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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

As Consequências da Unificação Italiana para os Vênetos a História, Identidade e o Êxodo para o Brasil


As Consequências da Unificação Italiana para os Vênetos: História, Identidade e o Êxodo para o Brasil


A Unificação Italiana é frequentemente apresentada como um triunfo nacional, mas a realidade vivida pelos vênetos após 1866 foi bem diferente. A anexação do Vêneto ao recém-formado Reino da Itália trouxe impactos profundos na economia, na cultura e no cotidiano da população. Esses acontecimentos foram decisivos para o início do grande êxodo que levou milhares de vênetos ao Brasil, à Argentina e a outros países das Américas.

Este artigo explica, de forma clara e histórica, como a Unificação Italiana alterou o destino do Vêneto e por que essa mudança resultou em uma migração sem precedentes.

O Fim de Uma Autonomia Histórica

Durante quase mil anos, a Sereníssima República de Veneza foi independente, com instituições próprias e forte identidade cultural. Mesmo após sua queda em 1797, o sentimento de pertencimento permanecia vivo entre os vênetos.

Com o plebiscito de 1866, também conhecido como Plebiscito Truffa — processo bastante controverso e amplamente questionado por historiadores — o Vêneto foi anexado ao Reino da Itália. A administração piemontesa, depois de um plebiscito de resultado duvidoso pois eivado de falhas graves, tomou o controle, substituindo estruturas tradicionais por um sistema centralizado, distante e muitas vezes incompreensível para a população rural.

Os vênetos perderam:

  • suas instituições locais,

  • parte de sua autonomia,

  • modelos de governança que existiam havia séculos,

  • a sensação de continuidade histórica.

A mudança foi percebida como abrupta e, em muitos casos, injusta.

A Crise Econômica Que Se Agravou Após 1866

A economia veneta já enfrentava dificuldades antes da unificação, mas a incorporação ao novo reino intensificou os problemas. O modelo administrativo e fiscal imposto pelo governo italiano era pesado e pouco adequado às realidades rurais da região.

Os agravantes pós-unificação incluíam:

  • Aumento de impostos sobre consumo e propriedade;

  • Serviço militar obrigatório, que retirava jovens trabalhadores do campo;

  • Concorrência desigual com regiões industrializadas;

  • Pouca modernização agrícola;

  • Endividamento crescente das famílias rurais.

Sem apoio do governo central, muitas comunidades viram a pobreza aumentar de forma irreversível.

A Imposição da Língua Italiana e o Apagamento Cultural

Outro impacto direto da unificação foi a questão linguística. O vêneto, língua histórica da região, foi substituído gradualmente pelo italiano padrão, baseado no dialeto toscano.

A partir de 1866, escolas e órgãos públicos proibiam o uso do vêneto, tratando-o como linguagem inferior ou atrasada. Crianças eram incentivadas — ou forçadas — a abandonar a língua materna. O objetivo explícito era “italianizar” a população.

Para muitos vênetos, isso representou não apenas perda de idioma, mas também de identidade, memória e pertencimento.

O Vêneto e a Desigualdade Dentro do Reino da Itália

Apesar das promessas do Risorgimento, os benefícios da unificação não chegaram igualmente a todas as regiões. O Vêneto recebeu:

  • poucas obras de infraestrutura,

  • pouca industrialização,

  • escasso investimento estatal,

  • atenção política limitada.

O sentimento de abandono cresceu. Para muitos vênetos, era claro que contribuíam com impostos elevados, mas recebiam muito pouco em troca.

O Êxodo em Massa: Quando Emigrar Era a Única Saída

Entre 1875 e 1914, o Vêneto se tornou uma das regiões que mais enviaram emigrantes ao exterior. A pobreza no campo, a falta de perspectivas e os altos impostos empurraram milhares de famílias para longe de sua terra natal.

O Brasil se destacou como destino porque oferecia:

  • terra disponível,

  • promessas de trabalho,

  • possibilidade de reconstruir a vida.

Essa migração transformou a sociedade brasileira e deu origem ao Talian, língua de contato criada nas colônias do sul do Brasil a partir de variedades vênetas.

Consequências Sociais e Históricas de Longo Prazo

Os impactos da unificação ainda ecoam na cultura veneta moderna:

  • fortalecimento da identidade regional,

  • preservação do vêneto como herança cultural,

  • movimentos autonomistas,

  • memória da emigração como parte da história familiar.

Para muitos descendentes, entender essas consequências é fundamental para compreender a própria origem.

Conclusão 

A anexação do Vêneto ao Reino da Itália em 1866 marcou profundamente a região. Perderam-se autonomia, identidade e estabilidade econômica, enquanto aumentaram impostos, pobreza e desigualdade. O resultado foi um êxodo gigantesco que trouxe centenas de milhares de vênetos ao Brasil e outros milhões espalhados por outros países europeus e das Américas.

Compreender esse processo histórico ajuda a explicar por que o Talian nasceu aqui, por que tantas famílias migraram e por que a cultura veneta é tão forte entre os descendentes brasileiros. A história da unificação italiana não é apenas política; é uma história humana de perda, adaptação e reconstrução.

Nota do Autor 

Este artigo foi escrito com base em pesquisas históricas e análises culturais sobre o impacto da Unificação Italiana na vida dos vênetos. O objetivo é oferecer aos descendentes de imigrantes italianos no Brasil um conteúdo claro, profundo e fiel aos fatos, valorizando a memória de quem atravessou o oceano em busca de um novo começo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 17 de janeiro de 2026

Quando el Paese Itàlia no Esistea Ancora La Vera Orìgine dei Emigranti Italiani in Brasil

Quando el Paese Itàlia no Esistea Ancora

La Vera Orìgine dei Emigranti Italian in Brasil


Pochi brasilian dissendenti de emigranti italiani i sa che, quando i primi emigranti italiani i ze rivai in Brasil, el Paese Itàlia el gavea apena nove ani de esistensa. In quel tempo, l’Itàlia no zera ancora ‘na nassion unìa. La penìnsola la zera composta da diversi Stati indipendenti, ciaschedun con el so governo, le so lègi, la so economia, la so cultura e le so lèngue. Par la magior parte dei emigranti italiani, l’idea de ‘na “Itàlia” come pàtria comune no esistea.

Solo dopo el processo de unificassion, conosùo come Risorgimento, e dopo el polèmico plebissito che el ga portà a l’anessassion del Vèneto, el ze nato ufissialmente el Regno d’Itàlia, governà da la Casa de Savoia, originària del Piemonte. Sta trasformassion stòrica la ga cambià el destin de milioni de persone e la ze stà lo scomìnsio de la grande emigrassion italiana verso le Americhe.

Prima de l’Unificassion: ‘Na Penìnsola Spacà

Prima de l’unificassion, el territòrio che incò ciamemo Itàlia el zera ‘na penìnsola fragmentà. Durante el sècolo XVIII e el scomìnsio del XIX, ghe zera diversi Stati sovrani, come el Regno de Sardegna, el Regno de Nàpoli, el Stato de la Cesa, el Ducà de Milan e la Serenìssima Repùblica de Venèssia.

Ognun de sti Stati el gavea ‘na identità distinta. Le tradission, le forme de laorar, le strutture sossiai e, sopratuto, le lèngue, i zera profondamente diverse. No esistea un sentimento nassional italian: le persone se sentiva vèneta, lombarde, sicilian o napoletan, ma no “italiane”.

El Risorgimento e la Nàssita de l’Itàlia

´Ntel sècolo XIX el ze scominsià el longo processo polìtico e militare ciamà Risorgimento, che el ga portà a la nassita del Stato italian. Dopo guere, rivolte e aleanse, el Regno d’Itàlia el ze stà proclamà, ma la so unità la ze stada completà solo ´ntel 1866, con l’anessassion del Vèneto.

Quel plebissito el resta ancora incò motivo de discussion. Studioso e stòrici i parla de manipulassion e irregolarità gravi, come el documenta con richessa de argomenti acusatòri el libro 1866 – La Grande Truffa de Ettore Beggiato. L’unificassion, lontan da portar benessere imediato, la ga coinsidi con ‘na crisi profonda.

Fame, Crisi e Emigrassion Italiana

´Ntei ani che ga seguì l’unificassion, fame, misèria, crisi agrària e disocupassion i ga colpì duramente sia el Nord che el Sud. El peso de le tasse e de le riforme i ga agravà la situassion dei contadin pì poveri. Par tanti, l’ùnica solussion la zera partir.

Cusì el ze nato el fenòmeno de la emigrassion italiana in massa verso le Amèriche. Milioni de persone i ga lassà le so tere in serca de un futuro mèio, portando con lori poche robe materiai ma ‘na forte identità culturae.

I Emigranti Italiani no Parlava Italian

emigranti italiani in Brasile, rivai sopratuto dopo el 1875, no i parlava italian. El motivo el ze sèmplisse: l’italian no esistea come lèngua parlada dal pòpolo. Ogni region parlava el so dialeto, che spesso el zera ‘na vera lèngua, con gramàtica e lèssico propri.

El vèneto, parlà da milioni de persone ´ntel Nord-Est, el zera uno de sti idiomi. Quando el novo Stato italian el ga dovù stabilir ‘na lèngua ufissial, el ga scelto el toscan literàrio de Dante, Petrarca e Boccaccio. Sta lèngua la ze stada imposta dal alto e la no zera compresa da la magior parte dei emigranti.

El Vèneto e l’Èsodo verso el Brasile

L’anessassion del Vèneto al Regno d’Itàlia la ga pegiorà ancora de pì la crisi económica. El mondo rurae el ze entrà in colasso, e l’emigrassion la ze diventà ‘na vàlvola de sfogo par evitar tension e ribelion sossiai.

Miaia de famèie vènete i ze partì verso el Brasil, stabilendose prinssipalmente ´ntel Rio Grande do Sul, in Santa Catarina, ´ntel Espírito Santo, oltre che in San Paolo e Minas Gerais, dove tanti i ze stà mandà a laorar ´ntele fasende de cafè dopo l’abolission de la schiavitù.

La Nàssita del Talian in Brasil

La lèngua vèneta, con le so tante varianti locae, la zera la base linguìstica de la magior parte dei emigranti del Sud del Brasil. Già durante el viàio in navio, i emigranti i se rendeva conto de la dificoltà de comunicassion tra dialeti diversi. ´Ntel isolamento de le colònie del Sud del Brasile, el ze nato cusì el Talian.

El Talian el se ga formà da la mescolansa dei dialeti vèneti, con influensse de altre region e, con el passar del tempo, del portoghese. Come pì del 50% dei emigranti del Rio Grande do Sul i zera vèneta, el vèneto el ga eserssità ‘na influesa dominante.

Incò, el Talian e el vèneto parlà in Itàlia i ze largamente comprensìbili tra de lori, anca se i ga seguìo strade diverse ´ntel tempo.

El Talian Incò Vivo in Brasil

Incò el Talian in Brasil el ze ‘na lèngua viva. Pì de un milión de brasilian lo parla fluentemente, e tanti altri lo comprende. Ghe ze scole, programi de ràdio, teatro, scritori e ricercador che i laora par conservar e difonder sto património linguìstico.

Pì de cento libri i ze stadi publicà in Talian, el dissionàrio veneto riograndense7portughese del frate Alberto Stawisnki e l’opera Vita e Stòria de Nanetto Pippeta (1924) del frate Aquiles Bernardi le ze considerà el so marco literàrio. El Talian el ze incò riconossù come la seconda lèngua pì parlada del Rio Grande do Sul, dopo el portoghese.

Nota de l’Autor

Sto testo el ze stà scrito con intento stòrico e culturae. El ga come obietivo quel de spiegar le vere orìgine dei emigranti italiani in Brasile e de valorisar la diversità linguìstica e regionae de la penìnsula italiana prima de l’unificassion. El uso del talian no vol rapresentar ‘na norma ufissial, ma conservassion de ‘na memòria viva, trasmessa de generassion in generassion.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Quando o País Itália Ainda Não Existia e A Verdadeira História por Trás das Origens dos Imigrantes

 


Quando o País Itália Ainda Não Existia e A Verdadeira História por Trás das Origens dos Imigrantes

Poucos brasileiros descendentes de italianos sabem que, quando os primeiros imigrantes desembarcaram no Brasil, a Itália como país tinha apenas 9 anos de existência. Até 1866, a península não era uma nação unificada, mas um conjunto de Estados independentes, cada qual com governo, leis, cultura e línguas próprias. Somente a partir da unificação — e após o conturbado plebiscito que anexou o Vêneto — passou a existir oficialmente o Reino da Itália, governado pela Casa de Savoia, originária do Piemonte.

Antes da Unificação: Uma Península Fragmentada

Durante o século XVIII, o território hoje conhecido como Itália era composto por diversos Estados soberanos, entre eles:

  • Reino da Sardenha

  • Reino de Nápoles

  • Estado da Igreja

  • Ducado de Milão

  • Sereníssima República de Veneza

Cada um possuía identidade distinta, com tradições, economias e línguas muito diferentes entre si. Não havia um sentimento nacional italiano — ele sequer faria sentido naquele contexto.

O Risorgimento e o Nascimento da Itália

No século XIX, iniciou-se o longo processo de unificação chamado Risorgimento, celebrado na Itália em 17 de março. Após guerras e mobilizações políticas, formou-se o Reino da Itália, considerado concluído somente em 1866, quando o Vêneto foi anexado após um polêmico e manipulado plebiscito. Pesquisadores apontam irregularidades profundas, como detalha o livro “1866 – La Grande Truffa”, de E. Beggiato.

A unificação coincidiu com um momento dramático: fome, miséria, crise agrícola e desemprego devastavam tanto o Norte quanto o Sul, alimentando o início da emigração em massa para a América.

Os Imigrantes Não Falavam Italiano

Os antepassados que chegaram ao Brasil a partir de 1875 não sabiam italiano, porque:

  1. O italiano não existia como língua nacional até a unificação.

  2. As populações se identificavam pela província, não pela nacionalidade “italiana”.

  3. Cada região falava seu dialeto próprio, muitos deles línguas inteiras com estrutura própria, como o vêneto.

Quando o novo Estado precisou definir um idioma, adotou-se o toscano literário, usado por Dante, Petrarca e Boccaccio. Assim, o “italiano” foi uma língua oficial imposta de cima para baixo — e desconhecida da maioria dos emigrantes.

O Vêneto, a Crise e o Êxodo para o Brasil

A anexação do Vêneto agravou ainda mais a crise econômica local, acelerando o colapso rural e a fuga de milhões de pessoas. O êxodo tornou-se uma válvula de escape para evitar uma possível guerra civil. O peso dessa transformação recaiu sobre os agricultores pobres do Norte e do Sul.

A maioria dos emigrantes era semianalfabeta, e seus dialetos — sobretudo após a queda da Sereníssima República de Veneza em 1797 — quase já não eram escritos. Mesmo assim, eram portadores da rica herança cultural de uma das mais poderosas repúblicas marítimas da história.

Milhares desses vênetos vieram para o Brasil, estabelecendo-se principalmente no Rio Grande do SulSanta CatarinaEspírito Santo, além de São Paulo e Minas Gerais, onde foram destinados às fazendas de café após a abolição da escravidão.

O Nascimento do Talian no Brasil

A língua vêneta, com grande diversidade interna, era o idioma da maioria dos imigrantes do Sul. No convés dos navios, eles já percebiam a dificuldade de comunicação entre dialetos distintos. No isolamento das colônias gaúchas, surgiu então uma nova língua: o Talian.

Criado a partir da mistura dos dialetos vênetos e influências de outras regiões, o Talian se consolidou como uma língua própria, rica e melodiosa. Como mais de 50% dos imigrantes do RS eram vênetos, o vêneto exerceu influência dominante na formação do novo idioma.

Hoje, o Talian e o vêneto italiano são totalmente compreensíveis entre si, embora tenham evoluído de formas diferentes:

  • O Talian incorporou palavras e construções do português ao longo de 140 anos.

  • O vêneto europeu recebeu forte influência do italiano contemporâneo.

Para muitos descendentes, o Talian é a verdadeira língua mãe.

A Presença Atual do Talian no Brasil

O Talian permanece vivo:

  • mais de 1 milhão de brasileiros falam fluentemente,

  • outro tanto o compreende,

  • há escolas, programas de rádio e escritores dedicados ao idioma,

  • existem mais de 100 livros publicados em Talian, além de dicionários,

  • a obra clássica “Vita e Stòria de Nanetto Pippeta” (1924) é seu marco literário.

Peças de teatro também são encenadas nessa língua, que hoje é considerada a segunda língua mais falada do Rio Grande do Sul, depois do português.


Nota do autor

Este texto foi escrito com o objetivo de esclarecer um ponto essencial sobre a origem dos imigrantes italianos no Brasil: muitos deles partiram de uma península fragmentada, em um período em que a Itália ainda não existia como país unificado. Ao abordar o Risorgimento, a anexação do Vêneto, a crise econômica e o surgimento do Talian no Brasil, busco aproximar os descendentes de italianos de sua verdadeira história familiar, mostrando que seus antepassados se identificavam sobretudo com suas regiões, dialetos e comunidades locais.

Mais do que narrar dados históricos, procuro valorizar a formação cultural desses imigrantes, explicar por que eles não falavam italiano padrão e destacar como o contato entre diferentes dialetos deu origem a uma nova língua viva no Brasil. A intenção é contribuir para o entendimento das raízes vênetas e italianas, da trajetória migratória e do impacto desse processo na identidade de milhões de brasileiros. Este trabalho não pretende esgotar o tema, mas incentivar a pesquisa, a preservação do Talian e o reconhecimento da verdadeira diversidade que marca a história da imigração italiana no Brasil.

Dr. Luiz C: B. Piazzetta



domingo, 4 de janeiro de 2026

O Plebiscito Fraudado de 1866 e Como o Vêneto Foi Incorporado ao Reino da Itália

 

O Plebiscito Fraudado de 1866 e Como o Vêneto Foi Incorporado ao Reino da Itália

História do Vêneto • Unificação Italiana

Introdução

O plebiscito de 1866, realizado para decidir se o Vêneto deveria ser anexado ao recém-formado Reino da Itália, é até hoje considerado um dos processos eleitorais mais contestados do século XIX. Embora oficialmente apresentado como um “livre ato de vontade popular”, o referendo foi marcado por pressões militares, ausência de liberdade de voto, participação simbólica dos austríacos e uma intensa campanha de manipulação política.

Para muitos estudiosos, como Ettore Beggiato em “1866 – La Grande Truffa”, o plebiscito foi menos uma escolha democrática e mais uma formalidade política para legitimar uma decisão já tomada de antemão pelas potências europeias.

O Contexto Histórico: Uma Decisão Tomada Antes Mesmo da Votação

Em 1866, durante a Terceira Guerra da Independência, o Império Austro-Húngaro decidiu ceder o Vêneto à França, que por sua vez o entregaria ao Reino da Itália — independentemente do resultado de qualquer votação.
Ou seja:

  • A Itália já receberia o Vêneto, pois isso estava definido em acordos diplomáticos entre Napoleão III e Viena.

  • O plebiscito foi convocado apenas para dar aparência de legitimidade, como era prática política do século XIX.

Assim, quando o eleitorado foi votar, a questão já estava resolvida nos bastidores.

Falta de Liberdade de Voto: Um Plebiscito Sob Presença Militar

No momento da votação, o Vêneto estava ocupado por tropas italianas e francesas. A legislação eleitoral exigia:

  • voto público, não secreto;

  • obrigatoriedade de preencher cédulas pré-impressas fornecidas pelo governo;

  • voto depositado diante de autoridades italianas.

A presença de militares italianos na maior parte das cidades criou um ambiente de pressão psicológica e, em alguns casos, coerção direta.

O Modelo das Cédulas: Sim ou… Sim?

Um dos elementos mais citados nas denúncias históricas é o formato das cédulas:

  • A cédula do SIM era decorada, colorida, com símbolos do novo Reino da Itália, incentivando seu uso.

  • A cédula do NÃO era simples, pequena e sem símbolo estatal, o que tornava evidente para qualquer observador quem votava contra a anexação.

Votar “não” significava se expor publicamente — algo arriscado em um ambiente militarizado.

A Prática Eleitoral: Urnas sem Controle e Fraude Estrutural

Diversos relatos da época, além de documentos analisados posteriormente, apontam irregularidades estruturais:

  • Mesários nomeados pelo governo italiano, não escolhidos localmente.

  • Falta de verificação de identidade, permitindo votos repetidos.

  • Urnas não lacradas e transportadas sem fiscalização.

  • Apressamento artificial da votação para evitar qualquer contestação.

Em algumas cidades, como relatado em crônicas da época, os mesários simplesmente “assinalavam o SIM” para os analfabetos — que eram maioria.

Resultados Improváveis

Oficialmente, o resultado final foi:

  • SIM: 646.789

  • NÃO: 69

Esse placar é considerado estatisticamente impossível por historiadores independentes. Para efeito comparativo:

  • Em 1866, o Vêneto possuía forte presença rural tradicionalista.

  • Grande parte da população era fiel ao imperador Francisco José e temia impostos italianos mais altos.

  • Havia aversão às guerras italianas que devastavam o território desde 1848.

Ainda assim, o resultado teria sido praticamente unânime — um cenário incompatível com a realidade social e política conhecida.

Por que o plebiscito foi considerado uma fraude?

A soma dos fatores demonstra por que muitos estudiosos afirmam que o referendo foi um ato político encenado, não um processo democrático:

1. O território já estava cedido antes da votação.

A opinião do povo não mudava nada.

2. Voto público e não secreto.

Denúncia clara de intimidação.

3. Supervisão militar italiana.

Qualquer oposição era vista como deslealdade.

4. Mesários nomeados pelo governo pró-unificação.

Impossível neutralidade.

5. Cédulas direcionadas (propaganda dentro do voto).

6. Resultados estatisticamente irreais.

7. Testemunhos contemporâneos que acusam irregularidades.

Consequências para o Povo Vêneto

Depois do plebiscito, o Vêneto sofreu mudanças profundas:

  • Aumento de impostos italianos, muito mais altos que os austríacos.

  • Recrutamento militar obrigatório, que levou jovens venetos para guerras que não eram suas.

  • Crise agrária, pois a Itália impôs tarifas que prejudicaram os camponeses.

  • Explosão migratória: entre 1875 e 1900, centenas de milhares de venetos emigraram para Brasil, Argentina e outros países.

O plebiscito, em vez de representar um novo começo, marcou o início de décadas de empobrecimento e perda de autonomia regional.

Conclusão 

O plebiscito de 1866 no Vêneto é um dos capítulos mais polêmicos da unificação italiana. Longe de ser uma consulta livre e democrática, o processo funcionou como uma formalidade para legitimar uma decisão diplomática pré-acordada entre potências europeias. Seus efeitos foram profundos: perda de autonomia, crise econômica e a maior onda migratória da história vêneta. Por tudo isso os venetos de hoje — e todos os descendentes espalhados pelo mundo — deveriam buscar compreender com maior profundidade o que realmente ocorreu no plebiscito de 1866 e quais foram suas consequências sociais, políticas e culturais. Trata-se de um capítulo decisivo da história regional, frequentemente reduzido a poucas linhas nos livros escolares, mas que marcou de forma permanente o destino do Vêneto. Entender esse episódio não é apenas revisitar um fato antigo: é recuperar a memória de um povo que, muitas vezes sem voz, teve seu futuro decidido por acordos internacionais, pressões militares e uma consulta popular cuja legitimidade permanece amplamente contestada. Ao aprofundar esse conhecimento, os venetos podem reencontrar suas raízes, compreender as razões da grande diáspora que espalhou suas famílias pelo Brasil, Argentina e outros países, e reconhecer a complexidade das forças históricas que moldaram sua identidade. Conhecer essa história é, antes de tudo, um exercício de dignidade cultural.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 20 de outubro de 2025

O Risorgimento: como nasceu a Itália moderna e o que isso tem a ver com o êxodo dos nossos nonos

 


O Risorgimento: como nasceu a Itália moderna e o que isso tem a ver com o êxodo dos nossos nonos

Entre 1815 e 1870, a península italiana viveu uma das transformações mais profundas de sua história: o Risorgimento — o movimento político, social e cultural que unificou a Itália após séculos de fragmentação e dominação estrangeira. Foi um processo marcado por guerras, ideais, diplomacia e contradições que, ao mesmo tempo que criaram um novo Estado, também lançaram as bases para a grande emigração italiana, que levaria milhões de pessoas ao Brasil, à Argentina e a tantos outros destinos.


A Itália antes da unificação

Após a derrota de Napoleão e o Congresso de Viena (1815), a península foi repartida entre potências estrangeiras e famílias dinásticas. O norte estava sob o domínio austríaco; o centro, sob o poder do Papa; e o sul, controlado pelos Bourbons no Reino das Duas Sicílias. O único território independente era o Reino da Sardenha-Piemonte, governado pela dinastia dos Saboia — e seria a partir dele que nasceria a Itália moderna.


Ideias de liberdade e os primeiros levantes

Inspirados pela Revolução Francesa e pelos ideais de independência, surgiram as sociedades secretas, como os Carbonari, que organizaram revoltas entre 1820 e 1848. Nenhuma teve sucesso, mas plantaram a semente da unidade.

O patriota Giuseppe Mazzini, criador do movimento Giovine Italia (Jovem Itália), sonhava com uma república democrática e popular. Embora derrotado, Mazzini transformou o ideal da unificação em um projeto moral e nacional, que inspirou milhares de jovens em toda a península.


Cavour e a diplomacia do Piemonte

Enquanto Mazzini pregava a revolução, Camillo Benso, conde de Cavour, primeiro-ministro do Piemonte, optou pela diplomacia e pela modernização. Liberal e pragmático, acreditava que apenas uma monarquia constitucional fortepoderia unificar a Itália.

Cavour fortaleceu o exército, investiu em ferrovias e firmou uma aliança secreta com Napoleão III, imperador da França, para combater a Áustria. A vitória franco-piemontesa na Segunda Guerra da Independência (1859) garantiu a anexação da Lombardia e abriu caminho para novas adesões.


Garibaldi e a Expedição dos Mil

Em 1860, o carismático general Giuseppe Garibaldi liderou a famosa Expedição dos Mil (I Mille), partindo de Gênova rumo à Sicília. Em poucos meses, conquistou o Reino das Duas Sicílias e entregou suas vitórias ao rei Vítor Emanuel II, em nome da unificação.

Em 17 de março de 1861, nascia oficialmente o Reino da Itália, com capital em Turim. Era o triunfo da Casa de Saboia e o início de uma nova era.


Roma, Veneza e o fim da fragmentação

A unificação prosseguiu. Em 1866, durante a guerra austro-prussiana, o Vêneto foi incorporado ao Reino da Itália. Quatro anos depois, com a retirada das tropas francesas que protegiam o papa Pio IX, as forças italianas entraram em Roma, encerrando o poder temporal do papado.

Em 20 de setembro de 1870, Roma foi proclamada capital da Itália, completando a unificação territorial.


Um país unido, mas desigual

A Itália unificada nasceu com enormes desafios. O novo Estado era centralizado, burocrático e dominado pela elite do norte, deixando o sul agrário em situação de miséria e abandono.

“questão meridional” (questione meridionale) tornou-se a grande ferida do país. Revoltas camponesas, como o brigantaggio, foram duramente reprimidas. Para muitos italianos pobres, a “nova Itália” parecia mais distante do que nunca.


Epílogo: do sonho da unificação ao sonho da emigração

A unificação trouxe liberdade política, mas não justiça social. O aumento de impostos, o serviço militar obrigatório e a falta de trabalho empurraram milhões de italianos para fora de sua terra natal.

Entre 1870 e 1915, cerca de 14 milhões de italianos emigraram, sobretudo para as Américas, incluindo Brasil, Argentina e Estados Unidos. O Risorgimento, que havia prometido um renascimento nacional, acabou sendo também o ponto de partida do grande êxodo italiano — aquele que levaria os nossos nonos a cruzar o oceano em busca de um futuro digno.

Como observou o estadista Massimo D’Azeglio:

“Fizemos a Itália; agora precisamos fazer os italianos.”



sexta-feira, 18 de agosto de 2023

O Risorgimento: Um Período de Transformação na História da Itália



O Risorgimento foi um período de intensa agitação política e social que ocorreu na Itália entre o final do século XVIII e o final do século XIX. O Risorgimento, que significa "ressurgimento" ou "renascimento", foi um movimento político e social que visava unificar a Itália como um estado-nação. Este movimento revolucionário se estendeu até a unificação da Itália em 1861. Durante este período, muitas guerras de libertação ocorreram em toda a Itália, incluindo na região do Veneto, com o objetivo de unir o país e acabar com a dominação estrangeira.
Antes do Risorgimento, a Itália era um conjunto de estados independentes, muitos dos quais eram governados por monarquias estrangeiras. A região do Veneto, em particular, era governada pela Áustria, que havia conquistado e invadido militarmente a área durante as Guerras Napoleônicas.
Em 1848, ocorreu uma revolta no Veneto liderada por Daniele Manin, um advogado e político veneziano. Manin fundou uma república independente em Veneza, que durou apenas um curto período de tempo antes de ser invadida pelas forças austríacas. Apesar do fracasso da revolta, a luta pela libertação do Veneto continuou.

Entre os episódios mais importantes que ocorreram durante o Risorgimento, podemos citar: 
  • A Revolução de 1848: Uma série de revoltas que ocorreram em diversos países europeus, incluindo a Itália. Na Itália, a revolução foi liderada pelos nacionalistas italianos e teve como objetivo a unificação do país. Embora tenha sido em grande parte mal-sucedida, a revolução teve um papel importante em inspirar o movimento do Risorgimento. 
  • A Guerra da Independência: Uma guerra entre o Reino da Sardenha e a Áustria que ocorreu em 1859 e que foi apoiada por outros estados italianos. A guerra resultou na conquista de diversos territórios pelos italianos e fortaleceu o movimento do Risorgimento. 
  • A Expedição dos Mil: Liderada por Giuseppe Garibaldi em 1860, a expedição foi uma campanha militar que teve como objetivo conquistar o Reino das Duas Sicílias e unificar a Itália. Garibaldi e seus homens a soldo da piemontesa Casa Savoia, de Turim conseguiram com a força das armas conquistar a região, que foi anexada ao Reino da Sardenha.

Em 1859, ocorreu a Guerra da Segunda Independência Italiana, na qual a França e o Piemonte-Sardenha se uniram para lutar contra a Áustria. As tropas francesas e piemontesas conseguiram derrotar as forças austríacas e conquistar grande parte do norte da Itália, incluindo o Veneto.
No entanto, a Áustria não desistiu facilmente e, em 1866, ocorreu a Guerra Austro-Prussiana. A Prússia se uniu ao Piemonte-Sardenha para lutar contra a Áustria e, mais uma vez, a região do Veneto foi palco de intensos combates. No final da guerra, a Áustria foi forçada a ceder o Veneto ao Piemonte-Sardenha.
A conquista do Veneto pelo Piemonte-Sardenha foi um passo importante para a unificação da Itália, que foi finalmente alcançada em 1870. Durante este período, líderes políticos como Giuseppe Garibaldi e Camillo Benso di Cavour desempenharam papéis importantes na luta pela independência italiana.

Como consequência do Risorgimento, a Itália foi finalmente unificada como um estado-nação em 1861, com a cidade de Turim como sua capital. Se a unificação por um lado trouxe   alguns benefícios para certas regiões do país, por outro lado, também criou uma grande inflação, fuga do campo, falta de trabalho nas cidades, constituindo-se em uma importante causa que levou milhões de italianos a abandonarem o país.  A unificação também trouxe enormes desafios, como a necessidade de integrar culturas e línguas diferentes e a dificuldade de consolidar um governo forte e unificado. A partir de então tinha sido criado o reino d'Italia que também estava unido e formando um só país, agora seria necessário criar os italianos.

As "Pasque Veronesi" foi um importante evento durante o período do Risorgimento na Itália. Elas ocorreram em 1848 na cidade de Verona, no nordeste da Itália. Elas foram uma série de revoltas populares que ocorreram em resposta à opressão do governo austríaco, que controlava a região na época. A revolta foi liderada por nacionalistas italianos e teve como objetivo a unificação da Itália e a expulsão dos austríacos do país. Durante as Pasque Veronesi, a população de Verona se levantou contra as autoridades austríacas e proclamou a República de Verona. No entanto, a revolta foi rapidamente reprimida pelas forças austríacas, e muitos dos líderes e participantes da revolta foram presos ou executados. Embora as Pasque Veronesi tenham sido um fracasso em termos de alcançar seus objetivos imediatos, elas foram um importante momento de resistência na luta pela unificação italiana. A revolta inspirou outros movimentos nacionalistas na Itália e mostrou a determinação do povo italiano em lutar pela sua liberdade e independência.

As guerras de libertação italiana no Veneto foram lideradas por figuras como Daniele Manin e ocorreram como parte do movimento mais amplo pelo Risorgimento e a unificação italiana. A região do Veneto foi palco de intensos combates durante as Guerras da Segunda Independência Italiana e Austro-Prussiana, culminando na conquista do Veneto pelo Piemonte-Sardenha em 1866. 

Uma das regiões que mais sofreu durante as guerras de independência foi o norte da Itália, que estava sob o domínio da Áustria. A região foi palco de várias batalhas sangrentas, como a batalha de Solferino em 1859, que resultou em milhares de mortes e feridos. No entanto, a região também foi uma das mais beneficiadas com a unificação italiana, já que se tornou uma das regiões mais prósperas e desenvolvidas do país. 

Outra região que foi afetada pelas guerras de independência foi o sul da Itália, que estava sob o domínio dos Bourbon de Nápoles. A região foi palco da Expedição dos Mil em 1860, liderada por Giuseppe Garibaldi, que ajudou a expulsar os Bourbon e unificar a Itália. No entanto, a região também enfrentou desafios significativos após a unificação, como a pobreza, o analfabetismo e a falta de infraestrutura.

Após a conquista do Veneto pelo Piemonte-Sardenha em 1866, a região passou por um período de reconstrução e integração com o resto da Itália. Houve um forte impulso para modernizar a economia do Veneto, que tinha sido prejudicada pela dominação austro-húngara.
A região também se tornou um importante centro cultural e artístico, com o surgimento de movimentos artísticos como o Futurismo e o Art Nouveau. Cidades como Veneza, Verona e Pádua se tornaram destinos turísticos populares, atraindo visitantes de todo o mundo.

No entanto, a unificação italiana não foi um processo fácil, e a região do Veneto não ficou imune às tensões políticas e sociais que acompanharam esse processo. Em particular, a questão do irredentismo - a luta pela unificação de territórios italianos que ainda estavam sob o domínio estrangeiro - continuou a ser uma fonte de tensão no Veneto e em outras regiões da Itália.
Durante a Primeira Guerra Mundial, o Veneto voltou a ser palco de intensos combates, com a Áustria-Hungria lutando contra as forças italianas pelos territórios fronteiriços. Após a guerra, o Veneto foi oficialmente incorporado à Itália como parte do Tratado de Versalhes, encerrando de vez a era da dominação estrangeira na região.
No período pós-guerra, o Veneto se tornou um importante centro industrial e comercial, com cidades como Veneza, Verona e Pádua se tornando importantes centros de manufatura e comércio. A região também é famosa por sua produção de vinho, incluindo o Prosecco e o Valpolicella, que são exportados para todo o mundo.

Hoje, o Veneto é uma das regiões mais prósperas e dinâmicas da Itália, com uma rica herança cultural e histórica que continua a atrair visitantes de todo o mundo. A região é conhecida por suas belas paisagens, sua rica tradição gastronômica e seu patrimônio artístico e arquitetônico, que inclui obras de artistas famosos como Tintoretto, Tiziano. Piazzetta, Canova e Palladio.
A história do Veneto está intimamente ligada à história da unificação italiana e à luta pela libertação da dominação estrangeira. Desde a época das Guerras de Libertação Italiana até os dias atuais, a região tem sido palco de muitos conflitos e desafios, mas também de muitas conquistas e realizações.