Mostrando postagens com marcador Veranópolis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Veranópolis. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A Segunda Migração dos Imigrantes Italianos no Rio Grande do Sul


 

A Segunda Migração dos Imigrantes Italianos no Rio Grande do Sul


Giovanni segurou firme as rédeas enquanto a carroça começava a vencer lentamente o caminho de terra batida. Era o ano de 1918. Sentado na boleia, lançou um último olhar para a casa paterna, como se quisesse gravar para sempre cada detalhe das paredes, do telhado, do terreiro e das árvores que durante tantos anos haviam sido o cenário de sua vida. Ao seu lado seguia Rosa, sua esposa. Atrás deles, acomodados entre baús, sacos de mantimentos e algumas ferramentas cuidadosamente preservadas, viajavam os três filhos do casal. Todos iniciavam uma jornada que consumiria mais de uma semana até alcançar o norte do Rio Grande do Sul, uma região de ocupação recente, aberta à colonização nas proximidades do Rio Uruguai, conhecida então como Paiol Grande, localidade que mais tarde receberia o nome de José Bonifácio.

A carroça avançava lentamente, mas os pensamentos de Giovanni corriam muito mais depressa do que os bois conseguiam caminhar. Bastou que a velha casa desaparecesse atrás de uma curva para que outra despedida, muito mais antiga, despertasse inteira em sua memória. As lembranças surgiram com a velocidade de um relâmpago, como cenas de um filme projetado dentro da própria alma.

Voltou a ser o menino de quinze anos que, muitos anos antes, deixava para sempre a pequena casa de pedra já castigada pelo tempo, em Fanzolo, uma das pequenas vilas que formavam o comune de Vedelago, na província de Treviso. Ainda conseguia ouvir, com impressionante nitidez, o sino da igreja. O padre Don Luigi ordenara que ele fosse tocado em tom grave, não para anunciar uma morte, mas para marcar uma partida que, para muitos, parecia definitiva. Era um adeus semelhante ao prestado a um velho amigo que jamais retornaria.

Também lhe voltaram à lembrança os abraços demorados dos familiares, os olhos marejados dos vizinhos, os apertos de mão silenciosos dos amigos e a pequena multidão que acompanhou sua família até o momento da partida em direção à estação ferroviária. Dali embarcariam no trem que os levaria até Gênova, onde começaria a travessia do oceano. Poucos falavam durante aquele percurso. As palavras pareciam insuficientes diante da dor de abandonar uma terra onde cada pedra, cada estrada e cada campanário guardavam a história de gerações inteiras.

Giovanni era então o penúltimo dos seis filhos da família Tessari. Crescera cercado pelos irmãos, aprendendo desde muito cedo que a infância dos filhos de camponeses terminava quase ao mesmo tempo em que começava. As mãos ainda pequenas já conheciam o peso da enxada, da foice e dos cestos de colheita. Naquela época, brincar era um privilégio raro, quase sempre interrompido pelas necessidades do trabalho.

Seu pai, Domenico Tessari, era natural de Fanzolo. Homem de poucas palavras e de enorme resistência, carregava nos ombros o peso de uma responsabilidade que parecia crescer a cada ano. Sua mãe, Maria, nascera na vizinha vila de Salvarosa, pertencente ao comune de Castelfranco Veneto. Juntos formavam uma família simples, profundamente ligada à terra, mas sem jamais serem donos dela.

Viviam como meeiros em uma propriedade rural que atravessava sua própria decadência. O solo, antes generoso, tornava-se cada vez menos produtivo. O proprietário das terras residia em Treviso e pouco conhecia das dificuldades enfrentadas por aqueles que cultivavam seus campos. Exigia a parte que lhe cabia na produção, independentemente de a colheita ter sido boa ou ruim.

Ano após ano, as frustrações das safras tornavam-se mais frequentes. As mudanças climáticas alteravam o ritmo das estações, destruíam plantações e comprometiam aquilo que deveria garantir o sustento da família. O pouco que conseguiam colher mal era suficiente para alimentar tantas bocas. Ainda assim, uma parte precisava ser entregue ao patrão. O restante desaparecia rapidamente entre necessidades cada vez mais urgentes. As dívidas acumulavam-se sem piedade, transformando o futuro em uma sucessão de incertezas.

Domenico lutou durante muito tempo para permanecer naquela terra onde seus antepassados haviam vivido. Procurou soluções, ouviu conselhos, conversou com vizinhos que enfrentavam as mesmas dificuldades. Em muitas noites reuniu-se também com o amigo, o padre Don Luigi, homem respeitado por sua prudência e por conhecer de perto o sofrimento das famílias da região. As conversas repetiam sempre as mesmas perguntas e terminavam quase sempre no mesmo silêncio. Permanecer significava aceitar uma vida de pobreza cada vez maior. Partir significava abandonar tudo o que conheciam.

A decisão amadureceu lentamente, como amadurecem as escolhas que mudam para sempre o destino de uma família. Depois de muito refletir, Domenico resolveu emigrar para o Brasil. Não era uma aventura impulsiva nem um sonho de riqueza fácil. Era, acima de tudo, uma tentativa desesperada de oferecer aos filhos aquilo que a terra natal já não conseguia garantir: esperança.

O destino escolhido foi a recém-criada Colônia de Alfredo Chaves, que mais tarde passaria a chamar-se Veranópolis. A possibilidade de adquirir terras próprias parecia quase inacreditável para alguém que durante toda a vida trabalhara em propriedades alheias. Essa oportunidade somente se tornou possível graças ao esforço de um amigo que emigrara alguns anos antes para a Colônia Dona Isabel. Conhecendo a realidade brasileira e as possibilidades oferecidas aos novos colonos, esse amigo intermediou a compra de meia colônia de terras, permitindo que Domenico desse o passo mais importante de toda a sua existência.

Naquele instante, enquanto a carroça seguia lentamente rumo ao norte do Rio Grande do Sul, Giovanni compreendeu que sua vida parecia desenhar um círculo curioso. Anos antes havia sido um menino conduzido pelo pai em busca de um novo começo. Agora era ele quem conduzia a própria família para outra fronteira agrícola, repetindo, em solo brasileiro, a mesma coragem que um dia transformara seus pais em pioneiros. A primeira migração atravessara um oceano. A segunda cruzava serras, rios e matas. Mas, em ambas, havia a mesma convicção silenciosa que acompanhava tantas famílias de imigrantes italianos: a de que a verdadeira pátria de um homem talvez não seja o lugar onde nasceu, mas aquele onde seus filhos poderão construir um futuro melhor. 

Os últimos dias da viagem pareceram intermináveis. As estradas tornavam-se apenas trilhas abertas entre a mata, obrigando homens e animais a vencerem barro, pedras e riachos que surgiam a cada curva. Quando finalmente alcançaram a região de Paiol Grande, Giovanni compreendeu que estava diante de uma fronteira muito diferente daquela que encontrara quando chegara menino à antiga Colônia Alfredo Chaves. Ali a floresta ainda dominava quase tudo. Araucárias gigantes erguiam-se como colunas de uma catedral construída pela própria natureza, enquanto o rumor constante das águas do Rio Uruguai e de seus afluentes lembrava que aquela terra ainda pertencia muito mais às matas do que aos homens.

Foi naquele cenário de imensidão quase intocada que Giovanni, conhecido desde a infância pelo apelido de Nelo, decidiu fincar novamente suas raízes. Escolheu um pedaço de terra em uma área de Paiol Grande que, muitos anos mais tarde, daria origem ao município de São Valentim. Como havia acontecido com seus pais décadas antes, o primeiro desafio não foi cultivar a terra, mas conquistar o direito de nela viver. Antes da primeira colheita vieram o machado, a enxada e a força dos braços. Derrubaram árvores, abriram uma clareira, levantaram um abrigo simples de madeira e cobriram-no com tábuas e tabuinhas. Cada tronco abatido parecia anunciar que uma nova vida estava começando.

À noite, quando o silêncio da floresta envolvia a pequena casa recém-construída, Nelo muitas vezes recordava Fanzolo. Pensava na velha casa de pedra de seus pais, no sino da igreja tocado por Don Luigi, na longa viagem até Gênova e na travessia do oceano. Percebia então que a distância percorrida não era medida apenas em quilômetros. A verdadeira viagem era feita dentro do coração. Mais uma vez a família Tessaro havia recomeçado do nada. Mais uma vez o futuro dependia apenas da coragem de transformar mata em lavoura e esperança em realidade.

Os anos passaram, e o pequeno abrigo perdido entre as árvores deu lugar a uma propriedade próspera. Nelo e Rosa constituíram uma grande família, criando oito filhos sob os mesmos valores de trabalho, fé e perseverança que haviam recebido de Domenico e Maria. Parecia que, enfim, a longa caminhada encontrara seu destino definitivo.

Mas a história da família Tessaro ainda não havia terminado.

Assim como as terras do Vêneto haviam se tornado pequenas para Domenico, e as antigas colônias da Serra Gaúcha insuficientes para Nelo, chegou o tempo em que os filhos também precisaram procurar novos horizontes. A propriedade, embora fruto de uma vida inteira de sacrifícios, já não podia sustentar tantas famílias. Novamente as terras disponíveis tornavam-se raras e caras. Novamente a solução era seguir adiante.

Foi assim que alguns daqueles oito filhos retomaram a velha sina da família. Deixaram São Valentim e abriram uma terceira etapa daquela longa epopeia iniciada muito tempo antes em uma pequena vila do Vêneto. Seguiram rumo ao Oeste do Paraná e, mais tarde, às terras distantes do Mato Grosso, levando consigo o mesmo espírito pioneiro que atravessara o Atlântico na geração de seus avós e vencera as florestas do norte gaúcho na geração de seus pais.

Talvez essa seja a verdadeira herança dos Tessaro. Mais do que um sobrenome ou um pedaço de terra, transmitiram de geração em geração a extraordinária capacidade de caminhar sempre em frente. Para eles, a vida nunca foi medida pelo lugar onde nasceram, mas pela coragem de recomeçar quando a necessidade chamava. E assim, de migração em migração, ajudaram a escrever uma silenciosa e grandiosa página da ocupação do Sul e do Centro-Oeste do Brasil.


Nota do Autor

A história narrada nesta crônica reúne acontecimentos que marcaram a vida de milhares de famílias descendentes de imigrantes italianos no sul do Brasil. Os nomes dos personagens são fictícios, mas a trajetória que percorrem é absolutamente verdadeira e se repetiu incontáveis vezes entre os pioneiros que primeiro transformaram as matas da Serra Gaúcha em pequenas propriedades rurais e, uma geração depois, viram seus próprios filhos partir novamente.

Costuma-se imaginar que a imigração terminou quando os navios deixaram de cruzar o Atlântico. Na realidade, para muitos venetos, emigrar tornou-se uma condição permanente da existência. Depois de abandonar a terra natal, reconstruíram a vida no Brasil com um trabalho quase sobre-humano, derrubando florestas, abrindo estradas, construindo casas, igrejas e comunidades inteiras. No entanto, bastaram poucos anos para que surgisse um novo desafio: os filhos cresceram, casaram e formaram suas próprias famílias, enquanto as antigas colônias já não possuíam terras disponíveis.

As propriedades conquistadas com décadas de sacrifício eram pequenas e, divididas entre numerosos herdeiros, deixavam de garantir o sustento de todos. As terras livres haviam praticamente desaparecido e aquelas que restavam alcançavam preços impossíveis para agricultores que dependiam exclusivamente do trabalho da própria família. Permanecer significava, muitas vezes, condenar-se à pobreza. Partir, outra vez, tornava-se a única alternativa.

Foi assim que milhares de descendentes dos primeiros imigrantes repetiram o caminho de seus pais. Não atravessaram um oceano, mas enfrentaram longas jornadas em carroças, abriram picadas em novas florestas, estabeleceram-se em regiões distantes e recomeçaram a vida exatamente como a geração anterior havia feito. Essa segunda migração ajudou a ocupar vastas áreas do norte do Rio Grande do Sul, do oeste de Santa Catarina e, mais tarde, do Paraná, perpetuando um movimento de expansão que moldou grande parte da colonização do Sul do Brasil.

Essa sucessão de partidas revela uma característica profundamente enraizada na cultura daqueles colonos vindos do Vêneto: a extraordinária capacidade de recomeçar. Eles aprenderam que a sobrevivência exigia coragem para abandonar o conhecido, confiança para enfrentar o desconhecido e disposição para reconstruir, quantas vezes fosse necessário, aquilo que a vida insistia em colocar à prova. Talvez esse seja o maior legado deixado por essas famílias: a certeza de que a esperança não é um lugar onde se chega, mas uma estrada que se percorre sempre que o futuro exige um novo começo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 28 de outubro de 2025

Attilio Zampiero – A Estrada da Esperança

 


Attilio Zampiero – A Estrada da Esperança


No ano de 1887, Attilio Zampiero deixou a pequena vila de Roverchiara, nas terras baixas de Verona, levando consigo apenas um punhado de roupas gastas, alguns utensílios herdados e a lembrança viva da pobreza que o esmagava desde menino. A vida na Itália já não oferecia nada além de dívidas e fome. O campo onde nascera não bastava para sustentar sequer uma cabra, e o suor da família escorria em vão nas pedras áridas da planície.

O Brasil surgia como promessa nos relatos que corriam de boca em boca. Falava-se de campos infinitos, madeira abundante e liberdade para cultivar o que se quisesse. Cartas mal escritas do tio Antonio, instalado havia alguns anos na colônia Dona Isabel, no Rio Grande do Sul, traziam sempre um convite insistente: vender o pouco que possuíam e atravessar o mar.

A decisão de partir foi dolorosa. A família vendeu a casa e o pedaço de terra, abandonando também os túmulos de gerações no cemitério da vila. A despedida, marcada por lágrimas silenciosas, carregava o peso de nunca mais rever a Itália. Embarcaram em Gênova no navio a vapor Colombo, abarrotado de emigrantes miseráveis. Foram trinta e dois dias de travessia. O cheiro de corpos confinados, a umidade do porão e a ameaça constante da doença tornavam cada amanhecer uma vitória. A morte rondava como um predador paciente, mas Attilio resistia com a teimosia de quem não tinha escolha.

Quando enfim alcançaram o porto de Rio Grande, descobriram que o sonho tinha um preço maior do que imaginavam. Foram alojados em barracões superlotados, à espera de embarcações fluviais que os levariam lentamente, contra a corrente, pelos rios Guaíba e Caí até Montenegro, onde descansaram apenas por uma noite antes de seguir viagem.

Daí em diante, não havia estradas, apenas trilhas abertas a facão que se perdiam no coração da mata. Attilio e a família seguiram a pé, carregando baús e trouxas improvisadas. Havia dias em que a chuva fazia do caminho um lamaçal, e, quando a noite caía, o mundo se fechava como uma cortina de escuridão sem estrelas. Cada parada era um acampamento improvisado, alimentado com fogueiras pequenas e o pouco de farinha de milho que restava.

Depois de um dia que parecia não ter fim, chegaram à Colônia Dona Isabel, onde o tio Antonio os aguardava. O reencontro trouxe alívio e lágrimas, mas a jornada ainda não estava concluída. Em uma carroça puxada a bois, avançaram mais de um dia até alcançar a recém-aberta Colônia Alfredo Chaves, o lugar destinado pelo governo. O que encontraram foi um terreno íngreme, tomado por pedras e árvores seculares, um mundo hostil que parecia zombar de qualquer tentativa de cultivo.

Attilio ergueu com as próprias mãos um rancho tosco de troncos e folhas de palmeira. Plantou milho e feijão, criou algumas galinhas e um porco. Cada dia era uma batalha contra a floresta, que parecia querer engolir de volta os homens. A saudade da Itália ardia, sobretudo quando lembrava o cheiro do pão fresco e o som dos sinos de Roverchiara. Mas a volta era impossível. O Brasil tornara-se, ao mesmo tempo, destino e prisão.

A vida em Alfredo Chaves exigia coragem dobrada. O Rio das Antas, de águas revoltas, separava a colônia da vizinha Dona Isabel. Para atravessá-lo, usavam canoas frágeis, arriscando-se contra a correnteza traiçoeira. Era ali que Attilio trocava sacos de milho por sal ou ferramentas, sempre com o medo de que a água lhe roubasse a vida, como já fizera com outros colonos.

Os invernos castigavam com geadas que queimavam plantações inteiras. Muitas vezes, Attilio misturava farinha de milho com raízes da mata para saciar a fome dos filhos. Mas a obstinação não lhe faltava. Com vizinhos, começou a cultivar videiras, pequenas mudas trazidas escondidas da Itália, sonhando com o dia em que o vinho das colônias pudesse rivalizar com o das tavernas de Verona.

Com o tempo, Alfredo Chaves começou a se organizar. Famílias ajudavam-se em mutirões para erguer casas de pedra e capelas de madeira. Attilio, respeitado por sua tenacidade, tornava-se presença constante nas derrubadas, nas colheitas e até nas arriscadas travessias do Rio das Antas.

Mesmo assim, a saudade permanecia. Nas noites frias, o vento que soprava da serra lhe trazia lembranças da Itália. Ainda que a miséria continuasse a rondar, cada árvore derrubada e cada videira enraizada representavam conquistas arrancadas à força de um mundo desconhecido.

Foi assim que Attilio Zampiero fincou raízes no Brasil: não como promessa de riqueza imediata, mas como a única chance de sobreviver e deixar aos filhos uma herança maior do que ouro — a certeza de que, mesmo entre rios perigosos e terras ingratas, a esperança podia florescer.

Anos mais tarde, quando Alfredo Chaves recebeu o nome de Veranópolis, Attilio já sabia que aquela era sua pátria definitiva. A Itália ficara para trás como lembrança distante, mas a vida seguia ali, onde cada pedra retirada do chão e cada parreira erguida eram páginas escritas de sua própria estrada da esperança.

Nota do Autor

A história de Attilio Zampiero – A Estrada da Esperança nasce do testemunho vivo de descendentes de imigrantes italianos que se estabeleceram na antiga Colônia Alfredo Chaves, hoje Veranópolis, no final do século XIX. O personagem central, Attilio Zampiero, é fictício apenas no nome; sua trajetória, marcada pela travessia do oceano, a chegada ao Rio Grande do Sul e a luta contra a mata e a solidão, reflete fielmente a experiência relatada por seus herdeiros de memória. Por respeito ao pedido de anonimato das famílias que compartilharam suas lembranças, os nomes verdadeiros foram preservados no silêncio. Ainda assim, tudo o que aqui se narra — a viagem, os sofrimentos, a travessia do Rio das Antas, o início da vida em terras íngremes e pedregosas — pertence à realidade daqueles que ousaram trocar a Itália pela incerteza do Brasil. Attilio, portanto, é mais do que um personagem: é o símbolo de tantos homens e mulheres que construíram suas estradas de esperança no coração da serra gaúcha.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sábado, 13 de setembro de 2025

La Zornada de Giovanni Bianconi

 

La Zornada de Giovanni Bianconi

Natural de la provìnsia de Treviso, ´nte la region del Véneto, Giovanni Bianconi lu el ze cressesto rento un ambiente segnà da le fadighe de la tera e dal peso de la tradission. Le coline zalde verdesante, pontà de vigneti e formento, la zera el sfondo de stòrie contà dai so pari e dai visin, raconti che parlava de tera lontan dove el laor duro el zera pagà con l’abondansa e la dignità. Par Giovanni, ste stòrie le ga piantà 'na semensa de speransa e inquietudine. El soniava de poder dar a la so famèia un futuro che no zera segnà da la misèria o da le fadighe che se ghe trovava in Itàlia a quel tempo.

Zera l'ano 1895. Dopo tanto pensar e contar ai fiòi con la mare, Giovanni la ga finalmente dito basta: ‘sto sogno de ‘ndar via el ghe roeva drento come ´na fiama. Spint dai conti che no tornava pì e da le promesse de tera bona e vita nova là in Mèrica, el ga fato ´na pensada che la taiava el fià. El ga vendù la so campagna, un peseto de tera che i so veci i gavea messo a posto con ani de fatiga e sudor. No zera mica solo vender na roba — zera strassar le radìse, molar tuti i ricordi e ‘ndar incontro a el scuro. Ma par quela fame de speransa che ghe batéa drento, Giovanni el ga puntà tuto su el incerto, con el cuore in gola e i oci drio ùmidi.

Con la so mòier, Maria, 'na fémena forte che spartia con lu sia le speranse che le ánsie, e con so do fioleti, Giovanni el ga tacà la zornada verso el Brasile. El destino zera la Colònia Alfredo Chaves, in Rio Grande do Sul, ´na tera ancor in formasion, abità da altri emigranti che, come lori, soniava de rincominsiar.

La traversia no la zera mica fàssile. Lori i ga dovù soportar la fadiga del lungo viaio in nave, el mal de mar, la nostalgia e l’incertesa de quel che i gavea davanti. Ma, in meso a le fadighe, ghe zera un sentimento comune de determinassion e coraio. Giovanni el credea che, con fadiga e union, i podéa costruir ´na vita mèio. El portava con lu no solo le so massete e i so ogeti pì cari, ma anca la memòria de la so tera natìa e la promessa che el sacrifìssio lo saria stà degno, par un futuro pì bon par la so famèia.

Quando che i ze sbarcà in tera brasilian, el ciel ghe pareva infinito e l’orisonte sensa fin. Zera un capìtolo novo, pien de sfide e oportunità, e Giovanni el zera deciso a scrivar lì la stòria de la so redension.

El Ciamà de la Nova Tera

L'ispirassion par 'sta gran svolta nte la vita de Giovanni vegniva da le lètare pien de detài vìvidi e emosionanti mandà da so zìo Marco Bianconi, on omo coraioso che el avea lassà l'Itàlia un ano prima. Marco s'era sistemà ´nte la Colònia Dona Isabel, nel cuor del Rio Grande do Sul, e le so parole zera un mescòio de avertense e speransa. El contava che la vita in Brasil la zera come un campo verto de possibilità, ma no se desmentegava de meter in guardia su i tanti sfidi: la fadiga granda del laor, le dificoltà de adatarse al clima, la cultura e la nostalgia che no passava mai.

Ma tra le rige, ghe zera un qualcosa che ghe tocava el cuor a Giovanni: la promessa che, con sforso e volontà, se podéa costruir ´na vita méio, lìbara da le strèsse de la misèria e da le règole rìgide de le oportunità in Itàlia. Marco contava de le tere vaste che, con el sudor e la passiensa, podea diventar campi fèrtili; dei visin, ´na comunità solidale de imigranti unì da la stessa vóia de far fortuna; e de la libartà de sonir un futuro ndove el laor fusse pagà con el rispeto che el meritava.

Ste lètare le zera diventà lession de sera ´nte l'inverno, ´nte la cesa ùmile de Giovanni. Lu le lesea a vose alta par Maria, la so mòier, e dopo i discutea ogni detàio. Le parole de Marco ghe resonava drento, come un fogo che scaldava l'anima e dava coraio. Giovanni el savea che no saria stà un passo fàssile, ma el credeva che el sacrifìssio de lassar la tera natìa podea valer la pena, sopratuto par i so fiòi.

Con ´na decision presa in fondo al cuor, Giovanni el ga scominsià a pensar ogni mossa. El ga metesto assieme i pochi schei che el gavea vendendo la so pìcola proprietà e qualche roba cara, bén che zera stà messi via con fatiga par tuta la vita. Par lù, ogni ogeto vendù zera un toco de stòria, ma anca un bilieto par ´na nova zornada. El vardava a tuto no come a na perda, ma come a un investimento par el futuro de la so famèia.

A ogni moneda siapà in man, Giovanni el sentiva che el se fasea sempre pì visin al so sònio: quel de ricominsià, anca se el zera pien de incertese.

El Zorno del Adio

Nel zorno del adio, la pìcola vila de Giovanni la se ga trasformà in un mosàico de emossion profonde e contraditòrie. El sol de quea matina pareva che l’usasse un lusor espessial, come se el volesse tegner vivo par sempre el ricordo de quel momento. La cesa sèmplise, ndove lu e la so famèia gavea vivesto tanti ani, la zera insircondà da visin, amissi e parenti, tuti radunà par un ùltimo saludo. Ghe zera na mèscola de contentessa par el coraio suo e tristessa par la separassion che se avisinava.

El suon de le ciàcole zera interroto da silènsio pien de senso. Le done de la vila, con i fasoleti in testa e le man induride dal laor, ghe donava regaleti – pan, fruta seca, e anca medàie religiose – come segni de protesion par la longa strada. I òmeni, sercando de no far védar l'emossion, ghe dava paroe de coraio, un forte strucon su la schena e abrassi che disea pì de ogni parola. I putei, sensa capir ben la gravità del momento, zughéa tra de lori, ma ogni tanto se fermava a guardar la valìsia de Giovanni e Maria, imaginando cossa volesse dir 'ndar via par tère cussì lontan. Par lori, el "Brasil" zera come un mondo de fiaba.

Giovanni, anca se sicuro de la so decision, no rivava a evitar un nodo in gola mentre el se despideva de ogni persona cara. El so cuor zera pesà ´ntel vardar le face de chi, forse, no i rivardaria mai più. Maria, con i òci pien de làgreme, restava drio ai so fiòi, regalando un soriso pien de coraio, mentre drento de so stesso lei lotava con le so paure e con l'inssertesa de l’icognossesto.

Le làgreme ´ntei òci de chi restava se mescolava con le paroe de speransa.
«Va con Dio, Giovanni!», el ga dito un vècio amico.
«Che le tere nove te acóia ben, e che un zorno te torna a contarne de le richesse che ghe ze de l'altra parte del mar.»

Anca se la tristessa se sentiva forte, ghe zera anca na speransa che girava tra la zente. La promessa de na vita mèio dava forsa a Giovanni e Maria par afrontar el sconossesto. I savea che no stéa solo lassando na vila, ma che i portava drio le speranse de chi restava, de chi soniava anca lu ´na vita pì pròspera, ma che no podea, o no gavea el coraio de partir.

La Traversia del Atlántico

La viaio in vapore fin al Brasil el ze stà par Giovanni e la so famèia un vero teste de resistensa: fìsica, emossional e anca spiritual. Par quaranta lunghi zorni de traversia, lori i ga dovù afrontàr la roba dura de un ponte sempre pien de zente, spartindo el spàssio con sentene de altri emigranti che, come lori, gavea lassà tuto drio par sercar un futuro incerto. L’ambiente zera segnà da ‘na mèscola de ansietà, speransa e un sforso contìnuo par resister a le condission difìssili de bordo.

I zorni i scominsiava con el frússio de passi pressadi e le vose mescolà in tanti dialeti italiani. Òmeni e done i se dava da far tra spassi streti, curando i so fameiar e quei pochi ogeti che i gavea portà con lori. Tanti gavea casse e sachi pien de atresi, convinti da le ciàcole che el Brasil zera na tera sensa legna, ndove bisognava costruìr tuto da capo.

In meso a lori, Giovanni tegneva la testa alta, spesso rincoraiando i compagni de viaio con parole bone e gesti de solidarietà, anca se el sentiva anca lù le so preoccupassion. L’ària ´ntel navio la zera pesà, con el odor de sal, sibo semplisse e sudor umano. Maria, con la passiensa de chi sa el peso de la so mission, se dedicava a curar i putei. Lei inventava zoghi par distràrli, contava stòrie su la nova vita che i ghe aspetava e faseva de tuto par trasformar quel ambiente duro in ‘na cesa temporanea.

Le noti le era ‘na mèscola de solievo e sfida. Soto el ciel pien de stele e con el dondolar del barco, Giovanni se consedeva qualche momento de riflession. El se incocolava visin ai parapeti, vardando el mar sensa fine, lassando che el pensier el vagasse tra i ricordi de l’Itàlia e le speranse par el Brasil. In quei àtimi de solitudine, el sentiva el peso de la responsabilità, ma anca ´na gran determinassion de onorar el sacrifìssio de la so famèia e de tanti altri che i stéa vivendo la stessa zornada.

Con la vita insieme l´altri emigranti, se formava legami novi e inesperà. Le stòrie e le esperiense spartì rendeva pì legera la fatiga del viaio, e la solidarietà la diventava un valore de ogni zorno. Quando che qualcun se amalava, tuti i ghe stava drio par darghe conforto. Giovanni, con el so spìrito bon e presente, el diventava un punto de riferimento, sempre pronto a dar na man o scoltar un bisogno.

Nonostante le fadighe – el mal de mar, la strachesa e la nostalgia che diventava ogni zorno pì grande – la promessa de ‘na nova vita continuava a darli forsa. Giovanni e Maria trovava coraio uno ´ntel’altro, spartendo sorisi e paroe de fede. Par lori, ogni zorno no zera solo un ostàcolo superà, ma un passo in pì verso el futuro che i gavea decidù de costruìr.

La Luta par la Sopravivensa

El teren che i ghe ga tocà, el zera sassoroso, tuto montagna e foresta grossa. Ma Giovanni no se ga spaventà. Con do o tre atresi in man, el tacò a taiar la boscaia e preparar la tera par podar piantar. Maria, la so mòier, la stava indrio con i porsei, le galine, e lei faséa de tuto par tegner la casa in òrdine, anca se zera pì che na baraca.

I primi ani i zera massa duri: tanta fadiga e poca roba par mostrar. Ma i colono, un stava con l’altro. Con i mutiron, i fasea strade, taiàva legna, menava grande sataron, e ognidun i ghe dava ´na man. Cussì, pian pianin, la comunità la se fece forte, dura, e che no se desmentegava.

El Lassà de Giovanni Bianconi

Con el passo el tempo, la tera la ga scominsià a dar fruto. La famèia Bianconi la ga scominsià a tirar vanti. Giovanni el piantava formenton, fasòi, un po' de milio, e Maria la rincurava la casa e i fiòi, che i zera ancora massa pìcoli par un laor. La nostalgia de l’Itàlia la stava sempre là, ma ogni roba che lei faséa nasser su sta tera nova, la ghe dava corajo de continuar.

Giovanni el ga rivà a vardar Alfredo Chaves diventar paese, e dopo tanti ani, Veranópolis. La so fadiga, la so testa dura, el so coraio, I ga lassà un segno. No solo par la so famèia, ma par tuto quei che i vegniva dopo. El so nome el ga restà vivo tra la zentr, come un sìmbolo de speransa, de chi no se straca, de chi se tira su anca con la tera freda e i man roti. El ga mostrà che, anca se el mondo el ze grande e scuro, un pò de coraio el basta par far de un posto straniero un vero fogolar.

Nota de l´Autor

Quel che te lesi chi de sora el ze un resumeto breve del libro che porta el stesso nome: La Zornada de Giovanni Bianconi. No la ze fantasia, ma un conto che vien da la vita vera, de quei tanti che, come Giovanni, ga lassà la so tera in serca de na speransa nova. Sto libro el conta la strada longa e fadigosa de ´na famèia vèneta che, con tanto coraio e fede, la ga traversà el mar e ga afrontà la boscaia, la tera cruda e la solitùdine par costruir un fogolar novo ´ntel Brasil.

Mi go scrivesto sta òpera par un dover de memòria, par un rispeto verso quei che i ga sofresto in silènsio, che i ga laorà con le man rote e i piè ´ntel fango, ma che no i se ga mai desmentegà de chi i zera. La stòria de Giovanni Bianconi no la ze solo la so: la ze la stòria de mì, de ti, e de tanti altri che vive ancora con ´sta eredità ´ntel cuor e ´ntel sangue. El resumeto chi el ze solo on assàgio. Se te vol capir ben, va pì in fondo, passo dopo passo, come se caminàssimo insieme drento i ani, i campi, le làgreme e i sorisi de chi ga fato nàsser sta tera nova con un spìrito vècio, ma forte come na radise.

Parché la zornada de Giovanni no finì con el so viaio: la contìnua ogni zorno che un dissendente el se alsa presto, el toca la tera, e el dise pian: "Mi son qua par un motivo."

Dr. Luiz C. B. Piazzetta


sábado, 6 de setembro de 2025

A Jornada de Giovanni Bianconi

 

A Jornada de Giovanni Bianconi

Natural da província de Treviso, na região do Vêneto, Giovanni Bianconi cresceu em um ambiente marcado pelo esforço da terra e pelo peso da tradição. As colinas verdejantes, salpicadas de vinhedos e oliveiras, eram cenário de histórias contadas por seus pais e vizinhos, relatos que falavam de terras longínquas onde o trabalho árduo era recompensado com fartura e dignidade. Para Giovanni, essas narrativas plantaram uma semente de esperança e inquietação. Ele sonhava com a possibilidade de oferecer à sua família um futuro que não estivesse limitado pela escassez ou pelas dificuldades enfrentadas na Itália de sua época. Foi em 1895, após um período de reflexão e planejamento, que Giovanni decidiu transformar sonho em realidade. Motivado pelas promessas de prosperidade do outro lado do Atlântico, ele tomou a difícil decisão de vender sua pequena propriedade rural, fruto de anos de trabalho e herança de seus antepassados. A venda representava mais do que a troca de um bem material; era a ruptura com suas raízes e com a segurança, em nome de uma aposta no desconhecido. Ao lado de sua esposa, Maria, uma mulher resiliente que compartilhava tanto de suas esperanças quanto de suas apreensões, e de seus dois filhos pequenos, Giovanni iniciou a jornada rumo ao Brasil. O destino era a Colônia Alfredo Chaves, no Rio Grande do Sul, uma terra ainda em formação, habitada por outros imigrantes que, como eles, buscavam recomeçar. A travessia não foi fácil. Enfrentaram o desafio da longa viagem de navio, marcada por enjoos, saudades e a incerteza do que os aguardava. Mas, em meio às dificuldades, havia um sentimento compartilhado de determinação e coragem. Giovanni acreditava que, com esforço e união, poderiam construir uma vida melhor. Ele levava consigo não apenas suas ferramentas e pertences mais preciosos, mas também a memória de sua terra natal e a promessa de que faria valer o sacrifício por um futuro mais próspero para sua família. Ao desembarcar em terras brasileiras, o céu parecia imenso e o horizonte, infinito. Era um novo capítulo, repleto de desafios e oportunidades, e Giovanni estava decidido a escrever nele a história de sua redenção.

O Chamado da Nova Terra

A inspiração para a grande mudança na vida de Giovanni veio de cartas repletas de detalhes vívidos e emocionantes enviadas por seu tio Marco Bianconi, um homem corajoso que havia deixado a Itália um ano antes. Marco se estabelecera na Colônia Dona Isabel, no coração do Rio Grande do Sul, e suas palavras eram uma mescla de advertência e esperança. Ele descrevia a vida no Brasil como um campo aberto de possibilidades, mas não deixava de alertar sobre os inúmeros desafios: o trabalho extenuante, as dificuldades de adaptação ao clima e à cultura, e as saudades que pareciam nunca cessar. Nas entrelinhas, no entanto, havia algo que capturava o espírito de Giovanni: a promessa de que, com esforço e determinação, era possível construir uma vida melhor, livre das restrições impostas pela pobreza e pela rigidez das oportunidades na Itália. Marco contava sobre as vastas terras que, com suor e persistência, podiam ser transformadas em campos férteis; sobre os vizinhos, uma comunidade solidária de imigrantes unidos pela mesma ambição de prosperar; e sobre a liberdade de sonhar com um futuro onde o trabalho fosse recompensado.

Essas cartas se tornaram leituras recorrentes nas noites de inverno na modesta casa de Giovanni. Ele as lia em voz alta para Maria, sua esposa, e discutia cada detalhe com ela. As palavras de Marco ressoavam fundo, acendendo uma chama de esperança e de ousadia que Giovanni já sentia pulsar dentro de si. Ele sabia que a decisão não seria fácil, mas acreditava que o sacrifício de abandonar a terra natal poderia valer a pena, principalmente por seus filhos. Determinando-se a mudar o curso de sua vida, Giovanni começou a planejar cada passo. Reuniu o pouco dinheiro que possuía ao vender sua pequena propriedade e alguns pertences pessoais, bens que haviam sido acumulados com dificuldade ao longo dos anos. Para ele, cada item vendido era um pedaço de sua história, mas também um ingresso para uma nova jornada. Ele encarava o processo não como uma perda, mas como um investimento no futuro de sua família. A cada moeda contada, Giovanni sentia que estava mais próximo de alcançar a promessa de um recomeço, por mais incerto que fosse.

No dia da despedida, a pequena vila de Giovanni tornou-se um mosaico de emoções profundas e contraditórias. O sol daquela manhã parecia brilhar com um vigor especial, como se quisesse eternizar a memória daquele momento. A casa simples onde ele e sua família viveram por tantos anos estava cercada por vizinhos, amigos e familiares, todos reunidos para um último adeus. Havia uma mistura de alegria por sua coragem e tristeza pela iminente separação.

O som das conversas era intercalado por silêncios carregados de significado. As mulheres da vila, com lenços nos cabelos e mãos calejadas, entregavam pequenos presentes – pães, frutas secas e até medalhas religiosas – como gestos de proteção para a longa jornada. Os homens, tentando esconder a emoção, ofereciam palavras de encorajamento, palmadinhas firmes nas costas e abraços que diziam mais do que qualquer frase. As crianças, alheias à complexidade do momento, brincavam entre si, mas ocasionalmente paravam para olhar a mala de Giovanni e Maria, imaginando o que significava partir para terras tão distantes. Para eles, o conceito de "Brasil" parecia tão distante quanto uma história de conto de fadas. Giovanni, apesar da firmeza de sua decisão, não conseguia evitar um nó na garganta enquanto se despedia de cada pessoa querida. Seu coração pesava ao ver os rostos daqueles que talvez nunca mais encontrasse. Já Maria, com os olhos marejados, mantinha-se ao lado dos filhos pequenos, oferecendo-lhes um sorriso encorajador enquanto, em seu íntimo, lutava contra as dúvidas e o medo do desconhecido. As lágrimas nos olhos dos que ficaram para trás misturavam-se com palavras de esperança. “Vá com Deus, Giovanni!”, disse um velho amigo. 

“Que as terras novas te acolham e que você volte um dia para nos contar sobre as riquezas do outro lado do oceano.”

Embora a tristeza fosse palpável, havia também uma corrente de esperança que percorria o grupo. A promessa de melhores condições de vida dava forças a Giovanni e Maria para enfrentar o desconhecido. Eles sabiam que não apenas deixavam para trás uma vila, mas carregavam consigo as expectativas de todos que ficavam, de todos que também sonhavam com um futuro mais próspero, mas que não podiam ou não tinham a coragem de partir. Quando finalmente chegaram à carroça que os levaria ao porto, Giovanni virou-se para olhar uma última vez sua terra natal. Aquele momento parecia congelar no tempo, uma despedida não apenas de um lugar, mas de uma fase inteira de suas vidas. Com o coração dividido entre a dor da separação e a força de suas convicções, ele apertou a mão de Maria, e juntos embarcaram rumo ao futuro que haviam decidido construir.

A Travessia do Atlântico

A viagem de navio até o Brasil foi, para Giovanni e sua família, um verdadeiro teste de resistência física, emocional e espiritual. Durante os quarenta longos dias de travessia, eles enfrentaram a rotina extenuante de um convés lotado, compartilhando o espaço com centenas de outros emigrantes que, como eles, haviam deixado para trás tudo o que conheciam em busca de um futuro incerto. O ambiente era marcado por uma mistura de ansiedade, esperança e um constante esforço para lidar com as condições desafiadoras a bordo. Os dias começavam com o som de passos apressados e vozes misturadas em diferentes dialetos italianos. Homens e mulheres tentavam se organizar em espaços apertados, cuidando de suas famílias e dos poucos pertences que carregavam. Muitos viajantes trouxeram caixas e sacos cheios de ferramentas, convencidos pelos rumores de que o Brasil era uma terra desprovida de madeira, onde seria necessário construir tudo do zero. Entre eles, Giovanni mantinha uma presença firme, frequentemente encorajando os companheiros de viagem com palavras otimistas e gestos solidários, mesmo enquanto enfrentava suas próprias preocupações. O ar no navio era denso, carregado com o cheiro de sal, comida simples e o esforço humano. Maria, com a paciência e a força de quem sabia o peso de sua missão, dedicava-se a cuidar das crianças. Ela improvisava brincadeiras para distraí-las, contava histórias sobre a nova vida que os aguardava e fazia o possível para transformar o ambiente austero do navio em um lar temporário. Ao mesmo tempo, ocupava-se em preparar as refeições com os escassos suprimentos disponíveis, esforçando-se para manter a família alimentada e saudável.

As noites eram tanto um alívio quanto um desafio. Sob o céu estrelado e o balanço do navio, Giovanni se permitia breves momentos de introspecção. Ele se sentava próximo às amuradas, contemplando a vastidão do oceano e permitindo que seus pensamentos vagassem entre as memórias da Itália e as expectativas do Brasil. Naqueles momentos de solidão, sentia o peso da responsabilidade que carregava, mas também uma profunda determinação de honrar o sacrifício de sua família e de tantos outros que compartilhavam a mesma jornada. Ao longo da viagem, a convivência com os outros emigrantes criou laços inesperados. Trocas de histórias e experiências ajudavam a aliviar o fardo da travessia, e a solidariedade se tornou uma constante. Quando algum passageiro adoecia, os demais se uniam para oferecer apoio e conforto. Giovanni, com seu espírito colaborativo, tornou-se um ponto de referência para muitos, sempre disposto a ajudar ou a ouvir. Apesar das dificuldades – os enjoos, o cansaço e a saudade que parecia pesar mais a cada dia –, a promessa de uma nova vida continuava a alimentar suas esperanças. Giovanni e Maria encontravam forças um no outro, compartilhando sorrisos encorajadores e trocando palavras de fé. Para eles, cada dia que passava não era apenas uma superação, mas um passo a mais em direção ao futuro que sonhavam construir.

A Caminhada até Alfredo Chaves

Ao chegarem ao porto de Porto Alegre, a família Bianconi enfrentou uma nova etapa desafiadora da viagem. Embora já tivessem deixado para trás o oceano, a jornada até a Colônia Alfredo Chaves ainda não estava concluída. Sem muitos recursos, eles precisaram economizar ao máximo, mas contavam com a vantagem de que, no final do século XIX, parte do trajeto poderia ser feita por trem — um avanço significativo para quem vinha do interior da Itália. Giovanni e Maria embarcaram no trem que os levaria pelas linhas férreas recém-estabelecidas, cortando paisagens ondulantes e pequenas vilas ainda em formação. O barulho constante das rodas nos trilhos e o movimento ritmado do trem ofereciam um alívio temporário às pernas cansadas, enquanto a família contemplava a vastidão daquele Brasil rural, tão diferente do que conheciam. Porém, ao desembarcarem na estação mais próxima da Colônia Alfredo Chaves, a realidade voltou a se impor. O restante do trajeto era feito por estradas de terra irregulares, muitas vezes apenas caminhos estreitos rodeados por mata fechada e vegetação densa. Sem transporte e com poucos recursos, Giovanni liderou a pequena caravana familiar a pé, carregando o pouco que possuíam e desbravando o caminho com a ajuda de uma foice para abrir passagem entre os arbustos e galhos baixos.

Maria, sempre atenta, cuidava das crianças com um carinho que disfarçava a exaustão, preparando refeições simples e racionando os suprimentos durante as paradas para descanso. O ritmo era lento e pesado, mas a determinação os mantinha firmes. A cada passo, a promessa de um futuro melhor se renovava, mesmo diante das dificuldades que só tornavam a chegada mais desejada.


A Luta pela Sobrevivência

O terreno montanhoso que receberam era coberto por uma densa vegetação, mas Giovanni não se intimidou. Com ferramentas básicas, ele começou a desmatar e preparar o solo para o cultivo. Maria, por sua vez, cuidava da criação de porcos e galinhas, além de garantir que a casa permanecesse organizada.

Os primeiros anos foram marcados por trabalho árduo e poucas recompensas imediatas. No entanto, a união entre os colonos ajudou Giovanni a superar os desafios. Em mutirões, abriam caminhos e se apoiavam mutuamente, criando uma comunidade forte e resiliente.

O Legado de Giovanni Bianconi

Com o tempo, a terra começou a dar frutos, e a família Bianconi conseguiu prosperar. Giovanni plantou milho e feijão, enquanto Maria administrava a casa e cuidava dos filhos. A saudade da Itália era constante, mas a satisfação de construir algo duradouro em solo brasileiro crescia a cada conquista.

Giovanni viveu para ver Alfredo Chaves se desenvolver e, anos depois, tornar-se Veranópolis. Sua determinação e trabalho árduo deixaram um legado não apenas para sua família, mas para a história da imigração italiana no Rio Grande do Sul. Seu nome permanece como símbolo de coragem e resiliência, um exemplo vivo de que a esperança pode transformar o desconhecido em um lar.