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quinta-feira, 30 de julho de 2026

As Contas do Destino - A Emigração Italiana em Números e Vidas

 


As Contas do Destino

Uma história de emigração a partir das estatísticas 

do Reino da Itália


Arezzo, Toscana, Inverno de 1883

Era um tempo em que os números começaram a contar histórias. O recém-criado Regno d’Italia buscava compreender a sua própria população, e a recém-fundada Direzione Generale della Statistica passava a registrar não apenas quem nascia, mas quem partia — e por quê.

Tommaso Bartolomei nunca tivera interesse por estatísticas. Trabalhava desde os doze anos na lavoura de centeio de um baronato arruinado, cuidando de terras que já não produziam o suficiente nem para manter os filhos do senhor na escola. Aos trinta e dois, com os pulmões gastos pela poeira da colheita e as mãos deformadas de trabalho bruto, Tommaso representava um número a mais nos registros oficiais: camponês, casado, analfabeto, sem terras, com dois filhos. E agora, candidato à emigração.

Não foi o primeiro de sua vila. O movimento já tomava proporções visíveis. Cartas com selos de Montevidéu, Buenos Aires,Rio Grande do Sul e São Paulo chegavam às igrejas com notas promissórias e recomendações. Os jovens partiam sozinhos, seguiam a trilha de irmãos, tios ou padrinhos. Os prefeitos das comunas redigiam relatórios em linguagem seca, descrevendo o “êxodo dos braços” com inquietação. Os proprietários rurais pressionavam o Ministério do Interior para frear a concessão de passaportes — temiam a escassez de mão de obra, o aumento do custo do trabalho, o fim de um sistema baseado na resignação dos pobres.

Mas os pobres sabiam contar de outro modo. Sabiam que quatro moedas enviadas do Brasil valiam mais do que três meses de suor na terra empobrecida da Toscana. Sabiam que um filho em Campinas podia manter cinco em Arezzo. E Tommaso sabia, com a convicção dos que já perderam demais, que não partir era morrer devagar.


Gênova e Napoli, Portos de Embarque — Maio de 1884

Os navios saíam lotados. Cada nome registrado no livro de bordo representava uma ausência nas estatísticas locais e uma presença no radar de um novo país. A burocracia era árdua: requerimento de passaporte ao síndico, taxa de concessão, autorização das autoridades militares — e, por fim, o visto de saída.

Tommaso viajou com documentos próprios, sem recorrer a agências. A viagem fora financiada por um cunhado que trabalhava como carregador no porto de Santos. Ao contrário da maioria, partia já com destino certo: seria ajudante em uma fazenda de café na província de São Paulo. Na alfândega, passou por vistoria sanitária, teve a bagagem revista e o nome duplicado num caderno de registros que só mais tarde seria enviado ao Commissariato Generale dell’Emigrazione, recém-instituído para organizar os dados da diáspora italiana.

Na cabine de terceira classe, entre crianças febris e mulheres enlutadas, ouviu as histórias de outros números: um funileiro da Calábria, um pedreiro da Úmbria, um viúvo da Basilicata. Eram dezenas de origens distintas com um destino comum: deixar de contar apenas para as estatísticas e passar a contar para o mundo.


Fazenda Boa Vista, Província de São Paulo — 1885

O Brasil não aparecia nos mapas oficiais da emigração com o mesmo destaque dos Estados Unidos ou da Argentina. Mas suas promessas de terra, clima e fartura haviam seduzido muitos. Os livros de propaganda exageravam as cores da mata, escondiam a dívida imposta aos colonos e ignoravam as febres tropicais que assolavam os alojamentos.

Na Fazenda Boa Vista, Tommaso entendeu rapidamente a dinâmica: parceria agrícola, armazém caro, ausência de pagamento em moeda e controle absoluto do feitor sobre a produção. A terra era fértil, mas o sistema era injusto. Ainda assim, ele ficou. Resistiu. Era hábil com a enxada, cauteloso nas contas e determinado na economia. Em dois anos, já enviava dinheiro à esposa, ainda na Toscana. Em cinco, trouxe os filhos. Em sete, comprou um pequeno lote com mata rala às margens do rio Jaguari.


Sumaré, 1909 — Vinte e cinco anos depois

Anos mais tarde o nome de Tommaso Bartolomei apareceu apenas uma vez em um relatório do Ministério da Estatística. Estava num apêndice secundário: “camponês, emigrado para o Brasil, acompanhado de esposa e filhos, destino: São Paulo, porto de embarque: Gênova.”

A maioria dos que partiu naquela década voltou. Mas Tommaso ficou. Tornou-se proprietário de uma chácara, plantava milho, criava porcos, e dava aulas noturnas de aritmética aos filhos dos colonos. Guardava ainda o passaporte como relíquia, junto com a certidão do terreno e as cartas trocadas com a comuna de origem.

Era um entre 26 milhões de italianos que, entre 1876 e 1960, deixaram seu país. Um entre milhões que foram classificados por idade, sexo, profissão e porto. Mas, como ele mesmo escreveria num pedaço de papel escondido entre suas anotações agrícolas:

“Estatísticas não sentem fome, não tremem no porão do navio, não enterram filhos no mato quente do Brasil. Só os vivos contam essa parte da história.”


Nota do Autor

Esta narrativa nasceu do desejo de dar carne e voz aos nomes que, por tanto tempo, foram reduzidos a números. Nos arquivos frios da Direzione Generale della Statistica, camponeses como Tommaso Bartolomei aparecem apenas como linhas em tabelas: idade, profissão, analfabetismo, destino. Mas por trás de cada dado havia um corpo cansado, uma escolha difícil, uma esperança teimosa — e uma história que merecia ser contada.

As Contas do Destino é uma tentativa de costurar a vida ao registro, de aproximar a literatura da demografia. Ao acompanhar a trajetória de Tommaso, procurei me guiar por fontes históricas reais, incluindo relatórios ministeriais, boletins migratórios, regulamentos portuários e propagandas oficiais da época. Mas acima de tudo, me deixei conduzir pelo silêncio dos que partiram sem deixar memória escrita — dos que, como ele, sobreviveram mais como legado do que como nome de rua.

Não se trata aqui de romancear o sofrimento, nem de heroificar o imigrante. Mas sim de reconhecer que, entre estatísticas e destinos, há sempre vidas que importam. E que as histórias dos anônimos, como Tommaso, podem nos ensinar mais sobre o passado — e sobre nós mesmos — do que qualquer gráfico de linha.

Aos descendentes desses números vivos, esta obra é dedicada. Que nela encontrem um espelho, uma origem, ou simplesmente um sopro de pertencimento. Porque o que não se conta, se perde. E o que se transforma em história, permanece. 

Dr. Luiz C. B. Piazzetta

 

domingo, 22 de março de 2026

A Viagem de Navio dos Imigrantes Italianos ao Brasil e a Dura Realidade da Travessia


A Viagem de Navio dos Imigrantes Italianos ao Brasil e a Dura Realidade da Travessia


Depois de optarem por deixar a Itália, quase sempre influenciados por intermediários que prometiam oportunidades no outro lado do oceano, os futuros emigrantes encaravam o passo seguinte: alcançar o porto de partida. Para muitos, isso significava longas jornadas até cidades como Gênova ou Nápoles. Havia famílias inteiras que caminhavam dias, às vezes sob frio intenso, levando o pouco que restara após venderem seus bens. Ao chegarem, descobriam que nem sempre o embarque seria imediato. Alguns agentes, agindo de má-fé, atrasavam a viagem e empurravam os recém-chegados para estalagens caras, explorando a fragilidade de quem já não tinha quase nada.

Quando finalmente subiam a bordo, começava a parte mais dura. A travessia era longa e desconfortável. Homens, mulheres e crianças eram amontoados em espaços apertados, sem higiene adequada e com alimentação precária. Doenças se espalhavam com facilidade, a comida muitas vezes estava estragada e não faltavam roubos entre os próprios passageiros. O mar, imprevisível, agravava ainda mais o sofrimento, e a viagem se transformava numa experiência de medo, cansaço e perda.

Ao chegar aos portos brasileiros, como o de Santos, o primeiro impacto era visual. A vegetação exuberante impressionava, assim como a diversidade humana que encontravam — pessoas de traços e cores de pele que muitos jamais tinham visto na Europa. A expectativa, porém, logo dava lugar à desilusão. Levados para o interior, especialmente para as regiões cafeeiras, muitos imigrantes se deparavam com jornadas pesadas, contratos enganosos e condições que lembravam servidão.

Diante disso, uma parte expressiva decidiu voltar para a Itália ou seguir para outros destinos. Entre os que retornaram, ficaram marcas profundas: lembranças de sofrimento, mas também imagens fortes do Brasil — o cheiro da terra, os cafezais, as frutas tropicais e a sensação de ter sobrevivido a um período difícil. Essas memórias, passadas de geração em geração, continuam vivas entre filhos e netos, misturando dor, saudade e um estranho sentimento de gratidão pela terra que, mesmo dura, os acolheu por algum tempo. 

Nota do Autor

Este texto integra uma série dedicada à memória da imigração italiana no Brasil. Se na sua família existem relatos sobre a travessia dos antepassados, compartilhe nos comentários e ajude a manter viva nossa história coletiva.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 13 de dezembro de 2025

Navio Espagne (1900–1901) A Lista de Emigrantes Italianos que Partiram de Gênova para o Porto de Santos

 


Navio Espagne (1900–1901) A Lista de Emigrantes Italianos que Partiram de Gênova para o Porto de Santos


Navio Espagne representa um dos capítulos mais significativos da imigração italiana no início do século XX. Partindo do Porto de Gênova em 8 de dezembro de 1900 e chegando ao Porto de Santos em 1901, essa embarcação trouxe para o Brasil dezenas de famílias que buscavam trabalho, terras e uma nova oportunidade de vida.

A listagem de embarque registra não apenas os chefes de família, mas também os nomes e idades dos familiares que viajaram juntos, o que torna esse documento uma fonte preciosa para pesquisadores de genealogia, história da imigração italiana e formação das comunidades ítalo-brasileiras.

Entre os sobrenomes registrados na viagem do Navio Espagne, destacam-se:

Argazzi, Alghisi, Andreello, Antonini, Auralone, Balarsi, Bavutti, Bedolo, Beggiatto, Bergamo, Bergo, Berluti, Bermati, Bernati, Bettarelli, Bettizelli, Bezziolo, Bisplo, Boiani, Bonato, Boniolo, Borromelli, Botta, Brigato, Broggiato, Brunoldi, Buffi, Caddei, Calcagnolo, Callegani, Capogrossi, Carboni, Carlessi, Chiarello, Chilò, Cioli, Coffanello, Coltrinari, Coltrisan, Comasetto, Conti, Cora, Cortelassa, Cozzi, Crepaldi, Crocco, Crucianelli, Danieli, Dulizzia, Fantaguzzi, Felizzati, Franzioni, Franzoso, Freschi, Garbin, Gasparini, Gatti, Ghesa, Gicomanni, Guarnieri, Iseppato, Lancioni, Leoni, Lombardi, Magon, Marchesin, Marchetti, Marchietto, Maselli, Masi, Masiero, Mattiazzi, Mausi, Melchioni, Meucci, Monghini, Olivato, Orbelli, Orterizi, Palazzi, Paterniani, Pertile, Pesci, Pesson, Pettizzari, Pieroni, Pilotti, Pistolin, Proietti, Ruzza, Sacchi, Salicioni, Salvatore, Scurazzi, Sermolin, Sesnargeli, Sguotti, Simiollo, Steppato, Stiglio, Stoppia, Succiosini, Szobb, Valeniani, Valeriani, Valtese, Zanardo, Zanco, Zanetta, Zanetti, Zanoello.

Esses nomes representam a base de muitas famílias que ajudaram a construir a história social, agrícola e cultural do Brasil, especialmente no estado de São Paulo e nas regiões de colonização italiana.

Hoje, o registro do Navio Espagne é uma fonte fundamental para descendentes que buscam compreender suas origens e reconstruir a trajetória de seus antepassados que participaram da grande saga da imigração italiana.

Nota do Autor 

Este artigo foi elaborado a partir de registros históricos de listas de embarque do navio Espagne, preservando a grafia original dos sobrenomes. O objetivo é valorizar a memória da imigração italiana e auxiliar descendentes em pesquisas genealógicas confiáveis.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta











quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Entre o Vêneto e o Café A Jornada de Giovanni Dal Molin

 


Entre o Vêneto e o Café 

A Vida de Giovanni Dal Molin 

Giovanni Dal Molin nasceu em Quero, então uma pequena vila encravada entre os vales da província de Belluno onde o vento do Piave soprava com uma melancolia que parecia já anunciar as partidas. Filho de um trabalhador rural meeiro e de uma mãe de mãos calejadas pelo linho, crescera sob o peso de uma Itália recém-unificada, onde as promessas do novo Reino pareciam sempre se perder nas montanhas. No inverno de 1879, quando as nevadas se misturavam ao cheiro de fumaça das chaminés e ao eco das preces, Giovanni tomou a decisão que selaria o seu destino: partir. A fome que se alastrava pelas vilas do Vêneto não era apenas a falta de pão, mas principalmente a ausência de esperança. As colheitas haviam sido magras, a terra já não bastava, e os impostos do novo governo, somados às dívidas com os arrendatários, transformavam cada semente num peso morto.

Na pequena paróquia de São Girolamo Emiliani, o sino tocava com o mesmo ritmo dos séculos, indiferente à miséria dos homens. Giovanni olhou uma última vez para as montanhas, cobertas de neve, e percebeu que aquele branco não era pureza, mas esquecimento. Partiu levando consigo um pequeno saco de linho com algumas poucas roupas, pão seco, um rosário e uma carta do irmão mais velho, prometendo guardar o pedaço de terra familiar até o seu retorno — um retorno que, no fundo, ele sabia, jamais aconteceria. Como tantos de sua geração, deixava para trás a língua, o nome gravado nas pedras, e partia em direção a uma promessa abstrata chamada "Mèrica".

O porto de Gênova era uma confusão de vozes, línguas e cheiros. Milhares de corpos comprimidos em torno de velhos navios que mais pareciam carcaças flutuantes. Giovanni embarcou num vapor de segunda mão fretado por uma companhia italiana, que prometia passagem gratuita em troca de trabalho garantido nas fazendas do café do Brasil. As promessas eram abundantes e ilusórias: falavam em terra fértil, em casas brancas e em um salário justo. A realidade, porém, começava a se impor já no porão do navio. As profundezas escuras do navio, onde Giovanni alojado, era uma caverna imunda, úmida e fétida. Sentia-se ainda o cheiro forte de carvão que até pouco tempo o cargueiro transportava. O ar rarefeito também misturava o cheiro de óleo, vômito e outros dejectos humanos. Crianças choravam quase sem forças, mulheres escondiam pequenos terços e retratos dentro dos vestidos, homens tossiam até o sangue. A travessia durou trinta e cinco dias. Cada amanhecer era uma vitória sobre o traiçoeiro oceano.

Em certas madrugadas calmas de céu estrelado, com a devida permissão do comandante do navio, Giovanni subia ao convés e fitava o horizonte. O mar, revolto e cinzento, parecia zombar dos que o desafiavam. Era um exílio líquido, um ventre de ferro que engolia vidas e vomitava sobreviventes. Entre o som do motor e o ranger das tábuas, sob a pressão contínua das ondas, ele pensava no futuro. O Brasil era uma palavra que ainda não possuía forma. Diziam que havia sol o ano inteiro, árvores de café tão densas quanto as vinhas do Vêneto e uma terra vermelha, generosa. Mas os rumores também falavam em doenças, febres repentinas, serpentes peçonhentas e senhores de pele bronzeada que controlavam fazendas imensas com a mesma disciplina com que um capitão comanda um navio.

Quando o vapor atracou no porto de Santos, o ar úmido e quente atingiu-o como uma bofetada. A vegetação era de um verde brutal, o chão pulsava como se estivesse vivo. Giovanni foi conduzido de trem, junto a um grupo de compatriotas ansiosos e exaustos, rumo ao coração do interior paulista. A viagem serpenteava por paisagens completamente desconhecidas: vastos canaviais, pastagens intermináveis e pequenas vilas, pontuadas por igrejas de madeira. Pelas janelas do vagão, um mar de canaviais e cafezais se estendia até o horizonte, como se convidasse a adentrar o desconhecido. Ao final do percurso, seriam alocados em uma fazenda nas imediações de Ribeirão Preto, onde se esperava que transformassem a terra em sustento, trabalho e, talvez, em esperança — um futuro que surgia tão distante do Piave quanto do conforto das aldeias natalinas. A pequena estação, perdida entre campos de cana e nuvens de poeira avermelhada, marcava o ponto final da longa jornada iniciada do outro lado do oceano. O ar quente do interior paulista parecia vibrar sobre os trilhos, e o cheiro doce da cana recém-cortada misturava-se ao suor e à exaustão dos viajantes. Dali em diante, restavam ainda vinte quilômetros até a fazenda — um trecho de terra batida e ladeiras secas, que seria vencido a pé por alguns e em carroças rangentes por outros. O novo patrão enviara aqueles veículos para recolher seus futuros trabalhadores, e os animais avançavam devagar, como se também sentissem o peso da travessia. Cada passo levantava uma névoa de pó que se colava às roupas e ao rosto dos imigrantes, enquanto, ao longe, o sol declinava sobre o horizonte, dourando as lavouras e anunciando o começo de uma vida que ninguém ainda sabia como seria. Na chegada, o capataz brasileiro, montado num cavalo negro, leu os nomes dos recém-chegados. Cada homem recebeu um número, um barracão e uma enxada — como se, ao desembarcar, deixassem de ser pessoas para se tornarem peças de uma engrenagem invisível. O idioma era um muro intransponível, separando-os do mundo que agora os cercava. As ordens vinham em sons estranhos, secos, que nada lembravam o canto do vêneto ou o murmúrio das colinas de onde haviam partido. Entre eles e os feitores, não havia diálogo possível: apenas gestos, apontamentos bruscos e o peso do trabalho. A terra e o suor tornaram-se a única linguagem que todos compreendiam, o idioma universal da sobrevivência.

Nos primeiros meses, Giovanni aprendeu o peso do sol. O corpo se transformou numa ferramenta: músculos que obedeciam, costas que suportavam, mãos que se abriam em feridas. A fazenda era um mundo fechado, regido por um tempo próprio. O sino da antiga senzala — agora rebatizado de “casa dos colonos” — marcava as horas do trabalho e do descanso. O alimento era escasso, o pagamento vinha em vales trocáveis apenas no armazém da própria fazenda, onde tudo custava o dobro. As dívidas cresciam invisíveis, e o sonho da liberdade se diluía na poeira vermelha da terra paulista. Giovanni entendia, lentamente, que a escravidão havia mudado de nome, mas não de essência.

Mesmo assim, havia algo que resistia. Nas noites sem lua, sentava-se à porta do barracão e olhava o firmamento. O céu do Brasil parecia mais vasto, mais próximo. Às vezes, o vento trazia o cheiro doce das flores de café e, por um instante, ele acreditava estar em casa. Os outros imigrantes, vindos de Treviso, Vicenza e Pádova, compartilhavam entre si o mesmo propósito silencioso: trabalhar o bastante para juntar dinheiro e, um dia, comprar um pequeno lote de terra. Falavam disso nas horas de descanso, enquanto o sol caía por trás dos canaviais e o cheiro da terra úmida subia do chão. Sonhavam com um pedaço próprio, onde pudessem plantar uvas, milho ou feijão — um lugar que fosse deles, ainda que modesto, nas novas vilas que começavam a surgir em torno de Ribeirão Preto. Cada um trazia na lembrança a imagem de um campo distante na Itália, e talvez por isso acreditassem que o Brasil lhes devolveria, em outra forma, a dignidade perdida. Giovanni não partilhava dessa ambição. Enquanto os companheiros falavam de economias, terras e futuros possíveis, ele limitava-se a ouvir em silêncio, como quem já não esperasse nada do amanhã. O que desejava era apenas sobreviver — trabalhar o suficiente para não dever nada a ninguém e manter-se de pé entre o calor e a fadiga que consumiam os dias. Dentro do peito, o que restava era um eco longínquo: o som dos sinos de Quero marcando as horas nas manhãs de domingo, e o murmúrio sereno do Piave deslizando entre as pedras, memória de uma paz que parecia pertencer a outra vida. Às vezes, nas madrugadas em que o vento soprava por entre as frestas do barracão, ele acreditava ouvir novamente aquele rumor, como se a Itália o chamasse de volta em segredo — mas o chamado se perdia no ruído dos insetos e no peso das distâncias.

Os anos seguintes correram lentos, indistintos. A fazenda prosperava, os barões do café enriqueciam, e os colonos italianos multiplicavam-se nos sertões. Giovanni envelheceu antes do tempo, seus olhos perderam o brilho, mas não a serenidade. Aprendera a amar a terra que o exauria. Havia um orgulho silencioso em cada fileira de café que deixava plantada, como se cada broto fosse uma semente de sua própria redenção. De vez em quando, chegavam novas levas de imigrantes. Olhava-os desembarcar com o mesmo espanto que um dia fora o seu. Sabia o que os esperava, mas nada dizia. A esperança, mesmo quando ilusória, era o único alimento que não se podia negar a ninguém.

Nunca retornou à Itália. O irmão mais velho morreu sem vê-lo novamente. As cartas, no início frequentes, tornaram-se raras e, por fim, cessaram. Restou-lhe apenas a lembrança de uma neve distante e o rumor das colinas do Vêneto. Quando morreu, numa tarde de dezembro de 1912, ninguém soube exatamente sua idade. Foi enterrado sob uma cruz de madeira tosca, ao lado de outros colonos. No registro da fazenda, anotaram apenas: Giovanni Dal Molin, italiano, trabalhador do café.

Mas sob o chão quente de Ribeirão repousava mais que um nome: repousava o símbolo de uma geração inteira que cruzou o oceano em busca de um sonho que nunca se cumpriu. A terra que o acolheu, vermelha e fértil, guardou o seu silêncio. E quando o vento soprava por entre as folhas do café, parecia trazer, de muito longe, o eco de um sino de Quero, tocando para um homem que jamais voltaria, mas que, de algum modo, havia enfim encontrado um lar.

Nota do Autor

Os nomes e alguns detalhes desta narrativa foram alterados para preservar a privacidade das pessoas envolvidas. No entanto, a história de Giovanni Dal Molin é inspirada em acontecimentos verídicos, baseados em cartas e registros de emigrantes italianos do Vêneto conservados em acervos históricos e museus do Rio Grande do Sul. O drama aqui narrado reflete o destino de milhares de italianos que, entre o fim do século XIX e o início do XX, deixaram suas aldeias nas montanhas de Belluno, Treviso e Vicenza em busca de uma vida digna nas fazendas de café e cana-de-açúcar do interior da província de São Paulo. Cada página desta obra é um tributo à coragem silenciosa de homens e mulheres que cruzaram o oceano movidos pela fome e pela esperança — e que, nas terras distantes do Brasil, ajudaram a erguer uma nova pátria sem jamais esquecer a antiga. É também um convite à memória: que não se percam as vozes que o tempo quase apagou, nem as histórias que o vento levou, mas que formam o alicerce invisível de quem somos hoje.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Le Aventure de l´Emigrante Cremonese Angelo Martelloni

 

Le Aventure de l´Emigrante 

Cremonese Angelo Martelloni


Angelo Martelloni lu el ze nassesto ´ntel 1875, ´ntela pìcola vila de Castelverde, postà ´ntel idìlico interior de Ripalta Cremasca, provínsia de Cremona, Itàlia. La vileta, con le so stradele de tera sinuose e contornà da grandi campi de fromento dorà, pareva restar incantà ´ntel tempo, un paesagio che alternava la belessa bucòlica con la dura realtà del laoro ´ntei campi. La sua infánsia la ze stà segnà da la simplissità austera de ´na casa de contadin, 'ndove ogni piato portà in tola el zera fruto de mani rugà e de suor soto el sole infame.

I genitori de Angelo, Giovanni e Rosa, lori i zera contadin testardi, che se davano da far per sopraviver a le intempèrie che spesso rovinea le piantassion. Par lori, ogni stagion la zera un zogo de fortuna contro la natura: piove tarde, gelade improvise o parasiti spietà podea reduser mesi de laoro a un gnente. Angelo lu el ze cressesto capindo che la vita la se formava su sto vaevien imprevedìbile, e fin da bòcia el ga scominsià a laorar ´ntei campi, menando el bò, cogando fasói, fromento e imparando, quasi sensa voler, a conviver con la strachessa.

Ma a la fine del sècolo XIX, la crisi agrìcola la ga distruto quel poco che restava de la fràgile stabilità de la region. I racolti i ga calà, le nove tasse, e i soni de benèssere i parea sempre pì lontan. A 20 ani, Angelo el ga sentì el peso de la responsabilità de trovar un futuro che la so tera no la podeva dar. Con el cuor streto e un misto de paura e speransa, el ga preso ´na resolussion che el ghe cambierà la vita: partir in serca de mèior oportunità. L'adio el ga stà segnà da abrassi lunghi e làgreme mute; ´na promessa no deta la parea sospesa in ària, che un zorno el tornaria par portar mèior fortuna a la famèia che lu el ga lassà.

El so primo destino el ze stà la Bèlgica, 'ndove le scure mine de carbon le prometea ´na stabilità económica che la parea impossìbile in Itàlia. Quando lu el ze rivà, Angelo el ze stà envolto sùito dal cenário lùgubre de le sità minadore: strade strete fiancà da case de maton scuri dal pòlvere, camini che lanssiava nùvole de fumo denso e un odor metàlico ´nte l'ària, che parea incolarse dosso. El laoro sototera el zera ´na combinassion de fatica fìsica e perìcolo constante. Par quasi na dècada, Angelo el ga enfrentà i rischi invisìbili e l'insalubrità sofocante de quel mondo sepolto.

Le zornade scominssiava prima del sòrgere del sole, quando lu e altri lavoratori, vestì con giache grosse par el fredo matinal, lori i calava in vagon streti ´ntei fondi de la tera. Là soto, la luse la zera un lusso, fornída solo da le lanterne a òlio fincà ´ntei elmi. L'ària, pien de pòlvere e umidità, la zera pesà come un peso de piombo, rendendo ogni respiro un sforso. El rumor metàlico de le picone el rimbombava ´ntei tunèi, mescolà con el cigolìo de le cariole che transportava el carbon. El perìcolo el zera constante: framenti, esplosion de gas e anca el desabamento de i tunèi pareva una ombra sempre pronta a colpir.

Ma el nemico pì grande de Angelo el zera invisìbile. El pòlvere de carbon, sempre presente, el se infiltrava dapartuto —´nte le veste, ´ntel magnar e, sora tuto, ´ntei polmoni. Ogni dì che passava, respirar el diventava pì difìssile, come se l'ària stessa la zera rubà dal carbon che el cavava. La strachessa al fin de ogni zornada la zera devastante, ma anca cussì, ghe zera un filo de speransa che lo tegneva in piè: el sònio de un futuro pì luminoso, che lo fasseva afrontar quel sotomondo nero e opressor, sempre credendo che el sacrifìssio de incòi lo 'ndasse a pagar zorni pì chiari doman.

´Ntel 1905, dopo ani de sacrifìssi e con i segnali evidenti de un corpo malà dal sforso e dall'insalubrità, Angelo el ga deciso che el gavea bisogno urgente de ´na nova vita. Le noti zera segnalà da una tosse seca che rissonava ´ntel so modesto alògio, come un ricordo crudele de le dècade passà a respirar el pòlvere negro del carbon. Inspirà da le storie de altri italian che i gavea traversà el ossean verso el Brasil, 'ndove se disea che ghe zera tera abondante e oportunità par ripartir, Angelo el ga maturà el sònio ardente de ricostruirse el futuro.

Le economie messe da parte in tanti ani - soldi conquistà con sudor e sacrifìssio - le zera conservà come un tesoro presioso, ogni centèsimo un testimònio de la so resistensa. Con determinassion, el ga preparà le so poche robe: vestiti simplice, ´na pìcola imàgine de Santo Antonio e ´na lètara deromai zalda dal tempo, mandà ani prima da un zerman che vivea a Piracicaba. La cità, postà ´ntel cuor de lo stato de São Paulo, za scominsiava a spuntar come un rifùgio sicuro par emigranti italiani. La descrissión zera atrativa: indùstrie in crèssita, strade animà da na léngoa familiar e ´na promessa quasi tangìbile de prosperità.

´Ntel zorno de la partensa, el porto de Le Havre el zera pien de na mistura de euforia e ánsia. El vapor Bretagne, che el lo portava par l'otro lado de l'Atlántico, el gavea un odor de òlio e legno, un segno de quele setimane de traversia che lo aspetava. Mentre che saliva la rampa par ingressar sul vapor, Angelo no el ga podesto mica smetare de vardar indrio, fermando i oci 'na ùltima volta sul cielo grigio de la Francia, come se voléa memorisar quel paisàgio ´ntela so memòria. El sapea che stava lassando no solo un paese, ma anca 'na parte de se stesso—segnà da la soferensa, ma anca dal coraio che adesso lo guidava verso un orisonte novo e scognossù.

In Piracicaba, Angelo el ga trovà un laoro ´nte 'na fàbrica de piati che la zera stà de poco inaugurà, un segno de la crèssita de l’indùstria che scominciava a transformar tuto el interior de San Paolo. La fàbrica la zera 'na strutura imponente par quei tempi, con le so mura de matoni rossi e le ciminiere che lanssiava colone de fumo al cielo, segnando l'atività che ghe zera drento. L'ambiente pareva prometente, ma prestìssimo Angelo el ga capì che el laoro, anche se meno brutale de le miniere de la Belgica, el portava le so sfide.

Lavorava ore lunghe in un capanon caldo, ndove el calore dei forni scaldanti fasea che l'ària la pariva lìquida, quasi impossìbile de respirar. I forni, grandi e famosi, rugivano come bèstie vive, chiedendo atenssion contìnua mentre che el modelava con cura le pesse de seràmica. El pòlvere de argila, fina come pòlvere de farina, flutuava invìsibile ´nte la luse zala de le làmpade a òlio, infiltrandosi ´ntei polmoni e incolandosi a la pele sudà. Nonostante sto, Angelo el sentiva un orgòio strano mentre che vardava i piati che prendeva forma soto le so mani, diventando piati e tasse che, el se figurava, adornava le tavole de le famèie in giro per el paese.

La compagnia de altri imigranti italiani la zera un solievo contro le dificoltà del zorno. Durante le pause brevi, le vose dei operài le risuonava in dialeti conossiuti, mescolando risate e stòrie de la Itàlia che pariva lontan, ma cheno la zera mai dimenticà. La sera, dopo el laoro, trovava conforto in pìcole riunioni in casa de amissi, ndove che se magnava cose sèmplice come polenta e pan de casa, mentre che cantava cansoni che riportava indrio ricordi de la sua tera. Era pròprio in quei momenti che Angelo el sentiva 'na scintila de apartenensa, 'na forza rinovà par afrontar i zorni che vegniva, e 'na luse de che, anca lontan da la sua terra, l'Itàlia la vivea in ogni gesto, parola e sònio condiviso.

Dopo sete ani de laoro instancàbile ´ntela fàbrica, la salute de Angelo la ga scominsià a mostrar segni de colasso. L'ària pien de partìcole sotili, che flutuava invisìbile sia ´ntele miniere che sula lìnea de produssion, la zera 'na presensa costante, insidiosa. ´Ntel scomìnsio, el ignorava i sintomi – la tosse persistente, el peso sul peto, la strachessa che no se levava mai del tuto. Dopo tuto, come che el poteva fermarse? El lavoro ghe dava da magnar, e el magnar ghe zera l'ùnico apogio de la so vita in Brasile. Ma, con el passar dei mesi, i sintomi i diventarono pì forti, trasformandosi in ´na batàia contìnua contro un nemico invisìbile e implacàbile. Ogni respiro pareva rubar un po' de forsa, e ogni turno ´ntela fàbrica pegiorava il dano ireversìbile ai so polmoni.

Quando i mèdici finalmente confermaron che el già sospetava, la parola “silicosi” la ze rivà come un colpo seco, implacàbile. No ghe zera cura, solo la promessa che la so condission la agravava se el continuava ad esser esposto a quela realtà. La dessision de lassiar la fàbrica la ze presa no sensa angossia, ma per pura necessità. Con el poco che lu el ga riussì a sparagnar in ani de sacrifìssio e l’aiuto inestimàbile dei amissi de la colònia italiana, che ga organisà 'na coleta par aiutarlo, Angelo el ga fato un salto de fede. El ga comprà 'na pìcola tera a la periferia de Piracicaba, un peseto modesto che, anche se lontan dal conforto, le dava ´na cosa che no trovava da tempo: la possibilità de respirar ancora.

La nuova vita in campagna portò a Angelo no solo un fià de speransa, ma anca 'na sensassion de libartà che no gavea mai provato prima. In quela pìcola proprietà, sircondà da àlbari che ondegiava delicatamente al vento e da orti pien de tera rica e scura, el ga scominsià a ricostruir la so vita. Coltivar verdure diventò un ato quasi terapéutico. Ogni fila de salata alineà con cura, ogni pianta de pomidoro che cresseva soto la so atenta sorveliansa parevaa un segno che la tera, diversamente da le màchine, rispondea generosamente al la cura umana. Acanto al’orto, el pìcolo ponaro rissuonava i suoni de nova vita, ndove galine sgravatava e metea uova che el vendea al mercato local.

El laoro sel zera duro, e le limitassion fìsiche imposte da la malatia spesso lo sfidava, ma la gioia de laorar a l'ària sverta compensava ogni sforso. Lontan da l'opression de le fàbriche, ndove ogni zorno el seguiva un vaevien contìnuo e disumano, Angelo trovò ´ntela semplicità del campo un ritmo che parea pì in armonia con la so ànima. El sole che tocava el viso e l’ària fresca che riempiva i so polmoni flàgili, per lu, valea pì de ogni richessa material.

Ghe zera stà pròprio in uno de quei zorni de mercà, mentre che dava un cesto de verdure fresche a un cliente, che el ga conossesto Maria. Fiola de imigranti italiani, lei zera´na dona de oci atenti e soriso caloroso, con 'na determinassion che rivalesiava con la soa. Lori i se ga smorosar sùbito, uniti no solo da la léngua e cultura condivisa, ma anca da la stessa voia de ´na vita sèmplice e dignitosa.

El matrimònio loro el ze stà celebrà con pìcole feste, con amissi e visin che condividevano lo stesso spìrito comunitàrio. Insieme, Angelo e Maria i ga construì 'na vita che, anca se modesta, zera pien de significato. Lori i ga avù tre fiòi, che i ga cressesto tra i campi e el ponaro, imparando a amar el laoro onesto e la tera che sostenea la famèia. Soto i òci atenti de Angelo, i fiòi i ga imparà che la forsa de un omo o de ´na dona no stava solo ´ntele brassia, ma ´ntela dedision e ´ntela cura de quelo che amava. La proprietà la ga diventà pì che 'na casa: la zera el sìmbolo de la resiliensa e de l'eredità che Angelo e Maria i ga costruì insieme.

Angelo Martelloni el ze morto ´ntel 1932, a 57 anni, in serenità su la sua proprietà, el posto che gavea trasformà in un santuàrio de vita e propòsito. Intorno al leto, zera Maria e i so tre fiòi, oramai adulti, che lo vardava con una mistura de tristessa e reverensa. Ogni volto portava i segni del tempo e del laoro, ma rifletea anca l'amore profondo e la gratitùdine per un omo che la so vita zera stà ´na lession costante de coraio. La morte de Angelo ze sta silensiosa, come el tramonto che scendeva su le tere che lui avea tanto amà, ma l'impato de la so partensa risuonò per deseni. 

La stòria de Angelo, intrelassà con quel teren fèrtile de Piracicaba, la ze diventà pì de 'na sèmplice memòria de famèia; la ze diventà un lassà vivo. No el zera mica solo el patriarca de la famèia Martelloni, ma anche un sìmbolo par la comunità italiana che cressea intorno. El so nome el vegnia spesso nominà a tola, tra stòrie de dificoltà afrontà e de vitòrie conquistà con el sudor e con la persistensa. La vita che el gavea costruì – dai primi zorni de lota ´ntele fàbriche fin ai campi che fioria soto le so mani rovinà – lei vegnia contà come un esèmpio de come la forsa de volontà la pò trasformar la adversità in speransa.

Incòi, i so dissendenti i conserva con orgòio ogni framento de la so memòria. La vècia proprietà, anca se modificà da le ani, la ze ancora intocià del spìrito de Angelo tra le file de ortàgie e ´ntel ponaro che el gavea organisà con pasiensa e amor. Fotografie in bianco e nero, con la so imàgine sèria e el sguardo resoluto, i ga decorà le mure de tante case de la famèia, ricordando a tuti del omo che gavea atraversà i mari e desbravà tere scognossù par dar a lori un futuro mèio. Pì che un pioniere, Angelo Martelloni el zera ´na inspirassion – la prova viva che le radise le pol vegnir piantà forti, anca lontan del pròprio teren natal. 


Nota de l’Autor

Scrivar la vita de Angelo Martelloni no el ze stà un sèmplice esersìsio de memòria, ma un viaio drento l’ànima de tuti quei che ga lassà la so tera par traversar mari e destin. El sècolo XIX el ze stà segnà da grandi movimenti de populassion, da la misèria che spingeva fora e da la speransa che tirava avanti. Drento a sto scorer de stòrie, la figura de Angelo la spunta come un sìmbolo de coraio e resiliensa.

El so camin, che partì da le campagne cremonesi e lo portò sototera ´nte le miniere de carbon belga, par poi farlo rinassere tra le fatiche industriai de Piracicaba e finalmente tra i campi da lu coltivà, no el ze solo la paràbola de un omo. El ze la paràbola de tanti. Ogni respiro sporco de carbon, ogni tosse sorapien da pòlveri e sacrifìssi, ogni passo so tera nova in Brasil, el conta de un pòpolo che no gavea paura de pagar con el pròprio corpo la promessa de un futuro pì degno.

Mi son esforsà de tegner fede a la verità umana che stava drento a sto raconto: no la retòrica, ma la dignità. No l’epopea grandiosa, ma i silensiosi eroìsmi diàrio. La vita de Angelo la mostra come l’emigrassion la zera stà un ato de fede, un salto ´ntel scuro con i òci pien de speransa. E anca se la so fin la vegnia segnà da la fragilità fìsica, resta grande la sua vitòria: gaver piantà radise forte in tera nova, gaver lassà ai so fiòi no solo pan e tera, ma un lassà morale e culturale che ancora incòi respira.

Le Aventure de l’Emigrante Cremonese Angelo Martelloni lore deve èsser lete cussì: no solo come la crónaca de un destin, ma come spècio ´ndove ogni dissendente pò vardarse e ritrovar le radise che ancora nutre el presente. Angelo Martelloni no el ze un mito lontan: lu el ze la carne viva de la nostra memòria coletiva, la prova che i sòni de dignità i pode sopraviver anca ai mari, ai deserti e ai sècoli.

Cussì, con el penel in man e con el cuor ùmile, mi go volesto tegner vivo el so fià, parché ogni generassion che vien la possa sentir come un richiamo, un invìto e un dover de ricordar.

Dr. Piazzetta





sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Entre Raízes e Horizontes


Entre Raízes e Horizontes

A Vida de Bartolomeo Mussioni


Bartolomeo Mussioni nasceu em 1868 na pequena localidade de San Giacomo di Veglia, pertencente ao município de Vittorio Veneto, na província de Treviso. O lugar era um recanto modesto do Vêneto, protegido pelas colinas, repletas de parreirais, que se erguiam como guardiãs silenciosas sobre os campos cultivados. Ali, a vida seguia o compasso antigo do trabalho rural, com sinos de igreja marcando os dias e as estações ditando o destino das famílias.

Desde cedo, Bartolomeo aprendera que a terra podia ser ao mesmo tempo generosa e cruel. As planícies ao redor da vila, recortadas por fileiras de trigo e vinhedos ralos, exigiam esforço sem tréguas. A cada verão, o calor secava os campos até quase matá-los; a cada inverno, a geada queimava o que havia sobrevivido. Havia anos em que a colheita não passava de um punhado de grãos, insuficiente para alimentar a família durante os meses mais duros. Nessas épocas, o silêncio da casa se tornava pesado, quebrado apenas pelo som das lamúrias abafadas das mães e pelo ranger dos arados puxados a custo pelos bois magros.

Mas o mundo de Bartolomeo não se limitava às dificuldades da lavoura. Desde a adolescência, rumores atravessavam os vales e corriam de boca em boca: histórias de terras distantes, de uma nova vida além do oceano. Nos encontros na pequena praça de Vittorio Veneto, entre o murmúrio dos anciãos e a curiosidade dos mais jovens, surgiam relatos de famílias que haviam partido rumo à América. Falava-se de um continente fértil e sem fim, onde a terra não precisava ser pedida em arrendamento e onde as colheitas se multiplicavam como bênçãos.

Essas histórias, muitas vezes exageradas e envoltas em mistério, alimentavam a imaginação dos camponeses. Para Bartolomeo, que desde cedo conhecia a incerteza da subsistência, a ideia de uma terra em que o pão e o mel pareciam brotar da própria natureza ganhava contornos de promessa divina. Era como se o destino oferecesse, além das colinas familiares de Treviso, um horizonte novo, vasto e luminoso, capaz de resgatar sua família da penúria e garantir-lhe um futuro de abundância. 

Em 1884, quando Bartolomeo completou dezesseis anos, sua vida sofreu o primeiro grande abalo. Naquele ano, seu tio Santo, homem de espírito inquieto e coragem rara, decidiu romper os limites da tradição e tentar a sorte além-mar. Partiu de Vittorio Veneto levando consigo a esposa e as duas filhas pequenas, deixando para trás a velha casa de pedra e os vinhedos que já não sustentavam a família. A despedida foi marcada por lágrimas contidas e pelo som pesado dos sinos da paróquia, que naquela manhã pareciam dobrar não apenas para os que ficavam, mas também para o fim de uma era.

Meses depois, começaram a chegar as primeiras notícias da travessia. Relatos inflamados descreviam um Brasil exuberante, onde a terra se abria generosa diante de quem tivesse braços fortes para cultivá-la. Falava-se de rios largos como mares, de campos tão vastos que os olhos não alcançavam o fim, de colheitas que superavam qualquer expectativa. Para os que viviam sob a penúria das encostas vênetas, tais notícias soavam como revelações de um Éden reencontrado.

A cada palavra que chegava, crescia no coração de Bartolomeo um turbilhão de sentimentos. Entre a dura realidade de San Giacomo di Veglia e as promessas de um continente sem fronteiras, instalava-se nele uma inquietação que não lhe permitia mais dormir em paz. O jovem, ainda marcado pela inocência dos dezesseis anos, começou a enxergar o mundo como uma bifurcação inevitável: permanecer preso às colinas que moldaram sua infância ou arriscar tudo na incerteza de terras desconhecidas.

A decisão foi se formando lentamente, como as estações que amadurecem a vinha. Movido por uma mistura de curiosidade, esperança e o desejo quase instintivo de quebrar o ciclo da escassez, Bartolomeo se uniu à onda migratória que se espalhava por sua região como uma maré silenciosa. No dia da partida, deixou Vittorio Veneto com o coração dividido: de um lado, a saudade pungente da pátria, das colinas familiares, dos rostos que jamais veria outra vez; de outro, a expectativa ardente do desconhecido, que o atraía como uma promessa de renascimento.

A travessia foi longa, trinta dias sobre o mar revolto até o porto de Santos. Mal desembarcou, Bartolomeo solicitou ser transferido para a Colônia Caxias, no Rio Grande do Sul, onde a família de seu tio já começava a se estabelecer. Chegaram a Porto Alegre em 13 de maio de 1888, um dia que entraria para a história do Brasil pela abolição da escravatura. Para Bartolomeo e os que chegavam, no entanto, o mundo novo era ainda cru e desafiador: não havia dinheiro, não havia crédito, não havia garantias. O peso da realidade pesava mais que o sonho da América.

Enquanto seu avô e seu tio Giovanni, ainda na Itália, sugeriam o retorno à pátria, Bartolomeo ouviu a determinação de seu pai Vittore e do tio Prosdocimo: a família já estava ali, e a oportunidade deveria ser cultivada, mesmo que lenta e penosamente. Embora Bartolomeo e sua tia Lucia inicialmente desejassem retornar à Itália, a persistência do pai e a força da comunidade os fizeram permanecer. Entre resmungos e lamentações, Lucia expressava seu desdém pela “terra de selvagens”, enquanto Bartolomeo, emocionado, buscava aceitar a vontade divina e o curso inevitável da vida.

O tempo, implacável e paciente, trouxe consigo a adaptação e os primeiros frutos do esforço. As mãos calejadas de Bartolomeo e de sua família começaram a transformar a terra bruta em campos ordenados. Onde antes havia apenas mato cerrado e chão pedregoso, surgiram fileiras de milho que se erguiam como estandartes verdes sob o sol tropical. As sementes de trigo, importadas em pequenas quantidades, encontraram resistência, mas aos poucos aprendeu a crescer naquele solo novo, como se também fosse um emigrante em busca de raízes. Outros cereais, plantados em parcelas menores, completavam a paisagem agrícola que se expandia a cada estação.

A grande virada veio com a implantação do primeiro vinhedo. Entre enxadas, estacas de madeira e paciência quase infinita, Bartolomeo via brotar não apenas videiras, mas o elo simbólico com a terra de onde viera. As parreiras, ainda frágeis, balançavam ao vento como lembranças vivas das colinas de Vittorio Veneto. Cada ramo que vingava representava mais que uma promessa de colheita: era a prova de que, mesmo longe, era possível reconstruir um pedaço da pátria.

Com o trabalho incessante, vieram os primeiros sinais de progresso. Os comerciantes locais, antes desconfiados, passaram a conceder crédito. O nome dos Mussoni começou a circular nos registros da colônia, associado à perseverança e ao cultivo bem-sucedido. Uma sensação discreta de estabilidade se insinuava, ainda frágil como um fio de vidro, mas suficiente para dar à família um novo alicerce.

Cada passo, cada colheita, cada pequeno progresso consolidava a presença dos Mussoni naquele solo estrangeiro. As casas de madeira erguiam-se ao redor dos campos, os armazéns guardavam os frutos de meses de trabalho, e a terra que no início parecia hostil começava a revelar-se parceira. Ainda assim, no fundo do coração de Bartolomeo permanecia um vazio insondável. A saudade da pátria natal nunca o abandonava: nas noites silenciosas, enquanto o vento atravessava as frestas da casa simples, ele sentia-se de novo em San Giacomo di Veglia, ouvindo o soar dos sinos da pequena igreja e vendo as colinas do Vêneto se tingirem de dourado ao entardecer.

A vida lhe ensinava que era possível criar raízes em terras distantes, mas jamais arrancar da alma a lembrança daquilo que havia sido perdido.

Bartolomeo, moldado por desafios e esperanças, aprendeu que a verdadeira viagem não estava apenas na travessia do Atlântico, mas na construção de uma vida digna em terras que, embora distantes e inóspitas, podiam tornar-se lar para aqueles que perseverassem. Entre a memória das colinas de Treviso e os horizontes abertos do Rio Grande do Sul, encontrou seu destino — uma existência de trabalho árduo, conquistas tímidas e, acima de tudo, a promessa de um futuro construído com suas próprias mãos.

Nota do Autor

Escrever esta história foi, para mim, mais do que um exercício de imaginação: foi um mergulho profundo na memória coletiva de milhares de famílias que, como Bartolomeo Mussioni, deixaram sua terra natal em busca de uma vida melhor. Ao revisitar os caminhos de um personagem ficcional, inspirado na realidade de tantos imigrantes do Vêneto e de outras regiões da Itália, procurei dar voz à experiência universal de quem se vê dividido entre o amor pelas raízes e a necessidade de olhar para novos horizontes.

A escolha por narrar a vida de Bartolomeo nasceu do desejo de compreender o drama silencioso da emigração: o peso da fome, das colheitas incertas, das despedidas carregadas de lágrimas, mas também a esperança quase teimosa que movia homens e mulheres a atravessarem o oceano. Escrever sobre ele foi, portanto, uma forma de homenagear não apenas uma geração de italianos que ajudou a construir o Brasil, mas também as histórias de luta, adaptação e fé que permanecem vivas na memória de seus descendentes.

Ao longo da narrativa, busquei mostrar que a travessia de Bartolomeo não se restringiu ao Atlântico: ela foi também uma travessia interior. Cada vinhedo plantado, cada pedaço de terra cultivado, representava não só um gesto de sobrevivência, mas também uma tentativa de recriar, em solo estrangeiro, a pátria que ficara para trás. É nesse ponto que a história se torna universal: todos nós, em algum momento da vida, precisamos aprender a equilibrar aquilo que carregamos de origem com aquilo que nos espera adiante.

Decidi escrever Entre Raízes e Horizontes porque acredito que a literatura tem a força de resgatar aquilo que o tempo muitas vezes tenta apagar. A saga de Bartolomeo Mussioni é, no fundo, um tributo à coragem, à persistência e à saudade. É também um convite ao leitor para refletir sobre suas próprias raízes e horizontes — sobre o que deixamos para trás e sobre aquilo que nos move a seguir em frente.

Dr. Luiz Carlos Piazzetta



terça-feira, 7 de outubro de 2025

Tra Le Radise e i Orisonti



Tra le Radise e i Orisonti  

La Vita de Bartolomeo Mussioni


Bartolomeo Mussioni lu el ze nassesto ´nte l´ano 1868 in la pìcola località de San Giacomo de Veglia, che lora fasea parte del comune de Vittorio Veneto, ´nte la provìnsia de Treviso. El posto el zera un canton modesto del Véneto, difeso da le coline, pien de vignai, che se levava come guardian silensiose sora i campi coltivà. Là, la vita la seguia el passo antico del laor contadin, con el campanel de la cesa che i segnava i zorni, e le staion che i detava el destin de le famèie.

Da bòcia, Bartolomeo el gavea imparà che la tera podea essar a lo stesso tempo generosa e crudele. Le pianure intorno a la vila, pien da file de formento e da vigne malà e smagrì, domandava fadiga sensa fin. Ogni staion, el calor brusava i campi fin quasi a coparli; ogni inverno, la brosa brusava quel poco che el zera restà. Ghe gera ani che la racolta no vegnìa gnanca che ’na manada de gran, che no bastea gnanca par dar da magnar a la famèia ´nte i mesi pì duri. ´Nte sti tempi, el silénsio de la casa el fasea peso, sbregà sol dal pianser sordo de le mare e dal rumor lontan dei vassor tirà a fadiga da i bo magri.

Ma el mondo de Bartolomeo no el se fermava mìa so le fadighe de la tera. Da zòvene, le vose che passava tra le vale e de boca in boca: stòrie de tere lontan, de ’na vita nova oltre el mar. Tra le sbachetà del campanel de Vittorio Veneto, fra el brusìo dei veci e la curiosità dei pì zòveni, nasséa raconto de famèie che i zera partì verso l’Amèrica. Se diseva che zera un continente fértile e sensa fin, ’ndove la tera no bisognava mìa chiederla in afito e ’ndove le racolte se moltiplicava come benedission.

Sti raconti, tante volte ingrandì e coerte de mistero, i scaldava l’imaginassion dei pòveri contadin. Par Bartolomeo, che già da tempo conosséa l’incertesa de la subsistensa, l’idea de ’na tera ’ndove pan e mel pareva nasser da la natura stessa la fasea l’efeto de ’na promessa divina. Era come se el destin ghe ofrìsse, oltre le coline de Treviso, un orisonte novo, vasto e luminoso, bon de scampar la so famèia da la misèria e darghe un futuro de abondansa.

´Ntel 1884, quando Bartolomeo lu el gavea compiù sédese ani, la so vita la provò el primo gran sbaltón. Quela staion, el so zio Santo, omo de spìrito inquieto e coraio raro, el decise de romper i confin de la tradission e de provar fortuna oltre el mar. El partì da Vittorio Veneto portando con lù la mòier e le do fiole, e lassando drio la vècia casa de piera e i vignai che no mantegnea mìa la famèia. El adio el fu segnà da làgreme nascoste e dal suon pesà del campanel ´ntela pìcola piaseta avanti la cesa, che parea quel zorno che i suonasse mìa sol par chi restava, ma anca par la fin de ’na era.

Pochi mesi dopo, son rivà le prime notìsie de la traversia. Raconti pien de fogo disea de un Brasil vigoroso, ’ndove la tera se vertia generosa davanti a chi gavea brassi forti par coltivarla. Se contava de fiumi larghi come mari, de campi cussì vasti che l’òcio no rivea a vardar la fin, de racolte che passava molto ogni speransa. Par chi che vivea soto la penùria de le campagne vénete, ste notìsie le pareva rivelassion de un Eden ritrovà.

Ogni parola che rivava, ghe fasea nasser drento a Bartolomeo un mar de sentimenti. Tra la dura realtà de San Giacomo de Veglia e le promesse de un continente sensa confin, ghe se instalava ’na inquietudine che el no ghe fasea pì dormir en pase. El zòvene, ancora segnà da l’ingenuità dei so sédese ani, el ga scominsià a vardar el mondo come ’na stradela che se sparti in do: restar ligà a le coline che le gavea segnà la so infansa o metarse tuto in zogo ´nte l’incertessa de tere scognossù.

La resolussion la se formò pian pianin, come le staion che le fa madurar la vigna. Spinto da ´na mèscola de curiosità, speransa e da la voia quasi istintiva de romper la repetission de la scarsità, Bartolomeo se unì a l’onda migratòria che se spaiva par la so zona come ’na marea silensiosa. ´Ntel zorno de la partensa, el lassò Vittorio Veneto con el cuor spacà: da ’na parte, la nostalgia forte de la pàtria, de le coline, de le famèie che el no vardarìa pì; da l’altra, la speransa ardente de l’scognossù, che ghe pareva ’na promessa de rinàssita.

La traversia la ze stà longa: trenta zorni sora el mar sbregà fin al porto de Santos. Quasi sensa posar i piè, Bartolomeo domandò a le autorità de essar mandà a la Colónia Caxias, ´ntel Rio Grande do Sul, ’ndove la famèia del zio la stava za scominsiando a piantar radise. El rivò a Porto Alegre el 13 de maio del 1888, pròprio el zorno che Brasil el ga abolì la schiavitù. Ma par Bartolomeo e par chi che zera rivà, el mondo novo el zera ancora duro e feròs: no ghe zera schei, no ghe zera crèdito, no ghe zera garantìe. El peso de la realtà fasea pì forsa che el sònio de l’Amèrica.

Intanto, el nono e el zio Giovanni, che i zera restà ancora in Itàlia, i proponeva de tornar indrìo; ma Bartolomeo scoltà la volontà ferma de so pare Vittore e del zio Prosdocimo: la famèia zera za là, e l’oportunità la bisognava èssar coltivà, anca se pian e con fadiga. Anca se Bartolomeo e la zia Lucia al prinsìpio i volea tornar in Itàlia, la testardessa del pare e la forsa de la comunità i ghe ga fato restar. Tra sbufi e lamentassion, Lucia mostrava el so dispreso par ’sta “tera de selvadeghi”, mentre che Bartolomeo, con el cuor tasto, l’aceptava la volontà divina e el corso inevitàbile de la vita.

El tempo, implacàbile e pasiente, el portò co lu l’adatamento e i primi fruti de la fadiga. Le man dure de Bartolomeo e de la so famèia le scominsiò a trasformar la tera bruta in campi ordenà. Là ’ndove prima ghe zera mia che mato e sasso, saltava fora file de formenton che se levava verdi come stendardi soto el sol tropical. I semi de formento, che i zera importà in pìcola quantità, i ga trovà dificoltà, ma pian pianin i imparò a crèssar sora quel novo suolo, come se anca lori i zera emigranti in serca de radise. Altri grani, seminà in pìcoli pesi, i completava il novo paesàgio agrìcola che se alargava ogni stagion.

El gran cambiamento el ze rivà con la plantassion del primo vignal. Tra zape, stacheti de legno e pasiensa sensa fin, Bartolomeo el vardava spuntar no sol le vite, ma l’elo simbòlico con la tera de la so orìgene. Le vigne, ancora fràgili, le se movea con el vento come ricordi vivi de le coline de Vittorio Veneto. Ogni rama che vegniva la zera pì che ´na promessa de racolta: la zera la prova che, anca lontan, se podéa refar un canton de pàtria.

Con el laor straco, i ze rivà i primi segni de progresso. I negosianti locài, che prima i gera sospetosi, i ga scominsià a dar crèdito. El nome dei Mussoni el ga scominsià a sircolar ´ntei registri de la colònia, ligà a la perseveransa e a la bon resa del coltivo. ’Na sensassion tìmida de stabilità la se insinuava, ancora fràgile come un filo de vero, ma bastevole par dar a la famèia un novo fondamento.

Ogni passo, ogni racolta, ogni progresso consolidava la presensa dei Mussoni sora quel solo forestiero. Le case de legno se levava intorno ai campi, i magazini tegneva i fruti de mesi de fadiga, e la tera che al scomìnsio pareva ostìl scominsiava a mostrarse compagna. Ma drento al cuor de Bartolomeo restava un vodo che no se colmava mia. La nostalgia de la pàtria la no l’abandonava gnanca: ´nte le noti silensiose, con el vento che passava tra le fessure de la pìcola casa, lu se sentiva ancora in San Giacomo de Veglia, scoltando la campana de la ceseta e vardando le coline vénete che se colorava d’oro con el tramonto.

La vita ghe imparava che el zera possìbile far radise anca in tere lontan, ma mia strapar da l’ànima el ricordo de quel che zera lassà drio.

Bartolomeo, segnà da prove e da speranse, lu el ga imparà che el vero viaio no el stava mia solo ´nte la traversia del Atlàntico, ma ’nte la costrussion de ´na vita dignitosa ´nte tere che, anca se lontan e dure, podéa diventar casa par chi che gavea la perseveransa. Tra la memòria de le coline de Treviso e i orisonti spalancà del Rio Grande do Sul, lu el ga trovà el so destin — ’na esistensa de fadiga dura, pìcole conquiste e, sora de tuto, la promessa de un futuro fato con le so man.

Nota de l’Autor

Scrivar sta stòria la ze stà par mi pì che un eserssìsio de imaginassion: el ze stà un mergúio profondo ’nte la memòria cołetiva de mile e mile de famèie che, come Bartolomeo Mussioni, i ga lassà la so tera nativa in serca de ’na vita mèio. Contando i passi de un personaio finto, ma inspirà a la realtà de tanti emigranti véneti e de altre region de l’Itàlia, mi go volù dar vose a l’esperiensa universal de chi che se cata diviso tra l’amor par le radise e el bisogno de vardar verso novi orisonti.

La scielta de contar la vita de Bartolomeo la ze nassesta da la voia de capir el drama silensioso de l’emigrassion: el peso de la fame, de le racolte inserte, de lo adio con làgreme, ma anca la speransa testarda che moveva òmini e done a traversar el mar. Scrivar de lu el ze stà ’na maniera de onorar mia soł ’na generassion de italiani che i contribuì a costruir el Brasil, ma anca le stòrie de fadiga, adatamento e fede che le resta vive ancora ’nte la memòria dei so dessendenti.

´Nte la narassion, mi go sercà de mostrar che la traversia de Bartolomeo no se fermava mìa soł a l’Atlàntico: la zera anca ’na traversia interior. Ogni vigne piantà, ogni peso de tera lavorà, el zera mìa sol un gesto de sobrevivensa, ma ’na tentativa de refar, ´nte tera forestiera, la pàtria lassà drio. E qua che la stòria la deventa universal: tuti noaltri, a un serto punto de la vita, semo costreti a imparar a meter in bilansia quel che portemo da l’orìgene con quel che speta noi pì avanti.

Mi go decìso de scrivar Tra le Radise e i Orisonti parchè credo che la leteratura la ga la forsa de salvar quel che tante volte el tempo el vol canselar. La saga de Bartolomeo Mussioni la ze, in fondo, un tributo al coraio, a la perseveransa e a la nostalgia. La ze anca un invito al letor a rifletar sora le so pròprie radise e orisonti — sora quel che gavemo lassà drio e sora quel che spinge noialtri a ´ndar avanti.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 4 de outubro de 2025

A Vida de Pietro Zanotelli

 


A Vida de Pietro Zanotelli

Das Colinas de Vicenza às Terras Vermelhas de São Paulo

Pietro Zanotelli nasceu em San Pietro Mussolino, Vicenza, no dia 14 de março de 1900. O vilarejo era pobre, mas os bosques que se erguiam ao redor ofereciam o sustento possível. Com somente os três anos do ensino básico concluídos, desde criança, Pietro aprendera a manejar o machado, a serrar troncos e a arrastar toras pelas encostas. Sua juventude foi marcada pelo cheiro da resina dos pinheiros e pela aspereza das mãos feridas pela madeira.

A pequena aldeia se resumia a algumas ruas tortuosas e estreitas, uma antiga igreja, dominando a praça e pequenas casas de pedra úmidas salpicadas de liquens, onde as famílias se apertavam em meio à escassez. As colheitas raramente bastavam, e a maioria dos jovens partia ainda muito cedo, deixando atrás de si velhos e mulheres. Era um retrato de um Vêneto pobre que ainda lutava contra as feridas deixadas pela guerra.

Em 1922, como tantos outros jovens da região, partiu para a França em busca de uma vida melhor. Encontrou trabalho nos túneis do Jura, onde o corpo era consumido pela umidade e pela escuridão. Foram três anos de labuta subterrânea, até que a saudade o empurrou de volta a San Pietro Mussolino. O retorno, porém, trouxe-lhe apenas a constatação amarga: ainda não havia futuro possível em sua aldeia natal.

A ideia da América começou a rondá-lo. Já não era uma emigração em massa, como a dos tempos de seus pais e avós. Agora, cada partida era um gesto individual, uma tentativa desesperada de escapar do desemprego e da fome que a Itália do pós-guerra ainda não conseguira resolver. Pietro observava as cartas que chegavam de parentes já instalados no Brasil, com relatos de dificuldades, mas também de terras férteis e novas oportunidades.

Na madrugada de 2 de julho de 1926, o dia da partida chegou. Pietro levantou-se cedo. A pequena maleta de papelão, já meio consumida, o passaporte recém-emitido e algumas moedas no bolso eram tudo o que carregava. Os parentes o acompanharam até o ponto de onde partia uma carroça que fazia o transporte de passageiros. Quando o cocheiro gritou a ordem de embarque, sentiu um nó na garganta. O silêncio pesou mais do que qualquer palavra. Virou-se uma última vez para olhar sua terra, e num sussurro apenas para si mesmo disse: “Adio Mussolino, chissà quando ti rivedrò”.

Seguiu então de trem para Gênova. Instalado em um hotel barato em uma rua lateral não muito longe do cais, dividiu pão e salame com três companheiros de viagem. Ao passear pelo porto, ficou paralisado diante do navio Giulio Cesare, uma fortaleza de aço erguida sobre as águas, pronta para atravessar o oceano. O porto fervilhava de vozes em diferentes dialetos, famílias chorando separações definitivas, vendedores ambulantes aproveitando o último instante de comércio, padres abençoando os que partiam.

No 30 de junho, as formalidades se sucederam: corte de cabelo, banho obrigatório, inspeção médica, vacina. Quando finalmente embarcou, desceu a escadaria de ferro até o porão, onde se alinhavam beliches numerados. Aquele seria seu mundo durante semanas.

Ao soar os três apitos da partida, o navio começou a afastar-se do cais. Do porto, a multidão cantava hinos patrióticos; no convés, emigrantes agitavam lenços encharcados de lágrimas. O barulho da música e dos gritos se misturava ao choro sufocado. Pietro permaneceu imóvel, carregando no peito o peso da separação.

A travessia foi marcada pelo enjoo dos primeiros dias, pela comida escassa e pelo cheiro sufocante dos camarotes. Os limões comprados em Gênova ajudaram a suportar o mal-estar. No convívio com outros passageiros, surgiam histórias semelhantes: jovens arrancados pela necessidade, velhos em busca de filhos que já haviam partido, mulheres levando crianças pequenas na esperança de recomeçar. Todos unidos pela mesma esperança de um futuro do outro lado do mar. Havia também as noites em que o mar se revoltava, e o balanço violento lançava os corpos contra as paredes de ferro, lembrando a todos que a travessia era uma aposta de vida e morte.

Ao desembarcar no porto de Santos sem conhecer a língua do Brasil, Pietro não encontrou promessas fáceis, mas sim o desafio de recomeçar do nada. Seguiu de trem para o interior de São Paulo, onde já existiam comunidades italianas estabelecidas. Encontrou trabalho em armazéns, em pequenas indústrias, em roças arrendadas, mudando de ofício conforme apareciam as oportunidades.

O Brasil não foi para ele uma terra de riqueza, mas sim de sobrevivência e continuidade. Casou-se com Ana Luísa Marchette, filha de imigrantes, com quem teve filhos e netos. Sua vida tornou-se um equilíbrio entre o trabalho incessante e a saudade que nunca se apagou. O sotaque do Vêneto nunca o deixou, e até os últimos dias mantinha o hábito de cantarolar canções antigas, como se cada nota fosse um elo com sua terra perdida.

Morreu em Campinas, no ano de 1972, aos 72 anos. Foi enterrado sob uma cruz simples, com a frase escolhida pela família:

“Partiu da Itália por necessidade, viveu no Brasil por esperança.”

Assim se encerrou a trajetória de Pietro Zanotelli, um homem que carregou no coração o peso da despedida e a coragem da travessia, testemunha de uma geração que deixou o Vêneto não por escolha, mas por obrigação da vida.

Nota do Autor

Este relato nasceu da necessidade de dar carne e voz a uma geração que, apesar de ter marcado profundamente a história, corre o risco de ser esquecida. Pietro Zanotelli, personagem central desta narrativa, não é um homem isolado: ele representa milhares de italianos que, nas primeiras décadas do século XX, foram forçados a abandonar seus vilarejos, suas famílias e o chão onde aprenderam a caminhar.

Não partiram por aventura ou ambição, mas pela imposição da vida. A Itália que emergiu da Grande Guerra estava exausta: os campos devastados, o trabalho escasso, as promessas do Estado vazias. Para muitos, a única saída era olhar para o horizonte do Atlântico e imaginar que, do outro lado, pudesse existir uma chance de sobrevivência.

Foi esse gesto — levantar-se de madrugada, despedir-se em silêncio, carregar uma mala pobre de roupas e memórias — que fundou a epopeia anônima de tantos homens e mulheres. Eles não eram heróis, mas trabalhadores comuns. E ainda assim, sua coragem os tornou extraordinários.

Ao recriar a trajetória de Pietro, não busquei apenas relatar fatos, mas também reconstruir atmosferas: o peso das despedidas, o cheiro acre dos portos, o som metálico dos apitos de partida, a claustrofobia dos porões de navio e, sobretudo, a saudade que atravessava oceanos. A saga de Pietro é uma chave para compreendermos a dor e a força daqueles que transformaram o Brasil em sua nova pátria.

Esta narrativa não é uma biografia literal. É um romance baseado em cartas, documentos e testemunhos, tecido com o fio da ficção para iluminar o que os registros oficiais não contam: o silêncio, o medo e a esperança.

Que a vida de Pietro Zanotelle, aqui narrada, seja lembrada como símbolo de todos os que cruzaram o mar não para enriquecer, mas para sobreviver — e, ao fazê-lo, construíram as bases de um futuro que hoje chamamos de nosso.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta