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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

As Mulheres que Também Atravessaram o Oceano: Mulheres na Imigração Italiana


As Mulheres que Também Atravessaram o Oceano: Mulheres na Imigração Italiana

“Elas não foram apenas acompanhantes na viagem da família. As mulheres italianas também atravessaram o oceano e ajudaram a transformar a imigração em uma nova história de vida.”

Quando se fala na grande imigração italiana entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, é comum imaginar um homem sozinho, carregando uma pequena mala, deixando para trás sua aldeia e embarcando em um navio rumo a um país desconhecido. Essa imagem não está errada, mas é incompleta. Por muito tempo, a história da imigração foi contada principalmente através dos homens. Entretanto, ao lado deles existiam mulheres que partiram, mulheres que ficaram e mulheres que, mesmo sem cruzar imediatamente o oceano, tiveram participação decisiva na construção do futuro de suas famílias.
A emigração italiana não foi igual em todos os períodos nem aconteceu da mesma maneira para todos os destinos. Em determinadas correntes migratórias, principalmente nas primeiras fases, predominavam os homens. Muitos viajavam sozinhos porque pretendiam trabalhar durante algum tempo, juntar dinheiro e depois retornar à Itália. Eram trabalhadores rurais, pedreiros, mineiros, operários e trabalhadores sazonais que circulavam entre diferentes países em busca de oportunidades.
Mas nem sempre o retorno acontecia. Em muitos casos, aquilo que começava como uma viagem temporária acabava transformando-se em uma mudança definitiva. O marido que havia partido sozinho passava a enviar dinheiro para casa. Depois vinha uma carta. Mais tarde, talvez uma fotografia. E finalmente surgia a possibilidade de que a esposa e os filhos também viajassem.
Era nesse momento que a história da imigração começava a mudar de natureza. Já não se tratava apenas de um homem procurando trabalho longe de casa. Era uma família procurando construir uma nova vida.

As mulheres que ficaram na Itália

Antes de falar das mulheres que atravessaram o Atlântico, é preciso lembrar aquelas que permaneceram na Itália enquanto os homens partiam.
A ausência de um marido, pai ou filho alterava profundamente a rotina familiar. A casa continuava funcionando, os filhos precisavam ser cuidados e, nas famílias camponesas, a terra não podia simplesmente ser abandonada.
A mulher que permanecia na aldeia podia assumir responsabilidades que antes eram compartilhadas com o marido. A administração da casa, o cuidado com os filhos e parte das tarefas relacionadas à propriedade passavam a depender ainda mais dela.
Havia também uma questão fundamental: o dinheiro enviado pelo emigrante.
As remessas tinham enorme importância para muitas famílias. O dinheiro recebido do exterior podia ajudar na compra de alimentos, no pagamento de dívidas, na melhoria da casa ou na aquisição de terras. Em determinados casos, permitia à família elevar gradualmente suas condições materiais.
Assim, a mulher que recebia e administrava esse dinheiro não era simplesmente alguém esperando pelo marido. Ela participava diretamente da estratégia econômica familiar.
As relações com os correios, bancos, agentes de remessas e repartições públicas também podiam colocar essas mulheres em contato com instituições que anteriormente faziam pouco parte de sua vida cotidiana.
Isso não significa que a imigração tenha produzido automaticamente a emancipação feminina. A sociedade italiana daquele período continuava marcada por profundas desigualdades entre homens e mulheres. Mas a ausência masculina podia ampliar, na prática, as responsabilidades e o poder de decisão de algumas mulheres.
Enquanto o marido estava longe, a vida precisava continuar. E muitas vezes era a mulher quem fazia essa vida continuar.

Quando chegava a hora de partir

Para algumas famílias, a separação durava meses ou anos. Para outras, chegava o momento do reencontro.
Mulheres viajavam para encontrar maridos que já estavam estabelecidos no exterior. Outras partiam acompanhadas dos filhos. Algumas viajavam com parentes ou integravam grupos familiares maiores.
A viagem feminina tinha dificuldades próprias. Não era apenas uma mudança de endereço. Significava abandonar uma comunidade conhecida, deixar parentes, amigos, costumes e uma paisagem que fazia parte da própria identidade.
No Brasil, milhares de mulheres italianas fizeram essa travessia. Muitas chegaram acompanhadas de maridos e filhos; outras vieram posteriormente, quando o processo de instalação da família já estava mais avançado.
Ao desembarcarem, encontravam uma realidade muito diferente daquela que conheciam. Mesmo quando a família se dirigia para uma colônia agrícola formada por italianos, era necessário adaptar-se ao clima, à alimentação, à língua, ao trabalho e às condições locais.
Em regiões de colonização italiana no Sul do Brasil, como partes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, as mulheres participaram intensamente da formação das comunidades. O trabalho familiar nas propriedades rurais dependia da participação de todos.
A imigração, nesses lugares, não foi apenas uma aventura individual. Foi uma experiência coletiva de construção.

O trabalho das imigrantes

A imagem da mulher italiana exclusivamente dentro de casa também não explica toda a realidade.
Nas famílias de agricultores, o trabalho feminino era fundamental. As mulheres participavam de atividades agrícolas, cuidavam de animais, preparavam alimentos, preservavam produtos, cuidavam da horta e realizavam inúmeras tarefas indispensáveis à sobrevivência da família.
Em áreas urbanas, muitas encontraram outras formas de trabalho. Algumas atuaram no serviço doméstico, em pequenas atividades comerciais, na produção de alimentos ou em trabalhos realizados dentro da própria residência. Outras ingressaram no trabalho industrial.
Nos países que receberam grandes contingentes de italianos, inclusive o Brasil e os Estados Unidos, mulheres imigrantes participaram de diferentes setores da economia. As oportunidades e condições variavam conforme a região, o período e a origem social de cada família.
O trabalho feminino também podia permanecer invisível porque era realizado dentro da própria casa. Uma mulher que costurava, produzia alimentos para vender, recebia hóspedes ou ajudava na pequena atividade comercial da família podia contribuir significativamente para a renda doméstica sem aparecer nas estatísticas do trabalho industrial.
E havia ainda outra característica: muitas mulheres acumulavam atividades.
Trabalhavam durante o dia e continuavam trabalhando em casa. Cuidavam dos filhos, preparavam as refeições, organizavam a casa e ajudavam o marido nas atividades econômicas da família.
A imigração não eliminou as antigas responsabilidades femininas. Em muitos casos, simplesmente acrescentou novas responsabilidades a elas.

A vida nas cidades e as dificuldades do trabalho industrial

Nos grandes centros urbanos, especialmente onde a industrialização atraía mão de obra estrangeira, a experiência podia ser bastante diferente daquela vivida nas colônias agrícolas.
Mulheres imigrantes trabalharam em fábricas, especialmente em setores como o têxtil e o de confecções. As condições de trabalho do período eram frequentemente duras, e a legislação trabalhista ainda era muito limitada em comparação com os padrões atuais.
Jornadas longas, baixos salários e ambientes pouco seguros faziam parte da realidade de muitos trabalhadores, homens e mulheres.
As jovens estavam entre as pessoas mais vulneráveis. A pouca idade, a pobreza, a dificuldade com o idioma e a falta de conhecimento sobre os direitos existentes podiam aumentar a exposição a abusos.
Também existem registros históricos de exploração sexual e tráfico de mulheres envolvendo imigrantes europeias, inclusive italianas, em diferentes países durante aquele período. Esses casos foram graves e reais, mas não devem ser usados para representar toda a experiência da imigração feminina italiana. A maioria das mulheres italianas que migrou viveu histórias muito diferentes: trabalhou, criou filhos, formou famílias e participou da construção de comunidades.
A história precisa registrar as situações de exploração sem transformar exceções dramáticas em retrato de milhões de vidas.

Mães entre duas culturas

Talvez seja dentro da família que encontramos uma das contribuições mais profundas das mulheres italianas para as comunidades de imigrantes.
A mãe frequentemente se encontrava diante de uma tarefa delicada: criar os filhos em um país diferente daquele onde havia nascido.
Dentro de casa, permaneciam palavras italianas ou dialetais, receitas, costumes, histórias familiares, devoções religiosas e lembranças da terra de origem. Do lado de fora, os filhos aprendiam a língua e os hábitos da sociedade brasileira.
No Brasil, essa convivência produziu situações muito particulares. Em determinadas comunidades do Sul, por exemplo, variedades linguísticas de origem italiana permaneceram vivas por gerações. Entre elas está o talian, desenvolvido no contexto das comunidades de imigrantes italianos, especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.
A cozinha também se tornou uma espécie de arquivo familiar. Receitas trazidas da Itália foram modificadas pelos ingredientes disponíveis no Brasil e transmitidas de uma geração para outra.
A mulher desempenhou papel importante nessa transmissão cotidiana da memória.
Mas preservar não significava conservar tudo exatamente como era.
Os filhos cresciam brasileiros. Frequentavam escolas brasileiras, conviviam com outras culturas e estabeleciam novos vínculos. A identidade das famílias foi, portanto, se transformando ao longo das gerações.
A italianidade que permaneceu no Brasil não foi uma fotografia congelada da Itália do século XIX. Foi uma nova identidade, construída pelo encontro entre a herança italiana e a experiência brasileira.

Cartas que atravessavam o oceano

Antes do telefone se tornar acessível e muito antes da internet, a distância era uma realidade concreta.
As cartas eram uma das principais formas de comunicação entre os familiares separados pela imigração.
Uma família na Itália podia esperar semanas pelas notícias de um filho que estava no Brasil. Uma esposa podia receber uma carta do marido contando sobre o trabalho, a viagem, a nova moradia ou as dificuldades encontradas.
As cartas carregavam notícias, mas também carregavam sentimentos.
Havia saudade, preocupação, esperança e, muitas vezes, pedidos para que outros familiares também partissem.
As fotografias tinham papel semelhante. Um retrato enviado pelo correio podia ser uma das poucas imagens disponíveis de um familiar que vivia do outro lado do oceano.
Por isso, fotografias antigas encontradas hoje em gavetas, baús e álbuns familiares podem representar muito mais do que simples lembranças. Elas são vestígios materiais de uma época em que a distância entre a Itália e o Brasil podia significar uma separação de milhares de quilômetros e meses de espera.

As mulheres e a construção das comunidades italianas

Quando as famílias começaram a se estabelecer definitivamente no Brasil, as mulheres ajudaram a transformar grupos de imigrantes em comunidades.
A vida comunitária não se limitava ao local de trabalho ou à propriedade rural. Ela acontecia também nas casas, nas igrejas, nas festas religiosas, nas escolas, nos pequenos estabelecimentos comerciais e nas relações de vizinhança.
As mulheres estavam presentes nesses espaços e ajudavam a manter redes de parentesco, amizade e solidariedade.
Quando uma nova família chegava, muitas vezes encontrava apoio em parentes ou conhecidos que já estavam estabelecidos. Informações sobre trabalho, moradia, terras e oportunidades circulavam por essas redes.
A família italiana, portanto, não se formava isoladamente. Ela fazia parte de uma rede maior.
E essa rede ajudava a tornar possível a sobrevivência em uma sociedade desconhecida.

A mulher como guardiã da memória familiar

Há outro aspecto que merece atenção: a memória.
Em muitas famílias de origem italiana, foram as mulheres que conservaram histórias, nomes, fotografias, receitas, objetos e lembranças dos antepassados.
Uma avó podia saber o nome da aldeia de onde havia vindo o bisavô. Uma mãe podia guardar uma carta recebida décadas antes. Um antigo caderno de receitas podia conter palavras escritas em italiano ou dialeto. Uma fotografia podia registrar pessoas cujo nome já não aparecia em nenhum documento oficial.
Esses pequenos objetos, aparentemente sem importância, acabaram se tornando fontes preciosas para as gerações posteriores.
Hoje, quando descendentes de italianos procuram reconstruir suas genealogias, frequentemente encontram nesses registros familiares pistas que ajudam a localizar nomes, localidades e relações de parentesco.
A história oficial registra navios, números, leis, portos e estatísticas. A memória familiar, por sua vez, conserva aquilo que muitas vezes não aparece nos documentos: como as pessoas viveram, sentiram e enfrentaram a mudança.

Uma imigração que também foi feminina

A grande imigração italiana não pode ser compreendida apenas através dos homens que partiram.
É preciso olhar para as mulheres que permaneceram temporariamente na Itália, administraram famílias, receberam remessas e sustentaram a vida doméstica enquanto esperavam notícias.
É preciso lembrar também aquelas que atravessaram o oceano com filhos pequenos, que chegaram a portos brasileiros sem saber exatamente o que encontrariam e que precisaram reconstruir a própria vida em uma sociedade diferente.
É necessário recordar as trabalhadoras das fábricas, as agricultoras, as empregadas domésticas, as comerciantes, as costureiras, as mães e as avós.
E é preciso reconhecer também aquelas que, sem perceber, ajudaram a construir uma ponte entre gerações.
A história dessas mulheres não é uma história única. Algumas encontraram novas oportunidades; outras enfrentaram pobreza, exploração e preconceito. Algumas mantiveram durante toda a vida uma forte ligação com a Itália; outras se tornaram profundamente brasileiras. Muitas fizeram as duas coisas ao mesmo tempo.
Foi assim que nasceram tantas famílias ítalo-brasileiras.
A imigração italiana não foi apenas uma travessia marítima. Foi uma transformação da família, da identidade e da própria maneira de viver.
E nessa transformação as mulheres não foram personagens secundárias.
Elas estavam nas casas que ficaram na Itália, nas propriedades rurais do Brasil, nas fábricas das cidades, nas cozinhas, nas escolas, nas igrejas, nas fotografias, nas cartas e nas lembranças transmitidas de geração em geração.
Quando um descendente brasileiro procura hoje saber de onde vieram seus antepassados italianos, talvez esteja procurando um homem cujo nome aparece em um registro de imigração. Mas, por trás desse nome, quase sempre existe uma história maior.
Pode haver uma esposa que esperou.
Uma mãe que sustentou a família.
Uma filha que atravessou o oceano.
Uma avó que conservou uma fotografia.
Uma mulher que ensinou aos filhos algumas palavras da antiga terra.
E é justamente por isso que a história da imigração italiana precisa ser contada também no feminino.
Porque os italianos não construíram suas novas vidas sozinhos.
Ao lado deles estavam mulheres que, de diferentes maneiras, ajudaram a transformar uma viagem em permanência, uma família em comunidade e uma lembrança da Itália em parte da história do Brasil.

Nota do Autor
Ao contar a história da imigração italiana, é fácil concentrar a atenção nos homens que partiram primeiro, nos navios, nos portos, nas colônias agrícolas, nas fábricas e nos lugares onde encontraram trabalho. Mas essa perspectiva deixa de fora uma parte fundamental dessa história: as mulheres.
Nem todas viveram a imigração da mesma maneira. Algumas permaneceram na Itália durante anos enquanto maridos, pais ou filhos trabalhavam no exterior. Outras atravessaram o oceano posteriormente para reunir a família. Muitas viajaram com filhos pequenos e precisaram reconstruir sua vida em uma sociedade desconhecida. Houve também mulheres que trabalharam na agricultura, nas fábricas, no serviço doméstico, no comércio ou dentro de suas próprias casas.
Por isso, este artigo não pretende apresentar uma experiência feminina única, mas mostrar a diversidade de situações enfrentadas pelas italianas durante o grande movimento migratório dos séculos XIX e XX.
No Brasil, sua presença foi particularmente importante na formação das famílias e comunidades de imigrantes. Além do trabalho, muitas participaram da transmissão da língua, das receitas, das tradições religiosas, das histórias familiares e das lembranças da terra de origem. Foi também através dessas pequenas memórias cotidianas que parte da herança italiana atravessou gerações.
Ao recuperar essas trajetórias, procuramos lembrar que a imigração não foi feita apenas por aqueles que aparecem nos registros de embarque. Por trás de muitos nomes encontrados nos documentos existem mulheres cujas histórias permaneceram dentro das famílias, transmitidas de mãe para filha, de avó para neto.
Talvez seja justamente por isso que, quando procuramos compreender a história de nossos antepassados italianos, precisamos olhar não apenas para quem partiu, mas também para quem esperou, acompanhou, trabalhou, criou os filhos e ajudou a transformar uma nova terra em lar.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Silêncio das Mulheres que Ficaram na Emigração Italiana


 

O Silêncio das Mulheres que Ficaram na Emigração Italiana


Sob o céu baixo e mutável do Vêneto rural, onde os campos se estendiam como um tecido gasto entre vinhedos ralos e terras exaustas, ficaram elas — as mulheres que não embarcaram. Não por escolha plena, mas por cálculo, necessidade ou imposição. Quando os homens partiram, levando consigo o peso das esperanças e o pouco dinheiro reunido, deixaram para trás um mundo que não cessaria de exigir trabalho, fé e resistência.

A despedida não foi um instante, mas um processo que começou meses antes do embarque. Cada gesto cotidiano ganhava um sentido definitivo: a última poda feita em conjunto, a última refeição com todos à mesa, o último olhar trocado sob a luz fraca de uma lamparina. Não havia espaço para grandes manifestações. O silêncio já se insinuava como forma de defesa. Ele protegeria o que restava.

Depois da partida, a casa não se tornou vazia — tornou-se mais pesada. O espaço antes dividido agora recaía sobre uma só presença que precisava multiplicar-se. As mulheres assumiram as contas, os contratos informais, os pequenos acordos com vizinhos, a manutenção das terras, a educação dos filhos e o cuidado com os mais velhos. Herdaram também as dívidas, frequentemente invisíveis, que os homens deixaram para trás ao trocar a certeza da escassez pela promessa distante de abundância.

O trabalho não se restringia aos campos. Havia o tempo da espera, que consumia mais do que a fadiga física. As cartas, quando vinham, chegavam como fragmentos de outro mundo. Eram lidas, relidas e, muitas vezes, reinterpretadas à luz da esperança. As lacunas entre uma correspondência e outra eram preenchidas com suposições. O silêncio do outro lado do oceano não era apenas ausência de notícias; era um espaço fértil para o medo.

Algumas cartas falavam de terras vastas e férteis, de possibilidades que pareciam irreais à luz da realidade europeia. Outras, mais raras, traziam sinais de dificuldade, doenças, perdas. Ainda assim, quase nenhuma era completamente honesta. Havia um esforço deliberado em não desencorajar, em não admitir o fracasso. Esse filtro moldava as decisões de quem ficava. Muitas mulheres sustentaram por anos a ideia de um futuro que talvez nunca se concretizasse.

Com o passar das estações, o tempo passou a ser medido de outra forma. Não mais pelas colheitas apenas, mas pelos intervalos entre notícias. A cada inverno, a ausência parecia mais definitiva. A cada primavera, renascia a expectativa de mudança. Algumas mulheres preparavam-se para partir, reunindo lentamente recursos, organizando documentos, alimentando a possibilidade de atravessar o oceano. Outras aceitavam, ainda que sem palavras, que sua vida permaneceria enraizada ali.

A comunidade, composta por outras ausências semelhantes, reorganizou-se em torno dessas presenças femininas. Formaram-se redes de apoio silenciosas, onde o auxílio era oferecido sem formalidade e sem registro. A solidariedade não era uma escolha moral elevada; era uma necessidade prática. Em um ambiente onde quase todas compartilhavam a mesma condição, a sobrevivência dependia dessa cooperação discreta.

No entanto, nem todas resistiram da mesma forma. Houve aquelas que sucumbiram ao peso acumulado — não de maneira abrupta, mas por um desgaste contínuo. A saúde enfraquecia, a esperança se tornava mais rara, e o cotidiano passava a ser sustentado por uma disciplina quase mecânica. Outras, ao contrário, encontraram uma forma de força que não haviam conhecido antes. Tornaram-se administradoras, negociadoras, líderes informais de famílias e pequenos núcleos rurais.

A ausência masculina alterou também a percepção social dessas mulheres. Em certos casos, ganharam respeito e autonomia. Em outros, enfrentaram desconfiança, vigilância e julgamentos constantes. A linha entre a honra preservada e a suspeita era tênue e frequentemente definida por olhares alheios, não por ações concretas.

Os anos, quando acumulados, criavam uma nova realidade. Crianças cresciam sem a presença dos pais e aprendiam a reconhecê-los apenas por relatos e retratos desbotados. Algumas dessas crianças desenvolveram uma ligação mais forte com a terra europeia do que com a ideia de um Brasil distante. Outras cresceram com o desejo de reencontrar o pai, transformando o oceano em destino inevitável.

Houve reencontros, mas eles raramente corresponderam à memória construída. O tempo havia modificado rostos, vozes e expectativas. O homem que retornava ou chamava a família já não era o mesmo que partira. A mulher que esperara também havia se transformado. Entre ambos, formava-se um espaço de reconhecimento difícil, onde o passado e o presente nem sempre se alinhavam.

E houve, sobretudo, as que nunca reencontraram. Para essas, o silêncio tornou-se definitivo. Não houve confirmação clara de morte ou abandono — apenas a ausência prolongada que, com o tempo, se convertia em certeza não declarada. Ainda assim, muitas mantiveram gestos de fidelidade a um vínculo que existia mais na memória do que na realidade.

O legado dessas mulheres não foi registrado com a mesma intensidade que o dos que partiram. Não há listas completas, nem narrativas celebradas. Sua história se diluiu na continuidade da vida cotidiana, na manutenção de propriedades, na criação de filhos que carregariam adiante uma herança fragmentada.

Sem elas, porém, o projeto migratório teria sido inviável. Foram elas que sustentaram o ponto de origem enquanto o outro lado do oceano ainda era apenas promessa. Foram elas que garantiram que houvesse algo a que retornar — ou alguém que pudesse, um dia, atravessar.

O silêncio que carregaram não foi vazio. Foi uma forma de resistência. Uma linguagem sem palavras, construída na repetição dos dias, na persistência diante da incerteza e na capacidade de manter de pé um mundo que, para muitos, já havia começado a desaparecer.

E é nesse silêncio, mais do que nas travessias ou nas conquistas, que se encontra uma das partes mais profundas da história da emigração italiana.

Nota do Autor

A história da emigração italiana, sobretudo aquela que partiu das regiões do norte no final do século XIX, foi narrada, em grande parte, a partir do gesto da partida. O homem que embarca, o oceano que se impõe, a terra distante que se promete — esses são os eixos mais visíveis de uma epopeia frequentemente celebrada. No entanto, toda travessia implica uma permanência, e é nesse espaço imóvel, menos iluminado pela memória histórica, que se inscreve a experiência das mulheres que ficaram.

Nos campos do Vêneto, da Lombardia e do Trentino, a ausência masculina não representou apenas uma perda afetiva, mas uma reorganização profunda da vida social, econômica e familiar. As mulheres assumiram a condução das propriedades, a gestão dos recursos escassos, a educação dos filhos e o cuidado com os idosos. Tornaram-se, muitas vezes, o eixo silencioso que sustentava a continuidade daquilo que a emigração ameaçava dissolver.

Essa condição, embora amplamente vivida, foi pouco documentada com a mesma intensidade dedicada aos que partiram. Os registros oficiais privilegiam números, fluxos e destinos; as narrativas mais difundidas destacam conquistas, dificuldades e adaptações no Novo Mundo. Já a permanência, marcada por uma espera prolongada e por uma rotina de responsabilidades acumuladas, raramente encontrou espaço proporcional na historiografia tradicional.

As cartas, quando preservadas, oferecem vislumbres dessa realidade. Nelas, é possível perceber não apenas a troca de informações, mas a tentativa de manter vínculos diante da distância e da incerteza. Ainda assim, mesmo essas fontes são parciais. Há muito que não foi escrito, ou que se perdeu, ou que permaneceu restrito à experiência íntima de quem viveu à margem dos grandes acontecimentos.

Este texto não pretende reconstruir uma história individual específica, mas dar forma a uma condição coletiva, sustentada por indícios históricos e pela coerência das circunstâncias vividas naquele período. Trata-se de uma aproximação possível, construída a partir do que se sabe e, sobretudo, do que se pode inferir com responsabilidade histórica e sensibilidade humana.

O silêncio dessas mulheres não deve ser confundido com ausência de ação ou de relevância. Pelo contrário, foi um silêncio denso, estruturante, que permitiu a continuidade de famílias, a preservação de vínculos e, em muitos casos, a própria viabilidade do projeto migratório. Sem ele, a travessia teria sido incompleta.

Ao trazer esse silêncio para o centro da narrativa, busca-se não apenas preencher uma lacuna, mas reconhecer uma dimensão essencial da emigração italiana — aquela que não cruzou o oceano, mas que, ainda assim, sustentou tudo o que nele se projetou.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A Emigração das Mulheres Italianas na Grande Diáspora (1880–1920)


A Emigração das Mulheres Italianas na Grande Diáspora (1880–1920)


Até a I Guerra Mundial a participação das mulheres desacompanhadas na emigração italiana era ainda pequena. Entretanto, emigraram em grande número acompanhadas, quando inteiros núcleos familiares atravessavam o Atlântico para se estabelecerem definitivamente nas terras do Novo Mundo, especialmente Brasil, Argentina e Estados Unidos. 

Antes dessa onda de emigração as mulheres italianas  permaneciam em casa cuidando da educação dos filhos, cultivando os campos e administrando a propriedade. Elas dependiam inteiramente das das remessas de economias que os seus maridos enviavam, nem sempre com regularidade necessária, do exterior onde moravam e trabalhavam. 

Elas tinham uma vida muito dura, repleta de solidão, vivendo permanentemente num estado de espera silenciosa, de medo, mas, por outro lado, também de  muita coragem. Após a grande guerra aconteceu uma mudança na vida dessas mulheres, quando as casadas e solteiras passaram a viajar sozinhas. 

Andavam a trabalho nas cidades vizinhas, maiores e mais ricas da Itália, mas, também para o exterior como França e Suiça. Partiam sozinhas para trabalhar como operárias, garçonetes, babás. Procuravam trabalho como operárias nas  fábricas de tecidos, nas regiões de Piemonte e Lombardia. 

Uma vez empregadas e estabelecidas chamavam os genitores e irmãos para as cidades onde tinham encontrado emprego e aos poucos as famílias íam se radicando no lugar. 

Em poucos anos este movimento  de migração feminina, dentro da própria Itália, foi crescendo cada vez mais até se tornar muito forte. Em algumas cidades a partida de mulheres era até muito superior aquela dos homens. 

Eram mães, esposas, noivas, filhas que agora se deslocavam para se encontrarem com os homens da família que tinham emigrado algum tempo antes. Eram agricultoras e mulheres da montanha, com pouca instrução, não conhecendo quase nada  da língua e cultura dos países que as estava acolhendo. 

Entretanto, essas mulheres e filhos mudavam a vida dos seus maridos, pais, companheiros, levando para eles mais alegria e esperança. Ao mesmo tempo essas mulheres levaram com elas as tradições, o dialeto e a cultura de origem; fundamentos que ajudarão os filhos a manter um forte vínculo com a terra de partida. 

As mulheres se superam e aprendem, descobrem uma responsabilidade até então desconhecida no mundo rural em que viviam. Assumem compromissos até então desconhecidos, são elas que ficam com a importante responsabilidade de mandar os filhos à escola. 



Aprendem um novo conceito no qual os filhos não são sua propriedade, têm direitos que ultrapassam as ligações familiares. Quando os maridos ou os filhos adoecem e não podem mais trabalhar, devendo por força ficar em casa, obviamente sem receber o salário, são elas que partem em busca de algum emprego para trazer o pão para casa. 

É necessário que elas também trabalhem, partem em busca de um trabalho a fim de completar a renda do marido, um só estipêndio não basta, e assim melhorar a vida familiar. 

Quando o marido fica doente fazem as vezes de enfermeiras, atendendo o enfermo com amor e transmitindo confiança. Inúmeras vezes o marido morria ainda muito jovem deixando só a mulher e os filhos, em um país estranho, longe de parentes e do conforto da casa paterna. 

Foram elas que guardaram a cultura de origem e os seus valores: a religião, a família, o trabalho e confiança no amanhã. Foi graças a elas que a memória da emigração foi salva.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta