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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Sob os Pinheiros do Novo Mundo e a Emigração Italiana de Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli ao Brasil (1878)


Sob os Pinheiros do Novo Mundo

A Emigração Italiana de Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli ao Brasil (1878)

Quando Domenico Rampallo deixou Stroppare, na planície pobre de Albettone, não partiu apenas de uma aldeia: afastou-se de um mundo que já não o comportava. A pequena localidade vêneta, cercada por campos arrendados e casas de pedra baixa, era o cenário de uma repetição secular de fadiga e escassez. A terra, esgotada por gerações de mãos camponesas, dava cada vez menos, enquanto exigia sempre o mesmo esforço brutal.

Domenico crescera ali, como seu pai e seu avô, sob contratos injustos, colheitas incertas e a humilhação silenciosa de trabalhar o que jamais seria seu. Giuseppina Novelli, de Ponte de Barbarano, trazia história semelhante: família numerosa, mesas sempre apertadas, futuro estreito. Aprendera cedo que o destino das mulheres camponesas era resistir — primeiro na casa do pai, depois na do marido.

Casaram-se na igreja de Santa Maria Assunta, em Barbarano, algumas semanas antes da partida. Não houve tempo para a ilusão de um lar recém-formado. O matrimônio foi mais um pacto de sobrevivência do que celebração. Sob a bênção antiga da igreja, prometeram-se não apenas amor, mas resistência — algo que nem sabiam ainda o quanto lhes seria exigido.

A viagem até Gênova foi, para ambos, a primeira ruptura concreta com o mundo conhecido. A cidade portuária, ruidosa e impessoal, acolhia diariamente milhares de destinos interrompidos. O Città di Milano aguardava no cais como um gigante de ferro e vapor, pronto para engolir vidas.

No porão do navio, Domenico e Giuseppina perderam rapidamente a noção de individualidade. Homens, mulheres e crianças eram reduzidos a corpos em trânsito. O ar tornava-se irrespirável à noite; os dias, longos e indistintos. O mar, ora benigno, ora cruel, ensinava que a travessia não era metáfora — era prova.

Em Nápoles, o navio inchou ainda mais de humanidade: mais de 550 emigrantes do sul da Itália embarcaram, trazendo consigo dialetos ásperos, gestos dramáticos e uma miséria ainda mais profunda. O Città di Milano transformou-se num microcosmo da Itália falida: norte e sul unidos não por ideais, mas pela expulsão.

Os trinta dias de viagem foram um lento processo de despojamento. Muitos adoeceram. Alguns morreram. Outros perderam a capacidade de imaginar o retorno. Giuseppina, frequentemente nauseada, mantinha-se firme, apoiada no silêncio concentrado de Domenico, que começava a compreender que o homem que chegaria ao Brasil já não seria o mesmo que partira do Vêneto.

O Rio de Janeiro surgiu envolto em calor, montanhas abruptas e uma vegetação que parecia crescer sem limites. Permaneceram três dias na Hospedaria de Emigrantes, um lugar de espera e vigilância, onde eram contados, examinados e redistribuídos como força de trabalho. Ali, o Brasil não era promessa nem ameaça — era incógnita.

O vapor Maranhão conduziu-os ao longo da costa. Em Santos e Paranaguá, despediram-se de companheiros que jamais tornariam a ver. Cada parada era uma fratura no grupo, um destino que se separava para sempre.

No porto de Rio Grande, encontraram o frio, o vento e barracões improvisados. A travessia ainda não havia terminado. Restava o trecho mais cruel: o interior. Até Montenegro, seguiram por rios e caminhos incertos. Dali, a pé. Homens e crianças maiores avançavam sobre trilhas lamacentas; grávidas, idosos e pequenos eram transportados em carroças puxadas por mulas, rangendo sob o peso da exaustão humana.

Quando chegaram ao lote destinado à Colônia Caxias, a realidade impôs-se sem mediações. Cinquenta hectares de floresta cerrada, dominada por pinheiros colossais, erguiam-se diante deles como uma muralha natural. Árvores que desafiavam a compreensão de quem viera de campos abertos e colinas domesticadas.

Antes de qualquer construção, a sobrevivência exigiu improviso. Encontraram abrigo no oco de um enorme embu, uma árvore tão vasta que parecia guardar dentro de si a memória da floresta. Ali viveram quase uma semana, protegidos da chuva, do vento e do medo noturno. Alimentavam-se do parco auxílio governamental e dos pinhões, abundantes e nutritivos, recolhidos no chão da mata.

A cabana de paus e barro nasceu lentamente, erguida mais por teimosia do que por técnica. Cada árvore derrubada era uma batalha vencida; cada noite superada, uma pequena fundação.

Naquele silêncio verde, Domenico compreendeu que não estava apenas abrindo clareira na floresta, mas inaugurando um futuro. Giuseppina, com mãos calejadas e olhar endurecido, transformava a precariedade em ordem possível. O Brasil não os acolheu com gentileza — mas lhes ofereceu algo que a Itália negara: a possibilidade de permanecer.

Assim começou a história dos Rampallo no Novo Mundo — não como epopeia heroica, mas como a lenta e obstinada construção da dignidade humana. 

Nota do Autor

Esta narrativa é parte de uma obra de ficção histórica. Embora esteja ancorada em contextos, rotas migratórias e circunstâncias amplamente documentadas da Grande Emigração Italiana do século XIX, os nomes das personagens, os vínculos familiares e as localidades mencionadas são criações literárias, utilizadas como recursos narrativos para dar forma humana a uma experiência coletiva.
Domenico Rampallo e Giuseppina Novelli não representam indivíduos históricos identificáveis, mas símbolos de milhares de homens e mulheres reais que, entre as décadas finais do oitocento, deixaram aldeias do Vêneto, da Lombardia, do Piemonte e do sul da Itália, atravessaram o Atlântico em condições adversas e enfrentaram a floresta, o isolamento e a incerteza nas colônias agrícolas do sul do Brasil.
Os episódios descritos — a travessia marítima, a hospedagem nas casas de imigrantes, o deslocamento interno, o impacto da mata virgem e a precariedade inicial — refletem experiências recorrentes e historicamente verificáveis, mas são aqui reelaborados literariamente, sem pretensão documental ou genealógica.
O objetivo desta obra não é reconstituir trajetórias individuais com exatidão factual, mas resgatar a dimensão humana, emocional e moral da emigração, muitas vezes ausente dos registros oficiais. Ao recorrer à ficção, busca-se revelar uma verdade mais profunda: a de um povo deslocado pela pobreza, forjado pelo trabalho e unido pela esperança silenciosa de permanência.
Que o leitor compreenda este texto como um exercício de memória simbólica, uma homenagem àqueles que não deixaram cartas, fotografias ou nomes gravados na história, mas que ainda vivem no idioma, nos costumes e na paisagem humana do sul do Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Os Desencontros Familiares na Imigração Italiana: Histórias da Grande Emigração


Os Desencontros Familiares na Imigração Italiana: Histórias da Grande Emigração


A Mobilidade Italiana antes da Unificação

Muito antes de a Itália tornar-se um Estado unificado — conquista que se consumaria ao término do turbulento Risorgimento, iniciado em 1815 e concluído em 1871 —, a mobilidade já fazia parte da vida de inúmeros habitantes da península. Nas regiões setentrionais, como Piemonte, Lombardia, Veneto, Trento e Friuli, a migração não era novidade. Antes de transformar-se em necessidade, já ocorria além das fronteiras vizinhas, em busca de subsistência e sobrevivência.

A Migração das Andorinhas

No início, eram sobretudo os homens, e depois também as mulheres, que se ausentavam temporariamente, deixando para trás famílias inteiras. Seguiam para a França, Suíça, Áustria e Alemanha, empregando-se na agricultura, na construção civil ou em serviços sazonais. Tal deslocamento periódico recebeu o nome de migrazione delle rondini — a migração das andorinhas — numa alusão às aves que, após um período distante, regressavam ao ninho.

Da Migração Temporária à Grande Emigração Definitiva

Nas últimas décadas do século XIX, esse movimento temporário transformou-se em definitivo devido a diversos fatores, entre eles a formação do Reino da Itália. A miséria estrutural, a pressão demográfica e a escassez de oportunidades — somadas à promessa de terras, salários ou simplesmente de pão — levaram milhões de italianos a deixarem o país para sempre.

Os destinos prediletos eram, inicialmente, os Estados Unidos, a Argentina e o Brasil, vistos como terras de abundância do outro lado do Atlântico. Ao mesmo tempo, países europeus mais prósperos, como França, Suíça, Bélgica e Alemanha, continuaram absorvendo grande parte dos emigrantes que abandonavam suas aldeias natais.

Portos Lotados e a Partida Irreversível

Os portos de Gênova e Nápoles tornaram-se pontos de partida simbólicos de uma diáspora sem precedentes. Marselha e Le Havre, na França, também viam seus cais apinhados de italianos em trânsito, carregando baús modestos, sacos com roupas e ferramentas, mantimentos e, sobretudo, esperanças. Os navios de linha, quase sempre superlotados, eram a última imagem da pátria que ficava para trás.

O Tamanho das Famílias e a Separação Progressiva

Naquele período, as famílias italianas eram numerosas. Casas modestas abrigavam dez, doze ou até quinze pessoas em poucos cômodos. A fome rondava com frequência, especialmente nas comunidades camponesas das montanhas e nas aldeias pobres do Mezzogiorno.

Em cada núcleo familiar, a lógica se repetia: os filhos mais velhos emigravam primeiro, abrindo caminho para que os mais novos partissem depois. Porém, essa fragmentação do grupo familiar se intensificava conforme os destinos se dispersavam.

Famílias Fragmentadas pelo Mundo

Os destinos raramente eram os mesmos. Um irmão podia instalar-se na Argentina, outro embarcar para o Brasil, enquanto um terceiro tentava a sorte nos Estados Unidos. Alguns permaneciam na Itália; outros cruzavam os Alpes e se fixavam definitivamente em países vizinhos.

A rede familiar, antes sustentada pela proximidade física e pelo trabalho conjunto, fragmentava-se pelo mapa do mundo.

O Silêncio das Cartas e a Distância Irreversível

A comunicação era precária, especialmente para os que cruzavam o Atlântico. No Brasil e na Argentina, vastos territórios recebiam colonos semi-alfabetizados e até analfabetos em áreas rurais distantes, mal servidas por estradas e com serviços postais inexistentes ou instáveis.

As cartas, único elo possível entre mundos tão afastados, levavam meses para cruzar o oceano. Muitas se extraviavam; outras jamais saíam dos portos. Para um emigrante que partia rumo às colônias brasileiras, não era raro permanecer anos sem notícias concretas de pais, irmãos ou mesmo mulher e filhos.

Com o tempo, a distância convertia-se em silêncio. Mesmo quando outro membro da família decidia emigrar, muitas vezes desembarcava no mesmo país, mas era enviado para colônias distantes, talvez em outro estado. A vastidão territorial e a falta de meios de comunicação tornavam os reencontros improváveis.

Laços Perdidos e Histórias que se Apagam

Muitas famílias perderam contato para sempre, apesar de viverem sob o mesmo céu, separados apenas pela geografia e pelo destino.

Até hoje, não é incomum encontrar famílias com o mesmo sobrenome — descendentes de um mesmo tronco ancestral — sem saber que seus antepassados estiveram lado a lado em algum porto, que partilharam a mesma aldeia de origem ou que trocaram cartas que jamais chegaram.

A Grande Emigração Italiana, que levou milhões de vidas para longe de casa, deixou também incontáveis histórias de desencontros que atravessaram gerações.

Nota do Autor

Este artigo é um sopro vindo de longe, como o eco de passos que já não se ouvem, mas que ainda ressoam nas memórias que atravessaram gerações. A Grande Emigração não foi feita apenas de travessias marítimas e terras desconhecidas; foi feita de silêncios que se instalaram em casas vazias, de cartas que não chegaram, de abraços que o destino não permitiu.

Nas docas de Gênova e Nápoles, famílias se despediam acreditando que o tempo traria reencontros. Mas, muitas vezes, o tempo trouxe apenas distância. Irmãos foram espalhados por continentes, nomes se perderam em registros incompletos, e histórias se diluíram na imensidão de terras estranhas.

Este texto é dedicado a todos eles — aos que partiram e aos que ficaram. A cada sobrenome que hoje resiste, há uma raiz antiga fincada em solo estrangeiro. A cada descendente que não conhece sua origem, há uma aldeia que um dia se despediu.

Escrevo para que, ao ler estas linhas, cada um possa sentir que não caminha sozinho: atrás de cada passo presente, há um rastro antigo, aberto por mãos calejadas, carregando esperança no lugar da certeza.

Dr. Piazzetta


terça-feira, 31 de outubro de 2023

Entre Fronteiras: Uma Jornada pela Emigração Italiana ao Longo de Quase Dois Séculos

 



A emigração italiana representa um amplo movimento de saída da população italiana, visando à expatriação. Inicialmente concentrado no norte da Itália, o fenômeno expandiu-se, a partir de 1880, também para o sul do país, abrangendo consistentes deslocamentos internos dentro das próprias fronteiras geográficas.
A trajetória da emigração italiana se desenha ao longo de três períodos distintos de êxodo. O primeiro, denominado "grande emigração", teve início em 1861, após a unificação da Itália, e encerrou-se nas décadas de 1920, com o advento do fascismo. Já o segundo, marcado por intensa emigração internacional e reconhecido como "migração europeia", ocorreu do pós-Segunda Guerra Mundial, de 1945 até a década de 1970. Entre 1861 e 1985,  aproximadamente 20 milhões de italianos deixaram o país, sem perspectiva de retorno. Os descendentes, chamados de "oriundi italianos", podem deter cidadania italiana, além da do país de nascimento, embora poucos solicitem enquanto residem fora da Itália. Estima-se que entre 60 e 80 milhões de oriundi italianos estejam dispersos pelo mundo.
Uma terceira onda migratória, conhecida como "nova emigração", teve início no início do século XXI, impulsionada pelas dificuldades originadas na grande recessão, a crise econômica global que teve início em 2007. Este terceiro fenômeno migratório, embora numericamente inferior aos dois anteriores, impacta principalmente os jovens, muitos deles graduados, sendo caracterizado como uma "fuga de cérebros". De acordo com o registro de italianos residentes no exterior, o número de cidadãos italianos vivendo fora da Itália aumentou de 3.106.251 em 2006 para 5.806.068 em 2021, representando um crescimento significativo de 87%.




segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Os Camponeses Italianos e o Grande Êxodo

 
Desembarque dos imigrantes de Antonio Ferraguti




Desde o ano de 1861, milhões de italianos, homens, mulheres e crianças tiveram a necessidade de sair do país em busca de uma melhor sorte no exterior, muitas vezes em países longínquos da América. Nessas suas novas pátrias foram recebidos com os mesmos preconceitos que hoje muitas vezes alguns ainda reservam aos imigrantes que chegam à Itália.

A maioria dos emigrantes italianos, mais de 14 milhões, partiu nas décadas que se seguiram à unificação da Itália, fenômeno que foi denominado a "grande emigração" (1876-1915).

Vilas inteiras viram a sua população cair pela metade nas décadas entre os séculos XIX e XX. Quase um terço tinha como destino dos sonhos a América do Norte, então ávidos por mão de obra. Destinos como New York eram os mais populares. Bem antes de 1861 já os genoveses partiam para a Argentina e Uruguai.

Da mesma maneira que os imigrantes que hoje chegam aos milhares na Itália, não vinham acompanhados por toda a família. A emigração começou como temporária e geralmente somente era composta por homens, quase sempre solteiros.


Desembarque dos imigrantes de Antonio Rocco




Famílias inteiras de camponeses da região do Vêneto e das províncias do sul da Itália, passaram a emigrar para o Brasil nos últimos 25 anos do século XIX, principalmente após 1888, quando se deu a abolição da escravidão, deixando a grande nação sul-americana necessitada de mão de obra. Campanhas oficiais organizadas, para angariar emigrantes, foram realizadas por toda a Itália por representantes do governo imperial do Brasil, que anunciavam um vasto programa de colonização. Nesse programa estava incluída a viagem grátis para aqueles que embarcassem com toda a família.

Os emigrantes do norte da Itália embarcavam normalmente pelo Porto de Gênova ou até mesmo por Le Havre, na França, enquanto que aqueles do sul embarcavam pelo Porto de Nápoles.

À bordo, eram visíveis as diferenças de tratamento para os passageiros emigrantes que estavam na terceira classe, a maioria deles representada pelas famílias de pobres camponeses que viajavam gratuitamente ou com passagens subsidiadas, e aqueles da primeira, ou mesmo da segunda classe, que pagavam pelos bilhetes, era muito grande. A maioria dos emigrantes viajava na terceira classe e não tinham nenhum conforto para enfrentar mais de um mês de viagem pelo oceano.


Caderno dominical do Jornal Corriere della Sera



Nos Estados Unidos desembarcavam geralmente no Porto de Ellis Island, na baía de New York, onde eram submetidos a um rigoroso exame médico e de aptidão físico e mental que podia durar até três dias e os rejeitados sumariamente proibidos de entrar no país e deviam empreender a viagem de volta, as tristes viagens de retorno.

Os emigrantes cujo destino era a América do Sul, principalmente Brasil, Argentina e Uruguai, encontravam maiores facilidades para entrar. O exame médico no desembarque não era tão rigoroso e se não houvesse ocorrido alguma comunicação de uma epidemia à bordo ou mesmo de casos isolados de doenças infectocontagiosas, o emigrante podia desembarcar normalmente e proseguir até o seu destino final.

No Brasil, nos primeiros anos, desembarcavam na Ilha das Flores, no Porto do Rio de Janeiro, onde havia um grande aparato construído para o recebimento dos imigrantes, com hospital e uma hospedaria, onde ficavam provisoriamente alojados aguardando o prosseguimento da viagem. Com o rápido crescimento da imigração nos anos seguintes, onde milhares de estrangeiros chegavam anualmente ao Brasil, também o Porto de Santos passou a ser utilizado, principalmente para aqueles imigrantes que ficariam no estado de São Paulo.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Erechim RS