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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Sob o Sol de Santa Fé e a Vida dos Irmãos Borteline

 

Sob o Sol de Santa Fé e a Vida dos Irmãos Borteline

A Partida

A aldeia de Casette Antonelli, em Potenza Picena, onde Domenico e Giacomo Borteline nasceram era bem pequena, perdida entre vales estreitos e campos ressequidos do sul da Itália. As casas pequenas e mal conservadas se amontoavam em desalinho ao redor da igreja, e a terra, dividida entre muitas famílias, era agora uma colcha de retalhos que já não bastava para cada família viver. O trigo mal crescia, o milho secava nos verões inclementes e os vinhedos produziam apenas o suficiente para encher alguns poucos barris de vinho e as oliveiras, orgulho local, que sempre foram a principal fonte de recursos e sustento da região passavam por uma época de baixa produtividade que os mais velhos imputavam aa mudanças do clima.

A vida era marcada pela escassez. Quando o inverno se prolongava, faltava até pão. As mães estendiam caldos de legumes até o limite, enquanto os homens sonhavam com horizontes mais amplos. As cartas que chegavam da América falavam de campos imensos, terras férteis e oportunidades para quem tivesse coragem. Foi nesse cenário desolador de penúria e falta de esperança que os irmãos decidiram partir. Não havia mais futuro na aldeia. Venderam os poucos pertences que possuíam, despediram-se entre lágrimas e seguiram rumo ao porto de Napoli. Ali embarcaram em um navio que vinha de Genova, carregando centenas de famílias como a deles, todos com o mesmo destino: a Argentina.

A Travessia

O navio Città di Genova era um mundo de ferro e madeira, abarrotado de homens, mulheres e crianças. O espaço nos porões era mínimo, o ar rarefeito e pesado. Muitos adoeciam pelo confinamento e má alimentação, alguns não resistiam. O mar castigava sem piedade, e as ondas faziam balançar o casco como se fosse um brinquedo frágil.

Domenico e Giacomo suportaram como puderam. Passaram semanas alimentando-se de pão endurecido e sopa rala. O cheiro de sal, suor e febre impregnava tudo. Ainda assim, entre a dor e o cansaço, havia a chama da esperança. Cada amanhecer era um passo a mais em direção a um novo mundo.

Quando finalmente avistaram a costa da América, sentiram-se renascidos. O horizonte plano parecia prometer um futuro diferente.

A Chegada a Rosário de Santa Fé

Rosário era uma cidade em crescimento, movimentada por carroças rangendo sobre o paralelepípedo irregular, mercadores gritando preços em espanhol rápido e imigrantes que se amontoavam em busca de trabalho e orientação. Os navios que chegavam traziam continuamente novas levas de famílias desesperadas, e a cada desembarque as ruas se enchiam de vozes estrangeiras, sons misturados de dialetos italianos, línguas do leste europeu e até mesmo alemão. Havia uma sensação de movimento incessante, como se todos corressem atrás de um destino que nunca se deixava alcançar.

Os irmãos Borteline foram encaminhados às colônias agrícolas de Santa Fé, onde lhes disseram que poderiam arrendar terras. O solo parecia fértil, estendendo-se até perder de vista, uma planície infinita que impressionava quem vinha de aldeias encravadas entre colinas estreitas. O horizonte parecia uma promessa de abundância, e por um instante os dois acreditaram que finalmente haviam encontrado o lugar onde poderiam recomeçar.

Mas logo compreenderam a armadilha: o preço do arrendamento era alto demais, sufocante, pensado para manter o colono sempre dependente. Dividiam as parcelas com outros compatriotas para suavizar a carga, mas ao final da colheita restava pouco além do que comer. O que sobrava mal cobria as necessidades mais básicas — farinha para o pão, sal para conservar algum pedaço de carne, lenha para suportar o frio das noites de inverno.

As dívidas cresciam como sombra permanente, pesando sobre cada decisão, cada gesto, cada semente lançada ao chão. E como se isso não bastasse, as raras máquinas agrícolas, caras e frágeis, quebravam a cada safra. Um arado que se partia, uma engrenagem que se corroía, um eixo que cedia no meio do trabalho — tudo significava uma nova conta a pagar, um novo contrato de reparo, uma nova dívida. O conserto custava mais do que podiam suportar, e cada reparação parecia empurrá-los ainda mais fundo num poço sem saída.

Quando conseguiam levantar os olhos do chão, viam apenas a figura distante dos patrões, homens que passavam a cavalo vigiando as terras de longe, indiferentes ao sofrimento dos colonos. Para eles, os imigrantes eram apenas braços a mais para trabalhar, peças substituíveis numa engrenagem de produção. Não havia compaixão nem reconhecimento, apenas a frieza de quem calculava lucros e perdas, como se vidas humanas fossem números em um livro de contas.

A cada dia que passava, os irmãos compreendiam melhor que a terra que lhes prometeram como esperança havia se transformado em prisão. E mesmo assim, era nessa terra hostil que teriam de lançar raízes, porque não havia retorno possível.

O Peso da Solidão

As famílias italianas, que haviam partido juntas, estavam agora espalhadas pelas planícies. Uns em Rosário, outros em povoados mais distantes. O que antes era proximidade tornou-se dispersão. As vozes que se misturavam na aldeia natal, os rostos conhecidos que dividiam o pão e a esperança durante a travessia, haviam desaparecido na vastidão da terra argentina. Cada família seguia seu próprio destino, separada por léguas de campo, e a ausência dos vizinhos de outrora pesava como um silêncio opressor.

Domenico e Giacomo, acostumados ao convívio da aldeia natal, sentiram na pele a solidão do pampa. Lá, nas colinas de Marche, bastava abrir a porta para encontrar o olhar de um parente ou de um vizinho, ouvir o mugido das vacas no curral ao lado, ou o riso das crianças correndo pela rua de pedra. Ali, em Santa Fé, não havia nada além de horizonte vazio. O silêncio das noites era cortado apenas pelo vento, e esse vento parecia carregar consigo a lembrança daquilo que haviam perdido. Às vezes, deitados em seus catres improvisados, tinham a sensação de que o próprio ar pesava com a distância.

As lembranças da Itália se tornavam mais dolorosas justamente porque eram vivas demais. Cada detalhe surgia com nitidez cruel: o cheiro das uvas esmagadas no lagar, o canto longínquo dos sinos chamando para a missa ao entardecer, o verde das colinas que parecia ondular sob a luz dourada do verão. Eram imagens que ardiam como feridas abertas, pois sabiam que talvez nunca mais as veriam de perto.

As cartas que recebiam — muito raras e incertas — eram como bálsamos em meio à aridez. A chegada de uma carta era um acontecimento que transformava o dia inteiro: mãos trêmulas rasgavam o papel, olhos famintos percorriam cada linha. As palavras escritas à pressa por um pai idoso, por uma irmã distante ou por um amigo de infância, eram como água fresca em garganta ressecada. Mas também traziam dor, pois lembravam que um pedaço deles permanecera preso à aldeia, e que a distância, imensa e quase intransponível, os condenava a viver em dois mundos ao mesmo tempo.

Recordavam os vinhedos de casa, as colinas verdes repletas de oliveiras, o som dos sinos no entardecer. A saudade se misturava ao cansaço dos dias e à dureza da terra que exigia sempre mais. E era nesse cruzamento de lembrança e exaustão que compreendiam sua verdadeira condição: estrangeiros no presente, órfãos do passado, eternamente suspensos entre aquilo que deixaram e aquilo que ainda não haviam alcançado.

O Ciclo das Colheitas

O trigo era a esperança e o tormento dos colonos. Quando crescia dourado e viçoso, o campo parecia anunciar tempos melhores. Mas bastava uma praga, uma geada repentina ou uma estiagem prolongada para que todo esforço se perdesse.

Os irmãos Borteline trabalharam anos sem ver o fruto do próprio suor. Três anos seguidos de colheitas frustradas deixaram-nos apenas dívidas. A mesa oferecia pão escasso, caldo frugal e às vezes um pedaço de carne salgada. As mulheres costuravam roupas com tecidos gastos, e as crianças corriam descalças pelo campo.

Ainda assim, o trabalho não parava. A vida era uma sucessão de amanheceres e noites, sempre iguais, sempre pesados. A cada madrugada, Domenico e Giacomo levantavam-se antes do sol, o corpo cansado e a alma abatida, mas ainda agarrados à esperança teimosa de que o próximo ano seria diferente. A esperança era tudo o que lhes restava — e, paradoxalmente, era também o que mais pesava, porque a cada safra perdida o sonho parecia mais distante.

Quando caminhavam pelos campos ressequidos, viam no trigo murcho não apenas a falência da terra, mas também a ameaça de perder o pouco que construíam. O coração apertava-se diante dos filhos famintos, dos olhares das esposas tentando esconder a angústia para não desanimar os homens. Era um silêncio duro, pesado como chumbo, no qual até as crianças, por vezes, deixavam de brincar.

O trigo, que na Itália evocava fartura e festa nas colheitas, havia se transformado em símbolo de castigo. Cada espiga que murchava era como uma ferida aberta. Mas mesmo na dor, a memória dos campos da aldeia natal surgia como alento: recordavam as ceifas animadas, o cheiro do pão fresco saindo do forno comunitário, o riso dos vizinhos ajudando uns aos outros. Agora, no pampa sem fronteiras, cada família estava sozinha diante de sua luta, e a solidariedade rareava, sufocada pela pobreza.

Os Borteline aprenderam a conviver com a espera. Esperar pela chuva, esperar pela colheita, esperar pelo alívio que nunca vinha. O tempo parecia um círculo fechado, no qual a esperança se confundia com o sofrimento — e a vida seguia, dura, inquebrantável como a própria terra.

As Cartas à Itália

Em meio às dificuldades, os irmãos escreviam cartas aos parentes que haviam ficado na aldeia natal. Nessas páginas derramavam sua dor e suplicavam que não acreditassem nas promessas fáceis de emigração. Contavam da solidão, das dívidas, do preço do arrendamento, das máquinas quebradas. Advertiam que a América não era paraíso, mas terra de sacrifícios. Rogavam que, se alguém ainda pensasse em atravessar o oceano, viesse preparado para uma vida de labuta sem fim. As cartas eram também uma forma de resistir. Ao escrever, sentiam-se menos esquecidos, menos perdidos na imensidão do pampa. Cada palavra era um fio que ainda os ligava à terra de origem, como se ao grafar o nome de sua aldeia conseguissem ouvir o eco dos sinos na praça ou sentir o cheiro do pão assando no forno comunitário. Havia noites em que, à luz fraca da lamparina, Domenico e Giacomo se sentavam lado a lado para rascunhar suas linhas em papéis amarelados, muitas vezes comprados a custo. A pena arranhava o papel devagar, e as palavras saíam carregadas de lágrimas contidas. Não escreviam apenas para informar, mas para clamar: não venham iludidos, não se deixem seduzir pelos agentes que falam de terras fartas e promessas fáceis. A América exige sangue e suor, e dela pouco se recebe em troca. As cartas demoravam meses para chegar, quando chegavam. Às vezes, nunca havia resposta, e a espera tornava-se tortura. Ainda assim, insistiam em escrever. Era como se, naquele gesto, reencontrassem um pedaço de si mesmos. O simples ato de pôr no papel suas dores dava-lhes a sensação de que não estavam totalmente sós. E, no fundo, cada carta também continha um traço de esperança escondida: a de que, um dia, pudessem voltar para a aldeia natal, ou que ao menos sua voz, ainda que distante, fosse ouvida e lembrada.

O Legado

Os anos se sucederam, e os irmãos Borteline envelheceram sob o sol ardente de Santa Fé. Nunca conseguiram comprar terras próprias. Permaneceram presos ao ciclo do arrendamento, vivendo entre dívidas e esperanças. Mas deixaram uma herança invisível. Seus filhos cresceram aprendendo a trabalhar, a resistir, a não se curvar. O que transmitiram não foi riqueza material, mas a dignidade de quem enfrentou a adversidade sem jamais desistir. Sob o céu aberto da Argentina, a vida dos Borteline se confundiu com o pó da terra, com as sementes espalhadas ao vento, com as lágrimas que nunca deixaram de cair. Sua história não foi de abundância, mas de luta. E é nessa luta que repousa a grandeza silenciosa de toda uma geração de emigrantes italianos.

Os cabelos de Domenico embranqueceram cedo, queimados pelo sol e pelo peso dos dias. Ele partiu primeiro, numa tarde quente, depois de uma vida inteira inclinada sobre o arado. Não deixou posses, mas a memória de um homem que jamais abandonou os seus, que resistiu até o último fôlego. Giacomo sobreviveu ao irmão alguns anos, arrastando o corpo cansado pelos mesmos campos que nunca lhe pertenceram. Morreu simples e silencioso, como vivera, deixando atrás de si apenas a marca invisível de quem suportou sem reclamar. Suas sepulturas ficaram em um pequeno cemitério de colônia, entre cruzes de madeira carcomidas pelo tempo. Nenhum monumento se ergueu sobre seus nomes. Mas os descendentes guardaram suas histórias em sussurros e lembranças, como quem segura um fio precioso que não pode se perder.

A geração seguinte já falava castelhano misturado ao dialeto dos avós, frequentava escolas improvisadas e sonhava com horizontes maiores. Alguns deixaram os campos e migraram para as cidades, tornaram-se comerciantes, operários, professores. Outros permaneceram na terra, repetindo o gesto ancestral de semear e colher, mas sempre carregando no coração a lembrança dos que haviam aberto o caminho. Assim, mesmo sem deixar fortunas, Domenico e Giacomo Borteline tornaram-se raízes. Suas vidas, sofridas e silenciosas, sustentaram o tronco e os galhos que vieram depois. Foram homens comuns, mas sua grandeza residia justamente nisso: no esforço contínuo, na capacidade de resistir, no legado de coragem que se transmitiu de geração em geração.

E assim como tantas famílias de emigrantes italianos, os Borteline se tornaram parte inseparável da própria Argentina. Misturaram-se à poeira das estradas, ao trigo dourado do pampa, às canções que embalavam as noites solitárias. Sua história, embora marcada pela dureza, transformou-se em testemunho de perseverança — um testemunho silencioso, mas eterno. 

Nota do Autor

Esta narrativa nasceu da leitura de antigas cartas de emigrantes italianos, documentos carregados de emoção e de verdade. Foram testemunhos escritos há mais de um século, em que homens e mulheres comuns derramaram no papel suas esperanças, seus temores e as dores da vida em terras distantes. Entre as linhas amareladas pelo tempo, encontrei o retrato de uma geração que deixou suas aldeias na Itália, atravessou o oceano e enfrentou a solidão do pampa argentino com uma coragem silenciosa. Os personagens aqui descritos têm nomes alterados. Tomei essa liberdade por respeito aos descendentes que ainda hoje carregam a memória de seus antepassados. Mais do que contar a vida de uma família em particular, busquei dar voz a todos aqueles que compartilharam a mesma experiência — os milhares de emigrantes que, com sacrifício pessoal imenso, ajudaram a erguer a Argentina moderna.

Esta é, portanto, uma homenagem. Não a homens célebres, mas aos anônimos que semearam com suas mãos calejadas o trigo do pampa, que suportaram dívidas e perdas, que criaram filhos entre a dureza e a esperança. Foram eles que, mesmo sem deixar monumentos ou riquezas, construíram as bases humanas, culturais e sociais de um país inteiro. Que ao recordar a história dos irmãos Borteline, recordemos também a grandeza silenciosa de toda uma geração de emigrantes italianos. Eles não vieram em busca de glória, mas de sobrevivência; e ao lutar pela vida, acabaram por deixar à Argentina a herança mais preciosa: sua força, sua dignidade e sua perseverança. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta