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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Último Adeus de Pietro Zanetti


O Último Adeus de Pietro Zanetti

Albignasego, Vêneto — 1886

Era uma manhã enevoada de março quando Pietro Zanetti deixou a pequena aldeia de Albignasego, no baixo Padovano. O frio ainda morava entre as colinas, e o orvalho da noite pendia das videiras como pequenas lágrimas congeladas. O ar tinha o gosto úmido da terra recém-remexida e o perfume de lenha queimada vindo das chaminés, onde as famílias aqueciam o magro desjejum antes do trabalho nos campos.

Pietro caminhava devagar pela estrada de cascalho, o corpo inclinado sob o peso da sacola de linho que levava às costas — meia dúzia de roupas gastas, um rosário de contas escurecidas e uma fotografia desbotada da mãe, tirada num dia de festa muito antes de a miséria lhes tomar o sorriso. Os sapatos, remendados pelo próprio pai, rangiam sobre o chão molhado, e o som seco dos passos parecia marcar o ritmo de uma despedida sem retorno.

Atrás dele, o sino da igreja soou cinco vezes, espalhando-se pelo vale como um lamento. Àquela hora, todos os que ainda dormiam despertaram, e os que já estavam de pé sabiam: outro filho da terra partia rumo ao desconhecido.

Na soleira da casa, sua mãe, envolta num xale preto, assistia ao afastamento do filho com os olhos marejados e as mãos trêmulas apertando o terço. Ao lado dela, o irmão mais novo observava em silêncio, sem compreender por que a mãe chorava tanto se o irmão “ia ficar rico na América”.

Pietro não teve coragem de olhar para trás. Sabia que bastaria um único olhar para desfazer toda a coragem que levara meses para juntar. O coração, comprimido no peito, batia como se quisesse gritar. A cada passo, sentia o peso das promessas que fizera — a promessa de voltar, de comprar um pedaço de terra, de erguer uma casa com janelas de vidro e telhas novas. Mas no fundo, uma voz silenciosa lhe dizia que talvez aquele adeus fosse definitivo.

A Itália, unificada há pouco, era um país pobre, dividido e cansado. Os camponeses do Vêneto sobreviviam de arrendamentos injustos, e a terra, exaurida por séculos de cultivo, já não alimentava as famílias. O trigo mal cobria as sementes, e o milho crescia mirrado, como se a própria terra estivesse desistindo de lutar.

Nas tavernas, sob o rumor do vinho barato, falava-se cada vez mais da América. Era um nome que parecia conter o milagre — uma palavra sussurrada com devoção, como se fosse o nome de um santo. Lá, diziam, havia terras livres, pão farto, trabalho pago em moeda e não em promessas. Lá, o homem podia ser dono de si.

Pietro ouvira essas histórias nas noites de inverno, ao redor da fogueira, quando os homens voltavam da lavoura e falavam de navios enormes e mares sem fim. No início, ele ria. Achava que era conversa de bêbado. Mas quando o arrendador dobrou o preço do arrendo e a última colheita mal pagou a farinha, a América deixou de ser lenda e virou destino.

Naquele amanhecer, enquanto o nevoeiro se dissolvia sobre os campos e o som distante do sino se apagava no vento, Pietro sentiu que algo dentro dele também se desfazia — uma parte da infância, talvez, ou a ilusão de que tudo voltaria a ser como antes.

Seguiu adiante, com o rosto frio e os olhos fixos no horizonte. À sua frente, a estrada era longa e desconhecida, mas ao menos levava para longe da fome e do desespero. Atrás dele, a aldeia de Albignasego acordava lentamente, sem saber que aquele jovem de passos firmes jamais voltaria a cruzar o portão da velha igreja.

E assim começou a travessia de Pietro Zanetti — não apenas entre dois continentes, mas entre o que ele fora e o que ainda seria.

A Travessia

O porto de Gênova fervilhava de vozes, gritos e choros. Era o som de um país que se despedia de si mesmo. Milhares de homens e mulheres acotovelavam-se entre malas, cestos e caixas, cada um carregando o pouco que restava de sua vida. No meio daquela confusão, Pietro Zanetti sentia-se menor do que nunca. O vapor Principe di Napoli, com sua chaminé negra cuspindo fumaça, parecia uma criatura viva — um monstro de ferro pronto para devorar esperanças e vomitar destinos.

Enquanto esperava na fila para o embarque, Pietro apertava a folha do passaporte amassado que trazia no bolso e o rosário da mãe. Ouviu o apito do navio e sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A multidão avançava como um rebanho empurrado pela necessidade. Não havia retorno. Quando finalmente pisou na rampa de madeira que levava ao convés, teve a nítida sensação de que deixava para trás não apenas a Itália, mas a própria alma.

A viagem duraria quase trinta dias, e logo os sonhos se misturaram ao cheiro acre do porão. A terceira classe era um labirinto abafado e escuro, onde famílias inteiras se amontoavam em beliches de madeira úmida. O ar era pesado de suor, vômito e esperança. As crianças choravam, os velhos tossiam, e o balanço do mar fazia o estômago de muitos se revoltar. A comida — pão duro, caldo ralo e, às vezes, um pedaço de carne salgada — parecia zombar da fome que traziam.

Nas primeiras noites, o mar permaneceu calmo, e o murmúrio das ondas embalava os pensamentos. Mas, quando a tempestade chegou, mostrou sua verdadeira face. O navio gemia sob a força dos ventos, as madeiras estalavam como se prestes a se romper. Muitos rezavam em voz alta, outros gritavam os nomes dos filhos. Pietro, encharcado e com os joelhos fincados no chão, segurava o crucifixo e pedia apenas para acordar vivo quando o sol voltasse a nascer.

Foi nesse calvário que conheceu a família Bertolin, de Treviso — Giovanni, o pai, um homem de olhar sereno e mãos calejadas; Maria, a esposa, de semblante doce e fé inabalável; e as três crianças pequenas, cujas risadas frágeis pareciam desafiar a miséria ao redor. Dividiam o pão e a esperança. Em meio ao cheiro de maresia e carvão, nasceram laços que só a adversidade é capaz de tecer. Pietro e Giovanni passavam as tardes falando da Itália — das vinhas do Piave, dos sinos de Treviso e do rumor do vento entre os campos de trigo. À noite, Maria contava histórias às crianças, e, por instantes, o porão deixava de ser uma prisão e virava uma casa.

Mas o mar, sempre caprichoso, lembrava-os de que a felicidade era breve. Quando a tempestade voltou, os beliches se transformaram em covas de medo. Um dia, um menino da terceira fileira morreu de febre, e o corpo, embrulhado em um lençol, foi lançado ao oceano. O som da água se fechando sobre ele permaneceu por horas no silêncio coletivo.

Quando finalmente avistaram a costa do Brasil, os passageiros caíram de joelhos. Alguns beijaram o convés, outros apenas choraram. O sol tropical refletia no mar como uma bênção, e a cor azul intensa feriu os olhos acostumados ao cinza do Adriático. Ainda faltava o último ritual: o exame médico obrigatório para todos os que desembarcavam.

Um médico, enviado pelo governo imperial brasileiro, passou por fileiras intermináveis de homens, mulheres e crianças, examinando com rapidez mecânica. Pietro foi o último. Sentiu a picada da vacina e um calafrio, mas o braço não reagiu. No dia seguinte, enquanto todos embarcavam em outras embarcações de menor calado rumo ao porto de Santos, seu nome foi chamado em voz alta. Ele devido a febre pós vacina deveria permanecer em observação. Foi separado do grupo, sem sequer poder se despedir dos Bertolin. Da amurada, viu-os acenando de longe — Maria com o lenço branco, Giovanni segurando o filho no colo. Pietro levantou o braço em resposta, sem saber que aquele seria o último gesto entre eles. Nunca mais soube o destino deles.

A Ilha das Flores, na baía do Rio de Janeiro, era um lugar que cheirava a doença e solidão. Barracões de madeira da grande hospedaria, camas de ferro e o choro incessante dos que haviam perdido tudo. Ali, entre gritos e desespero, Pietro entendeu que a travessia não terminava no mar. Era apenas o começo de uma outra jornada — mais silenciosa e cruel — a de quem precisa sobreviver para recomeçar sozinho em uma terra onde ninguém o espera. Quando, dez dias depois, lhe deram a liberdade e uma passagem para São Paulo, ele já não era o mesmo homem que deixara Albignasego. O mar o havia esvaziado. E, dentro desse vazio, nascia algo novo — uma coragem feita de dor e silêncio.

O Destino em Araraquara

Quando Pietro Zanetti finalmente chegou a São Paulo, trazia nos olhos o cansaço do oceano e nas mãos a fragilidade de um sonho quase gasto. A cidade, naquele ano de 1886, fervilhava de vida e desordem: carroças, negros libertos à procura de trabalho, italianos recém-chegados falando dialetos incompreensíveis, e senhores de paletó branco que olhavam tudo de cima, como se aquele tumulto fosse apenas o preço da riqueza.
Pietro não sabia ler nem escrever. Carregava apenas um papel amassado, sujo de suor e sal, com o nome de um homem que ele jamais vira: Coronel João Barba, proprietário da Fazenda Monte Alegre, no município de Araraquara, “quatrocentos quilômetros no mato adentro”, como lhe disseram.
No escritório de imigração, um salão abafado de paredes úmidas e cheiro de tinta e papel, o coronel aguardava impaciente. Era um homem corpulento, de bigodes grossos e olhar acostumado a mandar. Esperava famílias inteiras — maridos, esposas e filhos — mas fora informado que os seus contratados tinham se atrasado devido problemas com o trem que os trazia até Genova e não chegaram a tempo de embarcar. Quando viu Pietro, magro, queimado de sol, o chapéu amassado nas mãos, hesitou por um instante. Depois, resmungou:
— Se é o que tem... que venha esse mesmo.
Não querendo voltar de mãos vazias, levou consigo o único imigrante ainda disponível que estava sem emprego.
A viagem até a fazenda foi longa e penosa. Primeiro, o trem — um monstro de ferro e fumaça que serpenteava lentamente pelos campos paulistas, tossindo carvão e cuspindo faíscas. Pietro, sentado ao lado de sacos de mantimentos e galinhas vivas, via pela janela o mundo se transformar. Os casarões brancos da capital davam lugar a colinas vermelhas, a cafezais jovens, e, mais adiante, ao verde denso e impenetrável da mata.
Quando os trilhos acabaram, o coronel ordenou que subissem num carro de boi. O ranger das rodas misturava-se ao mugido dos animais e ao zumbido insistente dos insetos. O sol caía pesado sobre as costas de Pietro, e o ar parecia mais espesso a cada quilômetro. No final do dia, avistaram um descampado e, ao fundo, uma casa grande de alvenaria, erguida sobre um outeiro. Era a Fazenda Monte Alegre.
“Araraquara”, pensou Pietro, repetindo o nome como quem tenta compreender uma palavra sagrada e ameaçadora. Ali terminava o mundo conhecido — dali para frente, era mato virgem, calor e solidão.
O coronel o apresentou aos capatazes e mandou que lhe arranjassem um canto para dormir. O alojamento era um barracão de tábuas, o mesmo onde antes viviam os escravizados libertos. O ar era quente e pesado, o chão de barro batido cheirava a suor antigo e fumaça. Pietro deitou-se sobre uma esteira gasta e, pela primeira vez, compreendeu o peso da palavra “América”.
Durante o dia, ajudava a limpar o mato, abrir picadas, levantar cercas e preparar a terra para o plantio do café. O trabalho era árduo, quase desumano. O sol castigava, e o corpo doía como se cada músculo tivesse de aprender uma nova língua. À noite, comia feijão ralo e farinha junto dos negros libertos, homens que olhavam o chão quando falavam e que traziam nos olhos uma tristeza antiga.
Nos primeiros meses, Pietro foi o único imigrante italiano em Monte Alegre. Era o estrangeiro entre os estrangeiros, o homem sem palavra, sem família, sem língua. As cartas prometidas pelo governo imperial, os lotes de terra, o “futuro dourado” que ouvira nas tavernas de Padova, tudo aquilo parecia agora uma fábula contada a crianças.
Certa noite, sentado na soleira do barracão, ouviu ao longe o canto de um sabiá-laranjeira. A melodia era simples e melancólica, e fez Pietro pensar nas colinas de sua infância, no som dos sinos de Albignasego ao amanhecer, na voz da mãe chamando-o para o jantar. O peito apertou. Ele não chorou — os homens da roça aprendem cedo que lágrimas não alimentam ninguém —, mas algo dentro dele cedeu.
Naquela noite, olhou para o céu estrelado do Brasil e compreendeu que não havia caminho de volta.
Ali, onde o mato ainda guardava o cheiro da escravidão, ele começaria de novo.
E, sem saber, inaugurava a longa história de um povo que, entre suor e saudade, faria florescer nas terras vermelhas do interior paulista o sangue e a esperança da Itália.

O Amor e o Enraizamento

Dois anos depois, começaram a chegar novas famílias italianas, sobretudo de Venegazzù, Montello e Piave. Entre elas, veio Lucia Paolon, uma jovem de vinte anos, de olhos verdes e mãos calejadas, filha de pequenos lavradores de Treviso.
Pietro e Lucia se conheceram durante a colheita do café. Ela cantava baixinho uma canção vêneta, e ele, mesmo sem escutar bem as palavras, sentiu nelas o cheiro da sua terra distante. Casaram-se sob um altar improvisado na capela de barro da fazenda.

Daquele amor nasceram oito filhos — quatro homens e quatro mulheres. O primogênito, Antonio, veio ao mundo em 1891, sob um sol de rachar e o tilintar dos carros de boi. Nenhum deles conheceria a Itália, mas todos herdariam o sotaque, as canções e o modo de gesticular das mãos.

As Cartas e o Silêncio

Durante décadas, Pietro manteve correspondência com a mãe e os irmãos que ficaram em Albignasego.
As cartas, escritas por um vizinho alfabetizado, viajavam meses em navios lentos. Falavam de colheitas, nascimentos e saudades. Depois de 1910, as respostas começaram a rarear. A Europa mergulhava nas sombras da guerra, e as letras de casa cessaram.

Mesmo assim, Pietro guardava no baú todas as cartas antigas, como quem preserva um fio de voz do outro lado do oceano. Às vezes, à noite, chamava o filho mais velho para ler em voz alta as páginas amareladas, e seus olhos marejavam diante de nomes que o tempo havia levado.

O Último Verão

Em 1938, aos setenta e cinco anos, Pietro ainda caminhava entre os cafezais de Monte Alegre. O corpo estava curvado, mas o espírito permanecia firme. No alpendre da casa, ao entardecer, olhava para o horizonte e dizia, em dialeto vêneto:

“La tera càmbia, ma el cuor no se sposta.”
(“A terra muda, mas o coração não se move.”)

Morreu numa tarde de dezembro, enquanto o sol queimava os campos de café. Foi enterrado sob uma cruz simples de madeira, com uma pequena inscrição:

“Pietro Zanetti – 1863-1938 – Dalla terra del Veneto alla speranza del Brasile.

Seus netos e bisnetos, muitos dos quais jamais pisaram na Itália, ainda hoje guardam o sobrenome com orgulho e emoção.
E quando o vento sopra sobre os cafezais antigos, parece trazer consigo o eco distante daquele último adeus de 1886 — o dia em que um jovem lavrador deixou tudo para trás, e, sem saber, plantou raízes eternas no coração do Brasil.

Nota do Autor

Esta história nasceu do silêncio das cartas antigas, das lembranças sussurradas nas cozinhas e dos olhos marejados de quem ainda sente o peso e o orgulho de ser descendente de quem partiu.
Os fatos aqui narrados são verdadeiros — apenas os nomes foram mudados, a pedido dos descendentes, que guardam com respeito e emoção as memórias de seus antepassados. A história de Pietro Zanetti é, na verdade, a história de muitos: homens e mulheres que deixaram a terra natal com uma mala de linho, uma fé teimosa e o sonho de recomeçar do outro lado do oceano.
As palavras que compõem este livro foram tecidas a partir de cartas, depoimentos e fragmentos de memória preservados por gerações. O que nelas pulsa não é apenas a trajetória de um emigrante, mas o eco de um tempo em que o sacrifício era sinônimo de esperança — e em que cada lágrima derramada no porto de partida se transformava em raiz no solo desconhecido do Brasil.
Esta obra é, portanto, uma homenagem silenciosa àqueles que, com coragem e dor, construíram o alicerce das nossas histórias. Porque, em cada um de nós, ainda bate o coração daqueles que um dia disseram o último adeus.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Lorenzo Bigolino: a jornada de um imigrante italiano na terra vermelha de Rio Claro – 1888


Lorenzo Bigolino: a jornada de um imigrante italiano na terra vermelha de Rio Claro – 1888


No início de 1888, Lorenzo Bigolino, um camponês de vinte e oito anos nascido em uma pequena localidade do município de Loria, província de Treviso, tomou a decisão que mudaria o destino de sua família. Os campos que haviam sustentado seus antepassados por gerações já não ofereciam mais do que dívidas e fome. A seca, o preço baixo do trigo e a promessa de terras férteis do outro lado do oceano haviam convencido muitos de seus conterrâneos a partir.

Casado com Olimpia Baldotti, de vinte e cinco anos, e pai de um menino de dois, Angelo, Lorenzo nutria o mesmo sonho inquieto que tomava conta das aldeias do Vêneto: o de começar uma nova vida nas Américas. Olimpia, já grávida do segundo filho, resistira enquanto pôde. As mães e irmãs imploraram que ficasse, mas Lorenzo estava decidido. Um fazendeiro brasileiro, de sobrenome Almeida, havia contratado dezenas de famílias para trabalhar nas plantações de café de Rio Claro, na província de São Paulo. O contrato com duração mínima de quatro anos prometia moradia, sustento e pagamento por produção. Era, diziam, a chance de enriquecer.

O embarque ocorreu no porto de Gênova, sob o frio úmido do final de fevereiro. O vapor, abarrotado de famílias, cheirava a medo e esperança. Durante as semanas seguintes, a travessia foi uma lenta agonia entre enjoo, orações e gritos de crianças. Olimpia deu à luz no oitavo dia de mar revolto. A menina recebeu o nome de Luigia, nascida sob o som grave das ondas batendo contra o casco do navio. Muitos viram nisso um presságio: nascer entre dois mundos era sinal de força e sobrevivência.

Ao chegar ao porto de Santos, a família mal teve tempo de compreender o novo continente. Embarcaram logo num trem que subia as serras íngremes até Campinas e, depois, Rio Claro. O calor era brutal. O ar denso trazia o cheiro doce do café maduro misturado à terra vermelha. A Fazenda Pau Quebrado, destino final, se estendia por colinas intermináveis, onde milhares de pés de café se perdiam até o horizonte.

As promessas feitas ainda na Itália logo se mostraram enganosas. A vida na fazenda era dura e o pagamento escasso. O trabalho começava antes do nascer do sol e terminava quando as sombras já haviam engolido os cafezais. Olimpia, mesmo com o bebê recém-nascido e o pequeno Angelo correndo entre os arbustos, ajudava a colher, lavar e secar os grãos. O calor castigava, e os insetos pareciam brotar da própria pele. O feitor, um homem de olhar frio, controlava com precisão cada saca colhida e cada dívida acumulada no armazém da fazenda.

Durante quase oito anos, Lorenzo e Olimpia resistiram. Muitos companheiros fugiram ou tentaram regressar à Itália, mas as passagens eram caras e os sonhos quebrados. Lorenzo compreendeu cedo que não haveria retorno. As cartas enviadas a Loria tornaram-se cada vez mais curtas, escritas com caligrafia cansada e poucas palavras de consolo. O idioma da terra nova começava a se misturar ao seu, e a lembrança das colinas vênetas se dissolvia lentamente na poeira vermelha do interior paulista.

Com o tempo, as economias começaram a crescer, moeda por moeda, guardadas num pequeno baú de madeira que Lorenzo escondia sob o assoalho da casa. Olimpia costurava roupas para outras famílias e vendia hortaliças cultivadas ao redor da moradia sempre nos dias de folga, carregando os cestos pela estrada até o mercado de Rio Claro. A mulher que havia chegado grávida e exausta tornara-se uma figura firme, moldada pelo sol e pela necessidade.

Em 1896, Lorenzo tomou a decisão mais ousada desde que deixara o Vêneto. Com as economias de anos e um contrato de compra parcelado, adquiriu uma pequena chácara na periferia de Rio Claro. O terreno era irregular, coberto por mato alto e pedras, mas era dele. Nos primeiros tempos, trabalhou em jornada dupla: de dia, nas olarias da cidade, moldando tijolos sob o calor dos fornos; à noite, cuidava do plantio de feijão, milho e hortaliças. Olimpia, incansável, assumia grande parte das tarefas, e as crianças cresciam respirando o cheiro da terra molhada e o som das enxadas.

A pequena chácara se transformou, aos poucos, num símbolo de vitória silenciosa. Nenhum deles jamais voltou à Itália, mas o solo vermelho de Rio Claro tornou-se o chão de uma nova identidade. Lorenzo, agora com os cabelos endurecidos pelo tempo, observava os filhos aprenderem a falar duas línguas — o dialeto dos pais e o português dos vizinhos brasileiros —, percebendo que já pertenciam a outro mundo.

A travessia que começara no cais de Gênova não terminara com o desembarque em Santos, mas continuava todos os dias, na luta silenciosa por dignidade e permanência. Lorenzo compreendeu que emigrar não era apenas partir: era recomeçar, reinventar-se, e aceitar que certas raízes, uma vez arrancadas, jamais voltam a crescer no mesmo solo.

Quando Lorenzo Bigolino fincou o primeiro marco de madeira na chácara recém-comprada, sentiu um misto de triunfo e temor. O terreno, de pouco mais de dois alqueires, se estendia irregular até um pequeno córrego encoberto por taquaras. A terra era áspera, vermelha como sangue seco, mas fértil o bastante para prometer futuro. O contrato fora assinado em prestações longas, quase intermináveis, mas pela primeira vez em muitos anos Lorenzo sentia que o destino estava sob suas próprias mãos.

O primeiro barraco que ergueram mal podia ser chamado de casa. Paredes de barro e varas, telhas irregulares e o chão batido que se tornava lama nas chuvas. Mesmo assim, Olimpia limpava, organizava e rezava diante de um pequeno quadro da Madonna trazido de Loria, agora pendurado sobre a porta. Era o único objeto que restava do passado europeu. Tudo o mais havia sido substituído pelo que o Brasil lhes oferecia: panelas de ferro forjado, enxadas toscas e o som constante dos sapos nas noites abafadas.

Durante o dia, Lorenzo trabalhava na olaria que se erguia nas margens da estrada de ferro. A jornada começava antes do sol nascer, e o calor dos fornos transformava o ar em bruma espessa. Os braços fortes e o corpo magro ganhavam o respeito dos mestres locais, e com o tempo ele passou a receber algumas encomendas particulares de tijolos para as novas construções da cidade. Rio Claro crescia rapidamente. As ruas se expandiam em direção às colônias agrícolas, e o trem que ligava a região a São Paulo trazia não apenas produtos, mas também novos rostos — italianos, espanhóis, portugueses, todos à procura do mesmo sonho.

Enquanto isso, Olimpia transformava a pequena horta em fonte de sustento. Cultivava alfaces, cenouras, repolhos e, mais tarde, tomates que se tornaram famosos entre os fregueses da cidade. Empurrava o carrinho de mão pelas ruas de terra, equilibrando as cestas cobertas por panos brancos. Aprendera a negociar, a sorrir com firmeza, a fazer-se respeitar. Quando o dinheiro escasseava, trocava legumes por sabão ou farinha. O que sobrava era guardado numa pequena caixa de madeira escondida dentro de um buraco na parte assoalhada da moradia, o mesmo tipo de esconderijo onde, anos antes, haviam guardado as moedas que lhes compraram aquele pedaço de chão.

Angelo, o filho mais velho, começava a ajudar o pai na olaria aos nove anos. Suas mãos pequenas moldavam o barro úmido, e o orgulho de Lorenzo ao vê-lo trabalhar era silencioso, mas profundo. Luigia, nascida no mar, crescia robusta, herdeira da coragem da mãe. Era ela quem levava água do poço, cuidava das galinhas e varria o terreiro ao entardecer.

Nos anos seguintes, a fazenda Pau Quebrado, de onde haviam saído, entrou em decadência. Muitos colonos se dispersaram, abrindo pequenas propriedades ou migrando para novas plantações em outras cidades. O tempo da grande escravidão havia terminado, e o trabalho livre tornava-se o alicerce da nova economia do café. Ainda assim, a vida dos imigrantes permanecia precária: contratos incertos, exploração velada e a distância irreversível da pátria.

Lorenzo, com o senso de dever que trazia do Vêneto, mantinha o ritmo implacável de trabalho. O domingo era o único dia em que permitia à família descansar. À sombra de uma mangueira recém-plantada, observava o campo verdejando e imaginava, pela primeira vez, um futuro que não dependesse de outro patrão.

As prestações da chácara foram sendo pagas uma a uma, com o dinheiro do emprego na olaria e das hortaliças. Aos poucos, ergueram uma casa de tijolos queimados, com janelas de madeira e um pequeno forno no quintal. As galinhas multiplicaram-se, o poço foi ampliado, e o terreno, antes inculto, agora produzia o suficiente para alimentar e vender.

Por volta de 1903, Rio Claro já era um centro pulsante de imigrantes. A cidade fervilhava de idiomas e cheiros estrangeiros: o pão de milho dos mineiros, o vinho grosso dos italianos, o azeite trazido pelos espanhóis. Lorenzo via nisso uma espécie de nova Itália, feita não de reinos, mas de sobreviventes. Muitos dos que chegaram após ele procuravam conselhos, e era comum vê-lo orientar recém-chegados sobre onde encontrar trabalho ou como evitar os contratantes desonestos.

A prosperidade, no entanto, vinha acompanhada de uma melancolia sutil. À noite, quando o barulho da cidade se calava e o vento soprava sobre as plantações, Lorenzo pensava nas colinas de Loria, nos sinos da pequena igreja de San Giovanni Battista que já não ouvia há tanto tempo, e na mãe que envelhecera sem vê-lo retornar. Sabia que jamais voltaria. O oceano que os separava não era apenas de água, mas de tempo e de destino.

Ainda assim, havia paz. O que um dia fora apenas sobrevivência transformara-se em vida. A terra vermelha de Rio Claro agora guardava o suor, as lágrimas e as esperanças de uma família que aprendera a pertencer a dois mundos.

Lorenzo Bigolino, o colono que partira sem nada, tornara-se dono do próprio chão. E naquele chão, a nova geração já enraizava o futuro — não mais como estrangeiros, mas como brasileiros de alma italiana.

Os anos passaram sobre a chácara dos Bigolino como o vento que se insinua por entre as folhas maduras do café. Quando o novo século chegou, trazendo luz elétrica e o som distante dos primeiros automóveis, Lorenzo já carregava no corpo o peso de décadas de trabalho. Seus ombros, outrora firmes, agora se curvavam lentamente, como os galhos de uma árvore antiga. As mãos, endurecidas pelo barro e pela enxada, guardavam a memória do esforço e da construção.

A chácara, agora próspera, era o reflexo da disciplina e da obstinação que haviam sustentado aquela família. O terreno fora ampliado, e uma segunda casa se erguia ao lado, destinada aos filhos. Angelo, o primogênito, havia aprendido o ofício do pai e comprou a antiga olaria transformando-a em pequeno negócio. Com tino prático e paciência herdada de Lorenzo, fabricava tijolos e telhas para os novos bairros de Rio Claro, que se expandia com o mesmo vigor dos cafezais.

Luigia, a filha nascida no mar, crescera forte e decidida. Casara-se com um imigrante lombardo e administrava uma pequena venda próxima à linha do trem, onde os trabalhadores compravam farinha, azeite, feijão e o vinho espesso que os italianos produziam em barris improvisados. Sua vida simbolizava uma geração já enraizada no Brasil — filhos de estrangeiros que falavam o português com naturalidade, mas mantinham nas casas o sotaque e os gestos do Vêneto.

Olimpia, que havia deixado a Itália grávida e temerosa, tornara-se a matriarca respeitada da colônia. O rosto sulcado pelo tempo guardava a serenidade das mulheres que conhecem o sentido do sacrifício. Nas manhãs de domingo, vestia-se de preto e acendia velas diante do pequeno altar que ainda conservava a imagem da Madonna trazida de Loria. Aquele quadro, escurecido pela fumaça e pelos anos, era o último elo visível com a terra natal.

Com o passar do tempo, a comunidade italiana de Rio Claro se consolidara. As festas do padroeiro atraíam famílias de longe, os corais entoavam cantos em dialeto, e o vinho novo corria pelas mesas improvisadas sob o barracão da igreja. Havia entre todos um sentimento de conquista silenciosa, como se, após décadas de luta, os imigrantes tivessem finalmente conquistado não apenas o direito de viver, mas o de permanecer.

Para Lorenzo, porém, o triunfo vinha acompanhado de uma nostalgia irredutível. Muitas vezes, sentado à sombra da mangueira que plantara trinta anos antes, observava o pôr do sol tingindo a terra vermelha e recordava as colinas úmidas do Vêneto. Quase não se lembrava mais do rosto dos que deixara para trás, mas o som dos sinos de Loria ainda lhe visitava os sonhos, misturado ao ruído do vento e ao distante apito dos trens.

O tempo o transformara num homem de poucas palavras, mas de olhar sereno. Sabia que o passado havia se dissolvido e que o futuro já pertencia aos filhos e netos. O pequeno Lorenzo, seu neto mais velho, corria pelo terreiro com a mesma energia do avô em juventude, e Lorenzo via nele a prova viva de que a travessia não fora em vão. A herança que deixaria não era apenas a terra conquistada, mas o exemplo de resistência e fé.

Nos últimos anos, sua rotina se tornara simples: acordava cedo, caminhava entre os canteiros, cuidava das árvores frutíferas e observava as galinhas ciscando. O corpo enfraquecia, mas a mente permanecia lúcida, e Lorenzo sentia uma paz discreta ao perceber que tudo o que havia sonhado estava agora diante de si — não em grandeza, mas em permanência.

Quando a doença o alcançou, numa manhã fria de julho, Olimpia permaneceu ao seu lado, segurando-lhe a mão como quem segura o fio da própria vida. Não houve palavras, apenas o silêncio carregado de uma história inteira. Lorenzo partiu serenamente, no mesmo mês em que, quarenta anos antes, deixara o porto de Gênova.

Foi sepultado no cemitério local, sob uma lápide simples de pedra bruta, onde o filho mandou gravar: “Qui riposa Lorenzo Bigolino, lavoratore e padre. La terra che coltivò, ora lo accoglie.”

Olimpia viveu ainda mais alguns anos. Todas as tardes, caminhava até o túmulo e deixava sobre a pedra uma pequena flor colhida no quintal. Dizia que o vento que soprava dali era o mesmo que vinha do mar, e que, de algum modo, levava de volta até Loria as memórias que nunca se perderam.

Com o tempo, a chácara dos Bigolino tornou-se referência na região. As novas gerações, já brasileiras, cresceram ouvindo a história do homem que atravessara o oceano com a mulher grávida e que, sobre a terra estranha, plantara não apenas alimentos, mas raízes.

No silêncio das manhãs de Rio Claro, quando o sol começa a dourar os telhados e a poeira sobe leve das estradas, é como se ainda se pudesse sentir a presença de Lorenzo — o jovem de Loria que acreditou que a coragem podia vencer o destino.

Nota do Autor

Esta narrativa foi construída a partir de fragmentos de cartas autênticas de emigrantes italianos do final do século XIX, especialmente aquelas escritas por trabalhadores que partiram do Vêneto rumo às fazendas de café do interior paulista. Entre essas vozes, destaca-se a correspondência de um imigrante, datada de 1888 e enviada de São Carlos do Pinhal, onde ele descreve com crueza as dificuldades, as ilusões e as esperanças de quem buscava uma vida melhor na América.

Inspirado nesse testemunho real, nasceu a história ficcional de Lorenzo Bigolino, um homem comum que carrega em si o destino de milhares. O que aqui se narra não é apenas a trajetória de uma família, mas o retrato de uma geração inteira — homens e mulheres que abandonaram aldeias, dialetos e tradições seculares para enfrentar o desconhecido em nome da sobrevivência e da dignidade.

A saga dos Bigolino, ambientada em Rio Claro, poderia ter ocorrido em qualquer ponto do interior paulista onde o café moldou o território e a vida. O que se descreve — a viagem transatlântica, o nascimento de uma criança em alto-mar, o trabalho nas fazendas, a lenta conquista de uma chácara e o esforço diário pela autonomia — reflete fielmente o percurso de incontáveis famílias italianas entre 1875 e 1902, anos em que o Brasil se tornou destino preferencial dos que fugiam da pobreza no norte da Itália. Não há heróis nesta história, apenas pessoas.

Lorenzo e Olimpia representam o espírito anônimo e silencioso dos que construíram, com suor e esperança, as bases do Brasil moderno. Suas vitórias não se medem em riqueza, mas em permanência; sua grandeza não está na glória pública, mas na teimosia de permanecer de pé mesmo diante do impossível.

Toda reconstrução literária, ainda que baseada em fatos e documentos, é também um gesto de memória. Recriar as vozes desses imigrantes é uma forma de restituir-lhes a humanidade que o tempo e o anonimato lhes roubaram. A história de Lorenzo Bigolino é, portanto, um tributo a todos os que cruzaram o oceano acreditando que o futuro podia ser semeado com as próprias mãos.

Que esta narrativa ajude o leitor a compreender que, sob cada sobrenome italiano hoje encontrado no interior de São Paulo, há uma travessia semelhante — feita de perda, coragem, e fé no amanhã.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 20 de março de 2025

Da.Emília ao Coração de Minas Gerais

 


Da Emília ao Coração de Minas Gerais

Em 1895, em uma pequena vila no interior da  região da Emília, na Itália, vivia uma família chamada Fitarollo. Eles eram conhecidos por sua forte união e trabalho árduo. A situação da economia italiana continuava piorando a cada ano. O preço dos produtos agrícolas, especialmente dos grãos, sofria a concorrência dos importados o que fazia cair o preço de venda abaixo do custo da produção. A inflação e o desemprego cresciam a cada ano. Em algumas zonas rurais, do norte ao sul da Itália, a desnutrição e a fome já começavam a aparecer. O patriarca da família, Carlo Fitarollo, estava determinado a proporcionar um futuro melhor para seus entes queridos, então, após ouvir histórias relatadas através de cartas de familiares, já emigrados algum tempo antes, de enormes oportunidades existentes no Brasil, ele decidiu fazer uma jornada ousada.
Em 1897, Carlo, com a esposa Giulia e seus cinco filhos, juntou-se a outros emigrantes da aldeia e embarcou em uma emocionante viagem da cidade de Gênova para o Brasil a bordo de um grande navio. Além de Carlo,  seu irmão Lucca e sua família também se aventuraram nessa jornada.
Após 36 dias a bordo de um navio, em precárias condições eles finalmente chegaram ao movimentado porto do Rio de Janeiro. De lá, após breve passagem de dois dias pela Hospedaria dos Imigrantes, onde fizeram os exames médicos exigidos, viajaram de trem até Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais. Durante outros cinco dias, a família de Carlo e seus parentes estiveram instalados na Hospedaria de Imigrantes Horta Barbosa, em Juiz de Fora,  onde compartilharam histórias com outros imigrantes que sonhavam com um novo começo.
Logo, conseguiram empregos como agricultores em uma grande fazenda de cultivo de café, propriedade de um rico coronel, situada no município de Leopoldina. Entretanto, a vida na fazenda não era fácil. Adultos e crianças trabalhavam arduamente das 6 da manhã até o início da noite, em troca de modestos salários e magras rações de comida, principalmente composta por feijão e farinha de milho. O tratamento quase desumano a eles dispensado era parecido daquele que davam aos antigos  escravos, que foram libertados alguns anos antes. Na época da escravidão trabalhavam e moravam na fazenda cerca de 500 escravos e nas casas adaptadas onde eles moravam, após algumas poucas melhorias receberam os pobres imigrantes italianos.
Descontentes com a situação, Carlo e seus parentes decidiram que era hora de buscar uma vida melhor em outro local. Mudaram-se para um distrito mais distante, ainda em Minas Gerais, onde trabalharam como agricultores e economizaram o que puderam durante dois anos.
Finalmente, encontraram emprego na fazenda de um outro grande latifundiário, a qual mais tarde seria adquirida pelo governo de Minas Gerais e transformada na Colônia Santa Maria. Nesse momento, os Fitarollo finalmente conseguiram realizar o sonho tão acalentado de se tornarem proprietários de alguns lotes de terra.
Com o passar dos anos, os filhos de Carlo e Giulia se casaram com outros imigrantes italianos e seus descendentes. Os Fitarollo se espalharam por diversas cidades de Minas Gerais, como Juiz de Fora, Ubá, Visconde do Rio Branco, Muriaé, Rio Casca, Astolfo Dutra e até mesmo na capital, Belo Horizonte.
Carlo e Giulia, após anos de trabalho árduo e sacrifícios, viveram para ver seus filhos e netos prosperarem no Brasil. Eles faleceram com apenas alguns dias de diferença, em 1939, deixando um legado de coragem e determinação para as gerações futuras da família. A saga dessa família de imigrantes italianos que começou nao interior da Emília e floresceu em Minas Gerais é lembrada até os dias de hoje como um exemplo de perseverança e amor pela família.






domingo, 19 de janeiro de 2025

Das Plantações de Café à Colheita da Vida: A História Triunfante de uma Família de Imigrantes Italianos no Brasil





Um casal de imigrantes italianos, conhecidos como Lorenzo Rossin e sua esposa, Isabella Bianchetti, deixou sua terra natal  para uma jornada transoceânica em direção às Américas, com o destino sendo o Brasil, em 1886. Lorenzo Rossin nasceu em uma pequena cidade chamada Montalcino, na região da Toscana, Itália, em 1º de novembro de 1861, e faleceu em Rio Claro, estado de São Paulo, em 11 de abril de 1943. Sua esposa, Isabella Bianchetti, também originária de Montalcino, nasceu em 8 de setembro de 1867, vindo a falecer em Rio Claro em 10 de Março de 1955.
Com eles, também vieram ao Brasil os dois filhos pequenos do casal, nascidos na Itália. Após a chegada, a família estabeleceu-se em uma localidade chamada São Miguel, para trabalhar em uma vasta propriedade de um rico fazendeiro. Eles desde a chegada se dedicaram exclusivamente ao cultivo da terra, cuidando de  milhares de pés de café da propriedade, junto com quase uma centena de outros imigrantes italianos como eles, proveniente de várias partes da Itália. Nas horas vagas podiam, com o consentimento do patrão, se dedicar ao plantio de uma pequena roça de subsistência. Tragicamente, mais uma vez não tiveram muita sorte com a vida de imigrantes que trouxe novos eventos trágicos para o casal, que já havia perdido dois filhos na Itália, e, infelizmente agora, novamente perderam os dois filhos que vieram com eles para o Brasil.
A vontade era de largar tudo e voltar para a Itália, mas, o contrato assinado impedia que isso pudesse ocorrer antes de transcorridos os quatro anos e depois de pagas todas as dívidas contraídas com o patrão, inclusive as despesas de viagem até a fazenda. Depois de amargurarem as perdas, a tristeza começou a dar lugar à alegria quando a família foi abençoada com o nascimento dos filhos Gianluca, Matteo, Giovanni, Alessio e Caterina, nascidos e rápida sucessão, fortes e saudáveis. Todos os colonos que trabalhavam e moravam na fazenda precisavam comprar os mantimentos e outros ítens de sobrevivência, diretamente do armazém do patrão, e as despesas de Lorenzo eram consideráveis. Decidiram então limitar a alimentação diária de sua família a polenta, um excelente alimento, e suco de laranja. A polenta era adquirida na própria fazenda, pois a farinha de milho usada para prepará-la era trocada por milho com o proprietário. Além disso, possuíam algumas galinhas e uma vaca leiteira. Graças a pequenas economias ao longo de muitos anos de trabalho árduo,  finalmente conseguiram deixar o emprego assalariado na fazenda e tentar a vida por conta própria em um terreno relativamente grande e fértil que adquiriram em uma pequena cidade que estava se formando nas proximidades.
Assim, se estabeleceram em um lugar chamado Colina Verde, junto com todos os filhos, alguns já casados e os primeiros netos da envelhecida família. A única que não os acompanhou foi a filha Caterina, que, ao se casar com um outro imigrante chamado Marco De Luca, também de origem italiana, foi viver em outra fazenda vizinha,  onde seu marido trabalhava.
Anos se passaram desde a mudança para Colina Verde, e a vida na pequena cidade prosperou para os Rossin. Lorenzo e Isabella viram seus filhos crescerem, constituírem famílias e construírem suas próprias casas na mesma colina que um dia era apenas terra fértil. A família agora se expandia, com netos correndo pelos campos verdes e plantações de vegetais que, ao longo do tempo, substituíram monocultura de café.
Gianluca, o mais velho, tornou-se um respeitado agricultor, seguindo os passos de seu pai, enquanto Matteo mostrou um talento excepcional para negócios e abriu uma pequena mercearia no centro de Colina. Giovanni, Alessio e os outros filhos encontraram suas vocações, contribuindo para a comunidade que agora chamavam de lar.
Caterina e Marco De Luca, que haviam se estabelecido em uma fazenda vizinha, prosperaram com o tempo. A terra generosa do Brasil recompensou seus esforços, e eles também construíram uma família sólida. A conexão entre as duas famílias permaneceu forte, com visitas frequentes entre os parentes que viviam tão perto um do outro.
Lorenzo e Isabella, apesar das adversidades iniciais, viram a realização de seus sonhos na nova terra. A pequena propriedade que compraram cresceu, e agora era uma próspera fazenda familiar. A casa, outrora modesta, agora era rodeada por jardins bem cuidados e árvores frutíferas que proporcionavam sombra nos dias quentes.
Com o passar dos anos, tornaram-se um símbolo de superação e prosperidade para a comunidade italiana na região. Os Rossini eram respeitados não apenas por sua determinação, mas pela contribuição significativa que deram para o desenvolvimento local.
Quando Lorenzo e Isabella olhavam para trás, recordavam não apenas as perdas e desafios, mas também as alegrias que encontraram na nova pátria. A tristeza inicial transformou-se em gratidão pela oportunidade de recomeçar e criar uma história de sucesso em terras brasileiras.
A família Rossin não apenas sobreviveu, mas floresceu, deixando um legado que transcendeu gerações. Colina Verde tornou-se um lugar onde histórias de coragem e esperança eram contadas nas noites quentes de verão, e o nome Rossini era sinônimo de perseverança e sucesso naquelas terras ricas e acolhedoras do Brasil.

Nota - os nomes dos personagens, cidades e datas desse conto foram substituídos e são fictícios


terça-feira, 27 de agosto de 2024

A Jornada de uma Família de Rovigo na 4ª Colônia Italiana do RS

 



No final do século XIX, a Itália enfrentava tempos difíceis. A fome, a pobreza e a falta de perspectivas atormentavam as famílias, especialmente no norte do país, na região do Vêneto. Foi em meio a esse cenário que Giovanni e Maria R., um casal de agricultores da pequena vila de Villanova del Ghebbo, na província de Rovigo, decidiram buscar uma nova vida. Com seus oito filhos, eles embarcaram em uma jornada que mudaria suas vidas para sempre, rumo ao Brasil.

Giovanni R. era um homem forte e determinado, de mãos calejadas pelo trabalho no campo. Maria, sua esposa, era uma mulher de espírito resiliente, conhecida por sua bondade e dedicação à família. Juntos, enfrentaram anos de dificuldades em Rovigo, mas quando a crise atingiu seu ápice, decidiram que era hora de partir, não queriam deixar como herança para os filhos a mesma miséria em que sempre viveram. Abandonar a terra natal não foi fácil; a despedida da casa onde nasceram e dos amigos de infância trouxe lágrimas e um peso no coração. Mas o desejo de oferecer um futuro melhor para os filhos foi mais forte.

Com uma mala cheia de poucas roupas e muitas esperanças, a família R. embarcou no porto de Gênova rumo ao Brasil. A viagem seria muito longa e cansativa, mas Giovanni e Maria estavam dispostos a enfrentar qualquer adversidade pela promessa de uma vida melhor.

O navio que os levaria ao Brasil era o Ester, uma embarcação repleta de outros imigrantes italianos, todos com histórias semelhantes. Durante a travessia, o casal enfrentou dias de mar agitado, noites sem dormir e o medo constante de doenças que rondavam o navio. Maria cuidava dos filhos com todo o carinho, enquanto Giovanni fazia amizade com outros homens que, como ele, sonhavam com a nova terra.

Os filhos, apesar do desconforto, mantinham o espírito jovem e aventureiro, maravilhados com a imensidão do oceano e as histórias que ouviam dos outros passageiros. A cada dia que passava, a Itália ficava para trás, mas o futuro ainda era incerto.

Após quase dois meses de viagem, finalmente avistaram o porto de Rio Grande, no sul do Brasil. A emoção tomou conta de todos, mas também o temor do desconhecido. Giovanni e Maria sabiam que a jornada estava longe de terminar. Depois de uma breve estadia em Rio Grande, onde ficaram provisoriamente abrigados em barracões de madeira esperando a chegada dos pequenos vapores fluviais, a família R. seguiu para o interior, rumo à Colônia de Silveira Martins, também conhecida como a 4ª Colônia Italiana do Rio Grande do Sul. Seguiram pela Lagoa dos Patos, passando pela capital do estado Porto Alegre e subindo as correntezas do Rio Jacuí até a cidade de Rio Pardo.

O caminho até Silveira Martins foi longo e árduo. A pé e em grandes carroças puxadas por bois, cruzaram estradas de terra, estreitas, verdadeiras picadas, chegando na localidade de Val del Buia, enfrentando o frio das serras e as dificuldades de comunicação com os brasileiros locais. No entanto, cada passo era um passo mais perto de sua nova vida. Após mais quinze dias, finalmente chegaram ao barracão que os abrigaria até a distribuição dos lotes de terra.

Ao chegarem à colônia, foram recebidos por outros italianos que já haviam se estabelecido na região. Giovanni e Maria ficaram impressionados com a beleza da paisagem, mas também perceberam que teriam que recomeçar do zero. O barracão que os abrigou era simples, feito de madeira, mas oferecia abrigo. Com o tempo, construíram uma simples choupana no lote a eles designado e, após roçarem uma pequena parte do terreno, iniciaram o primeiro plantio, como faziam em Rovigo, semeando milho, trigo e plantando algumas mudas de parreiras, que haviam trazido de casa.

Os dias eram longos e o trabalho, extenuante, mas Giovanni e Maria sempre encontravam forças um no outro e na esperança de um futuro melhor para seus filhos. Os oito jovens R. logo se adaptaram à nova vida, ajudando no campo, cuidando dos animais e aprendendo, na medida do possível, a língua portuguesa com algumas crianças locais.

Os primeiros anos foram difíceis. As doenças, a distância da família que ficou na Itália e a saudade dos entes queridos pesavam no coração de Maria. Giovanni, por sua vez, lutava contra o isolamento e a solidão das vastas terras. Mas a comunidade italiana em Silveira Martins era unida, e juntos, enfrentaram as dificuldades.

Com o tempo, a colheita começou a dar frutos, e a família R. começou a prosperar. Giovanni e Maria viram seus filhos crescerem fortes e saudáveis, adaptando-se à nova vida. A fé e a tradição italiana permaneceram vivas em seus corações, e as festas religiosas, como a Festa de San Giuseppe, eram momentos de celebração e lembrança da terra natal.

Décadas depois, a família R. se tornou uma das mais respeitadas na colônia de Silveira Martins. Giovanni e Maria envelheceram vendo seus filhos se casarem, terem filhos e prosperarem. A casa simples se transformou em uma propriedade próspera, e o nome R. passou a ser sinônimo de trabalho árduo e superação.

Giovanni, ao olhar para os campos que agora produziam fartura, lembrava-se dos dias em Rovigo, das mãos calejadas e das noites em que ele e Maria se preocupavam com o futuro. A Itália ainda estava em seu coração, mas ele sabia que o Brasil havia se tornado sua verdadeira casa.

Maria, por sua vez, mantinha viva a memória de sua terra natal através das histórias que contava aos netos, das canções italianas que cantava nas noites frias e da comida que preparava com tanto carinho. O sabor da polenta, do pão caseiro e do vinho feito em casa trazia um pouco da Itália para a nova geração.

Giovanni e Maria R., como muitos outros imigrantes italianos, foram pioneiros que ajudaram a construir o Rio Grande do Sul. Suas vidas foram marcadas pela saudade, pelo sacrifício e pela superação, mas também pelo amor, pela fé e pela esperança.

A história da família R. é a história de milhares de italianos que encontraram no Brasil uma nova pátria, sem nunca esquecer suas raízes. Hoje, seus descendentes mantêm vivas as tradições italianas, celebrando a cultura que Giovanni e Maria trouxeram consigo e que floresceu em solo brasileiro.