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sábado, 31 de janeiro de 2026

O Mar Entre Dois Mundos


O Mar Entre Dois Mundos

Assim se cumpria o destino de milhões de italianos que, entre a miséria e a esperança, escolheram o mar.


Vida a Bordo

Até o final do século XIX, a travessia dos emigrantes rumo ao Novo Mundo era feita inicialmente em navios à vela, velhas e lentas embarcações que já haviam conhecido melhores dias, agora transformadas em arcas humanas onde a esperança dividia espaço com o medo. A viagem podia durar trinta, quarenta dias, às vezes mais, dependendo da vontade dos ventos e das correntes do Atlântico. Lá embaixo, no ventre escuro do navio, o ar era rarefeito e fétido. As acomodações — se assim se podia chamá-las — eram simples tábuas de madeira sobre as quais famílias inteiras se amontoavam, respirando o mesmo ar viciado, dormindo ao som das ondas e dos gemidos dos doentes.

De manhã, qualquer que fosse o tempo, todos eram obrigados a subir ao convés. Era preciso arejar o porão, afastar o cheiro da morte e dar àqueles homens e mulheres um pouco de luz. As doenças se espalhavam como fogo em palha seca — febres, diarreias, tosses que pareciam não ter fim. Para muitos, o mar se transformava num cemitério líquido, e os corpos eram entregues às águas com preces murmuradas e olhos marejados.

Entre os poucos pertences, a bagagem do emigrante era o retrato da sua vida. Antes dos baús e malas de madeira ou ferro, havia o fagotto, um simples embrulho de tecido onde se guardavam os tesouros de uma existência: uma muda de roupa, um rosário, um punhado de terra natal, uma fotografia amarelada, talvez uma carta de recomendação que se esperava apresentar a algum parente distante nas Américas. Dentro daquele embrulho estava todo o passado — e o fio tênue que os ligava ao futuro.

Com o tempo, as grandes companhias marítimas começaram a construir os modernos, navios a vapor que prometiam travessias mais rápidas e, para os padrões da época, menos cruéis. Nos 25 anos finais do século XIX, no início da grande emigração, os navios disponíveis eram antigos cargueiros rapidamente adaptados para o transporte de passageiros a fim de aproveitar o boom que milhões de emigrantes proporcionavam a carente economia do país. Já nos anos 1920, os emigrantes começaram a viajar ao lado dos primeiros turistas, dividindo o mesmo oceano, mas não o mesmo destino.

Chegada ao Novo Mundo

Quando enfim viam terra, muitos choravam. Não era apenas emoção; era o alívio de quem sobrevivera à provação. Mas a América que os aguardava não era a dos folhetos distribuídos pelas agências de emigração, com suas promessas de fortuna fácil e terra fértil. Era uma terra dura, indiferente, onde o sol queimava tanto quanto a saudade.

Os recém-chegados eram conduzidos a galpões ou hospedarias improvisadas. No Brasil, havia os grandes prédios da Hospedaria dos Imigrantes, que pareciam mais prisões do que abrigos. Na Argentina, os imigrantes eram alojados em edifícios semelhantes, onde esperavam dias ou semanas até serem enviados ao interior. Antes disso, passavam por uma verdadeira via-crúcis de inspeções médicas e burocráticas. Os doentes eram barrados, as famílias separadas, os humilhados obrigados a regressar no mesmo navio que os trouxera.

Os que conseguiam ficar contavam com a força invisível da cadeia migratória — a rede de parentes e conterrâneos que já haviam chegado antes e tentavam abrir caminho para os novos. Era ela que garantia abrigo, trabalho e um pedaço de pão nos primeiros dias, quando o sonho ainda não se transformara em desilusão.

“La Mèrica”

Nos Estados Unidos, a travessia terminava quase sempre diante da imponente figura da Estátua da Liberdade. Aquela mulher de cobre, com a tocha erguida sobre o porto de Nova York, parecia representar tudo o que o emigrante buscava: liberdade, justiça, uma nova vida. Muitos acreditavam que bastava vê-la para que a sorte mudasse.

Mas o primeiro contato com a América se dava não em Manhattan, e sim na pequena ilha ao lado: Ellis Island. Ali, em galpões imensos, multidões aguardavam a inspeção médica e o interrogatório dos oficiais. Bastava um tremor nas mãos, um olhar desconfiado, uma cicatriz antiga, e o sonho era interrompido. Crianças órfãs, mulheres sozinhas, idosos e enfermos eram sumariamente recusados.

Em 1917, o Literacy Act impôs um novo obstáculo: exigia que o imigrante soubesse ler e escrever em sua língua. Milhares de italianos, especialmente do sul, foram barrados pela simples razão de nunca terem tido escola. Nos anos seguintes, novas leis — as cotas de 1921 e 1924 — fecharam ainda mais as portas, limitando o número de entradas anuais.

A América deixava de ser a terra das oportunidades para se tornar a terra da seleção. Ainda assim, os navios continuaram a chegar, carregando a esperança de quem preferia arriscar o desconhecido a permanecer na miséria.

Com o tempo, a Estátua da Liberdade deixou de ser apenas um monumento: tornou-se o símbolo da promessa americana. Muitos dos que a avistaram pela primeira vez do convés juraram que ela sorria para eles. Logo descobriram, porém, que as ruas não eram pavimentadas de ouro, como diziam os boatos das aldeias. Ao contrário: foram eles, com as próprias mãos, que construíram aquelas ruas, ergueram os edifícios, abriram os trilhos das ferrovias.

A estátua permanecia ali, imóvel, iluminando o porto, enquanto os imigrantes seguiam para os cortiços de Nova York, as minas da Pensilvânia ou os campos de café do Brasil. Era o farol dos sonhos, mesmo para quem, na realidade, jamais a tocaria.

Nota do Autor

O texto a seguir não pretende romantizar a travessia nem suavizar o sofrimento vivido pelos emigrantes do final do século XIX e início do século XX. Ao contrário, busca lançar luz sobre uma experiência humana marcada pela precariedade, pela dor silenciosa e pela coragem extrema. A viagem oceânica, muitas vezes descrita em números e estatísticas, foi antes de tudo uma vivência sensorial e emocional: o cheiro do porão, o balanço incessante do mar, o medo da doença, a despedida sem garantias de retorno.

A bagagem reduzida, os corpos amontoados, as inspeções humilhantes e a chegada a uma terra que raramente correspondia às promessas feitas fazem parte de uma memória coletiva que atravessa gerações. Este relato se apoia em fontes históricas, testemunhos e estudos sobre a imigração, mas é narrado com liberdade literária, buscando dar voz àquilo que muitas vezes ficou registrado apenas nas entrelinhas da história oficial.

Se, durante a leitura, o leitor sentir um aperto no peito ou reconhecer fragmentos da trajetória de seus próprios antepassados, então este texto terá cumprido seu propósito. Ele é, acima de tudo, um exercício de memória e respeito — uma homenagem aos milhões de homens, mulheres e crianças que atravessaram oceanos carregando pouco mais que um embrulho de pano, uma fé teimosa no futuro e a esperança de que o sacrifício não fosse em vão. Convido dividir a sua experiência escrevendo nos comentários do blog.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta





segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Sob o Céu do Novo Mundo, Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

 


Sob o Céu do Novo Mundo

Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

(inspirada em fatos da Grande Emigração Italiana – 1887)

O vento soprava do leste com uma força surda, arrastando sobre o porto de Gênova uma cortina de névoa que cheirava a sal e carvão. As gaivotas rodavam em círculos acima das chaminés dos vapores, confundidas entre o rumor dos apitos e o grito dos homens que descarregavam fardos. No convés inferior do vapor Speranza, misturados aos barris de vinho e aos sacos de farinha, embarcavam mais de mil e duzentas almas — famílias inteiras, viúvas, crianças, camponeses, costureiras, pedreiros, e uma jovem professora de vinte e um anos chamada Rosa Venturini, natural de um pequeno vilarejo entre as planícies úmidas do Polesine.

Rosa não sabia que aquele amanhecer de 1887 seria o último que veria na Itália. Desde a morte do pai, vítima da pelagra que devastava os camponeses pobres, a vida em casa tornara-se uma sucessão de dias vazios. A mãe vendia ovos e fiava lã para sobreviver, enquanto o irmão mais velho fora recrutado para o exército, deixando-as com um campo encharcado e uma casa que ameaçava ruir a cada cheia do Pó. A promessa do Brasil — terras férteis, salário certo, passagem gratuita — soava como um milagre.

Os jornais de Rovigo, vendidos nas feiras, anunciavam as companhias de navegação com letras gordas e promessas extravagantes. Falavam de um país onde o sol não se escondia e o trigo crescia sem pedir chuva. O governo brasileiro, diziam, buscava gente branca, laboriosa e cristã para substituir os braços negros recém-libertos. E os agentes, instalados nas praças das pequenas cidades, anotavam nomes, vendiam sonhos e recolhiam moedas para garantir uma vaga num dos vapores que partiam de Gênova, de Nápoles ou de Palermo.

Rosa, filha da filanda, formada no internato de Pádua entre as “jovens pobres e pericolanti”, não tinha nada a perder. Com o último dinheiro que restava, comprou uma pequena mala de madeira, um lenço bordado pela mãe e três saquinhos de linho com sementes de feijão e manjericão. Queria plantá-los na terra estrangeira, quando o mar terminasse.

Durante os primeiros dias, o navio avançou lento e os passageiros suportavam o balanço com uma resignação quase religiosa. O cheiro de ferrugem, suor e maresia impregnava tudo. No porão, o ar era espesso e o espaço, exíguo. As mulheres dormiam sobre tábuas cobertas por panos úmidos; as crianças tossiam. O capitão, um genovês de barba amarelada, mantinha a terceira classe trancada, e só pela manhã deixava que subissem ao convés para respirar um pouco de ar.

A travessia parecia interminável. Chovia quase todos os dias. O mar batia nas chapas de ferro como um tambor, e cada estalo fazia o navio estremecer como um corpo febril. Rosa escrevia anotações num pequeno caderno encapado com tecido azul, tentando registrar o que via e o que sentia. Falava do frio que penetrava os ossos, da comida rançosa que cheirava a mofo, dos marinheiros que vendiam pedaços de queijo escondidos, e das mães que, em desespero, trocavam as últimas moedas por um gole de água limpa.

Na terceira semana de viagem, uma mulher de Vercelli deu à luz um menino entre as caixas do porão. Ao mesmo tempo, uma criança morreu de febre. Rosa recordou a cena por toda a vida: os marinheiros costurando uma pequena mortalha de lona, o corpo leve sendo depositado sobre uma tábua e, depois, o som oco do corpo tocando a água, como uma pedra. A mãe repetia, sem lágrimas, que aquele seria o último dos seus filhos a morrer.

Speranza seguia o seu rumo, arrastando a miséria e a fé de um povo inteiro sobre o Atlântico. Lá em cima, os oficiais brindavam com vinho; lá embaixo, os emigrantes rezavam. Era uma humanidade empilhada, sem nomes, marcada por tosse, fome e esperança.

Rosa observava o mar. Não o temia mais. A imensidão parecia responder-lhe com silêncio, e naquele silêncio ela começou a compreender o que significava emigrar: não era partir de um lugar, mas deixar para trás a própria forma de existir. O que estava diante dela não era o Brasil, mas o vazio entre o que se sonha e o que se alcança.

Na noite do trigésimo sexto dia, o vento amainou e um clarão rompeu o nevoeiro. Do convés, os passageiros viram uma faixa verde ao longe. Alguns se ajoelharam, outros choraram. Era a costa do Rio de Janeiro, coberta por um véu de névoa dourada. Rosa sentiu o coração bater rápido. Pensou na mãe, na casa de barro, nas plantações do Pó e nos sinos de domingo. Em seguida, apertou contra o peito o caderno e os saquinhos de linho, como se neles repousasse o fio invisível que ainda a ligava à terra natal.

A banda do porto tocava uma marcha festiva para os senhores de fraque que esperavam no cais, enquanto as autoridades da imigração inspecionavam os recém-chegados. A bordo, o calor era sufocante, e a alegria inicial logo deu lugar à confusão. Homens gritavam ordens em português, grupos eram separados, nomes eram trocados, famílias se perdiam. O navio que prometera liberdade entregava seus passageiros a um novo cativeiro.

Seguram viagem até o porto de Santos onde Rosa foi levada com outras mulheres para uma hospedaria pública, onde passariam a noite antes de seguirem viagem para o interior. As paredes cheiravam a cal, e o chão era de pedra fria. No alto da janela, via-se apenas uma faixa estreita de céu — o primeiro céu estrangeiro da sua vida.

Naquela noite, não dormiu. O corpo doía, mas os olhos não se fechavam. Pensava no mar, nas promessas dos agentes, na terra que ainda não vira. Pensava também que talvez a esperança não estivesse no que o Brasil oferecia, mas no que ela seria capaz de construir ali.

Quando o dia clareou, uma brisa quente entrou pela janela. Rosa levantou-se, amarrou os cabelos e desamarrou os saquinhos de linho. Em um vaso de barro depositou as sementes de feijão e manjericão, molhando a terra com a água que restava no cantil. Não sabia se germinariam, mas aquele gesto — pequeno e silencioso — era tudo o que lhe restava da Itália.

Enquanto o sol subia sobre o porto, Rosa Venturini compreendeu que, para muitos, o mar havia sido apenas o caminho do exílio. Para ela, seria o divisor entre o passado e o destino

Na manhã seguinte, o pátio da hospedaria fervilhava de gente. Famílias inteiras esperavam a chamada dos nomes que seriam enviados às fazendas. Os funcionários da agência de colonização anotavam números, riscando listas com lápis úmido de suor. As vozes se misturavam num idioma que os recém-chegados ainda não compreendiam, e o medo, disfarçado de expectativa, atravessava os rostos queimados de sol e sal.

Rosa foi designada a um grupo de colonos destinado ao interior da província de São Paulo, em uma propriedade chamada Fazenda Santa Luzia, pertencente a um certo coronel Álvaro Moreira, homem conhecido pela severidade e pelas lavouras extensas de café. O trajeto até lá seria longo, feito em vagões de madeira, sob o calor que subia do chão e parecia não ter fim.

Durante a viagem, o trem cortava planícies e matas intermináveis. Pelas janelas abertas, o vento trazia o cheiro de terra quente e fumaça. Aos poucos, o mar e o passado iam ficando para trás, substituídos por uma paisagem que parecia viva e selvagem. Homens com chapéus de palha trabalhavam nas margens dos trilhos, negros recém-libertos misturavam-se aos brancos recém-chegados, e Rosa percebia, sem compreender direito, que aquele país nascera de um conflito silencioso entre servidão e esperança.

Quando enfim chegaram à fazenda, o sol estava alto e o ar cheirava a café recém-tostado. À frente da sede, homens montados os observavam, avaliando cada corpo, cada gesto. O administrador, de voz seca e olhar impaciente, leu as instruções e apontou as casas que seriam distribuídas às famílias. Eram pequenas construções de barro e madeira, dispostas em linha ao lado da mata. Rosa recebeu uma das menores, sozinha, pois era mulher solteira.

Na primeira noite, não houve descanso. Os mosquitos zuniam como lâminas, e o calor tornava o ar irrespirável. Do lado de fora, o som da mata parecia uma língua desconhecida — gritos de aves, farfalhar de folhas, o rugido distante de algum animal. Rosa acendeu uma lamparina e observou o pequeno espaço que agora lhe pertencia: uma cama de tábuas, um fogareiro de ferro, um balde com água amarelada. Era pouco, mas era dela.

Nos dias seguintes, o trabalho começou antes do nascer do sol. O campo de café se estendia em fileiras longas, e cada planta exigia capina, adubação e poda. O contrato prometia pagamento por produção, mas logo ela percebeu que o sistema era uma armadilha. O preço do quilo de café variava conforme a vontade do patrão, e o valor das ferramentas e alimentos era descontado do salário antes mesmo de ser recebido. Muitos colonos endividavam-se antes do fim do primeiro mês.

Rosa não reclamava. Aprendera desde menina que a resignação também era uma forma de resistência. Guardava as forças para o fim da tarde, quando o sol se escondia e o silêncio caía sobre as plantações. Nesses momentos, ela voltava à casa, lavava o rosto com a água morna do balde e regava os vasinhos de barro que havia trazido da Itália. As sementes germinaram. Pequenos brotos verdes despontaram, frágeis, mas determinados. Aqueles fios de vida tornaram-se sua companhia e sua fé.

As estações se sucederam lentamente. A colônia crescia em volta da fazenda: homens erguiam capelas, mulheres ensinavam as crianças a ler com livros que restaram das malas. O idioma se misturava — português, vêneto, lombardo, piemontês — formando uma língua nova, feita de sons duros e ternos. Às vezes, Rosa escrevia cartas para a mãe, que ainda vivia no Polesine. Não falava das dívidas nem das dores. Contava apenas das árvores imensas, do céu sem fim e das noites em que as estrelas pareciam cair sobre a terra.

No quinto ano, o Brasil já lhe parecia menos hostil. Aprendera a lidar com o clima, a força do trabalho e o ritmo da colheita. Em cada saco de café que carregava, sentia o peso da promessa que a trouxera até ali — e a dívida silenciosa que carregava com todos os que haviam morrido no caminho.

Quando o coronel Moreira morreu, a fazenda foi dividida entre os herdeiros, e parte das terras foi vendida a colonos. Rosa comprou um pequeno lote, com o dinheiro guardado em anos de sacrifício. Na encosta do terreno, plantou as primeiras fileiras de café por conta própria, ao lado dos pés de feijão e das ervas que haviam nascido dos vasinhos trazidos do navio.

Com o tempo, sua casa tornou-se ponto de passagem para os novos imigrantes que chegavam em busca de orientação. Muitos a chamavam de dona Rosa da Esperança. Ela acolhia os que vinham famintos, dividia o pão, emprestava sementes e contava a mesma história de sempre: a travessia, o navio, o mar e o primeiro dia em terra estrangeira.

Nunca mais voltou à Itália. As cartas que enviava cessaram quando soube que a mãe havia morrido, sozinha, numa casa fria de inverno. Rosa guardou a última resposta recebida dentro do caderno azul, agora amarelado e manchado de café.

Nos últimos anos de vida, quando o corpo já não obedecia, ela costumava sentar-se sob a sombra das árvores e observar as plantações que cobriam o horizonte. Ali, compreendeu que o destino dos emigrantes era o mesmo das sementes que lançara na terra: nascer em lugar estranho, resistir às tempestades e florescer, mesmo quando o solo parecia não acolher.

Quando Rosa Venturini morreu, numa manhã de verão, ninguém soube ao certo sua idade. Diziam que partira em paz, com as mãos ainda sujas de terra e o rosto voltado para o nascente. No quintal, os pés de manjericão que trouxera da Itália continuavam a crescer, exalando um perfume doce que se misturava ao aroma forte do café.

E assim, sob o céu imenso do novo mundo, cumpria-se mais uma história de esperança e exílio — uma entre tantas que fizeram da miséria um ato de coragem e do desterro, uma forma silenciosa de eternidade. 

Nota do Autor

Esta obra nasceu do silêncio de um caderno de capa azul. Entre suas páginas amareladas repousavam fragmentos de uma vida: cartas dobradas com cuidado, anotações de viagem, orações em italiano antigo, e uma flor seca, guardada como se fosse a última lembrança de um tempo que não volta. O caderno pertenceu a uma mulher que cruzou o oceano em 1887, deixando para trás uma Itália devastada pela fome, pela pobreza e pela desesperança. Viveu o restante de seus dias no interior do Brasil, onde a terra nova exigia o mesmo que o mar havia exigido: coragem e fé.

Os nomes que aparecem nesta narrativa — Rosa Venturini, Fazenda Santa Luzia, Coronel Álvaro Moreira — são fictícios. Foram alterados para proteger a identidade dos verdadeiros personagens e para permitir que o enredo respirasse com liberdade literária. Mas a história é autêntica.

Cada detalhe foi reconstruído com base nas cartas originais que a protagonista guardou em seu caderno, escritas entre 1887 e 1924, hoje custodiadas no Museu Histórico da cidade onde ela viveu e morreu. A emoção contida nestas páginas não é invenção. Está presente nas palavras que ela escreveu com a caligrafia firme de quem aprendeu a ler na pobreza e a sonhar na adversidade. São linhas simples, mas nelas cabem todas as dores e esperanças de uma geração que deixou o velho continente em busca de um pedaço de chão no novo mundo. Rosa — ou como quer que se chamasse de fato — representa milhares de italianos anônimos que cruzaram o Atlântico com a alma carregada de saudade e fé.

Ao reconstituir sua jornada, tentei não apenas contar uma história, mas ouvir o eco de tantas vozes que o tempo quase apagou. Que este livro sirva de tributo aos que vieram antes de nós — e que, ao pisar uma terra estranha, fizeram dela o próprio lar.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Ecos de um Sonho Distante


 

Ecos de um Sonho Distante

Era o início de novembro de 1876, e os primeiros ventos frios já sopravam sobre a pequena vila no interior do município de Cison di Valmarino, nas colinas do Vêneto. A vila, envolta em névoa, parecia um retrato vivo da austeridade que marcava a vida dos camponeses. Os sinos da igreja de San Michele Arcangelo ecoavam pelas colinas, anunciando a missa matinal, enquanto a família Bernasconi, composta por Pietro, Luisa e seus dois filhos pequenos, Emilia e Lorenzo, enfrentava o momento que mudaria para sempre suas vidas.

A decisão de partir para o Brasil fora dolorosa, mas inevitável. A Itália lhes havia oferecido pouco mais que dívidas, fome e terras inférteis. Pietro, um homem robusto de mãos calejadas, estava acostumado à luta diária contra o solo árido e o clima inclemente. No entanto, até mesmo sua resistência inabalável começara a fraquejar diante da miséria crescente. Ele sabia que a terra que um dia sustentara gerações de sua família agora era incapaz de alimentar sequer os seus.

Na pequena praça em frente à igreja, onde o vento levantava folhas secas e carregava o aroma de castanhas assadas, Pietro abraçou sua esposa Luisa. Ela segurava Emilia, de apenas dois anos, com a delicadeza de uma mãe que temia perder o pouco que ainda lhe restava. Lorenzo, com sete anos, segurava a mão do pai com força, como se o toque firme pudesse dissipar o medo que sentia. Ao redor deles, amigos e parentes reuniram-se para se despedir. Os pais de Pietro, já idosos, entregaram-lhe um rosário e um pequeno livro de orações de Sant’Antonio. A bênção murmurada por seu pai misturava-se às lágrimas que corriam por seu rosto enrugado.

“Prometa que não esquecerá suas raízes, Pietro”, disse sua mãe, segurando-lhe o rosto entre as mãos. “E que, onde quer que esteja, rezará para que Sant’Antonio guie seus passos.”

O trem que os levaria a Gênova aguardava na estação da cidadezinha vizinha. O apito, agudo e melancólico, cortava o ar gélido como uma despedida definitiva. À medida que embarcavam, Pietro ajudou Luisa a acomodar os poucos pertences que haviam conseguido levar: um baú de madeira, onde guardavam roupas remendadas, documentos e algumas sementes que Pietro insistira em carregar como símbolo de esperança.

Enquanto o trem deixava a estação, as paisagens familiares, com suas colinas onduladas e vinhedos abandonados, desapareciam lentamente. Luisa segurava Emilia no colo, tentando acalmá-la com cantigas baixas que haviam embalado gerações da família. Lorenzo, de olhos marejados, encostava a cabeça no ombro do pai, tentando esconder as lágrimas que teimavam em cair. “Prometo que será melhor, meu filho”, disse Pietro, com a voz firme, mas o coração pesado. Ele sabia que aquelas palavras não eram apenas para Lorenzo, mas para si mesmo.

A viagem até Gênova foi marcada por silêncios entrecortados por breves diálogos. No compartimento do trem, outros camponeses em situações semelhantes conversavam sobre o Brasil, descrevendo-o como uma terra de oportunidades. Pietro escutava atentamente, gravando cada palavra como se fossem mapas para o futuro.

Ao chegar a Gênova, o movimento do porto os envolveu em um redemoinho de sons e odores. Navios imponentes aguardavam para cruzar o Atlântico, suas chaminés cuspindo fumaça em contraste com o céu cinzento. O cheiro de sal, óleo e peixe se misturava ao burburinho de vozes em diferentes idiomas. Pietro carregava Emilia nos braços enquanto segurava firme a mão de Lorenzo, orientando a família em meio à multidão.

A bordo do navio que os levaria ao Brasil, a vida tornou-se uma rotina de espaços apertados, refeições escassas e a presença constante do mar infinito. Lorenzo passava horas observando as ondas, enquanto Luisa tentava entreter Emilia com histórias de sua vila natal. Pietro, por sua vez, ajudava outros passageiros com pequenas tarefas, sua atitude prática e determinação conquistando o respeito de todos.

Embora o futuro ainda fosse uma incógnita, os Bernasconi encontraram conforto uns nos outros. Sob as estrelas do Atlântico, enquanto o navio balançava suavemente, Pietro e Luisa compartilhavam planos e temores. Em uma dessas noites, Pietro, com os olhos fixos no horizonte, sussurrou: “Nós construiremos algo, Luisa. Algo que nossos filhos possam chamar de lar.”

E assim, com o coração dividido entre a saudade e a esperança, a família Bernasconi navegava em direção a um destino incerto, mas cheio de promessas. Sob o céu estrelado do oceano, Pietro rezava em silêncio, pedindo forças para enfrentar os desafios que sabia estarem por vir.

O Mar de Promessas

No porto de Gênova, após quatro dias de espera junto ao cais, em meio ao caos e à ansiedade, finalmente embarcaram no vapor Salier, um imponente navio que prometia conduzi-los ao outro lado do Atlântico, mas cujas entranhas escondiam o verdadeiro fardo da travessia. A confusão do embarque era um espetáculo de gritos, choro e ordens abafadas em diversos idiomas, enquanto caixas e malas eram lançadas às pressas no porão e passageiros eram amontoados como mercadorias humanas.

Ao cruzar a rampa que os levava ao navio, Pietro segurava firmemente a mão de Lorenzo, enquanto Luisa carregava Emilia no colo, os olhos dela fixos na enorme embarcação como se quisessem decifrar os segredos de sua travessia. Assim que pisaram no convés, foram imediatamente direcionados para os alojamentos abaixo, onde o ar era denso e os espaços, apertados. Abaixo do convés, as condições eram brutais: o cheiro penetrante de sal misturava-se ao suor humano, ao ranço de comida estragada e aos dejetos. O som do mar, que deveria ser tranquilizador, era abafado pelos lamentos dos doentes e o choro das crianças.

O ambiente era uma luta constante por sobrevivência. Famílias inteiras dividiam os espaços diminutos com sacos de mantimentos e animais que faziam parte da carga viva do navio. As refeições, servidas em escassas porções, eram compostas quase sempre por uma sopa rala e pão duro que mal saciavam a fome. A água, muitas vezes morna e com sabor metálico, era racionada, criando um clima de tensão entre os passageiros.

Lorenzo foi o primeiro da família Bernasconi a sentir os efeitos do ambiente hostil. Após uma semana de viagem, ele começou a apresentar febre alta, acompanhada de uma tosse incessante que preocupava profundamente Luisa. Ela passava noites em claro, embebendo panos em água fria para colocá-los na testa do filho e murmurando preces fervorosas a Sant’Antonio, enquanto Emilia choramingava em busca de consolo. Pietro, por mais que tentasse manter a aparência de força, sentia o peso esmagador da incerteza. Ele ajudava os outros passageiros em tarefas como distribuir comida e limpar os espaços, mas o medo crescente de perder o filho o acompanhava como uma sombra constante.

No Salier, a morte não era uma visitante inesperada; ela era uma residente silenciosa. A cada novo amanhecer, o som de choros abafados revelava mais uma perda. Corpos que não resistiam às doenças eram envolvidos em lençóis e, após uma breve oração conduzida por um dos passageiros, eram lançados ao mar. A visão dos corpos desaparecendo nas águas profundas e implacáveis era um lembrete cruel da fragilidade de suas esperanças. Pietro, ao presenciar essas cerimônias improvisadas, apertava ainda mais Lorenzo contra si, como se pudesse protegê-lo pelo simples ato de não soltá-lo.

Em meio à desolação, surgiam pequenos atos de solidariedade. Uma jovem mulher, viajando sozinha, compartilhou com Luisa algumas ervas medicinais que ela havia trazido de sua terra natal, explicando que poderiam ajudar a aliviar a febre de Lorenzo. Pietro uniu forças com outros homens para improvisar uma pequena área onde as crianças pudessem ficar longe das correntes de ar gélido que percorriam o navio à noite.

Quando o Salier finalmente avistou a costa brasileira, em 30 de novembro de 1876, o alívio foi recebido com um misto de euforia e exaustão. O navio atracou no porto do Rio de Janeiro sob um céu azul cristalino que contrastava violentamente com a escuridão emocional que muitos carregavam. Os sobreviventes emergiram do porão como espectros: exaustos, famintos e emocionalmente devastados, mas com uma centelha de esperança ainda queimando nos olhos.

Pietro olhou para Luisa e os filhos com um suspiro aliviado, mas sua mente já estava ocupada com o que viria a seguir. Desembarcar significava apenas o início de uma nova batalha. Com os pés finalmente em solo brasileiro, Pietro apertou a mão de Lorenzo e, com determinação, sussurrou: "Chegamos, meu filho. Agora começa o nosso verdadeiro trabalho."

Uma Nova Jornada

Após dias intermináveis de espera em um alojamento do governo improvisado no porto, onde o cheiro de sal, poeira e um leve aroma de peixe apodrecido se misturava com o incômodo das vozes dos imigrantes, finalmente chegou o momento de seguir em frente. As autoridades brasileiras, com sua frieza burocrática, organizaram os recém-chegados em grupos e, sob um calor abafado, os enviaram para o sul, rumo ao Rio Grande do Sul. O navio os levou até o porto de Rio Grande, onde, depois de uma parada de alguns dias, foram colocados a bordo de pequenos vapores fluviais, que os conduziam rio acima, através da imponente Lagoa dos Patos.

A viagem pelo rio Caí era fascinante, mas ao mesmo tempo, desoladora. A paisagem, de uma natureza selvagem e intocada, estendia-se diante deles como uma pintura de verdes profundos e montanhas distantes, mas sem vestígios de qualquer civilização. Florestas densas, com árvores de troncos retorcidos e gigantescos, cobriam as margens do rio, enquanto a correnteza do Caí parecia, por vezes, ameaçar engolir os frágeis vapores com suas águas revoltas. O som dos motores e das hélices cortando a água era quase o único som que quebrava o silêncio opressor, interrompido apenas pelo murmúrio das famílias, que tentavam encobrir a ansiedade com palavras sussurradas e olhares desconfiados. Pietro e Luisa, ao lado de seus filhos, observavam a imensidão daquela natureza primitiva, sem compreender ainda a grandiosidade do desafio que estavam prestes a enfrentar.

Quando chegaram ao pequeno porto de Montenegro, uma pequena cidade situada à beira do rio Caí, Pietro não pôde deixar de sentir um aperto no coração. O local, ainda rudimentar e pouco desenvolvido, estava a quilômetros de distância das promessas de prosperidade que haviam sido feitas. Não havia em Montenegro mais do que algumas casas simples e um comércio de mercadorias, todas em condições precárias. Ali, os imigrantes, sem ter a menor ideia do que viria pela frente, foram deixados à própria sorte. Não havia abrigos preparados, não havia comida suficiente, e nem mesmo um plano claro sobre como iriam alcançar as terras prometidas. O sol estava se pondo quando as autoridades locais informaram a todos que deveriam seguir viagem, mas não havia tempo ou energia para protestos. Eles estavam sozinhos.

O céu escuro da noite, pontilhado por estrelas brilhantes, foi a única proteção que encontraram. Sem qualquer outra opção, Pietro e Luisa estenderam seus poucos pertences no chão, criando um leito improvisado entre eles e o duro solo. Emilia, ainda pequena, se aninhou contra sua mãe, enquanto Lorenzo, com seus sete anos, mal conseguia manter os olhos abertos devido ao cansaço. O chão era frio e áspero, mas o calor da família, unido na mesma dor e na mesma esperança, proporcionava algum consolo. Com os estômagos vazios e a alma pesada, eles se deitaram sob o manto estrelado, tentando se agarrar àquela breve sensação de segurança, enquanto o medo do que viria pela frente apertava seus corações.

Na madrugada seguinte, ainda com as marcas do cansaço nas faces, as famílias começaram a se agrupar, preparando-se para a jornada seguinte. A cidade de Montenegro era apenas uma escala, um ponto de passagem para os imigrantes, que agora deveriam enfrentar um novo desafio: a viagem até o local onde suas terras estavam prometidas, nas colônias italianas da serra gaúcha. O caminho que os aguardava era árduo, tortuoso e sem qualquer tipo de infraestrutura, como haviam sido acostumados a ouvir falar nas histórias de outros imigrantes.

A partir dali, começaria uma jornada marcada pela força, pela resiliência e pela imensa esperança que ainda habitava o peito daqueles homens e mulheres. Alguns seguiram a pé, carregando as crianças pequenas nos braços ou amarradas às costas com lençóis gastos, enquanto outros enfrentavam a viagem em carroças improvisadas. O ranger das rodas nos sulcos da terra ressecada misturava-se ao lamento das barrigas vazias, e a poeira da estrada, levantada a cada passo ou sacolejo, parecia grudar na pele e nos pulmões, tornando o trajeto ainda mais penoso. O calor do dia, misturado à umidade da mata, transformava cada passo em uma luta constante. A floresta que parecia infinita os engolia pouco a pouco, os rios revoltos desafiavam seus limites, e a imensidão das terras virgens parecia ser uma metáfora da solidão que aguardava todos eles.

A cada quilômetro percorrido, o peso da jornada aumentava, mas também aumentava a determinação. Pietro, com suas mãos calejadas pela labuta de toda uma vida de trabalho, não permitia que a fraqueza tomasse conta. Luisa, com o olhar firme e a voz suave, consolava as crianças, dizendo que o futuro que aguardava no final da estrada valeria todos os sacrifícios feitos. A cada parada, a cada noite sob o céu estrelado, uma nova esperança nascia dentro deles, como uma pequena chama que resistia ao vento frio da incerteza.

Através das florestas densas, sobre os rios traiçoeiros, Pietro e sua família avançavam, deixando para trás os ecos da Itália e enfrentando os novos desafios da terra estranha. Eles estavam longe de suas casas, longe das ruas de Cison di Valmarino, mas o espírito de luta e a promessa de uma vida nova no Brasil os mantinham firmes.

E assim, a jornada pela vastidão do Rio Grande do Sul continuava, marcada pela força de uma família, pela dor da saudade e pela esperança de um futuro que, embora incerto, ainda queimava forte em seus corações.

Os dias que se seguiram à chegada de Pietro e sua família ao novo mundo foram implacáveis. O calor do verão sulista batia forte, sem piedade, enquanto a umidade da floresta parecia envolver tudo como uma névoa sufocante. Mas a família Bernasconi não tinha tempo para lamentações. A cada amanhecer, o som da enxada de Pietro cortando o solo batia em uníssono com o bater de seu coração determinado. Era um homem de mãos calejadas e uma vontade inquebrantável, disposto a transformar a terra bruta e hostil em algo que pudesse chamar de seu.

Com apenas o machado e a foice em suas mãos, Pietro iniciou o árduo trabalho de desbravar o solo para construir a cabana que abrigaria a sua família. Cada golpe da ferramenta na terra parecia um esforço hercúleo, pois o solo, coberto por uma vegetação densa e impenetrável, resistia ferozmente. Mas Pietro não se deixou abater. A cada pedaço de terra que cedesse sob a força de seus braços, um vislumbre do futuro brilhava mais intensamente em seu coração. Sua mente, apesar das dificuldades e do cansaço, estava sempre voltada para o que estava por vir — o lar, o sustento e a promessa de um novo começo.

Luisa, ainda fraca pela exaustiva travessia, mas com uma força silenciosa que parecia vir de um lugar profundo, dividia-se entre os cuidados com Lorenzo, que se recuperava lentamente de uma febre que o afligira durante a viagem, e os preparos das refeições. Polenta feita de milho simples, alguns pinhões e raízes que ela conseguira colher nas margens do rio eram o prato básico, mas a comida nunca era suficiente para saciar completamente a fome. Mesmo assim, ela não reclamava. O olhar que dedicava aos filhos, Emilia e Lorenzo, era o mesmo de uma mãe que, apesar da dor e da fadiga, ainda nutria a esperança de que, com o tempo, o sol brilharia novamente sobre suas cabeças.

À noite, quando o trabalho do dia finalmente dava lugar ao silêncio das estrelas, Pietro sentava-se com as crianças ao redor da pequena fogueira que eles conseguiam manter acesa, mesmo nos dias mais úmidos. O fogo, embora fraco, aquecia seus corpos cansados, mas, mais importante ainda, alimentava suas almas. Pietro, com a voz grave e serena, contava-lhes histórias da sua terra natal, tentando manter viva a conexão com o passado, com o Piave e as montanhas que tanto amava. "Lorenzo", dizia ele, com a mão repousada sobre o ombro do filho, "lembre-se de quem somos. Nunca se esqueça do Piave, e das nossas montanhas. Elas vivem dentro de nós. Não importa o quanto a terra aqui seja estranha, não importa a distância de nossa casa, essas montanhas estarão sempre conosco."

Essas palavras eram seu consolo, sua âncora, enquanto tentavam dar forma ao futuro distante que vislumbravam. Mas o presente, em sua dureza, era implacável. O isolamento era total. O único contato com o mundo exterior era através dos poucos que passavam pelas trilhas da mata, e as doenças, sem médicos e com a escassez de remédios, faziam as noites ainda mais longas e preocupantes. Quando Lorenzo adoeceu novamente, a febre que o consumia trouxe um novo medo, um medo profundo que se infiltrava nos corações dos pais, mas, como sempre, a esperança estava mais forte. Luisa, com sua suavidade e dedicação, passou noites em claro ao lado do filho, fazendo compressas e sussurrando preces, enquanto Pietro, embora calado e apreensivo, fazia o que podia para trazer mais madeira e alimentos.

Os dias, e depois os meses, passaram lentamente, com o cansaço moldando-se em suas vidas como uma sombra persistente. Mas, ao final do inverno, quando a terra ainda estava fria e úmida, Pietro conseguiu abrir um pequeno pedaço de terra arada. Ele olhou para a terra, com as mãos sujas e o suor escorrendo por sua testa, e um leve sorriso surgiu em seu rosto. Era uma pequena vitória, mas para ele, significava mais do que qualquer outra coisa. O primeiro pedaço de terra que ele havia domado com seu esforço e sacrifício trouxe-lhe lágrimas aos olhos. Era como se tivesse finalmente tocado uma parte de seu sonho, algo que, até então, parecia tão distante quanto as montanhas de sua terra natal.

Para a família, aquele pedaço de terra representava o início de algo maior, de um lar construído com suor, com dores, mas também com a certeza de que a vida continuava, que era possível recomeçar. Eles ainda enfrentavam enormes dificuldades, mas algo novo estava nascendo ali, em meio à solidão da mata, à dureza do trabalho e ao pesar da saudade. A promessa de um futuro melhor estava começando a se concretizar.

Pietro, exausto, mas com o espírito fortalecido, olhou para a pequena cabana que começava a tomar forma e, com um suspiro profundo, murmurou para si mesmo: "Este será o nosso lar, Luisa. Aqui, vamos encontrar paz."

E com isso, a jornada da família Bernasconi começou a tomar a forma que tanto esperavam. Um passo de cada vez, com fé, com força, com esperança.

Quando o Natal de 1876 chegou, não havia presentes, nem árvores decoradas como nos dias atuais. O calor do verão envolvia a pequena cabana onde os Bernasconi se abrigavam, e a terra, ainda imatura, exalava o cheiro de capim seco e da floresta densa que os cercava. Não havia banquete na mesa, apenas a simplicidade da polenta e o pouco que conseguiam colher da terra.

Naquela noite, sob o céu claro e quente, Pietro, Luisa e os filhos se reuniram em torno da fogueira. O calor da chama contrastava com a brisa quente que passava entre as árvores, mas ainda assim, havia um silêncio profundo e uma sensação de união. O Natal, para eles, não era uma festa, mas um momento de oração, de reflexão e de agradecimento pela vida e pela coragem de seguir em frente.

"Que o Senhor nos dê força para continuar", disse Pietro, com a voz baixa e firme, olhando para as estrelas que começavam a brilhar no céu. "Este não é o fim da nossa luta, mas o começo de algo novo. Juntos, vamos construir um futuro."

Não havia risos ou cantos alegres, mas havia a certeza de que estavam vivos, e isso era, de alguma forma, motivo para agradecer. As orações de Luisa e Pietro se entrelaçavam, pedindo força e esperança para os dias que viriam, um futuro que ainda parecia distante e incerto.

E assim, naquela noite quente e silenciosa, os Bernasconi celebraram um Natal diferente: sem luxo, sem festas, mas com a fé silenciosa de que, apesar de todas as dificuldades, o futuro ainda lhes reservava uma chance de prosperar. 


Nota do Autor

A construção de Ecos de um Sonho Distante nasceu de uma profunda admiração pelas histórias de coragem e resiliência que moldaram as bases de tantas nações. Inspirado pela saga dos imigrantes italianos que, no final do século XIX, cruzaram oceanos em busca de um futuro melhor, este romance busca honrar as memórias daqueles que, mesmo diante de adversidades inimagináveis, mantiveram viva a chama da esperança.

Este livro é uma obra de ficção, mas muitas das situações descritas são reflexo de relatos reais que encontrei em diários, cartas e registros históricos. O sofrimento, o isolamento e as dificuldades enfrentadas por esses pioneiros não foram romantizados; ao contrário, tentei mostrar a crueza da realidade que os cercava. Ainda assim, procurei celebrar sua força, suas tradições e a rica herança cultural que trouxeram consigo.

A narrativa é, acima de tudo, uma homenagem. Uma ode àqueles que não apenas sonharam, mas tiveram a audácia de lutar pelo sonho, mesmo em terras desconhecidas, entre florestas densas e mares revoltos.

Agradeço a todos os historiadores, pesquisadores e descendentes de imigrantes que compartilharam suas histórias comigo, permitindo que suas vozes ecoassem neste livro. Espero que Ecos de um Sonho Distante não apenas comova, mas também inspire reflexões sobre o poder do espírito humano frente aos desafios, lembrando-nos de que as raízes que plantamos hoje podem florescer em algo extraordinário para as gerações vindouras.

Dr. Piazzetta


domingo, 28 de dezembro de 2025

A Caminho da Terra Prometida


Caminho da Terra Prometida
Da incerteza em Marselha à conquista de um pedaço de chão no interior do Brasil – 1877

O porto de Marselha, naquela manhã úmida e enevoada de novembro de 1877, parecia mais uma ferida aberta no fim do mundo do que o começo de uma esperança. As brumas espessas se arrastavam preguiçosamente sobre os trilhos ainda mornos, enquanto os guinchos metálicos dos guindastes e os apitos roucos dos navios cortavam o silêncio como lamentos de uma terra que não abraçava, apenas engolia.

Lorenzo Benedette desceu do trem com passos lentos, como se cada movimento fosse arrastado por um peso invisível. Usava a mesma roupa puída que vestira ao deixar Sant’Andrea, na província de Padova: um paletó surrado demais para esconder o frio, um chapéu deformado pela chuva e pela esperança, e nos olhos semicerrados, não apenas pela fumaça das chaminés do cais, mas também por uma mistura de cansaço, medo e decisão.

Partira porque não havia mais escolha. A unificação da Itália, que prometera progresso, trouxera apenas desilusão para os campos. O pão rareava nas mesas. O trabalho minguava com a mecanização das grandes propriedades. O novo governo, distante e implacável, aumentara os impostos até tornar impossível a vida dos pequenos lavradores. A carestia, a fome e o desemprego não eram mais ameaças futuras: eram presenças diárias, que batiam à porta como velhas conhecidas. Em Sant’Andrea, cada família conhecia alguém que havia partido. E agora chegara a vez de Lorenzo.

Aquilo que lhe haviam descrito como o portal para um futuro promissor não tinha brilho algum. Nenhum perfume de promessas. Nenhuma aura de renascimento. O que havia era o cheiro salgado do mar misturado à ferrugem das grandes caixas de ferro, ao suor de operários famintos, à madeira úmida das docas e ao odor acre de centenas de corpos amontoados, cada um carregando no peito uma versão do mesmo desejo: partir. Partir para qualquer lugar onde o pão não fosse racionado e a dignidade não precisasse se ajoelhar.

Ali, sob o céu opaco de Marselha, Lorenzo compreendeu que a travessia já havia começado — não no oceano, mas no espírito. E que o caminho até o tal “Novo Mundo” seria, antes de tudo, um lento desprender-se daquilo que, até então, definira quem ele era.

Ele não vinha sozinho. Ao seu lado, como uma extensão de sua própria determinação, estava Giulia — a esposa de mãos calejadas e olhar cansado, que carregava nos gestos a mesma força silenciosa com que sustentara, por anos, a família nos campos áridos de Sant’Andrea. Os ombros dela, arqueados pelo esforço, sustentavam um embrulho modesto: algumas mudas de roupa, cuidadosamente dobradas, e um pedaço de pão já duro, guardado como se fosse reserva de esperança para a travessia.

Atrás deles, dois pequenos mundos caminhavam com passos incertos. Matteo, o mais velho, de olhar curioso mas assustado, tentava compreender por que as vozes ao redor falavam uma língua que soava áspera e estrangeira. Rosa, a menor, agarrava a barra do vestido da mãe, segurando firme como se aquele pedaço de tecido fosse âncora contra um mar de rostos desconhecidos.

Nas mãos de Lorenzo, um maço de papéis envolto em barbante — as cartas oficiais do prefeito de Sant’Andrea. Eram mais do que folhas carimbadas; carregavam a tinta de uma promessa feita à distância: transporte seguro até o Brasil e, ao final, um pedaço de terra própria. Um sonho que, para muitos na vila, parecia tão vasto e inalcançável quanto o próprio oceano que eles estavam prestes a enfrentar.

Mas o navio que os aguardava não era o que lhes haviam descrito. O cargueiro a vela, encostado ao cais, era velho, escuro, e exalava um cheiro de peixe rançoso. “Apenas alguns dias de espera”, disseram-lhes os agentes, “até que chegue a embarcação certa”. Lorenzo sabia, pela inquietação que se espalhava entre os outros emigrantes, que a espera poderia ser muito mais longa. Quatro dias se passaram. Nenhuma vela nova apareceu no horizonte.

O grupo de mais de trezentas pessoas, amontoado nos galpões do porto, vivia de sardinhas salgadas e pão duro. As mães tentavam acalmar crianças febris. Os homens, de rostos tensos, discutiam entre si e com os representantes da companhia. Um boato cresceu: talvez não houvesse mais navio para o Brasil naquele mês. Talvez a promessa não passasse de engano — ou de fraude.

Numa tarde fria, Lorenzo procurou papel e tinta emprestados. Precisava escrever a Sant’Andrea. Não para pedir ajuda por orgulho, mas porque já não via outro caminho. Dirigiu a carta ao cunhado, Pietro, e ao velho prefeito que havia jurado protegê-los. Contou-lhes sobre o abandono, sobre o medo de serem deixados à própria sorte numa cidade estrangeira, sem dinheiro, sem amigos, sem a língua para se defender. Suplicou que intercedessem junto às autoridades e que, se possível, enviassem recursos para tirá-los daquela situação. Cada palavra era um pedaço de dignidade arrancada de si mesmo.

Enquanto a carta seguia para a Itália, os dias em Marselha arrastavam-se. Um casal do Trento perdeu um filho para a febre. Uma família de Treviso decidiu desistir e tentar voltar à aldeia — mas não havia como. A maioria estava presa ali, refém de um sistema cruel que tratava gente como carga de descarte.

Foi apenas no vigésimo dia que um novo navio atracou. Chamava-se San Michele. Não era muito melhor que o anterior, mas era a única esperança. Os emigrantes embarcaram sob chuva fina. Lorenzo, com Giulia e os filhos, subiu a rampa de madeira com passos trêmulos. Ao olhar para trás, viu a silhueta cinza de Marselha desaparecer lentamente. Naquele momento, fez um juramento silencioso: não importava o que encontrasse no Brasil, nunca mais voltaria a depender de promessas vazias.

A travessia foi longa, marcada por tempestades e enfermidades. Mas, ao cabo de dois meses, o San Michele ancorou em Santos, depois de passar pelo porto do Rio de Janeiro onde os imigrantes foram examinados e receberam os papéis de permanência. Dali, a viagem continuou por trem, através de trilhas de terra até o interior de São Paulo. Foi em Araraquara que Lorenzo e Giulia encontraram um pedaço de chão — pequeno, íngreme, cheio de pedras — que podiam chamar de seu.

Os anos que seguiram não foram fáceis. O solo, ingrato, exigia mais suor do que Lorenzo imaginara. Mas, pela primeira vez, o grão que germinava era dele. As mãos calejadas que colhiam milho, feijão e café não obedeciam mais a ordens de patrões. Cada amanhecer era duro, mas era livre.

Nas noites tranquilas, Lorenzo contava aos filhos maiores sobre Marselha, sobre a carta, sobre o medo de não chegar. Matteo e Rosa ouviam em silêncio, como se guardassem um segredo de família. E Lorenzo sempre terminava da mesma maneira:

— Foi naquele porto que aprendi que a esperança é como uma vela no mar. Pequena, frágil… mas capaz de atravessar oceanos inteiros.

E assim, entre pedras e raízes, construiu não apenas sua lavoura, mas o futuro de uma geração inteira.


Nota do Autor

Esta narrativa nasceu de uma carta escrita em novembro de 1877, a partir do porto de Marselha, por um emigrante italiano que, preso entre promessas quebradas e a incerteza da viagem, suplicava ajuda à sua família e à sua comunidade para não ser abandonado longe de casa.

Os nomes, lugares e detalhes pessoais foram alterados, mas a essência do drama humano permanece fiel: a solidão de quem deixa a terra natal, o medo de não chegar ao destino, a força silenciosa necessária para continuar mesmo quando todas as garantias desaparecem.

Transformar esta carta em história é, antes de tudo, um ato de resgate. Não apenas para preservar a memória de um homem, mas para dar voz a milhares de outros que viveram experiências semelhantes — homens e mulheres que, empurrados pela necessidade, cruzaram oceanos e suportaram privações inimagináveis em busca de dignidade e futuro.

Ao narrar a trajetória de Lorenzo Benedette, ofereço aos descendentes desses emigrantes pioneiros um fragmento do que poderia ter sido a vida de seus avós, bisavós e tataravós. Que esta história sirva de homenagem a todos eles — e lembrete de que cada pedaço de terra conquistado aqui no Brasil carrega, em silêncio, o peso de mares revoltos e promessas feitas do outro lado do Atlântico.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O Último Porto: A travessia de Domenico Del Muschio

 


O Último Porto 

A Travessia de Domenico Del Muschio

Buenos Aires, 2 de abril de 1883.

A emigração italiana no final do século XIX

O dia nascia úmido sobre o Rio da Prata. Um vento frio descia das águas largas e cinzentas, arrastando o cheiro de carvão, maresia e esperança. Naquela manhã, Domenico Del Muschio, com vinte e seis anos e a alma envelhecida pela miséria, entendeu que já não havia retorno possível. O mundo de antes — as colinas verdeadas de Castelfranco Veneto, o sino que marcava o meio-dia, o olhar cansado da mãe à soleira da porta — ficara para sempre do outro lado do oceano.

A partida de Castelfranco Veneto

Partira em 14 de março, quando o inverno europeu ainda se agarrava aos telhados e o vento trazia o gosto amargo da pobreza. Levava consigo uma pequena mala de madeira de pinheiro, duas mudas de roupa, um rosário e uma carta do pároco que o recomendava “como homem de boa conduta e disposição para o trabalho”. Ao embarcar em Gênova, olhara pela última vez para o porto, sem saber se aquele adeus seria definitivo.

A travessia do Atlântico a bordo do navio Italia

O navio Italia partira às duas da tarde. No convés, uma multidão de rostos pálidos, famílias inteiras, crianças agarradas às saias das mães e velhos de chapéu na mão. 

O oceano como prova e transformação

No primeiro dia, o mar fora um espelho azul e sereno, e os emigrantes, embriagados pela ideia de um novo mundo, cantavam hinos e baladas de suas aldeias. Mas dois dias depois, o Atlântico se revoltara. Ondas de seis metros varriam o convés, o vento rugia como uma fera, e muitos rezavam ajoelhados, certos de que jamais veriam a terra firme.

Domenico aguentou firme, sustentando um companheiro com náuseas e ajudando uma mulher a segurar o berço improvisado do filho. Quando, após quarenta e oito horas, o mar enfim se acalmou, a bordo surgiu um estranho sentimento de fraternidade: eram todos sobreviventes.

Buenos Aires: o primeiro contato com a América

O navio atracou em Montevidéu no dia 29 de março. O ar da América do Sul parecia mais leve, o céu, mais alto. Dali seguiram para Buenos Aires, e quando a cidade surgiu no horizonte — uma sucessão de torres, cais e fumaça —, Domenico teve a impressão de que o próprio destino o chamava.
Ecco l’America...”, murmurou um velho paduano ao seu lado.
Domenico não respondeu. Apenas fixou o olhar na linha do porto, como se buscasse ali um sinal divino de que sua travessia não fora em vão.

O Hotel de los Inmigrantes e a espera pelo destino

Foram recebidos pelo Comitê de Imigração que os levaram a um enorme galpão onde dormiram três noites sobre colchões de palha. O ar cheirava a suor, sal e desesperança. Homens tossiam, crianças choravam, e as mulheres improvisavam orações nas línguas de suas aldeias. No terceiro dia, foram conduzidos ao Hotel de los Inmigrantes, um edifício sólido, de janelas altas e paredes caiadas. Ali, pela primeira vez em semanas, Domenico comeu pão fresco e carne quente.

Buenos Aires era uma cidade desmedida. As ruas largas, as carruagens barulhentas, as vitrines francesas, os cabarés e os sinos formavam uma sinfonia de excessos. Nada lembrava a Itália. A cada esquina, ele via um pedaço de mundo diferente: espanhóis que gritavam nos mercados, ingleses que dirigiam ferrovias, crioulos de olhar atento, italianos que vendiam frutas ou puxavam carroças. Tudo pulsava, mas nada lhe pertencia.

Do porto à terra: a colonização agrícola em Córdoba

Nos dias seguintes, tentou arranjar trabalho. As promessas eram muitas — nos campos de trigo de Santa Fé, nas fazendas de Córdoba, nas linhas férreas que cortavam o interior. Mas o dinheiro da passagem ainda era uma dívida, e cada oferta trazia o peso da incerteza. Alguns companheiros já haviam partido; outros se rendiam à nostalgia e sonhavam com o retorno impossível.

A vida do colono e a construção de um lar

Domenico escrevia cartas todas as noites, mesmo quando não havia papel suficiente. Nelas, contava à família que estava bem, que o mar fora generoso e o navio, seguro; que os marinheiros eram gentis e os dias alegres, ainda que longos. Mentia com doçura — não por vaidade, mas para proteger quem amava. Dizia à mãe para não se preocupar, que logo enviaria dinheiro, que encontraria trabalho e que Deus não o abandonara.

Às vezes, à noite, caminhava até o porto. Via o reflexo das luzes tremendo na água escura e sentia o coração se apertar. Cada navio que partia era como uma ferida nova, lembrando-o do que deixara. Mas, pouco a pouco, começou a perceber que a vida — como o mar — não volta atrás: apenas segue, muda de forma, mas nunca retorna.

Na manhã de 2 de abril, sentou-se diante da janela do dormitório e escreveu a carta que marcaria o início de sua nova existência. Com letra firme, narrou o que vivera:

Sbarcammo il giorno 31 Marzo, e fummo accolti dal Comitato d’Immigrazione. Qui ci trattano con cortesia. Buenos Ayres è una gran bella città, ma molto differente dalle nostre. Se avrò fortuna, vi manderò qualche soldo appena possibile.

Dobrou a folha com cuidado, como se guardasse nela o próprio destino. Lá fora, os sinos da Catedral repicavam, misturando-se ao rumor das carroças e ao apito dos navios.

Domenico Del Muschio levantou-se. Havia um brilho novo em seus olhos — a chama dos que compreendem que o futuro não se espera: constrói-se.
Deixou o abrigo dos imigrantes e caminhou rumo ao cais, onde um agente procurava trabalhadores para o interior. O vento soprava do sul, carregando o cheiro de maresia e promessas.

E, enquanto o sol se erguia sobre a cidade que não dormia, Domenico percebeu, pela primeira vez, que a América não era o fim de sua jornada — era apenas o primeiro passo de uma travessia maior: a travessia de um homem em busca de si mesmo.

Quando Domenico Del Muschio deixou Buenos Aires, o outono já se fazia sentir. Os jacarandás das avenidas tingiam o ar de lilás e a cidade parecia respirar um ritmo que ele não compreendia. Um agente do Comitê de Imigração o havia recrutado para trabalhar numa colônia agrícola nas imediações de Río Segundo, na província de Córdoba. Disseram-lhe que havia terra fértil, que os italianos eram bem-vindos, que o futuro estava no interior.

Partiu de trem numa manhã cinzenta. O barulho metálico das rodas sobre os trilhos parecia repetir as batidas de seu próprio coração. Através da janela, via a paisagem mudar: primeiro os subúrbios poeirentos de Buenos Aires, depois o pampa sem fim, verde e dourado sob o vento. A vastidão da Argentina o intimidava. Havia algo de sagrado e de selvagem naquele espaço onde o horizonte nunca terminava.

Três dias depois, chegou a uma pequena estação de madeira. Um homem de chapéu de palha o esperava — chamava-se Don Esteban, capataz da fazenda San Joaquín. Falava um espanhol rápido, difícil de entender, mas os gestos bastavam. Levaram-no em carroça por caminhos de terra até a colônia.

Lá encontrou outros italianos: piemonteses, lombardos, vênetos, alguns calabreses. Cada um carregava uma história parecida com a sua — fome, dívidas, sonhos. As casas eram simples, de barro e telha; o trabalho, duro. Dormiam pouco, comiam menos, e o sol do meio-dia queimava a pele até doer. Mas à noite, quando o vento soprava entre os eucaliptos, acendiam uma fogueira e o som das vozes italianas preenchia a solidão. Cantavam canções antigas, falavam da pátria e riam do próprio destino.

Domenico começou como ajudante na lavoura de trigo. As mãos, antes acostumadas à madeira e à enxada, se encheram de calos. Aprendeu a lidar com as mulas, a manejar o arado, a ler o céu para prever as chuvas. Havia dias em que a fadiga o fazia cair de joelhos, mas ele se erguia, movido por uma força que nem compreendia.

Família, pertencimento e resistência

Em dezembro de 1883, conheceu Lucía Benítez, filha de um pequeno arrendatário espanhol. Ela levava o almoço ao pai nos campos, e Domenico, ao vê-la pela primeira vez, sentiu o mesmo desconcerto que o mar lhe causara: uma vertigem de infinitude. Lucía era firme, de olhos escuros e voz baixa. Falava pouco, mas havia ternura em cada gesto. Com o tempo, começaram a trocar palavras, depois risos, e em menos de um ano, partilhavam o mesmo destino.

Casaram-se em 1884, numa pequena capela erguida por padres franciscanos. O padre abençoou a união em castelhano e italiano, e o coro improvisado de imigrantes cantou um hino que ninguém soube de onde vinha. Foi o primeiro dia em que Domenico se sentiu, verdadeiramente, parte de alguma coisa.

A luta pela terra e a dignidade

A vida na colônia, porém, não era fácil. O ano seguinte trouxe seca e gafanhotos. O trigo queimou nos campos, os animais morreram, e muitos abandonaram a região. Domenico resistiu. Construíra uma casa de adobe com as próprias mãos, e agora tinha Lucía e um filho recém-nascido, Matteo. Prometera a si mesmo que jamais fugiria de novo.

Às vezes, nas madrugadas, olhava o menino dormir e pensava no pai que deixara na Itália. Imaginava-o velho, de mãos trêmulas, lendo as cartas que ele ainda enviava quando podia. Nessas horas, sentia o peso do tempo e a distância como duas âncoras invisíveis.

Mas a América também lhe dera algo novo: uma fé silenciosa no trabalho. Sabia que o futuro não era presenteado a ninguém — era cavado, palmo a palmo, com suor e teimosia.

No fim de 1885, o trigo voltou a crescer. As espigas douradas ondulavam sob o vento como um mar terrestre. Lucía, de pé à porta, observava Domenico voltar dos campos com o pequeno Matteo nos ombros. O sol poente tingia de cobre o horizonte, e por um instante, tudo parecia em paz.

Domenico Del Muschio não era mais o emigrante perdido do porto. Tornara-se colono, pai e construtor de um destino. A carta escrita em Buenos Aires, há dois anos, repousava agora dentro de uma caixa de madeira, junto com outras que nunca chegaram a ser enviadas.

Sabia que a vida ainda lhe cobraria muito, mas, ao olhar para aquele campo imenso e silencioso, compreendeu que, enfim, havia encontrado um lar.

Os anos que se seguiram transformaram a vida de Domenico Del Muschio numa sucessão de estações e colheitas. Cada ano era um risco, cada safra uma aposta silenciosa contra o destino. O solo argentino recompensava os que sabiam escutar-lhe o ritmo, e Domenico aprendera a fazê-lo com humildade e disciplina.

Em 1886, a colônia de San Joaquín prosperava. O governo havia distribuído títulos de terra aos colonos mais antigos, e Domenico — então com pouco mais de trinta anos — recebeu um pequeno lote às margens do arroyo Las Piedras. Construiu ali uma casa sólida, de tijolos e telhado de zinco, e plantou fileiras de videiras trazidas do Vêneto, mudas que havia escondido na mala durante a travessia oceânica.

A vida parecia enfim recompensar a obstinação. Matteo, o filho mais velho, crescia forte e curioso, e Lucía esperava a segunda criança, uma menina a quem dariam o nome de Giovanna, em homenagem à mãe de Domenico, que ficara na Itália.

Aos domingos, as famílias italianas e espanholas reuniam-se sob a sombra dos plátanos, onde se partilhavam o pão, o vinho espesso e o som distante de uma sanfona. Nessas tardes, o passado e o presente se confundiam: o aroma das colinas do Vêneto parecia fundir-se ao pó seco das planícies argentinas. Havia, naquele convívio simples, um sentimento de pertença, como se a nova terra começasse, pouco a pouco, a aceitá-los.

Entretanto, o destino, incerto como o vento dos pampas, logo mostrou outra face. Em 1888, chegaram rumores vindos da capital: a expansão das ferrovias, o avanço das fronteiras agrícolas e os primeiros sinais da concentração de terras. A riqueza do trigo transformava a paisagem e atraía novos interesses. Os grandes proprietários começaram a cercar áreas antes livres, expulsando famílias inteiras.

A tranquilidade da colônia de San Joaquín foi ameaçada. A luta pelos direitos de posse mobilizou os colonos mais antigos, e Domenico, quase sem perceber, tornou-se uma das vozes principais do movimento. Sua resistência era silenciosa, mas firme. Não havia esquecido as humilhações da terra natal, nem os dias em que o trabalho de gerações fora engolido pela miséria.

Durante meses, travou-se uma batalha lenta e exaustiva, feita de papéis, promessas e esperas. Quando finalmente, em 1890, o governo provincial reconheceu os direitos dos colonos, muitos já haviam desistido. Domenico, porém, permaneceu. Pagara caro por isso: noites de incerteza, dívidas crescentes e o peso da responsabilidade sobre os ombros. Ainda assim, a vitória o marcou como um homem que aprendera a persistir contra as forças invisíveis do poder.

Lucía via a transformação do marido com um misto de orgulho e apreensão. O jovem emigrante que um dia chegara de navio tornara-se um homem de voz firme e olhar cansado. O tempo deixara-lhe os ombros arqueados, as mãos endurecidas e a expressão severa de quem aprendeu a confiar apenas na própria resistência.

No inverno de 1893, uma geada destruiu parte da plantação. A fome e o desânimo abateram-se sobre a colônia. Foi nesse momento que Domenico se uniu a dois companheiros para fundar uma pequena moenda de trigo, iniciativa que lhes permitiria produzir farinha local e depender menos dos grandes comerciantes. O projeto exigiu esforço coletivo, improviso e coragem, mas deu certo. Pela primeira vez, Domenico sentiu que podia moldar o próprio destino, em vez de apenas reagir a ele.

Quando os trigais voltaram a crescer, na primavera seguinte, as colinas pareciam cobertas por uma luz nova. Aquele mar dourado representava mais do que o sustento: era a vitória silenciosa dos que haviam deixado tudo para trás.

Aos poucos, a figura de Domenico passou a ser associada à fundação da colônia. Os registros oficiais mencionavam seu nome entre os pioneiros, e mesmo os mais jovens o citavam como exemplo de firmeza e decência.

Em 1895, San Joaquín já era um povoado próspero, com escola, capela e pequenas casas alinhadas ao longo da estrada principal. As famílias cresciam, e o idioma italiano misturava-se ao espanhol dos criollos, criando uma nova sonoridade, um novo modo de ser.

Nas noites de céu aberto, Domenico costumava sentar-se diante de sua casa e observar o horizonte. O vento quente soprava do sul, trazendo consigo o perfume das ervas e o rumor distante do arroyo. Nessas horas, a lembrança da Itália surgia nítida: os sinos de Bassano del Grappa, o frio das manhãs, o rosto envelhecido da mãe que jamais voltaria a ver.

Com o tempo, compreendeu que a emigração era mais do que uma travessia — era uma herança que se transmitia no silêncio, um vínculo entre o que se perdeu e o que ainda se podia construir. A Itália permanecia dentro dele, não como um lugar, mas como uma voz que o acompanhava em cada amanhecer, no coração vasto e solitário das planícies argentinas. 

O tempo, que outrora parecia correr veloz como os ventos dos pampas, passou a mover-se lentamente sobre a vida de Domenico Del Muschio. Os anos de trabalho e sacrifício haviam moldado nele a serenidade de quem compreende que o destino não é algo a ser vencido, mas aceito com dignidade.

Na virada do século, San Joaquín era já um pequeno mundo autônomo. As ruas de terra batida transformaram-se em estradas ladeadas por amoreiras, a capela fora reconstruída em alvenaria e o sino, trazido da Itália por um grupo de colonos, marcava o compasso das estações. Domenico observava tudo com o olhar distante de quem havia visto nascer, crescer e amadurecer aquela terra.

Os filhos seguiram caminhos distintos. Matteo herdou o ofício da terra e administrava as plantações com rigor e devoção. Giovanna, de temperamento doce e decidido, casara-se com um professor vindo de Córdoba, e o casal passara a lecionar na pequena escola da colônia. Domenico via neles a continuação silenciosa de um sonho que começara num porto distante, quando ainda acreditava que um homem pudesse reinventar o próprio destino.

Apesar das conquistas, havia em seu coração uma sombra que jamais se dissipara. A promessa feita à mãe, na véspera da partida, o acompanhava como uma ferida aberta: o juramento de que voltaria à Itália, nem que fosse por um único verão, para beijar-lhe as mãos envelhecidas. Durante anos, essa promessa foi o norte de sua esperança. Mas o tempo, as dívidas e a vida no campo impuseram outros rumos.

Nunca houve recursos suficientes, nem paz política o bastante para permitir-lhe regressar. O Atlântico tornara-se uma distância intransponível, não apenas de água, mas de circunstâncias. Ainda assim, fiel à palavra, Domenico enviava sempre que podia um envelope com algum dinheiro à mãe, junto com uma breve carta escrita em caligrafia trêmula. Nessas cartas, descrevia o trigo amadurecendo, o riso dos filhos, a amplidão das planícies argentinas. E pedia, como se confessasse, que ela o perdoasse pela ausência.

As respostas chegavam raramente, e com o passar dos anos cessaram por completo. O silêncio da Itália pesou-lhe mais do que qualquer miséria. Soube, por meio de um conhecido vindo de Bassano, que a mãe falecera no inverno de 1901, assistida por uma vizinha, e que guardava ainda a última carta do filho dentro do missal. Nenhuma notícia lhe ferira tanto. A partir daquele dia, Domenico entendeu que a pátria que havia deixado não existia mais. Restava-lhe apenas a terra onde envelhecia.

Velhice, memória e herança

A velhice chegou sem aviso, como o outono que cobre as vinhas de sombra e silêncio. As mãos, outrora firmes, tremiam ao toque das ferramentas. As pernas, endurecidas de tanto caminhar, já não suportavam longas jornadas. Ainda assim, insistia em trabalhar, mesmo quando o corpo lhe pedia descanso. O campo era a extensão de sua própria carne — deixá-lo significava aceitar o fim.

Com o tempo, passou a recolher-se à varanda da casa, de onde observava os trigais dourados movendo-se como ondas sob o vento. Nesses momentos, a lembrança da juventude surgia vívida: o convés do navio, o brilho do sol sobre o mar, o cheiro do carvão e do sal. A travessia parecia próxima, como se pudesse ser retomada a qualquer instante.

Os vizinhos o respeitavam como a um patriarca silencioso. Quando o viam passar, curvado e lento, diziam que aquele homem havia trazido a colônia nas costas. E de certo modo era verdade: sem sua persistência, talvez San Joaquín nunca tivesse florescido.

No inverno de 1912, Domenico adoeceu. A febre chegou como um vento quente, e o corpo, cansado de tantas estações, rendeu-se pouco a pouco. Durante semanas permaneceu acamado, cercado pela família e pelo rumor constante da chuva batendo no telhado de zinco.

Em seus últimos dias, permaneceu lúcido, mas em silêncio. Parecia contemplar algo que os outros não podiam ver. Alguns diziam que sorria discretamente, como se finalmente enxergasse, do outro lado do tempo, a colina verde de sua infância.

O emigrante como fundador

Morreu numa madrugada fria de agosto, quando a aurora ainda se escondia atrás das montanhas de Córdoba. No momento em que seu coração cessou, o vento soprou forte do leste, e as janelas da casa se abriram sozinhas, deixando entrar um perfume leve de terra molhada e uvas maduras.

Foi sepultado no pequeno cemitério da colônia, sob uma cruz simples de madeira, ao lado de outros pioneiros. Nenhuma inscrição grandiosa, apenas o nome, a data e a palavra “Emigrante”.

E, embora jamais tenha regressado à Itália, suas raízes ali permaneceram — invisíveis, profundas, entrelaçadas à terra estrangeira que ele transformara em lar. Porque, em verdade, Domenico Del Muschio nunca deixara a pátria: apenas a espalhara, grão a grão, no solo que o acolheu.

Nota do Autor

Esta história nasceu de uma carta verdadeira. O documento, datado de 2 de abril de 1883, foi escrito em Buenos Aires por um jovem imigrante italiano que havia partido da Itália a bordo de um navio em direção à América do Sul. Nela, o autor descrevia com simplicidade e emoção a travessia do oceano, as tempestades suportadas, a chegada a Montevidéu e depois a Buenos Aires, e a espera incerta por trabalho e destino. As palavras estavam manchadas pelo tempo — algumas quase ilegíveis —, mas o que atravessou os séculos foi o que nenhuma tinta desbota: a coragem, a saudade e a fé de quem deixou tudo para recomeçar num continente desconhecido.

Domenico Del Muschio, o protagonista desta narrativa, é uma recriação literária desse emigrante anônimo. O nome foi alterado por respeito à memória dos descendentes e para preservar o anonimato do autor da carta, mas cada sentimento, cada gesto, cada linha desta história tem origem naquele testemunho real. Escrever sobre ele foi, antes de tudo, um ato de restituição — dar voz a um entre milhões que atravessaram o oceano movidos por um sonho e pela necessidade. O que se lê aqui não é apenas a vida de um homem, mas o espelho de uma geração que deixou a pátria sem saber se um dia voltaria a vê-la.As palavras de Domenico — e de tantos outros como ele — lembram-nos de que a história da emigração não é feita apenas de números e estatísticas, mas de rostos, cartas e esperanças. E talvez, em cada um de nós, ainda ressoe o eco desse mesmo mar que eles cruzaram, buscando um novo mundo onde pudessem simplesmente viver com dignidade.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta