A História de Madalena e o Silêncio dos Lares de Idosos
Esta é a história de uma mulher que construiu uma família inteira… e acabou vivendo sozinha. Não por falta de amor no passado — mas por ausência de presença no presente.
Quando a Vida Era Casa Cheia
Madalena nasceu simples e viveu para cuidar. Desde jovem, aprendeu que amar era servir: lavar, cozinhar, acolher, ouvir. Casou cedo e teve quatro filhos. Sua casa nunca foi rica, mas sempre foi cheia de vozes, passos, cheiro de comida e de gente.
Ela acreditava que envelheceria ali.
Quando a Casa Fica Grande Demais
E assim, sem briga, sem escolha real, ela deixou tudo.
Mas lhe falta o essencial: pertencer.
A Rotina Que Não Preenche
Passa o tempo com sudoku, terapia ocupacional, ajudando quem está mais frágil. Mas evita se apegar. Ali, as pessoas desaparecem sem aviso. Um dia estão na cadeira ao lado. No outro, o quarto está vazio.
Onde Ela Ainda É Livre
E isso é tudo o que lhe resta.
A Mensagem Que Madalena Deixaria ao Mundo
Se Madalena pudesse deixar uma herança, não seria dinheiro nem objetos.
Seria um pedido:
- Que as próximas gerações entendam que família não é só origem — é permanência.
- Que o tempo que os pais entregam aos filhos precisa, um dia, ser devolvido.
- Não com culpa.
- Mas com presença.
Nota do Autor
A história de Madalena não é apenas a narrativa de uma mulher idosa em um quarto silencioso. É, sobretudo, o espelho de uma sociedade que aprendeu a prolongar a vida, mas ainda não aprendeu a sustentar o sentido dela até o fim.
Vivemos numa época em que o tempo se tornou utilitário, mensurável, produtivo — mas raramente afetivo. Criamos filhos com dedicação, sacrificamos sonhos em nome do amanhã, e acreditamos que o amor, uma vez plantado, sobreviverá por si só. No entanto, o amor precisa de presença. Precisa de continuidade. Precisa de retorno.
Madalena representa milhares de vozes que não escrevem cartas, não fazem denúncias, não aparecem nas estatísticas. São existências que se apagam lentamente na rotina dos lares, bem cuidadas em seus corpos, mas abandonadas em suas biografias.
Este texto não busca acusar — mas despertar.
Não pretende ferir — mas lembrar.
Não quer gerar culpa — mas consciência.
Que o leitor, ao fechar esta página, leve consigo uma pergunta simples e profunda:
O que farei eu, hoje, para que ninguém que me amou envelheça sozinho amanhã?
Porque família não é apenas um vínculo de sangue.
É um pacto de permanência.
E o tempo que recebemos em forma de cuidado… um dia precisará ser devolvido em forma de presença.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
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