Mostrando postagens com marcador Herança Italiana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Herança Italiana. Mostrar todas as postagens

domingo, 26 de julho de 2026

A Herança que se Perdeu na Imigração Italiana no Brasil

 


A Herança que se Perdeu na Imigração Italiana no Brasil


Houve um tempo em que certas palavras atravessavam oceanos.

Saíam da boca de camponeses do Vêneto, da Lombardia, do Friuli ou do Trentino ainda impregnadas pelo cheiro da lenha queimando nos invernos italianos. Palavras pequenas, simples, domésticas. Expressões usadas para chamar os filhos para a mesa, para rezar diante de uma tempestade ou para despedir-se dos mortos.

Então veio o Brasil.

E, pouco a pouco, essas palavras começaram a morrer.

Não desapareceram de uma vez. Nenhuma herança desaparece assim. Primeiro foram ficando restritas aos avós. Depois sobreviveram apenas dentro das cozinhas. Mais tarde tornaram-se sons estranhos repetidos por crianças que já não compreendiam seu significado. Até que um dia ninguém mais as pronunciou.

E o silêncio ocupou o lugar delas.

A imigração italiana para o Brasil não transportou apenas trabalhadores agrícolas. Trouxe universos inteiros. Trouxe dialetos, crenças, receitas, gestos, cantigas, superstições, modos de rezar, maneiras de sepultar os mortos e até formas particulares de olhar para a terra e para o tempo. Entre 1876 e 1920, mais de um milhão de italianos chegaram ao Brasil, vindos sobretudo do Vêneto, da Lombardia, da Calábria e da Campânia. 

Mas existe uma tragédia silenciosa escondida dentro de toda imigração.

Para sobreviver, muitas vezes é preciso esquecer.

As primeiras gerações ainda tentaram resistir. Falavam os dialetos dentro de casa. Conservavam receitas improvisadas com os ingredientes que encontravam na nova terra. Celebravam santos das aldeias italianas que quase ninguém no Brasil conhecia. Algumas famílias mantinham o hábito de rezar o rosário em talian nas noites frias. Outras preservavam antigas cantigas camponesas enquanto esmagavam uvas ou preparavam polenta sobre fogões de pedra.

Contudo, os filhos já pertenciam a outro mundo.

As escolas exigiam o português. O comércio exigia o português. O governo exigia o português. Durante períodos de nacionalização intensa, especialmente nas décadas do século XX, muitos descendentes aprenderam que falar o idioma dos pais podia significar vergonha, isolamento ou suspeita. Então os dialetos começaram a ser escondidos dentro da própria família.

Primeiro nas ruas.

Depois nas mesas.

Por fim, dentro do coração.

E talvez nada revele tanto essa perda quanto as palavras que sobreviveram mutiladas.

Em muitas regiões do Sul do Brasil, os netos ainda ouviam fragmentos de frases cujo significado já desconheciam completamente. Sobraram expressões soltas, apelidos, rezas incompletas e palavrões pronunciados mecanicamente por velhos que carregavam uma Itália desaparecida dentro da memória. Em algumas famílias, a última pessoa capaz de falar fluentemente o dialeto morreu sem perceber que levava consigo um mundo inteiro.

Não eram apenas palavras.

Eram maneiras de existir.

Os antigos imigrantes italianos carregavam costumes que hoje parecem quase irreais. Havia famílias que acendiam velas durante tempestades para afastar maus espíritos. Algumas mulheres cobriam espelhos após a morte de um parente. Certos homens faziam o sinal da cruz antes de cortar o primeiro pão da colheita. Existiam rezas específicas contra doenças do gado, bênçãos para as sementes e crenças herdadas de aldeias pobres onde religião e superstição conviviam sem fronteiras claras.

Muitas dessas tradições desapareceram sem serem registradas.

Não estão nos livros.

Não aparecem nos monumentos.

Não sobrevivem nas festas típicas.

Porque as festas preservaram aquilo que podia ser mostrado ao público: a música, a comida, o vinho, as roupas. Mas as perdas mais profundas aconteceram dentro das casas, longe das fotografias.

Desapareceu o modo antigo de contar histórias.

Desapareceu o silêncio respeitoso diante dos mais velhos.

Desapareceram os serões onde famílias inteiras passavam horas ouvindo memórias da Itália à luz de lampiões.

Até mesmo certos sabores foram esquecidos. Muitos pratos originais precisaram adaptar-se à pobreza, ao clima brasileiro e à ausência dos ingredientes europeus. A própria culinária italiana no Brasil tornou-se uma reconstrução híbrida entre memória e necessidade. 

E talvez isso seja inevitável.

Nenhum povo atravessa oceanos sem pagar um preço invisível.

A assimilação salvou famílias da fome, aproximou comunidades e ajudou descendentes a construir novas vidas brasileiras. Mas cada integração também exigiu pequenas despedidas. Uma palavra abandonada. Uma oração esquecida. Um costume que deixou de ser ensinado aos filhos porque o trabalho consumia o tempo, porque o mundo moderno parecia mais urgente ou simplesmente porque a dor da saudade era grande demais.

Ainda assim, algo permaneceu.

Permaneceu na maneira como certas famílias se reúnem em torno da mesa.

Permaneceu na melancolia inexplicável de alguns sobrenomes.

Permaneceu nos gestos duros de homens silenciosos que aprenderam a esconder emoções.

Permaneceu no impulso quase instintivo de conservar fotografias antigas dentro de gavetas.

Há descendentes que já não falam uma única palavra do idioma dos antepassados, mas sentem um aperto estranho ao ouvir uma velha canção italiana. Outros jamais pisaram na Itália, porém carregam dentro de si uma nostalgia sem origem aparente — como se herdassem uma saudade que começou antes mesmo de nascerem.

Talvez porque certas heranças não desapareçam completamente.

Elas apenas deixam de ter voz.

E continuam vivendo, silenciosas, dentro do sangue.


Nota do Autor

Existem perdas que acontecem diante dos olhos do mundo. E existem aquelas que desaparecem em silêncio.

Esta obra nasceu da tentativa de escutar esse silêncio. Ao longo das décadas, a imigração italiana no Brasil foi narrada sobretudo através de suas conquistas. As colônias transformadas em cidades. As vinhas crescendo sobre encostas antes cobertas pela mata. As famílias numerosas reunidas diante de igrejas de pedra. Era uma memória necessária. Os descendentes precisavam enxergar nos antepassados não apenas sofrimento, mas também dignidade, coragem e reconstrução.

Contudo, enquanto pesquisava histórias antigas, cartas esquecidas, relatos orais e fragmentos de memória preservados por famílias do Sul do Brasil, percebi que havia outra narrativa escondida sob a superfície dessa epopeia.

Uma narrativa feita não apenas daquilo que os imigrantes construíram, mas também daquilo que perderam.

Porque emigrar nunca significou somente partir de uma terra.

Significou abandonar formas inteiras de existir.

Os homens e mulheres que deixaram o norte e o sul da Itália no final do século XIX não atravessaram o oceano carregando apenas malas pobres e ferramentas agrícolas. Trouxeram dialetos, superstições, receitas, modos de rezar, cantigas de infância, histórias repetidas diante do fogo, gestos herdados de gerações camponesas e pequenas tradições que jamais seriam registradas nos livros oficiais.

E foi justamente essa herança invisível que começou a desaparecer primeiro.

A fome contribuiu para isso.

O trabalho exaustivo contribuiu para isso.

A necessidade de adaptação contribuiu para isso.

Mas talvez o fator mais poderoso tenha sido o tempo.

O tempo corrói idiomas.

O tempo apaga costumes.

O tempo transforma memórias em ruídos distantes dentro das famílias.

Os filhos precisavam aprender português para sobreviver. Os netos já cresciam pertencendo mais ao Brasil do que à Itália. Então, lentamente, certas palavras deixaram de ser pronunciadas. Certas orações deixaram de ser ensinadas. Certos costumes passaram a parecer antigos demais para um mundo novo que avançava rapidamente.

E assim desapareceram universos inteiros sem que ninguém percebesse plenamente o que estava sendo perdido.

Talvez seja essa a parte mais melancólica de toda imigração.

Nem sempre os descendentes conseguem sentir saudade daquilo que nunca conheceram.

Mas, de alguma forma, continuam carregando os vestígios.

Eles sobrevivem em expressões espalhadas dentro da fala cotidiana. Sobrevivem na maneira como algumas famílias se sentam à mesa. Sobrevivem em fotografias antigas guardadas como relíquias. Sobrevivem naquela tristeza inexplicável que certas músicas italianas despertam mesmo em quem jamais pisou na Itália.

Enquanto escrevia este texto, pensei muitas vezes nos últimos velhos capazes de falar fluentemente os dialetos de suas aldeias. Homens e mulheres que morreram levando consigo palavras que talvez nunca mais sejam pronunciadas por ninguém. Com eles desapareceram também formas únicas de enxergar o mundo — porque cada idioma guarda dentro de si não apenas sons, mas sensibilidades inteiras.

Ainda assim, esta não é uma obra sobre o fim.

É uma obra sobre permanência.

Porque algumas heranças recusam-se a morrer completamente.

Elas atravessam gerações de maneiras silenciosas. Permanecem nos gestos, nos medos, na disciplina, na obstinação e até na melancolia herdada por tantos descendentes de imigrantes italianos espalhados pelo Brasil.

Talvez a memória humana seja exatamente isso.

Não apenas aquilo que conseguimos recordar.

Mas também aquilo que continua vivendo dentro de nós mesmo depois que as palavras desapareceram.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sexta-feira, 3 de julho de 2026

A Vila que eu Conhecia sem Nunca Ter Visto


 

A Vila que eu Conhecia sem Nunca Ter Visto

Uma crônica sobre memória, identidade e o reencontro com a terra deixada pelos imigrantes italianos

"Há viagens que não nos levam a novos lugares, mas nos devolvem àquilo que sempre habitou silenciosamente dentro de nós."


Há viagens que se fazem para conhecer paisagens. Outras, para colecionar fotografias, cumprir roteiros ou satisfazer curiosidades. Mas existem viagens que não pertencem ao turismo. Pertencem à alma.

São deslocamentos silenciosos em direção a algo que nunca conhecemos verdadeiramente, mas que, de alguma forma inexplicável, sempre habitou dentro de nós.

Foi assim com aquele homem que atravessou o oceano para visitar a pequena vila onde seus bisavós haviam nascido.

Durante décadas, aquele nome estivera presente apenas em documentos amarelados, certidões escritas com letras inclinadas, registros paroquiais quase ilegíveis, histórias fragmentadas contadas pelos avós nas tardes de domingo e fotografias antigas nas quais ninguém mais sabia identificar todos os rostos.

Era uma vila pequena, escondida entre colinas suaves, cercada por vinhedos, campanários e casas de pedra que pareciam resistir obstinadamente à passagem dos séculos.

Durante toda a infância, ele ouvira pronunciar aquele nome com uma reverência peculiar. Não se dizia apenas o nome de uma vila. Dizia-se quase como uma oração. Era a terra dos nonos. A terra de onde vieram. A terra que haviam deixado para trás sem jamais conseguir esquecê-la.

Na cozinha da casa de seus avós, no Brasil, aquela vila nunca desaparecera completamente. Continuava viva na polenta mexida lentamente, no vinho servido em dias de festa, nas palavras em dialeto que sobreviviam como pequenas relíquias linguísticas, nas histórias repetidas tantas vezes que pareciam adquirir a dignidade das lendas familiares.

Ali, naquela cozinha simples do interior, a vila permanecia existindo. Talvez mais viva na memória do que na própria realidade.

Quando finalmente chegou o dia da viagem, ele carregava consigo mais perguntas do que certezas. Queria saber se ainda existia a casa. Queria descobrir se permanecia de pé a igreja onde seus antepassados haviam sido batizados. Queria tocar as pedras das ruas que eles haviam percorrido. Queria apenas estar onde eles estiveram.

Era um desejo estranho. Não pretendia recuperar uma pátria perdida. Sabia que pertencera ao Brasil toda a sua vida. Seu sotaque era brasileiro. Sua cultura era brasileira. Sua história havia sido construída em outro continente.

E, no entanto, existia dentro dele uma saudade herdada. Uma saudade que não nascera da experiência, mas da transmissão. Como se a memória pudesse atravessar gerações. Como se certas ausências também fossem hereditárias.

Ao chegar à vila, percebeu imediatamente que não estava entrando num lugar desconhecido. Havia uma sensação desconcertante de reconhecimento. O campanário. A praça. As fachadas envelhecidas. As montanhas ao longe. Era como encontrar um rosto que se conhece há muito tempo apenas pelas fotografias.

Caminhou devagar. Sem pressa. Sem falar. Havia respeito naquele silêncio. O mesmo respeito que se guarda diante de um túmulo ou de um altar.

Parou diante da igreja. As portas estavam abertas. Entrou. O interior permanecia simples. Alguns bancos de madeira. Velas acesas. Imagens de santos desgastadas pelo tempo. A luz atravessava os vitrais e desenhava cores suaves sobre o piso antigo.

Sentou-se e, pela primeira vez, compreendeu que não viajara apenas milhares de quilômetros. Viajara mais de um século.

Ali, naquele mesmo espaço, estiveram homens e mulheres cujos nomes ele aprendera ainda menino. Ali haviam rezado antes das colheitas. Ali haviam agradecido pelas crianças nascidas. Ali haviam chorado seus mortos. Ali talvez tivessem pedido coragem na véspera da partida definitiva para um país distante chamado Brasil.

Talvez tivessem se despedido daquela igreja acreditando que retornariam um dia. Mas muitos nunca regressaram. Morreram do outro lado do oceano. Foram enterrados sob outra terra. Aprenderam outra língua. Construíram outras casas. Plantaram outras videiras. Criaram filhos que já não conheceriam a vila. E ainda assim continuaram carregando consigo aquele pequeno pedaço do mundo.

Guardaram-no na fala. Nos costumes. Nas receitas. Nas canções. Na devoção. Na saudade.

Depois caminhou até o cemitério. Os sobrenomes estavam ali. Os mesmos sobrenomes que crescera ouvindo em casa. Leu cada inscrição lentamente. Datas antigas. Séculos passados. Gerações inteiras repousando sob a mesma terra.

E, de repente, percebeu algo que nunca havia entendido plenamente. A genealogia não é apenas uma sucessão de nomes. É uma corrente de vidas. É o conjunto de escolhas, renúncias, sofrimentos e esperanças que permitiram que alguém existisse.

Se um daqueles homens tivesse decidido permanecer, se uma daquelas mulheres não tivesse embarcado, se uma criança tivesse adoecido, se uma tempestade tivesse alterado o destino de um navio, talvez ele jamais tivesse nascido.

Somos, em grande medida, fruto de acontecimentos improváveis. Carregamos em nosso sangue decisões tomadas por pessoas que jamais conheceremos pessoalmente. E, no entanto, devemos a elas a própria existência.

Ao final da tarde, sentou-se num banco da praça. Observou os moradores conversando, crianças brincando, o sino anunciando as horas e pássaros cruzando o céu. Tudo seguia seu curso. A vila continuava vivendo. Não permanecera congelada no tempo para esperar seus descendentes espalhados pelo mundo. Seguia existindo. Respirando. Mudando. Envelhecendo. Como acontece com todas as coisas humanas.

Então compreendeu algo profundamente comovente. Seus antepassados não desejariam que ele sentisse tristeza. Desejariam apenas que compreendesse. Que entendesse o tamanho do sacrifício realizado por quem deixou para trás paisagens amadas, pais, irmãos, amigos, campanários familiares, montanhas conhecidas e até mesmo os túmulos de seus próprios ancestrais para recomeçar a vida em terras desconhecidas.

Migrar não foi apenas mudar de país. Foi aceitar uma forma particular de luto. Foi aprender a viver com a ausência permanente. Foi continuar caminhando apesar da saudade.

Ao partir da vila, levou consigo algumas fotografias, um punhado de terra recolhida discretamente junto ao muro antigo do cemitério, o som do sino, o perfume das videiras e uma emoção difícil de explicar.

Porque naquele instante compreendeu que a verdadeira herança dos imigrantes não está apenas nos sobrenomes, nos documentos ou nas árvores genealógicas cuidadosamente desenhadas. A verdadeira herança é a capacidade de recordar. É o desejo quase sagrado de agradecer. É a necessidade humana de voltar, ainda que por algumas horas, ao lugar onde começou uma história que nos alcançou muito antes do nosso nascimento.

E talvez seja por isso que tantos descendentes choram ao visitar a vilas de origem de seus antepassados. Não choram apenas pelo passado. Choram porque, pela primeira vez, conseguem perceber que pertencem simultaneamente a dois mundos. À terra que seus ancestrais deixaram. E à terra que seus ancestrais tiveram coragem de construir.

Entre ambas existe um oceano. Mas existe também algo infinitamente mais poderoso: a memória.

E a memória, quando é alimentada pelo amor, possui a extraordinária capacidade de fazer com que aqueles que partiram continuem caminhando ao nosso lado, mesmo depois de muitas gerações.

Porque há vilas que permanecem distantes nos mapas, mas jamais deixam de existir dentro do coração dos seus descendentes.


Nota do Autor

Escrevi esta crônica porque acredito que existem viagens que transcendem a geografia e pertencem ao território mais íntimo da condição humana: a necessidade de compreender de onde viemos para entender quem somos.

Ao longo dos anos, conheci relatos de inúmeros descendentes de imigrantes italianos que atravessaram o oceano em busca da pequena vila mencionada pelos avós, da igreja onde seus antepassados foram batizados, da casa de pedra que sobrevivia apenas na memória familiar ou do cemitério onde repousam gerações que permaneceram na terra natal. Em quase todos esses testemunhos havia algo em comum: as lágrimas.

Não eram lágrimas de tristeza, mas de reconhecimento. Era a emoção profunda de perceber que a própria existência está ligada a escolhas corajosas feitas por homens e mulheres que aceitaram abandonar paisagens amadas, afetos, tradições e até os túmulos dos seus ancestrais para construir um futuro em um continente desconhecido.

Escolhi este tema porque ele fala sobre pertencimento, memória e gratidão. Fala sobre uma saudade herdada, transmitida de geração em geração, capaz de sobreviver ao tempo, às distâncias e às mudanças do mundo. Fala também sobre a experiência de milhões de descendentes que cresceram ouvindo histórias de uma vila distante e que, um dia, sentem o desejo quase sagrado de caminhar pelas mesmas ruas percorridas pelos seus antepassados.

Esta crônica não pretende contar a história de uma única família. Ela procura dar voz a uma emoção coletiva, compartilhada por tantos descendentes de imigrantes que descobrem, ao regressar simbolicamente ao ponto de partida de sua linhagem, que pertencem simultaneamente a duas terras: aquela que seus antepassados deixaram e aquela que seus antepassados ajudaram a construir.

Talvez seja justamente por isso que visitar a vila de origem dos nossos ancestrais seja uma experiência tão comovente. Porque, naquele instante, compreendemos que a herança mais preciosa recebida dos que partiram não foi apenas um sobrenome, uma língua, uma receita ou uma tradição. Foi a memória. E a memória, quando cultivada com amor, transforma-se numa forma de permanência, permitindo que aqueles que cruzaram oceanos continuem vivendo dentro de nós, mesmo depois de muitas gerações. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Lìssia O Sabão de Cinzas que Atravessou o Oceano com os Imigrantes Italianos

 


A Lìssia

 O Sabão de Cinzas que Atravessou o Oceano com os Imigrantes Italianos


Antes dos detergentes, dos sabões industriais e das prateleiras cheias de produtos de limpeza, existia algo muito mais simples — e ao mesmo tempo essencial: a lìssia. Esse nome, vindo do dialeto vêneto (base do talian falado no Sul do Brasil), designava a lixívia feita com cinzas e água, usada há séculos na Itália rural para lavar roupas e produzir sabão caseiro.

Quando os imigrantes italianos deixaram o Vêneto, a Lombardia, o Trentino e outras regiões do norte da Itália rumo ao Brasil, no final do século XIX, não trouxeram apenas malas e esperança. Trouxeram também saberes domésticos, transmitidos de geração em geração. Entre eles, estava a arte de fazer a lìssia.

O que era exatamente a lìssia?

lìssia não era o sabão pronto, mas sim o líquido alcalino extraído das cinzas da madeira. Essa solução tinha forte poder de limpeza e era usada de duas formas:

• diretamente na lavagem de roupas
• como base para fabricar sabão artesanal

Na prática, era a “química da roça”: simples, eficiente e totalmente ligada à natureza.

Como se fazia a lìssia nas colônias italianas do RS

Nas casas dos colonos, tudo começava no fogão a lenha.

  1. As cinzas da queima da madeira eram guardadas e peneiradas.

  2. Depois, colocavam-se as cinzas em um recipiente grande (às vezes um barril ou gamela).

  3. Jogava-se água quente por cima.

  4. A mistura descansava e depois era coada.

O líquido que saía era a lìssia: forte, acinzentada e altamente eficiente para remover gordura e sujeira.

Da lìssia ao sabão

Para fazer sabão, os colonos misturavam a lìssia com gordura animal, geralmente banha de porco. Essa mistura era levada ao fogo e mexida por horas até engrossar. Depois, era colocada em formas, deixada esfriar e cortada em barras.

Nascia ali o sabão colonial, usado para:

• lavar roupas
• limpar pisos
• higienizar utensílios
• até mesmo para o banho em tempos de escassez

Era um produto da própria casa — feito com aquilo que a terra e o trabalho forneciam.

lìssia como parte da cultura

Mais do que um produto de limpeza, a lìssia fazia parte do cotidiano e da identidade dos imigrantes italianos no RS. As mulheres se reuniam para lavar roupa nos riachos, nos tanques ou nos fundos das casas. O cheiro da lìssia misturada à roupa molhada era parte da paisagem da colônia.

Era trabalho duro. Mas também era convivência, troca de histórias, aprendizado passado de mãe para filha.

Da Itália ao Brasil: um saber que atravessou gerações

O que começou nas aldeias do Vêneto continuou vivo nas colônias do Rio Grande do Sul. Mesmo quando o sabão industrial começou a chegar, muitas famílias mantiveram o costume da lìssia, tanto por economia quanto por tradição.

Hoje, falar de lìssia é falar de memória, identidade e resistência cultural. É lembrar que nossos antepassados sabiam transformar cinza em limpeza, escassez em solução e trabalho em dignidade.

Conclusão

lìssia é um exemplo poderoso de como o conhecimento simples pode ser profundamente humano. Ela representa o engenho dos imigrantes italianos e a maneira como reconstruíram suas vidas no Brasil — com o que tinham nas mãos. Preservar essas histórias é preservar a alma da colônia. Se você leitor ao ler este artigo se lembrar dos seus avós preparando o sabão com as cinzas do fogão, escreva contanto a sua história nos comentários desse blog como forma de preservação da nossa cultura coletiva.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




domingo, 1 de fevereiro de 2026

La Lìssia El Saon de Cenisa che el ga Straverssà el Mar coi Imigranti Italiani


La Lìssia

El Saon de Cenisa che el ga Straverssà el Mar coi Imigranti Italiani


Prima dei detergenti, dei saon de fàbrica e dei stante pieni de prodoti, ghe zera ´na roba pì sèmplise — ma fondamental: la lìssia. Sto nome, el ze vignesto dal dialeto vèneto (la basa del talian parlà ´ntel Sud del Brasil), el vol dir la lissìvia fata de cenisa e aqua, doparà da sècoli in Itàlia rural par lavar la roba e far el saon de casa.

Quando i imigranti italiani i ga lassà el Vèneto, la Lombardia, el Trentino e altre regioni del nord d’Itàlia par vegnir in Brasil, a la fin del sècolo XIX, lori no i ga portà solo valise e speransa. I ga portà anca i saver de casa, tramandà de generassion in generassion. Tra sti, ghe zera l’arte de far la lìssia.

Cosa la zera propiamente la lìssia?

La lìssia no la zera el saon pronto, ma el lìquido forte tirà fora de la cenisa de legna. Sta solussion la gavea un gran poder de netar e la zera doparà in do maniere:

• direto par lavar la roba
• come base par far el saon fato in casa

In pràtica, la zera la “chìmica de la colònia”: sèmplisse, bona e tuta ligà a la natura.

Come che se fasea la lìssia ´nte le colònie taliane del RS

Inte le case dei colòni, tuto partia dal fogon a legna.

  1. La cenisa de la legna la vegnia tegnù e passà al setàssio.

  2. Dopo, la se metea la cenisa in ´na granda gamela o in un baril.

  3. Ghe se butava sora aqua calda.

  4. La mèscola la restava a posar e dopo la se scolava.

El lìquido che vignia fora el zera la lìssia: forte, un poco grisa e bonìssima par cavar via la sporcisia e el grasso.

Da la lìssia al saon

Con sonza de porsel o con altro grasso. La roba la vegnia messa sul fogo e mestà par ore fin che la se fasea densa. Dopo, la se meteva in forme, la se lassava fredar e la se taiava a tochi.

Nasséa cussì el saonn de colònia, doparà par:

• lavar la roba
• netar el pavimento
• lavar i utensili
• e anca par el bagno, quando ghe zera poca roba

El zera un prodoto de casa — fato con quel che la tera e el laoro dava.

La lìssia come parte de la cultura

Pì che un prodoto de netìssia, la lìssia la zera parte del zorno par zorno e de l’identità dei imigranti taliani ´ntel RS. Le done se trovava insieme par lavar le robe ´ntei fiumeti, ´ntei lavador o drìo le case. El odor de la lìssia mescolà con i strassi bagnà el zera parte del paesàgio de la colònia.

Zera fadiga dura. Ma zera anca compagnìa, stòrie contade e insegnamenti passà da mama a fiola.

Da l’Itàlia al Brasil: un saver che la ga straversà le generassion

Quel chele ze scominsià ´ntei paeseti del Vèneto el ga continuà vivo ´ntele colònie del Rio Grande do Sul. Anca quando el saon de fàbrica el s’è scominsià a vegnir, tante famèie le ga tegnesto el costume de la lìssia, par economia e par tradission.

Incòi parlar de lìssia el ze parlar de memòria, identità e resistensa culturae. El ze ricordarse che i nostri veci i savea far neto con la cenisa, far solussion con la povertà e far dignità col laoro.

Conclusión

La lìssia la ze un grande esèmpio de come el saver sèmplisse el pol èsser profondamente umano. Lei rapresenta l’ingegno dei imigranti taliani e la maniera che i ga refà la so vita in Brasil — con quel che i gavea in man.

Tegner vive ste stòrie el ze tegner viva l’ànima de la colònia.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta


terça-feira, 11 de junho de 2024

Alguns Sobrenomes Italianos em Barra Bonita e Região



Sobrenomes Italianos em 
Barra Bonita SP


Aiello, Antonangelo, Antonelli, 
Alponti, 
Abruzzi, Bellini, 
Barduzzi, Bellei, Balbo, 
Boldo, Bressanim, Bozzi (Rigon), 
Bergamo, Ballan, Blasizza, Bettini, 
Boarini, Bressan, Bocato, 
Borgui, Brunelli, Caetano, Cardia, 
Cagnotti, Constanzo, Cestari, 
Casagrande, Casale, Chiarato, Capelossa, Castelari, Dal Corso, De Marchi, 
De Conti, Dalla Costa, De Luca, Dias, Ereno, 
Frollini, Ferrari, Fagá, Ferrazolli, 
Fantin, Fantinatti, Fuim, Feltrin, Finatto, Giacomini, Guedin, Giroto, Grizzoni, 
Galhardi (Gagliardi), Gatti, Marcon, 
Mascaro, 
Massenero, 
Mori, Marinelli, 
Maffei, Mozarle, Nardo, Osti, Patuzzo, 
Pizzo, Pollini, Pozebon, Perassoli, Piva, Pezente, Pellini, Pavani, Parezan, Petri, Polatto, 
Ricci, Rossi, Rizzatto, Reginato, Ragoni, 
Ribeiro de Andrade, Santinello, Stangherlin, Selleguin, Sargentim, Scarpela, 
Scalissa, Scapin, 
Stringheta, Stramantinolli, Sponchiatto, 
Santilli, Sabbatini, Spaulonci, Salve, Sacco, Simionatto, Simoncini, Testa, Tozatto, Terrazan, 
Ursolino, Ungaro, Vechiatti, Veghini, 
Vetorazzo, Victorino de França, 
Zaffani, Zanella, 
Zerlin e Ziglio

Comerciantes: José Angelino, Angelo e Silvano Bataiola; Guerino; Luiz e Antonio Reginato; Luiz, Carlos, João, Antônio e Francisco Lourenção; Rocco Di Muzio; Emílio Bressan; Luigi Gaioli; Luiz Iaia; Salomão, Elias e Alfredo Simão;

Sapateiros: Tiziano Dalla Chiara, Aurélio Saffi e Gregório Vessio. 

Ferreiros: Júlio Turi, Ezio Benfatti, Luiz Simon e Alberto Strutzel. 
Arthur e Antenor Balsi serraria. 

Hoteleiros: Jacob Chalita, Victorio Cinquetti, Tomaz Mantovani, Emílio Quaglia e João Fantinatti. 

Ceramistas: Ezequiel Otero, Thomas Guzzo, Francisco e Frederico Corradi, Benedito Bressanim, Angelo Borsetto, Valentin Ferrazolli, João Martini. 

Açougueiros: Ferrucio e Sabino Bolla. 

Pescadores profissionais: Valentino e Eugenio Giacomini. 

Farmacêuticos: Vito Melle e Serafim Bertie 

Médico: Dr. Luciano Maggiori. 

Fabricantes de cervejas e refrigerantes: Germano Güther, Baptista Torcia e os irmãos Antônio, Luiz e Giovanni Carnevalle.
 
Barbeiros: Francisco Mascaro e Domingos Di Poldo. 

Construtores: Eugenio Nanni, José Negrin, Emílio Bertagnolli e Bernardo Pardo. 

Carpinteiros: Amadeu Angelici, Ângelo e Emílio Gottardo e os irmãos José, Antônio e Manoel Marques Ferreira. 

Relojoeiro: José Lodi. 

Comandante fluvial: Francisco de Oliveira Diniz. 

Carroceiro: João Gerin, Ângelo e Valentin Reginato, Ângelo e Giácomo Cestari, Adamo e Pietro Ziglio, Lorenzo e Severino Antonelli, Victório e Arthur Blasizza, Giuseppe Antonangelo, Olimpio Trema, Alfonso e Aristodemo Bellei, Francisco e Victorio Bergamo, Antônio Guerreiro, Antônio Moreno Ramirez e Miguel Molina 


quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Mar Tempestuoso, Terra Prometida: A Épica Jornada dos Imigrantes Italianos ao Brasil





Era o final do século XIX, em 1878, quando os Caprari, uma família natural da Sicília, imigrantes italianos como milhões de outros de todas as partes do país, decidiu deixar sua pequena vila no sul da Itália e partir em busca de uma nova vida no Brasil. Eram camponeses e a situação econômica no campo estava cada vez pior com grande desemprego e a fome já rondando os lares. Eles estavam ansiosos para recomeçar a vida em uma nova terra, onde acreditavam que poderiam ter melhor sorte, uma vida digna e oportunidades para seus filhos. Iam em busca daquelas mesmas oportunidades que, por diversas razões, a Itália de então, não podia lhes oferecer: um trabalho digno do qual pudessem conseguir o pão de cada dia, uma vida melhor para eles e um futuro promissor para os filhos.
A viagem começou com um sentimento misto de empolgação misturado com tristeza pela despedida dos amigos e parentes. A família não tinha comprado as passagens de navio, pois não tinham condições financeiras, aproveitaram a oferta do governo brasileiro de viagem grátis até as terras onde começaria a nova vida. 
O navio partiria do porto de Nápoles em direção ao Rio de Janeiro e de lá com com outro navio menor até o porto de Santos. O navio era grande e parecia imponente, dando a impressão de que eles estavam embarcando em uma grande aventura.
A bordo, a família se acomodou como pôde em suas precárias camas beliche de três andares, dispostas em várias filas nos dois grandes salões no porão do navio. Com muita preocupação a família teve que se separar: homens e meninos maiores de oito anos em um dos salões e mulheres e meninas em outro. Em ambos alojamentos comunitários não havia banheiros suficientes para todos os passageiros e nos grandes salões, nas filas de beliches, sem qualquer privacidade, estavam colocados baldes de madeira com tampas para servirem de latrina. O ar ali dentro desses enormes alojamentos era quente, úmido e fétido devido a falta de ventilação adequada. 
Assim que puderam eles começaram a explorar o navio e se familiarizar com o que seria sua casa pelas próximas semanas.
A viagem seguia tranquila até que, aproximadamente o meio do trajeto, logo após ultrapassarem a linha imaginária do Equador, uma grande tempestade começou a se formar no horizonte. O vento aumentou, e as ondas ficaram cada vez mais altas e violentas. A tripulação começou a correr de um lado para o outro e a se preocupar, e os passageiros foram instruídos a se manterem nos alojamentos.
A família Caprari se apavorou, e o medo tomou conta de todos. Eles seguravam-se firmemente aos móveis e objetos, que estavam fixados no assoalho, para não serem jogados de um lado para o outro pela agitação do mar. O vento uivava e o navio balançava e sacudia, e o som das ondas batendo no casco era ensurdecedor.
A tempestade durou algumas horas, e a ninguém a bordo conseguia comer ou dormir devido o enjôo que o balanço tinha provocado. Eles ficavam juntos em seus alojamentos, rezando para que o navio não afundasse. Em momentos de calmaria, saíam rapidamente para tomar ar fresco no convés, mas logo eram obrigados a voltar para dentro com o vento e as ondas que se intensificavam novamente.
Finalmente, a tempestade passou, e o sol brilhou novamente. A tripulação informou que o navio havia sofrido alguns danos, mas nada que impedisse a continuação da viagem. A família Caprari se sentiu aliviada, mas também exausta e traumatizada com a experiência.
O restante da viagem transcorreu sem incidentes, mas eles nunca esqueceram os momentos de angústia vividos durante aquela tempestade. 
Ao chegar ao porto do Rio de Janeiro, foram recebidos por funcionários do porto e encaminhados para a o setor de imigração que os ajudou com os trâmites alfandegários e os encaminhou para um alojamento provisório na hospedaria. Lá, eles tiveram que dividir um grande quarto com outras famílias de imigrantes, mas estavam felizes por finalmente terem chegado ao seu destino. 
Chegando ao Rio de Janeiro, tiveram que se adaptar a um novo país, uma nova língua e uma nova cultura, mas sabiam que estavam prontos para enfrentar qualquer adversidade, já que haviam enfrentado a fúria do mar e sobrevivido.
Para eles tudo era muito diferente daquela pequena vila perdida no interior da Sicilia. Ficaram impressionados com as pessoas de cor escura, pois ainda não conheciam pessoas negras, que eram comuns na ilha onde desembarcaram.
Depois de 3 dias na Hospedaria de Imigrantes, chegou a hora de embarcarem novamente para a cidade de Santos onde seriam recebidos pelos funcionários da fazenda de café que os tinha contratado.
Todos eles tinham sido contratados para trabalhar no cultivo de café de uma grande fazenda do interior de São Paulo. O trabalho era pesado, mas eles estavam dispostos a dar o seu melhor para ganhar a vida. Com o tempo, até conseguiram economizar algum dinheiro e comprar um pequeno lote de terra, na periferia de uma pequena cidade vizinha da fazenda que tinham vivido nos últimos cinco anos e passaram a trabalhar em pequenas fábricas da região.
Passados mais alguns anos, com os filhos agora crescidos, os Caprari se estabeleceram na cidade, abrindo um pequeno negócio próprio junto com o filho mais velho. 
Eles nunca esqueceram da tempestade que enfrentaram durante a viagem ao Brasil, mas agradeciam por terem sobrevivido e por terem construído uma nova vida em um país que lhes deu tantas oportunidades.
A experiência de imigração da família Caprari foi compartilhada por muitas outras famílias que deixaram a Europa em busca de uma vida melhor nas Américas. A tempestade que enfrentaram em alto-mar é um exemplo das dificuldades e dos desafios que tiveram que superar para se estabelecer em uma nova terra.
Mas, como eles, muitos outros pobres imigrantes conseguiram construir uma nova vida e deixar um legado que é valorizado até hoje. 


Texto


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS




terça-feira, 7 de novembro de 2023

Ecos da Itália: A Saga dos Imigrantes Italianos que Transformaram Ribeirão Pires, São Paulo

Imigrantes italianos no Porto de Santos

 


Na região que hoje se encontra o Grande ABC Paulista, antigamente conhecido por freguesia de São Bernardo, foram criados três núcleos coloniais, diretamente subordinados ao governo imperial brasileiro: São Bernardo, São Caetano e Ribeirão Pires. 

Este último foi fundado em 1887, em zona próxima a ferrovia São Paulo Railway, a primeira estrada de ferro criada no estado de São Paulo, que ligava o planalto paulista, na Estação Jundiaí, ao litoral paulista na Estação Valongo, já na cidade de Santos.

A primeira leva de imigrantes italianos começou a chegar nos  núcleos em 1888 e início de 1889; um segundo grupo em meados de 1889, e finalmente o terceiro, em setembro de 1890. 

Algumas famílias eram provenientes de fazendas do interior de São Paulo. A maioria desses imigrantes declarou ser agricultor, entretanto, outras profissões como pintor, pedreiro, carpinteiro, sapateiro e costureira também foram encontradas nos registros ainda existentes. Traziam conhecimentos dos trabalhos que executavam nos seus locais de origem na Itália.

Os primeiros imigrantes começaram a chegar lentamente a São Caetano ainda em julho de 1877, quando foram distribuídos os lotes de terra. 

O núcleo colonial de São Bernardo começou a receber imigrantes praticamente na mesma época, entre 1877 e 1880, os quais foram  alocados em diferentes linhas. 


Navio Duchessa di Genova no Porto de Santos


O núcleo colonial de Ribeirão Pires, como já referido, foi criado em 1887, em terras próximas a ferrovia São Paulo Railway. Ainda baseando-se em alguns documentos, tais como o Livro dos Colonos,  custodiado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, este núcleo era formado por três linhas: duas delas em Ribeirão Pires, uma na zona rural e outra na zona urbana e a terceira em Pilar, formada por chácaras, distribuídas para 20 famílias, em um total de 80 pessoas, local que mais tarde veio a formar o atual município de Mauá.

Em Pilar, 13 dessas famílias italianas eram provenientes das províncias de Mantova e Verona e uma de Padova. As demais eram brasileiras de origem portuguesa. Nesse grupo de italianos estavam as famílias: Bersan, Buasi, Bernini, Cursi, Gallo, Gadioli, Lunghi, Lupi e Magrie. 

Os lotes rurais da Linha Ribeirão Pires eram em número de 25 e foram distribuídos para 24 famílias italianas, e um para uma família brasileira, que já habitava a região. Quanto a origem na Itália: 17 dessas famílias italianas eram procedentes do comune de Salzano, na província de Veneza, 4 famílias da província de Padova, 2 famílias das província de Rovigo e 1 delas da província de Treviso. Essas famílias eram constituídas por casais cuja idade estava entre 30 e 50 anos e tinham de 2 a 4 filhos, a maioria menores de 15 anos.

Com exceção da família Martineli, que havia deixado uma fazenda no interior do estado, os demais vieram diretamente da Hospedaria dos Imigrantes, na capital.

Dos 63 lotes urbanos do Núcleo de Ribeirão Pires distribuídos em 1890: 46 foram destinados à famílias italianas. Os 17 outros restantes se destinaram: 1 para uma família alemã, outro para um imigrante português e os outros 15 para famílias brasileiras.

Entre as famílias italianas podemos citar: 


Astolfo, Beletto, Massiero, Zabeo, 

Zamberto, Zonni, Pescarini, 

Gallo, Bottaccin, Pandolfi, 

Fochi, Tussi, Bertoldo, Bersan, 

Buasi, Bendinelli, Benini, Bonaventuri, 

Sacarpello, Girolano, Ganitano, Russomano, 

Luca, Lupi, Magri, Marza, 

Milan, Pellizon.

 





quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Lágrimas e Triunfos: A Jornada Épica dos Emigrantes Italianos em Terras Brasileiras




Na primeira metade deste século XIX, a Inglaterra, já um país industrializado e precisando vender seus manufaturados, que era a superpotência mundial da época, pressionou fortemente o Brasil para acabar com o tráfico de escravos da África que supria as necessidades de mão de obra do império brasileiro. O movimento abolicionista crescia no Brasil e vária leis foram promulgadas pelo congresso tentando minimizar e proibir o tráfico negreiro. Em 1850 com a Lei Eusébio de Queirós ficou proibido a importação de escravos em todo o Brasil. A partir desta data começou faltar a mão de obra nas zonas rurais do país, especialmente no momento em que a cultura do café se expandia, para atender a grande procura mundial pelo precioso grão. Nesse período um grupo de grandes fazendeiros de café do oeste paulista, com grande força política no congresso, passou a defender o uso de mão livre nas suas fazenda, entrando em choque com o pensamento de um outro grupo do Vale do Paraíba, também politicamente forte e donos de grande número de escravos, que eram contra a ideia de contratar trabalhadores livres. Os escravos valiam uma grande fortuna e não queria se desfazer desse capital. Os embates passaram para o congresso que estava dividido em duas alas de parlamentares: os abolicionistas e os escravagista. A força dos abolicionistas no parlamento foi crescendo em número de adesões até que em 1871 foi promulgada a Lei do Ventre Livre, na qual determinava que os filhos de escravas seriam cidadãos livres. A pressão da ala abolicionista foi aumentando até que em 1885 foi aprovada a Lei dos Sexagenários, onde os escravos que atingissem a idade de sessenta anos seriam automaticamente libertos. Essas duas leis já prenunciavam que o fim da escravidão no Brasil estava próximo. Também durante esse período de embates no congresso, a população escrava envelhecia sem que a reprodução natural fosse suficiente para suprir as necessidades de mão de obra nas plantações que a anualmente aumentavam de área. A necessidade de mão de obra se acentuou drasticamente quando em 1888 foi promulgada a Lei Áurea com a proibição da escravidão em todo o território brasileiro. 
Nesse mesmo período do século XIX na Itália acontecia a unificação, um fenômeno conhecido como Risorgimento, com o fim das guerras de independência, que deixaram arrasada a economia do novo reino, seguida de um aumento dramático do desemprego, associado a um crescimento demográfico, também verificado em outros países europeus. Tais fatores levaram, a partir da década de 1870, ao início da maciça imigração de italianos para o Brasil. No final do século XIX e início do século XX, as ideias de darwinismo social e eugenia racial tiveram grande prestígio no pensamento científico mundial. Na medida em estas ideias eram aceitas e divulgadas pela comunidade científica nacional, o imaginário social e político brasileiro passou a considerar que os brasileiros eram incapazes de desenvolver o país por serem, em sua grande maioria, negros e mestiços. Essa política de imigração, além de aumentar a oferta de mão de obra, trazendo um maior número de pessoas brancas para o país, também possibilitou melhores condições de vida aos agricultores europeus, que viviam uma situação difícil em seu país. Os emigrantes, na época No final do século XIX e início do século XX, as ideias de darwinismo social e eugenia racial tiveram grande prestígio no pensamento científico mundial. Na medida em estas ideias eram aceitas e divulgadas pela comunidade científica nacional, o imaginário social e político brasileiro passou a considerar que os brasileiros eram incapazes de desenvolver o país por serem, em sua grande maioria, negros e mestiços. Essa política de imigração, além de aumentar a oferta de mão de obra, trazendo um maior número de pessoas brancas para o país, também possibilitou melhores condições de vida aos agricultores europeus, que viviam uma situação difícil em seu país. Os italianos eram considerados um dos melhores emigrantes disponíveis, por serem brancos e terem a mesma religião católica que o império. Eles poderiam ser usados para o "branqueamento" da população brasileira. E não foi apenas o nosso país a adotar esses critérios raciais, alguns dando preferência aos imigrantes provenientes do norte da península em detrimento daqueles do sul. Foi a partir da década de 1870 que os imigrantes italianos  começaram a chegar em maior número, aumentando expressivamente entre os anos de 1887 e 1904, quando os italianos já eram o maior grupo étnico a entrar no Brasil. A repercussão negativa na imprensa italiana surgidas no início do século XX com notícias relatando as péssimas condições de vida dos emigrantes italianos, principalmente nas plantações de café de São Paulo, fizeram com que o parlamento italiano emitisse o chamado decreto Prinetti, que passou a proibir a emigração subsidiada para o nosso país, causando uma grande diminuição do número de recém chegados.








sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A Chegada dos Italianos: Como Foi a Jornada dos Imigrantes Italianos até o Brasil

 



A jornada dos imigrantes italianos até o Brasil era longa e difícil, geralmente levando semanas e em muitos casos até dois meses. Viajavam em velhos navios superlotados, com poucas condições de higiene e conforto. A comida a bordo dos navios geralmente era escassa e muitas vezes de má qualidade, o que levava muitos imigrantes a sofrerem de doenças. Muitos deles também sofriam de enjoo e outros problemas de saúde devido às más condições das acomodações disponíveis a bordo. 
Por outro lado, a viagem para o Brasil também era cara, para aqueles que não tinham nada, o que significava que muitos imigrantes tiveram que economizar durante muito tempo para pagar pela passagem, no entanto, outros puderam aproveitar o período em que o governo imperial concedia viagem com passagens grátis para aquelas famílias que quisessem vir trabalhar no Brasil. 
A chegada ao Brasil muitas vezes era caótica, com muitos imigrantes desembarcando no porto sem saber bem para onde ir. Em muitos lugares os imigrantes italianos às vezes enfrentavam discriminação e preconceito devido à sua origem, à cor da pele, como os meridionais, que eram mais morenos, à pobreza estampada em seus rostos, o que raramente acontecia em nosso país. 
A língua também era uma barreira para muitos imigrantes, que tinham que aprender o português para se comunicar e se adaptar à vida no Brasil. Aqueles que foram para o Rio Grande do Sul chegaram até a criar uma língua, chamada talian, para se comunicar entre eles, pois naquela época a grande maioria não falava o italiano e sim os vários dialetos das regiões de onde provinham. Quando chegaram no sul do país a Itália como nação só existia a menos de 10 anos e grande maioria dos imigrantes desconhecia a língua oficial do país.
Muitos italianos enfrentaram dificuldades no trabalho no Brasil, especialmente nas áreas rurais. No entanto, a maioria deles acabou encontrando trabalho nas plantações de café e pequenas fábricas, como no setor têxtil. 
Os italianos também enfrentaram desafios ao estabelecerem suas próprias comunidades no Brasil, incluindo a falta de infraestrutura e a discriminação por parte de outros grupos étnicos. As primeiras comunidades italianas no Brasil foram formadas na década de 1870, principalmente em São Paulo. 
Essas comunidades italianas no Brasil muitas vezes eram formadas por imigrantes de uma mesma região da Itália, que mantinham suas próprias tradições, costumes e especialmente o seu dialeto. Muitas também se dedicaram à preservação de sua cultura e tradições, incluindo a culinária e as festas religiosas que colaborou para os imigrantes se adaptarem mais rapidamente à vida no país e a superarem os desafios que enfrentavam. 
A presença italiana no Brasil é evidente em muitas áreas, incluindo a arquitetura, a culinária, a música e a arte. O modo de se alimentar italiano se tornou popular em todo o Brasil, com pratos famosos como pizza, pasta, risoto e lasanha se tornando parte da culinária brasileira. A música italiana também teve um impacto significativo no Brasil, especialmente na música popular brasileira. A arte italiana , influenciou os movimentos artísticos no Brasil, com muitas obras de arte italianas sendo expostas em museus e galerias de arte em todo o país. 
A chegada dos imigrantes italianos ao Brasil também teve um impacto na economia do país, especialmente na indústria têxtil, na produção de café e no comércio em geral. Os imigrantes italianos trouxeram habilidades e conhecimentos que ajudaram a desenvolver a indústria, a produção de café e a criação de negócios comerciais, pois muitos deles eram hábeis artesãos e iniciaram negócios próprios. A indústria têxtil foi uma das principais áreas em que os imigrantes italianos se destacaram no Brasil, trazendo suas habilidades de tecelagem e costura. 
A presença italiana no Brasil também teve um impacto na política, com muitos imigrantes italianos se envolvendo em movimentos políticos e sindicais. Muitos italianos se uniram a sindicatos para lutar por melhores condições de trabalho e direitos trabalhistas, esses trabalhadores geralmente eram provenientes do centro da Itália, regiões mais industrializadas daquele país, e que tinham experiência com esses movimentos trabalhistas. Alguns imigrantes italianos também se envolveram em movimentos políticos de esquerda, incluindo o Partido Comunista Brasileiro. 
A presença italiana no Brasil também foi marcada por conflitos e tensões, incluindo a participação de muitos italianos em movimentos fascistas em São Paulo e nos estados do sul do Brasil. Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos imigrantes italianos foram presos e até deportados do Brasil devido à sua associação com o regime fascista. 
No entanto, a maioria dos imigrantes italianos no Brasil eram trabalhadores honestos e dedicados que contribuíram significativamente para o país. 
A história da imigração italiana no Brasil é uma parte importante da história do país, marcada por desafios, oportunidades e contribuições significativas para a cultura, economia e política brasileiras.



sábado, 22 de abril de 2023

Colônia Nova Itália: Uma Viagem no Tempo pelas Tradições Italianas no Paraná

Igreja da Colônia Nova Itália no Paraná

Era o ano de 1878 e a grande colônia italiana de Nova Itália, o segundo grande experimento oficial de colonização da província, com uma população de mais de oitocentos imigrantes, localizada próximo de Paranaguá, entre as cidades de Antonina e Morretes, no Paraná, estava passando, desde algum tempo, por um período crítico de grande agitação. Desde a sua fundação em 1872, criada às pressas para acolher os imigrantes retirantes da mal sucedida Colônia Alexandra, esse novo assentamento era bem maior, com vários núcleos de povoamento, ainda não tinha mostrado o desenvolvimento e a pujança que as autoridades do governo tanto esperavam. Já de algum tempo as condições de vida na colônia estavam bastante corroídas, tendo já ocorrido diversas reclamações dos imigrantes contra a administração da colônia. Havia uma falta crônica de material para a construção das casas, de sementes, roupas e até de alimentos para os colonos, os quais depois de seis anos ainda dependiam totalmente do estado para praticamente tudo. Diversos abaixo-assinados foram enviados para as autoridades competentes em Curitiba, sem receberem solução adequada. O descontentamento para esta situação era generalizado e cresciam as manifestações de protestos contra a administração da colônia, as quais estavam ficando cada vez mais violentas. Os colonos exigiam do governo a sua transferência para outro local, fazendo valer uma das cláusulas constante nos seus contratos. Por diversas vezes a autoridades provinciais estiveram no local avaliando a situação, prometendo melhorias que acabaram não acontecendo, mas agora os colonos estavam irredutíveis exigindo transferência de local. Na realidade a extensa região que a colônia tinha sido implantada e onde se estabeleceram os diversos núcleos de povoamento da mesma, tinham condições muito diferentes na qualidade do solo. Alguns dos terrenos tinham áreas com possibilidade de algum cultivo e outros eram quase todo de terreno arenoso e alagadiço, impróprios para as culturas pretendidas. Por outro lado, o clima quente, muito úmido e os incômodos insetos típicos da zona litorânea, que tantas doenças causavam, estavam presentes indistintamente neles todos. O contrato oficial assinado pelos colonos com as autoridades brasileiras, estipulava que se eles, por qualquer motivo, não se adaptassem na colônia oferecida, poderiam solicitar ao governo paranaense a transferência para outro local. Os imigrantes italianos que ali tinham sido assentados, estavam preocupados com o seu futuro naquela colônia de clima ruim e terras magras para o cultivo e teimava em não progredir, isso também devido por se encontrar longe de um grande centro consumidor para os seus produtos. Muitos desses colonos já haviam começado a trabalhar como diaristas nas obras de construção da Estrada da Graciosa e da Estrada de Ferro Paranaguá Curitiba, mas o que conseguiam ganhar segundo eles mal dava para sustentar a família.
Cada vez mais a ideia de se transferir para Curitiba tomava corpo, estimulada pelas notícias que chegavam através dos tropeiros, viajantes comerciais ou mesmo em conversas com o pessoal da ferrovia, muitos deles trazidos da capital. Aqueles imigrantes que ainda tinham alguma reserva financeira, trazida da Itália, se adiantaram e por conta própria empreendiam a viagem até Curitiba, comprando em conjunto terrenos em alguns pontos da cidade, tal como a Colônia Santa Felicidade. Curitiba era uma cidade ainda pequena, mas como uma capital de província tinha um futuro muito promissor e isso era fácil de se perceber. As terras em torno da cidade eram de ótima qualidade para qualquer tipo de cultivo e o clima temperado de montanha, quase idêntico aquele da Itália que haviam deixado. A cidade era movimentada e cheia de vida, em franco crescimento, necessitando de muita mão de obra para as suas fábricas e de gêneros alimentícios para alimentar a população que não parava de crescer. Eles sabiam que não seria fácil se adaptar a um novo lugar, mas estavam dispostos a tentar. Então, a maioria decidiu se mudar para Curitiba. O governo provincial, depois de alguma relutância e atraso, finalmente cedeu e liberou a saída dos colonos da Colônia Nova Itália para aqueles que assim desejassem e até ajudou no transporte e na alocação das famílias em diversas outras colônias que estavam sendo criadas entorno da capital. 


Texto 
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS