Mostrando postagens com marcador erechim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador erechim. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de outubro de 2026

Italianos em Erechim em 1925 A História da Colonização


Italianos em Erechim em 1925 A História da Colonização no Cinquentenário da Imigração Italiana

"Em 1925, os nomes dos comerciantes, industriais e profissionais italianos de Boa Vista revelavam a força de uma comunidade que ajudava a construir a história de Erechim."

A história da imigração italiana no Rio Grande do Sul não se limita às primeiras colônias estabelecidas na Serra Gaúcha a partir de 1875. Nas décadas seguintes, famílias de imigrantes e seus descendentes avançaram para novas áreas do estado, contribuindo para a formação de comunidades agrícolas, cidades, estabelecimentos comerciais e atividades industriais. Entre esses núcleos de povoamento, Erechim e sua região ocupam um lugar importante.
Em 1925, quando se comemorava o cinquentenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul, a região de Boa Vista, atual Erechim, já apresentava intensa atividade econômica e social. Comerciantes, industriais, marceneiros, serralheiros, fotógrafos, sapateiros, alfaiates e carpinteiros de origem italiana participavam da construção de uma sociedade em expansão.
Um documento publicado naquele ano permite recuperar parte dessa história e conhecer os nomes de numerosos italianos e descendentes que trabalhavam nos diferentes distritos do município. Para quem pesquisa a imigração italiana, a genealogia familiar ou a origem de sobrenomes presentes no Alto Uruguai gaúcho, essa relação constitui uma fonte histórica de especial interesse.


Antiga sede da Società Unione e Fratellanza de Erechim, ligada à história da comunidade italiana.
Legenda: A sede da Società Unione e Fratellanza de Erechim recorda a importância da organização comunitária dos imigrantes italianos e de seus descendentes.

A formação de Erechim e a chegada dos imigrantes italianos

A colonização organizada da região ganhou impulso em 1908, quando o governo do Rio Grande do Sul promoveu a criação da Colônia Erechim. A iniciativa fazia parte da política estadual de colonização e distribuição de lotes, destinada a estabelecer famílias em uma região que passaria por profundas transformações econômicas e demográficas.
A ferrovia que ligava o Rio Grande do Sul a São Paulo teve papel fundamental nesse processo. A circulação de pessoas e mercadorias favoreceu o crescimento dos povoados, a chegada de novos moradores e o desenvolvimento das atividades agrícolas e comerciais.
A região era anteriormente vinculada ao município de Passo Fundo. Os trabalhos de colonização envolveram a demarcação de lotes, a organização dos núcleos de povoamento e a atuação da Comissão de Terras e Colonização.
É importante lembrar que a região não era literalmente desabitada. Antes da expansão colonial promovida pelo Estado, o território já era ocupado por populações indígenas e por outros grupos que viviam na região. A colonização modificou profundamente as formas de ocupação da terra e as relações sociais locais.
A partir da implantação dos núcleos coloniais, chegaram imigrantes de diferentes origens europeias, entre eles italianos, poloneses e alemães, além de famílias provenientes de antigas colônias do próprio Rio Grande do Sul.
Para ampliar a pesquisa sobre a presença italiana no estado, consulte também o artigo Relação de Sobrenomes Italianos no Rio Grande do Sul. A relação pode servir como ponto de partida para novas investigações sobre famílias e comunidades de origem italiana.


Grupo de imigrantes em fotografia histórica relacionada à colonização italiana no Rio Grande do Sul.
Legenda: Os imigrantes participaram da formação dos núcleos coloniais, do desenvolvimento agrícola e da construção das primeiras comunidades da região.

Boa Vista em 1925 e os distritos do município

O município foi criado em 30 de abril de 1918, desmembrado de Passo Fundo, tendo sua sede na antiga povoação de Paiol Grande, então denominada Boa Vista. Em 1922, passou a chamar-se Boa Vista do Erechim. A denominação atual, Erechim, foi adotada em 1944.
Assim, em 1925, o município ainda se chamava Boa Vista. Embora tivesse apenas sete anos de existência administrativa, já apresentava uma estrutura econômica diversificada e uma população numerosa, distribuída pela sede e pelos diferentes distritos.
O registro histórico utilizado neste artigo menciona uma população superior a 40 mil habitantes. Esse número deve ser compreendido como uma referência ao conjunto municipal da época, que incluía áreas rurais e diversos núcleos de povoamento, e não apenas à área urbana.
A organização territorial mencionada no documento de 1925 abrangia os seguintes distritos e localidades:

  • 1º Distrito — Boa Vista, anteriormente Paiol Grande, sede do município.

  • 2º Distrito — Erechim, antiga sede da colônia.

  • 3º Distrito — Marcelino Ramos, importante localidade ferroviária.

  • 4º Distrito — Erebango, ligado aos caminhos e ramais ferroviários da região.

  • 5º Distrito — Barro, atual Gaurama.

  • 6º Distrito — 13 de Maio, atual Áurea.

  • 7º Distrito — Rio Novo, atual Aratiba.
    Além desses distritos, o documento menciona Capo-Erê, Viadutos, Floresta, Nova Itália, Três Arroios, Rio Toldo, Formiga e 7 de Setembro, localidades que integravam a geografia humana e econômica da região em diferentes estágios de desenvolvimento.
    Algumas dessas denominações mudaram ao longo do tempo, e a correspondência entre os nomes antigos e os atuais deve ser examinada com atenção em pesquisas históricas e genealógicas. Um nome de localidade encontrado em um documento de 1925 pode não corresponder ao município atual em que se encontra um registro civil.

A indústria italiana em Erechim em 1925

A presença italiana não se limitava à agricultura. Os nomes registrados no documento comemorativo demonstram a participação de imigrantes e descendentes em diferentes atividades industriais, contribuindo para o abastecimento da população e para a circulação de produtos na região.
Entre os estabelecimentos e industriais mencionados estavam:

  • Dal Molin, Sciullo & Cia. — atividade industrial.

  • Saule Pagnoncelli & F.º — refinarias de banha.

  • Giuseppe Bonaldo e Cia. — marcenaria.

  • Bottega & Cia. — comércio de madeiras.

  • Bortolo Balvedi — fábrica de bebidas.

  • Mottin — fábrica de chapéus.

  • Luigi Longo, Cesarino Galli e Irmãos Menta — ferrarias.

  • Virginio Biolo, Demetrio Molon & Cia. e Firmino Ricardi — moinhos.

  • Guerino Casambó — moagem de café.
    Esses registros revelam uma economia que já ultrapassava as necessidades imediatas das propriedades rurais. Oficinas, moinhos, fábricas e estabelecimentos de beneficiamento ajudavam a sustentar o crescimento dos povoados e criavam oportunidades para diferentes ofícios.

Os comerciantes italianos nos distritos de Boa Vista

O comércio era outro componente importante da economia municipal. A lista de 1925 registra dezenas de nomes, muitos deles associados a famílias que podem interessar aos pesquisadores de sobrenomes italianos no Alto Uruguai.

1º Distrito — Boa Vista, antiga Paiol Grande

Entre os comerciantes relacionados estavam Saulle Pagnoncelli & F.º, Achille Caleffi & Cia., Batista Grando, Emilio Grando, Luigi Fossati, F. Giovanni Massignan, Attilio Assoni, Santo Graziotin, Luigi Lise, Achille Grando, Valentino Berto, Umberto Vicari, Antonio Deboni, Antonio Tomaselli, Pietro Bonin, Irmãos Zambonato e Pietro Guerri.

2º Distrito — Erechim, antiga sede da colônia

O documento menciona Ricardo Bordignon, Giuseppe Troglio, F. A. Scussel & Cia., Giacomo Manin, Luigi Piccoli, Guido Giacomozzi e Irmãos, Domenico Donida, Antonio Ascari, Giuseppe Zanardo, Andrea Mafassoni e Gabriele Robinot.

3º Distrito — Marcelino Ramos

Entre os nomes registrados estavam Saule Pagnoncelli, com uma sucursal, Angelo Locatelli, Floriano Zordoni, Guerino Maito, Beniamino Fontana, Domenico Bonetto, Formighieri e Irmãos, Redenzio F. Zordan, Allegreti, relacionado a uma refinaria de banha e fábrica de conservas, e Giuseppe Scaramocin, ligado a uma ferraria a vapor.

5º Distrito — Barro, atual Gaurama

A relação inclui Pedro Lunardi e Irmão, Giuseppe Spon, Giovanni Sponchiado, Giovanni Bordignon, Antonio Lunardi e Irmãos De Pario.

6º Distrito — 13 de Maio, atual Áurea

O comerciante mencionado é Antonio Bos.

7º Distrito — Rio Novo, atual Aratiba

O documento registra Grazetto & Cia. e Luigi Poletto.
A lista não deve ser entendida como um cadastro completo de todos os estabelecimentos existentes. Trata-se dos nomes reunidos em uma publicação comemorativa de 1925, cuja abrangência e critérios de seleção não permitem assegurar que todos os comerciantes da época tenham sido incluídos.

As serrarias e o comércio de madeira

A exploração e o beneficiamento da madeira desempenharam papel relevante na economia da região. A abertura de áreas para agricultura, a construção de moradias e o crescimento dos núcleos urbanos criaram demanda por madeira, serrarias e atividades relacionadas.
O documento de 1925 registra os seguintes nomes.

1º Distrito — Boa Vista

Achille Caleffi & Cia., Angelo Emilio Grando e Irmãos, Achille Grando, Domenico Dal Pasquale, Angelo Cappelletto, Giovanni Rizzon, Luigi Michelon & Cia., Caleffi Scipione, Umberto Vicari, Agostino Passello, Paolo Dal Bianco, Biolo Capra & Cia., Giuseppe Mecca, Giovanni Morosini, Milioni Argenta & Filhos, Vescovi e Meneghetti, Andrea Maggione, Attilio Assani, Grando e Pedrollo, Emilio Zanin, Carlo De Moliner, Giovanni Balvedi, Enrico Barbieri, Irmãos Badalotti, Pietro Bottega e Piazza, Virginio Dell'Igna & Cia., Antonio Valin, Pietro Giaretta, Amadio Mariga & Cia., Angelo Poletto, Bevilacqua Ferrazzo, Meneguzzo e Smaniotto.

2º Distrito — Erechim

Gabriele Balbinotti, Antonio Pertile, Angelo Dall'Agnol, Antonio Pilloni & Cia., Tranquilo De Carli, Ermenegildo Vescovi, Lorenzoni e Bordignon, além de outros nomes não individualizados no registro.

3º Distrito — Marcelino Ramos

Allegretti & Cia., Antonio Brancher, Angelo Brancher e Stefano Bonet.

4º Distrito — Erebango

Emilio Noal e Giuseppe Pizzotto.

5º Distrito — Barro, atual Gaurama

Giovanni Bordignon, Antonio Serena, Pietro Lunardi & Filho, Lunardi Barbieri e Giovanni Zoter & Cia.

6º Distrito — 13 de Maio, atual Áurea

Antonio Lunardi.

7º Distrito — Rio Novo, atual Aratiba

Giovanni Bellani.
A presença desses nomes mostra a dimensão da atividade madeireira no município. Para as famílias que pesquisam a trajetória de um antepassado ligado a uma serraria ou ao comércio de madeira, essas referências podem oferecer um ponto de partida para procurar documentos comerciais, registros municipais, jornais antigos e inventários.

Os profissionais italianos e seus ofícios

A relação publicada em 1925 também registra profissionais de diferentes especialidades. Esses nomes são particularmente úteis para pesquisas familiares porque ajudam a associar uma pessoa a um ofício, uma localidade e um período histórico.

Fotógrafos

Vittorio Lazarotto, Giovanni Antonini e Edoardo Macchiavelli.

Sapateiros

Eugenio Isoton, Giuseppe Incerti e Achille Tomaselli.

Curtumes

Giulio Trombini, Aurelio Caldart, Achille Tomaselli e Antonio Tomaselli.

Alfaiates

Ismaele Pezzini, Guglielmo Pezzana e Alberto Incerti.

Carpinteiros

Alberto Parenti, Giuseppe Cervelin, Giuseppe Alberici, Giuseppe Pigozzo, Francesco Pigozzo, Silvio Viero, Francesco Provenzano, Giuseppe Bortolazzo, Domenico Della Costa e Giulio Valmorbida.
Fotógrafos, sapateiros, curtidores, alfaiates e carpinteiros atendiam às necessidades de uma população que crescia e diversificava suas atividades. A existência desses profissionais também evidencia a importância do trabalho especializado na consolidação dos núcleos urbanos.
Para os descendentes de italianos, um ofício transmitido oralmente pela família pode ser uma pista importante. Saber que um bisavô era carpinteiro, comerciante ou proprietário de uma serraria pode ajudar a distinguir homônimos e orientar a busca por documentos.

Os bancos e a organização econômica do município

A relação de 1925 menciona três instituições bancárias:

  • Banco Pelotense.

  • Banco da Província do Rio Grande do Sul.

  • Banco Nacional do Comércio.
    A presença dessas instituições é outro indicador do desenvolvimento econômico de Boa Vista e de sua integração aos circuitos comerciais do estado. Os bancos participavam de uma economia em que a produção agrícola, o comércio, as atividades industriais e o transporte ferroviário estavam cada vez mais interligados.

Sobrenomes italianos e pesquisa genealógica no Rio Grande do Sul

O documento comemorativo do cinquentenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul pode ser útil para quem procura antepassados que viveram em Boa Vista, Erechim e localidades vizinhas no início do século XX.
Uma boa pesquisa genealógica começa pela reunião de pistas e pela comparação entre fontes. O sobrenome, isoladamente, não comprova a origem italiana de uma pessoa nem estabelece parentesco com uma família conhecida.
Para ampliar a investigação, consulte também Sobrenomes Italianos e Vênetos na Linha Palmeiro, Rio Grande do Sul. O artigo oferece outro exemplo de como listas históricas de sobrenomes e localidades podem orientar pesquisas sobre famílias e comunidades de imigração.
O pesquisador pode começar por estas etapas:

  1. Anote o nome exatamente como aparece no documento. Preserve a grafia original e registre possíveis variações para pesquisas posteriores.

  2. Identifique o distrito ou a localidade. A referência territorial pode ajudar a delimitar os registros a consultar.

  3. Procure documentos civis e religiosos. Certidões de nascimento, casamento e óbito, registros paroquiais e inventários podem esclarecer relações familiares.

  4. Pesquise jornais e documentos comerciais. Anúncios, registros de empresas, licenças e notícias locais podem confirmar a atividade profissional de um indivíduo.

  5. Compare os resultados com outras fontes. Homônimos eram comuns, e sobrenomes podem aparecer com grafias diferentes em documentos brasileiros e italianos.
    Outro conteúdo útil é Legados de Honra Os Sobrenomes que Marcaram os Imigrantes Italianos nas Colônias do Rio Grande do Sul, que reúne nomes relacionados às colônias Dona Isabel e Conde d'Eu. A comparação entre listas de diferentes regiões pode ajudar a formular novas perguntas, mas não substitui a comprovação documental de uma ligação familiar.

O valor histórico do álbum comemorativo de 1925

Este relato é um resumo do capítulo referente a Erechim, de autoria de Carlo Mantovani, publicado no álbum comemorativo do Cinquentenário da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul, em 1925. A obra foi organizada em dois volumes e reuniu informações sobre a presença italiana em diferentes localidades do estado.
Uma publicação dessa natureza constitui uma fonte histórica importante, mas deve ser utilizada com senso crítico. A relação de nomes pode conter omissões involuntárias, diferenças de grafia ou informações que necessitam de confirmação em outras fontes. Por isso, ela é melhor compreendida como um registro de época, e não como um levantamento necessariamente completo de toda a população italiana.


Estação ferroviária de Erechim em fotografia histórica de 1939.
Legenda: A estação ferroviária, registrada em 1939, recorda a importância dos transportes para a colonização e o desenvolvimento econômico da região.

A contribuição dos imigrantes italianos para a história de Erechim

Em 1925, Boa Vista era um município jovem, mas já possuía uma economia diversificada, com comércio, indústria, serrarias, profissionais especializados e instituições bancárias. Os nomes reunidos no álbum comemorativo mostram como os italianos e seus descendentes participaram dessa transformação, ao lado de imigrantes de outras origens e de populações que já habitavam a região.
Para as famílias que vivem hoje no Alto Uruguai, cada sobrenome dessa relação pode representar uma oportunidade de investigação. Por trás de um comerciante, de um carpinteiro ou de um proprietário de serraria havia uma trajetória individual, uma família e uma rede de relações que ajudaram a construir a comunidade.
Preservar esses nomes é conservar uma parte da memória coletiva. É também oferecer às novas gerações pistas concretas para compreender de onde vieram seus antepassados e como participaram da formação da sociedade em que vivemos.
O objetivo deste registro é justamente esse: valorizar uma fonte histórica de 1925, facilitar sua consulta e manter acessível a memória dos italianos e de seus descendentes que contribuíram para o desenvolvimento de Boa Vista, da atual Erechim e de toda a região.

Nota do autor

Este artigo foi elaborado a partir do resumo do capítulo sobre Erechim, de autoria de Carlo Mantovani, publicado no álbum comemorativo do Cinquentenário da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul, em 1925. Os nomes e as atividades profissionais foram preservados conforme a relação histórica disponível, com ajustes de redação e organização para facilitar a leitura. A publicação original deve ser consultada sempre que se pretenda confirmar grafias, dados individuais ou informações complementares.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


Visite também o Portal A Emigração Vêneta: emigrazioneveneta.blogspot.com



sexta-feira, 8 de maio de 2026

Médicos Italianos no Rio Grande do Sul A História Esquecida que Salvou Vidas nas Colônias do Sul

 


Médicos Italianos no Rio Grande do Sul A História Esquecida que Salvou Vidas nas Colônias do Sul


Quando os primeiros imigrantes italianos avançaram pelas encostas densas da serra gaúcha, a partir de 1875, não trouxeram médicos. Trouxeram braços calejados, sementes guardadas com cuidado e uma fé obstinada na promessa de terra própria. A medicina, naquele início, era uma ausência quase total — e essa ausência cobrava seu preço.

Nas colônias que dariam origem a Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Garibaldi, a vida se erguia em meio à mata recém-derrubada. As casas de madeira, ainda impregnadas de umidade, abrigavam famílias numerosas que enfrentavam um cotidiano duro, onde a doença era presença constante. Febres inexplicáveis, infecções, partos difíceis, acidentes com ferramentas — tudo se resolvia com o que havia: ervas, rezas, benzimentos murmurados em dialetos do Vêneto e da Lombardia. O médico, para muitos, era uma figura distante, quase imaginária.

Mas a própria persistência da vida criava novas exigências. À medida que as colônias cresciam e se estabilizavam, tornava-se evidente que não bastava cultivar a terra — era preciso preservar aqueles que a cultivavam. Foi nesse momento que começaram a surgir, ainda que de forma rara, os primeiros médicos italianos no interior do Rio Grande do Sul. Não vieram em massa. Vieram poucos, mas cada um deles carregava consigo uma mudança profunda.

Entre esses nomes, destaca-se Giovanni Palombini, cuja trajetória ilumina esse capítulo pouco lembrado da imigração. No início do século XX, ele percorreu o interior gaúcho em condições que hoje parecem quase inimagináveis. Viajava a cavalo ou em carroças frágeis, atravessava rios sem pontes, enfrentava trilhas que o inverno transformava em lama. Sua medicina era itinerante, adaptada à urgência: atendia em casas simples, iluminadas por lamparinas, onde o cheiro da madeira se misturava ao da doença.

Palombini, porém, não era apenas um médico que tratava sintomas. Era um observador atento. Formado em uma tradição científica que já buscava compreender a relação entre ambiente e enfermidade, ele registrava tudo o que via. Observava o clima, a alimentação, a qualidade da água, os hábitos de higiene, a disposição das moradias. Percebia que a doença, ali, não era um evento isolado, mas o resultado de um conjunto de condições que envolviam o meio e a cultura.

Em seus relatos, o interior do Rio Grande do Sul surgia como um espaço de contrastes intensos. A terra era fértil, generosa, mas a vida humana ali se desenvolvia sob enorme precariedade. Crianças debilitadas por verminoses, adultos consumidos por febres persistentes, mulheres submetidas a partos sem assistência. E, ainda assim, havia resistência. Os imigrantes adaptavam-se, reconstruíam hábitos, reinventavam formas de sobreviver.

A presença desses médicos alterava profundamente o equilíbrio das comunidades. O médico não era apenas o homem que curava. Tornava-se conselheiro, intérprete do desconhecido, mediador entre o saber científico e as crenças populares. Sua palavra adquiria peso. Em muitas localidades, dividia com o padre o lugar de maior autoridade moral — às vezes em harmonia, às vezes em tensão silenciosa.

Com o passar do tempo, essa presença deixou de ser episódica e começou a se fixar. As colônias cresceram, transformaram-se em vilas e depois em cidades. Surgiram casas de saúde, pequenas enfermarias, farmácias. A medicina deixou de percorrer caminhos incertos para ocupar espaços permanentes. Formou-se, então, uma nova camada social: a dos profissionais liberais, entre eles médicos italianos e seus descendentes, que passaram a integrar a elite intelectual das comunidades.

Esses homens não apenas tratavam doenças. Participavam da vida pública, influenciavam decisões, ajudavam a estruturar as bases da saúde coletiva. A doença deixava de ser um destino individual e passava a ser entendida como um problema da comunidade.

Ainda assim, a memória desses pioneiros permaneceu discreta. A narrativa da imigração italiana consagrou, com justiça, o colono que abriu a mata, que plantou a videira, que ergueu a casa de pedra. Mas, em segundo plano, estavam aqueles que enfrentaram um inimigo invisível e constante. Sem eles, a própria colonização teria sido mais lenta, mais dolorosa, talvez insustentável.

Os médicos italianos no Rio Grande do Sul foram poucos. Mas foram essenciais. Trouxeram não apenas técnicas, mas uma nova forma de compreender a vida e a doença. E, entre trilhas de barro e comunidades em formação, ajudaram a transformar a luta pela sobrevivência em um projeto possível de permanência.

A presença de médicos italianos no Rio Grande do Sul não se revela em listas fáceis nem em biografias grandiosas. Ela precisa ser procurada como quem escava uma memória dispersa, escondida entre arquivos, jornais antigos e registros esquecidos. Ao contrário dos colonos, que chegaram em massa e deixaram marcas visíveis na paisagem, esses homens vieram poucos, quase sempre sozinhos, e atuaram onde a necessidade era mais urgente — longe dos centros, no interior ainda em formação.

Sabe-se que, nas primeiras décadas do século XX, o estado começou a atrair um número crescente de médicos formados na Itália. Alguns vieram diretamente da Europa; outros chegaram jovens e se formaram no Brasil, mantendo, porém, vínculos culturais e familiares com a imigração italiana. Em Porto Alegre, esses profissionais chegaram a representar uma fração significativa da classe médica, mas foi para o interior — especialmente as zonas de colonização italiana — que muitos deles se dirigiram.

Ali, seus nomes não ecoaram com a força dos grandes políticos ou empresários. Permaneceram ligados a histórias locais, transmitidas por gerações, frequentemente associadas a episódios de cura, epidemias contidas ou vidas salvas em condições precárias. Entre esses nomes, alguns resistem ao esquecimento documental.

Além de Giovanni Palombini, cuja atuação itinerante marcou profundamente o interior do estado, surgem figuras como Vicenzo Caruso, Giuseppe Canessa e Biaggio Rocco. Estes não apenas exerceram a medicina, mas ajudaram a fixá-la como prática estruturada em comunidades que até então dependiam de curas empíricas.

Outros nomes, como Walter Galassi, aparecem associados a localidades específicas do interior, onde a presença de um médico significava mais do que assistência — significava segurança. Em regiões como Garibaldi e Bento Gonçalves, a figura do médico passou a integrar o núcleo essencial da vida comunitária.

Há também aqueles cujos nomes sobreviveram em registros mais amplos da medicina estadual, como Manlio Ajello e Marino Lupi Aguado, que atuaram em um momento em que a medicina começava a se institucionalizar. Já outros, como Stefano Rocco e Nicolino Rocco, revelam como certas famílias mantiveram uma continuidade na prática médica, transmitindo não apenas conhecimento, mas também prestígio social.

O que une esses homens não é apenas a origem italiana, mas o contexto em que exerceram sua profissão. Trabalharam em um território onde o médico ainda precisava improvisar, adaptar-se, compreender não apenas o corpo doente, mas o ambiente que o produzia. A precariedade das estradas, a distância entre as comunidades, a falta de hospitais e de recursos básicos faziam da prática médica uma experiência quase artesanal, exigindo não apenas conhecimento técnico, mas resistência física e sensibilidade cultural.

Muitos desses médicos precisaram negociar com crenças profundamente enraizadas. O colono que recorria ao médico era o mesmo que, na noite anterior, havia buscado auxílio em rezas ou benzimentos. A cura, nesse contexto, não era apenas um ato clínico — era um processo de confiança, construído lentamente.

Com o avanço das décadas, esses profissionais ajudaram a transformar esse cenário. Participaram da criação de hospitais, introduziram práticas de higiene, contribuíram para o controle de epidemias e para a redução da mortalidade. Mais do que isso, ajudaram a formar uma nova mentalidade, em que a saúde deixava de ser uma questão privada para se tornar uma preocupação coletiva.

E, no entanto, apesar de sua importância, permaneceram à margem da memória histórica mais difundida. Seus nomes não batizam grandes avenidas, não ocupam o imaginário popular com a mesma força dos pioneiros agrícolas. Mas sua presença foi decisiva.

Porque, enquanto os colonos italianos lutavam para fazer a terra produzir, esses médicos lutavam para que aqueles homens e mulheres pudessem continuar vivos para cultivá-la.

E é nesse equilíbrio silencioso — entre o esforço da terra e o cuidado com a vida — que se encontra a verdadeira dimensão da imigração médica italiana no Rio Grande do Sul.


Nota do Autor

A história raramente se constrói com a justiça que imaginamos. Ela preserva alguns nomes, silencia muitos outros e, quase sempre, privilegia aqueles que deixaram rastros mais visíveis — documentos oficiais, cargos públicos, obras publicadas. No caso dos médicos italianos que atuaram no Rio Grande do Sul, esse desequilíbrio torna-se ainda mais evidente.

Ao longo das últimas décadas do século XIX e das primeiras do século XX, dezenas de médicos — italianos de nascimento ou descendentes diretos — exerceram sua profissão nas colônias e cidades em formação do estado. Muitos deles trabalharam em condições extremamente precárias, atendendo comunidades isoladas, percorrendo longas distâncias e registrando sua presença apenas na memória daqueles que ajudaram a salvar.

No entanto, a maioria desses profissionais não deixou biografias formais, nem ocupou posições que garantissem visibilidade histórica duradoura. Seus nomes permanecem dispersos em arquivos paroquiais, registros de cartório, jornais locais de circulação restrita e, sobretudo, na tradição oral de famílias e comunidades. Trata-se de uma documentação fragmentária, muitas vezes de difícil acesso, que ainda não foi plenamente reunida ou sistematizada pela historiografia.

Além disso, é importante considerar que, em diversas regiões do interior — especialmente no norte do estado — muitos desses médicos eram já filhos da imigração italiana, formados no Brasil, o que contribuiu para que sua origem se diluísse ao longo do tempo nos registros oficiais.

Por essas razões, a ausência de uma lista extensa e consolidada de nomes neste trabalho não deve ser interpretada como ausência histórica, mas como reflexo de um processo mais amplo de esquecimento documental. Este texto, portanto, não pretende esgotar o tema, mas lançar luz sobre uma presença real, significativa e, em grande parte, ainda invisível.

Que esta narrativa sirva também como convite à pesquisa, à recuperação dessas trajetórias e à justa valorização de homens que, longe dos grandes centros e dos registros oficiais, desempenharam um papel essencial na construção da vida nas colônias do Rio Grande do Sul.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Erechim el Campo Picinin de i Biriva e de i Imigranti Véneti


 

Erechim el Campo Picinin de i Biriva e de i Imigranti Véneti


Erechim, anca pì coreto, Erexim, faseva parte del vasto comune de Passo Fundo, uno dei pì grandi del Stato do Rio Grande do Sul, che i ze rivà da Carazinho fin a Marcelino Ramos.
El nome el ze vignesto de la lèngoa dei ìndios Caingangue, che i ze stà lì e che vol dir “Campo Picinin”.
Biriva el z'era el nome che quei stessi ìndios ghe dava ai foresti, ai pochi bianchi che i conossea e che i zera in quele tere. Fin al ano 1910, Erechim el zera el 7º Distrito de Passo Fundo e la sede la se ga trovà ´ntela vila de Capo-Erê.
Da quela data, el ze passà a far parte del 8º Distrito de Passo Fundo, con la sede ´ntela Colónia Erechim, che adesso ze el comune visin de Getúlio Vargas.

La atual sità de Erechim, che a quel tempo la se ga ciamà Paiol Grande, la zera 'na foresta grossa, quasi desabità, piena de araucàrie e altre grosse piante centenàrie, ´ndove che i se ga riparà qualche disendente de veci bandeiranti, scampà de la giustìssia, briganti e altri che son scampà da la rivolussion del 1893.
El nome Paiol Grande la ze dovù a 'na vècia costrussion che servìa come depòsito de erva-mate, situà là visin del Desvio Giaretta de incòi.

La marcassion de le tere la ze tacà ancora ´ntel 1904, con el laor de costrussion de la Ferovia tra Santa Maria a Marcelino Ramos.
El crèsser de Erechim la ze stà sgoelto, con l’arivo, za dal 1918, quando el comune la ze stà fondà oficialmente, de 'na gran quantità de italiani, de i quali la grande parte i zera vèneti, sopratuto che lori i vigniva de le cosidete “tere vècie” come Caxias, Bento Gonçalves, Garibaldi, Alfredo Chaves, Flores da Cunha, Antônio Prado, Guaporé, Veranópolis, e altre.

Queste sità, con l’arivo de miliaia de imigranti e dopo de i so fiòi, le fasea sì che le prime colónie le se vedeva in pressa piene. Alora la ze stà nessessàrio sercar posti novi dove stabilirse.
Ze pròprio cussì che la ze sussesso in Erechim e ´ntela atual Região do Alto Uruguai, conossù anche come le “tere nove”, che la ga ressevesto i dissendenti de i primi imigranti véneti rivà in Brasile.



segunda-feira, 5 de outubro de 2020

De Campo Pequeno até Grande Erechim o Resumo da História


A denominação Erechim tem a sua origem na língua dos índios caingangues que habitavam a região. Significa Campo Pequeno, isso porque os campos eram cercados pela densa floresta. Durante a sua história o município de Erechim teve vários nomes desde a sua criação nos primeiros anos do século XIX. Inicialmente foi chamado de Paiol Grande, depois Boa Vista, seguido por Boa Vista do Erechim, passando por José Bonifácio e finalmente Erechim. A povoação da região do Alto Uruguai fez-se por meio da colonização oficial planejada e, também, pela colonização privada, caso em que o Estado repassava as terras devolutas às empresas colonizadoras, as quais as revendiam aos colonos. A ocupação se deu de diversas formas ocorrendo assentamentos de descendentes europeus ou imigrantes em territórios organizados pelas empresas colonizadoras e pelos programas executados pelo serviço de povoamento do solo. A empresa Colonizadora Luce Rosa & Cia Ltda., que colonizou áreas da região do Alto Uruguai, foi criada em 1883, quando vários sócios adquiriram 3.641 colônias de terra. A sede central da empresa era em Porto Alegre, mas havia uma em Barro, nome na época do atual município de Gaurama, e escritórios de representação em Passo Fundo e em Santa Maria. 


Paiol Grande surgiu às margens da estrada de ferro que ligava o Rio Grande do Sul à São Paulo. Foi colonizado por emigrantes de várias nacionalidades, predominando italianos, poloneses e alemães que foram chegando em diversos períodos. O povoado começou a se formar por volta do ano de 1908, com o nome de Colônia Erechim, cuja sede estava localizada no atual município de Getúlio Vargas, quando chegaram, pelas linhas do trem, os seus primeiros habitantes, muitos deles provenientes das antigas colônias italianas em volta de Caxias do Sul. Os pioneiros foram quatro famílias com um total de 28 pessoas e mais oito indivíduos isolados. A pequena vila que se formava despontou economicamente e logo passou a ser distrito de Passo Fundo. Até 1914, a sede inicial da Colônia Erechim tinha sido o povoado que mais prosperou. Em 20 de abril de 1916, o escritório da Comissão de Terras e Colonização foi transferido do Povoado Erechim para o de Paiol Grande, dando início a atual cidade de Erechim. 


O progresso chegava rapidamente para ao novo distrito e em 30 de Abril de 1918, através de um decreto do governo do estado do Rio Grande do Sul, passou para a categoria de município com o nome de Boa Vista. Ao longo do tempo o novo município foi ganhando novos distritos. No recenseamento geral de 1 de setembro de 1920, o município estava constituído de cinco distritos: Boa Vista do Erechim (sede), Erechim, Barro, Erebango e Marcelino Ramos. Na divisão territorial datada de 31 de dezembro de 1937, o município apareceu constituído de onze distritos: Erechim, Barro, Marcelino Ramos, Nova Itália, Nova Polônia, Paulo Bento, Quatro Irmãos, Rio Novo, São Valentim, Treze de Maio e Viadutos. Em 1943 o município era constituído de doze distritos: José Bonifácio (ex-Erechim), Barro, Carlos Gomes (ex-Ribeirão do Torto, ex-Nova Polônia), Floresta, Marcelino Ramos, Nova Itália, Paulo Bento, Princesa Isabel (ex-Treze de Maio), Quatro Irmãos, Rio Novo, São Valentim, Severiano Almeida (ex-Nova Itália) e Viadutos. Em divisão datada de 1 de dezembro de 1960, o município era constituído de nove distritos: Erechim, Barão de Cotegipe, Capo-Erê, Itatiba, Mariano Moro, Nova Itália (ex-Severiano de Almeida), Paulo Bento, Quatro Irmãos e Três Arroios; em última modificação feita, em lei estadual nº 10762, de 16 de abril de 1996, desmembraram-se de Erechim os distritos de Paulo Bento e Quatro irmãos, elevados a categoria de municípios. Erechim passou a contar com três distritos: Capo-Êre, Jaguaretê e a Sede. 


Dr. Luiz Carlos Piazzetta
Erechim RS






quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Catarina Cornaro a Rainha de Chipre






Catarina Cornaro a Rainha de Chipre

Catarina Corner, em língua vêneta, nasceu em Veneza no ano de 1454 e morreu na mesma cidade em 1510. Ela foi a consorte de James II, rei de Chipre e, após a sua morte e do seu filho ainda criança, assumiu a regência do reino. 
Ela pensou em se casar novamente, mas o Senado da Sereníssima República de Veneza, em 21 de Fevereiro de 1487, a forçou abdicar do trono em seu favor, também tendo em vista as suas obrigações como soberana se tornarem muito pesadas e frente a cobiça da corte napolitana e a grande pressão do Império Otomano. Assim à partir de então a Sereníssima tomou posse da ilha, localizada no Mediterrâneo, em uma posição estratégica, que consolidava ainda mais o poder naval da República de Veneza no confronto com os otomanos. 




Retornando com relutância à capital Veneza recebeu do governo da Sereníssima, as terras e o castelo de Asolo, onde ela pode manter a sua corte, e ainda conservar os seus títulos como rainha de Chipre e da Armênia. 
Em concorridos saraus e encontros culturais nos seus salões, recebia visitas ilustres de músicos, artistas e escritores da época, como Pietro Bembo, Giorgione, Lorenzo Lotto e muitos outros. 



Por ocasião da sua morte, Veneza fez um funeral solene e foi enterrada pela primeira vez na Igreja de Santos Apóstolos e, mais tarde, na Igreja de São Salvador, onde ela ainda descansa na companhia de três Doges e do primeiro padroeiro de Veneza, São Teodoro. Na fotografia uma pintura de Gentile Bellini, o seu monumento funerário e sua lápide. 


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS

Storia Dimenticata de Deliso Villa








Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Veneza e San Marco o Evangelista



Veneza e San Marco o Evangelista 

Judeu de família rica, nascido no século I, provavelmente na Palestina. Foi missionário no Oriente e Roma, onde teria escrito o Evangelho. No ano de 66, da prisão, S. Pedro escrevendo a Timoteo nos fornece as últimas informações a respeito de Marcos, que morreu possivelmente no ano 68, em Alexandria, Egito. Seus restos mortais estavam em uma igreja dessa cidade que foi incendiada pelos árabes no ano de 644 e posteriormente reconstruída pelos Patriarcas da Alexandria até 689. 

A lenda diz que no ano de 828, neste local, chegaram dois mercadores venezianos, Buono da Malamocco e Rustico da Torcello, que se apoderaram dos restos mortais do Evangelista e os levaram para Veneza, aonde chegaram em 31 de Janeiro de 828. Os despojos de Marcos foram recebidos com grande honra pelo Doge Giustiniano Partecipazio, que era filho de Agnello e sucessor do primeiro doge das ilhas de Rialto. No ano de 832 foi concluída, pelo Doge Giovanni, irmão e sucessor de Giustiniano, a construção de uma basílica para receber definitivamente os restos mortais do santo a qual passou a ser chamada de Basílica de Marcos. No início a esplendida construção em mármore, repleta de ouro e pedras preciosas de todo o Oriente, teve alguns contratempos, tendo sofrido um incêndio no ano de 976, provocado por uma revolta popular contra o Doge Candiano IV, que tinha se refugiado com seu filho dentro da basílica. 

Na ocasião os revoltosos também, destruíram e incendiaram o vizinho Palazzo Ducale, moradia e sede do governo da Sereníssima República de Veneza. No ano de 976-978, com o seu próprio dinheiro, o Doge Pietro Orseolo I reformou tanto a Basílica como o Palácio Ducal. Mais tarde, no ano de 1063, por ordem do Doge Domenico Contarini I foi dado início a mais uma reforma da Basílica, a qual foi completada pelo seu sucessor Doge Domenico Selvo (1071-1084). No ano de 1071, São Marcos foi escolhido para ser o titular da basílica e patrono da Sereníssima República de Veneza, em substituição a São Teodoro, que até o século XI tinha sido o santo protetor de Veneza. 

A Basílica foi solenemente consagrada no dia 25 de Abril de 1094 durante o governo do Doge Vitale Falier. Na ocasião, depois da missa celebrada pelo bispo, foram rompidas algumas placas de mármore de uma coluna e encontrada uma caixa com as relíquias. A partir daí a República de Veneza permaneceu indissoluvelmente ligada ao seu patrono, sendo que o seu conhecido símbolo, o Leão Alado, passou a fazer parte do estandarte da Sereníssima República de Veneza, junto os dizeres inscritos no livro: “ Pax tibi Marce, evangelista meus”. 


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A Epopeia da Emigração Vêneta



L’epopea dell’emigrazione Veneta



(tratto da un articolo del Prof. Giovanni Meo Zilio)


Negli anni appena successivi l’annessione all’Italia arrivò un’ondata di povertà mai vista in Veneto: nuove tasse – come la tristemente famosa “tassa sul macinato” – e la leva obbligatoria, che privò le famiglie venete dell’aiuto dei giovani, stroncarono l’economia contadina veneta.

Appena dopo l’unità d’Italia iniziò uno dei più grandi esodi nel mondo: l’epopea dell’emigrazione veneta. I veneti furono costretti ad abbandonare la loro terra e le loro case, in cerca di una nuova vita, dalle foreste del Brasile alle miniere del Belgio, era l’inizio di un’emigrazione dalle dimensioni bibliche: fra 1876 e 1901, su una popolazione di circa tre milioni, dovettero emigrare oltreoceano 1.904.719 Veneti.

La prima emigrazione organizzata in partenza dal Veneto (in buona parte dalla provincia di Treviso e, in minor misura, dalla Lombardia e dal Friuli, risale al 1875. Infatti a partire da quell’anno cominciarono ad arrivare in Brasile – negli stati di Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paranà, Espirito Santo, e soprattutto nella cosiddetta “zona di colonizzazione italiana” ubicata nel Nordest del primo stato, che oggi ha per centro economico, commerciale e culturale la fiorente città di Caxias do Sul con circa 500.000 abitanti: miracolo di sviluppo e modello di “un altro veneto” trapiantato e cresciuto oltre oceano. Ad esso vanno aggiunte altre correnti emigratorie, soprattutto in Argentina e Uruguay, dove molti italiani erano già presenti da prima, e, in minor misura, in minor paesi come il Messico.


Le cause principali del fenomeno emigratorio furono, com’è noto, la miseria e l’emarginazione delle classi rurali dell’epoca, se non addirittura la fame, insieme al sogno della proprietà della terra da parte dei nostri contadini (allora veri “servi della gleba”), spesso ingannati da fallaci propagande interessate, favorite, a loro volta, dall’ignoranza commista alla speranza che è sempre l’ultima a morire. Ma va tenuto conto anche di quell’insop-primibile spirito di avventura, quell’attrazione verso il nuovo e il lontano che da sempre ha agito sull’umanità e che spesso viene trascurato dagli storici dell’emigrazione.



La traversata atlantica in quell’epoca (nel fondo delle stive) fu da sola una epopea che ancora è presente nella memoria collettiva, tramandata in episodi struggenti nei ricordi dei vecchi e nella copiosa letteratura popolare, soprattutto veneto-brasiliana (canti, poesie, racconti), che, a partire dalle celebrazioni del centenario della prima emigrazione “in loco” (1975), è esplosa qua e là anche in forme stilisticamente pregevoli. Così pure rimane nella memoria collettiva l’epopea delle inenarrabili condizioni di arrivo e di insediamento e le lotte della prima generazione per disboscare a braccia la montagna, per difendersi dagli animali feroci, dai serpenti, dagli indios, dalle malattie, per costruire dal nulla strade e abitazioni, per affrontare continuamente la paura che diventava un’ossessione…



Questa storia di illusioni e di sofferenze, di eroismo e di umiliazioni, questa “storia interna” della nostra emigrazione, che rappresenta il rovescio della storia esterna di cui, più che altro, si sono occupati gli studiosi, è ancora tutta da approfondire.

Per quanto riguarda il sud del Brasile, che può essere considerato emblematico, un primo gruppo di emigrati arrivò, dopo indicibili peripezie e sofferenze a quella che oggi si chiama Nova Milano, nei pressi di Caxias do Sul. Dal porto di Porto Alegre essi proseguivano in barconi lungo il rio Caì e poi a piedi, per chilometri e chilometri, attraverso la selva, con le poche masserizie sulle spalle, facendosi strada a forza di “machete”, fino a raggiungere i terreni loro assegnati proprio nella foresta, a nord dei territori pianeggianti e più fertili occupati dalla emigrazione tedesca 50 anni prima. Si può immaginare il costo umano di tutto ciò dopo che essi avevano tagliato i ponti dietro di sé, vendendo i loro poveri averi prima di partire dall’Italia.

Le tracce della prima colonizzazione si possono vedere ancora oggi in molti nomi di luoghi, come la citata Nova Milano, Garibaldi, Nova Bassano, Nova Brescia, Nova Treviso, Nova Venezia, Nova Padua, Monteberico…; mentre altri come Nova Vicenza e Nova Trento hanno cambiato successivamente i loro nomi originari nei nomi brasiliani di Farroupilha e Flores da Cunha in periodi caratterizzati da xenofobia. Tale xenofobia del governo centrale arrivò al punto che, negli anni dell’ultima guerra, a quei nostri immigrati che non sapevano parlare il brasiliano, fu proibito (pena l’arresto) di parlare la loro lingua veneta, con le conseguenze morali che è facile immaginare, oltre alle difficoltà pratiche (le quali spesso sfociavano nel tragicomico!) che tutto ciò produsse fra quella povera gente emarginata a cui era tolta perfino la parola…

Si tratta comunque di un fenomeno imponente – in Brasile come in Argentina, sia per estensione, sia per popolazione (nell’ordine dei milioni di discendenti), sia per la omogeneità e vitalità – il quale per più di un secolo è stato trascurato se non ignorato dal governo italiano e dalle sue istituzioni.


(tratto da un articolo del Prof. Giovanni Meo Zilio)




Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Quando a Morrer no Mar eram os nossos Emigrantes

 Affondamento Sirio 19 agosto 1906 copertina domenica del Corriere di AchilleBeltrame




Quando a morire per mare erano i nostri emigrante

Molti annegano, e per questa povera gente, il sogno di vivere una vita migliore resta una triste chimera

Manfredonia – Le grandi masse migratorie dall’Africa verso l’Europa e poi verso le Americhe hanno per secoli caratterizzato la storia dell’Umanità. E’ inutile nasconderlo, siamo tutti emigranti. E’ impossibile bloccare con la precaria politica dell’economia o con la stupida xenofobia, milioni di disperati che dall’Africa, per fuggire alle guerre, alla miseria e alla disperazione attraversano il mare in barconi fatiscenti, rischiando la vita con la speranza di un domani migliore in Europa. Molti annegano, e per questa povera gente, il sogno di vivere una vita migliore resta una triste chimera. Vorrei ricordare a quelli che hanno la memoria corta, che tra i milioni di emigranti italiani, che nell’800 e poi nel ‘900 si sono trasferiti in Nord America, Sud America, Australia e Canada, nella ricerca di un lavoro, moltissimi erano settentrionali.
Tra i naufragi accaduti agli italiani che si trasferivano in America, tra la fine dell’800 e gli inizi del ‘900, vanno ricordati quelli drammatici relativi all’affondamento delle navi passeggeri, bastimenti e piroscafi che trasportavano i nostri connazionali oltreoceano, che costarono la vita a migliaia di emigranti italiani. Nel 1880 affondò il piroscafo “Ortigia”; nel 1891 naufragò “l’Utopia”; nel 1898 il “Bourgogne”; nel 1906 il “Sirio”; nel 1927 il “Principessa Mafalda”.
La responsabilità delle tragedie in mare delle navi che trasportavano gli emigranti italiani furono causate in alcuni casi dalla trascuratezza degli armatori e dalla mancanza di controllo da parte delle autorità competenti addette a visionare queste navi passeggere e da trasporto commerciale.
Il 24 agosto 1880 il piroscafo italiano Ortigia affondò al largo della costa argentina dopo aver speronato accidentalmente una nave mercantile, provocando la morte di 149 emigranti.
Nel 1884 la nave italiana Brazzo che aveva imbarcato 1333 poveri emigranti, stipati a bordo come animali da macello, fu causa durante la traversata nell’oceano, dello scoppio del colera che provocò 20 morti. Per questo motivo, la nave fu respinta a colpi di cannonate prima di entrare nel porto di Montevideo in Uruguay. Nel 1888 sulla nave italiana Carlo Raggio durante la lunga traversata con 1851 nostri emigranti a bordo, 18 persone morirono di fame. Sulla stessa nave nel 1894 morirono per asfissia 27 emigranti e si ammalarono più di 300.


Sulla nave Parà nel 1889 si contarono 34 morti di morbillo. La sera del 17 marzo 1891, con il mare in burrasca e ridotta visibilità, davanti al porto di Gibilterra il bastimento inglese Utopia con a bordo 813 emigranti quasi tutti italiani, sbagliò manovra e andò a impattare con la poppa sul rostro della corazzata britannica Anson, che era alla fonda. L’incidente provocò una grossa falla all’Utopia che in pochi minuti colò a picco portando con se in fondo al mare, 576 poveri emigranti. La nave era partita da Trieste e aveva fatto tappa a Napoli, dove aveva imbarcato gli italiani che dovevano espatriare. La maggior parte delle vittime proveniva dalla Campania, Abruzzo e Calabria.
Nel 1893 sul Remo morirono per colera e difterite 96 emigranti italiani. Nel 1894 sull’Andrea Doria su 1317 emigranti, 159 perirono a bordo per malattie varie. Nello stesso anno, sul Vincenzo Florio si contarono 20 morti per malattie varie. Il 4 luglio 1898 un piroscafo francese, il Bourgogne, dove erano imbarcati numerosissimi emigranti italiani, dopo una collisione, al largo della Nuova Scozia, con il veliero inglese Cromartyshire, affondò provocando la morte di 549 di nostri connazionali.


Il giornale dell’epoca di Parigi “Petit Journal” pubblicò in prima pagina le orribili scene dei corpi delle persone annegate e poi spinte dalle onde sulla spiaggia. Sul piroscafo Città di Torino nel novembre 1905, su 600 emigranti imbarcati 45 morirono per malattie varie.
Il 4 agosto 1906 sulla spiaggia di Cartagena sulla costa orientale della Spagna, nella sciagura del vapore Sirio fu incredibilmente trovato vivo un lattante in fasce. Gli abitanti di quella città, gridarono al miracolo, perché solo il buon Dio avrebbe potuto salvare quella piccola creatura. I corpi annegati di molti migranti italiani, restituiti dalle onde, furono allineati sulla spiaggia. I morti secondo il Lloyd, che voleva difendere gli armatori furono 292, ma una valutazione più attenta dei naufraghi, stimava da quattrocento a cinquecento persone annegate.
Il vapore affondato, che era partito da Genova due giorni prima, ed era diretto a Gibilterra, da dove doveva intraprendere il viaggio nell’Atlantico per il Brasile, non era provvisto di doppie eliche né di paratie stagne. Tra i passeggeri sopravvissuti del Sirio, un certo Felice Serafini. Questi prima di partire era passato dal fotografo Recalchi di Arzignano in provincia di Vicenza, e gli aveva lasciato una foto a ricordo con tutta la sua numerosa famiglia. La mattina dopo del naufragio, Serafini, mentre girava angosciato tra i sopravvissuti trovò due dei suoi figlioli, mentre la moglie che era anche incinta, e gli altri sei figli erano annegati, inghiottiti dal mare.
Il 25 ottobre 1927, la nave ammiraglia della flotta commerciale italiana Principessa Mafalda nel suo ultimo viaggio in rotta per l‘Argentina (al suo ritorno doveva essere smantellata), al largo delle coste del Brasile, perse l’asse dell’elica sinistra, che provocò uno squarcio nello scafo di poppa e dopo cinque ore l’affondamento della nave. Nel disastro annegarono 314 emigranti italiani, tra questi, liguri, piemontesi e veneti, molti dei quali furono divorati dagli squali che infestavano quelle acque. Un gran numero di naufraghi furono salvati dalle scialuppe di salvataggio della stessa nave e dai soccorsi effettuati da varie navi, che accorsero in aiuto dopo il primo S.O.S. lanciato dalla Mafalda.


La nave che aveva dei seri problemi di tenuta in mare, durante il viaggio, si fermò per riparazioni ai motori, almeno otto volte. L’esperto comandante del Mafalda, Simone Gulì, siciliano, nonostante le avvisaglie, proseguì il viaggio e si avventurò nell’oceano.
La signora Flora Forciniti, che con la madre e due fratelli doveva
raggiungere il padre e i fratelli a Buenos Aires, dopo più di cinquant’anni, riferì al “Clarin” che la nave Principessa Mafalda navigava paurosamente inclinata, provocando problemi di equilibrio ai passeggeri e agli oggetti di bordo. Mussolini cercò di minimizzare la tragedia, esaltando l’eroismo del comandante della nave, ma per la stampa argentina e brasiliana, gli emigranti italiani che non videro realizzato il loro sogno di raggiungere Buenos Aires per lavoro furono 657.
Va altresì ricordato, che sul Mafalda c’era un forziere di monete d’oro del valore di 250.000 lire dell’epoca, quale dono del governo italiano a quello argentino per ringraziarlo dell’accoglienza dei numerosi emigranti italiani. Il carico, tuttora, giace a duemila metri di profondità nella stiva del relitto della nave. Nel 1940 il piroscafo inglese Arandola Star fu silurato dai tedeschi e affondato vicino le coste del Brasile. Morirono nella tragedia 446 emigranti italiani.
Va evidenziato che i nostri emigranti (per la maggior parte meridionali)
che si sono trasferiti oltreoceano dalla fine dell’800 fino agli inizi degli anni ’30 del secolo scorso, erano semplici braccianti, artigiani, contadini e manuali, per lo più analfabeti. Questi che partivano, con valigie di cartone legate con spago, e con pochi indumenti, affrontavano un viaggio rischioso e pericoloso per l’epoca, verso il sogno americano, nella speranza di un’esistenza migliore per se stessi e le proprie famiglie.
Ai nostri figli faremmo bene a far conoscere la terribile realtà di quella che è stata l’emigrazione italiana. In particolare quando i nostri connazionali venivano schiavizzati e utilizzati come bassa forza nella manodopera nelle industrie americane, nelle piantagioni del brasile e dell’argentina, spesso truffati e mal pagati da sfruttatori di turno.
Far sapere ai nostri figli, il terribile destino di molte italiane cedute a bordelli e i bambini venduti a pedofili di turno.


Basta vedere alcune foto d’epoca degli emigranti e, ci si rende conto come erano trattati i nostri connazionali sulle navi, stipati come animali da macello, dove il fetore delle feci, del vomito e le esalazioni rendevano l’aria nelle stive irrespirabile.
In ogni traversata si contavano a bordo delle navi date le precarie condizioni di igiene numerosi morti per colera, asfissia, fame, tubercolosi, morbillo e difterite.
L’insegnamento che ci viene dall’esperienza dei nostri connazionali, dovrebbe farci comprendere meglio le ragioni che ogni giorno spingono questi disperati che ogni giorno arrivano sulle nostre coste, rischiando la vita su barconi fatiscenti e gommoni, nella speranza di un domani migliore. Noi italiani fuggivamo dalla povertà, questi extracomunitari fuggono dai loro paesi per sottrarsi, oltre che dalla miseria, da guerre e oppressioni. Italiani, brava gente !. Era il titolo di un bellissimo film del 1965 diretto dal regista Giuseppe De Santis. Si, credo che lo meritano questo appellativo, in particolare quelle popolazioni meridionali, che da anni sono impegnate insieme alle forze navali italiane a salvare ed assistere i poveri extracomunitari che arrivano ogni giorno dalle coste Libia, sfruttati, malmenati e schiavizzati da scafisti delinquenti e senza scrupoli.

A cura di Franco Rinaldi, cultore di storia e tradizioni popolari di Manfredonia