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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Sob o Céu do Novo Mundo, Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

 


Sob o Céu do Novo Mundo

Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

(inspirada em fatos da Grande Emigração Italiana – 1887)

O vento soprava do leste com uma força surda, arrastando sobre o porto de Gênova uma cortina de névoa que cheirava a sal e carvão. As gaivotas rodavam em círculos acima das chaminés dos vapores, confundidas entre o rumor dos apitos e o grito dos homens que descarregavam fardos. No convés inferior do vapor Speranza, misturados aos barris de vinho e aos sacos de farinha, embarcavam mais de mil e duzentas almas — famílias inteiras, viúvas, crianças, camponeses, costureiras, pedreiros, e uma jovem professora de vinte e um anos chamada Rosa Venturini, natural de um pequeno vilarejo entre as planícies úmidas do Polesine.

Rosa não sabia que aquele amanhecer de 1887 seria o último que veria na Itália. Desde a morte do pai, vítima da pelagra que devastava os camponeses pobres, a vida em casa tornara-se uma sucessão de dias vazios. A mãe vendia ovos e fiava lã para sobreviver, enquanto o irmão mais velho fora recrutado para o exército, deixando-as com um campo encharcado e uma casa que ameaçava ruir a cada cheia do Pó. A promessa do Brasil — terras férteis, salário certo, passagem gratuita — soava como um milagre.

Os jornais de Rovigo, vendidos nas feiras, anunciavam as companhias de navegação com letras gordas e promessas extravagantes. Falavam de um país onde o sol não se escondia e o trigo crescia sem pedir chuva. O governo brasileiro, diziam, buscava gente branca, laboriosa e cristã para substituir os braços negros recém-libertos. E os agentes, instalados nas praças das pequenas cidades, anotavam nomes, vendiam sonhos e recolhiam moedas para garantir uma vaga num dos vapores que partiam de Gênova, de Nápoles ou de Palermo.

Rosa, filha da filanda, formada no internato de Pádua entre as “jovens pobres e pericolanti”, não tinha nada a perder. Com o último dinheiro que restava, comprou uma pequena mala de madeira, um lenço bordado pela mãe e três saquinhos de linho com sementes de feijão e manjericão. Queria plantá-los na terra estrangeira, quando o mar terminasse.

Durante os primeiros dias, o navio avançou lento e os passageiros suportavam o balanço com uma resignação quase religiosa. O cheiro de ferrugem, suor e maresia impregnava tudo. No porão, o ar era espesso e o espaço, exíguo. As mulheres dormiam sobre tábuas cobertas por panos úmidos; as crianças tossiam. O capitão, um genovês de barba amarelada, mantinha a terceira classe trancada, e só pela manhã deixava que subissem ao convés para respirar um pouco de ar.

A travessia parecia interminável. Chovia quase todos os dias. O mar batia nas chapas de ferro como um tambor, e cada estalo fazia o navio estremecer como um corpo febril. Rosa escrevia anotações num pequeno caderno encapado com tecido azul, tentando registrar o que via e o que sentia. Falava do frio que penetrava os ossos, da comida rançosa que cheirava a mofo, dos marinheiros que vendiam pedaços de queijo escondidos, e das mães que, em desespero, trocavam as últimas moedas por um gole de água limpa.

Na terceira semana de viagem, uma mulher de Vercelli deu à luz um menino entre as caixas do porão. Ao mesmo tempo, uma criança morreu de febre. Rosa recordou a cena por toda a vida: os marinheiros costurando uma pequena mortalha de lona, o corpo leve sendo depositado sobre uma tábua e, depois, o som oco do corpo tocando a água, como uma pedra. A mãe repetia, sem lágrimas, que aquele seria o último dos seus filhos a morrer.

Speranza seguia o seu rumo, arrastando a miséria e a fé de um povo inteiro sobre o Atlântico. Lá em cima, os oficiais brindavam com vinho; lá embaixo, os emigrantes rezavam. Era uma humanidade empilhada, sem nomes, marcada por tosse, fome e esperança.

Rosa observava o mar. Não o temia mais. A imensidão parecia responder-lhe com silêncio, e naquele silêncio ela começou a compreender o que significava emigrar: não era partir de um lugar, mas deixar para trás a própria forma de existir. O que estava diante dela não era o Brasil, mas o vazio entre o que se sonha e o que se alcança.

Na noite do trigésimo sexto dia, o vento amainou e um clarão rompeu o nevoeiro. Do convés, os passageiros viram uma faixa verde ao longe. Alguns se ajoelharam, outros choraram. Era a costa do Rio de Janeiro, coberta por um véu de névoa dourada. Rosa sentiu o coração bater rápido. Pensou na mãe, na casa de barro, nas plantações do Pó e nos sinos de domingo. Em seguida, apertou contra o peito o caderno e os saquinhos de linho, como se neles repousasse o fio invisível que ainda a ligava à terra natal.

A banda do porto tocava uma marcha festiva para os senhores de fraque que esperavam no cais, enquanto as autoridades da imigração inspecionavam os recém-chegados. A bordo, o calor era sufocante, e a alegria inicial logo deu lugar à confusão. Homens gritavam ordens em português, grupos eram separados, nomes eram trocados, famílias se perdiam. O navio que prometera liberdade entregava seus passageiros a um novo cativeiro.

Seguram viagem até o porto de Santos onde Rosa foi levada com outras mulheres para uma hospedaria pública, onde passariam a noite antes de seguirem viagem para o interior. As paredes cheiravam a cal, e o chão era de pedra fria. No alto da janela, via-se apenas uma faixa estreita de céu — o primeiro céu estrangeiro da sua vida.

Naquela noite, não dormiu. O corpo doía, mas os olhos não se fechavam. Pensava no mar, nas promessas dos agentes, na terra que ainda não vira. Pensava também que talvez a esperança não estivesse no que o Brasil oferecia, mas no que ela seria capaz de construir ali.

Quando o dia clareou, uma brisa quente entrou pela janela. Rosa levantou-se, amarrou os cabelos e desamarrou os saquinhos de linho. Em um vaso de barro depositou as sementes de feijão e manjericão, molhando a terra com a água que restava no cantil. Não sabia se germinariam, mas aquele gesto — pequeno e silencioso — era tudo o que lhe restava da Itália.

Enquanto o sol subia sobre o porto, Rosa Venturini compreendeu que, para muitos, o mar havia sido apenas o caminho do exílio. Para ela, seria o divisor entre o passado e o destino

Na manhã seguinte, o pátio da hospedaria fervilhava de gente. Famílias inteiras esperavam a chamada dos nomes que seriam enviados às fazendas. Os funcionários da agência de colonização anotavam números, riscando listas com lápis úmido de suor. As vozes se misturavam num idioma que os recém-chegados ainda não compreendiam, e o medo, disfarçado de expectativa, atravessava os rostos queimados de sol e sal.

Rosa foi designada a um grupo de colonos destinado ao interior da província de São Paulo, em uma propriedade chamada Fazenda Santa Luzia, pertencente a um certo coronel Álvaro Moreira, homem conhecido pela severidade e pelas lavouras extensas de café. O trajeto até lá seria longo, feito em vagões de madeira, sob o calor que subia do chão e parecia não ter fim.

Durante a viagem, o trem cortava planícies e matas intermináveis. Pelas janelas abertas, o vento trazia o cheiro de terra quente e fumaça. Aos poucos, o mar e o passado iam ficando para trás, substituídos por uma paisagem que parecia viva e selvagem. Homens com chapéus de palha trabalhavam nas margens dos trilhos, negros recém-libertos misturavam-se aos brancos recém-chegados, e Rosa percebia, sem compreender direito, que aquele país nascera de um conflito silencioso entre servidão e esperança.

Quando enfim chegaram à fazenda, o sol estava alto e o ar cheirava a café recém-tostado. À frente da sede, homens montados os observavam, avaliando cada corpo, cada gesto. O administrador, de voz seca e olhar impaciente, leu as instruções e apontou as casas que seriam distribuídas às famílias. Eram pequenas construções de barro e madeira, dispostas em linha ao lado da mata. Rosa recebeu uma das menores, sozinha, pois era mulher solteira.

Na primeira noite, não houve descanso. Os mosquitos zuniam como lâminas, e o calor tornava o ar irrespirável. Do lado de fora, o som da mata parecia uma língua desconhecida — gritos de aves, farfalhar de folhas, o rugido distante de algum animal. Rosa acendeu uma lamparina e observou o pequeno espaço que agora lhe pertencia: uma cama de tábuas, um fogareiro de ferro, um balde com água amarelada. Era pouco, mas era dela.

Nos dias seguintes, o trabalho começou antes do nascer do sol. O campo de café se estendia em fileiras longas, e cada planta exigia capina, adubação e poda. O contrato prometia pagamento por produção, mas logo ela percebeu que o sistema era uma armadilha. O preço do quilo de café variava conforme a vontade do patrão, e o valor das ferramentas e alimentos era descontado do salário antes mesmo de ser recebido. Muitos colonos endividavam-se antes do fim do primeiro mês.

Rosa não reclamava. Aprendera desde menina que a resignação também era uma forma de resistência. Guardava as forças para o fim da tarde, quando o sol se escondia e o silêncio caía sobre as plantações. Nesses momentos, ela voltava à casa, lavava o rosto com a água morna do balde e regava os vasinhos de barro que havia trazido da Itália. As sementes germinaram. Pequenos brotos verdes despontaram, frágeis, mas determinados. Aqueles fios de vida tornaram-se sua companhia e sua fé.

As estações se sucederam lentamente. A colônia crescia em volta da fazenda: homens erguiam capelas, mulheres ensinavam as crianças a ler com livros que restaram das malas. O idioma se misturava — português, vêneto, lombardo, piemontês — formando uma língua nova, feita de sons duros e ternos. Às vezes, Rosa escrevia cartas para a mãe, que ainda vivia no Polesine. Não falava das dívidas nem das dores. Contava apenas das árvores imensas, do céu sem fim e das noites em que as estrelas pareciam cair sobre a terra.

No quinto ano, o Brasil já lhe parecia menos hostil. Aprendera a lidar com o clima, a força do trabalho e o ritmo da colheita. Em cada saco de café que carregava, sentia o peso da promessa que a trouxera até ali — e a dívida silenciosa que carregava com todos os que haviam morrido no caminho.

Quando o coronel Moreira morreu, a fazenda foi dividida entre os herdeiros, e parte das terras foi vendida a colonos. Rosa comprou um pequeno lote, com o dinheiro guardado em anos de sacrifício. Na encosta do terreno, plantou as primeiras fileiras de café por conta própria, ao lado dos pés de feijão e das ervas que haviam nascido dos vasinhos trazidos do navio.

Com o tempo, sua casa tornou-se ponto de passagem para os novos imigrantes que chegavam em busca de orientação. Muitos a chamavam de dona Rosa da Esperança. Ela acolhia os que vinham famintos, dividia o pão, emprestava sementes e contava a mesma história de sempre: a travessia, o navio, o mar e o primeiro dia em terra estrangeira.

Nunca mais voltou à Itália. As cartas que enviava cessaram quando soube que a mãe havia morrido, sozinha, numa casa fria de inverno. Rosa guardou a última resposta recebida dentro do caderno azul, agora amarelado e manchado de café.

Nos últimos anos de vida, quando o corpo já não obedecia, ela costumava sentar-se sob a sombra das árvores e observar as plantações que cobriam o horizonte. Ali, compreendeu que o destino dos emigrantes era o mesmo das sementes que lançara na terra: nascer em lugar estranho, resistir às tempestades e florescer, mesmo quando o solo parecia não acolher.

Quando Rosa Venturini morreu, numa manhã de verão, ninguém soube ao certo sua idade. Diziam que partira em paz, com as mãos ainda sujas de terra e o rosto voltado para o nascente. No quintal, os pés de manjericão que trouxera da Itália continuavam a crescer, exalando um perfume doce que se misturava ao aroma forte do café.

E assim, sob o céu imenso do novo mundo, cumpria-se mais uma história de esperança e exílio — uma entre tantas que fizeram da miséria um ato de coragem e do desterro, uma forma silenciosa de eternidade. 

Nota do Autor

Esta obra nasceu do silêncio de um caderno de capa azul. Entre suas páginas amareladas repousavam fragmentos de uma vida: cartas dobradas com cuidado, anotações de viagem, orações em italiano antigo, e uma flor seca, guardada como se fosse a última lembrança de um tempo que não volta. O caderno pertenceu a uma mulher que cruzou o oceano em 1887, deixando para trás uma Itália devastada pela fome, pela pobreza e pela desesperança. Viveu o restante de seus dias no interior do Brasil, onde a terra nova exigia o mesmo que o mar havia exigido: coragem e fé.

Os nomes que aparecem nesta narrativa — Rosa Venturini, Fazenda Santa Luzia, Coronel Álvaro Moreira — são fictícios. Foram alterados para proteger a identidade dos verdadeiros personagens e para permitir que o enredo respirasse com liberdade literária. Mas a história é autêntica.

Cada detalhe foi reconstruído com base nas cartas originais que a protagonista guardou em seu caderno, escritas entre 1887 e 1924, hoje custodiadas no Museu Histórico da cidade onde ela viveu e morreu. A emoção contida nestas páginas não é invenção. Está presente nas palavras que ela escreveu com a caligrafia firme de quem aprendeu a ler na pobreza e a sonhar na adversidade. São linhas simples, mas nelas cabem todas as dores e esperanças de uma geração que deixou o velho continente em busca de um pedaço de chão no novo mundo. Rosa — ou como quer que se chamasse de fato — representa milhares de italianos anônimos que cruzaram o Atlântico com a alma carregada de saudade e fé.

Ao reconstituir sua jornada, tentei não apenas contar uma história, mas ouvir o eco de tantas vozes que o tempo quase apagou. Que este livro sirva de tributo aos que vieram antes de nós — e que, ao pisar uma terra estranha, fizeram dela o próprio lar.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Emigrassion Italiana Un Fenómeno de Grandi Proporsioni


 

Emigrassion Italiana Un Fenómeno de Grandi Proporsioni


Tra el 1876 e el 1900, se verificò un dei pì grandi esódi conosù. La ze stada la grande emigrassion in masa dei italiani, quande pì de sinque milioni de òmeni, done e puteleti i ga lassà la pàtria in serca de un laoro e de na vita pì dignitosa par le so famèie.
In quel tempo el destino de sta multitùdine de italiani la zera orientà par el Brasile, Argentina e Stati Uniti. Certi altri paesi i ga rissevesto anca lori, ma in nùmaro molto inferior.
Fin a quei ani, in Itàlia se conosea già da tempo l’emigrassion stagionale, con lavoradori che i ndava via a pié par paesi visini con l’inverno, par poi tornar a casa. Ghe zera anca l’emigrasson ‘golondrina’ dei contadini, che i se trasferiva par pòchi mesi a paesi lontani, come l’Argentina, par la stagion de la racolta, par poi tornar a casa con i risparmi. Sto tipo de emigrassion no zera definitiva: lori i tornava apena podesi, e magari lori i comprava un tereno o inissiava un novo laoro in so paese.
Ze importante ricordarse de l’emigrassion dei bàlie, come el caso de le done de la provìnssia de Belun che i se disperdeva par tuta l´Itàlia e anca ´ntei paesi vissini, come in Austria, a servir le famèie riche par alatar i lori fiòi.
La carateristica comun de tuto sto tipo de emigrasszion la ze sempre stà la so temporaneità: finìo el contrato, tuti lori i tornava a casa con i so risparmi. Al inìsio del’emigrassion de masa, lori i partiva soli, scomensiando con i òmini; e dopo tanti ani, dopo aver se sistemà mèio, lori i ga ciamà la famèia. I scàpoli lori ga ciamà par farse trovar una dona in so paese natale. Le done se sposava per procura e lore i partiva par incontrar e conosser i so mari, lontani.
I primi a partir par no tornar indrio lori vivea ´nte le zone più póvare, con la fame ormai intolerabile. I primi a partir i ze stà sopratuto quei che i viveva su le montagne vénete e ´nte le tere poare del meridione italiano. In Véneto, la ancora ressente anessassion al Regno d’Itàlia la ga agravà la situassion dei contadini. L’unificassion d’Itàlia la ze costà caro ai pì pòvari e sbandonà. La desnutrission la zera largamente difusa in tuto el regno, e nel nord ghe zera anca la pelagra, na malatia grave per la misèria de una dieta a base solo de poenta, senza proteine.
Tra el 1900 e el 1914, se stimò che l’emigrassion italiana tocase le seicento mile persone a l’ano, con famèie intiere che partiva par no tornar pì. Con l’inissio dela Prima Guera Mondiale, sto fenómemo se redusse, fino a novanta mile persone a l’ano tra il 1915 e il 1918. Passà sta fase, l'emigrassion la riprende de novo par aumentàr.
Tra el 1921 e el 1924 i Stati Uniti el ga istituito le quote par ogni paese d’emigrassion, e dopo la crise del 1928, in quel gran paese, l’emigrassion zeva quasi fermà. Anca el Brasile ga instituì restrisioni: i analfabeti no i zera pì benvegnù, e lori sercava operài e lavoradori par la sità e l’indùstria.
Durante el perìodo fascista, l’emigrassion la ga tegnudo un altro corso. Anche con la polìtica contro l’emigrassion, in Itàlia continuava a partir una mèdia de cento novanta mile italiani a l’ano. De sti ani ze anca nota l’emigrassion ‘guidà’ o ‘dirigesta’, con lavoradori selesionà, a i pì fedeli sostegnitori del regime mandà in Amèrica Latina, incluso el Brasile, in comunità con forte presenssa italiana.
El goerno italiano favoriva sto movimento par mandar in Brasile na popolassion de professionisti, operatori e artisiani, formadi par creare le basi del fascismo in loco. Ntele colónie italiane del Rio Grande do Sul e in tante altre sità, i fasci italiani i zera ben radicai e conteava con un grande nùmaro de sostenitori.
Sto fenómeno el ze vegnù fora anca a San Paolo e in altri stati co forte presenssa italiana come a Santa Catarina. In quel època i era comum véder eventi, desfiles, e incontri par date patriote italiane, con la zente vestì in uniformi neri in omagio a Mussolini. Se vedea anca putéi vestì con l´uniforme negro e bereti neri, ciamai i balila.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Os Emigrantes Italianos

 




Em um tempo não tão distante assim, os italianos eram iguais aos atuais imigrantes do leste europeu ou aqueles dos países localizados abaixo do deserto do Saara, que, aos milhares, chegam todos os anos às praias da Itália ou de outros países da Europa.

No arco de um século, entre os últimos 25 anos do século XIX, aproximadamente de 1875 e 1975, um verdadeiro êxodo de quase 30 milhões milhões de italianos fugiram de um país apenas unificado alguns anos antes, de uma Itália com graves problemas socioeconômicos, para escapar da fome, da pobreza e do desemprego. 

O mercado mundial de trabalho frequentemente está mudando de lado e as pessoas procuram fugir de seus países quando neles já não existe mais perspectivas de futuro.

O mítico Brasil, um tempo sinônimo de América, era uma das metas sonhadas pelos emigrantes pioneiros, mas também se zarpava aos milhares para a Argentina e Estados Unidos. Esses foram os três principais destinos escolhidos por aqueles que partiam entre 1875 e 1914. 

Em diversos outros períodos da história da grande migração, os países europeus, mais ricos e desenvolvidos, também exerceram forte atração para o quase sempre pobre e analfabeto emigrante italiano que pretendia deixar o país. 

Milhões deles encontraram trabalho principalmente na França, Alemanha, Bélgica e, em muito menor número, em alguns países do leste europeu chegando até a Romênia.

Os italianos devem sempre ter em mente que houve um tempo em que eles eram os imigrantes indesejados. Pobres, maltrapilhos, sujos e analfabetos invadiam países já mais ricos e com costumes mais refinados.

Milhares desses emigrantes italianos sentiram na própria pele o que é o racismo e a indiferença das pessoas nativas, nas cidades onde se instalavam, principalmente em alguns países da Europa e nos Estados Unidos.





segunda-feira, 22 de agosto de 2022

A Emigração Italiana e Preconceitos

Bairro italiano em New York

 

À partir de 1861 uma verdadeira multidão de italianos, do norte ao sul do país, calculada em aproximadamente 30 milhões de pessoas: homens, mulheres e crianças, deixaram suas vilas e pequenas cidades, transladando-se para o exterior, em busca de uma vida melhor.

Os detratores desse grande movimento migratório, geralmente, em artigos da imprensa que refletiam o pensamento dos grandes empresários e proprietários de terras, que viam a até então farta mão de obra, obediente e barata, escassear, diziam que essas pessoas que abandonavam a Itália eram indivíduos gananciosos que estavam deixando o país em busca da "cucagna", aventurando-se além mar em terras do Novo Mundo.

Entretanto, na realidade, essa "cucagna" que buscavam nada mais era que um trabalho digno  que pudesse garantir um prato de comida e um futuro melhor.

No exterior, esses pobres emigrantes quase sempre, eram recebidos com  reservas e preconceitos pelas populações locais, que viam esses novos recém chegados como competidores desleais nos diversos postos de trabalho



A situação econômica cada vez pior e o aumento da convulsão social no novo país criado, agravada pelos anos conturbados para a unificação, foi o estopim que faltava para desencadear o grande êxodo. 

A emigração começou pelos pequenos agricultores e artesãos do norte da Itália, para destinos tão distantes como o Brasil, Argentina e Estados Unidos. 

Os primeiros contingentes de emigrantes eram formados por inteiras, predominantemente do Vêneto e da Lombardia,  que emigravam definitivamente para as recém criadas colônias italianas do sul do Brasil, onde o governo imperial brasileiro iniciava um vasto programa de ocupação da terra e de colonização ou, também,  para as grandes plantações de café dos estados de São Paulo e Espírito Santo, em substituição da mão de obra escrava, liberta alguns anos antes.

Esses primeiros contigentes de emigrantes italianos destinados ao Brasil, tiveram a sua viagem subsidiada pelo governo ou pelos grandes proprietários rurais, interessados naquela mão de obra.  

Aqueles que saíam das regiões centro norte no início embarcavam no porto de Gênova e aqueles das províncias do sul italiano pelo porto de Nápoles. 

A quase totalidade dos emigrantes eram colocados nas acomodações de terceira classe, mal acomodados nos porões dos navios, em situação bastante precárias de conforto e higiene. Nos primeiros anos da grande emigração, esses navios, alguns deles verdadeiras sucatas, com suas estivas recém  adaptadas para transportar pessoas, não possuíam instalações sanitárias ou mesmo água corrente para os passageiros. Baldes de madeira com tampa, colocados nas extremidades das longas filas de beliches, era tudo que existia para os emigrantes satisfazerem as suas necessidades, durante toda a travessia, que poderia durar mais que um mês de viagem.

Muitos deles não tiveram oportunidade de conhecer o Novo Mundo, morrendo por epidemias  que frequentemente surgiam a bordo. Outros deles, e não foram poucos, uma vez alcançado o tão sonhado destino, não puderam desembarcar e tiveram que retornar ao porto de origem. Graves epidemias surgidas a bordo, ocasionando inúmeras mortes, principalmente pelo cólera, fizeram com que as autoridades sanitárias do porto não dessem o aval para o desembarque. 

Nem mesmo os membros das tripulações tinham ordem para desembarcar e o navio só podia ancorar fora do porto, alguns quilômetros em alto mar, para reabastecimento de água, víveres e carvão. 

Esses navios,  com toda a sua carga de infelizes emigrantes, tiveram que empreender a viagem de retorno, para o mesmo porto na Itália de onde tinham saído. Como as epidemias demoravam para serem vencidas, muitas outras mortes ocorreriam nessas viagens de retorno.

Nos Estados Unidos, a conquista de um lugar na nova pátria foi ainda mais complicado que nos países da América do Sul. O trabalho também era muito árduo e a competição bastante severa. 

As constantes perseguições sofridas pelos imigrantes italianos, por preconceito racial e medo da concorrência, por parte dos americanos e de imigrantes de outras nacionalidades, fizeram com que passassem a morar em guetos, ou bairros de italianos e  frequentar escolas paroquiais, retardando a disseminação do inglês nessas comunidades. 

Os americanos, no auge do preconceito diziam que "os italianos não eram brancos, nem descaradamente negros".  Eram considerados por muitos, uma raça inferior "uma linhagem de assassinos, anarquistas e mafiosos". Esse preconceito dos americanos para com os italianos perdurou praticamente até os anos da segunda guerra mundial. 




Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS


    




quarta-feira, 4 de abril de 2018

Emigração Italiana Um Fenômeno de Grandes Proporções


Entre os anos de 1876 e 1900 aconteceu um dos maiores êxodos conhecidos. Era a grande emigração em massa dos italianos, quando então mais de cinco milhões de homens, mulheres e crianças, deixaram o país em busca de trabalho e de uma vida mais digna para as suas famílias.
Nessa época o destino dessa grande massa de italianos estava orientada para o Brasil, Argentina, Estados Unidos. Alguns outros países também receberam esses emigrantes mas em bem menor número. 


Até então a Itália a já conhecia a emigração sazonal, onde milhares de trabalhadores emigravam, geralmente, para países vizinhos aproveitando a época de inverno. Também existia a emigração “golondrina” de agricultores que se dirigiam para países mais distantes, como a Argentina, para o período de colheita naqueles países, mas depois retornavam. Geralmente não era uma emigração em definitivo, o emigrante assim que podia voltava para casa e talvez se comprasse um terreno ou iniciava uma atividade como artesão.
Lembramos também da emigração das amas de leite, as balias, como as mulheres da província vêneta de Beluno, que se espalhavam por toda a Itália e na Áustria, servindo as famílias ricas e nobres que as contratavam para amamentarem seus filhos.
A característica comum de todas essas emigrações, até então conhecidas, era que terminado o período do contrato, todos retornavam para as suas casas na Itália trazendo consigo as economias que tinham conseguido. 



No inicio da emigração de massa os que emigravam partiam sozinhos, geralmente os homens e depois de muito tempo, chamavam a família ou ainda, se solteiros, escreviam aos seus parentes para escolherem uma mulher para eles. A mulheres casavam por procuração e partiam para encontrar, e conhecer, os seus maridos no exterior.
Os primeiros à emigrar em definitivo foram aqueles que viviam nas zonas em que os problemas sociais eram maiores e onde a fome já tinha se tornado insuportável. Eram especialmente emigrantes das montanhas vênetas e do sul da Itália. No norte a recente anexação do Vêneto pelo Reino da Itália agravou ainda mais a situação para os pequenos agricultores, que até então se mantinha em relativo controle. O preço pela unificação da Itália foi pago pelos mais pobres e desprotegidos da sociedade italiana. A desnutrição estava difundida no sul do país e no norte grassava a pelagra, uma grave doença originada pela má alimentação, exclusivamente à base do milho e ausência de proteínas. 




Do ano de 1900 até 1914 a emigração italiana foi estimada em seiscentos mil pessoas ao ano. Já não emigravam somente os trabalhadores, mas, inteiras famílias, para não mais retornarem.
Ao estourar a I Guerra Mundial o movimento emigratório se reduziu, sendo que de 1915 a 1918 era de noventa mil ao ano. Passado esse período a emigração deu novamente um salto elevando substancialmente o número de emigrantes ao ano.
Nos anos 1921 e em 1924 surgiram leis nos Estados Unidos que fixavam quotas para cada país de emigração e depois da crise de 1928 neste país a emigração cessou. No Brasil também surgiram leis que procuravam evitar a emigração indiscriminada. Os analfabetos não eram mais bem vindos e se procurava trabalhadores qualificados que favoreceram a emigração urbana e industrial.
Durante o período fascista a emigração tomou um rumo bem diverso, apesar da política contra a emigração, ainda partiam da Itália cento e noventa mil emigrantes ao ano. Nesse período também aconteceu a denominada emigração guiada, ou dirigida, onde pessoas escolhidas, sempre entre as mais fervorosas simpatizantes do regime, eram enviadas para países da América do Sul, inclusive o Brasil, para regiões onde a presença italiana era grande. A política foi de facilitar a vinda desses novos emigrantes italianos, que tinham em comum um novo perfil, geralmente profissionais liberais, comerciantes e operários qualificados. Foram enviados pelo governo italiano para implantarem aqui no Brasil células fascistas, os conhecidos fascios, criando assim condições locais para o crescimento do fascismo. Nas zonas coloniais italianas do Rio Grande do Sul, em quase todas as cidades, essas células fascistas prosperaram bastante e chegaram a contar com um grande número de adeptos.
Este fenômeno também surgiu em São Paulo e em outros estados onde os italianos tinham se instalado. Era comum acontecerem encontros, festividades e desfiles, em datas cívicas italianas, desses partidários de Mussolini, endossando o tradicional uniforme de cor negra. Também era possível encontrar nesses locais as festividades e desfiles com crianças vestidas com o tradicional uniforme negro, com uma espécie de boina da mesma cor na cabeça, eram os chamados balillas.  
A II Grande Guerra, em 1939 colocou um fim na emigração italiana em massa.



Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Erechim RS