A Lìssia
O Sabão de Cinzas que Atravessou o Oceano com os Imigrantes Italianos
Antes dos detergentes, dos sabões industriais e das prateleiras cheias de produtos de limpeza, existia algo muito mais simples — e ao mesmo tempo essencial: a lìssia. Esse nome, vindo do dialeto vêneto (base do talian falado no Sul do Brasil), designava a lixívia feita com cinzas e água, usada há séculos na Itália rural para lavar roupas e produzir sabão caseiro.
Quando os imigrantes italianos deixaram o Vêneto, a Lombardia, o Trentino e outras regiões do norte da Itália rumo ao Brasil, no final do século XIX, não trouxeram apenas malas e esperança. Trouxeram também saberes domésticos, transmitidos de geração em geração. Entre eles, estava a arte de fazer a lìssia.
O que era exatamente a lìssia?
A lìssia não era o sabão pronto, mas sim o líquido alcalino extraído das cinzas da madeira. Essa solução tinha forte poder de limpeza e era usada de duas formas:
Na prática, era a “química da roça”: simples, eficiente e totalmente ligada à natureza.
Como se fazia a lìssia nas colônias italianas do RS
Nas casas dos colonos, tudo começava no fogão a lenha.
As cinzas da queima da madeira eram guardadas e peneiradas.
Depois, colocavam-se as cinzas em um recipiente grande (às vezes um barril ou gamela).
Jogava-se água quente por cima.
A mistura descansava e depois era coada.
O líquido que saía era a lìssia: forte, acinzentada e altamente eficiente para remover gordura e sujeira.
Da lìssia ao sabão
Para fazer sabão, os colonos misturavam a lìssia com gordura animal, geralmente banha de porco. Essa mistura era levada ao fogo e mexida por horas até engrossar. Depois, era colocada em formas, deixada esfriar e cortada em barras.
Nascia ali o sabão colonial, usado para:
Era um produto da própria casa — feito com aquilo que a terra e o trabalho forneciam.
A lìssia como parte da cultura
Mais do que um produto de limpeza, a lìssia fazia parte do cotidiano e da identidade dos imigrantes italianos no RS. As mulheres se reuniam para lavar roupa nos riachos, nos tanques ou nos fundos das casas. O cheiro da lìssia misturada à roupa molhada era parte da paisagem da colônia.
Era trabalho duro. Mas também era convivência, troca de histórias, aprendizado passado de mãe para filha.
Da Itália ao Brasil: um saber que atravessou gerações
O que começou nas aldeias do Vêneto continuou vivo nas colônias do Rio Grande do Sul. Mesmo quando o sabão industrial começou a chegar, muitas famílias mantiveram o costume da lìssia, tanto por economia quanto por tradição.
Hoje, falar de lìssia é falar de memória, identidade e resistência cultural. É lembrar que nossos antepassados sabiam transformar cinza em limpeza, escassez em solução e trabalho em dignidade.
Conclusão
A lìssia é um exemplo poderoso de como o conhecimento simples pode ser profundamente humano. Ela representa o engenho dos imigrantes italianos e a maneira como reconstruíram suas vidas no Brasil — com o que tinham nas mãos. Preservar essas histórias é preservar a alma da colônia. Se você leitor ao ler este artigo se lembrar dos seus avós preparando o sabão com as cinzas do fogão, escreva contanto a sua história nos comentários desse blog como forma de preservação da nossa cultura coletiva.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
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