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quinta-feira, 4 de junho de 2026

As Colinas e o Oceano


 As Colinas e o Oceano

Da dureza das Langhe ao destino incerto na América: a travessia de Giacomo Rossino


Nas colinas ásperas de Marmora, província de Cuneo, nas Langhe, Giacomo Rossino nasceu em 1891. Filho de camponeses, cresceu com a poeira do feno colada à pele e o cheiro de ovelhas entranhado nas mãos. O mundo dele era um tabuleiro estreito: de um lado, as encostas pedregosas onde o rebanho pastava; do outro, a planície distante, onde a colheita de trigo convocava homens e meninos num esforço que parecia não ter fim.

Ainda jovem, acompanhava o pai para a planície quando o trabalho chamava. Levava consigo um barril pequeno de água misturada com vinagre para matar a sede da equipe, e recebia, como pagamento, dez soldi por dia — um dinheiro que mal servia para manter as botas remendadas. Nas épocas em que não havia trigo, migravam pelas planícies, de uma cascina a outra, como um pequeno exército sem pátria, fazendo o trabalho pesado de bottari. Levavam nos bolsos quatro fatias frias de polenta e dormiam no feno, sempre com a sensação de viver uma guerra silenciosa, travada contra a fome e o cansaço.

A França foi apenas uma ilusão breve, como um clarão que se apaga antes de aquecer. Algumas semanas bastaram para mostrar-lhe a verdade que o vento e as estradas não escondiam: as fronteiras não mudavam o destino dos pobres. Nas manhãs úmidas, o cheiro acre da lenha recém-cortada impregnava as roupas, enquanto a lâmina do machado respondia com um som seco, ritmado, como se marcasse o compasso de uma vida que não avançava. Nos portos e armazéns, os sacos empilhados eram tão pesados quanto os carregados em sua terra natal; apenas o murmúrio das vozes mudava, tingido de um francês áspero, como se até o idioma carregasse o peso da labuta. Ali, sob um céu estrangeiro, percebeu que não importava o país nem a língua: a pobreza tinha o mesmo rosto em todos os lugares — e era um rosto que ele já conhecia. A esperança, no entanto, cruzava o oceano. Três de seus irmãos haviam partido anos antes para os Estados Unidos, trabalhando em serrarias que engoliam homens e árvores na mesma voracidade. Foram eles que enviaram o dinheiro da passagem. Assim, em 1907, Giacomo decidiu deixar Marmora. Não partiu sozinho: vinte e dois conterrâneos, homens e mulheres, embarcaram na mesma aventura.

A despedida foi seca, quase sem palavras. O silêncio não era vazio, mas carregado de tudo o que não se tinha coragem de dizer. Alguns olhares se prolongaram mais do que deveriam, como se quisessem gravar na memória o rosto do outro antes que o mar apagasse qualquer vestígio de certeza. Antes de subir a bordo, receberam as vacinas obrigatórias — agulhas rápidas, frias, aplicadas por mãos acostumadas a cumprir ordens. Logo depois, uma refeição pobre: um po’ baioca, comida de segunda, servida como ração a soldados cansados. Era pouca coisa, mas era o último alimento em terra firme.

No navio, o balanço constante misturava a fome ao enjoo. O casco rangia como se cada onda fosse um teste de resistência, e o ar úmido parecia sempre carregado de sal e ferrugem. A comida era trazida em marmitas até as beliches; a sopa derramando no metal frio, formando poças oleosas que escorriam pelo chão inclinado. O cheiro ácido se espalhava, penetrando roupas, cabelos e até o sono inquieto das noites em alto-mar. Ainda assim, comiam. Não por apetite, mas por instinto — sustentados apenas pela teimosia de quem sabia que, para sobreviver àquela travessia, era preciso resistir a cada colherada.

No porão onde Giacomo ficou, havia mil e duzentas pessoas. O ar era pesado, saturado de umidade e cheiro humano. As mulheres, separadas. Toscani, veneti, lombardi, meridionali — todos unidos pela mesma pobreza, comprimidos lado a lado, partilhando o mesmo calor e a mesma resignação. Cada respiração parecia roubar o pouco oxigênio disponível.

Dois dias ficaram à deriva em mar aberto, presos sob a fúria das ondas que varriam o convés. O escuro do porão se enchia de ruídos: a madeira estalando, a água batendo contra o casco, o som metálico de objetos soltos rolando a cada balanço. Cada rajada fazia tremer a estrutura do navio como se fosse de vidro, e cada tremor se refletia nos olhares tensos, nos dedos agarrados às travessas das beliches.

O capitão, severo, entrou nos alojamentos e advertiu: se a trombeta soasse, seria cada um por si. As palavras caíram como um golpe, deixando atrás de si um silêncio ainda mais opressivo.

A tempestade passou. E, ao amanhecer, viram Nova York. A luz fria da manhã filtrava-se pelas frestas, desenhando linhas pálidas sobre rostos marcados pelo cansaço. O cheiro do porto, com sua mistura de carvão, maresia e fumaça, chegou antes mesmo de a cidade se revelar inteira — um aviso de que, depois de tanto mar, havia terra firme à frente.

Lá, Giacomo encontrou mais de cem homens de Marmora empregados na mesma companhia. Trabalhou na serraria, dez horas por dia, por sete liras e meia. As serras cortavam as árvores com um rugido constante, e os troncos caíam como soldados abatidos. Os italianos eram valorizados por sua resistência: descarregavam vagões, transportavam toras, cortavam tábuas. Os gregos, em grupos separados, faziam outros serviços.

Moravam em barracões de madeira. O cheiro de resina e madeira crua se misturava ao de fumaça das cozinhas improvisadas. A vida era dura, mas não silenciosa: havia bailes improvisados, onde acordeões e violinos arrancavam melodias que, por algumas horas, faziam esquecer a terra dura e o trabalho pesado. Partidas de cartas reuniam grupos em torno de mesas rústicas, iluminadas por lamparinas, enquanto risadas e provocações enchiam o ar. Jogos de bocha ocupavam os pátios batidos de terra, sob o sol, e campeonatos de futebol transformavam clareiras em arenas barulhentas, com gritos, apostas e rivalidades que iam além do jogo. O suor se misturava à alegria momentânea que a música e o esporte podiam dar — um respiro breve antes que o peso dos dias voltasse a cair sobre todos.

Quatro anos se passaram. A América o tratara com dureza, mas sem desprezo. Foram anos de trabalho pesado, de dias longos e noites curtas, de calos que jamais desapareceriam das mãos. Giacomo voltou à Itália, chamado pela solidão da mãe, um chamado silencioso, mas impossível de ignorar. Ao desembarcar, reencontrou o cheiro da terra natal, misturado à sensação de que já não pertencia inteiramente àquele lugar.

Seus irmãos permaneceram nos Estados Unidos, espalhados pelas fábricas e cidades que haviam aprendido a chamar de casa. Também os amigos de Marmora decidiram ficar, vinte e um homens que se dispersaram pelo país estrangeiro como folhas levadas pelo vento. Nunca mais recebeu notícias deles. Os rostos, antes tão próximos, foram ficando distantes na memória, dissolvendo-se como fotografias esquecidas ao sol.

De volta à terra natal, Giacomo carregava duas heranças: a primeira era o corpo endurecido pelo trabalho além-mar; mãos calejadas, ombros firmes e uma fadiga que não se apagava nem com o sono mais profundo. A segunda, um silêncio povoado por rostos que ficaram para trás — amigos, irmãos de jornada, vozes que ecoavam em sua memória como sombras indistintas, presenças invisíveis que o acompanhavam a cada passo.

A vida seguiu, mas com a lembrança constante do navio que partira de Gênova, aquele gigante de ferro que cortara o mar rumo a um destino incerto, e do rugido das serrarias americanas, onde o som das máquinas se misturava ao esforço humano em uma sinfonia de sobrevivência. Tudo isso estava misturado para sempre ao vento das Langhe, que soprava pelas colinas como um sussurro implacável, lembrando-lhe que, embora estivesse em casa, parte de sua alma jamais deixaria o oceano.

Nota do Autor

Escrever a história de Giacomo Rossino não é apenas resgatar o percurso de um homem que atravessou o oceano. É, sobretudo, tocar a cicatriz aberta de uma geração que deixou as encostas áridas das Langhe para enfrentar o desconhecido.

Cada linha desta narrativa nasce do silêncio que ele carregou ao voltar, um silêncio feito de ausências — dos irmãos que nunca mais escreveu, dos amigos de Marmora que ficaram na América e dos anos passados sob o rugido metálico das serrarias. Na travessia de Giacomo está gravada a epopeia de milhares: a mesma partida em Gênova, a mesma ração pobre distribuída no navio, a mesma tormenta que fez tremer a coragem.

Não há heróis nem vilões nesta história. Há apenas a persistência silenciosa de um homem que suportou fome, mar, trabalho e saudade para, ao fim, retornar às colinas que nunca deixaram seu coração.

Registrar a vida de Giacomo Rossino é preservar um fio da imensa tapeçaria da Grande Emigração Italiana. É garantir que, ao se falar de Marmora, das Langhe, de Gênova ou de Nova York, ainda se possa ouvir o eco das botas gastas, o balanço do mar e o som distante das serras, lembrando que a história da América foi também escrita com o suor de homens como ele.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Contracapa do livro

"Entre as colinas áridas das Langhe e o ruído implacável das serrarias americanas, Giacomo Rossino carregou no corpo a dureza do trabalho e na alma o peso do silêncio. Sua história é a de milhares que partiram, levando nos bolsos apenas polenta fria e esperança. Esta é a memória de um homem que cruzou o oceano para descobrir que o verdadeiro destino, às vezes, espera no regresso."