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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Fome e Miséria na Itália do Século XIX e a Verdade Sobre a Vida Rural que Impulsionou a Emigração




Fome e Miséria na Itália do Século XIX e a Verdade Sobre a Vida Rural que Impulsionou a Emigração




Introdução

A Itália que nossos antepassados deixaram para trás

A emigração italiana — especialmente entre 1870 e 1914 — não nasceu do acaso. Atrás das malas improvisadas, das longas travessias e das despedidas sem retorno havia uma força muito maior: a fome estrutural e a miséria rural que devastavam a península. No final do século XIX, a recém-unificada Itália era um país profundamente desigual, marcado por doenças, nutrição deficiente, campesinato empobrecido e mortalidade infantil assustadoramente alta.
A mais completa fotografia desse cenário veio da Investigação Agrária Jacini, iniciada em 1880, documento que revelou em detalhes o sofrimento cotidiano de milhões de pequenos agricultores italianos. Ao compreender essa realidade, entendemos não apenas como viviam nossos antepassados — mas por que tantos deles decidiram partir em busca de uma vida possível nas Américas.
Casebres, animais e seres humanos: um único espaço para sobreviver
O relatório Jacini é contundente: nos vales alpinos, nos Apeninos, nas planícies do Mezzogiorno e até em províncias agrícolas do norte, milhares de famílias viviam em um único aposento, sem janelas, sem circulação de ar e sem higiene adequada.
Homens, mulheres, crianças, cabras, porcos e galinhas dividiam o mesmo ambiente — uma imagem que pode parecer grotesca, mas que era extremamente comum. O documento menciona que esses casebres, muitas vezes enegrecidos pela fumaça e pela umidade, somavam talvez centenas de milhares em toda a Itália.
Essa promiscuidade não era apenas um sinal de pobreza; era uma necessidade de sobrevivência. O calor corporal e o cheiro forte dos animais eram tolerados porque qualquer fonte de calor era preciosa nos longos invernos italianos.
A “estrebaria”: sala, quarto, cozinha e santuário familiar
Segundo a investigação, para o pequeno agricultor, a estrebaria (estábulo) era o verdadeiro centro da vida. 
Ali:
  • se dormia,
  • se comia,
  • se recebia visitas,
  • se trabalhava,
  • e se passavam os meses gelados.
As mulheres costuravam, fiavam e remendavam; os homens jogavam cartas, afiavam ferramentas e contavam histórias antigas. Tudo acontecia ali — no mesmo espaço onde ruminavam vacas e cabras.
Essa realidade demonstra uma Itália rural aprisionada no tempo, com estruturas sociais medievais persistentes mesmo em pleno século XIX.
Polenta e pelagra: quando a comida é insuficiente para viver
Se a moradia era precária, a alimentação era ainda pior. A dieta do camponês italiano era quase exclusivamente polenta, feita com farinha de milho pobre em nutrientes. Em média, cada pessoa consumia cerca de 33 kg por ano — embora em muitas regiões esse número fosse maior.
Essa monotonia alimentar desencadeou a terrível pelagra, doença conhecida como “a doença dos 3D”: dermatite, diarreia e demência.
O maior pelagrosário do país ficava em Mogliano Veneto, na província de Treviso, onde a doença devastava comunidades inteiras.
Para tentar “dar sabor” à polenta, famílias passavam o alimento sobre um único pedaço de arenque defumado, compartilhado por todos — uma prática reveladora da escassez absoluta.
O vinho como alimento: crianças italianas e o alcoolismo rural
Onde havia vinhas, especialmente no Vêneto e na Lombardia, o vinho era parte essencial da dieta — não por prazer, mas por necessidade. Dizia-se: “O vinho faz sangue!”
Uma pesquisa envolvendo 12 mil estudantes primários revelou um dado chocante:
  • Apenas 3 mil não consumiam álcool.
  • 5 mil bebiam bebidas de alta graduação.
  • 9 mil bebiam vinho regularmente — e metade abusava.
O alcoolismo rural era consequência direta da miséria alimentar, não um hábito festivo como se romantiza hoje.
Órfãos abandonados e amas de leite: quando a pobreza molda laços familiares
Marco Porcella, em La Fatica e la Merica, explica que muitas famílias sobreviviam graças ao sacrifício das mulheres, que atuavam como amas de leite para órfãos abandonados.
Os chamados “filhos da culpa” eram colocados:
  • nas Rodas dos orfanatos,
  • nos degraus de igrejas,
  • nas portas de párocos,
  • ou nas mãos de parteiras.
Desnutridos e frágeis, muitos morriam antes de completar uma semana. Mesmo em anos sem epidemias, a mortalidade infantil chegava a 33%.
As amas de leite frequentemente devolviam as crianças por medo de transmitirem doenças às próprias famílias — especialmente sífilis, erroneamente vista como inevitável nesses casos.
Após um ano, esses órfãos deixavam de ser “crianças de leite” e se tornavam “crianças de pão”, podendo ser criados até cerca de doze anos, quando terminava a responsabilidade do hospital ou orfanato.
A vida vale menos que a de um boi: prioridades de uma sociedade faminta
Os relatos do médico Luigi Alpago Novello, que atuava na província de Treviso na segunda metade do século XIX, mostram como a miséria deformava a lógica afetiva das famílias.
Para muitos camponeses:
a doença ou morte de uma criança, idoso ou inválido era recebida com resignação,
enquanto a doença de uma vaca, boi ou cabra gerava desespero.
Os animais eram o sustento da família — leite, carne, trabalho.
Uma criança doente, sem capacidade produtiva, raramente justificava os custos de um médico. É duro, mas historicamente verdadeiro.
Medicina, higiene e mudança demográfica: avanços lentos, desigualdades persistentes
Com a chegada das campanhas de higiene e dos avanços médicos, sobretudo durante a administração austríaca no Vêneto, a expectativa de vida começou a melhorar.
Em 1911, a idade média dos óbitos subiu de 6,5 anos para 30 anos.
Ainda assim, a situação era dramática: naquele ano, crianças abaixo de cinco anos representavam 38% de todas as mortes no país.
A Itália caminhava lentamente rumo à modernidade, mas a herança da fome e da miséria ainda marcava profundamente a sociedade.

