quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Lìssia O Sabão de Cinzas que Atravessou o Oceano com os Imigrantes Italianos

 


A Lìssia

 O Sabão de Cinzas que Atravessou o Oceano com os Imigrantes Italianos


Antes dos detergentes, dos sabões industriais e das prateleiras cheias de produtos de limpeza, existia algo muito mais simples — e ao mesmo tempo essencial: a lìssia. Esse nome, vindo do dialeto vêneto (base do talian falado no Sul do Brasil), designava a lixívia feita com cinzas e água, usada há séculos na Itália rural para lavar roupas e produzir sabão caseiro.

Quando os imigrantes italianos deixaram o Vêneto, a Lombardia, o Trentino e outras regiões do norte da Itália rumo ao Brasil, no final do século XIX, não trouxeram apenas malas e esperança. Trouxeram também saberes domésticos, transmitidos de geração em geração. Entre eles, estava a arte de fazer a lìssia.

O que era exatamente a lìssia?

lìssia não era o sabão pronto, mas sim o líquido alcalino extraído das cinzas da madeira. Essa solução tinha forte poder de limpeza e era usada de duas formas:

• diretamente na lavagem de roupas
• como base para fabricar sabão artesanal

Na prática, era a “química da roça”: simples, eficiente e totalmente ligada à natureza.

Como se fazia a lìssia nas colônias italianas do RS

Nas casas dos colonos, tudo começava no fogão a lenha.

  1. As cinzas da queima da madeira eram guardadas e peneiradas.

  2. Depois, colocavam-se as cinzas em um recipiente grande (às vezes um barril ou gamela).

  3. Jogava-se água quente por cima.

  4. A mistura descansava e depois era coada.

O líquido que saía era a lìssia: forte, acinzentada e altamente eficiente para remover gordura e sujeira.

Da lìssia ao sabão

Para fazer sabão, os colonos misturavam a lìssia com gordura animal, geralmente banha de porco. Essa mistura era levada ao fogo e mexida por horas até engrossar. Depois, era colocada em formas, deixada esfriar e cortada em barras.

Nascia ali o sabão colonial, usado para:

• lavar roupas
• limpar pisos
• higienizar utensílios
• até mesmo para o banho em tempos de escassez

Era um produto da própria casa — feito com aquilo que a terra e o trabalho forneciam.

lìssia como parte da cultura

Mais do que um produto de limpeza, a lìssia fazia parte do cotidiano e da identidade dos imigrantes italianos no RS. As mulheres se reuniam para lavar roupa nos riachos, nos tanques ou nos fundos das casas. O cheiro da lìssia misturada à roupa molhada era parte da paisagem da colônia.

Era trabalho duro. Mas também era convivência, troca de histórias, aprendizado passado de mãe para filha.

Da Itália ao Brasil: um saber que atravessou gerações

O que começou nas aldeias do Vêneto continuou vivo nas colônias do Rio Grande do Sul. Mesmo quando o sabão industrial começou a chegar, muitas famílias mantiveram o costume da lìssia, tanto por economia quanto por tradição.

Hoje, falar de lìssia é falar de memória, identidade e resistência cultural. É lembrar que nossos antepassados sabiam transformar cinza em limpeza, escassez em solução e trabalho em dignidade.

Conclusão

lìssia é um exemplo poderoso de como o conhecimento simples pode ser profundamente humano. Ela representa o engenho dos imigrantes italianos e a maneira como reconstruíram suas vidas no Brasil — com o que tinham nas mãos. Preservar essas histórias é preservar a alma da colônia. Se você leitor ao ler este artigo se lembrar dos seus avós preparando o sabão com as cinzas do fogão, escreva contanto a sua história nos comentários desse blog como forma de preservação da nossa cultura coletiva.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




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