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quinta-feira, 4 de junho de 2026

As Colinas e o Oceano


 As Colinas e o Oceano

Da dureza das Langhe ao destino incerto na América: a travessia de Giacomo Rossino


Nas colinas ásperas de Marmora, província de Cuneo, nas Langhe, Giacomo Rossino nasceu em 1891. Filho de camponeses, cresceu com a poeira do feno colada à pele e o cheiro de ovelhas entranhado nas mãos. O mundo dele era um tabuleiro estreito: de um lado, as encostas pedregosas onde o rebanho pastava; do outro, a planície distante, onde a colheita de trigo convocava homens e meninos num esforço que parecia não ter fim.

Ainda jovem, acompanhava o pai para a planície quando o trabalho chamava. Levava consigo um barril pequeno de água misturada com vinagre para matar a sede da equipe, e recebia, como pagamento, dez soldi por dia — um dinheiro que mal servia para manter as botas remendadas. Nas épocas em que não havia trigo, migravam pelas planícies, de uma cascina a outra, como um pequeno exército sem pátria, fazendo o trabalho pesado de bottari. Levavam nos bolsos quatro fatias frias de polenta e dormiam no feno, sempre com a sensação de viver uma guerra silenciosa, travada contra a fome e o cansaço.

A França foi apenas uma ilusão breve, como um clarão que se apaga antes de aquecer. Algumas semanas bastaram para mostrar-lhe a verdade que o vento e as estradas não escondiam: as fronteiras não mudavam o destino dos pobres. Nas manhãs úmidas, o cheiro acre da lenha recém-cortada impregnava as roupas, enquanto a lâmina do machado respondia com um som seco, ritmado, como se marcasse o compasso de uma vida que não avançava. Nos portos e armazéns, os sacos empilhados eram tão pesados quanto os carregados em sua terra natal; apenas o murmúrio das vozes mudava, tingido de um francês áspero, como se até o idioma carregasse o peso da labuta. Ali, sob um céu estrangeiro, percebeu que não importava o país nem a língua: a pobreza tinha o mesmo rosto em todos os lugares — e era um rosto que ele já conhecia. A esperança, no entanto, cruzava o oceano. Três de seus irmãos haviam partido anos antes para os Estados Unidos, trabalhando em serrarias que engoliam homens e árvores na mesma voracidade. Foram eles que enviaram o dinheiro da passagem. Assim, em 1907, Giacomo decidiu deixar Marmora. Não partiu sozinho: vinte e dois conterrâneos, homens e mulheres, embarcaram na mesma aventura.

A despedida foi seca, quase sem palavras. O silêncio não era vazio, mas carregado de tudo o que não se tinha coragem de dizer. Alguns olhares se prolongaram mais do que deveriam, como se quisessem gravar na memória o rosto do outro antes que o mar apagasse qualquer vestígio de certeza. Antes de subir a bordo, receberam as vacinas obrigatórias — agulhas rápidas, frias, aplicadas por mãos acostumadas a cumprir ordens. Logo depois, uma refeição pobre: um po’ baioca, comida de segunda, servida como ração a soldados cansados. Era pouca coisa, mas era o último alimento em terra firme.

No navio, o balanço constante misturava a fome ao enjoo. O casco rangia como se cada onda fosse um teste de resistência, e o ar úmido parecia sempre carregado de sal e ferrugem. A comida era trazida em marmitas até as beliches; a sopa derramando no metal frio, formando poças oleosas que escorriam pelo chão inclinado. O cheiro ácido se espalhava, penetrando roupas, cabelos e até o sono inquieto das noites em alto-mar. Ainda assim, comiam. Não por apetite, mas por instinto — sustentados apenas pela teimosia de quem sabia que, para sobreviver àquela travessia, era preciso resistir a cada colherada.

No porão onde Giacomo ficou, havia mil e duzentas pessoas. O ar era pesado, saturado de umidade e cheiro humano. As mulheres, separadas. Toscani, veneti, lombardi, meridionali — todos unidos pela mesma pobreza, comprimidos lado a lado, partilhando o mesmo calor e a mesma resignação. Cada respiração parecia roubar o pouco oxigênio disponível.

Dois dias ficaram à deriva em mar aberto, presos sob a fúria das ondas que varriam o convés. O escuro do porão se enchia de ruídos: a madeira estalando, a água batendo contra o casco, o som metálico de objetos soltos rolando a cada balanço. Cada rajada fazia tremer a estrutura do navio como se fosse de vidro, e cada tremor se refletia nos olhares tensos, nos dedos agarrados às travessas das beliches.

O capitão, severo, entrou nos alojamentos e advertiu: se a trombeta soasse, seria cada um por si. As palavras caíram como um golpe, deixando atrás de si um silêncio ainda mais opressivo.

A tempestade passou. E, ao amanhecer, viram Nova York. A luz fria da manhã filtrava-se pelas frestas, desenhando linhas pálidas sobre rostos marcados pelo cansaço. O cheiro do porto, com sua mistura de carvão, maresia e fumaça, chegou antes mesmo de a cidade se revelar inteira — um aviso de que, depois de tanto mar, havia terra firme à frente.

Lá, Giacomo encontrou mais de cem homens de Marmora empregados na mesma companhia. Trabalhou na serraria, dez horas por dia, por sete liras e meia. As serras cortavam as árvores com um rugido constante, e os troncos caíam como soldados abatidos. Os italianos eram valorizados por sua resistência: descarregavam vagões, transportavam toras, cortavam tábuas. Os gregos, em grupos separados, faziam outros serviços.

Moravam em barracões de madeira. O cheiro de resina e madeira crua se misturava ao de fumaça das cozinhas improvisadas. A vida era dura, mas não silenciosa: havia bailes improvisados, onde acordeões e violinos arrancavam melodias que, por algumas horas, faziam esquecer a terra dura e o trabalho pesado. Partidas de cartas reuniam grupos em torno de mesas rústicas, iluminadas por lamparinas, enquanto risadas e provocações enchiam o ar. Jogos de bocha ocupavam os pátios batidos de terra, sob o sol, e campeonatos de futebol transformavam clareiras em arenas barulhentas, com gritos, apostas e rivalidades que iam além do jogo. O suor se misturava à alegria momentânea que a música e o esporte podiam dar — um respiro breve antes que o peso dos dias voltasse a cair sobre todos.

Quatro anos se passaram. A América o tratara com dureza, mas sem desprezo. Foram anos de trabalho pesado, de dias longos e noites curtas, de calos que jamais desapareceriam das mãos. Giacomo voltou à Itália, chamado pela solidão da mãe, um chamado silencioso, mas impossível de ignorar. Ao desembarcar, reencontrou o cheiro da terra natal, misturado à sensação de que já não pertencia inteiramente àquele lugar.

Seus irmãos permaneceram nos Estados Unidos, espalhados pelas fábricas e cidades que haviam aprendido a chamar de casa. Também os amigos de Marmora decidiram ficar, vinte e um homens que se dispersaram pelo país estrangeiro como folhas levadas pelo vento. Nunca mais recebeu notícias deles. Os rostos, antes tão próximos, foram ficando distantes na memória, dissolvendo-se como fotografias esquecidas ao sol.

De volta à terra natal, Giacomo carregava duas heranças: a primeira era o corpo endurecido pelo trabalho além-mar; mãos calejadas, ombros firmes e uma fadiga que não se apagava nem com o sono mais profundo. A segunda, um silêncio povoado por rostos que ficaram para trás — amigos, irmãos de jornada, vozes que ecoavam em sua memória como sombras indistintas, presenças invisíveis que o acompanhavam a cada passo.

A vida seguiu, mas com a lembrança constante do navio que partira de Gênova, aquele gigante de ferro que cortara o mar rumo a um destino incerto, e do rugido das serrarias americanas, onde o som das máquinas se misturava ao esforço humano em uma sinfonia de sobrevivência. Tudo isso estava misturado para sempre ao vento das Langhe, que soprava pelas colinas como um sussurro implacável, lembrando-lhe que, embora estivesse em casa, parte de sua alma jamais deixaria o oceano.

Nota do Autor

Escrever a história de Giacomo Rossino não é apenas resgatar o percurso de um homem que atravessou o oceano. É, sobretudo, tocar a cicatriz aberta de uma geração que deixou as encostas áridas das Langhe para enfrentar o desconhecido.

Cada linha desta narrativa nasce do silêncio que ele carregou ao voltar, um silêncio feito de ausências — dos irmãos que nunca mais escreveu, dos amigos de Marmora que ficaram na América e dos anos passados sob o rugido metálico das serrarias. Na travessia de Giacomo está gravada a epopeia de milhares: a mesma partida em Gênova, a mesma ração pobre distribuída no navio, a mesma tormenta que fez tremer a coragem.

Não há heróis nem vilões nesta história. Há apenas a persistência silenciosa de um homem que suportou fome, mar, trabalho e saudade para, ao fim, retornar às colinas que nunca deixaram seu coração.

Registrar a vida de Giacomo Rossino é preservar um fio da imensa tapeçaria da Grande Emigração Italiana. É garantir que, ao se falar de Marmora, das Langhe, de Gênova ou de Nova York, ainda se possa ouvir o eco das botas gastas, o balanço do mar e o som distante das serras, lembrando que a história da América foi também escrita com o suor de homens como ele.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Contracapa do livro

"Entre as colinas áridas das Langhe e o ruído implacável das serrarias americanas, Giacomo Rossino carregou no corpo a dureza do trabalho e na alma o peso do silêncio. Sua história é a de milhares que partiram, levando nos bolsos apenas polenta fria e esperança. Esta é a memória de um homem que cruzou o oceano para descobrir que o verdadeiro destino, às vezes, espera no regresso."

domingo, 31 de maio de 2026

Entre a Esperança e o Mar Proibido



Entre a Esperança e o Mar Proibido
A jornada interrompida de Romoaldo Benaduzzi e a promessa de Santa Catarina


No final de novembro de 1889, Romoaldo Benaduzzi sentiu desabar sobre seus ombros o peso de uma injustiça. O governo do Reino d´Itália, de forma abrupta, proibira a concessão de passagens gratuitas para o Brasil. Durante meses, ele havia se preparado, reunido documentos e alimentado a esperança de partir com a família rumo a Santa Catarina. Tudo fora anulado de um só golpe, sem explicação. 

O golpe foi mais duro porque a Itália ainda em crise economica o que continuava não oferecendo segurança no futuro. O linho mal rendera um terço da safra, o trigo estava perdido sob tempestades, e as vinhas, açoitados por doenças e pelas neblinas, dariam vinho tão escasso que se tornaria artigo de luxo. As colheitas fracassavam, a fome rondava os vilarejos, e cada inverno parecia mais cruel que o anterior. Em Casalbuttano e Corte de Cortese, onde Romoaldo se estabelecera após deixar a terra natal, as famílias sobreviviam com pão negro e esperança rarefeita. A carta do governo que cancelava o embarque parecia uma sentença: ficar e perecer. Mas Romoaldo não se deixou esmagar. Continuou economizando o que podia, vendeu o pouco que possuía e resistiu, sempre à espera de que a emigração fosse reaberta. Meses depois, a notícia enfim chegou: os navios voltariam a levar famílias rumo ao Atlântico. 

Na primavera seguinte, Romoaldo deixou Cremona em definitivo. Em Gênova, o porto fervilhava com multidões ansiosas, carregando malas de couro já gastas, grandes baús de madeira, sacos com pertences, imagens de santos, crucifixos e um medo silencioso. O vapor Colombo que os recebeu estava superlotado. A travessia até a América durou trinta dias de suplício: enjoo incessante, corredores cheios de tosses e choro de crianças, porões abafados onde o ar rareava. Muitos adoeceram, alguns quase morreram, mas cada nascer do sol sobre o oceano reacendia a convicção de que a terra prometida estava próxima.

Quando o navio enfim entrou na baía do Rio de Janeiro, a visão foi arrebatadora. As montanhas cobertas de verde pareciam muralhas erguidas sobre o mar, o calor tropical sufocava, mas havia uma beleza desmedida na nova terra. Durante três dias, Romoaldo e a família permaneceram na Hospedaria de Imigrantes, entre a confusão de línguas e sabores, aguardando nova embarcação para seguir viagem.

O transbordo veio com o vapor Maranhão, que partia em direção ao sul. No convés, dezenas de famílias italianas se amontoavam, algumas destinadas a Paranaguá, outras para mais distante, ao porto de Rio Grande. Romoaldo e os seus chegaram no porto de Desterro em Santa Catarina, onde desembarcaram entre colonos igualmente desorientados, mas unidos pela mesma esperança.

A terra que encontraram na Colônia Azambuja não era a que haviam sonhado. A mata cerrada parecia invencível, as casas inexistiam, as picadas eram abertas apenas a facão. O rancho de troncos que ergueram serviu de abrigo precário contra chuvas, insetos e noites escuras, cortadas por ruídos de animais desconhecidos. Nos primeiros anos, a luta foi contra a natureza e contra as febres tropicais que ceifavam vidas sem piedade. Muitos foram enterrados em silêncio atrás da capela improvisada, mas cada clareira aberta era uma vitória.

Aos poucos, a colônia tomou forma. O milho e a mandioca garantiram alimento, as primeiras mudas de videira trazidas da Itália vingaram nas encostas e começaram a dar vinho. Casas de madeira substituíram choças, estradas de terra uniram lotes distantes, escolas improvisadas ensinaram crianças a escrever. O idioma italiano, seus vários dialetos enchiam o ar, misturados ao português que se infiltrava nas gerações mais novas.

Romoaldo envelheceu acompanhando de perto esse progresso que avançava devagar, mas de forma inegável. Já não tinha a força de outrora para manejar o machado com firmeza contra os troncos da mata, e suas mãos, outrora calejadas pelo trabalho árduo, tremiam ao tentar levantar uma enxada. Contudo, bastava erguer os olhos e ver os netos correndo livres pelos campos que ele um dia abrira à custa de suor, dor e perseverança, para que um sentimento de vitória silenciosa se apoderasse dele. Aquela terra, que no início lhe parecera hostil e infinita, agora se tornara o palco de novas vidas, herdeiras de seu sacrifício.
Seu orgulho encontrava-se, sobretudo, no vinho que fluía das próprias videiras, cultivadas com paciência quase obstinada. O sabor era rústico, marcado pelas imperfeições da terra e pela simplicidade das técnicas herdadas, mas era também intenso e generoso, como se carregasse na cor rubra cada lágrima derramada e cada esperança mantida. As jarras cheias, repartidas em família, eram o sinal de que a tradição não se perdera — ao contrário, estava mais viva do que nunca, transmitida de geração em geração, assim como ele havia sonhado nos dias mais duros da sua juventude.

Nos últimos anos, transformara-se quase num patriarca silencioso, desses cuja autoridade não precisa de palavras para ser reconhecida. Sua presença era discreta, mas constante, tanto nas reuniões comunitárias quanto nas colheitas, quando sua figura curvada pela idade ainda se erguia no meio dos mais jovens, lembrando-lhes que o trabalho só fazia sentido se fosse partilhado. Preferia permanecer à margem das decisões práticas, mas bastava um gesto seu, um levantar de sobrancelhas ou o prolongado silêncio entre uma fala e outra, para que todos compreendessem a medida exata do que devia ser feito.
Nos finais de tarde, buscava o abrigo da sombra fresca do parreiral, onde a vida parecia correr mais devagar. Gostava de fechar os olhos por instantes, respirando fundo o cheiro doce da terra misturado ao aroma forte das videiras. Passava os dedos enrugados sobre os cachos pesados de uva, como se tocasse em um tesouro moldado por suas próprias mãos e pelo tempo. Cada bago que se desprendia entre os seus dedos trazia de volta memórias da juventude, dos primeiros sulcos abertos na terra ingrata, das estações em que a fome rondara sua casa e ele, teimoso, recusara-se a desistir.
Para ele, aqueles frutos não eram apenas colheita: eram um testamento silencioso. O vigor das parreiras testemunhava que sua luta não fora em vão. Tudo o que suportara — a distância da pátria, as privações, as perdas — estava agora inscrito no tronco retorcido das videiras e nos sorrisos das gerações que vinham depois. Ali, sob aquele parreiral que se tornara parte de sua própria identidade, compreendia que já não precisava falar muito: sua vida inteira falava por ele.

Quando morreu, numa tarde abafada de verão, a notícia espalhou-se pela colônia como se fosse um luto comum a todos. O cortejo percorreu os mesmos caminhos de terra que ele tantas vezes abrira com a enxada nos ombros, acompanhado pelo som contido dos sinos da pequena capela. Foi sepultado ali mesmo, no coração da comunidade que ajudara a fundar, cercado pelas videiras que ainda guardavam o perfume da última colheita. Sobre sua sepultura, ergueu-se apenas uma cruz simples de madeira, despojada como a sua própria vida, diante da capela erguida anos antes pelo esforço coletivo de homens e mulheres que, como ele, acreditaram que o futuro podia nascer do nada.
Não deixou riquezas nem propriedades vastas, mas algo muito maior: um legado invisível e duradouro. Deixou a prova de que a esperança é capaz de atravessar gerações, resistindo ao peso do tempo, às dores da fome, à solidão da terra estrangeira e até mesmo à recusa de um governo que, em sua indiferença, nunca imaginou que aqueles colonos fossem capazes de permanecer. O que ficara dele não estava nos bens materiais, mas no gesto repetido de plantar, na coragem de resistir e no exemplo silencioso de acreditar até o fim.

E assim, desde a recusa amarga de 1889, quando o governo lhe negara terras e esperança, até a conquista definitiva de um pedaço de chão em Santa Catarina, Romoaldo Benaduzzi conseguiu transformar o peso do destino em herança duradoura. Aquilo que começou como desalento e incerteza converteu-se, ao longo dos anos, em trabalho, raízes e pertencimento. Sua vida ficou gravada não apenas nos campos que cultivou com esforço paciente, mas também na memória viva das gerações que dele herdaram a coragem. Foram essas gerações que, guiadas pelo exemplo silencioso de Romoaldo, continuaram a ampliar os limites da colônia e a escrever, dia após dia, novos capítulos da longa saga dos imigrantes italianos no Brasil.

Nota do Autor

Esta história nasceu a partir de uma carta real escrita no final do século XIX, em que um emigrante italiano relatava as dificuldades enfrentadas para deixar sua terra natal e alcançar o Brasil. Embora os fatos históricos — como a suspensão da emigração em 1889, a longa travessia de trinta dias até o porto do Rio de Janeiro, o embarque posterior no navio Maranhão e a instalação em Santa Catarina — sejam autênticos, todos os nomes foram alterados para preservar a identidade original. 
O personagem central, Romoaldo Benaduzzi, representa milhares de homens e mulheres que viveram a mesma experiência de frustração, coragem e renascimento em terras brasileiras. Sua trajetória é uma síntese daquilo que tantas famílias italianas enfrentaram: a espera pela chance de emigrar, a viagem em condições precárias, a chegada em portos desconhecidos e a luta diária contra a selva, as doenças e a solidão. Mais do que narrar a vida de um colono, este livro busca homenagear a memória coletiva dos imigrantes que moldaram a paisagem cultural, econômica e humana de Santa Catarina e de todo o Brasil meridional. Ao escrever esta obra, minha intenção foi dar voz àqueles que partiram em silêncio, deixando para trás aldeias e campos na Itália, e que, mesmo diante da recusa e do abandono, não desistiram de perseguir um futuro para seus descendentes. O legado de Romoaldo Benaduzzi é, assim, o legado de todos os que fizeram da esperança um destino.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




sábado, 14 de fevereiro de 2026

Relação dos Imigrantes Italianos que Partiram de Gênova para Paranaguá PR em 12 de Fevereiro de 1878

 


Vapor Colombo

Relação dos Imigrantes Italianos que Partiram de Gênova para Paranaguá PR em 12 de Fevereiro de 1878


 

NOME
IDADE
LUGAR DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
TUALDO Gio.Batta
TUALDO Luigia
TUALDO Maria
TUALDO Emanuele
TUALDO Giuseppe
TUALDO Tarquino
TUALDO Silvio
45
42
14
10
7
5
3
VICENZA
"
"
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
"
"
ROARO Giovanne
ROARO Regina
ROARO Giulio
ROARO Antonio
38
36
6
3
"
"
"
"
"
"
"
FOGLIATO Francesco
FOGLIATO Maria
FOGLIATO Giacomo
FOGLIATO Cecilia
FOGLIATO Francesco
35
33
7
4
2
"
"
"
"
"
"
"
"
TREVISAN Giuseppe
TERVISAN Francesca
TREVISAN Giovanna
TREVISAN Lucia
TREVISAN Angela
TREVISAN Francesco
TREVISAN Francesco
TREVISAN Domenico
TREVISAN Caterina
38
36
15
10
9
7
6
4
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
PIROTTO Francesco
PIROTTO Elisabetta
PIROTTO Giustina
PIROTTO Francesco
PIROTTO Costanza
PIROTTO Maria
PIROTTO Pietro
35
30
10
9
6
3
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
CHEMELO Antonio
CHEMELO Domenica
30
30
"
"
"
"
"
BAGIN Giovanni
BAGIN Filomena
BAGIN Maria
BAGIN Maddalena
BAGIN Giovanni
42
10
15
11
4
"
"
"
"
"
"
"
"
GUERRA Antonio
GUERRA Maria
GUERRA Francesca
GUERRA Gio.Batta
GUERRA Maria
44
40
16
13
3
"
"
"
"
"
"
"
"
BARBIERO Giuseppe
BARBIERO Bortolo
BARBIERO Maria
79
52
52
"
"
"
"
"
"
POTTOLLON(?) Antonio
POTTOLLON Caterina
POTTOLLON Giovanni
32
30
4
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
NODARI Sebastianno
NODARI Angela
NODARI Luigia
NODARI Lucia
NODARI Domenico
NODARI Romano
NODARI Maria
NODARI Emilio
41
40
10
9
7
5
4
2
VICENZA
"
"
"
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
"
"
"
LORENZONI Caterina
LORENZONI Antonio
LORENZONI Maria
LORENZONI Giulio
LORENZONI Andrea
LORENZONI Gaetano
60
24
41(?)
14
8
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
MASCHIO Gio Maria(?)
MARCHIO Angela
27
22
"
"
"
"
"
DALLA COSTA Domenico
DALLA COSTA Maria
DALLA COSTA Eva
DALLA COSTA Maria
DALLA COSTA Costanza
DALLA COSTA Speranza
DALLA COSTA Guglielmo
46
40
14
12
10
8
6
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
FINALTI Michele
FINALTI Angelo
FINALTI Giovanna
62
27
25
"
"
"
"
"
"
FORNER Giacomo
FORNER Maria
FORNER Antonia
FORNER Antonio
FORNER Maria
FORNER Guglielmo
FORNER Giordano
41
-
39
14
10
2
0.7
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
GAZZOLA Agostino
GAZZOLA Lucia
GAZZOLA Fortunato
GAZZOLA Alessandro
35
30
32
3
"
"
"
"
"
"
"
MENEGHETTI Valentino
MENEGHETTI Caterina
MENEGHETTI Giuseppina
33
30
1
"
"
"
"
"
"
BIZZOTTO Francesco 
BIZZOTTO Angela
BIZZOTTO Antonio
BIZZOTTO Matteo
BIZZOTTO Giovanni
BIZZOTTO Orsola
BIZZOTTO Regina
41
35
13
11
9
7
3
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
BASCAN Valentino
BASCAN Maria
BASCAN Amedeo
BASCAN Sante
32
26
6
3
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
CECCON Gaetano
CECCON Cecilia
CECCON Maria
CECCON Angelo
CECCON Margheritta
34
34
11
8
1
VICENZA
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
DALLAPOZZA Maria
DALLAPOZZA Antonio
DALLAPOZZA Rosa
DALLAPOZZA Giuditta
DALLAPOZZA Massimiliano
DALLAPOZZA Maria
60
40
35
9
6
3
"
"
"
"
GHENO Giovanna
GHENO Maria Angela
GHENO Bartolomeu
Constam dois nome riscados 
59
13
9
-
"
"
"
"
PAOLETTO Bortolo
PAOLETTO Maria
PAOLETTO Giuseppe
PAOLETTO Anna
PAOLETTO Carlo
57
37
8
5
0.8
"
"
"
"
RIGHI Giovanni
RIGHI Teresa
RIGHI Giovanni
RIGHI Francesco
RIGHI Emilia
28
25
6
3
0.5
"
"
"
"
BRAGAGNOLO Pietro
BRAGAGNOLO Angela
BRAGAGNOLO Ciriaco
BRAGAGNOLOMatteio
51
54
15
12
"
"
"
"
MENEGAZ Abramo
MENEGAZ Pasqua
MENEGAZ Domenico
MENEGAZ Pietro
MENEGAZ Maria
MENEGAZ Anna
55
43
14
8
5
3
"
"
"
"
CARLESSO Bernardo
CARLESSO Angela
CARLESSO Giovanni
CARLESSO Francesco
49
46
15
11
"
"
"
"
TOTONE(?) Andrea
TOTONE Pasqua
TOTONE Sebastiano
TOTONE Lucia
TOTONE Maria
37
28
7
4
2
"
"
"
"
GRIGOLETTO Giuseppe
GRIGOLETTO Maria
GRIGOLETTO Maria
GRIGOLETTO Rosa
GRIGOLETTO Giovanni
33
33
7
4
1
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
TRITOLATI Vincenzo
TRITOLATI Angela
TRITOLATI Gaetano
TRITOLATI Giovani
TRITOLATI Anacleto
32
27
6
4
1
VICENZA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Catolico
 "
"
"
"
MORO Bortolo
MORO Luigia
MORO Maria
MORO Pietro
MORO Domenica
44
44
16
14
12
"
"
"
"
BOLZON Pietro
BOLZON Luigi
BOLZON Rosa
BOLZON Giacomo
BOLZON Adora
-
26
23
22
0.5
"
"
"
"
STRADIOTTO Antonio
STRADIOTTO Antonia
STRADIOTTO Valentino
STRADIOTTO  Cristina
31
33
6
3
TREVISO
"
"
"
"
"
"
MILANI Antonio
MILANI Rosa
MILANI Maria
MILANI Valentino
MILANI Caterina
MILANI Giovanni
40
34
16
9
4
1
"
"
"
"
FILIPPIN Giovanni
FILIPPIN Antonia
22
21
"
"
"
"
GUIDOLIN Angelo
GUIDOLIN Angela
GUIDOLIN Luigi
GUIDOLIN Giuseppe
59
57
19
16
"
"
"
"
PASINATO Amedeo
PASINATO Patrizio
PASINATO Luigia
PASINATO Pietro
PASINATO Giuseppe
PASINATO Angelo
PASINATO Matteo
PASINATO Angelo
PASINATO Gio (?)
70
46
40
18
13
11
7
4
0.18
"
"
"
"
PIEROBOM Antonio
PIEROBOM Teresa
PIEROBOM Marco
33
27
26
"
"
"
"
CECCHIN Francesco
CECCHIN Veronica
CECCHIN Celeste
CECCHIN Maria
CECCHIN Gio.Batta
CECCHIN Vittorio
CECCHIN Maria
52
47
29
26
18
14
12
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
SOUZA Celeste
SOUZA Domenica
SOUZA Angelo
SOUZA Maria
SOUZA Amedeo
SOUZA Giovanni
SOUZA Giuseppe
SOUZA Angela
37
37
14
12
10
7
4
2
TREVISO
"
"
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
"
"
GAZZOLA Antonio
GAZZOLA Pietro
65
30
"
"
"
"
TONIOLO Eugenio
TONIOLO Maria
TONIOLO Maria
30
27
2
"
"
"
"
STANGHERLIU(?) Sante
STANGHERLIU Maria
STANGHERLIU Cesare
STANGHERLIU Eugenio
STANGHERLIU Pasquale
STANGHERLIU Regina
STANGHERLIU Teresa
63
53
27
23
16
13
11
"
"
"
"
FUGANTI(?) Felice
FUGANTI Bortolomea
FUGANTI Lucia
FUGANTI Virginia
FUGANTI Rosa
FUGANTI Cesare
FUGANTI Pietro
FUGANTI Caterina
FUGANTI Romedio
49
38
18
17
16
10
9
7
5
TRENTO
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
TOMAS Gio.Batta
TOMAS Margherita
TOMAS Corona
TOMAS Margherita
TOMAS Giacomo
36
28
10
8
2
"
"
"
"
TONIETTI Fortunata
TONIETTI Maria
TONIETTI Barbera
TONIETTI Pietro
TONIETTI Giorgio
TONIETTI Giovanni
42
15
11
8
3
1
"
"
"
"
PERMIAN Caterina
PERMIAN Giuseppe
PERMIAN Carolina
PERMIAN Maria
PERMIAN Luigia
PERMIAN Luigi
PERMIAN Alessandro
PERMIAN Gaetano
PERMIAN Rosa
PERMIAN Giuseppe
70
33
38
20
19
18
16
14
11
2
VERONA
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
VIERO Giovanni
VIERO Caterina
VIERO Andrea
VIERO Giovanna
VIERO Antonio
VIERO Santo
43
40
9
6
3
1
VICENZA
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
TOLFO Eurosia
TOLFO Giovanni
TOLFO Margherita
TOLFO Pietro
TOLFO Drusilla
TOLFO Fioravante
61
28
26
5
4
2
"
"
"
"
RINCO Margherita
RINCO Luigi
RINCO Isotta
RINCO Gio.Batta
RINCO Giuseppe
70
35
36
11
2
"
"
"
"
RECCHIA Luigi
RECCHIA Maria
RECCHIA Antonio
RECCHIA Massimiliano
RECCHIA Benvenuto
32
25
4
3
1
"
"
"
"
FACCIN Benedetto
FACCIN Pasqua
FACCIN Rodolfo
FACCIN Romano
FACCIN Guglielma
FACCHIN Agostino
48
44
15
22
8
5
"
"
"
"
MELATTO Michele
MELATTO Domenica
MELATTO Clorinda
MELATTO Paola
27
25
7
2
"
"
"
"
DAL SANTO Bortolo
DAL SANTO Filomena
DAL SANTO Maria
DAL SANTO Natale
DAL SANTO Rosa
37
32
10
4
3
"
"
"
"
NOGARA Angelo
NOGARA Teresa
NOGARA Lucia
NOGARA Alessandro
NOGARA Gio.Batta
NOGARA Maria
49
39
15
11
9
6
"
"
"
"
BROCCARDO Francesco
BROCCARDO Elena
BROCCARDO Silvio
BROCCARDO Aliuto
32
30
4
2
"
"
"
"
RUGGINE Antonio
RUGGINE Maria
RUGGINE Attilio
37
31
3
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
NOGARA Giuseppe
NOGARADomenica
NOGARA Teresa
NOGARA Elisabetta
NOGARA Rosa
39
30
10
7
3
VICENZA
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
LOVATO Isidoro
LOVATO Cristina
LOVATO Giseppe
LOVATO Gio.Batta
50
46
13
7
"
"
"
"
GOBBO Mario
GOBBO Maria
GOBBO Amalia
GOBBO Massimiliano
GOBBO Giuseppe
GOBBO Petronilla
49
35
10
8
6
2
"
"
"
"
COSTA Isidoro
COSTA Caterina
COSTA Angela
COSTA Domenico
COSTA Rosa
31
30
4
3
0.7
"
"
"
"
CARLOTTO Antonio
CARLOTTO Maria
CARLOTTO Domenico
CARLOTTO Rosa
CARLOTTO Andrea
CARLOTTO Antonio
62
54
23
21
18
0.8
"
"
"
"
PELIZZARO Giovanni
PELIZZARO Giuditta
PELIZZARORiccardo
PELIZZARO Rosa
35
35
4
2
"
"
"
"
BISOGNIN Francesco
BISOGNIN Brigida
BISOGNIN Isidoro
BISOGNIN Alessandro
BISOGNIN Santa
BISOGNIN Rosa
46
27
9
6
3
0.8
"
"
"
"
CREAZZO Luicia
CREAZZO Luigi
CREAZZO Angela
CREAZZO Elena
70
40
33
25
"
"
"
"
GIARETTA Angelo
GIARETTA Pasqua
GIARETTA Michele
GIARETTA Maria
GIARETTA Antonio
50
50
29
29
"
"
"
"
LORENZON Giovanni
LORENZON Caterina
LORENZON Francesco
LORENZON Pia
LORENZON Paola
39
37
9
6
2
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
GUERRA Giovanni
GUERRA Francesco
GUERRA Orsola
GUERRA Gio.Batta
GUERRA Genovieffa
53
39
37
14
2
VICENZA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
LORENZON Francesco
LORENZON Giovanna
LORENZON Maria
LORENZON Giovannina
LORENZON Giovanni
LORENZON Pietro
40
37
8
6
4
2
"
"
"
"


Nota

Cada nome que aparece nesta relação não é apenas uma entrada num arquivo antigo. É um coração que bateu mais forte ao avistar o mar pela última vez na costa de Gênova. É uma mala pobre, cheia de silêncios, despedidas e esperanças. Ao organizar e publicar esta lista de imigrantes italianos que partiram rumo a Paranaguá em fevereiro de 1878, sinto que não estou apenas lidando com dados, mas com vidas suspensas entre dois mundos.

Foram homens e mulheres que deixaram para trás aldeias, vinhas, montanhas e sepulturas de antepassados para enfrentar o desconhecido. Não sabiam o que os esperava do outro lado do oceano. Sabiam apenas que a fome, a miséria e a falta de futuro já não lhes davam escolha. O Brasil era mais do que um destino: era uma promessa.

Escrever sobre eles é, para mim, um ato de respeito. É devolver dignidade a quem a história muitas vezes reduziu a números. É lembrar que a identidade brasileira foi construída por mãos calejadas, por vozes com sotaque, por corações que aprenderam a amar uma terra que não era sua — até que se tornou.

Se este texto tocar alguém que reconheça um sobrenome, uma origem, uma história de família, então ele cumpriu seu papel. Porque a memória não é passado morto. É raiz viva. E sem raiz, nenhuma árvore permanece em pé.

 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Dias de Espera, Noites de Angústia

 



No final do século XIX, a promessa de uma vida melhor nas Américas atraía milhares de italianos, que deixavam suas terras na esperança de um futuro mais próspero. Entre esses, estava o casal Pietro e Maria, agricultores da pequena aldeia de Casale Monferrato, no Piemonte. Como muitos outros, decidiram vender tudo o que tinham para pagar a passagem no vapor que os levaria ao Brasil, onde sonhavam em recomeçar suas vidas.
Em sua aldeia, foram abordados por um agente de viagens que trabalhava para uma companhia de navegação. Ele pintou um quadro idílico do novo mundo, prometendo terras férteis, trabalho abundante e um futuro próspero para eles e seu filho pequeno, Giovanni. Convencidos pelas palavras do agente, Pietro e Maria compraram as passagens, mesmo sabendo que isso significava abrir mão de quase todas as suas economias.
O agente, no entanto, tinha intenções que iam além de vender passagens. Ele marcou a data para que o casal chegasse a Gênova muito antes do necessário, garantindo que eles passassem semanas na cidade antes da partida do navio. Ao chegar ao porto, Pietro e Maria encontraram-se em um cenário caótico: ruas lotadas de famílias como a deles, que aguardavam o embarque para uma nova vida. Com a pouca experiência que tinham do mundo fora de sua aldeia, não estavam preparados para o que os esperava.
Nas proximidades do porto, comerciantes desonestos, em conluio com agentes de viagem, aproveitavam-se da vulnerabilidade dos emigrantes. Os hotéis, pensões e restaurantes locais estavam prontos para explorar até o último centavo daqueles que buscavam abrigo e comida enquanto esperavam pelo embarque. As ruas adjacentes ao cais eram um amontoado de lugares baratos e mal conservados, onde as famílias, já fragilizadas pela longa viagem até o porto, se viam forçadas a gastar suas últimas economias.
Pietro e Maria encontraram refúgio em uma pequena pensão, uma escolha quase que inevitável, dada a situação. Os dias se transformaram em semanas, e a espera tornou-se um tormento. Cada noite passada naquele lugar significava menos dinheiro para recomeçar suas vidas no Brasil. O quarto que alugavam era úmido e frio, as camas duras e desconfortáveis. A comida, vendida a preços exorbitantes, era escassa e de má qualidade. A saúde de Giovanni começou a se deteriorar, agravando ainda mais a angústia do casal.
Nas ruas ao redor do porto, o cenário era ainda mais desolador. Famílias que não tinham dinheiro para pagar por um abrigo se amontoavam nas calçadas, expostas ao frio e à chuva. Crianças famintas vagavam pelas ruas, enquanto seus pais, desesperados, tentavam encontrar alguma forma de garantir a sobrevivência até o dia do embarque. A espera prolongada não era apenas física, mas também emocional; cada dia parecia arrastar-se interminavelmente, e o sonho de uma nova vida começava a desvanecer-se.
Maria, com Giovanni nos braços, passava os dias em preces silenciosas, tentando manter viva a esperança. Pietro, por sua vez, sentia o peso da responsabilidade, sabendo que cada dia que passava os afastava mais do sonho que os levara a deixar sua terra natal. O dinheiro que haviam economizado com tanto esforço agora desaparecia rapidamente, e o medo de não ter nada ao chegar ao Brasil começava a assombrá-los.
Finalmente, o dia do embarque chegou. O porto estava cheio de famílias exaustas, debilitadas pela longa espera. Quando o imponente vapor atracou, houve um misto de alívio e tristeza entre os que estavam prestes a partir. Pietro, segurando Giovanni com uma mão e Maria com a outra, olhou para o navio com o coração apertado. Eles estavam deixando para trás uma terra que os havia visto nascer, mas também uma experiência de sofrimento que marcaria suas vidas para sempre.
Para muitos, o embarque representava a esperança de uma nova vida, mas para outros, como aqueles que não conseguiram pagar pela passagem ou que ficaram sem dinheiro para embarcar, o porto de Gênova se tornaria um símbolo de sonhos destruídos. As ruas ao redor do cais continuaram a testemunhar o sofrimento daqueles que, como Pietro e Maria, foram forçados a enfrentar uma espera cruel, onde a esperança se misturava com a desilusão e a miséria.
Assim, enquanto o vapor partia em direção ao horizonte, levando consigo os sonhos e as últimas economias de tantos emigrantes, o porto de Gênova ficava para trás, um lugar onde muitos deixaram não apenas sua terra natal, mas também uma parte de suas almas, consumidas pela longa e dolorosa espera.