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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Lista de Imigrantes Italianos Navio Duca di Galliera 1890


NAVIO DUCA DI GALLIERA

LISTA PARCIAL DOS IMIGRANTES
EMBARQUE EM GÊNOVA  25.09.1890
(escalas em Tanger e Las Palmas)
DESEMBARQUE NO RIO DE JANEIRO EM 13.10.1890

 

N.
SOBRENOME
NOME
IDADE
PARENTESC0
PROFISSAO
CLASSE
01DANIELI Beatrice29 anosAgiata1a.
02SÀ Francesco26 anosPossidente1a.
03SÀ Edoardo20 anos "1a.
04DEL PORTO Pietro49 anosFalegname1a.
05MUSA Maria33 anosCasalinga2a.
06TREVISANI Anna28 anos"2a.
07TREVISANI Lavinia9 anos - filha"2a.
08TREVISANI Attilio8 anos - filho"2a.
09TREVISANI Romolo7 anos - filho"2a.
10PETROSINO Concetta45 anos"2a.
11ALIANO Giuseppe29 anosIndustriale3a.
12ALIANO Maria25 anos - mulher"3a.
13BELLUCO Elisa26 anosTessitrice3a.
14COCCIN Giovanni34 anosContadino3a.
15COCCIN Verginia26 anos - mulher"''
16COCCIN Palma3 anos - filha"''
17DAMICO Lucia29 anos"''
18DAMICO Teresa6 anos - filha"''
19DEBIASI Giuseppe39 anos"''
20DEBIASI Maria30 anos"''
21FERRARI Pietro56 anos"''
22FERRARI Francesco20 anos"''
23FERRARI Rachele12 anos"''
24FERRARI Gaetano 8 anos"''
25FERRARI Caterina6 anos"''
26GUIDO Luigi36 anos"''
27GALLI Rodolfo28 anos"''
28GALLI Romana21 anos - esposa"''
29GALLI Giuseppe2 anos - filha"''
30GREGOLINI Felice34 anos"''
31GREGOLINI Natalina24 anos - mulher"''
32GREGOLINI Maria05 anos - filha"''
33ORTOLANI Leandro26 anos"''
34LOTTI Italo31 anos"''
35LISI Emilio19 anos"''
36LENZI Desiderio45 anos"''
37LENZI Olinda15 - filha"''
38MIRAGLIA Raffaela39 anos"''
39MIRAGLIA Vito9 anos - filho"''
40MARZILI Nicola30 anos"''
41MORONI Angelina35 anos""
42OROFINO Antonio21 (?) anos""
43ORIFINO Saverio24 anos""
44OROFINO Luisa20 anos""
45PETRAGLIA Edoardo36 anos""
46PASQUALI Raffaele21 (?) anos""
47PASQUALI Filomena26 anos""
48PIAZZI Pietro39 anos""
49PIAZZI Rosa32 anos - mulher""
50PIAZZI Giovanni12 anos - filho""
51PIAZZI Carmela9 anos - filha""
52PIAZZI Sirilia6 anos - filha""
53REBESCO Vincenzo34 anos""
54RAMBALA Cesare30 anos""
55RAMBALA Maria25 anos""
56SBANO Giuseppe23 anos""
57SBANO Rosa25 anos - mulher""
58SBANO Angelina8 anos - filha""
59SBANO Maria7 anos - filha""
60SBANO Nicola5 anos - filho""
61SBANO Delfina3 anos - filha""
62SBANO Filomena2 anos - filha""
63SBANO Giovanni2/12 meses - filho""
*64SALOSECHI Constante50 anos""
*65DISIA Enrico45 anos""
*66DISIA Atenodora35 anos - mulher""
*67DISIA Luisa11/12 meses - filha""
68BASSO Maria65 anos""
69CARANO Anna15 anos""
70BASSO Matteo60 anos""
71CARANO Francesco37 anos""
72CANTONI Giovanni48 anos""
73MAGGI Pietro37 anos""
74MAGGI Letizia34 anos - mulher""
75MAGGI Ernesto1 ano - filho""
76LEDERZINI Enrico33 anos""
77LEDERZINI Aninziata34 anos - mulher""
78LEDERZINI Gaetano10 anos - filho""
79LEDERZINI Antonio17 anos - filho""
80LEDERZINI Cesare5 anos - filho""
81LEDERZINI Donato2 anos - filho""
82ROMAGNOLI Valentino39 anos""
83MAGGI Ernesto11 anos""
84ROMAGNOLI Alessandro16 anos""
85ROMAGNOLI Enrico12 anos""
86ROMAGNOLI Agostino9 anos""
87ROMAGNOLI Caterina5 anos""
88SAMBIAGIO Lorenzo20 anos""
89CROTTA Gennaro24 anos""
90CROTTA Maria27 anos - mulher""
91PIONATO Rocco9 anos""
92ROMANO Antonio28 anos""
93DE BIASI Raffaele30 anos""
94CALABRIA Santo20 anos""
95PULIANELLI Vincenzo26 anos""
96ALLEGRETTO Caruso19 anos""
97AMBROISE Salvatore22 anos""
98CALABRIA Santo20 anos""
99CIOFI 20 anos""
N.
SOBRENOME
NOME
IDADE
PARENTESCO
PROFISSÃO
CLASSE
100CARIELLO Graziano43 anosContadino3a.
101CALABRIA Luigi52 anos""
102SEMAFORICO Domenico32 anos""
103MAREA Antonio49 anos""
104CARIELLO Antonio38 anos""
105SIGNORELLI Maria40 anos""
106ROMANO Raffaele29 anos""
107CASONE Carmo6 anos""
108CASONE Pasquale24 anos""
109CARILLO Pasquale25 anos

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Sobrenomes Imigrantes Italianos - Vapor Manilla - Porto de Santos 1897

 

SOBRENOMES IMIGRANTES ITALIANOS 

VAPOR MANILLA 

PORTO DE GENOVA AO PORTO DE SANTOS

30 DE OUTUBRO DE 1897




ALBERTI – ANDRETTO – AMBROSINI – ALFONZINI – ACARI – ARAGONA – ALESSANDRO – ANDREAZZA – ARDENTI

BERTAGNOLI – BRAGAVINI – BISELLO – BUZZI – BELUFFI – BOLZANI – BRIGATTO – BERTAGNOLI BULOLA – BECCATO – BETTA – BICCHI – BASSALI – BERTO – BOTOLUZZI – BALDISSIN – BOTTAZZOLI – BONARDI – BOSCHETTI – BERTAZZA – BORELLI – BORALI – BOLLANI ­– BELLINI – BRAGA –BAZZAGLIO – BONA – BRIGNOLI – BOLZAN – BARADELLA – BANDCERA – BATTISTINI – BANELLA – BERGONI – BIANCHINI – BAGLIONI – BONETTI – BOTTA – BERTON – BENEDETTI – BALDI - BONETTI

CALZOLAR I – CEVOLANI – CAFFARI – CALCIOLARI – CARLESI – CORTI – CAMANI – CAPPELINI – CREOLA – CEGOGNINI – CONSANI – CECCARELLI – CAPPELOZZA – CASTELLINI – CERGOLINA – COIAZET – CARNIEL – CONTARINI – CARMINATTI – CARNEVALLI – CORBELLINI – CORNELLI – CLAUBONI – COLANGELI – COLANGELI – CICCOLANI – CALICCIA – CAPATI – CAPATI – CAPUNTO CALISCI – CLERICI – CORRADI – COLANGELI – CROTTI – CASANOVA – CASTALDI - CASTELUCCIO

DANESE – DIOLI - DELLASERA – DEANTONI – DARELLI – DE SANTRI – D’AGNONE – D’AMÉLIO – D’ESTEFANO – D’ONOFRIS – DONATO – D’AMMICO – DI RIS – D’AMBROSIO – DI MARTINO – DELIBERALI – DAL´LARA

EVANGELISTA – ESPOSITO

FACCHETTI – FRITTOLI – FERRARI – FERRARI – FERRARI – FRANCHINI – FRANZINI – FAMBOLATO – FONTANA – FAGGI – FABBRI – FACCHIA – FAVARO – FRANZOSI – FAVA – FAGGION – FENI – FRATUS – FOGLIENI – FINAZZI – FERRARI – FACCHINETTI – FRANCESCONI – FOGA – FRATI – FOGOLIN – FRESCHI – FRITTOLLI – FASANI – FIORAVANTI – FIORENTINI – FERRI –FROLLINI – FIORI – FASSI – FIGERI – FORMENZOLI – FINOCCHIO – FIORI -

GORLAGHETTI – GIUSTI – GEREVINI – GENNARI – GARBERIO – GANDOLFINI – GABOARDI (5) – GINI – GARBINI – GARBIM – GATTI – GUARNIERI – GIULIANI – GIAMORIO – GRINALDI – GRISCIOLI

IPIGAI – IPURIO – IVES – IPPOLITO

LEREGNI –LAVEZZI – LUI – LONARDI –LOMMAGGIO – LUI – LORENZI – LOCATELLI – LORENZI – LORANDI – LUCCINI – LORENZONI – LEONE – LUCIATORA - LUCCARINI

MANFREDI – MALVESTIA – MANFRINATO – MANFREDINI – MERLIM – MISSON – MARCHESI – MARTINELLI – MALPELI – MEZZOLI – MONTRANI – MANDELLI – MARCELLINI – MARIOTTI – MILANESI – MARINARI – MASIERO – MIOTTO – MEINESCHMEDT – MADELLA – MOSCIATTI – MODENA – MONTANARI – MASSOLA – MASSOLA – MARINI – MOLINARI – MENEGATTI – MICHELETTI – MARON – MARON – MARON – MASSINI – MANELLI – MARSELLINO – MANTONI – MACCHIONE – MORAIA – MASTROCINQUE – MACHIARERMO – MILANO – MENEA – MANCINI - MECHIELINI

NERI – NOCERINO – NOCERINO – NOCERINO –

OLDRIGHI – ONETA – OGNELI – ONAGLIA – OIELI - OSCISETTI

PINFARI – PICHETTI – PEGORINI – PEDRIZZI –PASTR0 – PRAVATO – PASTRE – POLLESEL (5) – PIRON – POLETTI – POLI – POZZAGLIA – POLLASTRINI – PIM – PASQUALINI – PETTORI – PETTORI – PAOLUZZI – PASSACANTILI – PALOCCI – PRONI – PORATI – PERUZZI – PADUANO – PIPOLA – PELEGRINI

RAPHARELA – RUFFONI – ROMAGNOLI – ROBECCHI – ROSSATO – RAMUCCIOTTI – ROSSI – RAFFAINI – ROSSETO – RODOLFI – ROSSI – RADDESTRA – REA – RUGGIERO

SPOLTI – SALVESTRINI – SCANDOLARA – SANDRESCHI – STEFANON – SPAGNA – SPARAGRAN – SERUGHETTI – SCALARI – SIGNINI – SACCHI – SANTINI – SCACCIA – SCULIO – SANTINI – SUPERTI SCACCHI

TORI - TEODORI – TROMBINI – TORI – TURCHI – TORI – TEODORI – TROMBINI – TORI – TRAMBAIOLO – TOSETTO – TRUCCI – TRAVISAN – TACCARELLI – TOSSI – TRENTA – TEBALLI – TORO – TERRENZI – TORALDO – TORIO - TONCIN

UBERTI - UGGERI

VERSETTI – VERZOTTO – VALERANI – VIVIANI – VESSOLA – VENTURINI - VIGNOLI – VALENTINO – VETTORI

ZANARDI – ZACCAGNINI – ZACCARIOTTO – ZACCNI – ZAMBELLI – ZUCHELLI – ZILIANI –ZANGARINI – ZACCARINI – ZUCCHINI


segunda-feira, 13 de julho de 2026

Os Dias de Terra Vermelha – A Saga dos Imigrantes Italianos na Construção de uma Nova Vida


Os Dias de Terra Vermelha – A Saga dos Imigrantes Italianos na Construção de uma Nova Vida

Histórias de sangue, suor e esperança na nova terra

A embarcação deixara Gênova sob o manto escuro do inverno de 1877. No porto, o vento trazia um cheiro de carvão molhado e peixe apodrecido, misturado ao fedor das águas estagnadas e dos corpos que há dias não conheciam o conforto de um banho. O embarque fora lento e áspero, marcado por empurrões e ordens gritadas por marinheiros que tratavam os imigrantes como carga. Homens e mulheres entravam no navio com os ombros baixos e o olhar inquieto, como se pressentissem que estavam se despedindo não apenas da terra natal, mas de uma parte essencial de si mesmos.

A bordo, amontoados entre cordas, malas e barris de água salobra, viajavam almas movidas não pela ambição, mas pela urgência da sobrevivência. Não havia entre eles exploradores, nem sonhadores românticos. Eram lavradores vencidos pela terra, operários expulsos pelas fábricas, viúvas com filhos pequenos, anciãos que preferiam morrer longe da Itália a continuar mendigando nela. O ar no porão era espesso, saturado por umidade, fezes humanas e o cheiro ácido do enjoo. Os que não conseguiam espaço nos beliches improvisados dormiam sobre sacos de farinha, revezando turnos de descanso como se estivessem numa trincheira invisível.

Entre os passageiros, Giuseppe Miazani, lavrador do Veneto, carregava no corpo as marcas de uma existência consumida pela necessidade. Os dedos, enrijecidos e tortos, pareciam feitos de madeira. As costas, curvadas desde os quinze anos, denunciavam uma vida passada entre enxadas, pedras e sulcos estéreis. Aos quarenta e dois anos, não esperava milagres, apenas uma chance. Viajava ao lado da esposa Teresa, de olhos fundos e voz rarefeita, e dos três filhos pequenos, que não sabiam o que deixavam para trás, mas percebiam no rosto dos pais a gravidade de quem parte sem certeza de retorno.

A fome o expulsara da Itália. Não uma fome momentânea, mas uma fome crônica, social, de gerações. A terra do Veneto já não pertencia aos que a cultivavam, e os donos do grão e do poder não tinham mais uso para homens como Giuseppe — homens sem títulos, sem fortuna, sem instrução. O Brasil o chamava com promessas que ele não compreendia. Cartazes pregados em paróquias falavam de terras férteis e liberdade, mas ninguém os lia com clareza. Eram palavras repetidas em boatos de feira, distorcidas pelo analfabetismo e pela esperança. Promessas escritas em papéis oficiais que ninguém ali sabia decifrar, mas que pareciam melhores do que a fome no estômago, o imposto impagável e a lenta humilhação de se ajoelhar diante do agiota da aldeia.

Na primeira noite no navio, Giuseppe percebeu que a travessia não seria apenas uma mudança de continente, mas um ritual de purgação. A água para beber era escassa e morna, a comida, um mingau ralo distribuído como esmola. Os ratos disputavam espaço com os doentes. Choros infantis misturavam-se a tosses secas e orações sussurradas. O mar, indiferente, lançava ondas que faziam ranger os cascos e vomitar os fracos.

Mas apesar do desconforto, da náusea, do medo, Giuseppe conservava uma convicção muda — aquela travessia era o último gesto de dignidade possível. Morrer no navio, ou mesmo na nova terra, seria ao menos morrer tentando escapar da condenação a uma vida sem futuro. E assim, com os pés trêmulos e a alma em suspenso, ele atravessava o oceano como milhares de outros camponeses expulsos do mapa da velha Europa, tentando escrever com o próprio corpo o primeiro parágrafo de um novo mundo.

A travessia fora um lento processo de desaprendizado do mundo antigo — não apenas geográfico, mas espiritual. A cada dia em alto-mar, as referências que sustentavam a vida anterior — o campanário da vila, o cheiro das estações, os nomes das ruas e dos santos — esmaeciam como tinta lavada. No porão do navio, onde centenas se apertavam sobre tábuas mal pregadas, a passagem pelo oceano se tornava mais do que uma jornada física: era uma travessia interior, uma lenta erosão da identidade. Já não eram italianos, ainda não eram brasileiros. Eram, por ora, náufragos do passado.

Em Gibraltar, o navio permaneceu ancorado por dias, sem que explicações fossem dadas. As autoridades portuárias inspecionavam os porões com desconfiança, contavam cabeças, revistavam papéis enrugados e carimbos malfeitos. Os imigrantes, por sua vez, assistiam ao movimento do porto com um olhar misto de desejo e resignação. Homens sentavam-se à beira da amurada e observavam a espuma do mar como quem observa um altar. Era um gesto instintivo, quase litúrgico: olhar para o horizonte como quem reza, como quem tenta negociar com o destino uma travessia menos cruel.

O tempo ali parecia suspenso, e a tensão acumulada finalmente explodiu no dia 23 de dezembro, ao entardecer, quando o porão do navio fervia de corpos e vozes abafadas. A maioria jantava em silêncio, com as mãos sujas de fuligem segurando pedaços de pão escurecido. O calor era opressivo. Os odores da comida fermentada, da água parada e do medo se misturavam em um ar quase irrespirável. Foi então que, como um trovão sem relâmpago, uma voz rompeu o abafamento do ambiente: "Fogo!"

O pânico se espalhou com a velocidade de um raio. O espaço exíguo transformou-se num labirinto de gritos e colisões. Homens se ergueram de um salto, empurrando mesas, baús e crianças. Mulheres agarravam os filhos pelos braços, aos gritos, como se as palavras pudessem proteger da morte. Algumas desfaleciam antes mesmo de saber se o perigo era real. Crianças pequenas, esquecidas nas pressas dos adultos, choravam com os olhos arregalados, tentando chamar por nomes que não mais sabiam pronunciar corretamente. As orações surgiam em dialetos fragmentados — veneziano, napolitano, lombardo — como ecos de aldeias extintas.

Não havia fogo. Não havia água invadindo os porões. Não havia sequer um estopim visível para o terror. Havia apenas o medo. Um medo nu, ancestral, que tomava os corpos e os fazia se mover sem lógica, impulsionados apenas pela ideia súbita da morte iminente. O que rompera o silêncio naquela noite não fora um incêndio, mas a constatação brutal de que todos ali estavam à mercê de forças que não compreendiam — o mar, o tempo, a sorte. A voz que gritara "fogo" não fora apenas um alarme falso. Fora um catalisador. Um rasgo no tecido da ilusão. Até aquele momento, os passageiros ainda sustentavam a esperança de que a travessia fosse uma ponte. Depois daquela noite, perceberam que era uma roleta.

A desorganização perdurou por horas. Tripulantes tentavam conter a histeria com ordens que ninguém entendia. Um velho sofreu um colapso e morreu sentado, com os olhos abertos para o teto escuro. Uma mulher entrou em trabalho de parto prematuro, ali mesmo, sobre o chão de tábuas. O navio, que avançava lentamente pelo oceano como uma máquina de ferro gemendo, prosseguia indiferente. Lá fora, o mar não sabia dos nomes dos que carregava. Lá dentro, os homens começavam a esquecer os próprios.

Quando enfim aportaram no Brasil, o calor tropical parecia zombar dos mantos pesados que usavam. Os casacos de lã, as saias múltiplas, os lenços escuros apertados ao pescoço — todos símbolos de uma Europa que se desvanecia — tornaram-se uma armadura inútil diante do bafo escaldante que subia do cais. O ar tinha peso. Não era apenas quente, era espesso, cheio de umidade e cheiro de frutas que fermentavam no sol, de suor humano, de fumaça e maresia. Para os que vinham do frio das montanhas do Piemonte ou das neblinas lombardas, aquele era um clima hostil, quase ofensivo. Mas não reclamaram. Havia nos olhos dos recém-chegados uma resignação densa, como se tivessem esgotado há muito o direito de se queixar.

O porto era uma confusão de idiomas, tambores, berros e carga. Funcionários imperiais, muitos deles armados, gritavam instruções em português a grupos que não entendiam uma palavra. Os imigrantes, com baús amarrados em trapos e crianças ao colo, esperavam horas sob o sol antes de serem divididos, numerados, alocados. As promessas feitas na Itália — terra, casa, liberdade — agora eram traduzidas em filas e carimbos, em listas lidas por funcionários apressados que não sabiam pronunciar seus nomes. Aquilo que haviam chamado de "chegada" era, na verdade, o início de outra espera.

Santa Maria, no coração do Rio Grande do Sul, era ainda pouco mais do que um traço incerto nos mapas traçados nos escritórios abafados do Império. A região prometida aos colonos — a Colônia Silveira Martins— existia mais nos planos do que no chão. Na prática, era um território de mata densa, de barro profundo, de trilhas abertas a facão por homens que nunca haviam domado uma floresta. Dividida em lotes traçados por agrimensores que raramente punham os pés no campo, a colônia era feita de dois elementos: mato bruto e sonhos desesperados.

Giuseppe foi encaminhado junto com outros recém-chegados para um desses lotes, distante várias léguas da sede da colônia, além de colinas sem nome, onde nem mesmo os tropeiros se arriscavam com frequência. O transporte até ali foi feito em carroças instáveis puxadas por bois exaustos. Levaram dias para chegar. Quando finalmente desceram na clareira que lhes fora designada, não havia sinal de civilização — apenas uma faixa estreita de terra batida, marcada pelas rodas que traziam os imigrantes e logo sumia engolida pela floresta.

Ali, o mato era mais do que vegetação: era presença. Árvores com troncos largos como colunas bloqueavam o céu. Cipós grossos desciam como serpentes dos galhos altos, e o solo era coberto por uma manta viva de raízes e folhas em decomposição. O ar, abafado mesmo à sombra, era cortado apenas por dois sons: o zumbido persistente dos insetos e o baque seco do machado, que começava, dia após dia, a desbravar a densidade do nada.

O silêncio era absoluto entre os golpes. Um silêncio que não era ausência de som, mas a ausência de tudo o que tinham conhecido: sinos de igreja, passos nas calçadas de pedra, vozes nas feiras, cantos ao entardecer. Tudo isso fora deixado atrás do oceano. Agora havia apenas a floresta e o tempo — um tempo que parecia se mover sem pressa, indiferente ao cansaço, à febre e à saudade.

A mata virgem não cedia facilmente. Ela resistia como um animal ferido, feroz, mas silencioso. Não havia caminhos prontos, nem linhas retas. Cada metro conquistado era fruto de semanas de trabalho repetitivo, árduo e perigoso. Árvores com diâmetros de um abraço inteiro precisavam tombar antes que qualquer semente tocasse o solo. Os machados, ainda sem fio adequado, batiam em troncos que pareciam feitos de pedra, e cada golpe exigia mais do que força: exigia paciência, disciplina e uma estranha fé no futuro. Quando enfim caíam, era como se parte do mundo antigo ruísse com elas.

A terra, de um vermelho intenso, sangrava ao ser revolvida. Esse barro espesso, que grudava nos tornozelos e encharcava os braços, tingia tudo o que tocava — roupas, pele, unhas, sonhos. Os panos das mulheres ganhavam manchas que jamais saíam; os calcanhares rachavam sob o peso da lama endurecida; as unhas se enegreciam. Mas aquilo não era apenas sujeira. Era batismo. Era o selo bruto de pertencimento a um lugar que não aceitava colonos — apenas sobreviventes.

Com mãos feridas, os dedos cortados pelo fio irregular do aço e pela lasca das toras recém-partidas, e pés inchados de carregar água em baldes improvisados, Giuseppe aprendeu não só a resistir, mas a transformar. Aprendeu a cultivar milho e feijão com sementes repassadas entre vizinhos de sotaques diferentes, a marcar o tempo das colheitas com os ciclos da chuva, a reconhecer os sons da mata como alertas ou bênçãos. Aprendeu também a levantar paredes sem pedra, apenas barro e palha seca misturados com o suor da manhã e o silêncio da tarde. Os barracos cresciam de dentro para fora, moldados mais pela urgência do que pela técnica, mas cada um deles representava uma pequena vitória contra o esquecimento.

A língua, no entanto, era uma selva ainda mais intrincada. Giuseppe não compreendia o idioma dos homens que o governavam, não lia os editais colados na sede da colônia, nem entendia as ordens proferidas nos registros agrários. As palavras do poder chegavam filtradas por intérpretes improvisados, por vizinhos alfabetizados, por crianças mais adaptadas do que os pais. Era um governo sem rosto, uma autoridade que vivia no alto dos morros, entre papéis carimbados e promessas vagas. E, no entanto, mesmo nesse silêncio forçado, a vida prosseguia.

Aos domingos, com a mesma dignidade exausta com que limpavam os olhos dos filhos, Giuseppe e Teresa vestiam as roupas menos sujas e subiam o caminho de terra batida até a pequena capela improvisada — um galpão de madeira com um crucifixo tosco e bancos feitos de troncos rachados. Aquilo não era uma igreja. Era uma ideia de igreja. Um símbolo mais do que uma casa de fé, uma tentativa de recriar o sagrado num mundo ainda em construção.

Ali, sob a luz fraca que passava pelas frestas das paredes, ouvia-se uma missa híbrida, onde o latim antigo misturava-se ao português arrastado do padre tropeiro e aos murmúrios dos colonos que respondiam em italiano, ou em dialetos que nem mesmo os vizinhos compreendiam. Mas não importava. Todos estavam igualmente confusos, igualmente curvados sob o peso da semana, igualmente unidos pela mesma fome, pelas mesmas dores, pela mesma esperança. E naquele instante breve, sob o som dissonante das línguas e o cheiro de madeira verde, havia um respiro — pequeno, frágil, mas real — no meio da vastidão selvagem do novo mundo.

As cartas eram o único elo com o mundo de antes. Em meio à floresta que engolia distâncias e dissolvia referências, aquele pequeno retângulo de papel era tudo o que restava de um tempo anterior ao oceano, à selva, à terra vermelha. Não havia mais ruas, nem marcos, nem igrejas familiares. Restava apenas a lembrança, e essa lembrança, para não desaparecer de vez, precisava ser escrita.

A cada colheita, depois de semanas de trabalho árduo e noites mal dormidas, Giuseppe separava um tempo, sempre às escuras, sempre exausto, para escrever ao irmão mais velho, que permanecera no Veneto. Sentava-se sobre um toco de madeira, com uma vela vacilante iluminando o papel úmido de suor, e fazia o que nunca aprendera bem: escrever. As palavras saíam com dificuldade, letra por letra, como se cada sílaba precisasse atravessar a resistência do cansaço. Eram frases curtas, simples, mas carregadas de significados invisíveis.

Contava as dificuldades — a febre que levara uma criança da vizinhança, a enchente que devastara a plantação de milho, a picada de cobra que quase custara a mão do filho mais novo. Mas contava também as vitórias, por menores que fossem: a nova carroça feita com madeira da região, o primeiro pão assado num forno que ele próprio construíra com barro e tijolo cru, a chegada de um vizinho de Trento que trazia notícias frescas da Itália e lembrava canções que todos haviam esquecido.

Esses pequenos triunfos eram tratados como feitos épicos. Não porque o fossem por si mesmos, mas porque simbolizavam algo mais profundo — a lenta, dolorosa, mas incontornável transformação de uma vida arrancada das raízes. Cada carta era um ato de resistência contra o esquecimento. Um gesto deliberado de manter acesa a centelha da memória, mesmo quando tudo ao redor parecia exigir o contrário.

A escrita tremida, manchada por mãos sujas de terra e calo, denunciava mais do que analfabetismo funcional. Ela revelava o esforço físico e emocional de um homem tentando segurar dois mundos pelas pontas. De um lado, o Piemonte, com sua ordem, sua língua, sua história. Do outro, o Brasil — inóspito, fértil, incontrolável. No meio, um homem que já não era um nem outro. Brasileiros? Italianos? Nem um, nem outro. Colonos apenas.

Esse termo — “colono” — que nos editais oficiais era sinônimo de categoria produtiva, ali ganhava outra densidade. Ser colono não era profissão. Era condição. Era viver suspenso entre o que se foi e o que nunca se saberia ser. Era plantar raízes em solo alheio sem a garantia de que essas raízes durariam. Era escrever cartas para alguém que talvez nunca respondesse, apenas para lembrar a si mesmo que um dia existira em outro lugar, sob outro céu, com outro nome.

Os filhos cresciam com os pés firmes no chão da colônia — não por escolha, mas por instinto. Era como se o próprio corpo, mais rápido do que o pensamento, entendesse que ali seria preciso fincar raízes cedo, sob risco de ser arrastado pela brutalidade do lugar. Eles corriam entre troncos derrubados e cercas improvisadas com a segurança de quem não conheceu o mundo de antes. Para eles, o mato alto, o barro vermelho, o cheiro doce da cana fermentando no ar quente do meio-dia, não eram obstáculos. Eram paisagem. Eram casa.

Aprendiam a ler em português, nas tábuas toscas de uma escola improvisada ao lado da capela, onde uma professora jovem, também filha de imigrantes, ensinava sílabas com pedaços de carvão. Os cadernos eram escassos, o silêncio impossível, mas havia aprendizado. A nova língua entrava devagar, como um rio que contorna pedras, e tomava forma nas vozes das crianças. Lia-se com sotaque, mas lia-se. Escrevia-se mal, mas escrevia-se. O idioma da terra que os acolhera, por força e necessidade, se infiltrava nas gerações mais novas com naturalidade inevitável.

Mas em casa, ao redor do fogo baixo e do pão duro, cantavam-se as antigas canções do norte da Itália. Canções de casamento, de colheita, de Natal — aprendidas com os avós, murmuradas pelas mães em voz baixa enquanto amassavam a farinha ou lavavam as roupas no riacho. As palavras vinham em dialeto, carregadas de imagens que as crianças não compreendiam totalmente, mas que sabiam de cor. Eram palavras herdadas, como a cor dos olhos ou a forma do queixo. E nelas, mesmo sem entender, sentiam um pertencimento inexplicável. Era como lembrar de algo que nunca se viveu, mas que, ainda assim, se reconhecia.

O tempo fazia deles algo novo. Não eram mais italianos — o idioma já lhes escapava, as festas tradicionais se perdiam na confusão dos calendários coloniais. Tampouco eram brasileiros, pelo menos não aos olhos dos que ali haviam nascido há gerações, e que os viam com desconfiança, como intrusos que falavam estranho e comiam polenta no lugar do feijão. Eram outra coisa. Um povo em formação, ainda sem nome, ainda sem história oficial, mas com identidade em gestação. Uma geração que não pertencia a parte alguma, mas que, ironicamente, fincava raízes mais profundas do que qualquer outra — raízes firmadas não em tradição ou pátria, mas em resistência cotidiana.

E essas raízes, invisíveis aos olhos dos governantes e das estatísticas, cravavam-se fundo na terra que antes era só mato — uma terra que não lhes fora dada, mas que conquistaram com enxada, com silêncio e com tempo.

Anos depois, quando Giuseppe alcançava o topo do pequeno morro onde, pedra sobre pedra, levantara com as próprias mãos a casa que abrigava sua família, ele não enxergava ali o reflexo de prosperidade. O que via, com olhos gastos pelo sol e pelo tempo, era permanência. Não havia luxo nas cercas que demarcavam o terreno — apenas madeira rude, escurecida pela chuva e pelo calor. Mas cada estaca cravada no solo era um marco: não de posse, mas de resistência. Um testemunho silencioso de que ali alguém decidira ficar, mesmo quando tudo parecia convidar à desistência.

Os sulcos na terra, onde o milho crescia em fileiras que ondulavam com o vento, não representavam colheita abundante ou fartura de mesa. Representavam tempo investido com esperança metódica, como quem reza sem saber se será ouvido. A cada nova estação, a mesma dúvida: vingará? Mas o solo, com o tempo, aprendera a responder com generosidade cautelosa. E Giuseppe, embora soubesse que nunca enriqueceria ali, compreendia algo mais profundo — que permanecer, em si, era já uma forma de vitória.

Cada cicatriz em suas mãos — cortes abertos por enxadas cegas, calos endurecidos pela corda da carroça — era uma linha escrita na história muda dos que vieram para plantar um futuro onde antes só havia incerteza. Não havia livros contando suas trajetórias. Nenhum jornal narraria a lida do colono piemontês entre os montes abafados do sul do Brasil. Mas ele sabia, de maneira instintiva, que estava deixando marcas tão fundas quanto as do arado na terra úmida.

E foi esse mesmo senso de verdade contida que transpareceu na carta escrita em março de 1878. O papel, manchado de suor e terra, levava ao irmão distante na Itália uma notícia simples, quase seca: “Estou vivo em Santa Maria Boca do Monte.” Nenhum adorno. Nenhum lamento. Nenhuma epopeia. Apenas a constatação nua de que ele, Giuseppe Miazani, lavrador, pai, imigrante, estava ali — respirando, trabalhando, esperando. Tivera fome, sim. Dormira com medo, sim. Mas erguera sua casa. Plantara seu milho. Chamava aquele pedaço de terra, não de pátria, mas de seu.

E isso, para alguém que partira com as mãos vazias e a alma entreaberta, era mais do que suficiente.


Nota do Autor

Os Dias de Terra Vermelha nasceu da vontade de resgatar e preservar as histórias daqueles que, com coragem e esperança, deixaram suas terras natais para construir uma nova vida em solo desconhecido. Este livro é uma homenagem silenciosa às gerações de imigrantes que, enfrentando dificuldades imensas, transformaram o solo árido em campos férteis e cultivaram raízes profundas em terras distantes.

Ao longo destas páginas, procurei mergulhar na alma desses homens e mulheres comuns, cujas vidas foram marcadas pelo esforço, pela dor da saudade e pela fé inabalável em dias melhores. Não se trata apenas de um relato histórico, mas de uma narrativa que busca captar o pulsar da experiência humana – suas alegrias, seus desafios, suas pequenas grandes vitórias.

Espero que a obra Os Dias de Terra Vermelha inspire o leitor a valorizar as memórias e os legados que construíram o presente e que, muitas vezes, permanecem ocultos sob a poeira do tempo. Que esta história seja um convite a refletir sobre o sentido de pertença, trabalho e esperança, tão essenciais para a construção de qualquer futuro.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



segunda-feira, 22 de junho de 2026

I Conti del Destin - La Stòria dei Poareti che i Nùmari no i ghe Bastava a Spiegar


I Conti del Destin - La Stòria dei Poareti che i Nùmari no i ghe Bastava a Spiegar

Tra nùmari e registri del Regno d’Itàlia, ghe zera vite che le statìstiche no gavea mia rivà a contar — solo el destin savéa racontar".


Arezzo, Toscana – Inverno del 1883

Ghe zera un tempo che anca i nùmari ga scominsiar a contar le stòrie. El Regno d’Itàlia, gnente gnente nato, el volea capir la so pròpria gente, e la nova Direzion Generale de la Statistica la gavea scominsià a segnar chi che nasceva, ma anca chi che partiva — e parché.

Tommaso Bartolomei no el gavea mai avù gnanca un poco de interesse par le statìstiche. Da che lu gavea dodese ani el laorava ’nte la segale de un baron che gavea perso tuto, a curar ’na tera che no dava gnanca da magnar ai fioi del paron. A trentadò, con i polmon consumà dala pòlvere e le man massacrà dal laoro, Tommaso lu el zera diventà un nùmaro in pì ´ntei registri: contadin, sposà, analfabeto, sensa tera, con do fiol. E adesso, candidato a l’emigrassion.

No el zera el primo da la so vila. El movimento za se vedea. Lètare con i selo de Montevideo, Buenos Aires, Rio Grande do Sul e São Paulo rivava in cesa, con note de recomendassion e promesse. I zòvani partiva da soli, drito i pasi de fradèi, zìi o compare. I sindici scrivea rapòrti fredi, parlando de ’sto “scapar dei brassi” con preocupassion. I paron de tera i batea a la porta del Ministero del Interno, volendo blocar i passaporti — i gavea paura che mancasse man, che el laoro costasse de pì, che finisse el sistema basà sora la rassegnassion dei poareti.

Ma i poareti i savea contar in un altro modo. I savea che quatro monede dal Brasil valéa pì che tre mesi de sudor sora la tera magra de Toscana. I savea che ’n fiol a Campinas podéa mantegner sinque in Arezzo. E Tommaso el savea, con la convinssion de chi che ga già perso massa, che restar voléa dir morir pian pian.


Génova e Nàpoli – Porti de Imbarco, Maio del 1884

I bastimenti partiva cargà fin al colmo. Ogni nome scrivesto sul libro de bordo el zera ’na mancansa ntei nùmari de là e ’na presensa nova da questa banda del mar. La buracrasia la zera pesante: bisognava far la domanda del passaporto al sìndico, pagar la tassa, aver el permesso dei militari — e dopo, el visto de ussita.

Tommaso el partì con i so documenti, sensa pagar agenzie. El viaio el zera stà pagà da un cugnà che laorava a cargà casse ´ntel porto de Santos. A diferensa de tanti, el gavea già un posto: el ´ndava a laorar in ’na fazenda de café, ´ntela provìnsia de São Paulo. A la dogana, el passò la revìsita sanitària, la bagaia la ghe fu spetolà, e el so nome el fu segnà do olte in un quaderno che dopo el saria stà mandà al Commissariato Generale de l’Emigrassion, gnente gnente creato.

In la tersa classe, tra putei con la febre e done in vèste de luto, el sentì le stòrie de altri nùmari: un stagnin da Calabria, un murador da Umbria, un vedovo da Basilicata. I zera in tanti, de tanti posti, ma con el stesso destin: finir de contar par le statìstiche, e scominsiar a contar par el mondo.


Fazenda Boa Vista, Provìnsia de São Paulo — 1885

El Brasil no el zera segnà sui mape de l’emigrassion come l’Amèrica del Nord o l’Argentina. Ma le promesse de tera, clima bon e abondansa gavea incantà tanti. I libri de propaganda i meteva tuto in bel: i colori de la mata, el sol che scaldava, ma gnente se disea dei dèbiti, de le febre, del sudor.

In la Fazenda Boa Vista, Tommaso el capì svelto come che ´ndava: sistema de meità, magazino che vendea caro, gnanca un soldo in man e el capataz che comandava tuto. La tera la zera bona, ma el sistema el zera baston. Ma lù el restò. El resisté. El gavea man bon con la zapa, contava ben, el sparagnava ogni sentèsimo. Dopo do ani, za mandava schei a la mòier, che zera restà in Toscana. Dopo sinque, el ga portà anca i fiòi. Dopo sete, el ga comprà un peseto de mata poareta sora el rio Jaguari.


Sumaré, 1909 — Vinticinque ani dopo

Tanti ani dopo, el nome de Tommaso Bartolomei el comparì ’na volta sola in un raporto del Ministero de la Statistica. Zera in un apéndice: “contadin, emigrà in Brasile, con mòier e fiòi, destin São Paulo, porto Génova.”

La maior parte de chi che zera partì, el ze rivà a tornà in Itàlia. Ma Tommaso no. El restò. El diventò paron de ’na pìcola proprietà, el piantava gran, el tegneva porséi, e la sera el insegnava i nùmari ai fiòi dei altri colóni. El tegneva ancora el passaporto italiano come ’na relìquia, insieme a la carta del teren e le lètare spedide a la soa comuna.

Lu el zera un tra 26 milioni de taliani che, tra el 1876 e el 1960, i ga lassà la so tera. Un tra milioni che i ze sta segnà par età, sesso, mestiere e porto. Ma, come che el gavea scrito su un peseto de carta infilà tra le note del campo:

“Le statistiche no ga fame, no tremola in fondo a un bastimento, no sepelisse fiòi ´ntela foresta calda del Brasil. Solo i vivi i conta ’sta parte de la stòria.”


Nota de l’Autor

Sta stòria la ze nassesta con la voia de dà carne e vose ai nùmari che, par tanto tempo, i zera stà ridoti a nùmari. ‘Nte i archivi fredi de la Direzione Generale della Statistica, contadin come Tommaso Bartolomei i comparìa sol come ‘na riga ‘nte le tàole: età, mestiere, analfabetismo, destinassion. Ma drio a ogni dato ghe zera un corpo straco, ‘na scielta dura, ‘na speransa testarda — e ‘na stòria che la meritava de vegner contà.

I Conti del Destìn el ze ‘na prova de cusir la vita con el registro, de farghe un ponte tra la literatura e la demografia. Seguindo la strada de Tommaso, mi son lassà guidar da fonti stòriche vere: raporti ministeriài, boletin de l’emigrassion, règole dei porti e propaganda ufissial de quela època. Ma sopra de tuto, me son fidà del silénsio de chi che el ze partì sensa lassar memòria scrita — de quei che, come lu, i ze restà pì come eredità che come nome de ‘na piassa.

No se trata de romansear el sofrimento, gnanca de far de l’emigrante un eroe. Ma piutosto de ricognosser che tra le statìstiche e i destin, ghe ze sempre vite che val. E che le stòrie dei anónimi, come Tommaso, le pol imparàrghene pì sul pasà — e su de noialtri — che qualsiasi gràfico con le lìnie.

Ai dessendenti de sti nùmari viventi, questa òpera la ze dedicà. Che in sta stòria i possa catar un spècio, ‘na radise, o almanco un fià de apartenensa. Parché ciò che no se conta, se perde. E ciò che se fa stòria, el resta.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Tra ’l Vèneto e ‘l Cafè - La Vita de Giovanni Dal Molin


Tra ’l Vèneto e ‘l Cafè
La Vita de Giovanni Dal Molin

Giovanni Dal Molin lu el ze nassesto a Quero, ‘na volta ‘na vila picolina tra i vali de la provìnsia de Belluno, dove’l vento del Piave supiava con ‘na malinconia che parea za avisar le partide. Fiol de ‘n pòvero contadin meeiro e de ‘na mare con le man calesà dal lino, el zera cressesto soto el peso de ‘na Itàlia pena unita, ndove le promese del novo Regno parea sempre perderse tra i monti.

Inverno del 1879, quando la neve se mescolava con el odor de fumo dei fumariol e con el eco de le preghiere, Giovanni ciapò la decision che segnaria el so destin: partir. La fame che se spandea tra le vile del Vèneto no zera solo mancansa de pan, ma sopratuto ausensa de speransa. Le racolte zera magre, la tera no bastava, e le tasse del novo governo, somà ai dèbiti con i paroni, trasformava ogni semensa in un peso morto.

A la picolina parochia de San Girolamo Emiliani, el campanel suonava con el stesso ritmo dei sècoli, indiferente a la misèria dei òmeni. Giovanni gavea dato un’ùltima ociada ai monti, coperti de neve, e capì che quel bianco no zera puresa, ma desmentegansa. Partì con un pìcolo saco de lino con qualche roba drento, pan seco, un rosàrio e ‘na lètara del fradel magior, che ghe prometea de tegner el toco de tera de casa fin al so ritorno — un ritorno che, in fondo, el savea, no gavaria mai sussesso.

Come tanti de la so generassion, lassava drio la lèngua, el nome scrito sui sassi, e partia verso ‘na promessa astrata ciamà “Mèrica”.

El porto de Zénoa zera ‘na confusion de vosi, lèngue e odori. Miaia de corpi streti intorno a veci navi che parea pì carcasse flutoante. Giovanni se imbarcò su un vapor de seconda man afità da ‘na compania italiana, che prometea passagio gratis in cámbio de laoro garantì sui fasende de cafè del Brasil. Le promese zera tante ma ilusòrie: tera fèrtile, case bianche e salàrio giusto. La realtà, però, se mostrava za ´ntel porto e ´ntel navio.

Le profundesse scure del vapor, dove Giovanni stava, zera ‘na caverna sporca, ùmida e fètida. Se sentiva ancora l’odor forte de carbon che el carghero gavea portà poco prima. L’ària rarefata se mescolava con el odor de oio, gòmito e altri deieti umani. I fiòi piansea quasi sensa forse, le mare nascondea rosari e ritrati drento i vestidi, i òmeni tossiva fin al sangue.

La traversia durò trentacinque zornade. Ogni matina zera ‘na vitòria su el traditor mar. In certe noti calme e strelà, con permisso del comandante, Giovanni montava su el ponte e guardava l’orisonte. El mar, agità e griso, parea desfar chi lo sfidava. Zera un’esìlio lìquido, un ventre de fero che ingoiava vite e gomitava sopravissuti. Tra el suonar del motor e el scrichiolar de le tavole soto la pression de le onde, el pensava al futuro.

El Brasil zera ‘na parola che ancora no gavea forma. Diceva che ghe zera sole tuto l’ano, àlbari de café dense come le vigne del Vèneto e tera rossa, generosa. Ma i rumori parlava anca de malatie, febri, bisse velenose e signori con la piel abronsà che comandava piantassion imense come un capitano comanda ‘na nave.

Quando el vapor el ze rivà a Santos, l’ària ùmida e calda che ga colpì come ‘na sberla. La vegetassion zera verde brutale, el solo pulsava come vivo. Giovanni ze stà menà con ‘n grupo de compaesan strachi e ansiosi verso el cuor del interior paulista. El viaio serpenteava tra paesagi scognossù: vasti canaviai, pàscoli sensa fine e vilote picoline, con le cese de legno. Da le finestrine, un mar de canaviai e cafè si stendeva fin al’orisonte, come un invito a entrar ´ntel scognossù.

Al fin del percorso, lori son arivà in ´na fasenda intorno a la sità de Ribeirão Preto, ndove i dovea transformar la tera in sustento, laoro e forse speransa — un futuro lontan dal Piave e dal conforto de le aldeie dove son nati. La picola stassion, persa tra i canaviai e nùvole de pòlvere rossa, segnava la fin del lungo viaio scominsià da l’altro lato del ossean. L’ària calda vibrava sui binari, e l’odor dolse de la cana taià se mescolava con el sudor e la strachessa dei viaianti.

Da lì in poi, restava ancora venti chilómetri fin a la fasenda — strada de tera batua e salite seche, fata a piè da alcun de loro e con carosse dindolanti da altri. El novo paron gavea mandà quei mesi per ciapar i futuri laoratori, e le bèstie ndava pian, come sentendo el peso de la traversia. Ogni passo alsava pòlvere che se incolava sui vestidi e sul viso dei emigranti, mentre el sol calava, dorando i campi e anunsiando lo scomìnsio de ‘na vita scognossù.

Al l´arivo, el fator brasilian, sopra ‘n caval nero, lesea i nomi dei novi arivà. Ogni uomo ricevea un nùmero, un baracon e ‘na zapa — come se, sceso dal vapor, no zera pì ´na persona, ma parte de ‘na machina invisìbile. La léngua zera ´na mura insuperàbile, separandoli dal mondo novo. Le ordine vegnia in suoni strani, sechi, che no ghe ricordava el canto del Vèneto o el murmurar dei coli ndove i zera nati. Tra lori e i fatori, no zera diàlogo: solo gesti, segnài bruschi e peso del laoro.

La tera e el sudor i ga diventà l’ùnico idioma che tuti capia, la lìngua universal de la sopravivensa. ´Ntei primi mesi, Giovanni el ga imparà el peso del sol. El corpo diventava strumento: mùscoli che obedia, schene che soportava, man che se taiava. La "fazenda" zera un mondo chiuso, governà da tempo pròpio. El campanel de la vècia senzala — ora ciamà “casa dei coloni” — segnava ore de laoro e descanso. El cibo era scarso, el salàrio venia in buoni da spender solo ntel negòssio de la "fazenda", ndove tuto costava el dòpio. I dèbiti cressea invisìbili, e el sònio de libartà se diluiva ´ntela pòlvere rossa paulista. Giovanni capia, lentamente, che la schiavitù gavea cambià nome, ma no essensa.

Epure, qualcosa resistia. ´Nte le note sensa luna, se sedea a porta del barracòn e vardava el cielo. El ciel del Brasil parea pì vasto, pì visin. A volte, el vento portava odor dolse dei fiori de café e, per un momento, el credea de esser a casa.

I altri emigranti, de Treviso, Vicenza e Padova, condividea el stesso scopo silensioso: laorar abastansa par far soldi e, un zorno, comprar un toco de tera. El parlava ´ntei momenti de riposo, mentre el sol calava tra i canaviai e el odor de tera ùmida saliva da solo. Soniava ‘na tera pròpria, ndove piantar uva, gran o fasòi — un posto solo loro, anche se modesto, ´nte le nove vilete intorno a Ribeirão Preto.

Giovanni no condividea quela ambission. Mentre i compagni parlava de risparmi, tere e futuri possìbili, el solo stava in silénsio, come chi no speta pì nula dal doman. El volea solo sopraviver — laorar abastansa per no dover niente a nissun e restar drito tra calor e fatiga. Drento, restava solo un eco lontan: el suonar dei campanèi de Quero la doménega e el murmurar del Piave tra i sassi, memòria de ‘na pase che parea de ‘n’altra vita.

A volte, ´ntele noti quando el vento passava tra le fessure del baracòn, el credea de sentir ancora quel rumor, come se l’Itàlia lo ciamava in secreto — ma el ciamà se perdea tra inseti e peso de le distanse.

I ani seguente corea pian, indistinti. La fasenda prosperava, i baroni del café se richea, e i coloni italiani se moltiplicava. Giovanni inveciò prima del tempo, i oci perdea el brilo, ma no serenità. Gavea imparà ad amar la tera che lo consumava. Ogni fila de café che piantava zera ‘n orgòio silensioso, come se ogni germòlio zera ‘na semensa de la so redenssion.

Ogni tanto, nove leve de emigranti rivava. Lu i vardava sbarcar con lo stesso stupor che un zorno zera el so. Savea cosa i ghe aspetava, ma no disea nula. La speransa, anche ilusòria, zera l’ùnico nutrimento che no se podea negar.

Mai tornò in Itàlia. El fradel pi grando senza rivederlo. Le lètare, inisialmente frequenti, se ga diventà rare e finalmente cessaro. Restava solo memòria de ‘na neve lontan e del rumor dei coli del Vèneto.

Quando morì, un pomerigio de dicembre 1912, nessun savea la so età precisa. Gavea el sepolcro soto ‘na croce de legno rùstego, visin a altri coloni. ´Ntel registro de la fazenda, lori i ga scrito solo: Giovanni Dal Molin, italiano, laorador del café. Ma soto la tera rossa de Ribeirão riposava pì de un nome: el sìmbolo de ‘na generassion che la ga traversà l’ossean in serca de ‘n sònio che mai se compì. La tera che lo tegnea, rossa e fèrtile, conservava el so silénsio. E quando el vento passava tra le foie del café, parea portar da lontan el eco d’un campanel de Quero, suonando per un omo che mai tornaria, ma che, in qualche modo, el ga finalmente trovà casa.


Nota del Autor

I nomi e qualche detàio de sta stòria i ze stà cambià par proteger la privacidade dei coinvolti. Ma la stòria de Giovanni Dal Molin se basa su fati veri, trati da lètare e registri de emigranti italiani del Vèneto conservà in musei e archivi stòrici del Rio Grande do Sul. El drama narà qua riflete el destin de miàia de italiani che, tra fin del XIX sècolo e scomìnsio del XX, i ga lassà le vile tra i monti de Belluno, Treviso e Vicenza in serca de vita degna ´nte le fazende de cafè e cana de zùcaro del interior paulista. Ogni pàgina de sto livro ze ‘n tributo al coraio silensioso de òmini e done che i ga traversà l’ossean spentonà da fame e speransa — e che, in tera lontan del Brasil, i ga aiutà a costruir ‘na nova pàtria sensa mai desmentegar la vècia. Ze anca ‘n invito a memòria: che no se perda le vosi che el tempo quasi el ga cancelà, né le stòrie che el vento i ga portà via, ma che forma el fondamento invisìbile de chi semo incòi.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta