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terça-feira, 14 de julho de 2026

A Promessa Rasgada do Horizonte – Sonhos e Desilusões da Imigração Italiana no Brasil

 


A Promessa Rasgada do Horizonte – Sonhos e Desilusões da Imigração Italiana no Brasil

São Carlos do Pinhal, Província de São Paulo – 1888


Quando Ernesto Albarolli deixou a pequena localidade de Pren, no município de Feltre, no Vêneto, o céu estava scuro e o pequeno sino da igreja de San Biagio repicava lentamente, como se chorasse por cada alma que abandonava as montanhas em busca de um mundo que ainda não existia. As badaladas ecoavam no vale úmido, deslizando pelas encostas cobertas de pinheiros e pelas trilhas de pedra onde os passos dos antigos ainda pareciam murmurar. Era o dia 5 de julho de 1888. A madrugada havia trazido névoa sobre os telhados de ardósia, cobrindo o vilarejo com um véu espesso de despedida. As janelas estavam fechadas, mas olhos escondidos espiavam pelas frestas — alguns com inveja, outros com temor, e muitos com o pesar de quem compreendia o peso de partir.

Com ele iam a esposa Benedetta, o filho Paolo de nove anos e uma mala de couro, já bastante consumida pelo tempo, com pão seco, queijo duro e esperanças frágeis, envoltas em silêncio e suor. A mulher carregava junto ao peito uma pequena imagem de Santa Corona, enrolada num lenço de linho herdado da mãe. Paolo, calado e tenso, arrastava os pés por sobre a trilha de terra batida, tentando esconder o choro por trás da gola do casaco. A mala, com suas costuras puídas e alça trincada, parecia conter mais do que apenas mantimentos: levava, invisíveis, as cicatrizes de gerações inteiras, o último cheiro do lar, e a dor muda dos que sabiam que, ao cruzar as últimas curvas da montanha, jamais voltariam como haviam partido.

A travessia no porão do vapor Città de Torino até o porto de Santos, durou quarenta e dois dias. Quarenta e duas noites em que o tempo se dissolvia na escuridão oleosa, onde o ar parecia mais espesso a cada respiro e a umidade impregnava a pele como um manto viscoso. As paredes de ferro do navio suavam com o calor dos corpos comprimidos, e o silêncio nunca era completo: os gritos das crianças famintas misturavam-se ao ranger lúgubre do casco, um lamento metálico que parecia vir das entranhas do próprio navio. Era um som que atormentava até mesmo os sonhos, quando o cansaço finalmente vencia a vigília.

Ali, no fundo do navio, onde não entrava o sol e o ar rareava, os dias não se contavam mais com esperança, mas com resistência. Cada manhã trazia o cheiro mais forte da febre, da sujeira, da desesperança. Os baldes transbordavam, os corpos tremiam, e as preces tornavam-se sussurros quase envergonhados, como se até Deus estivesse longe demais daquela embarcação saturada de medo.

Alguns passageiros desapareceram antes de chegar ao porto de Santos — um desaparecimento que ninguém ousava nomear, mas que todos compreendiam. À noite, um espaço vazio onde antes havia um corpo era mais eloquente que qualquer lamento. Nenhuma explicação era necessária, porque havia, entre os emigrantes, uma sabedoria antiga: não se perguntam os nomes dos que o mar leva. Eram tragados no silêncio ritual dos que sabiam que olhar para trás podia ser mais perigoso do que seguir em frente. E assim, os olhos se voltavam para o nada, e os corações, endurecidos pela sobrevivência, aprendiam a não chorar.

Mesmo entre os que se mantinham vivos, havia marcas que jamais cicatrizariam. Crianças que pararam de falar, mães que deixaram de cantar, velhos que já não contavam histórias. A travessia era uma fronteira — não apenas de continentes, mas de tudo o que fora antes e tudo o que viria depois. Ao emergirem do porão, com as roupas coladas aos corpos, os olhos semicerrados diante da luz tropical e os pulmões ofegantes como se respirassem pela primeira vez, já não eram os mesmos. Tinham deixado parte de si no fundo daquele casco — talvez a parte que ainda acreditava no mundo como ele era antes do mar.

Na chegada, Ernesto não viu a terra prometida, mas um labirinto de barracões e gritos em línguas que soavam como trovões. O ar era denso, pesado com o odor de carvão, suor e água salobra, e cada passo que dava sobre as tábuas úmidas do cais parecia levá-lo para mais longe da esperança e mais perto de uma desordem brutal. Os olhos buscavam instintivamente um sinal de ordem, de direção, mas tudo o que encontravam era confusão: malas espalhadas, crianças chorando, mulheres procurando rostos familiares, homens acotovelando-se para não perder a vez em filas que não levavam a lugar algum.

Ali, no porto, havia homens bem vestidos que ofereciam ajuda com sorrisos apressados — sorrisos que não alcançavam os olhos. Moviam-se com eficiência e urgência, falando em português apressado e misturado com palavras em italiano deformado, como quem sabia exatamente onde mirar suas presas. Traziam papéis, acenos e promessas que pareciam generosas demais para aquele cenário. Muitos dos seus companheiros confiaram. E perderam tudo.

Um velho friulano, que trazia em moedas os restos de uma herança, cuidadosamente costuradas num lenço e escondidas sob a camisa, foi despojado em minutos por um “intermediário” que parecia saber exatamente o que procurava. Tinha se aproximado com voz amistosa, oferecendo-se para ajudá-lo a trocar as moedas por notas, “mais seguras, meno ingombranti”, como dissera. O velho hesitou por um instante — e foi o bastante. Enquanto distraía o emigrante com palavras doces, outro homem surgira por trás e, num movimento quase invisível, desapareceu com o lenço. Quando se deu conta, o friulano gritava, mas a multidão já havia engolido os dois vigaristas como a espuma do mar engole um grão de areia.

Desde então, Ernesto amarrou o dinheiro à perna, sob a meia, e passou a dormir com a mão na faca de cozinha que tinha trazido. Não era grande, nem afiada como uma arma, mas era o bastante para marcar uma escolha: dali em diante, não mais confiaria em sorrisos fáceis nem em palavras bondosas. A ingenuidade que atravessara o oceano com ele fora enterrada ali mesmo, entre o cheiro de peixe podre e o estampido dos carregadores descarregando os navios. O novo mundo começava não com um pedaço de terra ou uma casa, mas com a decisão silenciosa de resistir.

O trem que os levou até São Carlos do Pinhal cortava um Brasil vermelho de terra e verde de mato. As rodas de ferro cantavam nos trilhos com um ritmo monótono, hipnótico, como um tambor surdo que marcava a travessia final. Pelas janelas abertas, a paisagem escorria como um filme mudo: plantações rarefeitas, pastos secos, rebanhos dispersos e, sobretudo, uma vastidão que parecia não terminar nunca. O sol, impiedoso, cravava-se nas costas dos passageiros mesmo sob a cobertura de madeira do vagão. A poeira da estrada de ferro entrava por todas as frestas e colava-se à pele suada, tingindo os rostos de ocre, os cabelos de cobre.

Ao redor das linhas, nada lembrava as promessas dos prospectos que lhe haviam lido na sacristia de Feltre: “Terra fértil, trabalho garantido, clima benigno”. Palavras solenes, lidas com reverência, como se fossem versículos sagrados, haviam criado nas mentes dos camponeses uma imagem quase bíblica da nova terra. Mas o que se descortinava agora pelas janelas do trem era outro evangelho — mais duro, mais sujo, mais real.

O que encontrou foi um calor grosso como o fumo das fornalhas e mosquitos que não respeitavam o sono. As noites, em vez de alívio, traziam apenas uma escuridão abafada e o zumbido insistente dos insetos, que atacavam como exércitos invisíveis. Ernesto sentia o corpo latejar, os tornozelos inchados, o estômago embrulhado de fome e desconfiança. Em sua mente, começava a se formar a amarga compreensão de que o paraíso prometido não seria encontrado — teria que ser construído, metro a metro, com enxada, suor e silêncio.

No trem, os rostos ao seu redor refletiam o mesmo assombro crescente. Ninguém falava. Havia algo de reverente e aterrador naquele silêncio coletivo: como se todos soubessem que não era mais possível voltar atrás, mas ainda não tivessem coragem de encarar plenamente o que estava por vir. E o Brasil, esse Brasil que aparecera tão sereno nos mapas do padre, se revelava agora como uma fera adormecida, cheia de promessas e dentes.

Designado à lavoura de um imigrante de origem portuguesa, de há muito já estabelecido na região, Ernesto entrou no sistema de “meia”. Metade do que colhia era do patrão. A outra metade mal cobria o custo das ferramentas, do milho e do sabão. Era uma matemática cruel e silenciosa, que jamais fechava a favor do colono. Todos os dias começavam antes do sol e terminavam quando a luz já tinha desaparecido da terra, mas ainda ardia no corpo. Cada semente plantada parecia pesar o dobro, como se o próprio chão resistisse ao esforço de um estrangeiro.

No primeiro mês, cortou cana até abrir feridas que não cicatrizavam. As lâminas rombudas das foices, cedidas pelo patrão com ares de generosidade, mastigavam a pele junto com o talo. As luvas improvisadas com panos velhos não impediam os cortes, e o suor fazia o sal arder dentro das feridas. A dor era constante, mas Ernesto aprendia a ignorá-la como se ignorasse também a fome, o medo e a saudade — todas essas coisas que não podiam ser mostradas sob pena de desabar.

E enquanto ele sangrava nos canaviais, Benedetta cozinhava para outros homens, numa casa que não era dela, sob ordens que vinham em português rápido e ríspido. O cheiro da comida alheia, o cansaço nos olhos, o nó na garganta de quem sabe que não tem escolha. E Paolo, pequeno demais para qualquer tarefa, já carregava água num tonel maior que o próprio corpo. Sujava-se de barro até os joelhos, tropeçava, caía, recomeçava, com os dentes cerrados como os adultos, sem o choro que antes vinha fácil. A infância dele estava sendo consumida antes mesmo de saber o que era.

A liberdade do Brasil era medida em calos, e a esperança virava fumo cada vez que chovia sobre a roça mal plantada. A terra, recém-aberta, ainda engolia sementes como se não quisesse produzir nada além de decepções. O barro escorria entre as fileiras de milho ralo, levando embora dias de trabalho, junto com os sonhos que ainda resistiam nas entrelinhas dos serões. E quando a noite caía e os grilos começavam seu canto, Ernesto olhava para o teto de palha e se perguntava se aquele era o preço que todos tinham que pagar para existir numa terra que nunca lhes fora prometida de verdade — apenas vendida em palavras.

Mas havia dignidade no trabalho. Uma dignidade silenciosa, tecida nos gestos repetidos de quem planta sem certeza, colhe sem garantias, mas insiste mesmo assim. Havia algo de profundamente humano na persistência, como se o simples ato de continuar já fosse, por si só, uma forma de vitória. Cada enxadada que não se rendia à dor, cada refeição dividida mesmo quando era pouca, cada criança que acordava viva na manhã seguinte — tudo isso era sinal de que, apesar de tudo, ainda estavam de pé.

Havia música ao fim do dia, quando os imigrantes se reuniam sob a figueira para dividir o pão, o vinho azedo e os silêncios. A figueira, retorcida pelo tempo, era como eles: velha antes da hora, mas de raízes firmes. Sob sua sombra, a fadiga do corpo dava lugar a uma trégua breve, onde até a saudade parecia respirar mais devagar. As concertinas desafinadas se misturavam às vozes roucas de homens e mulheres, cantando versos que atravessaram o oceano. Não cantavam para esquecer, mas para lembrar — e isso fazia toda a diferença.

E havia também ternura em ver Paolo aprender palavras em português, rindo com outros meninos, como se a infância fosse possível mesmo naquele solo duro. Seu riso era leve, quase incongruente diante das cicatrizes ao redor, mas era verdadeiro. Era como uma rachadura de luz numa parede de pedra. Corria descalço, com o joelho sempre esfolado, e os olhos vivos como brasas recém-acesas. Quando falava uma palavra nova — “passarinho”, “abacate”, “vento” —, parecia conquistar território em nome de uma nova pátria que nascia dentro dele, diferente daquela dos mapas e dos papéis carimbados.

Naquele canto de terra sofrida, entre formigas e rachaduras, ainda havia sementes que não eram visíveis à primeira vista. E uma delas era essa: o menino que sorria, o pão que se partia, o silêncio que unia. Era pouco. Mas era o bastante para que ninguém desistisse.

Ernesto escrevia cartas para a velha Itália. Advertia os que sonhavam com a América: "Vardè ben, ´ntei porti ghe ze i birbanti che i ve siapa tuto el danaro. Qua se magna, ma se pol anca morir de fatiga...".

Seis anos depois, comprou em uma cidade vizinha um pedaço de chão com parte do que conseguiu fazendo trabalhos extras nas horas de folga. Eram tarefas que poucos queriam: carregar sacas de café até a madrugada, consertar cercas em troca de um prato de comida, ajudar nos batentes das construções alheias sob o sol inclemente. Cada moeda juntada vinha com o custo de uma noite mal dormida ou um corte nas mãos, mas ele aceitava tudo sem reclamar. Não era ambição — era sobrevivência com propósito. E quando enfim recebeu o papel com seu nome no registro, sentiu que pela primeira vez pisava em terra firme — terra sua.

Fez uma casa com as próprias mãos, um quadrado de barro com janelas de caixilhos tortos, mas era dele. Misturou a argila com palha e suor, ergueu as paredes como quem reza um salmo, e cobriu o teto com toras irregulares que encontrara no mato. A construção era modesta, desajeitada até, mas cada canto contava uma história de esforço e permanência. Não havia luxo — apenas a solidez teimosa de quem escolheu ficar. Ao final da primeira noite dormida ali, sob aquele teto improvisado, sentiu uma paz que não se media em metros ou em alqueires, mas na ausência do medo de ser mandado embora.

E quando, numa tarde de setembro, plantou a primeira muda de uva, lembrou da colina de sua infância, onde o pai o ensinara a podar videiras. A lembrança veio nítida, como se o tempo não tivesse passado — o cheiro da terra úmida dos Dolomitas, o som leve da tesoura cortando os galhos, e a voz grave do pai dizendo que cada corte correto era uma promessa de fruto no ano seguinte. Aquelas lições, dadas entre vinhedos pendurados em encostas inclinadas, haviam ficado adormecidas, mas não esquecidas. Agora, ali, a milhares de léguas de casa, ele as fazia renascer com as próprias mãos.


A muda era pequena, frágil, e o solo ainda era ingrato, mas quando a enterrou com cuidado no sulco aberto, sentiu que, pela primeira vez, a memória e o futuro haviam se tocado. Não era apenas uma planta — era um elo. Um fio invisível que ligava a terra vermelha do Brasil à herança silenciosa que viajara com ele desde a sacristia de Feltre. E ali, naquele gesto simples, havia mais fé do que em qualquer missa.

O Brasil não era o que prometiam, mas era onde ele estava. Já não esperava milagres nem recompensas fáceis. A terra que encontrara não se dobrava a panfletos nem cedia ao romantismo das promessas lidas em voz alta por padres bem-intencionados. Era uma terra que sangrava sob o sol, que exigia mais do que entregava, que punia a pressa e testava a fé com tempestades repentinas, saúvas vorazes e silêncio implacável. Mas era ali, e não em outro lugar, que a vida havia decidido acontecer.

E naquela terra que sangrava sob o sol, Ernesto aprendeu que o futuro não se recebe: planta-se. Não chega pronto, não é dado — constrói-se com as próprias mãos, com o peso dos dias e a renúncia das noites. Planta-se com medo, com dor, com fé — como quem lança uma semente à terra incerta e torce para que o tempo seja piedoso. Porque, no fim, plantar é um ato de esperança em forma de gesto. É insistir quando tudo diz para recuar. É acreditar que algo brotará, mesmo sem garantias, mesmo sem testemunhas.

E foi assim que ele ficou. Não porque a terra fosse fácil, mas porque aprendeu que a permanência é uma forma de coragem. Com cada fileira de parreira, cada parede erguida, cada palavra nova que o filho falava sem sotaque, Ernesto escrevia sua história — não como sonhara, mas como fora possível. E talvez fosse isso, no fim das contas, o verdadeiro sentido da liberdade: não encontrar um paraíso pronto, mas construir um pedaço de mundo onde antes só havia promessa.

Nota do Autor

Esta história foi escrita para vocês — netos, bisnetos e tataranetos daqueles que atravessaram o oceano com mais coragem do que posses, mais sonhos do que garantias, e que fincaram raízes em uma terra que lhes era, ao mesmo tempo, promessa e provação.

Ao escrever A Promessa Rasgada do Horizonte, quis dar voz ao silêncio dos que partiram. Homens e mulheres que deixaram vilas pequenas, sinos de igreja e vales cobertos de névoa para enfrentar um mar que não sabiam nomear, um destino que não podiam prever. Eles carregavam consigo a língua, as canções, o cheiro do pão e, acima de tudo, uma obstinação que não se dobra.

Ernesto Albarolli poderia ter sido qualquer um dos nossos antepassados. Sua história é a síntese de milhares de vidas anônimas que, em São Carlos do Pinhal e em tantas outras colônias, ergueram casas com as próprias mãos, lavraram terras estranhas e construíram um futuro que não veriam por inteiro. Eles sabiam que não plantavam apenas para si, mas para aqueles que ainda viriam.

A vocês, descendentes, deixo esta narrativa como um espelho. Não um espelho que devolve rostos nítidos, mas que reflete a essência: a persistência, a dignidade silenciosa, a capacidade de fazer brotar vida onde antes havia apenas promessa. É um convite para que olhem para trás com gratidão e para frente com a mesma coragem.

Escrevi esta história para que não se perca a consciência de que o chão sobre o qual caminhamos foi regado por lágrimas e suor. Para que, ao ouvirem um sobrenome italiano, ao provarem um vinho rústico ou ao ouvirem o tilintar distante de um sino, possam lembrar que tudo isso é mais que costume — é herança, é sangue, é caminho.

Que A Promessa Rasgada do Horizonte seja não apenas leitura, mas reencontro. Porque, no fundo, cada um de nós ainda carrega um pouco daquele embarque, um pouco daquela chegada, e muito daquela escolha silenciosa de permanecer.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 4 de junho de 2026

As Colinas e o Oceano


 As Colinas e o Oceano

Da dureza das Langhe ao destino incerto na América: a travessia de Giacomo Rossino


Nas colinas ásperas de Marmora, província de Cuneo, nas Langhe, Giacomo Rossino nasceu em 1891. Filho de camponeses, cresceu com a poeira do feno colada à pele e o cheiro de ovelhas entranhado nas mãos. O mundo dele era um tabuleiro estreito: de um lado, as encostas pedregosas onde o rebanho pastava; do outro, a planície distante, onde a colheita de trigo convocava homens e meninos num esforço que parecia não ter fim.

Ainda jovem, acompanhava o pai para a planície quando o trabalho chamava. Levava consigo um barril pequeno de água misturada com vinagre para matar a sede da equipe, e recebia, como pagamento, dez soldi por dia — um dinheiro que mal servia para manter as botas remendadas. Nas épocas em que não havia trigo, migravam pelas planícies, de uma cascina a outra, como um pequeno exército sem pátria, fazendo o trabalho pesado de bottari. Levavam nos bolsos quatro fatias frias de polenta e dormiam no feno, sempre com a sensação de viver uma guerra silenciosa, travada contra a fome e o cansaço.

A França foi apenas uma ilusão breve, como um clarão que se apaga antes de aquecer. Algumas semanas bastaram para mostrar-lhe a verdade que o vento e as estradas não escondiam: as fronteiras não mudavam o destino dos pobres. Nas manhãs úmidas, o cheiro acre da lenha recém-cortada impregnava as roupas, enquanto a lâmina do machado respondia com um som seco, ritmado, como se marcasse o compasso de uma vida que não avançava. Nos portos e armazéns, os sacos empilhados eram tão pesados quanto os carregados em sua terra natal; apenas o murmúrio das vozes mudava, tingido de um francês áspero, como se até o idioma carregasse o peso da labuta. Ali, sob um céu estrangeiro, percebeu que não importava o país nem a língua: a pobreza tinha o mesmo rosto em todos os lugares — e era um rosto que ele já conhecia. A esperança, no entanto, cruzava o oceano. Três de seus irmãos haviam partido anos antes para os Estados Unidos, trabalhando em serrarias que engoliam homens e árvores na mesma voracidade. Foram eles que enviaram o dinheiro da passagem. Assim, em 1907, Giacomo decidiu deixar Marmora. Não partiu sozinho: vinte e dois conterrâneos, homens e mulheres, embarcaram na mesma aventura.

A despedida foi seca, quase sem palavras. O silêncio não era vazio, mas carregado de tudo o que não se tinha coragem de dizer. Alguns olhares se prolongaram mais do que deveriam, como se quisessem gravar na memória o rosto do outro antes que o mar apagasse qualquer vestígio de certeza. Antes de subir a bordo, receberam as vacinas obrigatórias — agulhas rápidas, frias, aplicadas por mãos acostumadas a cumprir ordens. Logo depois, uma refeição pobre: um po’ baioca, comida de segunda, servida como ração a soldados cansados. Era pouca coisa, mas era o último alimento em terra firme.

No navio, o balanço constante misturava a fome ao enjoo. O casco rangia como se cada onda fosse um teste de resistência, e o ar úmido parecia sempre carregado de sal e ferrugem. A comida era trazida em marmitas até as beliches; a sopa derramando no metal frio, formando poças oleosas que escorriam pelo chão inclinado. O cheiro ácido se espalhava, penetrando roupas, cabelos e até o sono inquieto das noites em alto-mar. Ainda assim, comiam. Não por apetite, mas por instinto — sustentados apenas pela teimosia de quem sabia que, para sobreviver àquela travessia, era preciso resistir a cada colherada.

No porão onde Giacomo ficou, havia mil e duzentas pessoas. O ar era pesado, saturado de umidade e cheiro humano. As mulheres, separadas. Toscani, veneti, lombardi, meridionali — todos unidos pela mesma pobreza, comprimidos lado a lado, partilhando o mesmo calor e a mesma resignação. Cada respiração parecia roubar o pouco oxigênio disponível.

Dois dias ficaram à deriva em mar aberto, presos sob a fúria das ondas que varriam o convés. O escuro do porão se enchia de ruídos: a madeira estalando, a água batendo contra o casco, o som metálico de objetos soltos rolando a cada balanço. Cada rajada fazia tremer a estrutura do navio como se fosse de vidro, e cada tremor se refletia nos olhares tensos, nos dedos agarrados às travessas das beliches.

O capitão, severo, entrou nos alojamentos e advertiu: se a trombeta soasse, seria cada um por si. As palavras caíram como um golpe, deixando atrás de si um silêncio ainda mais opressivo.

A tempestade passou. E, ao amanhecer, viram Nova York. A luz fria da manhã filtrava-se pelas frestas, desenhando linhas pálidas sobre rostos marcados pelo cansaço. O cheiro do porto, com sua mistura de carvão, maresia e fumaça, chegou antes mesmo de a cidade se revelar inteira — um aviso de que, depois de tanto mar, havia terra firme à frente.

Lá, Giacomo encontrou mais de cem homens de Marmora empregados na mesma companhia. Trabalhou na serraria, dez horas por dia, por sete liras e meia. As serras cortavam as árvores com um rugido constante, e os troncos caíam como soldados abatidos. Os italianos eram valorizados por sua resistência: descarregavam vagões, transportavam toras, cortavam tábuas. Os gregos, em grupos separados, faziam outros serviços.

Moravam em barracões de madeira. O cheiro de resina e madeira crua se misturava ao de fumaça das cozinhas improvisadas. A vida era dura, mas não silenciosa: havia bailes improvisados, onde acordeões e violinos arrancavam melodias que, por algumas horas, faziam esquecer a terra dura e o trabalho pesado. Partidas de cartas reuniam grupos em torno de mesas rústicas, iluminadas por lamparinas, enquanto risadas e provocações enchiam o ar. Jogos de bocha ocupavam os pátios batidos de terra, sob o sol, e campeonatos de futebol transformavam clareiras em arenas barulhentas, com gritos, apostas e rivalidades que iam além do jogo. O suor se misturava à alegria momentânea que a música e o esporte podiam dar — um respiro breve antes que o peso dos dias voltasse a cair sobre todos.

Quatro anos se passaram. A América o tratara com dureza, mas sem desprezo. Foram anos de trabalho pesado, de dias longos e noites curtas, de calos que jamais desapareceriam das mãos. Giacomo voltou à Itália, chamado pela solidão da mãe, um chamado silencioso, mas impossível de ignorar. Ao desembarcar, reencontrou o cheiro da terra natal, misturado à sensação de que já não pertencia inteiramente àquele lugar.

Seus irmãos permaneceram nos Estados Unidos, espalhados pelas fábricas e cidades que haviam aprendido a chamar de casa. Também os amigos de Marmora decidiram ficar, vinte e um homens que se dispersaram pelo país estrangeiro como folhas levadas pelo vento. Nunca mais recebeu notícias deles. Os rostos, antes tão próximos, foram ficando distantes na memória, dissolvendo-se como fotografias esquecidas ao sol.

De volta à terra natal, Giacomo carregava duas heranças: a primeira era o corpo endurecido pelo trabalho além-mar; mãos calejadas, ombros firmes e uma fadiga que não se apagava nem com o sono mais profundo. A segunda, um silêncio povoado por rostos que ficaram para trás — amigos, irmãos de jornada, vozes que ecoavam em sua memória como sombras indistintas, presenças invisíveis que o acompanhavam a cada passo.

A vida seguiu, mas com a lembrança constante do navio que partira de Gênova, aquele gigante de ferro que cortara o mar rumo a um destino incerto, e do rugido das serrarias americanas, onde o som das máquinas se misturava ao esforço humano em uma sinfonia de sobrevivência. Tudo isso estava misturado para sempre ao vento das Langhe, que soprava pelas colinas como um sussurro implacável, lembrando-lhe que, embora estivesse em casa, parte de sua alma jamais deixaria o oceano.

Nota do Autor

Escrever a história de Giacomo Rossino não é apenas resgatar o percurso de um homem que atravessou o oceano. É, sobretudo, tocar a cicatriz aberta de uma geração que deixou as encostas áridas das Langhe para enfrentar o desconhecido.

Cada linha desta narrativa nasce do silêncio que ele carregou ao voltar, um silêncio feito de ausências — dos irmãos que nunca mais escreveu, dos amigos de Marmora que ficaram na América e dos anos passados sob o rugido metálico das serrarias. Na travessia de Giacomo está gravada a epopeia de milhares: a mesma partida em Gênova, a mesma ração pobre distribuída no navio, a mesma tormenta que fez tremer a coragem.

Não há heróis nem vilões nesta história. Há apenas a persistência silenciosa de um homem que suportou fome, mar, trabalho e saudade para, ao fim, retornar às colinas que nunca deixaram seu coração.

Registrar a vida de Giacomo Rossino é preservar um fio da imensa tapeçaria da Grande Emigração Italiana. É garantir que, ao se falar de Marmora, das Langhe, de Gênova ou de Nova York, ainda se possa ouvir o eco das botas gastas, o balanço do mar e o som distante das serras, lembrando que a história da América foi também escrita com o suor de homens como ele.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Contracapa do livro

"Entre as colinas áridas das Langhe e o ruído implacável das serrarias americanas, Giacomo Rossino carregou no corpo a dureza do trabalho e na alma o peso do silêncio. Sua história é a de milhares que partiram, levando nos bolsos apenas polenta fria e esperança. Esta é a memória de um homem que cruzou o oceano para descobrir que o verdadeiro destino, às vezes, espera no regresso."

sexta-feira, 1 de maio de 2026

As Montanhas que Ficaram para Trás


As Montanhas que Ficaram para Trás

Uma história de coragem e esperança


Em uma manhã fria de março de 1877, o sino da pequena igreja da localidade denominada Pullir, uma parte de Cesiomaggiore, na província de Belluno, ecoava pelas montanhas vizinhas. Era um som familiar para Theresia, uma mulher de 40 anos, cujos dias começavam antes do sol nascer e terminavam ao cair da noite, com as mãos calejadas pelo trabalho na lavoura da canapa e o olhar firme de quem já havia enfrentado muitas provações.

Theresia era viúva havia dois anos. Seu marido, Pietro Zanet, um carpinteiro muito conhecido, respeitado pela sua habilidade com a madeira, sucumbira a uma pneumonia no rigoroso inverno de 1873. Desde então, recaiu sobre Theresia a responsabilidade de sustentar a família, com a ajuda dos filhos mais velhos, enquanto os mais novos ainda dependiam completamente de seus cuidados. As idades variavam entre 2 e 20 anos, e cada um contribuía como podia, mas o peso das decisões e da condução da casa permanecia sobre seus ombros. A fome rondava sua pequena moradia de pedra, enquanto as colheitas, castigadas por chuvas intensas e invernos rigorosos, eram insuficientes para alimentar a família.

A vida em Pullir era dura, mas as histórias de terras férteis no Brasil traziam um lampejo de esperança. Corriam boatos de que famílias inteiras haviam recomeçado em um lugar onde a terra era abundante e o trabalho recompensado com prosperidade. Alimentada por esses relatos e pelo desejo de garantir um futuro melhor para seus filhos, Theresia tomou uma decisão corajosa: deixaria Pullir com os filhos e seguiria para o Brasil.

A jornada até o porto de Gênova começou a pé e em carroça, enquanto Theresia e os filhos percorriam o trecho inicial até a estação de trem mais próxima. Daí em diante, embarcaram no trem, que os levou em uma longa e exaustiva viagem de várias horas através das montanhas e planícies italianas. O cansaço era evidente, mas a expectativa de um futuro melhor alimentava suas forças. Quando nas primeiras horas da manhã chegaram ao porto, depararam-se com o tumulto de famílias ansiosas, crianças chorando, vendedores ambulantes abordando insistentemente os recém chegados, carregadores atarefados levando grandes caixas de madeira e marinheiros sem paciência  gritando ordens. O navio que os levaria ao Brasil, uma embarcação de casco escuro chamado Colombo, parecia imponente, mas nada acolhedor.

A travessia do Atlântico revelou-se um teste de paciência e resistência. Amontoados nos porões do navio, os passageiros lidavam com o cheiro forte de carvão, fumaça, corpos suados, com a comida escassa e os enjôos constantes. Theresia, porém, mostrava-se incansável. Entre as crianças que adoeciam e os ânimos que se exaltavam, ela mantinha a calma, entoando velhas cantigas italianas e contando histórias das montanhas Dolomitas que rodeavam Pullir para distrair os filhos e os companheiros de viagem.

Na terceira semana de viagem, uma forte tempestade, que surgiu repentinamente, abateu-se sobre o navio. Ondas gigantescas balançavam a embarcação, enquanto a água invadia os porões. Theresia abraçou seus filhos e rezou com fervor, prometendo que, se sobrevivessem, dedicaria sua vida ao trabalho e à fé. O Colombo valentemente resistiu, mas os dias que se seguiram foram marcados pelo medo e pelo silêncio.

Após semanas no mar, enfrentando tempestades e o cansaço da longa travessia, o navio finalmente atracou no movimentado porto do Rio de Janeiro. O espetáculo das águas calmas da Baía de Guanabara contrastava com o caos de marinheiros, bagagens e imigrantes que desembarcavam, cada qual carregando sonhos e incertezas. Theresia e os filhos passaram pelo processo de regularização dos passaportes, aguardando ansiosamente a continuidade da viagem. Dois dias depois, embarcaram em outro navio, o Maranhão, um vapor costeiro menor que o Colombo que os levaria rumo ao sul do Brasil. A bordo, compartilharam histórias com outros imigrantes e observaram as mudanças na paisagem costeira, que alternava entre pequenas vilas e vastas áreas de mata atlântica.

Finalmente, depois de alguns dias, desembarcaram na cidade portuária de Desterro, hoje conhecida como Florianópolis, no estado de Santa Catarina. Era um novo marco em sua jornada: deixavam para trás o oceano e se preparavam para a etapa final, rumo ao coração das terras de colonização italiana. A partir de Desterro, Theresia e os filhos continuaram sua jornada rumo ao interior, enfrentando um percurso desafiador. Seguiram em carroças e a pé, cruzando montanhas íngremes, vales cobertos por densa mata atlântica e rios caudalosos que exigiam travessias improvisadas em balsas sobre troncos. Cada quilômetro percorrido era uma prova de resistência e determinação, mas também um passo mais próximo do novo lar.

Os dias de viagem eram marcados pelo cansaço físico, mas também pelo senso de comunidade que se formava entre os grupos de imigrantes que compartilhavam a mesma rota. À noite, reuniam-se ao redor de fogueiras improvisadas, onde compartilhavam histórias, rezavam e sonhavam com as terras que cultivariam.

Finalmente, após duas semanas de deslocamento, chegaram à região de Criciúma, em Santa Catarina, onde foram recebidos por representantes da colônia italiana local. Como parte do programa de colonização, Theresia recebeu um lote de terra, um terreno coberto por mata virgem que seria o ponto de partida para a construção de sua nova vida. Com a ajuda dos filhos, começou o árduo trabalho de derrubar árvores, abrir espaço para uma pequena casa e preparar o solo para o plantio.

A vida naquele início foi marcada por desafios incessantes: a adaptação ao clima úmido, a necessidade de aprender novas técnicas agrícolas e a solidão do isolamento, já que as famílias vizinhas estavam espalhadas por quilômetros. Mesmo assim, Theresia sentiu o coração aquecido pela esperança ao ver o primeiro pedaço de terra cultivado e os primeiros brotos surgindo sob o sol brasileiro. Para ela, aquele era o início de um futuro promissor, um recomeço construído com suor, fé e resiliência. 

O trabalho era árduo, mas Teresa não se deixava abater. Com a ajuda dos filhos mais velhos, construiu uma precária casa, na verdade um refúgio feito com tábuas, galhos e coberta por folhas de palmeiras e depois de limpar uma parte do terreno com a ajuda dos filhos maiores, iniciou o plantio de milho e feijão. A terra era generosa, mas os desafios persistiam: a língua era um obstáculo, o isolamento era uma constante, e a saudade de Pullir e das suas amadas montanhas era profunda.

Mesmo assim, Theresia cultivava a esperança. Com um espírito decidido, organizou reuniões com outros vizinhos, compartilhando conhecimentos e fortalecendo os laços comunitários. Aos poucos, viu seus filhos crescerem e contribuírem para a construção de uma nova vida. O mais velho, Carlo, tornou-se um comerciante respeitado, enquanto os mais jovens aprenderam a trabalhar na terra com habilidade e dedicação.

Theresia faleceu em 1920, aos 83 anos, em sua casa, cercada por filhos, noras, netos e bisnetos. Deixou um legado de coragem, trabalho e resiliência. Seus descendentes, orgulhosos de suas raízes italianas, mantêm vivas até hoje as tradições belunesas, enquanto celebram a terra que os acolheu e onde prosperaram.

Na praça central de Criciúma, ergue-se um monumento em bronze que homenageia os pioneiros da cidade. A obra, de linhas simples e austeras, retrata homens e mulheres de diferentes idades, representando as famílias que enfrentaram o desconhecido em busca de uma nova vida. Entre eles, destaca-se uma figura feminina segurando uma enxada, com o rosto erguido em direção ao horizonte, simbolizando a resiliência e a esperança que moviam aqueles que desbravaram terras e abriram caminhos.

Na base do monumento, uma placa gravada com os nomes de algumas das famílias que participaram da construção da comunidade local eterniza a memória dos primeiros colonos. Entre os nomes listados está o de Theresia Zanet, que, ao lado de seus filhos, contribuiu para transformar a região em um núcleo próspero. Embora o monumento não individualize histórias, ele simboliza a força coletiva daqueles que moldaram a história de Criciúma. Este tributo, silencioso e comedido, reflete a essência dos pioneiros: pessoas comuns que, com coragem extraordinária, superaram as adversidades de um novo mundo. Para os descendentes e visitantes, é uma lembrança tangível do preço do progresso e da força dos laços comunitários, tecida pelos que vieram antes.


Nota do Autor

Este texto é um fragmento do livro "As Montanhas que Ficaram para Trás" do mesmo autor. Embora os personagens apresentados sejam fictícios, a essência da narrativa baseia-se em eventos reais vivenciados por inúmeros imigrantes italianos que, com coragem e determinação, deixaram sua terra natal em busca de esperança no Brasil. 

Escrevi esta obra como uma forma de homenagem aos nossos antepassados. Eles enfrentaram o desconhecido, desafiaram a adversidade e, com trabalho incansável, ajudaram a construir as bases de tantas comunidades que hoje prosperam em nosso país.

A história de Theresia é também a história de milhares de homens e mulheres que trouxeram consigo mais do que sonhos de um futuro melhor. Trouxeram valores, tradições, fé e, acima de tudo, a prova de que a força do espírito humano é capaz de superar qualquer obstáculo.

Que este relato sirva para honrar sua memória e para lembrar a todos nós da importância de preservar e valorizar as raízes que nos moldam. O legado desses imigrantes é imensurável e vive não apenas na paisagem transformada, mas também na herança cultural, na gastronomia, nas celebrações e, sobretudo, no exemplo de trabalho e resiliência que deixaram para as gerações futuras.

Dedico este livro a todos os descendentes de imigrantes italianos que, como eu, sentem orgulho de suas origens e de tudo o que nossos antepassados conquistaram. Que nunca esqueçamos de onde viemos e de quanta força foi necessária para que estivéssemos aqui hoje.

Com profundo respeito e gratidão,

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


terça-feira, 11 de novembro de 2025

Do Vêneto a Nova York – A Coragem de Carlo Damiani na Emigração Italiana do Século XIX


 

Do Vêneto a Nova York – A Coragem de Carlo Damiani na Emigração Italiana do Século XIX


O inverno de 1895 chegava áspero sobre os vales do Vêneto, e nas colinas de Vicenza o frio parecia ainda mais cruel quando misturado à fome. Carlo Damiani, homem de trinta e poucos anos, olhava para os campos vazios, onde nem as vinhas resistiam mais. O trigo era pouco, o trabalho escasso, e os filhos — Luigi e Domenico — pediam pão antes mesmo que o sol nascesse. A mulher, Rosina, tentava esconder o desespero costurando roupas e fazendo alguns serviços para alguns vizinhos mais ricos, e a velha mãe, já perto dos noventa, rezava em silêncio, pedindo aos santos que protegessem os seus.

Naquela época, a Itália sangrava lentamente. O país, desde a unificação que prometia vida nova, ainda não encontrara um caminho seguro para seus filhos: impostos altos, pobreza no campo, miséria nas vilas. A palavra “América” era sussurrada nas tavernas como uma promessa — uma esperança vestida de vapor e distância.

Carlo decidiu partir. Não foi uma escolha fácil, mas uma necessidade. Vendeu as poucas ferramentas que possuía e conseguiu, com ajuda de conhecidos, um bilhete de terceira classe no navio Conte di Genova, que partiria de Gênova rumo a Nova York. No dia da despedida, Rosina chorou em silêncio. Os filhos, Luigi com sete anos e Domenico com cinco, agarraram-se às pernas do pai. Prometeu que voltaria um dia, ou que encontraria um modo de trazê-los para junto dele.

A viagem foi um inferno. Na terceira classe, o ar era pesado, o convés abafado, e o mar castigava o casco do navio como se quisesse devolver os passageiros ao seu destino. Carlo dividia o espaço com dezenas de outros camponeses, todos com o mesmo olhar: o medo e a esperança misturados como sal e suor.

Quando o Conte di Genova finalmente avistou a Estátua da Liberdade, Carlo sentiu o peito apertar. Nova York se ergueu diante dele como um monstro e uma promessa. Ellis Island, com seus corredores cheios e o cheiro de desinfetante, foi o primeiro solo americano que seus pés tocaram. Ali, entre filas intermináveis e perguntas em uma língua incompreensível, começou sua nova vida.

Trabalhou no que apareceu: carregador no porto, servente nas obras do metrô, limpador de fornos. As mãos se tornaram calos, o corpo emagreceu, mas a vontade de vencer nunca o deixou. Escrevia cartas sempre que podia, contando a Rosina sobre o trabalho duro e o frio que cortava os ossos. Mandava moedas, pequenas, mas cheias de esperança.

Três anos depois, em 1898, Carlo finalmente conseguiu juntar dinheiro suficiente para comprar as passagens da família. Em sua última carta, escrita com emoção e traços incertos, dizia:

“Rosina mia, vinde. Traz os meninos. A terra aqui é dura, mas há pão. Há futuro.”

Rosina embarcou com Luigi, Domenico e os três irmãos mais novos de Carlo — Francesco, Pietro e Innocente. A mãe, infelizmente, não viveu para ver o reencontro. Morreu um ano antes, aos noventa, com um rosário nas mãos, murmurando o nome do filho perdido no mar.

O reencontro no porto de Nova York foi silencioso e comovente. Carlo esperava entre a multidão, com o chapéu gasto nas mãos. Quando viu Rosina e os meninos descendo a escada do navio, o tempo pareceu parar. Abraçaram-se longamente, sem palavras.

A família Damiani instalou-se em Little Italy, em um pequeno apartamento na Mulberry Street. Carlo e Rosina trabalharam incansavelmente: ele nas obras e depois como ajudante de um sapateiro, ela costurando para famílias italianas mais abastadas. Luigi e Domenico cresceram entre dois mundos — italianos de alma, americanos por destino.

Nos domingos, Carlo costumava sentar-se na soleira da porta, com o olhar perdido entre os prédios de tijolo e o ruído distante das carruagens. Dizia que o vento que vinha do rio trazia cheiro de casa — cheiro das colinas de Vicenza, das vinhas secas, do pão de milho que sua mãe fazia.

Nunca mais voltou à Itália. Mas também nunca a deixou de verdade. Guardava, no fundo de uma caixa de madeira, as cartas da irmã mais velha, casada, que lhe escrevia sobre a vila, sobre os invernos e as colheitas que já não vinham.

Carlo Damiani morreu velho, em 1932, no bairro que o acolhera. Na parede, uma fotografia amarelada mostrava o casal no dia do reencontro. E no olhar de Carlo — firme, cansado, mas sereno — ainda se podia ler a mesma esperança que um dia o fizera atravessar o oceano em busca de um futuro melhor.

Era um homem simples, mas grande em coragem — como tantos outros que deixaram o Vêneto para escrever, com suor e saudade, as primeiras páginas da história italiana na América. 


Nota do Autor

A história de Carlo Damiani nasceu da leitura de uma antiga carta escrita em 1896 por uma imigrante italiana já estabelecida nos Estados Unidos. Entre linhas trêmulas e palavras cheias de saudade, percebi a voz viva de um tempo em que partir era o mesmo que se despedir da própria terra — e, muitas vezes, da própria vida.

Nessa carta simples, encontrei o eco de milhares de existências anônimas que, como Carlo, deixaram o Vêneto e outras regiões da Itália em busca de um futuro melhor. A miséria do final do século XIX, o desemprego no campo, a fome e o peso da desesperança forçaram homens e mulheres a atravessar oceanos, levando consigo apenas a fé, a coragem e o amor pelos seus.

Escolhi Carlo Damiani como símbolo desse imigrante silencioso — o pai de família que parte sozinho, acreditando que o sacrifício individual pode garantir o bem dos que ficam. Através dele, procurei retratar o drama humano da emigração italiana para a América: a solidão das longas travessias, o choque de culturas, a vida nas ruas apertadas de Nova York e, sobretudo, a esperança teimosa que manteve vivos tantos corações.

Escrever esta narrativa foi uma forma de prestar homenagem à geração que construiu, com mãos calejadas e lágrimas escondidas, os alicerces de uma nova vida em terras estrangeiras. São histórias como a de Carlo que explicam por que, ainda hoje, o sangue italiano pulsa forte nas veias dos descendentes espalhados pelas Américas.

Cada nome, cada carta, cada lembrança desse tempo é uma ponte entre o passado e o presente. E enquanto houver quem conte essas histórias, nenhum desses imigrantes será esquecido.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 3 de junho de 2025

El Horizonte dei Bravi


“El Horizonte dei Bravi”
Un romansi stòrico inspirado en fati reali
 

Capìtulo 1 – El Saludo a la Tera Natale
Piubega, Provìnsia de Mantova, Lombardia – Otobre 1876

Giuseppe Bellinati el gavea nassesto ‘nte na casa de piera sora le risaie de Mantova, tra i campi che i pareva che rivasse fin ai confin de la speransa. Lu el zera el fiol pì vècio de sinque fradei, desendente de contadini segnà da la fame, da le guere e da la perseveransa. El gavea òci bruni scuri che i pareva che tegnesse drento l’ombra del tempo, e le man za dure e rùspega anca prima dei quìndese ani.

L’Itàlia, che la zera vegnesta unida da poco, no gavea gnanca el bastèvole par da magnar a tante boche. Da quela òlta che el pare gavea perdesto metà de le so tere par colpa d’un baron piemontese, Giuseppe el gavea capìo che el so destino no se compìa là. El gavea sentìo stòrie che rivava con le lètare bagnà de sudor: tere vaste, promesse de proprietà, foreste abondanti là in Brasile. Par un contadin lombardo, quela roba là la faseva el efeto d’un evangelo.

Na matina bonora del quatro de novembre del 1876, Giuseppe el basà la fronte de la so mare e el partì con la mòier insicura, Rosalinda, e el putelo Matteo che lu no el gavea gnanca sei mesi. ‘Nte la sacola de lin portava pan duro, salame seco, do crussifissi e ‘na manà de tera del campo de roso de la famèia. Portava anca ‘na speransa che la faseva mal drento el peto.


Capìtulo 2 – La Lìnia del Sol

El viaio sul vapor Adria el ga traversà la fùria del inverno europeo e la ga passà la lìnea del Ecuador come ‘n batèsimo de soferiensa. I sotopiani del vapor i zera ‘na tana sufocante, ‘ndove la speransa la se mescolava co l’odor acre de gòmito, sudor e morte. L’ària la zera pesante come piombo ´ntei polmoni, e el scrichiolar del navio, note dopo note, pareva un lamento. Su la coperta, soto el sol crudel dei tròpichi, i corpi brusava come se i zera maledeti da na antica divinità desmentegà.

La Rosalinda, che prima la zera viva e spensierà, la se sfiorì dopo el secondo mese. La febre che la consumava pian pian, lassando i òci incavà e la piel ùmida come quela de un neonato. El pìcolo Matteo tossiva sempre, e ogni colpo de tosse pareva un presàgio. Ma el Giuseppe, lu el tegneva streta la fede con na teimosia da contadino. In meso a quela traversia de scuri, le so preghiere le se alsava come favete ´ntel vento.

Un vècio prete genovese, con la batina strassa e el sguardo quieto, el ripeteva a chi che gavea ancora forsa de sentìrlo che l’Amèrica la zera un novo Eden. El diseva che là, da l’altra banda del mar, Dio el gavea preparà un giardin par i ùmili. Ma i òci de chi che lo stava a sentir i zera sechi de tanto pianser.

Quande finalmente i se ga mostrà in horizonte i contorni sfumà de le montagne del Rio de Janeiro, querti de verde e involti da na luse stránia, un mormòrio la ga passà el vapor — na mescolansa de solievo, incredulità e paura. La Baia de Guanabara la se ga verzo davanti a lori come un spechio sacro, che rifleteva la promessa de un novo prinsìpio.

Ze stado alora che el Giuseppe, con le man che tremava e el cuor che bateva forte, el ga scrito na lètara par el cugnà Francesco, che lu el zera ancora a Piubega:

“...quando Dio la ga volesto semo rivà al porto de Rio de Genero, porto de la Mèrica... na tera nova, ma el camin no el ze finìo... ghe speta ancora la strada, el lavoro, la fame... ma anca la speransa...

Ma no zera ancora la fin del viaio. Rivar in Brasile volea dir fin a la traversia del mar, ma davanti a lori se stendea un’altra traversia — stavolta in tera — piena de sfide e fadighe: sentieri de fango, zornade de camìn, le vegetassion no conossù, ‘na lèngoa stránia, e ‘na nostalgia che no se pode mia suportar. Drento al cuor de ogni imigrante, el peso de quel che i gavea lassà combatea con la speransa fina de quel che i gavea da costruir.


Capìtulo 3 – La Tera de le Promesse e de le Serpenti

Dopo sei longhi zorni navigando la costa sgropada del sudeste brasilian, a bordo de un barco pìcolo e instável, i emigranti finalmente i ga sbarcà a Vitória, ´ntel Espírito Santo. El calor el zera denso come un véo, e l’ària, impiengà de sal e febre, rendea ogni respiro na batàia. Da lì, lori i ga continuà in barchete de fondo piato, che scrichiolava soto el peso de la speransa e de la misèria, parendo un ésodo bìblico — ánime eranti guidà da un destino scuro, tra aque inturbià e rive coèrte de selva fita.

Lori son stà portà in un vilàgio improvisà, ndove un omo de parola ferma e mani grosse, ciamà Giuseppe Artioli, i ghe aspetava. Lui, un paesan rivà ani prima, el zera ormai guida e tradutor tra due mondi — quelo dei novi arivà e quelo de ‘sta tera brava.

Da lì, el viaio el ga continuà drento la tera, su strade de fango roso e scavi profondi, par tre zorni tirà a cari de boi. Le rote cigolava come lamenti, e i boi ndava al ritmo de l’eternità, mentre el verde de le selve li ingiotava da tuti i cantoni. Dormiva al’ària verta, sù la paia, cassiando i inseti con drapi bagnà e preghiere mormorà.

Solo alora, tra la selva vèrgine e i urli distanti dei busi che rompeva el silensio de le ore calde, Giuseppe gavea vardài par la prima volta la so tera: otanta e cinque bioche lombarde — na misura che pareva quasi un ricordo de casa. Parte del terreno el zera selva fita, con àlbari alti e radisi sporgenti come vene de un corpo selvàdego; el resto, spasi de tera dura e sassi, ndove el sol casca con ràbia.

Quel toco de mondo, donà dal governo imperial, el zera el so peso de futuro — prometente e crudele. Un paradiso selvàdego, da conquistar no con le arme, ma con la zapa, mani rote, làgrime e ‘na fede che i ga soportà i ani de carestia, peste e solitudine. Le serpe che se strensava tra i tronchi no zera le sole: zera anca el veleno del dùbio, de la nostalgia, de la paura che spetava ogni note.

E nonostante tuto, quando metea el pie su la tera scura e calda, Giuseppe sentì un batito in peto. Zera el prinsìpio. No de un sònio realisà, ma de un sònio che ghe se dovea construir al presio de tuto — anche de la pròpria ánima.


Capìtulo 4 – I Primi Morti

"El clima el zera un nemico invisìbile, traditor e costante. No se podéa tocàrghelo, ma el zera dapartuto — ´nte l’aria che bruseava i polmoni, ´nte l’umidità che fasea marcir le robe, ´ntel baro che ingiotava i passi. Le piove cascava con fùria, come se el celo gavea ràbia de la tera. E quando el temporal finiva, rivava el caldo — brutal, impietoso — che fea bolir anca i pensieri. Le noti le zera abafà e piene de inseti che no ghe dava trègua. El silensio de la selva, ogni tanto, la zera roto dai tonfi dei tuoni o dai gridi dei animai che pareva portar el peso del mondo intero.

El magnà el zera un'altra forma de stranesa. Manioca, banane verse, carne seca dal gusto aspro, fasòi neri grossi come el pece. Roba che sostentava, ma che no confortava. Par stomaghi vegneste da le pianure lombarde, abituà al pan fresco, al formàio e al vin legero, i zera come mastegar nostalgia.

Rosalinda, dèbole fin da la traversia, la ga sedù a le febri tropicali ´ntele prime setimane. Suava, delirava, e ogni tanto la mormorava in italiano parole perse de la so infansia. Giuseppe el fasea quel che el podea: el boleva foie amare, el bagnava la fronte con pani fredi, el pregava. Ma la so forsa gera sugà da la tera — quela tera selvàdega che el netava con le pròprie man, strassando radisi come se strassasse fantasmi dal suolo.

El colpo pì crudel rivò dopo un mese. Matteo, el picinin Matteo, zà cusì magro che la pele pareva un tessù de vetro, el se fermò de respirar ‘na tarde abafada. El morì con i oci verti, fissi verso l’alto dei albari, come se el vedesse qualcosa ´ntel celo che nisun altro podéa vardar — forse un àngelo, forse el ritorno a casa mai rivà.

Giuseppe el ghe fece el so tùmulo con le pròprie mani, soto l’ombra solene de un jequitibà. El cavò in silensio, sensa làgrime, come un omo che cava el proprio peto. Nisun prete, nisuna orasione cantà — solo el rumor de la pala e dei rami che se rompeva. Quando el tapo la tomba, el rimase in piè davanti fin che la note la cascò, come se el sperasse che el fio el tornasse a ciamarlo.

Ntei tre zorni dopo, no el parlò con nissun. No el magnò, no el pregò. Stava sentà a la porta de la caseta, con i òci fissi verso la selva, i diti intrelassà come radisi.

El quarto giorno, senza dir parola, el se alsò al spuntar del sol. El ghe siapò ´na piantina de café, el la portò fin soto el jequitibà e, con una cura quasi sacra, el la piantò lì, drìo al tùmulo.

Par che cressi qualcosa ndove la morte la ga pestà' — el murmurò, pì par la tera che par el celo.

Ghe zera el primo piè de café de la colònia.


Capítulo 5 – La Foresta e i Stranieri

Ghe zera tedeschi con na parlà guturale e modi austeri, francesi con gesti fini e asento musicale, piemontesi con lo sguardo riservà, calabresi rumorosi e espansivi, suíssi metòdici, e anca òmini e done de pele scura, vegnù da le coste lontane de l’Àfrica — alcuni apena liberà, altri ancora con su le spale e ´nte l’òcio i segni invisìbili de la schiavitù abolì da poco. Tuti, in qualche modo, i zera in esìlio da lori stessi. Ghe zera na vera torre de Babel piantada ´ntel cuor che bateva de la mata atlàntica, ndove ogni famèia la se tegnèa streta a la so lèngoa, a la so fede e ai so ricordi come chi che se ghe pende dal ùltimo fil de un mondo che cascava distante.

E, nondimeno, anca con sto grovìglio de lìngoe, costumi e preghiere, ghe zera na gramàtica comune che univa tuti: la lèngoa gresa e silensiosa del lavoro. El manarin, la zapa, el falcion, el sudor mescolà con el baro — tuto parlava pì forte che le parole. Là, ndove la tera zera tanto ostile quanto prometente, nissun se podèa permeter el lusso de la solitudine. I corpi lavorava insieme, anca se i ánimi ghe sentiva la nostalgia divisi.

Giuseppe el se trovò presto envolto in una rete rùstega de aiuto ressìproco e scambi improvisà. Da un francese el tirò fora semi de fasòi grossi in cambio de un pugno de formento de la so riserba. Con un tedesco difidente e con la barba longa e grisagna, el cambiò na galina par un poco de munission. El i ga dato mano a tirar su la casa de baro e tronchi de un calabrese ciacolon e gesticolante, che in cámbio el ghe promesse de aiutarlo a costruir un polaro.

In sto intrèssio de mani rude e promesse semplice, Giuseppe el imparò i primi segreti de la selva. El imparò a cassiar tachini selvadeghi, a capir la diferensa tra i rumor smorsà de una onça che ronda e el correre befardo dei busi. El scoprì che el bosco parlava — e che sopraviveva solo chi imparava a scoltarlo.

El comprò par poche monete un moscheto vècio de pietra focaia, con l’ánima rugnosa, che ci voleva pì fede che polvere. El dormiva con el moschetto a portata de mano, perché là el perìcolo no dava aviso e no ghe respetava la note. De note, in meso al coro ancestrale de la foresta, el scoltava i scrichioli, i gemiti e i fischi noturni come chi che sente le voci de un mondo che no perdona distrasioni.

Quando la vita dura de la colonia ghe lasciava tempo, Giuseppe el scriveva lètare. El se sentava a la luse tremolante del lampion e, con la pena bagnà ´nte l’inchiostro precàrio, el scriveva messagi par i fradei, cognai e cugini, ancora incatenài a la misèria e al sconforto de na Itàlia senza futuro. El scriveva con sinserità pungente, ma sensa mai lassàr morir la fiama de la speransa. Contava dei perìcoli, de la nostalgia, de le febri, del caldo e dei inseti — ma anca de la fartura de la tera, de la libartà possìbile, e del sònio de piantar qualcosa che durasse pì del sofrimento.

E no se scordava mai de far la lista de quel che zera essenssiale portar:

"Cari fradei... qua ghe ze de tuto: osei grandi e pitoni, galine selvàdeghe, inseti grandi come noci, e neanche un goto de vin. Se volete venir, portè arme, feri par lavorar, lenzuola, sale, e vin… tanto vin. Qua se sua, se combate, ma se vive lìbari."

Ne l'assenza de la lèngoa natale, de la messa de domenega in latino, de le matine nebiose de Piubega, Giuseppe el scoprì che l’omo, quando el resta sensa el supèrfluo, el ze fato de poche robe: brassi che lavorano, stómago che domanda, fede che insisti, e una speransa testarda — una speransa che cresse come el primo piè de café, adesso che se alsa in silensio, drio el tùmulo del fiol. Un sìmbolo che la vita, anca ferida, la insiste.


Capìtulo 6 – La Coleta del Silénsio

El cafè el ze vegnesto fora dopo do ani de speta silensiosa e lavoro sensa sosta. Le prime fiorà bianche le ze vegnù fora tìmede, ma prometenti, come pìcoli miràcoli che vegniva fora da ‘na tera domà con la forza de la zapa e del sangue. La tera de costa, bona e nera, la se nutriva con el sudor, le làgreme e le sènere de le legne brusà, e gaveva fruti gròssi, scuri, com l´ odor forte e amaro, come el passà che Giuseppe no podea scordarse. Era ‘na vitòria, ma no sensa costo — el sol continuava a brusar i mani con i cali, e ogni nova pianta la siapava pì de forza: la domandava fede.

Drento sto tempo, Rosalinda la gavea partorì altri do fiòi, come se la vita, drento la so testardesa santa, insistisse a vegnir fora. Luisa la ze vegnù fora ‘na note de vento grosso, con i gridi coerti da la forza de la boscàlia intorno. Enrico lu el ze nato con i primi pìe de ‘na piova d’estate, grossa, che caschèa forte sora el tèlo de tera. I cressèa scalzi, con i piè sporche de fango, con el canto de le cicale e l´ odor de tera bagnà. I ga imparà a conosser el canto del tordo e el ululà de le strighe, a còrer fra le coltivi e a zugar sotu le piante ndove i genitori ghe gaveva piantà speranse.

Par duro che fusse, el progreso se vardava. La casa gavea pì de quatro muri: gavea odor de pan coto, de pani lavà al rìo, de infansia che se stava construindo. I ponari i ze pien de galine, l’orto ghe dà le zuche e basìlico, e el campo de gran scominciava a dar de pì del necessàrio.

Intel 1880, Giuseppe el ga se sentà sora la tola de legno vècia, el ga ciapà la pena, e con le letere tremanti el scrive ‘na nova lètara:

Cari fradei, son contento d’aver fato sto pensiero… La tera la ze generosa, se la rispeti. Gavemo cafè, fiòi, pan… Ma qua, ogni roba bela la ga el so prèssio.

Ma, anca se el scrivea che el zera contento, la verità la ze che mai el gavea smesso de pianser par Matteo. El nome del putìn no lo ga mai pì stà dito a alta ose, ma el ghe zera — drento i oci strachi de Giuseppe, drento el silénsio dopo ogni coleta, e drento el so sguardo che ogni tanto el se ferma sora quel pié de cafè che cresseva a canto del so tùmulo. Ogni bona coleta la gavea un gusto de mancansa, come se la tera, anca drento la so generosità, ricordasse che niente vien da gratis.

Giuseppe el saveva — e el acetava co la resignassion de chi ga zà perso tuto — che l’Amèrica la costava cara. La ga dà spàsio, la dà futuro, ma la no perdonava la memòria. La zera ‘na tera de promesse… e de serpenti.


Capìtulo 7 – L’Omo che el ze Deventà Tera

Diese ani dopo, Giuseppe lu el zera pì de un agricoltore: lu el zera un nome respetà tra i coloni, un omo de parola e de assion. El ga ingrandì le so tere, comprà poco a poco con el fruto del so lavoro, e lu el ze diventà una sorta de patriarca par quei che i ze rivà dopo — italiani sperdù come el zera stà lu, rivà con le scarsele vodi e el cor pien de paura. Intel paese, tuti lo conossèa: Giuseppe Mantovani, quel che parlava poco, ma faseva tanto.

El gavea participà ala construssion de la prima capela de legno, consacrà a Sant’Antonio, e el ga dà ´na man a construir la pìcola scola ndove i so fiòi i ga imparà a scriver el so nome. El zera uno dei pochi che savèa lèser e scriver con fluensa — un don raro in meso ai boschi, quasi tanto presioso quanto el saver piantar. Con sto don, el lesèa le lètare dei altri a alta vose, el scrivea messagi par l’Itàlia, el lesèa la Bìbia par quei che no capìa le letere, ma capìa ben la pena e la speranza drento le parole.

Lui el ze stà el  fondador, con altri omi testardi, la Società de Mùtuo Socorso Nova Mantova, ‘na fratelansa fata no de lussi, ma de lealtà. Là, i spartìa strumenti, consei, promesse e orassioni. El zera un scudo contro la disperassion. “Nisun ze da impasir da solo drento sto bosco,” el diseva Giuseppe, pensando ai dì che el parlava con le piante, perché no gavea con chi spartir el silénsio.

El tempo el ze passato, e lu el ga resistìo a tuto: ai venti forti, ai mal de la tera, a la nostalgia de l’Itàlia che parèa dimenticada dal mondo. El ga superà i focolai de febre, la morte dei amissi, e i dolori che vegniva sensa aviso e se fermava ´ntei ossi. Ma el no ga mai smesso de lavorar. Fin ai ultimi dì, i lo vedeva ´ntel campo, con le manighe tirà su e el sguardo fisso verso l’orizonte, come se la vita la fusse ancora da scominsiar.

El l’è morto a 77 ani, ‘na matina de celo neto, con i cali ancora duri e i òci voltai verso el vale che el gavea aiutà a crear con el sudor e el sacrifìssio. El zera sentà sora el banco de legno, davanti al cortivo ndove i fasèa secar i grani. El ga fato ‘na respirada profonda, come chi che se despedi no solo da l’ària, ma da ‘na època intera. El ga indicà el cafè con el fiore, come se el vedesse pì en là dele fior bianche, e el ga mormorà la frase che Luisa, la so fiola, la ghe conservà come ‘na orazion:

Sta tera me ga copà... e me ga salvà.

El ze stà soterà a canto de Rosalinda, che la ze andà via un inverno prima. Matteo, el primo fiol, el dormiva pochi metri pì in là, soto el vècio àlbaro de jequitibà. La vita de Giuseppe la ze se serà come un siclo: da l’Itàlia al bosco, da la paura a la coleta, da la pèrdita a la restana. E ´nte la colónia de Nova Itàlia, el nome Mantovani el se ze fuso con la tera — no pì foresto, ma radise.

Epilogo

Su la tomba de Giuseppe Bellinati, scolpì par un scultor piemontese in granito de Caxias, se lèse:

“Da la misèria la ga nassesto el so coràio, e da ‘sto coràio, na tera fiorì.”



Nota Histórica do Autor

Sobre o autor e a inspiração de “O Horizonte dos Bravos”

O Horizonte dos Bravos” é uma obra de ficção histórica que nasce do entrelaçamento entre memória coletiva, documentos de época, tradições orais e a imaginação literária. Inspirado no estilo épico e humanista de alguns autores consagrados, o romance busca não apenas narrar uma saga de sobrevivência e perseverança, mas também prestar uma homenagem sensível e respeitosa aos milhares de imigrantes italianos que deixaram sua terra natal no final do século XIX em busca de um futuro mais digno nas Américas, especialmente no Brasil.

O personagem central, Giuseppe Bellinati, é uma construção ficcional baseada em múltiplos relatos reais de famílias lombardas, vênetas, piemontesas e emilianas que enfrentaram a travessia do Atlântico em navios superlotados, muitas vezes sem saber o que os esperava do outro lado do oceano. O autor, descendente de imigrantes italianos, mergulhou em cartas familiares, arquivos públicos, relatos de viagem, crônicas de época e registros das primeiras colônias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Espírito Santo, para construir uma narrativa que fosse ao mesmo tempo verossímil, comovente e literariamente rica.

A trajetória de Giuseppe — marcada pela dor da perda, pela força do trabalho, pelo reencontro com a fé e pela integração num mundo desconhecido — simboliza o percurso de inúmeros homens e mulheres que, mesmo analfabetos ou sem posses, contribuíram de forma decisiva para o desenvolvimento social, cultural e econômico do Brasil rural do século XIX. Eles foram, em sua maioria, heróis anônimos.

Este livro não pretende reescrever a História com H maiúsculo, mas dar voz aos silêncios que ficaram entre as linhas dos registros oficiais: os choros abafados nas madrugadas tropicais, os enterros sem lápide nas matas fechadas, as canções em dialeto cantadas à beira do fogo e os olhos marejados dos que partiram sem promessa de retorno.

Com “O Horizonte dos Bravos”, o autor busca manter viva a chama da memória daqueles que ousaram desafiar o destino. Que esta obra sirva de espelho, lembrança e tributo a todos os que, com mãos calejadas e corações esperançosos, ajudaram a plantar raízes em terras longínquas.

O Autor



segunda-feira, 7 de abril de 2025

A Travessia de Domenico Valtieri


A Travessia de Domenico Valtieri


Domenico Valtieri tinha 31 anos quando decidiu abandonar sua cidadezinha natal, San Pietro di Barbozza, uma pequena localidade nas belas colinas de Valdobbiadene. A terra na verdade era boa, mas, naqueles tempos, em finais do século XIX, o trabalho era muito escasso, e o futuro para ele, sua esposa Elena e a filha pequena, Maria, parecia cada vez mais sombrio. Toda a zona rural do Veneto sofria com safras magras, inclemência do clima, preço baixo dos grãos, desemprego cada vez maior e fome. As cartas de parentes e vizinhos que já haviam emigrado para o Brasil falavam de terras férteis, acessíveis e oportunidades, ainda que conquistadas com muito esforço. Para Domenico, o apelo de um novo começo era irresistível.

No outono de 1892, ele vendeu tudo o que possuía: algumas galinhas, uma velha mula e utensílios de arado. Com o dinheiro arrecadado e um empréstimo feito a um comerciante local, comprou passagens para o vapor L'Esperanza, que partiria do porto de Gênova rumo ao Rio de Janeiro. A viagem seria longa e cheia de incertezas, mas Domenico acreditava que nada poderia ser pior do que o desespero de permanecer na miséria.

A realidade da travessia revelou-se cruel. Na terceira classe, onde estavam Domenico e sua família, havia uma mistura de corpos, vozes e odores. Homens, mulheres e crianças dividiam espaços apertados, com camas de madeira dura e pouca ventilação. Os dias no mar eram monótonos, interrompidos apenas por tempestades que traziam momentos de tensão. À noite, o som de tosses persistentes, sussurros de orações e o choro de crianças famintas preenchiam o ambiente. Elena tentava distrair Maria com histórias sobre a nova vida que os aguardava, enquanto Domenico, observador, via na travessia uma metáfora de sua luta: um intervalo entre o sofrimento deixado para trás e a esperança que brilhava no horizonte.

Porém, a jornada foi mais implacável do que poderiam imaginar. Uma epidemia de sarampo se espalhou entre as crianças nos porões do navio, e Maria foi uma das primeiras a adoecer. Domenico e Elena fizeram tudo o que podiam, mas a falta de medicamentos e atendimento transformou cada dia em uma batalha perdida. Maria faleceu uma semana antes da chegada ao Brasil. Seu corpo foi dolorosamente sepultado no mar, enrolado em uma mortalha feita de lençóis, amarrada com cordas envolta ao corpo, seguido de uma despedida silenciosa e devastadora, que marcou para sempre a memória dos pais e de tantos outros passageiros e tripulantes que presenciaram aquela impressionante cena.

Ao desembarcarem no Rio de Janeiro, Domenico e Elena encontraram um mundo novo, mas longe do que haviam sonhado. Após alguns dias na Hospedaria dos Imigrantes, foram enviados para o sul do país, para uma colônia agrícola no interior do Rio Grande do Sul. A viagem até lá foi mais uma prova de resistência: dias de viagem rio acima, em pequenos bracos, depois em carroças puxadas por bois, atravessando picadas lamacentas e enfrentando o frio das serras. Quando finalmente chegaram à colônia de Dona Isabel, encontraram uma paisagem desafiadora, mas promissora: florestas densas, rios caudalosos e terras férteis, que exigiriam esforço para serem cultivadas.

A vida na colônia começou de forma precária. Domenico, junto a outros colonos, derrubava árvores para construir uma casa de madeira simples. Enquanto isso, Elena cuidava do pouco que tinham e preparava o terreno para a nova rotina. Não havia médicos por perto, e o isolamento entre as famílias fazia da saudade uma presença constante. A lembrança de Maria e dos parentes deixados na Itália era dolorosa, mas o trabalho árduo mantinha o casal focado no futuro.

Com o tempo, os sacrifícios começaram a dar frutos. Domenico conseguiu quitar as terras adquiridas do governo e expandir sua propriedade. Tinham finalmente conseguido realizar o sonho da propriedade. Ele plantou videiras, como fazia na sua terra natal que, anos depois, deram origem a um grande vinhedo, tornando-se um dos pioneiros na produção de vinho da região. A família cresceu com o nascimento de novos filhos, e os Valtieri se tornaram um símbolo de resiliência e trabalho árduo na colônia.

Nos momentos de descanso, Domenico gostava de caminhar entre as videiras, contemplando os cachos de uvas balançando ao vento. Sentia orgulho do que havia construído, mas também carregava o peso das perdas do passado. Ele sabia que a vida na colônia era difícil, mas representava uma vitória sobre as adversidades.

O sacrifício de Maria e de tantas outras crianças que não sobreviveram à travessia não foi em vão. Para Domenico, a saga dos imigrantes era uma lição sobre a força e a fragilidade humanas. Cada um era, ao mesmo tempo, testemunha e vítima de um sistema que prometia um futuro brilhante, mas frequentemente entregava abandono e exploração.

Anos depois, já bem estabelecido, Domenico costumava sentar no alpendre de sua casa e contemplar os campos cultivados. Ali, refletia sobre os sacrifícios feitos, os sonhos interrompidos e as vidas perdidas durante a travessia. Sua história, como a de tantos outros, era um testemunho de coragem e resiliência. Movidos pela necessidade e pela esperança, ele e Elena ousaram atravessar o oceano, construindo uma nova chance para si e para os filhos que viriam.