiam no caminho, extraviadas por descuido ou simplesmente esquecidas em algum depósito improvisado.
O isolamento não era apenas geográfico, mas também humano. Giovanni desconhecia completamente que Matteo e Pietro estavam nas terras paulistas. As estações se sucediam como páginas de um mesmo livro sem novidades: a primavera chegava com suas promessas, o verão com seu calor opressor, o outono com o aroma das uvas esmagadas, e o inverno com sua resignação silenciosa — mas nenhuma carta trazia notícias.
A vida naquela região isolada era um esforço contínuo contra a solidão e a natureza bruta. Os vizinhos mais próximos viviam quase um quilômetro de distância, e no início cada encontro era um acontecimento.Os filós e as festas religiosas, realizadas em capelas simples de madeira, eram mais do que momentos de fé: tornavam-se o único elo social, ocasiões para partilhar bênçãos e murmúrios. Nelas, os nomes de parentes e conhecidos distantes eram sussurrados como quem tenta chamar de volta vozes desaparecidas, mas nenhum deles trazia notícias concretas.
O tempo passava pesado, medido não pelo calendário, mas pela abertura de clareiras, pela colheita das primeiras videiras e pelo crescimento lento dos filhos. No fundo das arcas, junto aos poucos objetos trazidos da Itália, permanecia a esperança de um envelope, de um pedaço de papel que rompesse aquele silêncio imenso e dissesse que, em algum lugar, os Rozzo ainda eram lembrados.
Anos depois, uma reviravolta inesperada aconteceu. Maria Rozzo, irmã mais velha, que havia emigrado para os Estados Unidos com o marido, estabeleceu-se em uma comunidade ítalo-americana em Illinois. Lá, o acesso às comunicações era melhor, e por intermédio de outros conterrâneos que mantinham vínculos com brasileiros e argentinos, chegou aos seus ouvidos a existência de Matteo e Pietro, vivos e estabelecidos em Campinas.
Maria iniciou um esforço incansável para restabelecer o contato. Cartas atravessaram oceanos e fronteiras, demorando meses para ir e voltar. No entanto, quando finalmente a notícia chegou às mãos de Giovanni, já em Bento Gonçalves, mais de uma década havia se passado desde a separação. O reencontro físico nunca se realizou, pois as distâncias, a idade e as dificuldades econômicas tornavam a viagem impossível.
Ainda assim, a troca de cartas e alguma fotografia esparsa reacendeu o elo familiar. Os Rozzo de Bento Gonçalves passaram a saber das colheitas de café em São Paulo; os Rozzo paulistas ouviam falar das videiras que finalmente davam fruto no sul. Maria, nos Estados Unidos, tornou-se o ponto de ligação invisível, o fio frágil que unia três mundos separados pelo Atlântico e pela vastidão do Brasil.
A história dos Rozzo foi uma de milhares de famílias italianas: partidas marcadas pela esperança, desencontros selados pelo isolamento, e reencontros possíveis apenas pela palavra escrita. No silêncio das cartas que ainda sobrevivem, guardadas em arcas antigas, permanecem a saudade e a certeza de que a emigração, mais do que mudar destinos, moldou gerações inteiras com a marca indelével da distância.
Nota do Autor
Escrever A Longa Espera dos Rozzo foi mais do que reconstruir uma narrativa histórica — foi um exercício de escuta. Escuta das vozes que, há mais de um século, partiram das aldeias silenciosas do Vêneto com a coragem de quem se despede sem saber se haverá reencontro. Escuta das cartas que atravessaram oceanos e fronteiras, carregando, em poucas linhas, todo o peso da saudade e da esperança. Escuta, enfim, dos silêncios — esses que se estendem entre uma notícia e outra, entre uma despedida e uma resposta que talvez nunca chegue.
A história dos Rozzo é fictícia, mas é também real em cada detalhe. Ela ecoa o que tantas famílias viveram: irmãos separados por milhares de quilômetros, pais que envelheceram sonhando com um abraço que nunca veio, mães que esperaram notícias até o último dia. É a história de todos os que deixaram para trás uma terra pobre, mas carregada de afetos, e encontraram no Brasil e em outras partes do mundo um novo lar — nunca totalmente separado do antigo.
Dedico esta história aos descendentes dos imigrantes italianos, que herdaram não apenas sobrenomes, mas também memórias feitas de distâncias. Que esta narrativa seja, para cada um, uma ponte imaginária que une de novo os Rozzo dispersos — e, junto deles, tantas outras famílias que o tempo separou, mas que a história insiste em reunir.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta
Quando Alessandro Bellarossi el ga scrito a la famèia de Cismon, no lo ga fato apena con la pena — ma con l´alma intiera. Ogni parola da quela lètara paresea sgòciar sudor, speransa e l’eco de ‘na traversia ancora ressente. Pì de ´un messagio, el zera un testamento de fede: la promessa sudamericana no la zera un mito, la zera tera — e lu el gavea za calpestà. Vinti zorni primi, con la dona Annetta e i tre fiòi a fianco, Alessandro lu el gavea finalmente tocà la tera scura e ùmida de la Colònia Dona Isabel, strenà tra le brume alte del Rio das Antas, dove la foresta pareva antica come la creassion stessa.
El ghe rivava da un posto ndove i val respirava apena fra le ròsie dei Alpi Veneti — un vilagio modesto e strussià da l’indiferensa del tempo e la gananssia dei signori de la tera. Là, anca dopo l’unificassion de l’Itàlia, la libartà la restava solo ‘na parola mormorà, deta in scanton. I richi gh gaveva guadagnà bandiere e esèrssiti. I pòveri, dèbiti, fame — e tropi fiòi da nutrir.
La traversia no la zera mia solo un viaio: el zera un tàio profondo fra do mondi. El Vapor Roma, pien de contadin, lu el zera partì da Génova come ‘na nave de promesse — ma lu gavea navigà sora un ossean de inssertese. Na seconda setimana, l’odor de corpi e paura el zera pì forte che el sal del mar. Ghe zera morti quatro putèi e do mame. Le orassioni mormorà de note se smissiava con i lamenti sofocà ´ntei pòveri leti, intanto che el bilansio del bastimento ghe ricordava a tuti che la tera ferma la zera un privilègio lontan.
Ma Alessandro no se lassiava sgonfiar. L’alimentava la famèia con pan vècio e coraio. E, quando el ga vardà le prime araucàrie, alte come campanil e cargà de nèbia, lu el ga capì, con ‘na ciaresa che tocava el fondo de l’ànima, che el zera rivà. No a ‘na fin — ma a un scomìnsio.
Ze stà alora che el ga ricordà le parole del vècio prete Giustino, dite ‘na matina freda, prima de la partensa:
— "A volte, la vose de Dio la vien del Sud.”
E in quel momento, tra la nèbia de la sera gaúcha e i urli dei òmeni che i taiava la foresta con le manare pesante, Alessandro el ga sintì ‘sta vose. No la zera alta, ne miraculosa. Ma la zera ciara. E la diseva, semplicemente: "Resta. Qua se pianta el destin."
Capìtolo II — La Tera Prometida
La Colónia Dona Isabel la zera ancora ´na picolina civilisassion — ‘na frontiera ndove tuto ghe restava da far. Con manare lu gavea spalancà clarere che parea ferìde nove in meso a la foresta. I sentieri el zera pantani trabalanti, segnà da le rode dei cari e dai stivai dei emigranti. La tera, anca se selvàdega, la zera de loro. Par la prima volta in vita sua, Alessandro el gavea un toco de mondo che el podea ciamar de so.
Cento ètari par famèia. Un sónio imaginàbile ´nte le coline poarete del Vèneto. E adesso, là, tra i tronchi de araucària e i murmuri lontan dei macachi, lu e i altri coloni i tirava su case con i propri brassi. Ogni tavola inchiodà la zera ‘na orassion. Ogni mure, un scudo contro la paura del scognossesto. La farina la vegniva fata masinando i grani su piere improvisà. El pan el gavea el gosto de sudor, ma anca de libartà.
La lètara che Alessandro la gavea scrìto a so pare, setimane prima, la scomìnsiava con un entusiasmo quasi de putèo:
"Bea posission, tera fèrtile, ària sana, e el goerno el ghe assiste noialtri."
E par la prima volta in so vita, no el esagerava. L’Impero del Brasile, ansioso de far piantar la gente ´ntel Sud, el ghe dava semense, feramenta basiche, bò magri, e el pì pressioso de tuti i risorsi: el tempo par pagar el lote. Nove mesi de aiuto prima che la tera ghe domandasse risposte. Nove mesi par trasformar la foresta in campi, i baracon in casete. El zera poco, ma el zera qualcosa. El zera pì de quel che la pàtria ghe gavea dà in sècoli.
Lucia, so mòier, la scomensiava a rider de novo — ancora pian, come chi che ghe teme a la pròpria speranza. I piè el zera sempre coerti de fòie fino ai cavéi, i diti gonfi de tanto lavar e portar, ma i oci… i oci ghe gavea tornà quel brilo che i gavea al altar de Cismon. Ghe zera qualcosa ´nte la foresta, forsi l’ària spessa de la matina, che la ghe dava ánimo. Forsi la zera el silénsio sensa fame.
Matteo e Elvira, i so do fiòi grandi, i corea sui campi come bèstie lìbare. I esplorava el mondo novo come se zera un orto de infansia eterna, sensa muri ne confini. I costruiva casete con i rami e i imitava i rumori dei caretieri. I ciamava i visin tedeschi “giganti biondi” e i ridea con l´acento smissià. Elvira la disea de piantar fiori selvadeghi. Matteo, de far ´na roda de aqua.
Anca el pìcolo Paolo, nato in traversia in meso al odor de sal, mal de mar e orassion sofegà, el parea za parte de ‘sta tera. El gavea i pulmoni forti, i oci svèi — e le man strete come se le tenesse za, con ostinassion, le radise de ‘sto mondo novo.
De note, quando el fogo de legna scaldava el pavimento de tera batuda e el vento de le araucàrie el mormurava tra i busi de la legna cruda, Alessandro el guardava intorno e el pensava: "No el ze el paradiso. Ma el ze un scomìnsio. E el scomìnsio, certe volte, el ze pì sacro de el fin."
Capìtolo III — Giacomo e il Fango de Sangue
El ze rivà quase note, quando el sole se nascondeva lento drio le creste de la montagna e il cielo se colorava de rame e vin. La carossa improvisà sbalotava par la strada scavà ´ntel fango, tirà da do boi magri e coerta con una tela segnà dal sale e dal tempo. Su di sora, con i oci scavà da la traversia e la barba longa fin al peto, el ghe gera Giacomo Bellarossi, il fradel pì zòvene de Alessandro.
Lucia la ze sta la prima a vardarlo, mentre che la tirava aqua con el sècio dal rieto. Lei la ze saltà. E la ze strassà. I putei ze vegnù drio, scalsi e sporchi, come can de muta che ritrova el paron sparì. Alessandro lu el ga molà la manara lì dove zera e el ze ndà pian pian fin al fradel.
I se ze abrassà in silénsio par un bel toco. Un abrassio de chi che porta la stessa crose e la stessa fede — la fede che l’altro no se gaveria mai mosso se el destin el ze ancora inserto. Ma i oci de Giacomo no i zera lusenti. No come queli de chi che ga trovà la pase, ma come de chi che ze scampà da na guera.
— “Cismon el ze pì vodo, Sandro. E pì vècio. El prete el ze morto. La mama la ze restà. La ga deto che il so cuor no el traversaria el mar... e forse la ga rason.”
— “Te vien par speransa... o par desperassion?”
— “Cossa che cambia?”
Lu el ga instalà Giacomo ´ntela baracca pìcola drio la casa grande. Par la prima setimana, Giacomo no parlava massa. El dava na man dove el podea — segava legna, cavava fosse, lu badava ai putei quando Lucia la ghe dovea ndar al russelo. Ma ´ntei so gesti ghe zera ´na tension dura, come se el spetasse che la tera ghe cascasse soto i piè.
E dopo ze rivà el zorno de la disgràssia.
Ze sta ´na matina coerta de nèbia, quando Giacomo lu el ze ´ndà con el Matteo al campo pì basso, drio al limite de la proprietà, par mèter su le recinsion. Un grupeto de coloni visin, de origine tedesca, laorava de l’altra parte del confine segnà. Ghe ze sta paroe. Dopo, strili. Dopo, el colpo seco de un pugno.
Matteo lu el ze tornà corendo, piansendo come un mato, tuto sporco de fango e sangue. Giacomo lo gavea colpìo in testa con un peso de legno. El zera cascà in terra, fermo, con la fàssia sfassià da un tàio fondo in fronte. I visin i disea che el gavea prinssipià lu. Che el zera sta preso da un colpo de ràbia.
— “El disea che la tera la zera nostra, che el confine no zera giusto. Dopo lu el ga bestemià. E el ga siapà su el facon...”
Alessandro lu el ze rivà a tempo par evitar un linsàgio. El ga tirà indrio el fradel, mentre Lucia la strilava ordini e Elvira la corea a tor aqua calda. Paolo ghe strilava ´ntel so letino, senza capir el caos.
Par tre zorni, Giacomo lu el ze restà fra la febre e l’ombra de la morte. El delirava in italiano, el murmurava el nome de la mama, el contava i fiòi che no gavea. Alessandro no el ga mai lassà. Lucia lei la pregava.
La sera del quarto zorno, quando i grili i ze tornà a cantar, el ga verto i oci.
— “Tanta tera, Sandro... e pur... se se litiga par un palmo.”
— “Forse no ze la tera, Giacomo. Forse noaltri portemo ancora drento le catene de ndove vegnimo.”
Ze sta alora che tuti due i ga capì: la tera zera fèrtile, sì. Ma anca selvàdega. E il sangue, ´na semensa che no ghe podeva far nasser.
Capitolo IV — El Arado e la Promessa
La sicatrisse na fronte de Giacomo no la ze sparì. La ze restà come ´na riga storta e viola, che ghe traversa la fronte come un segno marcà con el fogo: anca la tera promessa la ciama sangue in càmbio de pase.
´Ntei zorni dopo la zufa, Alessandro el ga radunà i visin — italiani, tedeschi e qualcuni pochi luso-brasilian — soto el vècio capanon del colonel Gasparini, l’amministrador de la colónia. Ghe voleva pì de legno e tera per far un paeseto. Ghe voleva rispeto, regole s’empresie, e soratuto, fidùssia.
— “Nissun el ze vignesto da l’altra banda del ossean par scominsiar na guera qua,” el ga deto Alessandro, in piè sora ´na cassa, la vose roca e con el so asento pesà. “Semo vignesti par costruir qualcosa che i nostri fiòi no gavarà da scampàr par catar.”
No ghe ze sta aplausi. Solo qualche ceno de capelo. Ma el zorno dopo, el colono Hans Jäger — queo stesso che avea minasià Giacomo — el ga lassà na cesta con pan nero e un saco de semense de segale sora la veranda dei Bellarossi.
Ntele campi, la tera ze scominsià a cambiar in solchi. L’aratro prestà dai visin el sgrignava drìo i buoi, scavando vene ´nte la tera scura. Giacomo, con la testa coerta da un vècio capel de ala larga, el zera el primo a levarse con el sole e l’ùltimo a lasar la zapa. Come se’l volesse espiaiarse davanti ai dei de sta nova tera.
Lucia la curava la rossa del fasòi e le galine, e trovava anca el tempo de insegnar a Elvira a lesar, doparà un vècio catechismo che la gavea portà su sconto fra le robe de la traversia. Matteo el cresseva svelto, con le spale dure come legno. Paolo el imparava a caminar sora la tera batua de la veranda, inciampando ´ntei scalini de legno e ridendo come se’l mondo el zera solo quelo: sol, formenton e el odor de la mama.
A la fin del autun, prima che i venti fredi ghe tagliasse la zona come lame, la ze vignesta fora la prima safra. Pìcena, ùmile. Ma la zera de loro. I sachi de formenton e patate dolse i ze sta portà ´nte’l capanon comun, dove na vècia asse de legno la servea de altar par ringraziamenti. El prete Celestino, vignesto da Caxias, el ga fato na messa fora, soto na croce fincà tra do pini bravi.
— “La tera la xe dura, fiòi miei. Ma la ze vèrgine. E come tute le vèrgini, ghe vole paciensa, cura... e fede,” el ga deto, mentre el vento el sbateva fra le tavolete del teiado ancora incompleto.
Quela sera, ghe se sta mùsica. Un vècio violin, do armoniche e vosi roche che cantava le cansoni del Véneto. Le risa le ecoava fra la boscàlia. Par la prima olta da che i gavea passà l’ossean, i Bellarossi i se ga permetesto de balar. Anca Giacomo. Soto le stele, con un goto de vin aspro ´nte le man e i pantaloni sporchi de tera, el ciapava el cielo come se’l ghe domandasse perdon par gaver dubità.
Ze sta in quelo momento che Alessandro el ga ciapà un palo, lo ga segà e sora scrisse el nome de la famèia — "Bellarossi, 1888" — e el ga fincà al’entrada del campo.
No el zera solo un marco de possesso.
Capitolo IX — La Misura de Tute e Cose
El rumore dei cavai rivò prima de la pòlvere.
João Vicente Lisboa apare ´ntela entrada de la colónia ´na matina freda, cuerto in un sopravesto de lana scura, seguì da do soldà e un assistente mulato che portava pransete e un livel topogràfico.
Lù no sorise.
El so sguardo girava par la radura come se stesse mapeando ánime, no ètari. I coloni, in silénsio, lassava i manari riposar. Le fasse sporche, i vestì rabucà, ma i oci... i oci brilava de dignità.
Alessandro rivò par incontrarlo, insieme a Hans Müller e Giacomo. Quando i ga arivà, João Lisboa se smontò del caval con calma. Ghe gavea la man — ma dopo averli studià.
— "Mi son João Vicente Lisboa. Agrimensore oficial, mandato dal Impèro. Go le demarcassion. Ma prima... voio sentir la verità."
El laoro gavea tacà.
Instalà in ´na de le poche case de alvenaria improvisà, Lisboa tacò a laorar come se fosse interrogando un tribunale invisìbile. Sentì testemonianse. Studiò documenti. Visitò i loti. Parlò con el prete. Rivò fin ala crose del putèo morto de sarampo — e no disse gnente, ma resto in zenòcio pì tempo del sperà.
Par tre zorni, el scrisse. Misurò. Comparò mape.
La sera del quarto torno, qualchedun provò a brusarghe el galpon dove el dormiva. El fogo la ze spensè prima — ma un dei soldà se brusò la fassia. Lisboa no mostrò paura. Ghe ordinò solo de montar guarda armada sui sentieri.
El quinto zorno, el convocò ´na assemblea.
La gavea al piè de la grande fighera, ndove i coloni fasea le messe fora porta. Pì de sento persone i zera radunà — putei in spale ai pupà, veci sentai sui tronchi, done con i oci fissà come sassi.
João Lisboa salì su na casseta e parlò come un giudice, ma con la vose de un omo straco:
— "Sta tera la zera promesa con el decreto imperial. E la ze sta conquistàa con zape, sudor e luto. El sigilo de la legalità... la ze qua."
El alzò la mapa sigilà con el sìmbolo del impero.
— "Da sto zorno, la Colónia Dona Isabel la ze riconossù come nùcleo agrìcola de povoamento lìbaro. I loti i sarà intestà ale famèie pionere. Chi che provà a sbutarve fora sarà giudicà secondo la lege de l'omo — e, se servirà, anca da quela de Dio."
Un mormorio passò par la zente. Qualchedun piansè. Altri chiudeva solo i oci.
— "Sì. Gavemo solo sepeli i nostri."
La sera dopo, qualchedun lassò na lètara anónima fincà ´ntela porta de casa de Alessandro. ´Na frase sola: "La tera la podarà aver un paron, ma la paura no ga confini."
No el zera la fin del conflito — ma la zera la fin de i dubi.
Fontoura scampò in Uruguai dopo qualche setimana, abandonando i so zagunsi e i falsi documenti. E par quanto riguarda el traditor tra i coloni — Lisboa lo gavea scovà. Ghe disse de andar via, discretamente, sotto scorta. Gnissun nome el ga deto. La pase costava pì del vero.
Ntei zorni dopo, el rumore de le zape i ga rivà pì forte. Come se ogni colpo ´ntela tera el zera ´na afermassion:
Elvira piantò fiori visin a la croce del pìcolo Paolo. Matteo scrisse el so nome sul stipite de casa. Lucia tornò a cantar mentre macinava el frumento. E Pietro... Pietro tacò a copiar ogni pàgina del so quaderno in un’altra letra, più ferma — perché, un zorno, altri potesse leserlo.
João Lisboa partì con el sole a le spale. Prima de ´ndar via, el ghe diede a Alessandro ´na busta sigilà.
— "Ze el registro de la posse legal. Firmà. Timbrà. Tegnelo ben — ma no par vu. Tegnelo... par i vostri nipoti."
E montò sul cavalo, sparendo tra le araucàrie.
La colonia dormì in pase sta note par la prima volta in ani. Ma gnissun se acorse che, lontan, el cìelo stelà pareva pì lìmpido — come se anca Dio stesse respirando con el fià in pase.
Epìlogo: Soto le Piante del Tempo
El vècio Pietro se sentò pian pianin soto l’ombra del pinaro pì vècio de la proprietà.
El tronco el zera grosso come tre òmini messi insieme. I rami i se levava su come brassi de giganti, e el vento che passava tra gli aghi fasea un murmurìo che pareva vosi desmentegà. A canto a lu, la so nipote Clara, de oto ani soltanto, tegneva in man un quaderno de coversio rosso.
— "Nono, contame ancora ‘na volta la stòria de la crose de legno..."
Lui la vardò e sorise. I òci, un poco spenti par la veciaria, i ghe luseva ancora de quel fogo che gnanca el tempo el gavea smorsà. El tocò pian pianin el pendente che pendeva dal so colo — ‘na pìcola crose de fero vècio, che lu stesso l’avea fato con i ciodi veci trovà ´ntel cason brusà.
— "Quela stòria no la ze mia, cara nipote. La ze de noaltri. La ze de ‘sta tera. La ze del sangue che el ga bagnà el teren prima de farlo fèrtile."
E lu scominsiò.
El ga contà del viaio ´ntei barchi streti, del sudor che restava tacà a le tole del vapor Roma. Parlò del so pare, Alessandro, che el scrivea lètare come chi che pianta sementi drento el cuor de chi che zera restà drìo. E de la so mare, Lucia, che la sorideva ancòi dopo aver sepultà un fiol in meso al mar. El descrivea la fàcia de Giacomo, sempre sporca de fango e de coràio. E de Hans, che no l’avea mai abandonà gnissun, gnanca quando l’avea ocasione. Parlò del Pare Giustino e de la so fede che resistiva a le febri, a le perdite, a le malatie. E parlò anca de Giovanni Lisboa — el omo de divisa che no portava spade, ma parole.
Clara la stava a sentir come chi che siapa un tesoro che no se pol veder.
— "E dopo, nono? Cosa la ze sucesso a la colónia?"
Pietro sospirò.
— "La ze cressù. La ze diventà sità. Le ze vegnù le scole, le cese, el mercato. Le case de legno le ze stà sostituì da muri de piera. Ma le radisi... quele no le ze mai cambià."
El segnò con el dito verso tera.
— "Le ze qua soto. ´Ntei fondamento. ´Ntei ossi de chi che ze restà. ´Ntei nomi che gavemo dà a le strade. ´Ntei che no i ze mai partì — gnanca da morti."
Clara la scriveva con calma, con cura. La scriveva con la stessa scritura ferma che el nono ghe gavea insegnà. Quando la ga finì, el sole se gavea già nasscondù drìo i coli. Le ombre le ze vegnù longhe come vèci amissi che i tornava casa.
Pietro el se slevò pian pianin. El vardò verso l’orisonte.
— "Prometi che un zorno ti la contarà a qualcun, Clara?"
La ghe fesse sì con el capo, con quei so do ocioni grande e seri.
— "Prometo, nono."
— "Alora, el ze fato."
Quela note, Pietro el dormì ´ntel quarto ndove lu el zera nato. A canto al leto, el quaderno rosso el stava posà. Sula ùltima pàgina, scrito con na caligrafia ancora de fioete, se leseva:
"Sta tera la ze sta conquistà con coraio, fede e làgreme. E par questo, la ze de noaltri. No perché la gavemo siapà. Ma perché la gavemo amà.”