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sábado, 8 de agosto de 2026

A Viagem Além do Navio — O Caminho Esquecido da Imigração Italiana no Brasil

 


A Viagem Além do Navio — O Caminho Esquecido da Imigração Italiana no Brasil


Havia quem acreditasse que o sofrimento terminava quando o navio finalmente ancorava.

Depois de semanas — às vezes meses — comprimidos em porões úmidos, respirando o cheiro azedo da água parada, da ferrugem e da febre, muitos emigrantes italianos olhavam o litoral brasileiro como homens que haviam atravessado o inferno e encontrado, enfim, a salvação. Alguns choravam ao ver a linha verde das montanhas. Outros se ajoelhavam sobre a madeira do convés e faziam o sinal da cruz. As mães apertavam os filhos contra o peito. Os velhos beijavam medalhas de santos escondidas sob as roupas.

Mas quase ninguém lhes contava que a verdadeira viagem ainda não havia começado.

Os registros oficiais falavam dos navios.

Anotavam datas de embarque, nomes de portos, números de passageiros mortos durante a travessia atlântica. Os papéis preservavam listas, estatísticas e quarentenas. Entretanto, havia um trecho da jornada que raramente aparecia nos documentos. Uma parte esquecida da imigração. Uma estrada invisível entre o cais brasileiro e as colônias perdidas no interior.

Foi ali que muitos desapareceram sem deixar vestígio.

Depois do desembarque, começava outra peregrinação — mais lenta, mais silenciosa e, por vezes, mais cruel do que o oceano.

As famílias eram reunidas às pressas em armazéns abafados próximos aos portos. Dormiam sobre tábuas, sacos de café ou diretamente no chão úmido. Crianças tossiam durante a madrugada. Mulheres tentavam cozinhar algo com água barrenta e farinha distribuída por funcionários cansados. Havia gritos em dialetos diferentes. Choro de recém-nascidos. Gemidos de febre. O calor tropical esmagava homens acostumados ao frio das montanhas do Vêneto, do Trentino ou da Lombardia.

Muitos já chegavam debilitados da travessia marítima. Bastava pouco para o corpo ceder.

Então começavam as viagens por terra.

Carroças cobertas avançavam lentamente por caminhos abertos na mata. Rodas afundavam em barro negro. Cavalos magros lutavam contra subidas impossíveis. Quando chovia, o caminho desaparecia. Quando fazia sol, a poeira queimava os olhos e secava a garganta até sangrar.

Não existiam estradas como aquelas que haviam imaginado na Itália.

Existiam trilhas.

Corredores de barro cercados por florestas densas, onde o silêncio parecia esconder alguma ameaça invisível. À noite, os emigrantes ouviam sons desconhecidos vindos da mata. Rugidos distantes. Estalos entre as árvores. O medo crescia na escuridão como uma doença.

E as doenças realmente vinham.

Disenteria. Febres violentas. Infecções intestinais. Sarampo. Malária em algumas regiões. Tifo. Doenças sem nome para camponeses que jamais haviam saído de suas aldeias italianas. Muitas vezes não existia médico. Não existia remédio. Não existia sequer uma igreja próxima onde se pudesse pedir auxílio.

Havia apenas a mata.

E a marcha.

Alguns morriam nas próprias carroças, balançando sobre estradas de pedra e lama enquanto os familiares fingiam que ainda respiravam, porque parar significava ficar para trás. Outros eram enterrados às margens dos caminhos, em covas rasas abertas com enxadas emprestadas. Uma cruz improvisada era feita com dois galhos amarrados por cipós.

Dias depois, a floresta engolia tudo.

Os documentos oficiais raramente registravam esses mortos.

Não apareciam nas estatísticas dos navios porque haviam sobrevivido ao oceano. Também não surgiam nos livros das colônias porque jamais chegaram até elas. Permaneciam suspensos entre dois mundos — homens, mulheres e crianças apagados no trecho intermediário da viagem.

Mortos da estrada.

Mortos do barro.

Mortos da espera.

Em certas regiões do sul do Brasil, surtos inteiros desapareceram da memória escrita. Pequenas epidemias atravessavam grupos de emigrantes instalados provisoriamente em barracões de madeira. Febres coletivas levavam dezenas em poucos dias. Algumas autoridades preferiam silenciar para evitar alarmes ou interromper a chegada de novos colonos. Em outros casos, simplesmente não havia quem registrasse nada. A morte acontecia longe das cidades, longe dos jornais, longe do olhar do governo.

Restavam apenas as lembranças.

Um filho que recordava a mãe delirando numa carroça.

Uma mulher que jamais esqueceu o pequeno corpo do irmão envolvido num lençol áspero antes do enterro improvisado.

Um velho que, décadas depois, ainda apontava para certa curva da estrada e dizia apenas:

“Foi ali.”

A imigração italiana no Brasil costuma ser lembrada pelas casas de pedra, pelas videiras, pelas capelas erguidas no alto dos morros. E tudo isso existiu. Foi real. Houve trabalho, reconstrução e esperança.

Mas antes da vinha houve a lama.

Antes da fartura houve a fome.

Antes das comunidades havia famílias inteiras caminhando entre doenças, enterros e medo.

O oceano não foi o fim da viagem.

Foi apenas a porta de entrada para outra travessia — uma travessia terrestre, esquecida e brutal, que consumiu vidas longe dos relatórios oficiais e das fotografias de época.

Talvez por isso tantos descendentes ainda carreguem uma melancolia difícil de explicar.

Existe uma memória que atravessa gerações mesmo quando ninguém mais conhece os nomes dos mortos.

Porque certas dores não permanecem nos livros.

Permanecem no sangue.


Nota do Autor

A história que você acaba de ler nasceu de um silêncio.

Não do silêncio do mar — porque o oceano gritava com febres, vômitos, tempestades e despedidas —, mas do outro silêncio. Aquele mais perigoso. O silêncio daquilo que quase nunca foi escrito.

Durante muito tempo, a imigração italiana no Brasil foi lembrada através das fotografias da vitória. As casas de pedra cobertas de parreirais. Os homens de chapéu diante das cantinas. As famílias reunidas em frente às capelas erguidas sobre colinas verdes. Era natural que fosse assim. Os descendentes precisavam preservar algum orgulho depois de tanta luta. Precisavam acreditar que o sofrimento tivera sentido.

Mas toda epopeia humana possui um trecho enterrado.

E este livro nasceu justamente da tentativa de olhar para esse trecho esquecido.

Pouco se fala sobre o caminho entre o porto e a colônia. Pouco se fala sobre os dias em que o emigrante já havia sobrevivido ao Atlântico, mas ainda não havia alcançado a terra prometida. Era um território suspenso entre esperança e condenação. Um corredor de barro onde famílias inteiras caminhavam carregando não apenas malas, mas o peso brutal da incerteza.

Ao pesquisar relatos antigos, cartas fragmentadas, memórias orais e pequenos registros perdidos em arquivos, tornou-se impossível ignorar aquilo que os documentos oficiais quase nunca contavam: havia mortos sem fotografia, sem lápide e sem estatística. Gente que desapareceu nas estradas antes mesmo de aprender o nome da própria colônia.

E talvez essa seja uma das tragédias mais profundas da imigração.

Morrer longe da pátria já era doloroso. Mas morrer antes mesmo de chegar ao destino parecia condenar o emigrante a desaparecer duas vezes — da vida e da memória.

Enquanto escrevia estas páginas, imaginei inúmeras vezes aquelas carroças avançando lentamente sob a chuva. Crianças febris dormindo sobre sacos úmidos. Mulheres tentando esconder o medo para que os filhos continuassem andando. Homens exaustos olhando para a mata fechada sem saber se estavam se aproximando da esperança ou do abandono.

Porque a verdadeira violência nem sempre vinha de um único acontecimento.

Às vezes ela vinha da repetição.

Da lama diária.

Da fome diária.

Do medo diário.

Da longa sensação de que ninguém sabia — ou talvez ninguém se importasse — com o que acontecia longe das cidades e dos relatórios oficiais.

Ainda assim, existe algo profundamente humano nesses sobreviventes.

Mesmo cercados pela morte, continuaram andando.

Continuaram carregando os filhos.

Continuaram enterrando seus mortos e seguindo adiante porque parar significava desaparecer junto deles.

Talvez seja justamente daí que tenha nascido a força silenciosa que tantas famílias descendentes ainda carregam sem conseguir explicar. Uma resistência herdada não apenas do trabalho, mas da travessia. Não apenas da construção das colônias, mas da capacidade de continuar caminhando quando tudo parecia perdido.

Este texto não foi escrito para destruir a memória da imigração italiana.

Foi escrito para completá-la.

Porque antes das videiras houve sepulturas improvisadas.

Antes dos sinos das capelas houve o som das rodas afundando no barro.

Antes das festas de vindima houve mães chorando à beira das estradas.

E lembrar disso não diminui os pioneiros.

Torna-os maiores.

Muito maiores.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 28 de julho de 2026

Talian o Idioma que Nasceu da Necessidade

 


Talian o Idioma que Nasceu da 

Necessidade


Antes de existir como voz nacional, o país já existia no mapa. A Itália, unificada na segunda metade do século XIX, nascera mais como decisão política do que como realidade vivida. Linhas foram traçadas, bandeiras erguidas, um rei proclamado. Mas sob essa unidade recente permanecia um território fragmentado em modos de falar, de pensar e de viver. O idioma oficial — baseado no toscano, prestigiado por ter sido a língua de grandes escritores e centros culturais — foi escolhido como instrumento de coesão do novo reino; ainda assim, essa decisão mal alcançou os campos, as montanhas e as pequenas comunidades.

Ali, onde a maioria da população vivia, o italiano não era língua de uso. Era distante, quase abstrato. O que existia de fato eram as línguas locais, mais tarde chamados de dialetos — inteiros, funcionais, profundamente enraizados. Cada província do norte ao sul guardava o seu. Cada vale moldava o próprio som. Em muitos casos, bastava atravessar poucos quilômetros para que a fala se tornasse outra.

E foi essa Itália real — não a dos decretos, mas a das vozes — que embarcou rumo ao Brasil.

Quando a grande emigração começou, poucos anos haviam se passado desde a unificação italiana. Tempo insuficiente para que uma língua comum se impusesse. Assim, os navios não trouxeram italianos no sentido linguístico da palavra. Trouxeram vênetos, lombardos, trentinos, friulanos, piemonteses, napolitanos, sicilianos, calabreses — cada qual com sua forma diversa de nomear o mundo.

No destino, porém, essa diversidade encontrou um obstáculo imediato.

Nas colônias do sul do Brasil, a sobrevivência não admitia isolamento. Era preciso cooperar. Dividir trabalho, organizar plantios, construir casas, negociar pequenas trocas, formar famílias. Era preciso viver em conjunto — e viver em conjunto exigia algo que ainda não existia entre eles: compreensão mútua.

As primeiras interações foram marcadas por hesitação. Palavras repetidas, gestos ampliados, olhares que buscavam sentido no contexto. Um homem falava e era compreendido pela metade; outro respondia em um idioma que soava familiar, mas não idêntico. Dentro das casas, casamentos entre pessoas de diferentes origens expunham ainda mais essa distância.

Mas a necessidade é uma força paciente — e insistente.

Aos poucos, o que era dificuldade transformou-se em adaptação. Não por imposição, mas por prática. As palavras começaram a ser escolhidas não pela fidelidade à origem, mas pela clareza. Formas foram simplificadas, sons ajustados, expressões substituídas. O que funcionava permanecia; o que confundia era abandonado.

Sem que percebessem, estavam criando algo novo.

O vêneto, falado por um número significativo de imigrantes, ofereceu a estrutura predominante. Mas não dominou sozinho. Misturou-se aos outros falares italianos e absorveu, com naturalidade, elementos do português que se infiltravam no cotidiano — nas relações externas, nas instituições, nas novas gerações que cresciam entre dois mundos.

Não houve erro nesse processo.

Houve escolha. Houve inteligência prática. Houve uma construção coletiva que não buscava pureza, mas eficácia. Cada alteração carregava um propósito simples e essencial: ser entendido.

Com o tempo, essa fala híbrida deixou de ser provisória. Ganhou estabilidade, repetição, reconhecimento. Tornou-se o idioma das casas, das lavouras, das festas, das rezas. Passou de ferramenta a herança.

As crianças já não aprendiam os dialetos fragmentados dos antepassados. Aprendiam aquela nova língua, moldada pela experiência comum, marcada pela travessia e enraizada no Brasil.

O idioma que nasceu da necessidade não foi um acidente da história. Foi uma resposta consciente — ainda que silenciosa — a um problema real. Não representou perda, mas continuidade sob novas condições. Onde havia fragmentação, construiu-se unidade. Onde havia distância, ergueu-se ligação.

E essa ligação não se fez por decretos ou academias.

Fez-se na prática diária da vida compartilhada.

Porque, no fim, o talian não nasceu da falta de língua.

Nasceu da necessidade de pertencer. 

Nota do Autor

Escrever sobre o talian é, antes de tudo, escrever sobre gente comum colocada diante de circunstâncias extraordinárias. É olhar para homens e mulheres que não tiveram o privilégio das decisões políticas nem o acesso às grandes escolas, mas que, ainda assim, foram capazes de construir algo duradouro — não com tinta e papel, mas com a própria vida.

A unificação italiana, frequentemente celebrada como marco de identidade nacional, pouco significou para aqueles que viviam afastados dos centros urbanos. Para eles, a pátria não era uma ideia abstrata, mas o vilarejo, o vale, a comunidade. Sua língua não era a dos escritores consagrados, mas aquela aprendida no colo da mãe e usada no campo, na mesa e na igreja. Quando partiram, não deixaram para trás uma língua nacional — porque ela, de fato, ainda não lhes pertencia.

Trouxeram consigo algo mais fragmentado, porém mais autêntico: suas vozes.

O que se formou no Brasil não pode ser compreendido como simples mistura ou adaptação superficial. Foi um fenômeno humano profundo, nascido da necessidade, mas sustentado pela convivência, pelo esforço mútuo e pela urgência de construir uma vida nova em terra desconhecida. O talian é, nesse sentido, menos uma herança direta e mais uma recriação — um testemunho vivo de que identidade não é algo fixo, mas algo que se refaz.

Há, nisso, uma lição silenciosa.

Línguas oficiais podem ser decretadas. Podem ser ensinadas, normatizadas, difundidas. Mas uma língua verdadeira — aquela que pulsa no cotidiano — nasce onde há vida compartilhada. Nasce onde há necessidade de entender e de ser entendido. Nasce, sobretudo, onde há pertencimento.

Reconhecer o talian hoje, como já o fez o IPHAN ao incluí-lo como patrimônio cultural, é mais do que um ato de preservação linguística. É um gesto de justiça histórica. É admitir que, longe dos centros de poder, também se constrói cultura — sólida, rica e legítima.

Este texto, portanto, não pretende apenas explicar uma origem.

Pretende honrar um processo.

Porque, no fundo, cada palavra do talian carrega algo que vai além do som e do sentido: carrega a memória de quem precisou reinventar a própria forma de existir — e conseguiu.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




terça-feira, 17 de março de 2026

Sobrenomes de Famílias de Origem Italiana em Varginha Minas Gerais


Sobrenomes de Famílias de Origem Italiana em Varginha Minas Gerais


Alberti, Albinati, Alegro, Amorelli, Anderle, Bacci, Bacoli, Baldansi, Baldonni, Bandoni, Baratti, Barboni, Barbieri, Barolli, Baroni, Batagini, Bartelega, Batiston, Bazzanella, Bello, Bencivenni, Bellato, Belineli, Benetoli, Benetolo, Benevenuto, Bertoldo, Bertolli, Berthozi, Biaggi, Biaggini, Biancasteli, Bíscaro, Bissoni, Bizzotto, Boareto, Bornelli, Borsato, Bortolazo, Bortolosso, Bottega, Braidotti, Bregalda, Bruziguessi, Bucci, Buzeti, Cainelli, Caldonazzo, Candelato, Canella, Carli, Carlucci, Casagrande, Caselato, Cazelato, Cervo, Ciacci, Cipriani, Cocconi, Comunian, Conti, Corcetti, Corsinni, Crepaldi, Dalcin, Dalessandro,D’A lessandro, Damiani, Davanzo, Davancio, Delfraro, Del Fraro, Della Lúcia, De Lucca, Destefani, Di Lorenzo, Di Marco, Dominguetti, Elisei, Elizei, Esposito, Fabri, Fávaro, Felicioni, Felicori, Fennocci, Ferrari, Ferroni, Finoti, Fioravanti, Foresti, Fortunato, Freducci, Freschi, Gagliardi, Gallo, Gambogi, Gazzola, Geovannini, Geraldi, Geraldeli, Giacomussi, Giambelli, Giongo, Gismonti, Gobbi, Grecco, Greco, Grossi, Infantini, Jacomeli, Lello, Lentini, Maiolini, Maltese, Mambeli, Mangiapelo, Mantovani, Marquezini, Marangon, Marangão, Marcelini, Maritan, Maritam, Maselli, Mazeli, Marotta, Massotti, Mazzeu, Melliato, Menegucci, Menegueli, Miareli, Mitidieri, Módena, Monterani, Moterani, Montesso [Montessori], Montevechi, Monti, Monticelli, Mori, Mozelli, Navarra, Negretti, Neri, Nicoletti, Orsi, Ossani, Ottoni, Pacceli, Pagliuca, Palmieri, Palmutti, Panini, Paoli, Paoliello, Paruci, Parzianello, Passatuto, Pavoni, Pazzoti, Pegorini, Perazoli, Petrin, Petrim, Peloso, Perrotta, Pierrotti, Pinelli, Piva, Pizzo, Pressato, Rainato, Regina, Regispani, Rissi, Rizzo, Romanelli, Romaniello, Rosei, Rosestolato, Rossignolli, Rotundo, Sappi, Sarto, Scabarossi, Scalioni, Scatolino, Selvatti, Semionato, Simionato, Sepini, Serafim, Serenini, Sigianni, Stabelinni, Stecca, Tavolieri, Tommaso, Totti, Trolezzi, Trolese, Trombini, Vacchelli, Valenzi, Vanoni, Vanzetti, Vazi, Vazzi, Vaze, Vazze, Venturato, Venturini, Zacarelli, Zambeli, Zambotti, Zanatelli, Zaneti, Zanin, Zanini, Zanone, Zatti

Nota Explicativa

A presença de famílias de origem italiana em Varginha, no sul de Minas Gerais, insere-se no amplo movimento migratório que marcou o Brasil entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Impulsionados por crises econômicas, fragmentação de propriedades rurais, altos impostos e instabilidade social na Itália recém-unificada, milhares de italianos buscaram na América oportunidades de trabalho e reconstrução de vida.
Embora o estado de São Paulo tenha sido o principal destino, especialmente nas regiões cafeeiras, muitos imigrantes e seus descendentes deslocaram-se posteriormente para o sul de Minas Gerais, atraídos pela expansão agrícola, pelo comércio e pela formação de novos núcleos urbanos. Varginha, beneficiada pela ferrovia e pelo dinamismo econômico regional, tornou-se um polo de acolhimento para diversas famílias italianas que passaram a atuar no comércio, na lavoura, nas pequenas indústrias e nas atividades artesanais.
Ao longo das gerações, esses sobrenomes integraram-se à identidade local, contribuindo para a formação cultural, religiosa e econômica do município. Festas, tradições familiares, culinária, devoções religiosas e o espírito associativo deixaram marcas que ultrapassam o âmbito privado e se incorporam à memória coletiva da cidade.
Assim, a lista de sobrenomes não representa apenas registros genealógicos, mas testemunhos vivos de um processo histórico maior: o encontro entre a herança italiana e a sociedade mineira, cuja síntese ajudou a moldar a história de Varginha e de toda a região.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Navio Alice (1880) e A Chegada de Famílias Italianas ao Espírito Santo


 

Navio Alice (1880) e A Chegada de Famílias Italianas ao Espírito Santo


Altoè – Balliana – Bassan – Beltrame – 
Bez – Borsoi – Bortolamioli –
Campo - Canal – Canel – 
Ciprian – Colladet – Comarella – 
Costa – D’Agostin – Dall’ Orto - Dalsin – 
De Nardi - De Pin – De Prà – 
Del Puppo – Deraise – Fantin – Fent – Fiorat – Fregona – Furlan – Ghizzo – 
Largura – Lezelione – Lovisa – Marinato – Michelin – Moro – Moscon – Paier – 
Perrut – Piccin – Piccini – Pigatti – 
Rebuli – Salvador – Serafin – 
Sercatti – Sette – Simonetti – 
Soligo – Spinato – Stella – Targa – Tavara – Tossutti – Trevisol – Vadagnin - 
Vazzoler – Venturin – Zambon – Zampol – Zanon - Zuccolotto

Nota:

A chegada dos passageiros italianos ao Espírito Santo desde o Rio de Janeiro a bordo do navio Alice, em 1880, insere-se em um dos momentos mais significativos da política imigratória brasileira do século XIX. Diante da crise econômica nas regiões rurais da Itália recém-unificada, milhares de famílias buscaram no Brasil a promessa de trabalho, terra e estabilidade. O Espírito Santo destacou-se como um dos principais destinos, oferecendo lotes coloniais e incentivando a formação de núcleos agrícolas organizados.

Esses imigrantes, em sua maioria camponeses, trouxeram consigo técnicas agrícolas, valores comunitários, tradições religiosas e uma forte cultura do trabalho familiar, que moldaram profundamente a paisagem humana e econômica capixaba. A memória dos passageiros do Alice representa não apenas um registro migratório, mas um testemunho da construção histórica do Espírito Santo e da contribuição italiana para a identidade regional e nacional brasileira.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Passageiros do Navio Città de Milano (1897–1898) De Gênova ao Rio de Janeiro


Passageiros do Navio Città de Milano (1897–1898) 
De Gênova ao Rio de Janeiro


M. Pietro 33
Moglie: Margherita 33
Figlio: Felice 9
Figlia: Marietta 8
Figlia: Margherita 5
Figlio: Giuseppe 3
Figlia: Giuseppina 1

MOZZONE, Gerolamo 28
Moglie: Margherita 23
Figlia: Maria 8 meses
MANGUIROTTI, Angelo 31
Moglie: Maria 29
Figlia: Rosa 8

MILANI, Gregorio 37
Moglie: Antonia 28
Figlio: Gregorio 9
Figlia: Vittoria 7
Figlia: Maria 6
Figlio: Leone 2

NOLI, C. 33
Moglie: Cristina 29
Figlia: Margherita 8
Figlio: Giuseppe 3
Figlia: Maria 1

NOBILI, Aldo 29
Moglie: Rita 31
Figlia: Rosa 1

PRESENTE, Giuseppe 35
Moglie: Santa 35
Figlia: Rosa 11
Figlia: Carmela 9

PARALUFFI, Giuseppe 26
Moglie: Maria 23
Figlio: Giovanni 1 mês

PARDELLA, Alessandro 38
Moglie: Carolina 44

PROSPERI, Herminio 39
Moglie: Artemisia 29
Figlia: Olenifia 6
Figlia: Olimpia 2
Figlia: Elisa 11 meses

GUERCETTI, Clemente 24
Moglie: Clementina 26
Figlio: Giulio 4
Figlio: Giuseppe ?
Figlia: Natalina 1

GHELLER, Francesco 33

GALLONI, Narciso 35
Moglie: Nicolini 36
Padre: Benedetto 63
Moglie: Gesualda 58
Figlio: Ferrucio 19
Figlia: Annita 14
Figlio: Razzieri 9
Figlia: Allata 7
Figlia: Carolina 2

GAGETTI, Nicolaio 34
Moglie: Enrichetta 31
Figlio: Galileo 9
Figlia: Annita 4

GALLONI, Emilio 36
Moglie: Ambrosia 32
Figlio: Alberto 7

GHELLER, Francesco 33
Moglie: Maria 27
Figlia: Antonietta 1
Figlio: Giuseppe 3 meses

GALLONI, R. ?
Figlio: Giuseppe 10
CASADIO, Giuseppe 30
Moglie: Vincenza 30
Figlia: Maria 7
Figlio: Vincenzo 3
Figlio: Bartolomeo 10 meses

CRISTOFANI, Napoleon 25
Moglie: Teresa 23
Figlia: Brasilia 3 meses

CAONETTO, Giuseppe 27
Moglie: Giovanna 26

CAONETTO, Antonio 61
Moglie: Giudetta 51
Figlio: Marco 12

D...., Giuseppe 40
Moglie: Celestina 36
Figlia: Margherita 9
Figlio: Carlo 6

DEL FONTE, Domenico 40
Moglie: Caterina 36
Figlio: Giovanni 14
Figlia: Madalena 13
Figlio: Marco 7
Figlio: Diamante 3
Figlia: Claudina 5 meses

ENTRAMONTE, Luigi 42
Moglie: Anna 38
Figlia: Costanza 15
Figlia: Angelina 13
Figlio: Antonio 12
Figlia: Maria 10
Figlia: S... 7
Figlia: Rosa 4

CAMISAZZA, Pietro 27

ENTRAMONTE, Bellino 2
AVAGNIZZO, Margherita 77
ENTRAMONTE, Costantino 16 meses

FIESCO, Giuseppe 24
Moglie: Cecilia 20
Figlia: Adelaide 11 meses

FALCINELLI, Nicola 46
Moglie: Rosa 44
Figlia: Assunta 18
Figlia: Ernestina 15
Figlia: Angela 13
Figlia: Lucia 11
Figlia: Enrichetta 9
Figlia: Carlotta 6
Figlia: Antoniella 2

SAVELETTI, Giuseppe 21

GATTI, Francesco 62
Moglie: Marta 50
Figlio: Antonio 16
Figlia: Ernesta 13
Figlia: Lucia 10

GATTI, Domenico 23

GERMANO, Michele 36
Moglie: Caterina 33
Figlio: 10

RIGAZIO, Emiliano 56
Moglie: Orsola 49
Figlia: Chiara 30
Figlio: Pietro 18
Figlia: Marianna 11

RANI, Antonio 41
Moglie: Annunziata 39
Figlio: Angelo 16
Figlia: Sofia 13
Figlio: Domenico 7
Figlio: Francesco 4

RIGAZIO, Alberto 34
Moglie: Anna 29
Figlia: Chiara 6
Figlia: Caterina 3
Figlia: F... 1

RAMPONI, Raffaele 48
Figlio: Giuseppe 28
Figlio: Pietro 24
Figlio: Innocente 14

SELLANI, Ferdinando 45
Moglie: Asfanta 35
Figlia: Maria 13
Figlia: Giulia 10
Figlia: Ersilia 7
Figlio: Dante 5
Figlio: Francesco 2

SELLANI, Dante 45
Padre: Domenico
Figlia: Anna 13
Figlio: Ottorino 10
Figlio: Enrico 7

SALADINI, Silvio 37
Moglie: Antonia 34
Figlio: Giovanni 10
Figlia: Maria 8
Figlia: Angela 5
Figlia: Albina 3
Figlia: Teresa 14 meses

SEMORI, Maria 51
Figlio: Emilio 19
Figlia: Giuseppina 12
Figlia: Genoveffa 7

SGEUZZATO, Bartolo 23
Moglie: Santa 23

STEFANINI, Guarnieri 41
Moglie: Armida 31
Figlio: Stefano 8
Figlia: Pasquina 3
Figlio: Leopoldo 2

STEFANI, Antonio 30
Moglie: Lucia 29

SCOMPARTINI, Giuseppe 28
Moglie: Anna 23
Figlia: Leonilda 2
Figlia: Stella 2 meses

SALA, Augusto 37
Moglie: Giovanna 37
Figlia: Pellugia 7
Figlia: Elisa 3
Figlio: Luigi 5 meses

TOZZI, Serafino 44
Moglie: Marianna 37
Figlio: Attilio 7

ZEN, Domenica 64
VENTURINI, Secondo 21
BISONGOR, Pietro 24
GARAGNANI, Gema 24
ZACCHI, Pietro 29
ZANNINI, Raffaele 43
ZANETTI, Francesco 40


Nota explicativa

A lista de passageiros do Navio Città di Milano constitui uma fonte histórica de grande relevância para o estudo da imigração italiana no Brasil ao final do século XIX. Partindo do porto de Gênova em 30 de dezembro de 1897 e chegando ao Rio de Janeiro em 19 de janeiro de 1898, o navio transportou famílias e indivíduos provenientes de diferentes regiões da Itália, muitos deles impulsionados pela crise econômica, pelo desemprego rural e pela esperança de reconstruir a vida em terras brasileiras.
Documentos como essas listas permitem identificar nomes, origens, vínculos familiares e padrões migratórios, sendo valiosos tanto para pesquisadores quanto para descendentes que buscam compreender suas raízes e o contexto histórico da grande imigração italiana para o Brasil. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta






segunda-feira, 8 de abril de 2024

A Influência Italiana na Colonização de Santa Catarina




Cerca de 95% dos migrantes italianos que chegaram ao território catarinense originaram-se no norte da Itália, especificamente nas regiões hoje conhecidas como Vêneto, Lombardia, Friuli Veneza Júlia e Trentino Alto Ádige. Entretanto, os primeiros imigrantes italianos que desembarcaram no estado, em 1836, vieram da Sardenha e estabeleceram a colônia de Nova Itália, atualmente conhecida como São João Batista. Contudo, sua chegada foi modesta em número e teve pouco impacto demográfico. Foi somente a partir de 1875 que o fluxo de imigrantes italianos para o estado aumentou consideravelmente. As primeiras colônias italianas foram estabelecidas nesse período, tais como Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna, todas localizadas nas proximidades da colônia alemã de Blumenau, servindo como complemento a esse núcleo germânico. Em 1875, imigrantes do Tirol Italiano fundaram Nova Trento, seguido pela fundação de Porto Franco (atual Botuverá) em 1876. Os italianos que se estabeleceram nessas primeiras colônias eram principalmente oriundos da Lombardia e do Tirol Italiano, que naquela época pertencia à Áustria.
Nos anos subsequentes, várias outras colônias foram estabelecidas, com o sul de Santa Catarina se tornando o principal epicentro da colonização italiana no estado. Nessa região, foram fundadas colônias como Azambuja em 1877, Urussanga em 1878, Criciúma em 1880, Grão-Pará em 1882, Presidente Rocha (atual Treze de Maio) em 1887, além de Nova Veneza, Nova Belluno (hoje Siderópolis) e Nova Treviso (hoje Treviso) em 1891, e Acioli de Vasconcelos (atual Cocal do Sul) em 1892. Os imigrantes do sul do estado eram majoritariamente provenientes do Vêneto, com uma menor representação da Lombardia e de Friul-Veneza Júlia. Eles se dedicaram principalmente à agricultura e à mineração de carvão, desempenhando um papel crucial no desenvolvimento dessa região. As festas tradicionais, como a festa do vinho e o Ritorno alle origini em Urussanga, são eventos emblemáticos que caracterizam essa colonização no sul do estado.
O fluxo de imigrantes italianos para Santa Catarina cessou em 1895, quando um pequeno número de colonos chegou para estabelecer a comunidade de Rio Jordão, no sul do estado. Esse declínio se deveu em grande parte à guerra civil que eclodiu na Itália com a Revolução Federalista e ao término do contrato que subsidiava a imigração pelos estados.
A partir de 1910, milhares de gaúchos migraram para Santa Catarina, incluindo muitos descendentes de italianos. Esses colonos ítalo-brasileiros contribuíram significativamente para a colonização do Oeste catarinense. Atualmente, Santa Catarina abriga cerca de três milhões de italianos e seus descendentes, representando aproximadamente metade da população do estado. Muito da cultura italiana ainda é preservada nos antigos centros de colonização, especialmente na culinária e na língua.


domingo, 10 de dezembro de 2023

Tra Due Mondi: Un Viaggio Epico di Sopravvivenza in Brasile


 


Antonio Calzolar, un emiliano di 33 anni originario di Marzabotto (BO), intraprese un viaggio epico nel 1897 quando si imbarcò a Genova verso il Brasile con sua moglie Sofia Ferraro e i loro cinque figli. Accanto a Antonio, c'era suo fratello Lorenzo e la sua famiglia. Dopo un lungo viaggio di quasi due mesi, finalmente sbarcarono a Vitória, nel cuore dello stato brasiliano dell'Espírito Santo.

Da Vitória, presero il treno diretto a Cachoeiro de Itapemirim, una pittoresca cittadina a sud di Vitória. Dopo alcuni giorni trascorsi presso una Hospedaria de Imigrantes, furono assunti per lavorare nella Fazenda Arcobaleno, situata nel comune di Cachoeiro de Itapemirim. La vita lì non era facile; adulti e bambini si trovavano a lavorare duramente in cambio di modesti salari o piccole razioni di cibo, spesso costituite principalmente da farina di mais.

Insoddisfatti di questa dura realtà, i Calzolar presero una decisione coraggiosa: interruppero il loro contratto di lavoro e si trasferirono nel distretto di Castelo, sempre nell'Espírito Santo. Qui vissero per due anni, affrontando nuove sfide e costruendo il loro destino lontano dalle difficoltà della Fazenda Arcobaleno.

A partire dal 1901, la fortuna sorrise loro quando trovarono lavoro nella fazenda Guatambu. Questa fazenda, successivamente acquisita dal governo dell'Espírito Santo, si trasformò in una colonia di immigranti. Le due famiglie Calzolar, finalmente, videro realizzarsi il loro sogno di diventare proprietari di pezzi di terra, una conquista che avevano cercato per generazioni.

Con il passare degli anni, i figli di Antonio si sposarono con altri immigrati italiani o con i loro discendenti, creando legami duraturi che ancoravano la famiglia nelle terre brasiliane. I Calzolar si stabilirono in diverse città dello stato, tra cui Cachoeiro de Itapemirim, Castelo, Venda Nova do Imigrante, Alegre, Marechal Floriano, e persino nella capitale dell'Espírito Santo, Vitória.

La storia dei Calzolar è un racconto di perseveranza, coraggio e successo. Antonio e Sofia Calzolar, ormai ottantenni, si spensero a breve distanza l'uno dall'altro nel 1949, lasciando dietro di loro una discendenza radicata nelle terre che avevano contribuito a plasmare. La loro storia continua a risuonare attraverso le generazioni, un tributo vivente alla forza e alla resilienza di coloro che hanno forgiato un nuovo destino in terre lontane.




Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS





quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Mar Tempestuoso, Terra Prometida: A Épica Jornada dos Imigrantes Italianos ao Brasil





Era o final do século XIX, em 1878, quando os Caprari, uma família natural da Sicília, imigrantes italianos como milhões de outros de todas as partes do país, decidiu deixar sua pequena vila no sul da Itália e partir em busca de uma nova vida no Brasil. Eram camponeses e a situação econômica no campo estava cada vez pior com grande desemprego e a fome já rondando os lares. Eles estavam ansiosos para recomeçar a vida em uma nova terra, onde acreditavam que poderiam ter melhor sorte, uma vida digna e oportunidades para seus filhos. Iam em busca daquelas mesmas oportunidades que, por diversas razões, a Itália de então, não podia lhes oferecer: um trabalho digno do qual pudessem conseguir o pão de cada dia, uma vida melhor para eles e um futuro promissor para os filhos.
A viagem começou com um sentimento misto de empolgação misturado com tristeza pela despedida dos amigos e parentes. A família não tinha comprado as passagens de navio, pois não tinham condições financeiras, aproveitaram a oferta do governo brasileiro de viagem grátis até as terras onde começaria a nova vida. 
O navio partiria do porto de Nápoles em direção ao Rio de Janeiro e de lá com com outro navio menor até o porto de Santos. O navio era grande e parecia imponente, dando a impressão de que eles estavam embarcando em uma grande aventura.
A bordo, a família se acomodou como pôde em suas precárias camas beliche de três andares, dispostas em várias filas nos dois grandes salões no porão do navio. Com muita preocupação a família teve que se separar: homens e meninos maiores de oito anos em um dos salões e mulheres e meninas em outro. Em ambos alojamentos comunitários não havia banheiros suficientes para todos os passageiros e nos grandes salões, nas filas de beliches, sem qualquer privacidade, estavam colocados baldes de madeira com tampas para servirem de latrina. O ar ali dentro desses enormes alojamentos era quente, úmido e fétido devido a falta de ventilação adequada. 
Assim que puderam eles começaram a explorar o navio e se familiarizar com o que seria sua casa pelas próximas semanas.
A viagem seguia tranquila até que, aproximadamente o meio do trajeto, logo após ultrapassarem a linha imaginária do Equador, uma grande tempestade começou a se formar no horizonte. O vento aumentou, e as ondas ficaram cada vez mais altas e violentas. A tripulação começou a correr de um lado para o outro e a se preocupar, e os passageiros foram instruídos a se manterem nos alojamentos.
A família Caprari se apavorou, e o medo tomou conta de todos. Eles seguravam-se firmemente aos móveis e objetos, que estavam fixados no assoalho, para não serem jogados de um lado para o outro pela agitação do mar. O vento uivava e o navio balançava e sacudia, e o som das ondas batendo no casco era ensurdecedor.
A tempestade durou algumas horas, e a ninguém a bordo conseguia comer ou dormir devido o enjôo que o balanço tinha provocado. Eles ficavam juntos em seus alojamentos, rezando para que o navio não afundasse. Em momentos de calmaria, saíam rapidamente para tomar ar fresco no convés, mas logo eram obrigados a voltar para dentro com o vento e as ondas que se intensificavam novamente.
Finalmente, a tempestade passou, e o sol brilhou novamente. A tripulação informou que o navio havia sofrido alguns danos, mas nada que impedisse a continuação da viagem. A família Caprari se sentiu aliviada, mas também exausta e traumatizada com a experiência.
O restante da viagem transcorreu sem incidentes, mas eles nunca esqueceram os momentos de angústia vividos durante aquela tempestade. 
Ao chegar ao porto do Rio de Janeiro, foram recebidos por funcionários do porto e encaminhados para a o setor de imigração que os ajudou com os trâmites alfandegários e os encaminhou para um alojamento provisório na hospedaria. Lá, eles tiveram que dividir um grande quarto com outras famílias de imigrantes, mas estavam felizes por finalmente terem chegado ao seu destino. 
Chegando ao Rio de Janeiro, tiveram que se adaptar a um novo país, uma nova língua e uma nova cultura, mas sabiam que estavam prontos para enfrentar qualquer adversidade, já que haviam enfrentado a fúria do mar e sobrevivido.
Para eles tudo era muito diferente daquela pequena vila perdida no interior da Sicilia. Ficaram impressionados com as pessoas de cor escura, pois ainda não conheciam pessoas negras, que eram comuns na ilha onde desembarcaram.
Depois de 3 dias na Hospedaria de Imigrantes, chegou a hora de embarcarem novamente para a cidade de Santos onde seriam recebidos pelos funcionários da fazenda de café que os tinha contratado.
Todos eles tinham sido contratados para trabalhar no cultivo de café de uma grande fazenda do interior de São Paulo. O trabalho era pesado, mas eles estavam dispostos a dar o seu melhor para ganhar a vida. Com o tempo, até conseguiram economizar algum dinheiro e comprar um pequeno lote de terra, na periferia de uma pequena cidade vizinha da fazenda que tinham vivido nos últimos cinco anos e passaram a trabalhar em pequenas fábricas da região.
Passados mais alguns anos, com os filhos agora crescidos, os Caprari se estabeleceram na cidade, abrindo um pequeno negócio próprio junto com o filho mais velho. 
Eles nunca esqueceram da tempestade que enfrentaram durante a viagem ao Brasil, mas agradeciam por terem sobrevivido e por terem construído uma nova vida em um país que lhes deu tantas oportunidades.
A experiência de imigração da família Caprari foi compartilhada por muitas outras famílias que deixaram a Europa em busca de uma vida melhor nas Américas. A tempestade que enfrentaram em alto-mar é um exemplo das dificuldades e dos desafios que tiveram que superar para se estabelecer em uma nova terra.
Mas, como eles, muitos outros pobres imigrantes conseguiram construir uma nova vida e deixar um legado que é valorizado até hoje. 


Texto


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS




sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Desafios e Superações: A Vida dos Imigrantes Pioneiros nas Florestas do Rio Grande Do Sul

 

Rua central da colônia Caxias na década de 1890


Durante o século XIX, muitos italianos deixaram sua terra natal em busca de uma vida melhor no Brasil. Esses pioneiros imigrantes enfrentaram grandes desafios ao chegar no país e foram abandonados no meio da mata do Rio Grande do Sul, tendo que construir suas próprias casas e plantar suas próprias colheitas para sobreviver.
A vida dos imigrantes italianos nos primeiros anos no Brasil era extremamente difícil. Eles não tinham muita experiência de alguns cultivos que podiam se praticar no sul do Brasil e não estavam acostumados ao clima e ao solo do Rio Grande do Sul. Muitos tiveram que aprender a plantar, cultivar e colher sozinhos, sem a ajuda de especialistas. Muitas vezes aprenderam com  os negros, índios e caboclos que moravam na mata entorno da colônia. A terra tinha uma vegetação exuberante com grossas árvores que precisavam ser abatidas e queimadas para fazer lugar para as plantações, além de ter que lidar com animais peçonhentos desconhecidos, como as cobras, os insetos e outros animais selvagens.
Os imigrantes italianos produziam principalmente alimentos básicos, como trigo, feijão, milho e batatas, além de criar gado, suínos e outros animais para sustento próprio. Logo que puderam, depois de passados alguns anos da chegada, começaram também a produzir vinho, queijos e outros produtos derivados do leite. A produção era em pequena escala, principalmente para consumo próprio, e pouca parte era destinada para venda, mas nem sempre os mercados consumidores estavam próximos.
A falta de médicos era um grande problema nos primeiros anos daqueles imigrantes no Brasil. A maioria das doenças eram tratadas com remédios caseiros, feitos com plantas e ervas encontradas na região. Alguns dos remédios caseiros incluíam chás de ervas para dor de cabeça, febre e problemas digestivos. Além disso, a prática de cuidar de si mesmo e da família era muito comum, muitas vezes passando de geração em geração. Alguns imigrantes já traziam de casa na Itália o dom de curar doenças, fraturas e fazer partos. Eram os chamados curandeiros, os arrumadores de ossos, denominados  giustaossi na língua italiana e as parteiras, conhecidas como comare.
A religião era uma parte muito importante da vida dos imigrantes italianos e, embora não houvesse padres nos primeiros anos, eles mantiveram sua fé. Realizavam parte de ofícios religiosos  em casa, rezavam o rosário e a leitura da Bíblia e a oração eram práticas diárias. Quando os padres chegaram, eles se estabeleceram em pequenas igrejas construídas pelos próprios imigrantes, e a religião católica tornou-se uma parte importante da vida da comunidade.
A vida dos imigrantes italianos não era fácil, mas eles perseveraram e se adaptaram à sua nova vida no Brasil. Com o tempo, começaram a prosperar, construíram novas casas e ampliaram suas plantações e criações. Hoje, a cultura italiana contínua sendo muito importante no Rio Grande do Sul, e os descendentes desses imigrantes italianos ainda mantêm as tradições e costumes de seus antepassados.
Com o passar do tempo, os imigrantes italianos começaram a construir pequenas comunidades em volta de suas plantações e criações. Essas comunidades eram compostas principalmente por outros imigrantes italianos e suas famílias, mas também havia outros europeus e brasileiros que se juntaram a eles.
À medida que a comunidade crescia, os imigrantes italianos começaram a estabelecer escolas, igrejas e outros serviços públicos. As escolas eram muito importantes para eles, que valorizavam muito a educação. Muitas vezes, eles próprios se tornavam professores, ensinando a seus filhos e outros membros da comunidade.
A igreja também era uma parte importante da vida dos imigrantes italianos. Eles construíram pequenas igrejas de madeira ou pedra, decoradas com imagens religiosas e objetos sagrados. A missa era celebrada regularmente e os imigrantes italianos frequentavam a igreja em grande número, cantando hinos e participando de outras cerimônias religiosas.
Embora a religião católica tenha sido a principal religião dos imigrantes italianos, mais tarde havia também aqueles que pertenciam a outras religiões, como o protestantismo. Eles se reuniam em pequenos grupos para orar e estudar a Bíblia, muitas vezes construindo suas próprias igrejas.
A vida dos imigrantes italianos no Brasil também era influenciada pela política. Muitos dos imigrantes italianos eram socialistas e lutavam por melhores condições de trabalho e vida. Eles organizaram sindicatos e greves, exigindo melhores salários e direitos trabalhistas. Muitos imigrantes italianos também se envolveram na política local, apoiando candidatos que prometiam melhorias para a comunidade.
A culinária italiana também se tornou uma parte importante da cultura do Rio Grande do Sul. Os imigrantes italianos trouxeram consigo suas próprias receitas e práticas culinárias, que foram adaptadas com os ingredientes locais. Pratos como massa, pizza, polenta, risoto e outros pratos italianos se tornaram populares entre a população local, e muitos restaurantes e pizzarias foram abertos para atender à demanda.
Hoje, a cultura italiana continua a ser uma parte importante da cultura gaúcha, e muitas cidades têm festivais italianos anuais. Os descendentes dos primeiros imigrantes ainda mantêm as tradições e costumes de seus antepassados, incluindo a religião, a culinária e a língua italiana.
Em resumo, a vida dos pioneiros imigrantes italianos no Brasil foi marcada por grandes desafios e dificuldades, incluindo a falta de conhecimento na agricultura praticada no sul do país, a falta de médicos e a falta de padres nos primeiros anos. No entanto, esses imigrantes perseveraram e se adaptaram à sua nova vida no Brasil, construindo comunidades, escolas e igrejas. A cultura italiana se tornou uma parte importante da cultura do Rio Grande do Sul e os descendentes dos imigrantes italianos ainda mantêm as tradições e costumes de seus antepassados.