Conclusão: por que milhões fugiram dessa Itália

Todo esse sofrimento — fome, pelagra, alcoolismo infantil, abandono de órfãos, moradias indignas e mortalidade assustadora — compôs a realidade que milhões de italianos enfrentaram.
Essa realidade explica, com clareza brutal, por que tantos partiram:
  • não foi aventura,
  • não foi turismo,
  • não foi romantismo.
  • Foi sobrevivência.
Foi a busca por um destino possível, longe da miséria que a Itália do século XIX lhes impunha.
Entender esse passado é compreender a origem de milhões de famílias italianas espalhadas pelo Brasil e pelas Américas — e reconhecer a força e a dor que moldaram nossa própria história.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Pelagra no Vêneto:a história, causas (niacina) e impacto social (séculos XVIII–XX)

 

 
A Pelagra no Vêneto

Pelagra no Vêneto a história, causas (niacina) e impacto social (séculos XVIII–XX)


Introdução
A pelagra foi uma doença endêmica no Vêneto desde o final do século XVIII, associada a pobres condições alimentares nas zonas rurais. Este artigo explica sua evolução histórica, as hipóteses etiológicas, a confirmação da causa nutricional (deficiência de niacina) e o impacto social local.

O aparecimento da pelagra no Vêneto (séculos XVIII–XIX)

Registos administrativos da Sereníssima indicam que, já em 1776, autoridades de saúde alertavam para problemas sanitários em áreas como Polesine, Padovano e Veronese atribuídos à má qualidade do milho e sorgo consumidos pelas populações rurais. Medidas como proibições ao comércio de milho deteriorado mostram que o problema alimentar era reconhecido localmente. Estudos posteriores confirmaram surtos frequentes na região até o início do século XX. 

Pelagrosários e respostas sociais

A partir de finais do século XIX surgiram instituições dedicadas ao tratamento e isolamento dos doentes — o chamado “pellagrosário”. Em 1883 foi fundado, em Mogliano Veneto, o primeiro pellagrosário italiano, um marco na resposta institucional à doença no Vêneto. 

Debate científico: carencialismo vs. teoria tóxica

No século XIX persistiu um debate entre duas correntes:

  • Carencialistas: atribuíram a pelagra à alimentação pobre em proteínas e nutrientes essenciais (especialmente dietas baseadas só em milho).

  • Toxicológicos: defendiam uma causa tóxica ou infecciosa ligada ao milho ou a mofos.
    Pesquisas de campo e estudos epidemiológicos dos inícios do século XX começaram a favorecer a hipótese nutricional.

Descoberta da causa: niacina (vitamina B3 / “vitamina PP”)

A etiologia nutricional foi finalmente esclarecida no século XX: investigações experimentais e humanas demonstraram que a deficiência de niacina (vitamina B3, também chamada vitamina PP — pellagra preventing factor) e a falta de triptofano explicam a doença. Em 1937 Elvehjem e colegas isolaram o fator curativo (niacina) em modelos animais e, pouco depois, a substituição de dietas reprodução humana confirmou a cura/ prevenção. Essas descobertas consolidaram o caráter carencial da pelagra. 

Clínica: os “3 D” — dermatite, diarreia e demência

O quadro clínico clássico da pelagra é conhecido como síndrome dos 3 D:

  • Dermatite: lesões cutâneas foto-sensíveis (manchas, eritema, descamação).

  • Diarréia: sufocamento digestivo, cólicas, anorexia.

    Demência: alterações neurológicas e psiquiátricas progressivas que podem levar à morte se não tratada.

  • Hoje sabe-se que a forma moderna da pelagra é rara, ocorrendo sobretudo em contextos de desnutrição grave, alcoolismo

Declínio da pelagra no Vêneto e no mundo

Ao longo do século XX, melhorias na dieta (diversificação alimentar), educação sanitária, implementação de políticas públicas e a identificação da niacina como fator curativo reduziram drasticamente os casos. Em países desenvolvidos a fortificação de alimentos e o aumento do consumo de proteínas animais acabaram com as epidemias que marcaram o passado. No Vêneto a doença deixou de ser endêmica após a Primeira Guerra Mundial e com maior intensidade no período entre guerras e pós-guerra.

Conclusão

A pelagra no Vêneto é um exemplo clássico de doença social e nutricional: emergiu onde a monocultura do milho e a pobreza limitaram a ingestão de niacina e proteínas. O reconhecimento histórico do problema, a criação de estruturas como o pellagrosário de Mogliano Veneto e, sobretudo, a descoberta da niacina como fator preventivo, transformaram a pelagra de uma ameaça endêmica em uma doença hoje rara nos países com segurança alimentar. Ainda assim, a história da pelagra é um lembrete da estreita ligação entre dieta, política e saúde pública. 

Nota do autor

Esta síntese reúne evidências históricas e médicas sobre a pelagra no Vêneto, cruzando arquivos regionais (relatos administrativos e estudos locais) com literatura científica moderna sobre a etiologia por deficiência de niacina. As afirmações sobre a cronologia (surgimento no século XVIII, pellagrosário de Mogliano em 1883 e o papel da niacina no século XX) baseiam-se em documentos históricos e em pesquisas revisadas por pares. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

La Polenta: Stòria, Tradission e Sopravivensa ´nte la Vita Contadina Vèneta

 


La Polenta: Stòria, Tradission e Sopravivensa ´nte la Vita Contadina Vèneta


Nata da farina de mìlio, ingrediente base de la alimentassion contadin vèneta, portà sècoli prima da le Amèriche, la polenta la ze diventà el cibo fondamental de un pópolo che dovea afrontar guere, fame e misèria. Ntei campi rural e sule tole poarete de le famèie, la polenta regnava come magnar dei meno fortunà, preparà con aqua e sal, cusinà pian pianin ´nte le caliere de rame o fero che conservava la tradission vèneta. Zala o bianca, secondo la provìnsia, ocupava el sentro de i pasti quotidiani: servida ferma, taiada con un filo su el panaro; brustolà con crosta crocante; o compagnà de formài, carni o sughi sèmplissi, secondo le possibilità de ogni famèia.

Ma sta polenta quotidiana, magnada sensa variassion, portava anca un peso tràgico. Par i pì poareti, spesso la polenta zera l’ùnico cibo, e el mìlio, vècio o mufà, no gavea le sustanse necessàrie. La mancansa de vitamine la gavea portà la pelagra, ´na malatia devastante ligà propriamente a la dieta de polenta. Le provìncie de Vicensa, Treviso e Verona le ga sofrì tantissimo: miaia de persone finia ´ntei pelagrosari, ospedai destinà a curar chi che vivea de sola polenta. No obstante, la polenta restava quel che empieniva el stòmego e dava forsa a chi laorava duramente ´ntei campi.

Atorno al fogolar vèneto, ndove la caliera de polenta cusinava pian pianin, le mare girava la mèstola, ´na grande cuciara de legno, con man calose, contando stòrie de tempi miori. La polenta zera pì che un piato: zera sìmbolo de identità, resiliensa e cultura vèneta, un legame profondo con la tera e con el passà contadin. Ogni cuciarada confermava la lota de un pòpolo che tirava avanti sensa molar.

Con el passar dei ani e con la vita che pian pianin la ze miorà, la polenta la ze passà da necessità a orgoio gastronómico vèneto. Incòi la risplende anca sule tole festive, compagnà de carni de cassa, galina, funghi e pesse, mantenendo però la dignità del so passato.

Pì che un magnar, la polenta la ze la stòria viva del pòpolo vèneto: la stòria de come la misèria, la cultura e la speransa se mescola in ogni piato. ´Na prova che anca la più sèmplisse farina de mìlio la pol formar identità, tradission e memòria.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


terça-feira, 25 de novembro de 2025

A Tradição do Arenque Defumado Atado ao Barbante no Vêneto e Sua Ligação com a Pelagra


A Tradição do Arenque Defumado Atado ao Barbante no Vêneto e Sua Ligação com a Pelagra


Introdução

Entre as lembranças mais fortes da vida rural no antigo Vêneto, que ecoam ainda entre os descendentes de emigrantes, há uma imagem simbólica: um arenque defumado pendurado por um barbante sobre a mesa de comer. Esse gesto — simples, mas carregado de significado — era testemunho da pobreza endêmica das famílias venetas no final do século XIX e início do XX. 

A Tradição do Arenque 

Nas narrativas orais dos mais velhos, quando a família se reunia para comer, quase nunca havia proteína ou carne suficiente. A base era normalmente polenta — feita de farinha de milho, alimento barato, mas pouco nutritivo para quem dependia exclusivamente dele. 
Para dar algum sabor àquela refeição humilde, atavam um arenque defumado por um barbante e penduravam-no sobre a mesa. Depois, cada membro esfregava sua fatia de polenta quente na superfície do peixe, transferindo um pouco do gosto salgado e defumado para a polenta. Outras variantes dessa memória mencionam salame pendurado ou até ossos usados para fazer caldo (“brodo”) — que circulava entre as casas da vizinhança, cada dia uma família preparava o brodo. 

Ligação com a Pelagra

A razão pela qual esse costume ficou registrado nas tradições orais vai além da criatividade culinária: reflete privação. Muitos relatos afirmam que a má alimentação, a quase ausência de fontes de proteína e a dependência de alimentos baratos como a polenta contribuíram para doenças graves, especialmente a pelagra
A pelagra é uma doença nutricional causada pela deficiência de niacina (vitamina B3) e aminoácidos como o triptofano. Historicamente, houve sérios surtos de pellagra no Vêneto rural: segundo registros, a miséria, a monocultura do milho e a baixa variedade alimentar foram fatores decisivos. Fontes históricas confirmam que entre as populações mais pobres do Vêneto, a incidência da pellagra era especialmente alta no final do século XIX e início do XX. 

Além disso, especialistas em história social e da saúde apontam que a precariedade da dieta era uma das principais forças motrizes da emigração — muitos deixaram o Vêneto para fugir da fome e da doença (como a pelagra). 

Contexto Cultural e Histórico 

Esse costume pode ser visto como parte de uma economia de sobrevivência, típica das comunidades agrícolas pobres da planície do Vêneto. A polenta, alimento barato e saciante, era central na cultura alimentar do Vêneto; segundo estudos sobre a migração veneta e a alimentação, esses pratos simples reforçavam também os laços comunitários e familiares.

Além disso, em tradições alimentares venetas existe registro de peixes salgados, defumados ou curados, que eram usados para conservar proteína em condições de escassez.
O ritual de pendurar peixe ou carne sobre a mesa pode, assim, representar tanto a pobreza quanto a invenção popular para driblar a limitação de recursos.

6. Conclusão

A imagem do arenque defumado pendurado por um barbante sobre a mesa é mais do que uma curiosidade gastronômica: é um símbolo forte da miséria veneta e da luta das famílias para sobreviver com pouca comida e quase nenhuma proteína. Esse costume reforça não só a criatividade e a resiliência cultural, mas também a memória histórica de doenças graves como a pelagra, vinculadas à desnutrição. Hoje, preservar esse relato é valorizar a experiência dos antepassados venetos, lembrando às novas gerações o que significava ter necessidade — e por que a alimentação é tão central para a saúde e a dignidade humana.

7. Nota do Autor

Como autor, ressalto que este texto parte de relatos orais transmitidos pelos descendentes de emigrantes vênetos e de pesquisas históricas sobre a pobreza rural e a pelagra no Vêneto. Ao combinar tradição narrativa com fontes históricas confiáveis, meu objetivo é dar voz a uma memória muitas vezes esquecida: a de comunidades que usavam soluções criativas para driblar a escassez, mas pagavam um preço alto em saúde. Esse tema reafirma a importância de entender a relação entre cultura alimentar e bem-estar social.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sexta-feira, 25 de outubro de 2024

La Pelagra in Vèneto

Pelagrosario de Mogliano Veneto


 

La Pelagra in Vèneto


Questa la ze ‘na malatia endémica che la se nota inisialmente in qualche parte del Vèneto, anca verso la fine del sècolo XVIII, par dopo, rapidamente, se sparpagliar par quasi tuto el territòrio. 

In 1776, l’autorità che la gà cura de la sanità de la Serenìssima Repùblica de Venèssia la publicò un decreto che la dava conto de sta nova situasione e la avisava le autorità, disendo: “I efeti periculosi che i podrà causar pregiudisi a la sanità dei pì poveri, specialmente queli che i abita in zona rurale del Polesine, Padovano e Veronese, par via de ‘na alimentassion con sorgo turco imaturo e de bassa qualità, in gran parte, con racolti da tereni allagà da le inondassioni e aluvioni, i fa necessàrio un’atenssion e vigilansa magiore de sta autorità par prevenir le malatie minaciose che le podrà sòrgere con sti abitudini”. 

Se presume che le autorità venessiane le gà già pensà a sta malatia e a le implicassion par la sanità del pòpolo, quando le proibì el comèrcio e la macinassion de maìs deteriorà. Le prime investigassioni uficiali che se sa, le è sussedude in 1805, quando el Vèneto el gà stà soto la dominassion del goerno austrìaco, le quali le esortava i mèdici a far studi e osservassioni su l´ evolussion de la malatia nel dipartimento de Treviso. In quel momento, i ze rivà a la conclussion e che la causa de la malatia la ze dovuda a la qualità del magnar che le popolassion pì pòvere magnava, ciò che no ze stà assetà da molti studiosi che i sostenea che l’etiologia la zera de orìgine tòssica. 

Le do correnti de pensiero, la carenssialista e la tossicològica, loro le gà diviso el pensiero de i studiosi de l’epoca fino al 1883, quando ze stà creà el primo pelagrosàrio italiano, a Mogliano Vèneto. In 1935, con l’isolamento de la ciamà vitamina PP (fator de prevenssion de pelagra), ‘na sostanza che no ze assimilàbile dal organismo in assensa de niacina, triptofano e vitamine B2 e B6, tute presenti in carni, òvi e late, i ze stà finalmente dimostrà l’etiologia de la pelagra. La pelagra la ze ‘na malatia causà da la mancansa de niacina (àcido nicotìnico o vitamina B o vitamina PP) e/o de aminoàcidi essensiali, come el triptofano. 

La pelagra la ze ‘na malatia che la se presenta clinicamente con tre fasi: cutànea, intestinale e nervosa. Al momento, la ze conosùa come la malatia dei 3 D, par i so tre sintomi principali che i scomìncia con la letra D. I ze: nela fase inisiale Dermatite, con l’aparission de machie scure sù la pèle, eritema, pèle seca e ruvigosa, seguita dopo dal comparire de croste. Ne la seconda fase i compare le Diarree, acompagnà da sanguinamenti intestinali e vòmiti. Nela tersa e irreversìbile fase i compare le alterassion mentali con cambiamenti de condòta e de comportamento, seguito par la Demensa. Al momento, la ze ‘na malatia poco comune e i casi de pelagra trovài i ze relativi specialmente con el alcoolismo crònico.



terça-feira, 2 de maio de 2023

A Pelagra e a Pobreza no Veneto do Século XIX: Uma Análise Histórica

Pátio interno da seção feminina do lazareto de Mogliano Veneto

 

A pelagra foi uma doença que atingiu em larga escala a população do Veneto, região do nordeste da Itália, na última metade do século XIX. A doença, que é causada pela deficiência de niacina (vitamina B3) e triptofano, atingia principalmente as camadas mais pobres da população, que não tinham acesso a uma alimentação adequada e sofriam com as condições insalubres em que viviam.

Os primeiros casos de pelagra foram registrados na região do Veneto em meados do século XIX, mas a doença só começou a se tornar um problema de saúde pública a partir da década de 1870, quando os casos se multiplicaram em toda a região. Os sintomas da pelagra incluem irritação na pele, diarreia, demência e, em casos mais graves, coma e morte.

A causa da pelagra só foi descoberta no início do século XX, quando o médico norte-americano Joseph Goldberger realizou uma série de estudos que demonstraram a relação entre a deficiência de niacina e triptofano e a ocorrência da doença. No entanto, na época em que a pelagra se espalhou pelo Veneto, ainda não se sabia o que causava a doença e como tratá-la.

A pelagra teve um impacto devastador na região do Veneto, que enfrentava uma série de desafios socioeconômicos na época. A região havia passado por um período de instabilidade política e econômica, com a unificação da Itália e a abolição do feudalismo, o que levou a um aumento da pobreza e da marginalização social. Além disso, a região sofria com a falta de saneamento básico e de acesso a uma alimentação adequada, o que favorecia a disseminação da doença.

Para combater a pelagra, foram desenvolvidas diversas campanhas de conscientização e de assistência médica na região do Veneto. Os médicos locais começaram a estudar a doença e a identificar as populações mais vulneráveis, como os trabalhadores rurais e os prisioneiros. Foram também criados hospitais e clínicas especializadas no tratamento da pelagra, onde os pacientes recebiam uma alimentação balanceada e suplementos vitamínicos para combater a deficiência de niacina e triptofano.

Com o tempo, as medidas de prevenção e tratamento da pelagra foram aprimoradas e a doença deixou de ser um problema de saúde pública na região do Veneto. No entanto, a história da pelagra na Itália serve como um lembrete dos desafios enfrentados pelas populações mais vulneráveis em momentos de instabilidade social e econômica, e da importância de se investir em políticas públicas de saúde e assistência social para garantir a qualidade de vida da população.





Os profissionais médicos que tratavam da pelagra geralmente tinham experiência no assunto pesquisando e estudando as causas e tratamentos da doença. Eles se dedicavam a tratar os doentes e estudar as três formas da doença para buscar uma cura.
Entre os mais famosos do Veneto estava Luigi Sacco, médico que trabalhava no hospital de Milão e que publicou um estudo sobre a pelagra em 1901. Ele defendia a ideia de que a doença era causada por uma deficiência na dieta, especialmente na ingestão de proteínas.
Outro importante médico que estudava a pelagra foi Cesare Lombroso, médico e antropólogo que tratava a pelagra em Veneza. Ele também defendia a ideia de que a doença era causada por uma deficiência na dieta, mas também argumentava que fatores hereditários podiam contribuir para facilitar o seu surgimento.
Além dos médicos, havia também um grande número de assistentes sociais e auxiliares, que se dedicavam a cuidar dos doentes e ajudar suas famílias. Um exemplo é Maria Montessori, que na época trabalhava como assistente social em Roma e se dedicou a cuidar dos doentes de pelagra.
Os médicos que estudavam a pelagra tiveram um papel importante na luta contra a doença, tanto na identificação das causas da doença quanto na busca por tratamentos eficazes. No entanto, a cura só foi encontrada décadas depois, quando foi descoberto que a pelagra era causada por uma deficiência de niacina, uma vitamina do complexo B.
O lazareto de Mogliano Veneto também foi um importante estabelecimento criado para tratar os doentes de pelagra no Veneto. Localizado na província de Treviso, o lazareto foi fundado em 1904 e chegou a abrigar mais de 800 pacientes.
O estabelecimento contava com uma infraestrutura completa, incluindo dormitórios, salas de atendimento médico, refeitórios, lavanderia e cozinha. Os pacientes eram separados em diferentes alas, de acordo com o grau de gravidade da doença.
O tratamento dos doentes de pelagra no lazareto de Mogliano Veneto incluía a administração de dietas especiais, ricas em proteínas e vitaminas, além do uso de medicamentos e suplementos alimentares. A higiene era rigorosamente monitorada, com o objetivo de evitar a propagação da doença, pois ainda não se sabia muito bem sobre ela.
O lazareto de Mogliano Veneto foi fundamental para conter a propagação da pelagra na região, e contribuiu significativamente para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes para a doença. No entanto, foi somente com a descoberta da causa da pelagra e a implementação de políticas públicas de combate à desnutrição que a doença foi erradicada na região.



Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Erechim RS



terça-feira, 19 de julho de 2022

A Fome no Vêneto do Século XIX

 

O homem e seu cão de Antonio Rocca




Já se sofria de fome na região do Vêneto desde muito tempo. Estava espalhada especialmente pela zona rural, onde o pequeno agricultor trabalhava muito mas, não tinha o suficiente para comer. A alimentação era precária, de má qualidade, pobre no fornecimento dos nutrientes necessários à vida diária.

O Vêneto já havia conhecido uma história de esplendor e fartura durante a República Sereníssima de Veneza. Apesar dela já estar em fase de decadência no final do século XVIII, foi somente após a invasão e tomada de todo o Vêneto por Napoleão, em 1766, que a região passou a decair mais rapidamente, culminando nos anos que se seguiram a unificação da Itália.

O preço para a construção do novo país, com as novas taxas criadas,  recaiu principalmente nas costas dos mais pobres, entre eles os pequenos agricultores que constituíam a maioria da população. 

Durante o século XIX, especialmente nos seus cinquenta anos finais, nas zonas rurais do Vêneto, a maioria das numerosas famílias dos pequenos agricultores e dos pobres trabalhadores diaristas, que se contavam em milhares, comiam praticamente somente o milho, na forma de farinha moída e cozida em água fervente, muitas vezes sem sal. 





Poenta brustolà


Era a tradicional a polenta, uma refeição muitas vezes ingerida sem qualquer acompanhamento, a não ser algumas ervas e verduras. Comiam polenta pela manhã no desjejum, no almoço, apenas um intervalo durante a jornada de trabalho, e no jantar, quando, exaustos retornavam para as suas casas.

Essa dieta precária foi a causa da chamada doença dos "três D's" muito generalizada em todo o Vêneto, conhecida cientificamente como pelagra. Os 3 D's representavam as letras iniciais dos nomes dos sinais e sintomas das três fases conhecidas desta grave doença: dermatite, diarréia e demência.

Essa doença ainda fazia vítimas em meados do século seguinte, já próximo da II Grande Guerra e para termos uma ideia, nos dias atuais, mesmo em países muito pobres, assolados por guerras, catástrofes naturais ou frequentes convulsões sociais, não encontramos casos de pelagra.

A pelagra é fruto de uma fome crônica causada por uma alimentação inadequada, estoicamente suportada por muito tempo. 


Interior de uma pobre casa típica no Vêneto antigo 



O vinho, mais que uma bebida, era um alimento de verdade, e muito consumido pelos vênetos, causando uma outra praga representada pelo alcoolismo. O seu consumo nas zonas agrícolas do Vêneto eram muito superiores da média.

Quando na segunda metade do século XIX os parreirais italianos foram acometidos pela doença da filoxera, com a perda de quase todas as plantações de uva, causou uma catástrofe na economia regional e também na nutrição da população. 

A Itália depois da unificação era um país atrasado, pobre em relação à maioria dos países europeus, com um parque industrial muito reduzido e que não dava conta de absorver o excesso de mão de obra representado pelos milhares de desempregados do campo que procuravam trabalho nas cidades.

Até a época da grande emigração, que teve início por volta de 1875, a Itália era um país com uma economia essencialmente agrícola, mas, muito atrasada em relação a outros países. 

O campo era trabalhado nos mesmos moldes medievais, usando os mesmos instrumentos de trabalho do século anterior e onde a mecanização era privilégio de algumas poucas regiões. 

Com a emigração, em poucos anos milhares de pessoas deixaram o Vêneto aliviando assim a pressão social e o número de bocas a serem alimentadas. Além disso, passados os primeiros anos na terra de adoção, as regulares remessas de recursos, transferidas por aqueles que partiram, para os seus familiares que ficaram na Itália, possibilitou uma melhoria das condições de vida em todo o país. 



Dr. Luiz Carlos Piazzetta
Erechim RS





quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A Itália e a Investigação Agrária

Inchiesta agraria del Veneto (Investigação Agrária do Vêneto) 1882



Em 1887 a Itália ainda era um pequeno país, atrasado, pobre e com muitos problemas sociais de difícil solução. Somente em 1860 foi criado o Reino da Itália e Roma tinha passado a ser a sua capital em 1870. Até então a Itália era formada de pequenos reinos e ducados de convivência entre eles bastante complexa, nem sempre pacífica. A unificação desse ainda jovem reino se fez as custas de muitas lutas, de encontros e desencontros e do sacrifício do seu heterogêneo povo, especialmente aqueles mais pobres. As autoridades do governo estavam tendo muitas dificuldades para equilibrar a ainda débil economia italiana. Para tentar sanar esse imenso problema, passaram a vender inúmeras propriedades do estado, bens da Igreja, e concessões de estradas de ferro. Foram criados vários novos impostos, como aquele odiado pelo povo, que incidia sobre a moagem de grãos, o qual devia ser recolhido diretamente nos moinhos e o imposto sobre o sal. Esses impostos,  que a princípio sujeitavam toda a população, gravavam de maneira mais pesada os mais pobres, entre eles os pequenos agricultores e os artesãos, que pagaram com seu sangue e suor o peso da criação do novo reino. 




Na jovem Itália tudo estava por ser feito pelo Estado, com funcionários ainda sem prática e com pouca experiência administrativa. Faltavam escolas, estradas, pontes, hospitais, enfim toda a infraestrutura necessária para o funcionamento do país, além de precisar tentar  a harmonização e unificação das inúmeras línguas faladas no reino, as várias formas de aplicar a justiça, as várias moedas que circulavam, os vários procedimentos aduaneiros usados em todo o reino e unificar as diversas forças militares ainda existentes. 




Na Itália de 1887 várias doenças epidêmicas matavam a população como a malária que assolava em grandes áreas do reino e a pelagra, uma doença carencial causada pela subalimentação, pela falta crônica de algumas vitaminas e elementos necessários à vida. Pelas cifras oficiais dadas a conhecer pelas autoridades pode-se ver que os números são de um verdadeiro massacre da população, sendo que as mais atingidas eram as crianças de até 5 anos de idade. Nesse período a Itália tinha uma alta mortalidade infantil, vítimas da   grande escassez de alimentação, da higiene precária e da falta de recursos financeiros para serem examinados por médicos. 

Quando a Itália foi unificada existiam pouquíssimas fábricas, o trabalho era feito em casa, segundo um velho hábito de manufatura artesanal, ainda hoje presente em várias regiões da Itália e também nos países que receberam a emigração italiana, como o Brasil meridional. 

Em 1887 a Itália era um país cuja economia se baseava quase exclusivamente na agricultura. Segundo alguns dados, de uma população de 30 milhões  de habitantes, 21 milhões era formado por pequenos agricultores. Praticavam ainda uma forma de cultivo ainda muito atrasada em relação a outros países da própria Europa. Usavam superados equipamentos agrícolas, herdados dos avós, não tratavam a agricultura como uma prática capaz de gerar economia e progresso. A grande maioria dos pequenos agricultores nascia, vivia e morria na mesma propriedade rural, à sombra da mesma torre de igreja, como os seus antepassados, imersos em hábitos e tabus ancestrais. Na maioria das propriedades rurais, ainda se praticava uma agricultura de subsistência, cultivada essencialmente para saciar as suas necessidades básicas imediatas e não para a comercialização do excedente. Em alguns pontos planície vêneta   se iniciava alguns exemplos de um capitalismo agrário mais desenvolvido, com o aparecimento de algumas propriedades rurais em que se praticava o múltiplo cultivo agrícola associado a formação de pastos para a criação de animais para o abate e produção de queijos.  Somente na região do Piemonte a agricultura conheceu níveis de qualidade aproximados ao de outros países europeus. 



Nessa época a economia da Itália se arrastava, perdendo a concorrência para os produtos importados como o trigo, o milho, o vinho que chegavam de outros países, principalmente Estados Unidos e França, a preço muito mais baixo do que aquele produzido no país. A consequência mais visível disso era o desemprego em massa no campo, a diminuição do salário pago aos diaristas e pequenos artesãos, que agora começavam a se amontoar  frente as igrejas, nas praças das pequenas vilas, esperando por um trabalho. O desestímulo desses homens magros e de rostos encavados era muito grande especialmente para aqueles que não estavam conseguindo levar alimentos suficientes para casa. A fome já rondava um grande número de lares.  

A Itália se apresentava ao mundo como um país pobre e analfabeto, sem recursos naturais, como ferro e carvão, para suprir a incipiente industrialização. Um país onde a renda média do trabalhador era apenas um quarto daquela inglesa e um terço da francesa. 

Uma aprofundada investigação agrária, ordenada pelo parlamento italiano, dirigida pelo conde Stefano Jacini, expoente deputado da democracia cristã, que durou entre os anos de 1861 e 1886, apresentou suas conclusões em 15 volumes. Nas suas páginas podemos ter uma verdadeira radiografia das reais condições da agricultura italiana nas diversas regiões aqueles primeiros anos do novo Reino. Nele podemos ver que a vida na Itália era bem difícil, com pouco trabalho, e quando esse havia era mal pago, o povo sem dinheiro para as suas necessidades básicas, como para levar um doente ao médico ou comprar os remédios receitados. Lá se pode ver que em muitos lugares, tanto do sul como do norte da península, as crianças eram colocadas a venda em praça pública, comercializadas come se fossem uma mercadoria qualquer. A descrição das condições de vida do povo italiano, onde milhares de pobres ainda viviam em cavernas escavadas na rocha e em e pequenos e úmidos casebres. 

Resumo 

O Inquérito sobre as condições da classe agrícola na Itália, decretado pela lei de 15 de março de 1877, representa a documentação mais completa sobre o estado da economia agrícola da Itália pós-unificação. Os atos da investigação, publicados de 1881 a 1890, foram resumidos no relatório final do presidente da junta, senador Stefano Jacini, que denunciou o desinteresse dos diversos governos que haviam conduzido o país para a agricultura, que também fornecia ao Estado a maior parte da renda nacional, sem receber em troca nem capital, nem estímulos ou incentivos para seu desenvolvimento. A investigação, que teve por objeto as características da propriedade fundiária, as colheitas e métodos de cultivo, as condições de vida dos camponeses, revelou que vinte anos após a unificação, permaneceram diferentes realidades ambientais e produtivas, vinculadas aos costumes, usos e culturas diferentes: áreas limitadas de cultivo intensivo, caracterizadas pelo uso de fertilizantes e maquinário agrícola e pela disponibilidade de capital e espírito empreendedor, contrastadas grandes áreas não cultivadas ou pouco produtivas, devido aos métodos arcaicos de cultivo adotados, e infinitas gradações entre os dois extremos. Além disso, o país tinha apenas uma área cultivável limitada, que também estava sujeita à seca e à malária. Era necessário, portanto, aumentar a área de produção por meio de reflorestamento e recuperação de terras, usar meios de cultivo mais modernos, maiores fertilizantes químicos e irrigação, implementar uma rotação de culturas mais eficaz, aumentar árvores e vegetais. Jacini era um conservador, de fé liberal, mas diante da crise agrária dos anos 1980, causada pela competição do trigo americano, argumentou a necessidade de defender a produção nacional com um leve protecionismo aduaneiro e pediu ao governo que reduzisse a carga tributária e uma compromisso financeiro substancial para o setor agrícola. 














sábado, 3 de março de 2018

A Pelagra no Vêneto

 




A Pelagra no Vêneto

Esta é doença endêmica se fez notar inicialmente em algumas partes do Vêneto, ainda no final do século XVIII, para depois, rapidamente, se espalhar por quase todo o território. Em 1776, a autoridade responsável pela saúde da Sereníssima República de Veneza publicou um decreto em que dava conta dessa nova situação e alertava as autoridades, dizia: “Os efeitos perniciosos que poderão causar prejuizo a saúde dos mais pobres, especialmente aqueles habitantes da zona rural do Polesine, Padovano e Veronese, devido a alimentação com sorgo turco imaturo e de má qualidade, em grande parte, colhidos de terrenos alagados pelas enchentes e aluviões, fazem necessário uma maior vigilância e atenção desta autoridade para prevenir as ameaçadoras doenças que poderão surgir com tais hábitos”. Presume-se que as autoridades venezianas já estavam pensando nesta doença e nas implicações à saúde do povo, quando proibiram o comércio e a moagem de milho deteriorado. As primeiras investigações oficiais que se tem notícias aconteceram em 1805, quanto o Vêneto estava sob o domínio do governo austríaco, as quais exortavam os médicos a fazerem estudos e observações sobre o progresso da doença no departamento de Treviso. Na ocasião eles chegaram a conclusão que a causa da doença era devido a qualidade do alimento ingerido pelas popoluções mais pobres, o que não foi aceito por muitos estudiosos que afirmavam que a etiologia era de origem tóxica. As duas correntes de pensamentos, a carencialista e a toxicológica, dividiram o pensamento dos estudiosos da época até 1883 quando foi criado o primeiro pelagrosário italiano, na cidade de Mogliano Veneto. Em 1935 com o isolamento da chamada vitamina PP (pelagra preventing fator) uma substância que não é assimilável pelo organismo na ausência de niacina, triptofano e vitaminas B2 e B6, todos presentes nas carnes, ovos e leite, ficou finalmente demonstrado a etiologia da pelagra. A pelagra é uma doença causada pela falta de niacina (ácido nicotínico ou vitamina B ou vitamina PP) e ou de aminoácidos essenciais, como o triptofano. A pelagra é uma doença que se apresenta clinicamente com três fases: cutânea, intestinal e nervosa. Atualmente ela é conhecida pelo nome de doença dos 3 D, pelos seus três principais sintomas que começam com a letra D. São eles: na fase inicial Dermatite, com o aparecimento de manchas cor escura na pele, eritema, pele seca e áspera, seguido mais tarde pelo aparecimento de crostas. Na segunda fase aparecem as Diarréias, acompanhadas de sangramento intestinal e vômitos. Na terceira e irreverssível fase aparecem as alterações mentais com alterações da conduta e do comportamento, seguindo para a Demência. Atualmente ela é uma doença pouco comum e os casos de pelagra encontrados estão relacionados especialmente com o alcoolismo crônico.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS