quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Fome e Miséria na Itália do Século XIX e a Verdade Sobre a Vida Rural que Impulsionou a Emigração




Fome e Miséria na Itália do Século XIX e a Verdade Sobre a Vida Rural que Impulsionou a Emigração




Introdução

A Itália que nossos antepassados deixaram para trás

A emigração italiana — especialmente entre 1870 e 1914 — não nasceu do acaso. Atrás das malas improvisadas, das longas travessias e das despedidas sem retorno havia uma força muito maior: a fome estrutural e a miséria rural que devastavam a península. No final do século XIX, a recém-unificada Itália era um país profundamente desigual, marcado por doenças, nutrição deficiente, campesinato empobrecido e mortalidade infantil assustadoramente alta.
A mais completa fotografia desse cenário veio da Investigação Agrária Jacini, iniciada em 1880, documento que revelou em detalhes o sofrimento cotidiano de milhões de pequenos agricultores italianos. Ao compreender essa realidade, entendemos não apenas como viviam nossos antepassados — mas por que tantos deles decidiram partir em busca de uma vida possível nas Américas.
Casebres, animais e seres humanos: um único espaço para sobreviver
O relatório Jacini é contundente: nos vales alpinos, nos Apeninos, nas planícies do Mezzogiorno e até em províncias agrícolas do norte, milhares de famílias viviam em um único aposento, sem janelas, sem circulação de ar e sem higiene adequada.
Homens, mulheres, crianças, cabras, porcos e galinhas dividiam o mesmo ambiente — uma imagem que pode parecer grotesca, mas que era extremamente comum. O documento menciona que esses casebres, muitas vezes enegrecidos pela fumaça e pela umidade, somavam talvez centenas de milhares em toda a Itália.
Essa promiscuidade não era apenas um sinal de pobreza; era uma necessidade de sobrevivência. O calor corporal e o cheiro forte dos animais eram tolerados porque qualquer fonte de calor era preciosa nos longos invernos italianos.
A “estrebaria”: sala, quarto, cozinha e santuário familiar
Segundo a investigação, para o pequeno agricultor, a estrebaria (estábulo) era o verdadeiro centro da vida. 
Ali:
  • se dormia,
  • se comia,
  • se recebia visitas,
  • se trabalhava,
  • e se passavam os meses gelados.
As mulheres costuravam, fiavam e remendavam; os homens jogavam cartas, afiavam ferramentas e contavam histórias antigas. Tudo acontecia ali — no mesmo espaço onde ruminavam vacas e cabras.
Essa realidade demonstra uma Itália rural aprisionada no tempo, com estruturas sociais medievais persistentes mesmo em pleno século XIX.
Polenta e pelagra: quando a comida é insuficiente para viver
Se a moradia era precária, a alimentação era ainda pior. A dieta do camponês italiano era quase exclusivamente polenta, feita com farinha de milho pobre em nutrientes. Em média, cada pessoa consumia cerca de 33 kg por ano — embora em muitas regiões esse número fosse maior.
Essa monotonia alimentar desencadeou a terrível pelagra, doença conhecida como “a doença dos 3D”: dermatite, diarreia e demência.
O maior pelagrosário do país ficava em Mogliano Veneto, na província de Treviso, onde a doença devastava comunidades inteiras.
Para tentar “dar sabor” à polenta, famílias passavam o alimento sobre um único pedaço de arenque defumado, compartilhado por todos — uma prática reveladora da escassez absoluta.
O vinho como alimento: crianças italianas e o alcoolismo rural
Onde havia vinhas, especialmente no Vêneto e na Lombardia, o vinho era parte essencial da dieta — não por prazer, mas por necessidade. Dizia-se: “O vinho faz sangue!”
Uma pesquisa envolvendo 12 mil estudantes primários revelou um dado chocante:
  • Apenas 3 mil não consumiam álcool.
  • 5 mil bebiam bebidas de alta graduação.
  • 9 mil bebiam vinho regularmente — e metade abusava.
O alcoolismo rural era consequência direta da miséria alimentar, não um hábito festivo como se romantiza hoje.
Órfãos abandonados e amas de leite: quando a pobreza molda laços familiares
Marco Porcella, em La Fatica e la Merica, explica que muitas famílias sobreviviam graças ao sacrifício das mulheres, que atuavam como amas de leite para órfãos abandonados.
Os chamados “filhos da culpa” eram colocados:
  • nas Rodas dos orfanatos,
  • nos degraus de igrejas,
  • nas portas de párocos,
  • ou nas mãos de parteiras.
Desnutridos e frágeis, muitos morriam antes de completar uma semana. Mesmo em anos sem epidemias, a mortalidade infantil chegava a 33%.
As amas de leite frequentemente devolviam as crianças por medo de transmitirem doenças às próprias famílias — especialmente sífilis, erroneamente vista como inevitável nesses casos.
Após um ano, esses órfãos deixavam de ser “crianças de leite” e se tornavam “crianças de pão”, podendo ser criados até cerca de doze anos, quando terminava a responsabilidade do hospital ou orfanato.
A vida vale menos que a de um boi: prioridades de uma sociedade faminta
Os relatos do médico Luigi Alpago Novello, que atuava na província de Treviso na segunda metade do século XIX, mostram como a miséria deformava a lógica afetiva das famílias.
Para muitos camponeses:
a doença ou morte de uma criança, idoso ou inválido era recebida com resignação,
enquanto a doença de uma vaca, boi ou cabra gerava desespero.
Os animais eram o sustento da família — leite, carne, trabalho.
Uma criança doente, sem capacidade produtiva, raramente justificava os custos de um médico. É duro, mas historicamente verdadeiro.
Medicina, higiene e mudança demográfica: avanços lentos, desigualdades persistentes
Com a chegada das campanhas de higiene e dos avanços médicos, sobretudo durante a administração austríaca no Vêneto, a expectativa de vida começou a melhorar.
Em 1911, a idade média dos óbitos subiu de 6,5 anos para 30 anos.
Ainda assim, a situação era dramática: naquele ano, crianças abaixo de cinco anos representavam 38% de todas as mortes no país.
A Itália caminhava lentamente rumo à modernidade, mas a herança da fome e da miséria ainda marcava profundamente a sociedade.

Conclusão: por que milhões fugiram dessa Itália

Todo esse sofrimento — fome, pelagra, alcoolismo infantil, abandono de órfãos, moradias indignas e mortalidade assustadora — compôs a realidade que milhões de italianos enfrentaram.
Essa realidade explica, com clareza brutal, por que tantos partiram:
  • não foi aventura,
  • não foi turismo,
  • não foi romantismo.
  • Foi sobrevivência.
Foi a busca por um destino possível, longe da miséria que a Itália do século XIX lhes impunha.
Entender esse passado é compreender a origem de milhões de famílias italianas espalhadas pelo Brasil e pelas Américas — e reconhecer a força e a dor que moldaram nossa própria história.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Religiosidade dos Imigrantes Vênetos nas Colônias Italianas do RS: Fé, Capitéis e a Formação das Comunidades

 


Religiosidade dos Imigrantes Vênetos nas Colônias Italianas do RS: Fé, Capitéis e a Formação das Comunidades

A religiosidade dos imigrantes vênetos nas colônias italianas do Rio Grande do Sul foi um dos pilares mais profundos da formação social, cultural e moral dessas comunidades. Para esses homens e mulheres, a fé católica não era apenas uma prática religiosa, mas um modo de compreender o mundo, interpretar o sofrimento e sustentar a esperança em meio às adversidades da nova terra.

A moral dos emigrantes vênetos era guiada quase inteiramente pelos preceitos da religião católica. O divino estava presente no cotidiano de forma constante: rezavam antes do trabalho, agradeciam ao final do dia, pediam perdão pelos pecados e favores nas horas de desespero. O temor a Deus funcionava como um limite moral e, ao mesmo tempo, como uma fonte de conforto. Essa devoção permanece visível ainda hoje nos inúmeros símbolos espalhados pelas antigas propriedades e comunidades: cruzes de madeira, capitéis à beira das estradas, pequenas capelas e igrejas que marcam a paisagem rural da Serra Gaúcha.

Para esses imigrantes e seus descendentes, os fenômenos da natureza nunca eram apenas acontecimentos físicos. Tempestades, secas, geadas, enchentes e deslizamentos de terra eram interpretados como sinais da presença divina. A leitura do mundo natural estava profundamente associada à fé. Em um território desconhecido, coberto por mata fechada e marcado pelo isolamento, essa religiosidade popular surgiu como resposta direta à necessidade humana de segurança, ordem e sentido.

A religião desempenhou um papel decisivo na proteção emocional e social desses grupos. Distantes da terra natal, arrancados de suas aldeias no Vêneto, muitas vezes abandonados pelo poder público e submetidos a condições de extrema precariedade, os imigrantes encontraram na fé uma forma de resistência. A igreja não representava apenas o sagrado, mas também a única instituição capaz de criar laços de solidariedade, disciplina moral e organização comunitária.

Nos primeiros núcleos coloniais do Rio Grande do Sul, o processo de ocupação do território seguia uma lógica quase sempre simbólica: antes das casas definitivas, surgiam as cruzes; antes das estradas estruturadas, os capitéis à beira dos caminhos, conhecidos como “linhas”. Esses pequenos marcos religiosos consagravam o espaço, protegiam simbolicamente o território e delimitavam a presença comunitária. Em seguida, surgiam as capelas, quase sempre construídas de forma coletiva, com madeira bruta, telhas simples e trabalho comunitário.

Com o crescimento das colônias, essas capelas deram lugar às igrejas, que se tornaram o verdadeiro coração das comunidades. Não eram apenas lugares de oração, mas os principais centros de encontro social, de tomada de decisões coletivas e de organização da vida comunitária. Em muitas localidades, as primeiras salas de aula funcionaram dentro das próprias igrejas ou nos anexos das capelas, unindo ensino, fé e identidade cultural.

As festas religiosas, as novenas, as procissões e as celebrações dos santos padroeiros constituíam as raras oportunidades de convivência social em um cotidiano marcado pelo trabalho exaustivo e pelo isolamento. Nessas festas, os imigrantes reforçavam laços, escolhiam compadres, organizavam casamentos e reafirmavam a continuidade das tradições trazidas da Itália. A religiosidade não era apenas espiritual: era profundamente social, cultural e identitária.

Mais do que uma herança devocional, a fé foi um instrumento de construção territorial. Ao erguer um capitel, o colono não apenas expressava sua devoção, mas simbolicamente transformava a mata em espaço habitado. Assim, a religiosidade dos imigrantes vênetos não apenas moldou a espiritualidade dessas comunidades, mas estruturou a própria geografia social das colônias italianas do Rio Grande do Sul.

Ainda hoje, essa herança permanece viva nas pequenas igrejas do interior, no som dos sinos, nas festas comunitárias e na memória coletiva dos descendentes. A fé que sustentou os primeiros colonos continua sendo um dos fios invisíveis que ligam o presente às origens.

Nota do autor 

Escrever sobre a religiosidade dos imigrantes vênetos não é apenas revisitar a história, mas caminhar sobre as mesmas trilhas de barro onde homens e mulheres, quase sempre em silêncio, transformaram desespero em fé. Cada capitel perdido à beira de uma estrada rural carrega mais do que um símbolo religioso: carrega lágrimas contidas, promessas sussurradas, dores que não cabiam em palavras. 

Há algo de profundamente humano nessa fé construída em meio à solidão. Não era uma religiosidade de luxo ou de conforto, mas de urgência. Era a fé de quem não tinha a quem recorrer, a não ser ao céu. Ajoelhados sobre o chão duro da nova terra, esses imigrantes pediam não riquezas, mas força para sobreviver ao dia seguinte.

Este texto é uma homenagem silenciosa a esse povo que raramente aparece nos grandes livros de história, mas que escreveu sua própria epopeia com enxadas, rosários e lágrimas. Que cada leitor descendente reconheça, nessas linhas, não apenas fatos históricos, mas o pulsar de uma herança espiritual que ainda vive nas famílias, nas festas dos santos, nas igrejas de madeira e nos sinos que ecoam nos vales do Rio Grande do Sul. Nada disso é passado. É raiz. É identidade. É memória viva.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Ecos de um Sonho Distante


 

Ecos de um Sonho Distante

Era o início de novembro de 1876, e os primeiros ventos frios já sopravam sobre a pequena vila no interior do município de Cison di Valmarino, nas colinas do Vêneto. A vila, envolta em névoa, parecia um retrato vivo da austeridade que marcava a vida dos camponeses. Os sinos da igreja de San Michele Arcangelo ecoavam pelas colinas, anunciando a missa matinal, enquanto a família Bernasconi, composta por Pietro, Luisa e seus dois filhos pequenos, Emilia e Lorenzo, enfrentava o momento que mudaria para sempre suas vidas.

A decisão de partir para o Brasil fora dolorosa, mas inevitável. A Itália lhes havia oferecido pouco mais que dívidas, fome e terras inférteis. Pietro, um homem robusto de mãos calejadas, estava acostumado à luta diária contra o solo árido e o clima inclemente. No entanto, até mesmo sua resistência inabalável começara a fraquejar diante da miséria crescente. Ele sabia que a terra que um dia sustentara gerações de sua família agora era incapaz de alimentar sequer os seus.

Na pequena praça em frente à igreja, onde o vento levantava folhas secas e carregava o aroma de castanhas assadas, Pietro abraçou sua esposa Luisa. Ela segurava Emilia, de apenas dois anos, com a delicadeza de uma mãe que temia perder o pouco que ainda lhe restava. Lorenzo, com sete anos, segurava a mão do pai com força, como se o toque firme pudesse dissipar o medo que sentia. Ao redor deles, amigos e parentes reuniram-se para se despedir. Os pais de Pietro, já idosos, entregaram-lhe um rosário e um pequeno livro de orações de Sant’Antonio. A bênção murmurada por seu pai misturava-se às lágrimas que corriam por seu rosto enrugado.

“Prometa que não esquecerá suas raízes, Pietro”, disse sua mãe, segurando-lhe o rosto entre as mãos. “E que, onde quer que esteja, rezará para que Sant’Antonio guie seus passos.”

O trem que os levaria a Gênova aguardava na estação da cidadezinha vizinha. O apito, agudo e melancólico, cortava o ar gélido como uma despedida definitiva. À medida que embarcavam, Pietro ajudou Luisa a acomodar os poucos pertences que haviam conseguido levar: um baú de madeira, onde guardavam roupas remendadas, documentos e algumas sementes que Pietro insistira em carregar como símbolo de esperança.

Enquanto o trem deixava a estação, as paisagens familiares, com suas colinas onduladas e vinhedos abandonados, desapareciam lentamente. Luisa segurava Emilia no colo, tentando acalmá-la com cantigas baixas que haviam embalado gerações da família. Lorenzo, de olhos marejados, encostava a cabeça no ombro do pai, tentando esconder as lágrimas que teimavam em cair. “Prometo que será melhor, meu filho”, disse Pietro, com a voz firme, mas o coração pesado. Ele sabia que aquelas palavras não eram apenas para Lorenzo, mas para si mesmo.

A viagem até Gênova foi marcada por silêncios entrecortados por breves diálogos. No compartimento do trem, outros camponeses em situações semelhantes conversavam sobre o Brasil, descrevendo-o como uma terra de oportunidades. Pietro escutava atentamente, gravando cada palavra como se fossem mapas para o futuro.

Ao chegar a Gênova, o movimento do porto os envolveu em um redemoinho de sons e odores. Navios imponentes aguardavam para cruzar o Atlântico, suas chaminés cuspindo fumaça em contraste com o céu cinzento. O cheiro de sal, óleo e peixe se misturava ao burburinho de vozes em diferentes idiomas. Pietro carregava Emilia nos braços enquanto segurava firme a mão de Lorenzo, orientando a família em meio à multidão.

A bordo do navio que os levaria ao Brasil, a vida tornou-se uma rotina de espaços apertados, refeições escassas e a presença constante do mar infinito. Lorenzo passava horas observando as ondas, enquanto Luisa tentava entreter Emilia com histórias de sua vila natal. Pietro, por sua vez, ajudava outros passageiros com pequenas tarefas, sua atitude prática e determinação conquistando o respeito de todos.

Embora o futuro ainda fosse uma incógnita, os Bernasconi encontraram conforto uns nos outros. Sob as estrelas do Atlântico, enquanto o navio balançava suavemente, Pietro e Luisa compartilhavam planos e temores. Em uma dessas noites, Pietro, com os olhos fixos no horizonte, sussurrou: “Nós construiremos algo, Luisa. Algo que nossos filhos possam chamar de lar.”

E assim, com o coração dividido entre a saudade e a esperança, a família Bernasconi navegava em direção a um destino incerto, mas cheio de promessas. Sob o céu estrelado do oceano, Pietro rezava em silêncio, pedindo forças para enfrentar os desafios que sabia estarem por vir.

O Mar de Promessas

No porto de Gênova, após quatro dias de espera junto ao cais, em meio ao caos e à ansiedade, finalmente embarcaram no vapor Salier, um imponente navio que prometia conduzi-los ao outro lado do Atlântico, mas cujas entranhas escondiam o verdadeiro fardo da travessia. A confusão do embarque era um espetáculo de gritos, choro e ordens abafadas em diversos idiomas, enquanto caixas e malas eram lançadas às pressas no porão e passageiros eram amontoados como mercadorias humanas.

Ao cruzar a rampa que os levava ao navio, Pietro segurava firmemente a mão de Lorenzo, enquanto Luisa carregava Emilia no colo, os olhos dela fixos na enorme embarcação como se quisessem decifrar os segredos de sua travessia. Assim que pisaram no convés, foram imediatamente direcionados para os alojamentos abaixo, onde o ar era denso e os espaços, apertados. Abaixo do convés, as condições eram brutais: o cheiro penetrante de sal misturava-se ao suor humano, ao ranço de comida estragada e aos dejetos. O som do mar, que deveria ser tranquilizador, era abafado pelos lamentos dos doentes e o choro das crianças.

O ambiente era uma luta constante por sobrevivência. Famílias inteiras dividiam os espaços diminutos com sacos de mantimentos e animais que faziam parte da carga viva do navio. As refeições, servidas em escassas porções, eram compostas quase sempre por uma sopa rala e pão duro que mal saciavam a fome. A água, muitas vezes morna e com sabor metálico, era racionada, criando um clima de tensão entre os passageiros.

Lorenzo foi o primeiro da família Bernasconi a sentir os efeitos do ambiente hostil. Após uma semana de viagem, ele começou a apresentar febre alta, acompanhada de uma tosse incessante que preocupava profundamente Luisa. Ela passava noites em claro, embebendo panos em água fria para colocá-los na testa do filho e murmurando preces fervorosas a Sant’Antonio, enquanto Emilia choramingava em busca de consolo. Pietro, por mais que tentasse manter a aparência de força, sentia o peso esmagador da incerteza. Ele ajudava os outros passageiros em tarefas como distribuir comida e limpar os espaços, mas o medo crescente de perder o filho o acompanhava como uma sombra constante.

No Salier, a morte não era uma visitante inesperada; ela era uma residente silenciosa. A cada novo amanhecer, o som de choros abafados revelava mais uma perda. Corpos que não resistiam às doenças eram envolvidos em lençóis e, após uma breve oração conduzida por um dos passageiros, eram lançados ao mar. A visão dos corpos desaparecendo nas águas profundas e implacáveis era um lembrete cruel da fragilidade de suas esperanças. Pietro, ao presenciar essas cerimônias improvisadas, apertava ainda mais Lorenzo contra si, como se pudesse protegê-lo pelo simples ato de não soltá-lo.

Em meio à desolação, surgiam pequenos atos de solidariedade. Uma jovem mulher, viajando sozinha, compartilhou com Luisa algumas ervas medicinais que ela havia trazido de sua terra natal, explicando que poderiam ajudar a aliviar a febre de Lorenzo. Pietro uniu forças com outros homens para improvisar uma pequena área onde as crianças pudessem ficar longe das correntes de ar gélido que percorriam o navio à noite.

Quando o Salier finalmente avistou a costa brasileira, em 30 de novembro de 1876, o alívio foi recebido com um misto de euforia e exaustão. O navio atracou no porto do Rio de Janeiro sob um céu azul cristalino que contrastava violentamente com a escuridão emocional que muitos carregavam. Os sobreviventes emergiram do porão como espectros: exaustos, famintos e emocionalmente devastados, mas com uma centelha de esperança ainda queimando nos olhos.

Pietro olhou para Luisa e os filhos com um suspiro aliviado, mas sua mente já estava ocupada com o que viria a seguir. Desembarcar significava apenas o início de uma nova batalha. Com os pés finalmente em solo brasileiro, Pietro apertou a mão de Lorenzo e, com determinação, sussurrou: "Chegamos, meu filho. Agora começa o nosso verdadeiro trabalho."

Uma Nova Jornada

Após dias intermináveis de espera em um alojamento do governo improvisado no porto, onde o cheiro de sal, poeira e um leve aroma de peixe apodrecido se misturava com o incômodo das vozes dos imigrantes, finalmente chegou o momento de seguir em frente. As autoridades brasileiras, com sua frieza burocrática, organizaram os recém-chegados em grupos e, sob um calor abafado, os enviaram para o sul, rumo ao Rio Grande do Sul. O navio os levou até o porto de Rio Grande, onde, depois de uma parada de alguns dias, foram colocados a bordo de pequenos vapores fluviais, que os conduziam rio acima, através da imponente Lagoa dos Patos.

A viagem pelo rio Caí era fascinante, mas ao mesmo tempo, desoladora. A paisagem, de uma natureza selvagem e intocada, estendia-se diante deles como uma pintura de verdes profundos e montanhas distantes, mas sem vestígios de qualquer civilização. Florestas densas, com árvores de troncos retorcidos e gigantescos, cobriam as margens do rio, enquanto a correnteza do Caí parecia, por vezes, ameaçar engolir os frágeis vapores com suas águas revoltas. O som dos motores e das hélices cortando a água era quase o único som que quebrava o silêncio opressor, interrompido apenas pelo murmúrio das famílias, que tentavam encobrir a ansiedade com palavras sussurradas e olhares desconfiados. Pietro e Luisa, ao lado de seus filhos, observavam a imensidão daquela natureza primitiva, sem compreender ainda a grandiosidade do desafio que estavam prestes a enfrentar.

Quando chegaram ao pequeno porto de Montenegro, uma pequena cidade situada à beira do rio Caí, Pietro não pôde deixar de sentir um aperto no coração. O local, ainda rudimentar e pouco desenvolvido, estava a quilômetros de distância das promessas de prosperidade que haviam sido feitas. Não havia em Montenegro mais do que algumas casas simples e um comércio de mercadorias, todas em condições precárias. Ali, os imigrantes, sem ter a menor ideia do que viria pela frente, foram deixados à própria sorte. Não havia abrigos preparados, não havia comida suficiente, e nem mesmo um plano claro sobre como iriam alcançar as terras prometidas. O sol estava se pondo quando as autoridades locais informaram a todos que deveriam seguir viagem, mas não havia tempo ou energia para protestos. Eles estavam sozinhos.

O céu escuro da noite, pontilhado por estrelas brilhantes, foi a única proteção que encontraram. Sem qualquer outra opção, Pietro e Luisa estenderam seus poucos pertences no chão, criando um leito improvisado entre eles e o duro solo. Emilia, ainda pequena, se aninhou contra sua mãe, enquanto Lorenzo, com seus sete anos, mal conseguia manter os olhos abertos devido ao cansaço. O chão era frio e áspero, mas o calor da família, unido na mesma dor e na mesma esperança, proporcionava algum consolo. Com os estômagos vazios e a alma pesada, eles se deitaram sob o manto estrelado, tentando se agarrar àquela breve sensação de segurança, enquanto o medo do que viria pela frente apertava seus corações.

Na madrugada seguinte, ainda com as marcas do cansaço nas faces, as famílias começaram a se agrupar, preparando-se para a jornada seguinte. A cidade de Montenegro era apenas uma escala, um ponto de passagem para os imigrantes, que agora deveriam enfrentar um novo desafio: a viagem até o local onde suas terras estavam prometidas, nas colônias italianas da serra gaúcha. O caminho que os aguardava era árduo, tortuoso e sem qualquer tipo de infraestrutura, como haviam sido acostumados a ouvir falar nas histórias de outros imigrantes.

A partir dali, começaria uma jornada marcada pela força, pela resiliência e pela imensa esperança que ainda habitava o peito daqueles homens e mulheres. Alguns seguiram a pé, carregando as crianças pequenas nos braços ou amarradas às costas com lençóis gastos, enquanto outros enfrentavam a viagem em carroças improvisadas. O ranger das rodas nos sulcos da terra ressecada misturava-se ao lamento das barrigas vazias, e a poeira da estrada, levantada a cada passo ou sacolejo, parecia grudar na pele e nos pulmões, tornando o trajeto ainda mais penoso. O calor do dia, misturado à umidade da mata, transformava cada passo em uma luta constante. A floresta que parecia infinita os engolia pouco a pouco, os rios revoltos desafiavam seus limites, e a imensidão das terras virgens parecia ser uma metáfora da solidão que aguardava todos eles.

A cada quilômetro percorrido, o peso da jornada aumentava, mas também aumentava a determinação. Pietro, com suas mãos calejadas pela labuta de toda uma vida de trabalho, não permitia que a fraqueza tomasse conta. Luisa, com o olhar firme e a voz suave, consolava as crianças, dizendo que o futuro que aguardava no final da estrada valeria todos os sacrifícios feitos. A cada parada, a cada noite sob o céu estrelado, uma nova esperança nascia dentro deles, como uma pequena chama que resistia ao vento frio da incerteza.

Através das florestas densas, sobre os rios traiçoeiros, Pietro e sua família avançavam, deixando para trás os ecos da Itália e enfrentando os novos desafios da terra estranha. Eles estavam longe de suas casas, longe das ruas de Cison di Valmarino, mas o espírito de luta e a promessa de uma vida nova no Brasil os mantinham firmes.

E assim, a jornada pela vastidão do Rio Grande do Sul continuava, marcada pela força de uma família, pela dor da saudade e pela esperança de um futuro que, embora incerto, ainda queimava forte em seus corações.

Os dias que se seguiram à chegada de Pietro e sua família ao novo mundo foram implacáveis. O calor do verão sulista batia forte, sem piedade, enquanto a umidade da floresta parecia envolver tudo como uma névoa sufocante. Mas a família Bernasconi não tinha tempo para lamentações. A cada amanhecer, o som da enxada de Pietro cortando o solo batia em uníssono com o bater de seu coração determinado. Era um homem de mãos calejadas e uma vontade inquebrantável, disposto a transformar a terra bruta e hostil em algo que pudesse chamar de seu.

Com apenas o machado e a foice em suas mãos, Pietro iniciou o árduo trabalho de desbravar o solo para construir a cabana que abrigaria a sua família. Cada golpe da ferramenta na terra parecia um esforço hercúleo, pois o solo, coberto por uma vegetação densa e impenetrável, resistia ferozmente. Mas Pietro não se deixou abater. A cada pedaço de terra que cedesse sob a força de seus braços, um vislumbre do futuro brilhava mais intensamente em seu coração. Sua mente, apesar das dificuldades e do cansaço, estava sempre voltada para o que estava por vir — o lar, o sustento e a promessa de um novo começo.

Luisa, ainda fraca pela exaustiva travessia, mas com uma força silenciosa que parecia vir de um lugar profundo, dividia-se entre os cuidados com Lorenzo, que se recuperava lentamente de uma febre que o afligira durante a viagem, e os preparos das refeições. Polenta feita de milho simples, alguns pinhões e raízes que ela conseguira colher nas margens do rio eram o prato básico, mas a comida nunca era suficiente para saciar completamente a fome. Mesmo assim, ela não reclamava. O olhar que dedicava aos filhos, Emilia e Lorenzo, era o mesmo de uma mãe que, apesar da dor e da fadiga, ainda nutria a esperança de que, com o tempo, o sol brilharia novamente sobre suas cabeças.

À noite, quando o trabalho do dia finalmente dava lugar ao silêncio das estrelas, Pietro sentava-se com as crianças ao redor da pequena fogueira que eles conseguiam manter acesa, mesmo nos dias mais úmidos. O fogo, embora fraco, aquecia seus corpos cansados, mas, mais importante ainda, alimentava suas almas. Pietro, com a voz grave e serena, contava-lhes histórias da sua terra natal, tentando manter viva a conexão com o passado, com o Piave e as montanhas que tanto amava. "Lorenzo", dizia ele, com a mão repousada sobre o ombro do filho, "lembre-se de quem somos. Nunca se esqueça do Piave, e das nossas montanhas. Elas vivem dentro de nós. Não importa o quanto a terra aqui seja estranha, não importa a distância de nossa casa, essas montanhas estarão sempre conosco."

Essas palavras eram seu consolo, sua âncora, enquanto tentavam dar forma ao futuro distante que vislumbravam. Mas o presente, em sua dureza, era implacável. O isolamento era total. O único contato com o mundo exterior era através dos poucos que passavam pelas trilhas da mata, e as doenças, sem médicos e com a escassez de remédios, faziam as noites ainda mais longas e preocupantes. Quando Lorenzo adoeceu novamente, a febre que o consumia trouxe um novo medo, um medo profundo que se infiltrava nos corações dos pais, mas, como sempre, a esperança estava mais forte. Luisa, com sua suavidade e dedicação, passou noites em claro ao lado do filho, fazendo compressas e sussurrando preces, enquanto Pietro, embora calado e apreensivo, fazia o que podia para trazer mais madeira e alimentos.

Os dias, e depois os meses, passaram lentamente, com o cansaço moldando-se em suas vidas como uma sombra persistente. Mas, ao final do inverno, quando a terra ainda estava fria e úmida, Pietro conseguiu abrir um pequeno pedaço de terra arada. Ele olhou para a terra, com as mãos sujas e o suor escorrendo por sua testa, e um leve sorriso surgiu em seu rosto. Era uma pequena vitória, mas para ele, significava mais do que qualquer outra coisa. O primeiro pedaço de terra que ele havia domado com seu esforço e sacrifício trouxe-lhe lágrimas aos olhos. Era como se tivesse finalmente tocado uma parte de seu sonho, algo que, até então, parecia tão distante quanto as montanhas de sua terra natal.

Para a família, aquele pedaço de terra representava o início de algo maior, de um lar construído com suor, com dores, mas também com a certeza de que a vida continuava, que era possível recomeçar. Eles ainda enfrentavam enormes dificuldades, mas algo novo estava nascendo ali, em meio à solidão da mata, à dureza do trabalho e ao pesar da saudade. A promessa de um futuro melhor estava começando a se concretizar.

Pietro, exausto, mas com o espírito fortalecido, olhou para a pequena cabana que começava a tomar forma e, com um suspiro profundo, murmurou para si mesmo: "Este será o nosso lar, Luisa. Aqui, vamos encontrar paz."

E com isso, a jornada da família Bernasconi começou a tomar a forma que tanto esperavam. Um passo de cada vez, com fé, com força, com esperança.

Quando o Natal de 1876 chegou, não havia presentes, nem árvores decoradas como nos dias atuais. O calor do verão envolvia a pequena cabana onde os Bernasconi se abrigavam, e a terra, ainda imatura, exalava o cheiro de capim seco e da floresta densa que os cercava. Não havia banquete na mesa, apenas a simplicidade da polenta e o pouco que conseguiam colher da terra.

Naquela noite, sob o céu claro e quente, Pietro, Luisa e os filhos se reuniram em torno da fogueira. O calor da chama contrastava com a brisa quente que passava entre as árvores, mas ainda assim, havia um silêncio profundo e uma sensação de união. O Natal, para eles, não era uma festa, mas um momento de oração, de reflexão e de agradecimento pela vida e pela coragem de seguir em frente.

"Que o Senhor nos dê força para continuar", disse Pietro, com a voz baixa e firme, olhando para as estrelas que começavam a brilhar no céu. "Este não é o fim da nossa luta, mas o começo de algo novo. Juntos, vamos construir um futuro."

Não havia risos ou cantos alegres, mas havia a certeza de que estavam vivos, e isso era, de alguma forma, motivo para agradecer. As orações de Luisa e Pietro se entrelaçavam, pedindo força e esperança para os dias que viriam, um futuro que ainda parecia distante e incerto.

E assim, naquela noite quente e silenciosa, os Bernasconi celebraram um Natal diferente: sem luxo, sem festas, mas com a fé silenciosa de que, apesar de todas as dificuldades, o futuro ainda lhes reservava uma chance de prosperar. 


Nota do Autor

A construção de Ecos de um Sonho Distante nasceu de uma profunda admiração pelas histórias de coragem e resiliência que moldaram as bases de tantas nações. Inspirado pela saga dos imigrantes italianos que, no final do século XIX, cruzaram oceanos em busca de um futuro melhor, este romance busca honrar as memórias daqueles que, mesmo diante de adversidades inimagináveis, mantiveram viva a chama da esperança.

Este livro é uma obra de ficção, mas muitas das situações descritas são reflexo de relatos reais que encontrei em diários, cartas e registros históricos. O sofrimento, o isolamento e as dificuldades enfrentadas por esses pioneiros não foram romantizados; ao contrário, tentei mostrar a crueza da realidade que os cercava. Ainda assim, procurei celebrar sua força, suas tradições e a rica herança cultural que trouxeram consigo.

A narrativa é, acima de tudo, uma homenagem. Uma ode àqueles que não apenas sonharam, mas tiveram a audácia de lutar pelo sonho, mesmo em terras desconhecidas, entre florestas densas e mares revoltos.

Agradeço a todos os historiadores, pesquisadores e descendentes de imigrantes que compartilharam suas histórias comigo, permitindo que suas vozes ecoassem neste livro. Espero que Ecos de um Sonho Distante não apenas comova, mas também inspire reflexões sobre o poder do espírito humano frente aos desafios, lembrando-nos de que as raízes que plantamos hoje podem florescer em algo extraordinário para as gerações vindouras.

Dr. Piazzetta


domingo, 28 de dezembro de 2025

A Caminho da Terra Prometida


Caminho da Terra Prometida
Da incerteza em Marselha à conquista de um pedaço de chão no interior do Brasil – 1877

O porto de Marselha, naquela manhã úmida e enevoada de novembro de 1877, parecia mais uma ferida aberta no fim do mundo do que o começo de uma esperança. As brumas espessas se arrastavam preguiçosamente sobre os trilhos ainda mornos, enquanto os guinchos metálicos dos guindastes e os apitos roucos dos navios cortavam o silêncio como lamentos de uma terra que não abraçava, apenas engolia.

Lorenzo Benedette desceu do trem com passos lentos, como se cada movimento fosse arrastado por um peso invisível. Usava a mesma roupa puída que vestira ao deixar Sant’Andrea, na província de Padova: um paletó surrado demais para esconder o frio, um chapéu deformado pela chuva e pela esperança, e nos olhos semicerrados, não apenas pela fumaça das chaminés do cais, mas também por uma mistura de cansaço, medo e decisão.

Partira porque não havia mais escolha. A unificação da Itália, que prometera progresso, trouxera apenas desilusão para os campos. O pão rareava nas mesas. O trabalho minguava com a mecanização das grandes propriedades. O novo governo, distante e implacável, aumentara os impostos até tornar impossível a vida dos pequenos lavradores. A carestia, a fome e o desemprego não eram mais ameaças futuras: eram presenças diárias, que batiam à porta como velhas conhecidas. Em Sant’Andrea, cada família conhecia alguém que havia partido. E agora chegara a vez de Lorenzo.

Aquilo que lhe haviam descrito como o portal para um futuro promissor não tinha brilho algum. Nenhum perfume de promessas. Nenhuma aura de renascimento. O que havia era o cheiro salgado do mar misturado à ferrugem das grandes caixas de ferro, ao suor de operários famintos, à madeira úmida das docas e ao odor acre de centenas de corpos amontoados, cada um carregando no peito uma versão do mesmo desejo: partir. Partir para qualquer lugar onde o pão não fosse racionado e a dignidade não precisasse se ajoelhar.

Ali, sob o céu opaco de Marselha, Lorenzo compreendeu que a travessia já havia começado — não no oceano, mas no espírito. E que o caminho até o tal “Novo Mundo” seria, antes de tudo, um lento desprender-se daquilo que, até então, definira quem ele era.

Ele não vinha sozinho. Ao seu lado, como uma extensão de sua própria determinação, estava Giulia — a esposa de mãos calejadas e olhar cansado, que carregava nos gestos a mesma força silenciosa com que sustentara, por anos, a família nos campos áridos de Sant’Andrea. Os ombros dela, arqueados pelo esforço, sustentavam um embrulho modesto: algumas mudas de roupa, cuidadosamente dobradas, e um pedaço de pão já duro, guardado como se fosse reserva de esperança para a travessia.

Atrás deles, dois pequenos mundos caminhavam com passos incertos. Matteo, o mais velho, de olhar curioso mas assustado, tentava compreender por que as vozes ao redor falavam uma língua que soava áspera e estrangeira. Rosa, a menor, agarrava a barra do vestido da mãe, segurando firme como se aquele pedaço de tecido fosse âncora contra um mar de rostos desconhecidos.

Nas mãos de Lorenzo, um maço de papéis envolto em barbante — as cartas oficiais do prefeito de Sant’Andrea. Eram mais do que folhas carimbadas; carregavam a tinta de uma promessa feita à distância: transporte seguro até o Brasil e, ao final, um pedaço de terra própria. Um sonho que, para muitos na vila, parecia tão vasto e inalcançável quanto o próprio oceano que eles estavam prestes a enfrentar.

Mas o navio que os aguardava não era o que lhes haviam descrito. O cargueiro a vela, encostado ao cais, era velho, escuro, e exalava um cheiro de peixe rançoso. “Apenas alguns dias de espera”, disseram-lhes os agentes, “até que chegue a embarcação certa”. Lorenzo sabia, pela inquietação que se espalhava entre os outros emigrantes, que a espera poderia ser muito mais longa. Quatro dias se passaram. Nenhuma vela nova apareceu no horizonte.

O grupo de mais de trezentas pessoas, amontoado nos galpões do porto, vivia de sardinhas salgadas e pão duro. As mães tentavam acalmar crianças febris. Os homens, de rostos tensos, discutiam entre si e com os representantes da companhia. Um boato cresceu: talvez não houvesse mais navio para o Brasil naquele mês. Talvez a promessa não passasse de engano — ou de fraude.

Numa tarde fria, Lorenzo procurou papel e tinta emprestados. Precisava escrever a Sant’Andrea. Não para pedir ajuda por orgulho, mas porque já não via outro caminho. Dirigiu a carta ao cunhado, Pietro, e ao velho prefeito que havia jurado protegê-los. Contou-lhes sobre o abandono, sobre o medo de serem deixados à própria sorte numa cidade estrangeira, sem dinheiro, sem amigos, sem a língua para se defender. Suplicou que intercedessem junto às autoridades e que, se possível, enviassem recursos para tirá-los daquela situação. Cada palavra era um pedaço de dignidade arrancada de si mesmo.

Enquanto a carta seguia para a Itália, os dias em Marselha arrastavam-se. Um casal do Trento perdeu um filho para a febre. Uma família de Treviso decidiu desistir e tentar voltar à aldeia — mas não havia como. A maioria estava presa ali, refém de um sistema cruel que tratava gente como carga de descarte.

Foi apenas no vigésimo dia que um novo navio atracou. Chamava-se San Michele. Não era muito melhor que o anterior, mas era a única esperança. Os emigrantes embarcaram sob chuva fina. Lorenzo, com Giulia e os filhos, subiu a rampa de madeira com passos trêmulos. Ao olhar para trás, viu a silhueta cinza de Marselha desaparecer lentamente. Naquele momento, fez um juramento silencioso: não importava o que encontrasse no Brasil, nunca mais voltaria a depender de promessas vazias.

A travessia foi longa, marcada por tempestades e enfermidades. Mas, ao cabo de dois meses, o San Michele ancorou em Santos, depois de passar pelo porto do Rio de Janeiro onde os imigrantes foram examinados e receberam os papéis de permanência. Dali, a viagem continuou por trem, através de trilhas de terra até o interior de São Paulo. Foi em Araraquara que Lorenzo e Giulia encontraram um pedaço de chão — pequeno, íngreme, cheio de pedras — que podiam chamar de seu.

Os anos que seguiram não foram fáceis. O solo, ingrato, exigia mais suor do que Lorenzo imaginara. Mas, pela primeira vez, o grão que germinava era dele. As mãos calejadas que colhiam milho, feijão e café não obedeciam mais a ordens de patrões. Cada amanhecer era duro, mas era livre.

Nas noites tranquilas, Lorenzo contava aos filhos maiores sobre Marselha, sobre a carta, sobre o medo de não chegar. Matteo e Rosa ouviam em silêncio, como se guardassem um segredo de família. E Lorenzo sempre terminava da mesma maneira:

— Foi naquele porto que aprendi que a esperança é como uma vela no mar. Pequena, frágil… mas capaz de atravessar oceanos inteiros.

E assim, entre pedras e raízes, construiu não apenas sua lavoura, mas o futuro de uma geração inteira.


Nota do Autor

Esta narrativa nasceu de uma carta escrita em novembro de 1877, a partir do porto de Marselha, por um emigrante italiano que, preso entre promessas quebradas e a incerteza da viagem, suplicava ajuda à sua família e à sua comunidade para não ser abandonado longe de casa.

Os nomes, lugares e detalhes pessoais foram alterados, mas a essência do drama humano permanece fiel: a solidão de quem deixa a terra natal, o medo de não chegar ao destino, a força silenciosa necessária para continuar mesmo quando todas as garantias desaparecem.

Transformar esta carta em história é, antes de tudo, um ato de resgate. Não apenas para preservar a memória de um homem, mas para dar voz a milhares de outros que viveram experiências semelhantes — homens e mulheres que, empurrados pela necessidade, cruzaram oceanos e suportaram privações inimagináveis em busca de dignidade e futuro.

Ao narrar a trajetória de Lorenzo Benedette, ofereço aos descendentes desses emigrantes pioneiros um fragmento do que poderia ter sido a vida de seus avós, bisavós e tataravós. Que esta história sirva de homenagem a todos eles — e lembrete de que cada pedaço de terra conquistado aqui no Brasil carrega, em silêncio, o peso de mares revoltos e promessas feitas do outro lado do Atlântico.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sábado, 27 de dezembro de 2025

Giovanni Battista Scalabrini o Bispo dos Migrantes e a Missão de Amparo aos Italianos no Século XIX

 



Quem Foi Giovanni Battista Scalabrini

Giovanni Battista Scalabrini nasceu em 8 de julho de 1839, na cidade de Como, Itália. Tornou-se bispo de Piacenza e dedicou sua vida a acolher e proteger os emigrantes italianos. Ingressou no seminário aos 18 anos, foi ordenado sacerdote em 1863 e consagrado bispo em 1876.

Sensibilidade ao Sofrimento dos Emigrantes

. As Despedidas nas Estações e o Drama da Emigração

Sua profunda compaixão com o drama migratório começou ao observar famílias italianas que se reuniam nas estações ferroviárias rumo ao Porto de Gênova, onde embarcariam para as Américas. Scalabrini relatou cenas emocionantes nas quais homens, mulheres e crianças deixavam seus povoados entre lágrimas e lembranças, abandonando ao mesmo tempo uma realidade marcada pelo alistamento militar obrigatório e pela carga pesada de impostos.

. A Visão da Igreja sobre a Questão Social

Convencido de que a Igreja deveria atuar diretamente para defender os emigrantes, escreveu em sua carta pastoral de 1882 que era necessário participar da vida pública com todos os meios legítimos para promover a verdade e a justiça. Em 1891, reforçou essa visão afirmando que era preciso “sair do templo” para agir de modo realmente transformador.

As Obras Fundadas por Scalabrini

. Congregações e Apoio ao Emigrante

Com o objetivo de enfrentar o sofrimento dos emigrantes, Scalabrini propôs leis sobre a emigração e, em 1887, fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos. Depois criou a Sociedade São Rafael, destinada a ajudar viajantes e recém-chegados.

. Atuação Feminina na Missão

Em 1895, fundou a Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos e, em 1900, concedeu reconhecimento diocesano às Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração, enviando-as para auxiliar emigrantes italianos no Brasil.

Viagens às Américas e Legado

. Visita aos Emigrantes Italianos nas Américas

Aos 62 anos, Scalabrini decidiu conhecer pessoalmente as condições de vida dos emigrantes. Entre 1901 e 1904, viajou pelos Estados Unidos, Brasil e Argentina, fortalecendo o trabalho missionário iniciado pela sua congregação.

. Beatificação e Reconhecimento

Scalabrini faleceu em 1º de junho de 1905. Seu compromisso com a dignidade humana e sua defesa incansável dos migrantes levaram à sua beatificação em 9 de novembro de 1997 pelo Papa João Paulo II. Em 2022, Giovanni Battista Scalabrini foi canonizado pelo Papa Francisco, sendo reconhecido oficialmente como São João Batista Scalabrini, Patrono dos Migrantes.

Conclusão / Nota do Autor

Giovanni Battista Scalabrini foi uma figura decisiva para a proteção dos emigrantes italianos no século XIX e início do XX. Sua visão humanitária, seu compromisso social e as congregações que fundou continuam presentes no trabalho scalabriniano em diversos países. Este texto busca preservar sua memória e destacar a relevância de sua missão para a história da migração italiana.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Capitéis no Sul do Brasil a Herança de Fé e a Memória dos Imigrantes Italianos


 

Capitéis no Sul do Brasil aHerança de Fé e a Memória dos Imigrantes Italianos


Ao percorrer as antigas comunidades formadas pelos imigrantes vênetos no Rio Grande do Sul, ainda é possível encontrar pequenas estruturas que carregam silenciosamente séculos de devoção: os capitéis. Esses oratórios simples, hoje vistos como relíquias culturais, surgiram como resposta imediata a uma necessidade espiritual urgente dos primeiros colonos que aqui chegaram no final do século XIX.

Sem condições materiais para levantar capelas ou igrejas, os recém-chegados improvisaram espaços de oração nas beiras das estradas — principalmente uma prática trazida diretamente das zonas rurais do Vêneto. No começo, eram feitos de madeira bruta, levantados com o esforço das famílias que buscavam agradecer bênçãos, pedir proteção ou simplesmente manter viva a fé que lhes dava força para enfrentar a nova realidade. Com o tempo, alguns ganharam forma em alvenaria, tornando-se marcos permanentes na paisagem colonial.

Nesses oratórios, rezava-se o terço, organizavam-se novenas, celebravam-se tríduos e até pequenas festas dedicadas aos santos padroeiros. Para muitas famílias, o capitèl era o único ponto de encontro religioso num território que ainda engatinhava em estrutura e organização comunitária.

Algumas dessas pequenas construções evoluíram para capelas, que até hoje permanecem como sinais da persistência cultural dos imigrantes. Outras, embora já não cumpram o mesmo papel espiritual de antigamente, continuam preservadas ao lado de caminhos rurais, lembrando discretamente a trajetória dos colonos que moldaram a identidade das regiões de colonização vêneta no Rio Grande do Sul.

Nota do Autor

A história dos capitéis é, antes de tudo, a história de pessoas que atravessaram o oceano levando somente a coragem e a fé como bagagem. Esses pequenos oratórios, erguidos com as próprias mãos pelos colonos vênetos e italianos, não foram apenas símbolos religiosos — tornaram-se pontos de união, refúgio emocional e testemunhos silenciosos da esperança que nutria cada família em meio às incertezas da imigração.

Ao preservá-los, não guardamos apenas tijolos e madeira antiga; guardamos a memória de quem acreditou que, mesmo longe da terra natal, era possível reconstruir um lar. Os capitéis seguem ali, firmes, como sentinelas do passado, lembrando-nos de que a fé, a persistência e a comunidade foram pilares essenciais para a formação das colônias italianas no sul do Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Nadal tra la Nèbia e la Speransa: el Nadal Vèneto tra l’Antico Véneto e le Colònie del Sud del Brasil

 


Nadal tra la Nèbia e la Speransa: el Nadal Vèneto tra l’Antico Véneto e le Colònie del Sud del Brasil


El Nadal, par la zente vèneta, no el zera mai stà solo na festa del calendàrio, ma na staion de l’ánema, un tempo suspeso tra la memòria e la promessa. Nel Veneto de na olta, tra i campi magri, le case basse de piera e le stae odorose de fien, el Nadal rivava pian, come la nèbia de desembre che se stendéa sora i fossi e i filari spogli. El fredo no zera solo ´nte l’ària, ma anca ´nte le ossa e ´nte la vita dura de na zente abituà a tirar avanti con poco, contando su la tera, su la Madona e su la fede tramandà dai veci.

Le zornade se scurtea, el sol parea stanco, e la note la siapava el comando. In sto tempo, el Nadal no portava lusso, ma silénsio e respeto. Le famèie se strinséa, no tanto par la festa, ma par la necessità de star insieme. El fogo ´ntel camin, o na candea sola, diventava sentro del mondo. La luse picina la zera segno de speransa, come ´na stela lontan che no se spegnea gnanca ´ntei ani pì duri.

Ntel Véneto rural, el Nadal zera pien de segni e credense. Se vardava el tempo: se Nadal vegniva con el sereno, l’ano novo prometéa racolti boni; se vegnea con la piova o con la neve grossa, se disea che la tera la gavaria sete o fadiga. Le done pì vècie savea leser el Nadal come un libro segreto: el vento, el canto lontan de ´na civeta, el scriciolar del legno ´ntel fogo, tuto gavaria dito qualcosa del futuro.

Quando la misèria e la fame costrinse tante famèie a lassà el Véneto, el Nadal no restò indrio. El ze vignesto verso el Brasil, lungo e doloroso, portò via case, paesi e parenti, ma no portò via el Nadal. El Nadal el viaiò ´nte la mente, ´nte le preghiere sussurà, ´nte le picie imagini de santi tegnude ben strete tra i pani. Rivà in tera nova, tra la mata fita e scura del Rio Grande del Sul, el Nadal tornò a vegnir selebrà, anca se in modo diverso.

´Nte le colònie italiane del Rio Grande, el Nadal se mescolò con el silénsio del bosco e con el suon novo de na tera selvàdega. No ghe jera campane grandi, né cese de piera, ma capele de legno, costruide con fadiga e speransa. El Nadal zera segnao dal laoro fin al’ùltimo, parchè la tera no aspeta le feste. Ma pròprio par questo, quando rivea, el Nadal diventava ancora pì precioso.

Le tradission le se ga adatà. El presèpio, fato con mùscio, legneti e sassi trovadi ´ntei dintorni, diventava un ponte tra el Véneto lassà e la nova pàtria. El Bambin Gesù no zera pì solo ´nte na grota lontan, ma anca tra le radise de na tera rossa, tra el profumo de pino e de fóie ùmide. La Madona la parea vegnir pì visin, come ´na mare che la segue i so fiòi fin in capo al mondo.

Le lende e le credense continuea a viver. Se disea che la note de Nadal, el cielo se verzea par un istante, e chi gaveria sapùo vardar con el cuor puro, gaverìa visto la benedission scender sora la colònia. Ghe zera chi credea che i animài, ´ntela stala, in sto momento sacro, i capisse el mistero pì dei cristiani e i stesse in silénsio, come in preghiera. Altri disea che le ànime dei morti, specialmente quei lassadi in Europa, le tornasse a visitar le famèie, portando conforto e memòria.

El Nadal coloniae no zera fato de tàvole riche, ma de gesti sèmplissi: un pan spartì, un piato caldo, un soriso stanco ma sincero. El valore no zera ´ntela quantità, ma ´ntela condivision. Ogni brìciola la gaverìa avùo el peso de un ringrassiamento. El Nadal insegnava che la richessa vera la stava ´ntela resistensa, ´ntela capassità de continuar a credar, anca quando tuto parea contro.

Con el passar dei ani, el Nadal del Véneto e el Nadal del Rio Grande se fondéa in un solo. El ricordo de la pàtria lontan no se perdeva, ma se trasformea. El Nadal diventava sìmbolo de identità, de apartenensa, de continuità. Na festa che no guardava solo indrio, ma anca avanti, verso i fiòi e i nipoti che gaverìa parlà na lèngua mesciada, ma che ´ntel Nadal gaveria ritrovà el filo antico de le radise.

In sto senso, el Nadal no el ze solo memòria, ma anca costrussion. El Nadal el ze ´na promessa che passa de man in man, de generassion in generassion. El Nadal el ze la certessa che, anca tra la nèbia, la mata e la fadiga, la speransa la trova sempre el modo de vegnir fora, come na candela che continua a far luse, anca quando el vento prova a spegnerla.

Nota de l’Autor 

Sto testo no el ze na stòria né na cronaca, ma na evocassion. El Nadal, par la zente vèneta e par i so discendenti, el ze na eredità invisìbile, fata de paroe no dite, de gesti ripetudi e de fede silensiosa. Scrivar in talian el ze un ato de respeto e de conservassion, parché in sta lèngua ghe ze ancora el suon del Véneto antico e el respiro de le colònie del Sud del Brasil. El Nadal, in fondo, lu el ze questo: na memòria che no more, ma che contìnua a parlar, pian, a chi ga voia de scoltar.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Último Adeus de Pietro Zanetti


O Último Adeus de Pietro Zanetti

Albignasego, Vêneto — 1886

Era uma manhã enevoada de março quando Pietro Zanetti deixou a pequena aldeia de Albignasego, no baixo Padovano. O frio ainda morava entre as colinas, e o orvalho da noite pendia das videiras como pequenas lágrimas congeladas. O ar tinha o gosto úmido da terra recém-remexida e o perfume de lenha queimada vindo das chaminés, onde as famílias aqueciam o magro desjejum antes do trabalho nos campos.

Pietro caminhava devagar pela estrada de cascalho, o corpo inclinado sob o peso da sacola de linho que levava às costas — meia dúzia de roupas gastas, um rosário de contas escurecidas e uma fotografia desbotada da mãe, tirada num dia de festa muito antes de a miséria lhes tomar o sorriso. Os sapatos, remendados pelo próprio pai, rangiam sobre o chão molhado, e o som seco dos passos parecia marcar o ritmo de uma despedida sem retorno.

Atrás dele, o sino da igreja soou cinco vezes, espalhando-se pelo vale como um lamento. Àquela hora, todos os que ainda dormiam despertaram, e os que já estavam de pé sabiam: outro filho da terra partia rumo ao desconhecido.

Na soleira da casa, sua mãe, envolta num xale preto, assistia ao afastamento do filho com os olhos marejados e as mãos trêmulas apertando o terço. Ao lado dela, o irmão mais novo observava em silêncio, sem compreender por que a mãe chorava tanto se o irmão “ia ficar rico na América”.

Pietro não teve coragem de olhar para trás. Sabia que bastaria um único olhar para desfazer toda a coragem que levara meses para juntar. O coração, comprimido no peito, batia como se quisesse gritar. A cada passo, sentia o peso das promessas que fizera — a promessa de voltar, de comprar um pedaço de terra, de erguer uma casa com janelas de vidro e telhas novas. Mas no fundo, uma voz silenciosa lhe dizia que talvez aquele adeus fosse definitivo.

A Itália, unificada há pouco, era um país pobre, dividido e cansado. Os camponeses do Vêneto sobreviviam de arrendamentos injustos, e a terra, exaurida por séculos de cultivo, já não alimentava as famílias. O trigo mal cobria as sementes, e o milho crescia mirrado, como se a própria terra estivesse desistindo de lutar.

Nas tavernas, sob o rumor do vinho barato, falava-se cada vez mais da América. Era um nome que parecia conter o milagre — uma palavra sussurrada com devoção, como se fosse o nome de um santo. Lá, diziam, havia terras livres, pão farto, trabalho pago em moeda e não em promessas. Lá, o homem podia ser dono de si.

Pietro ouvira essas histórias nas noites de inverno, ao redor da fogueira, quando os homens voltavam da lavoura e falavam de navios enormes e mares sem fim. No início, ele ria. Achava que era conversa de bêbado. Mas quando o arrendador dobrou o preço do arrendo e a última colheita mal pagou a farinha, a América deixou de ser lenda e virou destino.

Naquele amanhecer, enquanto o nevoeiro se dissolvia sobre os campos e o som distante do sino se apagava no vento, Pietro sentiu que algo dentro dele também se desfazia — uma parte da infância, talvez, ou a ilusão de que tudo voltaria a ser como antes.

Seguiu adiante, com o rosto frio e os olhos fixos no horizonte. À sua frente, a estrada era longa e desconhecida, mas ao menos levava para longe da fome e do desespero. Atrás dele, a aldeia de Albignasego acordava lentamente, sem saber que aquele jovem de passos firmes jamais voltaria a cruzar o portão da velha igreja.

E assim começou a travessia de Pietro Zanetti — não apenas entre dois continentes, mas entre o que ele fora e o que ainda seria.

A Travessia

O porto de Gênova fervilhava de vozes, gritos e choros. Era o som de um país que se despedia de si mesmo. Milhares de homens e mulheres acotovelavam-se entre malas, cestos e caixas, cada um carregando o pouco que restava de sua vida. No meio daquela confusão, Pietro Zanetti sentia-se menor do que nunca. O vapor Principe di Napoli, com sua chaminé negra cuspindo fumaça, parecia uma criatura viva — um monstro de ferro pronto para devorar esperanças e vomitar destinos.

Enquanto esperava na fila para o embarque, Pietro apertava a folha do passaporte amassado que trazia no bolso e o rosário da mãe. Ouviu o apito do navio e sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A multidão avançava como um rebanho empurrado pela necessidade. Não havia retorno. Quando finalmente pisou na rampa de madeira que levava ao convés, teve a nítida sensação de que deixava para trás não apenas a Itália, mas a própria alma.

A viagem duraria quase trinta dias, e logo os sonhos se misturaram ao cheiro acre do porão. A terceira classe era um labirinto abafado e escuro, onde famílias inteiras se amontoavam em beliches de madeira úmida. O ar era pesado de suor, vômito e esperança. As crianças choravam, os velhos tossiam, e o balanço do mar fazia o estômago de muitos se revoltar. A comida — pão duro, caldo ralo e, às vezes, um pedaço de carne salgada — parecia zombar da fome que traziam.

Nas primeiras noites, o mar permaneceu calmo, e o murmúrio das ondas embalava os pensamentos. Mas, quando a tempestade chegou, mostrou sua verdadeira face. O navio gemia sob a força dos ventos, as madeiras estalavam como se prestes a se romper. Muitos rezavam em voz alta, outros gritavam os nomes dos filhos. Pietro, encharcado e com os joelhos fincados no chão, segurava o crucifixo e pedia apenas para acordar vivo quando o sol voltasse a nascer.

Foi nesse calvário que conheceu a família Bertolin, de Treviso — Giovanni, o pai, um homem de olhar sereno e mãos calejadas; Maria, a esposa, de semblante doce e fé inabalável; e as três crianças pequenas, cujas risadas frágeis pareciam desafiar a miséria ao redor. Dividiam o pão e a esperança. Em meio ao cheiro de maresia e carvão, nasceram laços que só a adversidade é capaz de tecer. Pietro e Giovanni passavam as tardes falando da Itália — das vinhas do Piave, dos sinos de Treviso e do rumor do vento entre os campos de trigo. À noite, Maria contava histórias às crianças, e, por instantes, o porão deixava de ser uma prisão e virava uma casa.

Mas o mar, sempre caprichoso, lembrava-os de que a felicidade era breve. Quando a tempestade voltou, os beliches se transformaram em covas de medo. Um dia, um menino da terceira fileira morreu de febre, e o corpo, embrulhado em um lençol, foi lançado ao oceano. O som da água se fechando sobre ele permaneceu por horas no silêncio coletivo.

Quando finalmente avistaram a costa do Brasil, os passageiros caíram de joelhos. Alguns beijaram o convés, outros apenas choraram. O sol tropical refletia no mar como uma bênção, e a cor azul intensa feriu os olhos acostumados ao cinza do Adriático. Ainda faltava o último ritual: o exame médico obrigatório para todos os que desembarcavam.

Um médico, enviado pelo governo imperial brasileiro, passou por fileiras intermináveis de homens, mulheres e crianças, examinando com rapidez mecânica. Pietro foi o último. Sentiu a picada da vacina e um calafrio, mas o braço não reagiu. No dia seguinte, enquanto todos embarcavam em outras embarcações de menor calado rumo ao porto de Santos, seu nome foi chamado em voz alta. Ele devido a febre pós vacina deveria permanecer em observação. Foi separado do grupo, sem sequer poder se despedir dos Bertolin. Da amurada, viu-os acenando de longe — Maria com o lenço branco, Giovanni segurando o filho no colo. Pietro levantou o braço em resposta, sem saber que aquele seria o último gesto entre eles. Nunca mais soube o destino deles.

A Ilha das Flores, na baía do Rio de Janeiro, era um lugar que cheirava a doença e solidão. Barracões de madeira da grande hospedaria, camas de ferro e o choro incessante dos que haviam perdido tudo. Ali, entre gritos e desespero, Pietro entendeu que a travessia não terminava no mar. Era apenas o começo de uma outra jornada — mais silenciosa e cruel — a de quem precisa sobreviver para recomeçar sozinho em uma terra onde ninguém o espera. Quando, dez dias depois, lhe deram a liberdade e uma passagem para São Paulo, ele já não era o mesmo homem que deixara Albignasego. O mar o havia esvaziado. E, dentro desse vazio, nascia algo novo — uma coragem feita de dor e silêncio.

O Destino em Araraquara

Quando Pietro Zanetti finalmente chegou a São Paulo, trazia nos olhos o cansaço do oceano e nas mãos a fragilidade de um sonho quase gasto. A cidade, naquele ano de 1886, fervilhava de vida e desordem: carroças, negros libertos à procura de trabalho, italianos recém-chegados falando dialetos incompreensíveis, e senhores de paletó branco que olhavam tudo de cima, como se aquele tumulto fosse apenas o preço da riqueza.
Pietro não sabia ler nem escrever. Carregava apenas um papel amassado, sujo de suor e sal, com o nome de um homem que ele jamais vira: Coronel João Barba, proprietário da Fazenda Monte Alegre, no município de Araraquara, “quatrocentos quilômetros no mato adentro”, como lhe disseram.
No escritório de imigração, um salão abafado de paredes úmidas e cheiro de tinta e papel, o coronel aguardava impaciente. Era um homem corpulento, de bigodes grossos e olhar acostumado a mandar. Esperava famílias inteiras — maridos, esposas e filhos — mas fora informado que os seus contratados tinham se atrasado devido problemas com o trem que os trazia até Genova e não chegaram a tempo de embarcar. Quando viu Pietro, magro, queimado de sol, o chapéu amassado nas mãos, hesitou por um instante. Depois, resmungou:
— Se é o que tem... que venha esse mesmo.
Não querendo voltar de mãos vazias, levou consigo o único imigrante ainda disponível que estava sem emprego.
A viagem até a fazenda foi longa e penosa. Primeiro, o trem — um monstro de ferro e fumaça que serpenteava lentamente pelos campos paulistas, tossindo carvão e cuspindo faíscas. Pietro, sentado ao lado de sacos de mantimentos e galinhas vivas, via pela janela o mundo se transformar. Os casarões brancos da capital davam lugar a colinas vermelhas, a cafezais jovens, e, mais adiante, ao verde denso e impenetrável da mata.
Quando os trilhos acabaram, o coronel ordenou que subissem num carro de boi. O ranger das rodas misturava-se ao mugido dos animais e ao zumbido insistente dos insetos. O sol caía pesado sobre as costas de Pietro, e o ar parecia mais espesso a cada quilômetro. No final do dia, avistaram um descampado e, ao fundo, uma casa grande de alvenaria, erguida sobre um outeiro. Era a Fazenda Monte Alegre.
“Araraquara”, pensou Pietro, repetindo o nome como quem tenta compreender uma palavra sagrada e ameaçadora. Ali terminava o mundo conhecido — dali para frente, era mato virgem, calor e solidão.
O coronel o apresentou aos capatazes e mandou que lhe arranjassem um canto para dormir. O alojamento era um barracão de tábuas, o mesmo onde antes viviam os escravizados libertos. O ar era quente e pesado, o chão de barro batido cheirava a suor antigo e fumaça. Pietro deitou-se sobre uma esteira gasta e, pela primeira vez, compreendeu o peso da palavra “América”.
Durante o dia, ajudava a limpar o mato, abrir picadas, levantar cercas e preparar a terra para o plantio do café. O trabalho era árduo, quase desumano. O sol castigava, e o corpo doía como se cada músculo tivesse de aprender uma nova língua. À noite, comia feijão ralo e farinha junto dos negros libertos, homens que olhavam o chão quando falavam e que traziam nos olhos uma tristeza antiga.
Nos primeiros meses, Pietro foi o único imigrante italiano em Monte Alegre. Era o estrangeiro entre os estrangeiros, o homem sem palavra, sem família, sem língua. As cartas prometidas pelo governo imperial, os lotes de terra, o “futuro dourado” que ouvira nas tavernas de Padova, tudo aquilo parecia agora uma fábula contada a crianças.
Certa noite, sentado na soleira do barracão, ouviu ao longe o canto de um sabiá-laranjeira. A melodia era simples e melancólica, e fez Pietro pensar nas colinas de sua infância, no som dos sinos de Albignasego ao amanhecer, na voz da mãe chamando-o para o jantar. O peito apertou. Ele não chorou — os homens da roça aprendem cedo que lágrimas não alimentam ninguém —, mas algo dentro dele cedeu.
Naquela noite, olhou para o céu estrelado do Brasil e compreendeu que não havia caminho de volta.
Ali, onde o mato ainda guardava o cheiro da escravidão, ele começaria de novo.
E, sem saber, inaugurava a longa história de um povo que, entre suor e saudade, faria florescer nas terras vermelhas do interior paulista o sangue e a esperança da Itália.

O Amor e o Enraizamento

Dois anos depois, começaram a chegar novas famílias italianas, sobretudo de Venegazzù, Montello e Piave. Entre elas, veio Lucia Paolon, uma jovem de vinte anos, de olhos verdes e mãos calejadas, filha de pequenos lavradores de Treviso.
Pietro e Lucia se conheceram durante a colheita do café. Ela cantava baixinho uma canção vêneta, e ele, mesmo sem escutar bem as palavras, sentiu nelas o cheiro da sua terra distante. Casaram-se sob um altar improvisado na capela de barro da fazenda.

Daquele amor nasceram oito filhos — quatro homens e quatro mulheres. O primogênito, Antonio, veio ao mundo em 1891, sob um sol de rachar e o tilintar dos carros de boi. Nenhum deles conheceria a Itália, mas todos herdariam o sotaque, as canções e o modo de gesticular das mãos.

As Cartas e o Silêncio

Durante décadas, Pietro manteve correspondência com a mãe e os irmãos que ficaram em Albignasego.
As cartas, escritas por um vizinho alfabetizado, viajavam meses em navios lentos. Falavam de colheitas, nascimentos e saudades. Depois de 1910, as respostas começaram a rarear. A Europa mergulhava nas sombras da guerra, e as letras de casa cessaram.

Mesmo assim, Pietro guardava no baú todas as cartas antigas, como quem preserva um fio de voz do outro lado do oceano. Às vezes, à noite, chamava o filho mais velho para ler em voz alta as páginas amareladas, e seus olhos marejavam diante de nomes que o tempo havia levado.

O Último Verão

Em 1938, aos setenta e cinco anos, Pietro ainda caminhava entre os cafezais de Monte Alegre. O corpo estava curvado, mas o espírito permanecia firme. No alpendre da casa, ao entardecer, olhava para o horizonte e dizia, em dialeto vêneto:

“La tera càmbia, ma el cuor no se sposta.”
(“A terra muda, mas o coração não se move.”)

Morreu numa tarde de dezembro, enquanto o sol queimava os campos de café. Foi enterrado sob uma cruz simples de madeira, com uma pequena inscrição:

“Pietro Zanetti – 1863-1938 – Dalla terra del Veneto alla speranza del Brasile.

Seus netos e bisnetos, muitos dos quais jamais pisaram na Itália, ainda hoje guardam o sobrenome com orgulho e emoção.
E quando o vento sopra sobre os cafezais antigos, parece trazer consigo o eco distante daquele último adeus de 1886 — o dia em que um jovem lavrador deixou tudo para trás, e, sem saber, plantou raízes eternas no coração do Brasil.

Nota do Autor

Esta história nasceu do silêncio das cartas antigas, das lembranças sussurradas nas cozinhas e dos olhos marejados de quem ainda sente o peso e o orgulho de ser descendente de quem partiu.
Os fatos aqui narrados são verdadeiros — apenas os nomes foram mudados, a pedido dos descendentes, que guardam com respeito e emoção as memórias de seus antepassados. A história de Pietro Zanetti é, na verdade, a história de muitos: homens e mulheres que deixaram a terra natal com uma mala de linho, uma fé teimosa e o sonho de recomeçar do outro lado do oceano.
As palavras que compõem este livro foram tecidas a partir de cartas, depoimentos e fragmentos de memória preservados por gerações. O que nelas pulsa não é apenas a trajetória de um emigrante, mas o eco de um tempo em que o sacrifício era sinônimo de esperança — e em que cada lágrima derramada no porto de partida se transformava em raiz no solo desconhecido do Brasil.
Esta obra é, portanto, uma homenagem silenciosa àqueles que, com coragem e dor, construíram o alicerce das nossas histórias. Porque, em cada um de nós, ainda bate o coração daqueles que um dia disseram o último adeus.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta