segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Sob o Céu do Novo Mundo: Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

 


Sob o Céu do Novo Mundo

Rosa Venturini, o Navio Speranza e a Emigração Italiana de 1887

(inspirada em fatos da Grande Emigração Italiana – 1887)

O vento soprava do leste com uma força surda, arrastando sobre o porto de Gênova uma cortina de névoa que cheirava a sal e carvão. As gaivotas rodavam em círculos acima das chaminés dos vapores, confundidas entre o rumor dos apitos e o grito dos homens que descarregavam fardos. No convés inferior do vapor Speranza, misturados aos barris de vinho e aos sacos de farinha, embarcavam mais de mil e duzentas almas — famílias inteiras, viúvas, crianças, camponeses, costureiras, pedreiros, e uma jovem professora de vinte e um anos chamada Rosa Venturini, natural de um pequeno vilarejo entre as planícies úmidas do Polesine.

Rosa não sabia que aquele amanhecer de 1887 seria o último que veria na Itália. Desde a morte do pai, vítima da pelagra que devastava os camponeses pobres, a vida em casa tornara-se uma sucessão de dias vazios. A mãe vendia ovos e fiava lã para sobreviver, enquanto o irmão mais velho fora recrutado para o exército, deixando-as com um campo encharcado e uma casa que ameaçava ruir a cada cheia do Pó. A promessa do Brasil — terras férteis, salário certo, passagem gratuita — soava como um milagre.

Os jornais de Rovigo, vendidos nas feiras, anunciavam as companhias de navegação com letras gordas e promessas extravagantes. Falavam de um país onde o sol não se escondia e o trigo crescia sem pedir chuva. O governo brasileiro, diziam, buscava gente branca, laboriosa e cristã para substituir os braços negros recém-libertos. E os agentes, instalados nas praças das pequenas cidades, anotavam nomes, vendiam sonhos e recolhiam moedas para garantir uma vaga num dos vapores que partiam de Gênova, de Nápoles ou de Palermo.

Rosa, filha da filanda, formada no internato de Pádua entre as “jovens pobres e pericolanti”, não tinha nada a perder. Com o último dinheiro que restava, comprou uma pequena mala de madeira, um lenço bordado pela mãe e três saquinhos de linho com sementes de feijão e manjericão. Queria plantá-los na terra estrangeira, quando o mar terminasse.

Durante os primeiros dias, o navio avançou lento e os passageiros suportavam o balanço com uma resignação quase religiosa. O cheiro de ferrugem, suor e maresia impregnava tudo. No porão, o ar era espesso e o espaço, exíguo. As mulheres dormiam sobre tábuas cobertas por panos úmidos; as crianças tossiam. O capitão, um genovês de barba amarelada, mantinha a terceira classe trancada, e só pela manhã deixava que subissem ao convés para respirar um pouco de ar.

A travessia parecia interminável. Chovia quase todos os dias. O mar batia nas chapas de ferro como um tambor, e cada estalo fazia o navio estremecer como um corpo febril. Rosa escrevia anotações num pequeno caderno encapado com tecido azul, tentando registrar o que via e o que sentia. Falava do frio que penetrava os ossos, da comida rançosa que cheirava a mofo, dos marinheiros que vendiam pedaços de queijo escondidos, e das mães que, em desespero, trocavam as últimas moedas por um gole de água limpa.

Na terceira semana de viagem, uma mulher de Vercelli deu à luz um menino entre as caixas do porão. Ao mesmo tempo, uma criança morreu de febre. Rosa recordou a cena por toda a vida: os marinheiros costurando uma pequena mortalha de lona, o corpo leve sendo depositado sobre uma tábua e, depois, o som oco do corpo tocando a água, como uma pedra. A mãe repetia, sem lágrimas, que aquele seria o último dos seus filhos a morrer.

Speranza seguia o seu rumo, arrastando a miséria e a fé de um povo inteiro sobre o Atlântico. Lá em cima, os oficiais brindavam com vinho; lá embaixo, os emigrantes rezavam. Era uma humanidade empilhada, sem nomes, marcada por tosse, fome e esperança.

Rosa observava o mar. Não o temia mais. A imensidão parecia responder-lhe com silêncio, e naquele silêncio ela começou a compreender o que significava emigrar: não era partir de um lugar, mas deixar para trás a própria forma de existir. O que estava diante dela não era o Brasil, mas o vazio entre o que se sonha e o que se alcança.

Na noite do trigésimo sexto dia, o vento amainou e um clarão rompeu o nevoeiro. Do convés, os passageiros viram uma faixa verde ao longe. Alguns se ajoelharam, outros choraram. Era a costa do Rio de Janeiro, coberta por um véu de névoa dourada. Rosa sentiu o coração bater rápido. Pensou na mãe, na casa de barro, nas plantações do Pó e nos sinos de domingo. Em seguida, apertou contra o peito o caderno e os saquinhos de linho, como se neles repousasse o fio invisível que ainda a ligava à terra natal.

A banda do porto tocava uma marcha festiva para os senhores de fraque que esperavam no cais, enquanto as autoridades da imigração inspecionavam os recém-chegados. A bordo, o calor era sufocante, e a alegria inicial logo deu lugar à confusão. Homens gritavam ordens em português, grupos eram separados, nomes eram trocados, famílias se perdiam. O navio que prometera liberdade entregava seus passageiros a um novo cativeiro.

Seguram viagem até o porto de Santos onde Rosa foi levada com outras mulheres para uma hospedaria pública, onde passariam a noite antes de seguirem viagem para o interior. As paredes cheiravam a cal, e o chão era de pedra fria. No alto da janela, via-se apenas uma faixa estreita de céu — o primeiro céu estrangeiro da sua vida.

Naquela noite, não dormiu. O corpo doía, mas os olhos não se fechavam. Pensava no mar, nas promessas dos agentes, na terra que ainda não vira. Pensava também que talvez a esperança não estivesse no que o Brasil oferecia, mas no que ela seria capaz de construir ali.

Quando o dia clareou, uma brisa quente entrou pela janela. Rosa levantou-se, amarrou os cabelos e desamarrou os saquinhos de linho. Em um vaso de barro depositou as sementes de feijão e manjericão, molhando a terra com a água que restava no cantil. Não sabia se germinariam, mas aquele gesto — pequeno e silencioso — era tudo o que lhe restava da Itália.

Enquanto o sol subia sobre o porto, Rosa Venturini compreendeu que, para muitos, o mar havia sido apenas o caminho do exílio. Para ela, seria o divisor entre o passado e o destino

Na manhã seguinte, o pátio da hospedaria fervilhava de gente. Famílias inteiras esperavam a chamada dos nomes que seriam enviados às fazendas. Os funcionários da agência de colonização anotavam números, riscando listas com lápis úmido de suor. As vozes se misturavam num idioma que os recém-chegados ainda não compreendiam, e o medo, disfarçado de expectativa, atravessava os rostos queimados de sol e sal.

Rosa foi designada a um grupo de colonos destinado ao interior da província de São Paulo, em uma propriedade chamada Fazenda Santa Luzia, pertencente a um certo coronel Álvaro Moreira, homem conhecido pela severidade e pelas lavouras extensas de café. O trajeto até lá seria longo, feito em vagões de madeira, sob o calor que subia do chão e parecia não ter fim.

Durante a viagem, o trem cortava planícies e matas intermináveis. Pelas janelas abertas, o vento trazia o cheiro de terra quente e fumaça. Aos poucos, o mar e o passado iam ficando para trás, substituídos por uma paisagem que parecia viva e selvagem. Homens com chapéus de palha trabalhavam nas margens dos trilhos, negros recém-libertos misturavam-se aos brancos recém-chegados, e Rosa percebia, sem compreender direito, que aquele país nascera de um conflito silencioso entre servidão e esperança.

Quando enfim chegaram à fazenda, o sol estava alto e o ar cheirava a café recém-tostado. À frente da sede, homens montados os observavam, avaliando cada corpo, cada gesto. O administrador, de voz seca e olhar impaciente, leu as instruções e apontou as casas que seriam distribuídas às famílias. Eram pequenas construções de barro e madeira, dispostas em linha ao lado da mata. Rosa recebeu uma das menores, sozinha, pois era mulher solteira.

Na primeira noite, não houve descanso. Os mosquitos zuniam como lâminas, e o calor tornava o ar irrespirável. Do lado de fora, o som da mata parecia uma língua desconhecida — gritos de aves, farfalhar de folhas, o rugido distante de algum animal. Rosa acendeu uma lamparina e observou o pequeno espaço que agora lhe pertencia: uma cama de tábuas, um fogareiro de ferro, um balde com água amarelada. Era pouco, mas era dela.

Nos dias seguintes, o trabalho começou antes do nascer do sol. O campo de café se estendia em fileiras longas, e cada planta exigia capina, adubação e poda. O contrato prometia pagamento por produção, mas logo ela percebeu que o sistema era uma armadilha. O preço do quilo de café variava conforme a vontade do patrão, e o valor das ferramentas e alimentos era descontado do salário antes mesmo de ser recebido. Muitos colonos endividavam-se antes do fim do primeiro mês.

Rosa não reclamava. Aprendera desde menina que a resignação também era uma forma de resistência. Guardava as forças para o fim da tarde, quando o sol se escondia e o silêncio caía sobre as plantações. Nesses momentos, ela voltava à casa, lavava o rosto com a água morna do balde e regava os vasinhos de barro que havia trazido da Itália. As sementes germinaram. Pequenos brotos verdes despontaram, frágeis, mas determinados. Aqueles fios de vida tornaram-se sua companhia e sua fé.

As estações se sucederam lentamente. A colônia crescia em volta da fazenda: homens erguiam capelas, mulheres ensinavam as crianças a ler com livros que restaram das malas. O idioma se misturava — português, vêneto, lombardo, piemontês — formando uma língua nova, feita de sons duros e ternos. Às vezes, Rosa escrevia cartas para a mãe, que ainda vivia no Polesine. Não falava das dívidas nem das dores. Contava apenas das árvores imensas, do céu sem fim e das noites em que as estrelas pareciam cair sobre a terra.

No quinto ano, o Brasil já lhe parecia menos hostil. Aprendera a lidar com o clima, a força do trabalho e o ritmo da colheita. Em cada saco de café que carregava, sentia o peso da promessa que a trouxera até ali — e a dívida silenciosa que carregava com todos os que haviam morrido no caminho.

Quando o coronel Moreira morreu, a fazenda foi dividida entre os herdeiros, e parte das terras foi vendida a colonos. Rosa comprou um pequeno lote, com o dinheiro guardado em anos de sacrifício. Na encosta do terreno, plantou as primeiras fileiras de café por conta própria, ao lado dos pés de feijão e das ervas que haviam nascido dos vasinhos trazidos do navio.

Com o tempo, sua casa tornou-se ponto de passagem para os novos imigrantes que chegavam em busca de orientação. Muitos a chamavam de dona Rosa da Esperança. Ela acolhia os que vinham famintos, dividia o pão, emprestava sementes e contava a mesma história de sempre: a travessia, o navio, o mar e o primeiro dia em terra estrangeira.

Nunca mais voltou à Itália. As cartas que enviava cessaram quando soube que a mãe havia morrido, sozinha, numa casa fria de inverno. Rosa guardou a última resposta recebida dentro do caderno azul, agora amarelado e manchado de café.

Nos últimos anos de vida, quando o corpo já não obedecia, ela costumava sentar-se sob a sombra das árvores e observar as plantações que cobriam o horizonte. Ali, compreendeu que o destino dos emigrantes era o mesmo das sementes que lançara na terra: nascer em lugar estranho, resistir às tempestades e florescer, mesmo quando o solo parecia não acolher.

Quando Rosa Venturini morreu, numa manhã de verão, ninguém soube ao certo sua idade. Diziam que partira em paz, com as mãos ainda sujas de terra e o rosto voltado para o nascente. No quintal, os pés de manjericão que trouxera da Itália continuavam a crescer, exalando um perfume doce que se misturava ao aroma forte do café.

E assim, sob o céu imenso do novo mundo, cumpria-se mais uma história de esperança e exílio — uma entre tantas que fizeram da miséria um ato de coragem e do desterro, uma forma silenciosa de eternidade. 

Nota do Autor

Esta obra nasceu do silêncio de um caderno de capa azul. Entre suas páginas amareladas repousavam fragmentos de uma vida: cartas dobradas com cuidado, anotações de viagem, orações em italiano antigo, e uma flor seca, guardada como se fosse a última lembrança de um tempo que não volta. O caderno pertenceu a uma mulher que cruzou o oceano em 1887, deixando para trás uma Itália devastada pela fome, pela pobreza e pela desesperança. Viveu o restante de seus dias no interior do Brasil, onde a terra nova exigia o mesmo que o mar havia exigido: coragem e fé.

Os nomes que aparecem nesta narrativa — Rosa Venturini, Fazenda Santa Luzia, Coronel Álvaro Moreira — são fictícios. Foram alterados para proteger a identidade dos verdadeiros personagens e para permitir que o enredo respirasse com liberdade literária. Mas a história é autêntica.

Cada detalhe foi reconstruído com base nas cartas originais que a protagonista guardou em seu caderno, escritas entre 1887 e 1924, hoje custodiadas no Museu Histórico da cidade onde ela viveu e morreu. A emoção contida nestas páginas não é invenção. Está presente nas palavras que ela escreveu com a caligrafia firme de quem aprendeu a ler na pobreza e a sonhar na adversidade. São linhas simples, mas nelas cabem todas as dores e esperanças de uma geração que deixou o velho continente em busca de um pedaço de chão no novo mundo. Rosa — ou como quer que se chamasse de fato — representa milhares de italianos anônimos que cruzaram o Atlântico com a alma carregada de saudade e fé.

Ao reconstituir sua jornada, tentei não apenas contar uma história, mas ouvir o eco de tantas vozes que o tempo quase apagou. Que este livro sirva de tributo aos que vieram antes de nós — e que, ao pisar uma terra estranha, fizeram dela o próprio lar.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



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